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Adeus, tchau e até logo

Escrevo essa sessão de um lugar que gosto mais que um bom divã. Um aeroporto. O dia não amanheceu ainda, mas o meu pânico de perder um voo por conta do trânsito, me trouxe ao aeroporto Internacional de Guarulhos um pouco depois das 4h da manhã. Munida de um café hiperinflacionado, eu observo a movimentação sonolenta de funcionários e passageiros que como eu, aguardam as horas mais efetivas do dia. Não sei por que demorei tanto para comentar sobre essa viagem aqui. Talvez porque ainda que esteja a algumas horas de cruzar o globo, essa viagem tem um ar de tranquilidade e pouca presunção. O destino já é conhecido: Austrália, com alguns dias de pura alegria na Indonésia. Tempo estimado de viagem: 2 meses. Ou seja, eu vou logo “ali” e “já” volto.

O que me impressionou nesta viagem em particular foi a comoção alheia com a movimentação que, em tese, dizia respeito apenas a mim. Amigos, familiares e conhecidos, dedicaram bom tempo a especulações sobre o meu retorno e sobre a intenção com o meu deslocamento para lá onde Judas perdeu as botas (Timberland, possivelmente).  Não importava quantas vezes eu explicasse com tranquilidade que logo voltava e minimizasse o drama envolvido em alguns dias de ausência física. Sim, física, porque depois do Whatsapp, ninguém tem um minuto mais de reclusão na vida. Houve lágrimas, ansiedade crescente e horas de explicações pouco compreendidas (pra não dizer abafadas pelas lágrimas infundadas).  Para muitos, a minha viagem não era logo “ali” e tão pouco era um “já” volto.

Acuso esse fenômeno desconcertante que precede uma viagem, como a síndrome do  desconhecimento sobre a diferença entre o adeus, o tchau e o até logo. Não posso ser injusta com meus amigos. Ora, eu sou uma viajante incorrigível, então a ideia de eu não voltar a criar raízes não é tão absurda. Isso agravado pelo fato de que meu retorno do mundo para a pequena cidadezinha que chamo de lar no interior do Rio Grande do Sul, nunca ser suave. É como tentar usar dois pares de sapatos nos meus únicos dois pés.  É um desequilíbrio constante tentar existir perto da minha morada fixa, e aquela que habita o peito e segue solta pela estrada. Existe também chance de encontrar um amor em outros portos. A possibilidade de um livro. A conquista de uma nova cidadania. Ok, talvez eu tenha sido dura demais avaliando o drama envolvido das minhas despedidas. Eu tenho muito pelo que partir.

Mas eu também tenho muito pelo que voltar. Certo dia, um amigo que mora justamente na Austrália, me perguntava do que eu mais gostava na minha pequena cidadezinha, afinal eu havia trocado o mundo, para voltar pra lá. E a minha respostar não podia incluir a minha família e amigos. Fiquei consternada ao descobrir que além dos meus amores, o meu bar preferido era a única coisa que ocupava a minha lista. Ok que o bar em questão fazia tele-entrega de bêbada na minha casa, vez que outra quando necessário. Mas ainda assim, não conseguia justificar que meu único elo com a cidade se resumia ao local onde eu bebia. Em conversa com o dono do mesmo bar, reclamava preocupada sobre meu drama, quando ele me mostrou que a pergunta do meu amigo era injusta.  Porque o “além da minha família e amigos” imposto na minha resposta, era justamente o fundamentava todo meu existir. E até a escolha do bar só reforçava o meu “além”. Porque era onde eu encontrava com quem eu amava, além da minha casa.

Eu evitei despedidas antes de chegar a este aeroporto, hoje, às 4h da madruga. Mas o meu esforço foi totalmente em vão. Vivi os últimos dias com gente que fez plantão na minha casa, até quando eu dormia, para ter certeza de que curtiriam os últimos momentos, antes dos próximos, na minha companhia. Recebi mensagens de quem eu sequer avisei sobre a minha partida. Eu bebemorei amizades mais do que meu corpo aguentou nas últimas horas, e confesso que meu fígado odeia despedidas mais do que eu, neste momento. Eu vi meus pais reforçarem o poder das minhas asas, mais do que a importância do meu ninho, provando que amor é mesmo deixar livre para poder voltar. E que embora todo mundo duvide da diferença entre adeus, tchau e até logo, tem algumas certezas que são irredutíveis. De que às vezes é preciso ficar longe de todo mundo, para poder ficar perto da gente mesmo. E que nada no mundo é melhor do que ter motivos pelos quais voltar pra casa.

É bom ir embora pelas razões certas, eu garanto. Mas nada supera voltar pelas mesmas ou novas razões. E se existe dúvida em relação onde e porque a gente faz raízes, não existem dúvidas de que somos todos passageiros. Então faz sentido apenas aproveitar a viagem. Cheia de partidas e chegadas. Despedidas e reencontros.  A vida é muito curta para ficar parado, e importante demais para não ter ao que se apegar.  Então acreditem, eu vou até “ali” e “já” volto. Bon Voyage.

Fim da sessão.

Ps: O divã segue com suas sessões, com cronograma um pouco bagunçado em razão de fuso, e horas intermináveis de diversão. A meta inclui o famoso livro, que eu comunico aqui com a intenção única de botar pressão em mim mesma. Quem quiser curtir o divã na estrada pode me acompanhar pelas redes sociais – Facebook ou Instagram (@antonianodiva). Mandem dicas, convites para café e cerveja além dos mares, ou apenas seus desejos de boa viagem. É preciso ir embora, sim,  mas não quer dizer que não quero todos vocês juntos comigo. Vem também.

 

A casa da mãe Joana

A minha casa sempre foi sinônimo de confusão. Daquelas casas que o cachorro insiste em mijar onde quer, talvez porque saiba que a hierarquia é meio torta. O meu quarto ficava no último andar, numa alusão a uma torre de princesa porque, acredite, eu já quis ser princesa. O meu pai nunca colocou televisão perto da mesa de jantar, porque “refeições eram momentos de conversa em família”, ainda que ele adorasse escapulir para a área externa, onde tinha uma televisão velha, para bisbilhotar o jornal entre uma garfada e outra. Às vezes ele deixava eu e meu irmão assistirmos Tom & Jerry na TV dele, e talvez seja por isso que o desenho seja o meu favorito até hoje. Nós o assistíamos juntos.

A minha casa foi aquela construída com suor dos meus pais, e péssimos marceneiros. Casa cuja cozinha levou meses para ser montada porque meu pai e minha mãe passaram semanas discutindo a estampa das lajotas que cobririam as paredes. Até hoje eu acho que a lajota escolhida tem cara de estampa de pijama, mas a minha mãe gosta, e por isso eu enxergo certo charme. Na nossa casa o quarto do meu irmão  ficava a um lance de telhas da minha sacada. Um portal mágico por onde conversávamos sempre que ficávamos de castigo em nossos quartos. Aliás, a minha casa tinha caminhos secretos além do teto. Uma verdadeira aventura nas alturas que eu descobria sempre que esquecia a chave, e precisava escalar o muro e o telhado para entrar. Ainda assim, a minha casa parecia uma fortaleza.

A minha casa ruiu quando os meus pais se separaram, e “casa” virou um conceito turvo para mim desde então. Meu pai morou num apartamento, depois em outro, depois noutro. Meu irmão foi morar em Portos mais Alegres por conta da universidade e eu virei vizinha da Tia Beth além do oceano. A minha mãe ficou na nossa casa, aquela que não era mais “nossa” no coletivo completo. A casa do teto ruído, e que ficou ruído por muito tempo. A nossa família passou a ocupar quatro casas diferentes, mas nenhuma era realmente nossa.

A nossa casa voltou a ser minha durante alguns meses após o meu retorno de terras distantes. Naquela época, a nossa casa abrigava duas cabeças carecas recém chegadas que eu passei a chamar de irmãos, e um cara que nunca conseguiu me chamar de família. Não demorou muito para a “nossa casa”, virar a “casa deles”, e pequena demais para mim, mais uma vez. A “casa deles”, passou a ser um lugar em que éramos visitas, com códigos e condutas trazidos por um estranho cada vez mais desconhecido.

Não entendíamos as formalidades que nos foram impostas naquele espaço aonde nos vimos crescer. Logo, comecei a pedir licença para abrir a geladeira (aquela que ainda tinha meus adesivos de infância), e o conceito de “nossa casa” ficou cada vez mais complexo. O cara que não nos queria família, fazia checklist de inventário, naquela mesa em que não muito tempo atrás, dividíamos absolutamente tudo.

Assim, fiz lar em outro endereço. O meu irmão também se mudou. Seguido pelo meu pai, que chegou a mudar de cidade e evitar qualquer chance de passar na rua daquela que tinha sido a nossa casa. Com o tempo a gente pouco visitava um ao outro. Talvez porque a saudade daquela casa era insuportável. Talvez porque não conseguíamos edificar raízes em outros chãos. Às vezes, eu arrumava desculpas para dormir no meu irmão, buscando achar de volta o caminho para o portal mágico da nossa sacada.

Depois dizem que lar é onde está o coração, mas nem sempre é tão simples.

O meu irmão então, vocês sabem, partiu e fez morada na cobertura celeste, aquela que a gente não consegue aparecer para um cafézinho. E assim, como num sopro, nenhuma casa era mais a “nossa casa”, e todos os tetos estilhaçaram. O homem que morava na “nossa casa”, foi embora da casa agora cheia de lamento. Ora, ninguém que puder ir embora, fica para ver a tristeza umedecendo as paredes. Isso é coisa para família tolerar. Reerguer. Reconstruir.

Com medo da solidão eu larguei o velho apartamento alugado, e voltei para onde tudo começou. Retomei o quarto de adolescente onde eu já não mais me sentia princesa. Os pequeninos agora eram donos do antigo quarto do nosso saudoso irmão. E foi dividindo a minha sacada com eles dois que eu me senti em casa. Na sacada do meu quarto, lugar em que ambos, na grandiosidade de seus 6 anos, frequentemente ocupam para rezar para o mano que mora no céu. Foi o início de um novo início, da casa que antes era fim.

A casa ruída, a “casa deles”, “aquela casa”, começava a ser de novo a nossa casa.

A nossa casa que hoje não tem mais chaves na porta (ou na dispensa). Primeiro porque chaves não combinam com crianças, e também porque minha mãe tem uma necessidade virginiana de garantir que meus lençóis estão esticados. O Mateus precisa redecorar o meu quarto sempre que dá na telha. E o Murilo gosta das portas abertas para saber que eu tô ali, no caso da mãe dar um pulo no supermercado.

A casa agora tem as janelas sempre abertas para a luz entrar, e as portas escancaradas para os amigos surgirem. Na nossa casa agora, todo dia aparece gente. Uma pra almoçar, outra porque estava passando e deu saudade. Tem gente que precisa vir aqui comemorar a vida – a minha, a nossa, a deles. Tenho amigos que vem aqui para lamberem suas feridas, afinal, casa é onde a gente se cura. Reergue alicerces. Reconstrói os tetos.

A nossa casa é onde as minhas amigas viraram amigas da minha mãe, e onde meu pai já se sente à vontade para aparecer. Nossa casa tem quadros que costumavam ficar no quarto do meu irmão, e agora ficam na área, na mesma área externa em que assistíamos Tom & Jerry com o pai. E onde hoje eu assisto meus irmãos ralarem os joelhos andando de bicicleta no pátio. Ou assisto o assador da ocasião assumir a churrasqueira, antes aposentada durante anos.

A nossa casa é onde amigo aparecem às 00:40 de uma segunda-feira sem a menor cerimônia e querendo assunto, e a outra surge logo atrás porque enfim, ficou sabendo, estava em casa de férias, e às vezes segunda vira domingo aqui em casa. Onde a gente divide quatro latinhas de cerveja quente, e alguns sonhos. Onde o primeiro a dormir no sofá ganha um bigode desenhado com delineador, porque maturidade nenhuma tira o nosso tesão pela piada. E aqui na nossa casa a regra é clara: o respeito pelo teu sono termina no desejo do meu bigode.

E foi assim que dia após dia, a casa que um dia foi nossa, e não foi de mais ninguém, virou a casa de todo mundo. A casa da mãe Joana. Mãe Antônia. A casa da minha mãe. Porque “nossa casa” não se define pelas rachaduras nas paredes – prova de que muito ainda está de pé, apesar dos terremotos. Casa é onde moram as memórias. Onde estão os tesouros de pescaria do meu pai. Mora o cheiro do pastelão de forno da minha mãe, e onde nunca falta maionese verde pros amigos. É a lajota com estampa de pijama. Casa é onde tem bagunça, barulho, olha, coitado do vizinho. Casa é onde nego dorme onde quer porque achou morada no nosso humilde palacete. É pisar em Hot Wheels no chuveiro. É nunca fazer cocô sozinha (porque aqui não é mesmo uma opção). É gente se apertando na mesinha da copa para tomar café ou apenas fofocar.

É a certeza de que a gente pode cruzar fronteiras e superar barreiras, mas não existe melhor lugar no mundo, do que a nossa casa.


Fim da sessão.

Irmão é…

Ouvi dizer em algum lugar que a nossa construção é formada pela média das cinco pessoas com quem nos relacionamos. Lembro que o estudo provava por A+B que a nossa personalidade era a massa liquidificada dos nossos pais, irmãos, amigos, amores, na mesma proporção. Apesar de ser um estudo bem fundamentado, eu tive certeza que eu não era parte da amostra. Isso porque eu sei que metade de mim sempre foi, e sempre vai ser pilha do meu irmão. O restante dos 50% até pode espremer outras influências. Mas uma metade inteira é consolidada pelo elo que fiz com o meu primeiro e melhor amigo da vida toda.

Irmão é aquele cara que acredita que você pode consertar o redemoinho na franja dele com uma tesoura, e aguenta os próximos meses com um corte de cabelo ridículo por ter acreditado em você. É dividir cama de solteiro, e brigar pelo cobertor. É o cara que finge gostar de palhaços, quando você decidiu aparecer na festa dele fantasia como uma, esquecendo que ninguém mais gosta de palhaços aos 10 anos. E é também o mesmo pré-adolescente que te convida para ir ao banheiro de madrugada, quando você finge – junto com ele – que não tem medo do corredor escuro. É por quem você briga com garotos na praia, enchendo a boca deles de areia quando ousaram falar mal do seu irmãozinho.

Irmão é o primeira pessoa que vai fazer cara feia para os babacas que vão entrar na sua vida, fantasiados de príncipes encantados. Que vai acobertar tuas saídas furtivas para um sorvete com segundas intenções, e ouvir com atenção quando você contar que o seu primeiro beijo foi um nojo (e foi mesmo). Irmão é cara que vai brigar contigo pela internet discada, quando você insiste em namorar horas pelo telefone, com alguém com quem você acabou de passar o recreio junto. E vai tolerar teus ataques ciúmes e tua constante inquisição de irmã mais velha perguntando com quem você anda, e o que você faz quando não está por perto.

Irmão vai sair de casa com você, quando “casa” já não for mais sinônimo de tranquilidade. Vai morar num quarto de hotel por um mês enquanto as coisas se ajeitam , e te mostrar felicidade nas omeletes do café da manhã, quando nada mais parecer ter sentido. É quem vai segurar tuas lágrimas quando você estiver atrapalhada ou com medo. Dar-te força quando o futuro for incerto. Irmão é aquela pessoa que nunca te deixa sentir sozinha, mesmo quando o caminho é sinuoso, e você já não enxerga um palmo de alegria à frente do nariz. É o cara cujo amor você marca na pele, junto a um trevo de quatro folhas.

Irmão é a certeza da proximidade quando se está distante. É sintonia na descoberta de uma atração pop, e o back vocal certeiro naquele rock antigo que foi composto antes de vocês dois nascerem. É cara que te ensina a gostar de livros estranhos, e a quem você – depois de muita insistência – convence a dar aos musicais uma chance. Irmão é Londres, é Barcelona, é Madrid. É brigar na véspera de Natal, e fazer as pazes antes do ano novo. É morar junto, é brigar pela pia suja. Aliás, irmão é o único ser humano que vai tolerar encontrar seu vômito na pia do banheiro, sem lhe dar uma bela e merecida camaçada de pau – afinal o vaso com a descarga estavam tão pertinho. “Poxa irmã – você é a mais velha, cadê teu juízo?!”.

Irmão é nunca sentir-se só. Ou louca. É uma insanidade combinada, familiar. Uma tolerância garantida, não pelos traços genéticos, mas pelo amor forjado a ferro e fogo. Suor, sangue e lágrimas. É a única pessoa no mundo que não se esquece do teu aniversário. Ainda que nunca se lembre de te dar presente. Irmão é pra sempre… não é?

É. Irmão é pra sempre. E talvez por isso não ter mais o meu irmão ao meu lado seja a maior prova de que tudo o que passou valeu a pena. Porque cada perrengue dividido foi único e precioso, e me ajudou a juntar a coragem que eu hoje tenho de seguir adiante, ainda que os problemas não diminuam. Cada risada e musica cantada é a prova de que a vida é linda, e merece ser celebrada. E cada sonho construído não é apenas mais um compromisso com o futuro em construção, mas um ato de honra ao passado que edificamos juntos. Porque no fim de tudo, como eu dizia para o meu irmão, a gente só quer poder olhar a vida, e dizer “foi ducaralho, senhoras e senhores!”. Irmão é saudade para todo e sempre, com a certeza de que foi ducaralho, senhoras e senhores.

E se o meu irmão é o que acredito ser a metade de mim, e vice versa, a má notícia é que com sua partida, uma metade de mim também se foi. Mas a boa notícia (e essa que eu guardo com alegria no coração) é que a metade dele, em mim ficou.

Irmão é pra sempre, Léo. E neste 15 de março, no teu aniversário, eu vou seguir celebrando a melhor metade de mim.


Fim da sessão.

A irmã mais velha

Sábado passado caiu a luz lá de casa. Não foi por muito tempo, somente tempo suficiente para o Mateus aparecer na minha cama em um pulo, e o Murilo sair correndo do chuveiro gritando meu nome – “MANAAAAA” – sim porque lá em casa meu nome é “mana”. Enquanto a minha mãe arrumava o disjuntor no andar de baixo, eu no andar de cima, acalmava a dupla. O Murilo, ensopado e enrolado numa toalha, chorava no meu colo desconsolado pela ausência da luz. O Mateus, por outro lado, tentava manter-se forte no escuro, mas não, é claro, sem arrumar um cantinho para sentar-se na segurança do meu joelho. Sugeri contarmos histórias enquanto a luz não voltava. O Murilo discordou, entre uma fungada e outra. Ouvindo a contrariedade do irmão, o Mateus sugeriu brincarmos de mímica, e eu achei graça: “Como podemos brincar de mímica no escuro, Mateus?” Pronto, agora os três caiam na risada.

A luz volta.

Frente à claridade, cada um retorna a seus afazeres. O Mateus voltou para o desenho dele, o Murilo foi tirar o sabão do corpo, e eu voltei pro meu quarto e para o Netflix.  Sem perigo eminente, cada um deles podia seguir seu caminho de forma independente. Frente ao perigo, eu era essencial.  A cena me jogou de volta para a minha infância. Quatro anos mais velha que o meu irmão Leonardo, algumas vezes na nossa juventude eu me peguei encarando a escuridão, tendo certeza de que eu não podia fraquejar. Lembro-me de uma época em que morávamos em um sobrado grande, que tinha um longo e assustador corredor até o banheiro, e de como o Léo sempre me acordava para acompanhá-lo durante o seu xixi no meio da noite. Eu nunca confessei para o meu irmão, mas eu devia ter mais medo do corredor que ele – mas por causa dele, eu ficava corajosa.

Como irmã mais velha de três meninos, eu não consigo minimizar a função deles no fortalecimento do meu caráter. O Leonardo, o Mateus e o Murilo são propulsores ativos da minha evolução. Sempre foram. Se dependesse só de mim, talvez eu não tivesse força ou muito menos coragem para encarar os inúmeros perrengues que a vida nos jogou. Mas esta é a mágica existente entre irmãos: como irmã mais velha, eu nunca me vi com escolha de desistir, e por conta deles, me tornei a mulher forte, determinada e destemida que sou hoje. Ou pelo menos alguém que quando precisa, finge bem todas essas características.

Para cada irmã ou irmão mais velho no mundo, existe um irmão mais novo desafiando a nossa fibra. Eu vi isso acontecer com o Léo, quando ele, por sua vez, se tornou corajoso pelo Murilo e pelo Mateus. A cada tosse medonha que os guris tiveram, o Léo, novato na medicina, acalmava a família frente ao desconhecido. Ninava os dois quando eles tinham suas cólicas. E muitas vezes, confortou seus pequenos corações enfrentado o escuro que precede o sono. O Léo deixou de ser unicamente o meu irmão mais novo, e decidiu ser forte, muito mais forte, como irmão mais velho dos dois pequenos.

Depois de muito tempo sendo irmã mais velha, eu finalmente entendi o que esse laço significava. Irmãos mais novos – hoje sei – não são apenas o link direto com o nosso passado, o nosso compromisso com a nossa história, o nosso cúmplice de crime. Eles são também um trampolim para o futuro. E essas etapas mudam a gente. Irmãos mais novos nos dão um preview do que é ser mãe ou pai de alguém. Ser responsável por outra vida além da nossa. Mostra-nos na prática a importância de dar exemplo, muito mais do que dar ordem. Nos forçam a comer legumes que a gente não gosta, afinal legumes são cruciais para o crescimento – eu, por exemplo, odeio beterraba. Mas como irmã mais velha, eu disfarço o nojinho pela raiz roxa e mando ver com cara de quem tá comendo pizza.

Ao lado dos nossos irmãos, a gente ensaia uma versão melhor da gente mesmo. Fuma escondido para não dar mal exemplo. Usa cinto de segurança, mesmo quando acha que “não precisa”. Na frente dos irmãos toda regra é importante. Foi com os meus irmãos e suas demandas, eu aprendi a deixar de dizer “já vou” e comecei a dizer “estou aqui”. Comecei a me preocupar com a violência, com o perigo de alimentos transgênicos e confesso, depois que virei irmã, eu nunca mais dormir sem pelo menos um olho meio aberto.  Por causa dos meus irmãos, eu comecei a querer mudar o mundo pra melhor.

O mais engraçado é que entre um colo e outro, quando a gente acha que está dando força para eles, está na verdade tomando goles de coragem que eles nos oferecem. Sim, porque não dá pra não ser guerreira(o) por um irmão ou irmã. Nós somos os heróis da vida real. Porque mesmo no meio da escuridão, são os nossos irmãos que promovem a coragem e alegria que a gente precisa na luta pelo esclarecimento. E assim, a luz sempre volta.


Fim da sessão

Hoje decidi dividir uma coisa ainda mais pessoal sobre ser irmã. A mensagem abaixo foi escrita pelo meu irmão – um dos meus escritores favoritos. Nela o Léo me desejava feliz aniversário (pela última vez), como também se admitia no desafio como irmão mais velho (pela primeira vez). É com certeza uma das mensagens que irá me tocar pelo resto da minha vida de irmã mais velha. E eu espero que faça o mesmo com todos os irmãos e irmãs aqui neste divã, para que eles nunca deixem de perceber o valor deste vínculo.

Foto: El Retiro - Jardines del Buen Retiro de Madrid
Foto: El Retiro – Jardines del Buen Retiro de Madrid.
“…e em 1768 o recinto foi aberto pra cidadãos não-nobres desde que estivessem bem vestidos e lavados” era o que dizia sobre esse lugar em um dos guias de viagem baratos que a gente comprava nas banquinhas de cada cidade que chegava.
Definitivamente não era nosso caso. As poucas libras que só nos permitiam voar de Ryanair (e comemorar cada pouso com o avião inteiro) nos davam direito a duas ou três mudas de roupas em uma mini-mala (e mais algumas peças escondidas no meu casaco tamanho gigante-plus). Assim a gente sobrevivia, lavando roupa no chuveiro frio do hostel e torcendo pra secar antes de ter que guardar na mini-mala de novo. Então bem ‘vestidos e lavados’ certamente não era o nosso caso, mas conseguimos entrar e aproveitar o ‘recinto’. Era isso que importava.  A mesma briga no início de cada manhã pra definir o plano do dia se repetia na volta pra casa pra decidir quem ia ver as fotos primeiro.
Era ali que eu percebia que não tinha porque discutir roteiro, na verdade o que realmente tinha valor era quem tava junto comigo durante ele.
E essa pessoa foi tu. Sempre tu.

Não me refiro aos 3 meses da nossa viagem, mas aos 26 anos que completo em breve. Não existiu pessoa que me deu tanto apoio e me defendeu tanto quanto tu, não importava o Atlântico de distância que a gente teve que conviver por três anos ou tu estar do outro lado do mundo, como é o caso de hoje que tu comemora teu aniversário na Austrália. A gente se obrigou a aprender que a distância geográfica é o de menos.

Há 4 anos e meio eu me tornei irmão mais velho, papel que tu exerceu praticamente a tua vida toda e acho que foram poucas as vezes que parei pra te dizer muito obrigado por ter suportado nas costas toda a responsabilidade desse cargo.

Mesmo com todos os acontecimentos dos últimos anos que multiplicaram nossa família, sempre vai ser tua a primeira imagem que me vem a cabeça quando penso na palavra irmão. Tu que não me deixou desistir da Medicina todas as vezes que (de saco cheio) cogitei isso. Tu que com o olho cheio d’água segurou minha mão em março do ano passado enquanto eu saía meio grogue do bloco cirúrgico e deitou naquele sofá duro pra só sair quando eu pudesse sair junto contigo pra casa.

Então além de te parabenizar pelos 30 anos queria te agradecer pelos 26 que tu passou do meu lado.  Nem sempre ‘bem vestidos e lavados’, mas sempre juntos.

Te amo, irmã,  feliz aniversário.

Foto de capa: Orgânico Estúdio

Eu tenho medo do futuro

Dia destes me peguei conversando com a minha mãe sobre congelar óvulos – os meus óvulos. Assim que as palavras saíram da minha boca eu me assustei. Havia passado o tempo em que tudo que eu queria no meu congelador eram sorvete e vodka, e agora eu calculava garantias para o meu útero, planejando congelar também ovos. O que acontece é que nos dias de hoje eu já não tinha mais tanta certeza sobre a vontade de me reproduzir. Ainda assim, eu jamais abriria mão de ter uma escolha.

Talvez eu nunca vá me esquecer daquela conversa, quando no primeiro ano dentro da minha balzaca, eu me preocupei com os frutos que iria ou não deixar para este mundo. A pergunta que me assombrava de verdade não era sobre a probabilidade de colocar ou não meus herdeiros num cofre seguramente refrigerado aguardando o momento ideal. Mas a dúvida sobre as reais condições do futuro em que eles eventualmente poderiam nascer.

Eu tenho medo do futuro.

Eu tenho medo do futuro em que a gente desembale mais do que descasque coisas para comer. Eu tenho medo do sódio da água, ou da água não existir mais, e a gente inventar um jeito de sobreviver a Coca-Cola. Tenho medo de um futuro em que picada de mosquito não resulte apenas numa coceira temporária, mas em uma infinidade de vírus de consequências irremediáveis.  Tenho medo de um futuro onde exames não são solicitados para não gerar custas adicionais para o sistema – já falido – de saúde que atende a maioria das pessoas. Tenho medo de que a ciência preocupe-se mais em criar formas de frear o envelhecimento, do que desenvolver soluções para vivermos melhor.

Eu tenho medo do futuro.

Tenho muito medo da segurança das ruas do futuro, porque a insegurança de agora já me faz repensar cada passo que eu dou. Tenho um medo de um futuro em que as empresas limitem o nosso acesso à informação para ganhar mais dinheiro ou para intencionalmente cegar as nossas decisões. Tenho medo de que o petróleo se torne mais importante que o sangue. Tenho medo do extremismo. Da falta de diálogo, e do excesso de explosivos.

Eu tenho medo do futuro.

Tenho medo de um futuro pavimentado por políticos que votam por Deus, por suas famílias exclusivamente, por bebês que nem nasceram, por suas tias, vizinhos e cunhados, por Jerusalém, pelas Chiquititas, pelo Wesley Safadão, pelo vampiro estranho do Crepúsculo e pelo ursinho de pelúcia chamado Ted que tiveram na infância. Tenho medo de um futuro onde respeito é exigido por quem cospe na cara dos outros. Tenho pavor e pânico de um futuro que se esquece dos erros desumanos do passado e reforça a propaganda de terroristas, torturadores e ditadores. Tenho medo de quem promove o medo como forma de correção ou coação. Tenho medo da falta de empatia e de altruísmo do ser humano. Tenho medo.

Eu tenho medo do futuro.

Tenho medo de não saber mais discernir o certo do errado neste futuro de valores cada vez mais confusos. Tenho medo da minha bondade se esvair na ingratidão e no egoísmo alheio. Tenho medo de um futuro onde fronteiras são cada vez mais fechadas, e boas vindas cada vez mais raras. Tenho medo de um futuro em que teremos cada vez mais seguidores, e cada vez menos amigos. Ou do futuro em que olharemos mais para telas de gadgets do que para os olhos dos nossos filhos, irmãos, amores. Tenho muito mais medo do futuro para jovens meninas. Por não ver o futuro prosperar em defesa delas na velocidade necessária. Tenho medo que não tenham direito a oportunidades e a escolhas que vão muito além de óvulos congelados.  Tenho medo de que sua inocência não seja protegida – aliás delas, e de todas as crianças do mundo.

Eu tenho medo do futuro.

E no meio deste registro de todos os meus medos do futuro, eis que surge o Mateus no meu home office,  com meu celular em punho, mostrando-me sua obra prima no Snapchat – app que ele, aos 5 aninhos e como parte desta geração do futuro, domina muito melhor que eu. É um vídeo curto, falando de que no futuro ele quer morar na Rússia, onde é frio, para poder viver perto dos pinguins (plano de vida construído exclusivamente pela cabecinha dele). Olhei para seus olhos brilhantes de esperança e não tive coragem de explicar que a Rússia é um lugar pouco tolerante com as diferentes escolhas das pessoas, e que lá uma simples opinião pode custar uma vida. Também não reuni forças para dizer que do jeito que anda o aquecimento global, possivelmente os pinguins seriam uma espécie com risco de extinção num futuro próximo. Não quis comentar com o Mateus que do jeito que anda a nossa situação politico-econômica, o dinheiro e passaporte brasileiro dele poderiam não ser dos mais bem-vindos mundo afora. Eu tinha tanto medo para dividir com ele…

Mas ao invés disso eu me calei. Tomei doses de esperança beijando os olhos dele. Abracei-o bem forte e sorri de volta.

– Posso né, mana? No futuro ir morar na Rússia com os pinguins, não posso?

– Pode sim, meu amor. – Respondi mesmo com todo o medo que eu tenho do futuro.

Dei-me conta de que muito pior que eu ter medo do futuro, é a geração que vai vivê-lo não ter a esperança de reinventá-lo.


Fim da sessão

O melhor lugar do mundo

Desde pequena eu me mudei muito. De cidade, de casa e eventualmente de país. Depois que eu voltei para as terras tupiniquins, viajei mais um pouco, e essa inquietude sempre me fez pensar onde seria o melhor lugar do mundo para se estar. Londres tinha me ensinado tanto, então eu pensei que poderia ser lá. Mas voltando pro Brasil eu me lembrei do quanto eu gosto daqui. E entre idas e vindas, lugares estranhos e outros mais conhecidos, um lugar comum a todos se destacou. O melhor lugar do mundo é dentro de um abraço, hoje eu sei. Ok, acuse-me de clichê, se você ousar. Mas estou para dizer, sem sombra de dúvidas, que o abraço é um dos poucos lugares que te recebe sempre, você estando bem ou mal, e dele você sempre volta melhor. Lá não te pedem visto de entrada e sempre falam a tua língua. O abraço é, indiscutivelmente, o melhor lugar do mundo.

Talvez a melhor parte do abraço seja que ele tem fronteiras pouco definidas. Onde começa o seu abraço e termina o do outro? É um círculo que costuma não ter limites, uma mistura. Às vezes você acha que entrou nele para sair rapidinho, mas decide ficar um minuto a mais, já que ele é tão seu quanto da outra parte. De quem recebe. Ou de quem dá. Aliás, nesse lugar mágico é difícil também definir quem entregou e quem recebeu. Talvez o abraço viva dentro de uma eterna política de escambo, “aqui tudo é de todo mundo, e só funciona através da troca”. Não é socialismo, porque ninguém pode levar mais do que contribuiu, não é capitalismo porque indivíduo nenhum paga para estar lá, e não é anarquia porque ele tem as suas regras.

As regras na verdade são bem democráticas, mas elas existem. Para começar, só se entra no melhor lugar do mundo se for de peito aberto. E peito aberto, é uma das posições mais vulneráveis de um encontro, então para entrar no abraço deve se ter confiança. Além disso, para adentra-lo, há de se ter intimidade. Até porque o abraço abre portas para aquele espaço lindo e íntimo que é a área entre o pescoço e a orelha. Ali se sente cheiro, calor e os sussurros resolvem qualquer barreira de linguagem. O pedágio para estar ali são juras de amor, desejos de carinho ou eterna gratidão por ter sido bem recebido. Outra regra do abraço é que para entrar nele você deve depositar a sua energia e até uma dose gentil de força. Isso porque o abraço é o lugar do mundo que promove alívio na proporção inversa do aperto. Quanto mais apertado é o abraço, mais alivio se sente.

O abraço é também um lugar bem amplo, além de apertado. E ele não é exclusivo. Você pode entrar no abraço de uma amiga de quem morria de saudades. Ou do seu amor para pedir desculpas. Pode se jogar naquele do seu irmão ou irmã para alegrar o seu dia. Do seu pai para pedir apoio. Ou ainda no da sua mãe quando o bicho realmente pega. Fato é que você sempre sai melhor do que entrou neste lugar. Muita gente pode ser salva visitando o abraço. Na hora da dor ou da raiva, o abraço pode guardar a parte mais pura e positiva de você, para que os sentimentos negativos não tomem conta. É difícil morar no luto ou nos pontapés da vida. Morar no abraço é de boa, é lindo e por vezes, faz o planeta dar uma desacelerada… e girar devagarzinho em torno do melhor lugar do mundo.

Gosto dos abraços despretensiosos de reencontros casuais, que animam a rotina, despertam as borboletas e acalmam a mente. Lembro com carinho de todos os abraços que nunca mais visitei, os de amigos distantes, ou de amores que não estão mais por perto, como aqueles de vó e de vô, sabe? Tem abraços que a gente daria um braço para ter de volta, de tão bem que nos fizeram. E aqueles que a gente ainda quer descobrir. Ou ainda que nem imagina o quanto nos farão suspirar, serenar e até embalar o início de uma dança. Abraços que curam, que não julgam, que protegem. O melhor lugar do mundo é aquele que promove o altruísmo, a humildade, e claro, a aproximação de dois corações. Ou mais, se for um montinho!

O que não dá, é seguir perambulando pelo mundo, correndo por passagens egoístas, fazendo percursos solitários e firmando raízes em destinos ásperos. O meu conselho é: Nunca perca de vista o caminho do abraço. É lá que você mora. E é lá, que se encontra o melhor lugar do mundo.


Fim da sessão.

Jota Quest - Dentro de um Abraço

Inspiração contagiosa

Uma das grandes maravilhas do ser humano é a sua capacidade de reciclar a fé na vida. A esperança parece uma daquelas mudinhas que nasce em meio a uma rachadura no concreto ou no asfalto, sabe? Sob as condições mais improváveis de sobrevivência, vinda lá debaixo da dureza do curso da vida, ela insiste, empurra, renasce. Ela força a saída para a luz, alimentando-se da sede de prevalecer. Ela não se deixa amassar pela pedra, ela não se acomoda com a escuridão. Perseverar é um ato heroico por parte da mudinha. E exatamente como ela, é cada um de nós. Somos movidos a perseverança, resiliência. Instigados a acreditar.

Esse processo de luta pelo canudo do meu irmão provou que a inexistência da afetividade significa quase nada enquanto houver empatia. “Empatia é quase amor”, neste caso. Gente que não conhecia a nossa família, pessoas que nunca ouviram falar do meu irmão, indivíduos que jamais tinham falado comigo antes do meu pedido público. Um mar de rostos desconhecidos (além dos conhecidos), soltando seu latim na internet e chamando a atenção da mídia em prol de um bem que sequer lhes traria algum benefício. O benefício estava em ajudar, ser parte de algo que faria bem a outra família. Um canudo, um abraço, o reconhecimento. O que fosse. A minha família virou a família de tanta gente, e o nosso pedido virou o pedido de muitos. A empatia sabe ser a coisa mais linda deste mundo, não sabe?

E aqui aconteceu um processo interessante de inspiração retroalimentada. A nossa luta foi admirada e com o encorajamento da torcida, a nossa esperança – como a mudinha – prevaleceu. E o contrário também foi verdadeiro. Em resposta ao nosso pequeno ato heroico, daquele que força a passagem pelo concreto (leis, protocolos, tudo muito concreto), outras pessoas tomaram atitudes lindas. Recebemos ofertas de inúmeros advogados querendo operar pro bono na nossa causa, mesmo sabendo que já estávamos legalmente amparados. Pessoas linkaram seus contatos da mídia conosco na tentativa de fortalecer uma opinião publica favorável. Emails e mensagens de apoio foram enviados de todo o Brasil e de fora dele. Pacientes do meu irmão nos procuraram para contar de suas experiências, no intuito de reforçar a nossa (já gigantesca) admiração pelo Leonardo. Amigos voltaram a se falar, pois colocaram a nossa despedida em perspectiva. Pais que perderam seus filhos se fortaleceram com a nossa história, nos agradeceram e abraçaram. Sem qualquer pretensão de inspirar – talvez apenas ao Murilo e ao Mateus no que diz respeito ao amor fraternal  – ainda assim, sem objetivamente querer transformar nossa história, em um ato de inspiração, inspiramos.

“O mundo ainda tem jeito” – uns disseram. “Que coragem é essa?” – perguntavam outros. “Esta família é prova de amor, força e lealdade” – admiraram-se os demais. Veja que isso nunca foi o nosso plano. Disseram-me que eu era uma irmã de ouro, contudo o meu reconhecimento pessoal nunca esteve no meu pleito. Ou no de qualquer integrante da minha família. Queríamos tão somente manter intacta a consistente fonte de apoio que sempre fomos para o Leonardo.

Acontece que quando o coração da gente está no lugar certo, coisas admiráveis acertam. E inspiram outras pessoas. E cá pra nós, o mundo está mesmo precisando de histórias de gente que não desiste. Gente que se doa. Que pede ajuda de coração aberto. Jamais teríamos conseguido o reconhecimento da faculdade se tivéssemos nos resumido exclusivamente aos nossos recursos. A esperança requer humildade. É a extensão do próprio coração, pegando emprestado o amor que há no outro. Não surpreendentemente, a parte mais bonita da inspiração, é que ela é contagiosa. Atos de bondade inspiram outros atos de bondade. A coragem do outro, engrandece a nossa. A perseverança alheia encoraja a nossa própria tenacidade. A inspiração contagia.

E estes exemplos não precisam ser majestosos atos públicos ou demonstrações imponentes de nossos mais estimados predicados. Não mesmo. Pequenos atos de amor e bondade mudam o mundo. E eles inspiram tantos outros. Nós não precisamos ser gigantescos nas nossas ações, apenas regar a esperança com extraordinárias doses de perseverança e lealdade – como a mudinha, nascendo em meio ao concreto. A mudinha que em si, é pequena. Mas que é oxigênio para a nossa caminhada,  por caminhos muito mais floridos e verdejantes.


Fim da sessão

É preciso lutar

O dia 18 de dezembro de 2015 foi esperado e planejado pela minha família durante seis anos. Para a data estava agendada uma grande festa, em celebração a maior das conquistas, a formatura de medicina do Léo, irmão e filho querido, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Veja que tudo mudou há dois meses. Após um mal súbito, aos 26 anos, nosso garoto de ouro veio a falecer. E quando digo garoto de ouro me refiro ao seu bom coração, seu altruísmo, e dedicação com tudo que fez em seu tempo aqui neste plano.

Após a partida do Léo, reunimos as poucas forças que nos restavam para atender um único pedido. Queríamos o canudo dele. E pedimos a PUCRS que ele fosse entregue a família na formatura. Passaram-se então 60 dias excruciantes num jogo de empurra-empurra de responsabilidade. Hora  a definição era responsabilidade da direção da faculdade de medicina, hora era do jurídico, hora da comissão de formatura. Foram-nos apresentados todos os empecilhos, nos solicitaram apresentação de documentos adicionais, foram levantadas algumas dificuldades com a turma, tudo sendo resolvido pela família e advogados a cada passo numa espécie de gincana agonizante contra o tempo. Dia 17, a 30 horas da formatura, nosso pedido foi formalmente negado. A justificativa? O Léo não teria concluído as duas últimas cadeiras do curso. Ele não tinha presença nelas. Simplesmente porque faleceu. Ele rodou por faltas porque partiu para o céu. Ficamos arrasados. Por nós, e pelo meu irmão.

E aqui entendam, que o meu irmão não era qualquer aluno. Não que lhe coubesse qualquer privilégio, para nós a entrega era um direito e um tremendo bom senso. O Leonardo foi presidente do diretório acadêmico Garcia Prado, quando lutou ativamente pela redução do aumento das mensalidades, pois acreditava que o curso de medicina deveria ser acessível e não impossível aos menos privilegiados, alem de batalhar por inúmeras melhorias dentro da universidade que escolheu. Foi conselheiro do DU-AMGRIS. Fez estágio no renomado Jackson Memorial Hospital da University Miller of Miami. Reuniu mais de seis mil horas de atividades complementares como participante e organizador. Escreveu artigos para revistas de medicina nacionais e internacionais. Foi contemplado com uma bolsa de MD-PhD antes mesmo da formatura. Seria Dr. com PhD em neurociência. Colega querido de todas as ATMs. Aluno respeitado por toda a Famed. Teve uma passagem irretocável de seis anos na PUCRS. Sua ausência nos últimos dias de faculdade não foi opcional.  O canudo já era dele. Bastava a PUCRS entregar-nos.

Evidente que dentro da legislação e regimento interno a PUCRS não feria a nenhuma lei ou norma. Estava completamente respaldada por seu estatuto. Ainda entendendo sua posição, precisávamos lutar até o final pela humanização do nosso pedido. Acreditávamos que a entrega do canudo era uma forma simbólica de reconhecer os feitos do Leonardo e mais uma vez pedimos a universidade reconsiderasse. Faltando pouco mais de 24h para a solenidade, recorremos às redes sociais pedindo apoio. Em um país que clama por educação, um aluno deste calibre não receber o reconhecimento de uma faculdade católica, na área de ciências humanas, no curso de medicina que é forjado pela empatia, nos parecia desumano e contraditório. Para nós e para a comunidade com quem o Léo se envolvia. A comoção na internet através da hashtag #PUCRSentregueOcanudo foi a prova disso. Foram milhares de compartilhamentos por todo Brasil, chamando a atenção da mídia e também da própria faculdade. O perfil de Facebook do Léo acabou sendo desativado pelo próprio site, quando recebeu tanta atenção (e dada a sua condição atual). O evento virtual de apoio na mesma rede social, reuniu mais de cinco mil participantes em poucas horas. Evento que foi cancelado prontamente quando soubemos que a turma e também a PUCRS temiam uma presença física massiva em protesto na solenidade. Cancelamos o evento no Facebook (onde estava claro tratar-se de um apoio puramente virtual) em respeito aos formados da turma do Léo e suas famílias – não queríamos que temessem que a alegria de sua formatura fosse comprometida de alguma forma. Eles sentiram em poucas horas de aflição, o que sentimos durante 60 dias, e nunca desejávamos isso a eles. Ou a nós.

Na cerimônia estávamos todos lá, vestindo o jaleco branco do Léo através de camisetas personalizadas. Explicamos ao Murilo e ao Mateus, meus irmãos e do Léo que tem apenas cinco aninhos, que muito embora tivessem treinado em casa a retirada do canudo do mano com o controle remoto, não haveria o esperado momento. Para minimizar nossa frustração, levamos nossos próprios canudos, em forma de nosso respeito ao futuro doutor. Após a homenagem dos alunos da turma através de vídeo e menção em discurso – discurso que o Léo faria se estivesse aqui – levantamos nossos canudos e dissemos ao alto “Léo este canudo é teu”. Queríamos que ele soubesse que embora a universidade nos tivesse negado a entrega de qualquer coisa, onde ele estivesse, teria a certeza de que o canudo era e sempre foi dele.

Mas nem tudo estava perdido. Algo aconteceu, que só acontece nas boas histórias. Uma reviravolta. Representando a PUCRS, o Sr. Dr. Jefferson Braga, mestre de cerimônia da solenidade anunciou com voz engasgada e feições de alta emoção, que sua posição superior na mesa de formatura lhe garantia algumas vantagens. Quebrando o protocolo da cerimônia, chamou a família do Léo para entregar-lhes não um canudo, mas um abraço. A musica do Léo foi tocada, e lá junto aos seus colegas, a família do Dr. Leonardo Mazzocchi sentiu sua presença mais forte. Lagrimas e aplausos em pé calaram a nossa dor por alguns minutos, e de alguma forma, estávamos em paz. Em meio a tanta emoção, alguém não esqueceu o nosso objetivo principal. Chorando muito no colo da mana, o Murilo, com toda a sua sabedoria e sensibilidade de quem é fã do irmão, levantou o canudo improvisado sacudindo-o ao alto. Nossa missão estava cumprida. Além disso duas amigas e doutoras recém formadas ao final da solenidade  nos entregaram seus próprios canudos em reconhecimento ao Léo, um que ficou com a minha mãe  e outro que foi entregue ao meu pai.

Sim, foi difícil e dolorido. Mas que mudança não é? E se não couber a nós, cidadãos, modelar as instituições para que se tornem cada vez mais humanas e honrosas, quem o fará? Desprestigiar a PUCRS nunca foi nosso objetivo. Como faríamos se foi esta a faculdade que o Leonardo escolheu e para a qual tanto se dedicou? Não, nós pedimos que nos escutassem. Clamamos em coro por uma mudança de atitude. E ela nos ouviu. Gosto de pensar que aprendeu conosco. E por isso abraçou-nos. Abraçou ao Léo. Penso que o Sr. Dr. Jefferson Braga, representando a PUCRS, entendeu ali que o protocolo podia ser quebrado, para que nossa fé na faculdade não fosse. Fé no seu lado mais humano. Provou que a Famed da PUCRS pode sim aplicar  a empatia que ensina. A turma, na sua maioria, demonstrou seu altruísmo nos cedendo espaço, o que não é surpresa, justo que formam um grupo que tinha a mais alta estima do colega que partiu. A #PUCRSentregouOabraço!

Aprendemos juntos que por amor vale a pena lutar. Levantar bandeiras. Criar campanha. Hashtags. Quebrar protocolos. Que histórias assim fortaleçam nossa crença que podemos modificar as instituições e acima de tudo, nossa própria humanidade. Nossa causa foi abraçada por muitos. E essa luta nos fez mais fortes. O amor prevaleceu. E quando digo prevaleceu e não “venceu”, é porque tudo isso não se tratava de uma disputa. Prevaleceu porque amor, empatia, humanidade, não são exigidos a ninguém. Ou existem ou não existem nas pessoas. E que estes sentimentos sigam nos movimentando, modificando, sabendo que eles não encerram quando a vida acaba. Amor, dedicação, sacrifícios, transcendem nosso tempo aqui neste plano. E que todo aquele que lutou por um sonho possa ter o seu nome lembrado e reconhecido, sempre que for preciso. Ao fim da cerimônia, um casal aproximou-se de nós pedindo também um abraço. Eram pais de um filho único que havia falecido na tragédia da Boate Kiss, de Santa Maria. Disseram-nos que coincidência nenhuma havia nos colocado tão próximos naquela plateia, que aquilo fora arquitetado por dois jovens lá em cima, operando pela nossa dor comum. A mãe do jovem, agradeceu a minha mãe por ter participado do nosso momento lindo na formatura, um ato de amor que fez tanto sentido para ela, tanto quanto fez para nós.

Alguns questionaram nossas razões, acusaram nossos egos, falaram que aquele era tão somente um pedaço de papel, apenas um canudo vazio. Ora para nós, ele era cheio de propósito e alegria. Representava o espírito do meu irmão, que nunca desistiu frente a uma dificuldade, que nunca se paralisou frente a uma injustiça, e que sempre se dedicou com seus amores. Aprendi por fim que a minha família NUNCA VAI DESISTIR. Da vida, da memória do meu irmão, de nós mesmos, de ter fé. Este Natal será marcado por encerramentos, como a formatura, e também pelo nascimento de novos ciclos. Novos sentimentos. Como família. Como amigos. Como seres de amor.  A renovação da nossa força. E força, meus caros, se aprende a ter, lutando. Então é preciso sim lutar. Não por vencer ou perder, mas simplesmente pela necessidade humana de sonhar e acreditar que podemos mover montanhas.

Na volta da solenidade perguntei ao Murilo se ele tinha chorado ao levantar o canudo do mano por estar nervoso ou emocionado. Sorrindo, o pequeno disse-me prontamente:

“Não mana, chorei porque estava feliz”.

Lutar vale a pena.


Fim da sessão.

E se palavras não transcrevem a emoção – cá está o vídeo*:

*vídeo = precisa estar logado no Facebook.

AGRADECIMENTO FORMAIS E NECESSÁRIOS

Primeiramente a universidade PUCRS e ao Dr. Jefferson Braga, por atender ao nosso pedido massivo de reconhecimento através da família do Léo. Aos Drs. Carlos Eduardo e Loredana Magalhães e família, nossos amigos e parte escolhida da nossa família, por nos aconselharam judicialmente e espiritualmente durante todo este processo. Aos veículos de comunicação por terem nos procurado demonstrando interesse na causa e por tratarem dela com delicadeza, atendendo aos nossos pedidos de jamais denegrir de qualquer forma a instituição PUCRS. A turma ATM 2015 que nos ajudou, aturou muitas vezes, compreendeu e apoiou o nosso pedido – em especial as colegas e agora Dras. Tatzie e Valentina.  A Nanda, Luisa, Nessa, Nathália e Andressa por serem maravilhosas amigas do Léo e agora se tornarem nossas. As minhas amigas, que também são amigas do Léo, por todo reboliço, numa mistura de revolta e amor, causado por seus grandes corações – Doka, Bia, Irlene, Jéssica. Aos amigos e família da minha mãe pelo suporte a ela – Nhaiobi, Duda, Déia, Elaine, Nilton, Jane. As minhas amigas e amigos que me abraçam na boa, na ruim e na difícil, Luana, Amanda, Pri, Pedro, Ana Cristina, Bárbara e tantos outros. A todos os leitores do Antônia no Divã, que sempre me enchem de amor, e ontem tomaram partido na minha luta pessoal. Muito obrigada por todo amor que recebo aqui. Ao DCE da PUCRS e ao Espartano Udep, todo o meu respeito. Meu agradecimento a todas as manifestações de carinho e encorajamento, através de compartilhamentos, emails, whatsapps e abraços – nos adoramos abraços. Ao meu pai por sempre me proteger e aconselhar. A minha mãe por ser a maior guerreira que já conheci, e por ter criado filhos idealistas e gentis. Ao Mateus por dizer que “o nosso show” (pra ele tudo que tem um palco é um show) pro mano Léo estava maravilhoso. Ao Murilo por tão lindamente levantar aquele canudo.

E ao Léo. Por promover sempre o melhor de todos nós. Por ser um exemplo. Somente hoje entendi que tua partida, que nos transformou tanto, não muda algumas coisas. Seguimos querendo sempre tudo de melhor pra ti. Seguimos cuidando de uns aos outros. Seguimos tentando ser bons e justos. Seguimos celebrando tuas, muito nossas, conquistas e glórias. Pessoalmente como tua irmã, a minha atitude, em nada mudou. Continuo te entregando tudo de mim, não pelo reconhecimento, mas porque não saberia fazer diferente.  Ontem sei que tu estavas sorrindo pra muita coisa, e dando risada de outras tantas. Parabéns pela formatura, Sr. Dr. Leonardo Mazzocchi – PhD na vida e depois dela.

Coisa de Antônia: Posso escolher? Obrigada! De nada!

No “Coisa de Antônia” de hoje no ATL Girls da Rede Atlântida, uma discussão sobre a difícil tarefa de escolher a própria felicidade sem incomodar os outros.

Dá pra escolher a própria vida e ter respeito? Posso escolher?

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