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Cuide de seus pais

Eu fico impressionada com a quantidade de planejamento que é feito para a chegada de um bebê. Quer dizer, aquela pessoinha é menor que um antebraço, caberia tranquilamente numa caixa de sapato, e movimenta mundos e fundos antes mesmo de sua estreia. Pelo novo rebento a gente monta quartos, visita médicos, compra pencas de modelitos que vão durar 6 meses, e estoca uma quantidade de fraldas capaz de drenar um tsunami. Nós tapamos todas as tomadas da casa, cercamos piscinas, protegemos quinas de móveis. E se pudesse, enrolava a criança em plástico bolha.

Entretanto hoje, eu já cheguei na idade em que alguns dos papeis mudaram. Quem se preocupa e pega no pé sobre comportamento sou eu. “Pai, larga isso, é pesado demais para as tuas costas”, “Quando tu vai começar a planejar tua aposentadoria?”, “Calma, eu te ajudo com o computador”. Meu pai é aquele cara que nunca vai se admitir idoso, nem perante a lei. Ele se nega a pegar a fila preferencial em qualquer circunstância, porque tem medo de que isso o torne de alguma forma, menos capaz. Acho que ele preferiria partir dessa para uma melhor, antes de sentir-se improdutivo. Ele é impaciente com a tecnologia, porque não admite não “dar conta” das novidades. Lúcido e criativo, tem a energia e pretensão de alguém convicto de que vai viver para sempre.

Com a minha mãe não é muito diferente. Por ser mais nova que meu pai, ou talvez por ter filhos pequenos, ela não tem nenhum plano de se aquietar tão cedo. Pensa em empreender, em trocar de emprego, de cidade. E depois de muito tempo na berlinda dela, é de mim que ela ouve orientações e cobranças. “Ligou o alarme da casa?”, “Já foi arrumar teu carro?”, “deixa que eu leio, tu estás sem óculos”. Eu preciso lembra-la de cuidar de si mesma, afinal ela está sempre ocupada cuidando dos outros. “Mas é que eu sou mãe, minha filha”, ela responde justificando as suas prioridades, e a energia de quem tá sempre com funcionando a mil pela prole.

Penso que justamente por ter sido muito amada e cuidada, que cultivo uma profunda estranheza quando percebo que nós – de maneira geral – não nos planejamos para cuidarmos dos nossos pais. Os meus pais ainda são novos e independentes. Mas e quando não forem? E quando os nossos pais chegam à idade de dependerem dos filhos? Nos preparamos de alguma forma? Modificamos as nossas casas para atender às suas necessidades? Nos planejamos financeiramente para garantir o seu descanso merecido? Estocamos fraldas, e arrisco a perguntar, ou paciência para lidar com suas demandas?

Para o aumento do meu desconforto com esta questão, eis que vejo casas de repouso com idosos largados ao próprio tédio. E eu acredito que não existe nada tão letal quando o tédio. Em razão do meu trabalho, visitei recentemente duas instituições que atendem a estes cidadãos de mais idade: uma extremamente precária, e outra com mais estrutura. Em ambas reconheci inúmeras histórias de descaso de filhos que estavam muito ocupados para cuidarem, ou mesmo, visitarem os seus pais. A única necessidade mútua entre a instituição mais simples, e aquela mais afortunada, era a atenção. Os hospedes daqueles locais pediam não muito mais do que atenção.

Quando foi mesmo que nós filhos, nos tornamos tão mal agradecidos? Por que nos preparamos para cuidarmos de bebês incapazes, e não fazemos o mesmo com os nossos pais, quando tornam-se incapazes de cuidarem-se sozinhos?

E aqui por favor, não entendam como uma crítica aqueles que optaram por casas de repousos, asilos, cuidadoras, enfermeiras. Eu entendo que muitas vezes os nossos pais vão precisar de cuidados especiais. Eu só não consigo entender a situação de isolamento social que muitos deles precisam encarar nos últimos anos de vida. A cultura oriental celebra aqueles que chegam a maioridade como entidades de extremo valor para a sociedade. A grande maioria deles é ativa, e atua como referência e fonte de inspiração para os mais novos. Suas experiências de vida são vistas como riquezas, e não uma bagagem pesada que carregam antes de mudarem-se para o andar de cima.

E não seria justamente essa, a melhor parte de envelhecer? Celebrar experiências e gozar de cuidados? Ou ainda, não seria esta uma das maiores vantagens de criar os filhos? Ter a certeza de que o cuidado que se teve com eles, será garantido quando os passos de nossos pais tornarem-se mais lentos, e a cabeça mais anuviada? E aqui não estou dizendo que para isso precisamos lhes receber em nossas casas, sem considerar as demais opções. Ou mesmo analisar estas questões naqueles que achamos que são “os últimos anos” – nós nunca saberemos quando são os últimos anos. Então porque não aproveitar os nossos pais agora, hoje? Por que afinal o tempo corre, e não perdoa ninguém. E a ideia não é justamente aproveitar o tempo que se tem, ao invés de correr atrás dele quando não houver mais o que fazer?

Certa vez ouvi de cara muito inteligente, que se tudo der certo, nós iremos enterrar os nossos pais. E quando eu digo “se tudo der certo”, parte-se do pressuposto de que pais jamais deveriam ter de enterrar um filho (isso deveria ser proibido por intervenção divina, inclusive). Então se tudo der certo, sou eu quem vai enterrar eles. Lembrar deles com saudade, ser grata, e talvez, levar-lhes flores. E de fato eu quero enterrar os meus pais, porque sei que essa é a lei natural da vida. Quero enterrá-los, sim. Mas não em vida.

Em vida, quero que eles se sintam produtivos e bem-vindos, por mais ranzinzas que se tornem com o tempo. Que recebam flores de seus netos em todas as ocasiões ou em ocasiões quaisquer. Enquanto eles estiverem aqui, quero abraçar-lhes e dizer o quanto os amo em todos os dias que estivermos juntos. E agradecer, de corpo, alma e atitude, tudo que fizeram para cuidar de mim. Dando-lhes a certeza de que eu vou sim, cuidar deles quando for a minha vez. Eu quero proteger a tranquilidade da velhice deles. E rezar para que alguém, um dia, zele por mim.

Cuide de seus pais.

Fim da sessão.

Vai ficar tudo bem, pai.

É engraçado que quando somos crianças nós não percebemos que as nossas brincadeiras e joguinhos, instintivamente nos preparam para sobreviver à vida adulta. Brincar de casinha, nos dá pequenas noções de sermos responsáveis por um espaço, ou quando brincamos de carrinho, imaginamos como manusear um veículo com cuidado, assim como bonecas e bonecos nos fazem imaginar interações com nossos futuros filhos, maridos, esposas e assim por diante. Infelizmente nenhuma destas brincadeiras nos prepara para uma das tarefas mais difíceis da vida adulta, que é cuidar dos nossos pais. Claro, como nós íamos imaginar que em algum momento, aqueles que sempre nos cuidaram, precisariam de cuidados? Era uma conclusão ilógica do ponto de vista da hierarquia e da maturidade. Então, a vida, essa brincalhona, vem e nos surpreende.

Eu comecei cedo a cuidar dos meus pais. Em especial do meu pai. Não que ele seja um cara incapaz, sob qualquer aspecto. Meu pai é novo, ativo e inteligente. Mas por vezes na nossa jornada, ele ficou um tanto perdido, e foi na minha mão que ele segurou. Foram duas vezes, em que tive que enfrentar um tratamento de saúde ao seu lado – eu e meu irmão – já que na época os meus pais já estavam separados. Durante os meses de tratamento intensivo, o meu pai teve medo da morte – e eu, medo da vida sem ele, e essa era uma sensação insuportável no auge dos meus 20 e poucos anos. Ainda que minha mãe estivesse sempre por perto, me dando apoio, cuidar do meu pai, passou a ser uma tarefa minha, e durante algum tempo, de mais ninguém.

Do meu lado, ele passou a se preocupar com o futuro dos negócios, e viu em mim uma aliada. Além de herdeira, eu passei a ser um dos braços direitos dele na empresa – e sofrer junto com ele, mês a mês, por resultados. Passei também a me preocupar com seus relacionamentos – coisa que antes era tarefa única, exclusiva dele: “mas quem é essa fulana?”, “De quem é essa jaqueta de mulher aqui?”, “Quando tu vai apresentar essa beltrana?”, até que finalmente, tivemos a tranquilidade de uma companheira de verdade entrar na vida do meu pai. Ainda assim, entramos naquela fase em que eu passei a questionar as atitudes e decisões dele, todo e qualquer momento: “como assim não vai tirar férias, tu precisa descansar!”, “tu tá indo no psiquiatra?”, “já foi no médico ver essa pintinha estranha?”, “que remédio é esse que tu tá tomando?”, “larga esse negócio pesado, tu acha que tu tem 20 anos, e não 60?”. E confesso, não é fácil. A hierarquia fica confusa, até porque sempre foi ele que botou as minhas atitudes e decisões à prova. Aceitar que os papeis eventualmente mudassem, foi confuso, e exigiu (e exige) muita paciência, tolerância e negociação.

Mas confuso, difícil, intolerável, ganhou todo outro sentido há algum tempo, como vocês sabem. Domingo é dia dos pais, e o primeiro sem o meu irmão. Assim como o primeiro natal, aniversário, dia das mães, esse é o primeiro dia dos pais sem o Leonardo. E se tudo que é a primeira vez, desde então, ficou insuportável, o dia dos pais, é a minha prova de fogo. Talvez porque o luto do meu pai, ainda é para mim, o mais complexo. Complexo porque meu pai busca respostas, das quais a minha mãe e eu, já abrimos mão. Complexo porque para o meu pai, a nossa situação hoje tem peso de castigo.  De um “preço alto” que estamos pagando. É complexo porque nunca antes na minha vida eu quis tanto pegar meu pai no colo, e embalar seu pranto, como só as mães conseguem fazer.

E eu não consigo fazê-lo. Basta-me apenas, a difícil tarefa de acompanhá-lo em seu ritual de manutenção na lápide do meu irmão – enquanto ele cuidadosamente remove as velhas flores, e troca por botões novos, que ele ressalta constantemente, durar muito do que as flores normais. Um fornecedor novo, que ele comenta ter descoberto, falando com orgulho. Ele então lava bem o potinho das flores, e esconde as orgânicas, com flores artificiais – já que as naturais são proibidas naquele espaço. Meu pai jamais deixaria meu irmão com flores de plástico, ainda que isso agisse contra as regras do próprio céu. E eu fico lá com o coração na mão, vigiando o seu empenho e sapequice  ao quebrar o protocolo daquele local de descanso.

Entre uma tarefa e outra que ele executa com precisão cirúrgica, ele fuma um cigarro. Eu engasgo o choro para dentro, enquanto vejo-o soprar a fumacinha em direção à fenda de pedra, para o caso do meu irmão – também fumante – sentisse falta de um barato proveniente dos vícios terrenos. Fico escutando suas dores, pensando em mil maneiras de aliviá-las, admitindo e aguentando as minhas próprias limitações, de que tudo que eu posso fazer pelo meu pai, estou … ali, ficando do seu lado. Escutando e entendendo. Desmistificando pouco a pouco a ideia que ele tem de que a partida do meu irmão seja um castigo, mas muito mais uma evolução, reconhecida pela entidade mais sagrada na vida e depois dela. Pelo meu pai eu finjo ser forte, mesmo quando ser forte, seria a minha última opção.

Talvez essa seja a lição mais difícil a ser aprendida, e por isso não aprendemos a cuidar dos nossos pais desde cedo. Porque a gente precisa ter a ilusão de que eles são fortes o tempo todo, para que a gente vá descobrindo a nossa própria força. Força essa, que um dia será útil até para cuidar deles, dos nossos pais.

Nesse dia dos pais eu queria agradecer a todos os pais que fingiram força pelos seus filhos uma vida inteira, mesmo quando era a sua última opção. Fingiram força, engoliram o choro, adiaram planos, parcelaram desejos, e entregaram tudo que era seu, para que nós, seus filhos, tivéssemos todas as chances de felicidade e oportunidades de sucesso deste mundo. E o meu pai sempre foi esse cara. Com todos os seus defeitos e limitações, ele sempre esteve do meu lado cuidando de mim, fingindo que era forte para enfrentar tudo.

E eu vou fazer o mesmo por ele.  Vai ficar tudo bem, pai.


Fim da sessão.

Um abraço apertado aos pais presentes e atuantes – aqueles que são os nossos heróis tão humanos.