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Desculpa o transtorno, a réplica dos meus ex.

À convite do ATL Girls aceitei o desafio de pedir aos meus ex-namorados uma réplica da crônica sobre Gregório Duvivier e Clarice Falcão. E aí? Acha que rolou drama ou carinho?

Clique na imagem abaixo e confira:

ex

Desculpe o transtorno, mas eu cansei de falar de ex.

Desde o lançamento da música Hello de Adele, não havia tanta gente pensando no ex, como nesta segunda-feira, quando Gregório Duvivier abriu seu coração para a ex Clarice Falcão (e para o resto do mundo). A maioria de nós costuma guardar suas dores e sabores sobre o ex em um bloco de notas dentro de uma pasta oculta no computador, nas últimas páginas de um caderno antigo ou nas lágrimas rolando enquanto cantamos um sertanejo chorado. São tantas cartas não enviadas, e mensagens apagadas, que a atitude de Gregório foi avaliada pela maioria como corajosa, e com certa vergonha alheia pelo restante. A coluna dividiu opiniões, apesar do tom incontestável de fofice.

Li cuidadosamente os comentários de meus amigos no saudoso texto à Clarice, e a euforia em cada compartilhamento, e me pus a pensar quem deles teria a mesma atitude de Gregório. Peguei-me pensando se eu mesma teria, e tive as minhas dúvidas. Não me leve a mal, acho lindo que Clarice e Gregório tenham uma relação saudável pós-termino, mas convenhamos que as probabilidades do desfecho ser positivo, são menores do que maiores. Até porque não é a toa que o texto veio certo tempo após a separação. Dar-se bem com o passado, por mais feliz que ele tenha sido, leva tempo. A dor da perda precisa de espaço. A ausência tem que virar costume. E o silêncio, muitas vezes, é fundamental para a cura.

Mas fiz um ensaio como Gregório. Separei meus antigos amores em 3 grupos:  1) aqueles para os quais eu escreveria, 2) aqueles para os quais eu não escreveria nem sob tortura, e 3) aqueles que rasgariam a minha carta antes de ler.

Avaliando os exs para os quais eu escreveria, pensei que lhes diria como o tempo nos fez bem. Que os seus aniversários seguem na minha agenda mental com carinho, e que eu torço pela felicidade deles. À estes contribuintes da minha bagagem emocional, diria que tudo que levo são boas lembranças, não porque não dividimos perrengues, mas porque a vida se encarregou de apagar qualquer mágoa que tenha ficado. Agradecer-lhes-ia pelos colos que recebi, pois eu sei, eu sempre fui difícil na hora de ganhar colo. Não pediria desculpas por nada, pois a esta altura já não faria mais sentido, mas avisar-lhes-ia que eu hoje sou melhor por causa deles. Iria agradecer por me ensinarem tudo o que eu quero num parceiro, tanto quanto agradeceria por terem me ensinado o que eu já não quero – e que como foi importante chegar até aqui com estes parâmetros.

Àqueles que eu não escreveria nem sob tortura, revisei os motivos do porque e vi que as razões vão além do meu orgulho. Surpreendentemente. Entendi que alguns amores não se dissipam com o tempo e viram apenas boas memórias como nos casos do parágrafo acima. Alguns amores se transformam em sentimentos mais amargos, como rancor ou desdém, e estas são emoções que eu não gosto de revisitar, então pra que fazê-lo? Os representantes deste grupo tiveram todos os meus verbos, palavras e conjugações. Nossos argumentos foram exaustivamente analisados por um vasto período e os dias atuais lhes garantem apenas uma palavra monossilábica como “oi” ou um acenar de cabeça, e olhe lá. Garanto, é melhor assim. Fato, é que esse papo de “é sempre amor mesmo que acabe” ou “se está mal resolvido é porque existe algum sentimento” é uma tremenda bobagem. Sim, a gente se amou um dia. Mas não se ama mais, nem nutre algo como respeito ou carinho pela história que ficou, então pra que fingir simpatia? Não desejo mal a estes cidadãos, do contrário, lhes desejo muito bem… bem longe de mim.

E finalmente para aqueles que rasgariam a minha carta antes mesmo de abri-la, confesso que por esses representantes não nutro nada além de empatia. Sincera e generosa. Eu não estive certa o tempo inteiro nos meus relacionamentos e inclusive muitas vezes eu soube ser uma vaca. Sendo assim, da mesma forma como quero distância de algumas bagagens, eu não tenho dúvidas que eu seja a mala sem alça de alguém, louca para ser perdida em um redespacho na Tailândia. Hoje eu já desisti da comunicação com esse grupo, mesmo que com a melhor das minhas intenções. Seria arrogância minha forçar a barra. Óbvio que eu levei 4 emails não respondidos e um block no Facebook para entender a mensagem – ora quem nunca – mas hoje eu já fiz as pazes com os silêncios que levei. E agradeço também a eles, como ferramentas de análise da minha própria consciência.

Eu demorei muito tempo para parar de remexer no meu passado, e confesso que meus ex-amores só tornaram-se amigos com esforço mútuo, tempo e espaço. Porque antes de falar de ex, é preciso fazer uma faxina na bagunça que é uma separação. E é importante destacar que eu só comecei a olhar para frente, depois que deixei de revisar os meus passos olhando para trás. Talvez Gregório e Clarice sejam seres superiores na arte do desquite. Talvez a coluna tenha sido uma ação de marketing em cima do novo filme da dupla. Não importa. Mas antes de sair suspirando com saudade do ex, e lhe mandando textão no Facebook declarando como vocês foram felizes, convido a um exercício.  A minha melhor amiga me ensinou uma estratégia muito simples para decidir falar com ou para um ex, uma pergunta simples que sempre me botou a pensar, mesmo quando estava decidida pelo contato:

Antônia, você está preparada para a resposta que vai ouvir? E para a falta de resposta?

Responder essa pergunta sempre me deu paz, qualquer que fosse a minha decisão depois dela. Então antes de sair jogando os verbos no ex, pense nisso. Ou no fato de que Clarice ainda não respondeu a carta do ex. E muitas vezes o silêncio vai falar mais alto.


Fim da sessão.

Troços e traços

A pior parte de sentir a falta de alguém é a permanência dela em objetos inanimados, coisas que antes eram inofensivas. É “um fio de cabelo no meu paletó”, já diria Chitãozinho e Xororó. Antes, aquele fio era apenas um cabelo solto, entretanto, na ausência da pessoa amada, ele é um universo de memórias. Tem cheiro, tem presença e até inconveniência. Não dá pra negar a saudade quando ela deixa provas do crime. O crime é essa falta que se sente. E a vítima é você, agarrado(a) apenas às evidencias do que já foi.

Durante a minha vida, sempre que eu terminava um namoro, gostava de exorcizar o meu apartamento de qualquer vestígio daquela relação. Pelo menos naquele tempo de lutar contra o luto, sabe? Devolvia tudo que era dele na primeira semana de separação, e lavava todas as minhas roupas para evitar resquícios de perfume. Ok, cheiro não é objeto, mas ainda assim é prova da presença-ausente do outro. Eu tocava fora as escovas de dente e de cabeços, para ter nenhum DNA daquele ex-amor.  Ficava meses sem usar alguns objetos, como taças de vinho, ou aquele cobertor que ele costumava me tapar quando pegava num sono no sofá. E quase tinha uma taquicardia quando me deparava com um CD de fotos nomeado “Frackels” (sardas) – fazendo referência às marcas que o verão deixava no meu rosto, e da coleção de momentos em que nós nos amávamos. No fim de um romance, todo mundo já teve vontade de chamar o caminhão da mudança (em alguns casos até o do lixo).

Fato é que objetos acabam personificando pessoas, lugares, momentos, fases, sensações. Um isqueiro esquecido por aquele amigo que botou o pé na estrada e deixou saudades. O vaso de flores secas daquela formatura memorável, cheia de momentos que não voltam mais. Aquele tamanco/tênis/chinelo que transpira a um verão especial. Um moletom que lembra o colo do pai. A blusinha que lembra alguém que você já foi, e não é mais. Todos os badulaques e tranqueiras que te lembram algum lugar do mundo, e aquele seu lado aventureiro que só floresce com a mochila nas costas.

E de fato é engraçado ver como vestimos certas indumentárias conforme a nossa necessidade. Sempre que eu estou desanimada, coloco um colar que tenho que comprei em Austrália, lá onde a minha melhor amiga anda voando as tranças. O colar tem uma bolota de vidro cheio de areia feita de conchinhas do Manly. Quando uso ele, é como se tomasse um pouco da energia de um final de tarde na praia na companhia da minha saudosa amiga, e costumo ficar mais animada. Ou quando me desespero com as minhas contas, acendo um incenso que ganhei de um hippie no Cabo Polônio, para me lembrar de que se eu quiser, também jogo tudo pro ar e vou morar sob as estrelas naquele lugar sem eletricidade. E esses cheiros e formas, de algum jeito vão mexendo conosco, mesmo sem terem a capacidade de se movimentar. Mas destapam ou cobrem as nossas angustias, afagam nossas agitações, acordam nossas saudades.

Ontem em mais uma das expedições ao apartamento do meu irmão para organizar os  pertences que ele deixou, minha mãe me encontrou chorando dentro do armário, abraçada a uma jaqueta horrorosa dele. Aquela jaqueta não tinha apenas o cheiro do meu irmão. Ela tinha gotas de sangria em Barcelona, tinha o pó dos guarda-sóis de Brighton. Tinha as brigas de quem ia ao supermercado durante o inverno. Tinha as minhas calcinhas escondidas nos bolsos quando voávamos nos minúsculos aviões de bagagens econômicas (e microscópicas). Tinha o recibo de um Starbucks que foi jogado fora, já que o meu irmão nunca lembrava da minha intolerância a lactose. Aquela jaqueta foi cobertor na praia, e aumento do assento durante inúmeros musicais ao lado dele.

Aquela jaqueta não era mais um pedaço de tecido, ela era nós dois soltos no mundo e presos um ao outro. Foi proteção, almofada, capa de chuva. Agarrada na jaqueta me dei conta de que aquela não era a minha primeira comossão frente a um “amuleto” do meu irmão. Desde que meu irmão se foi, passei a vestir suas camisetas arriadas. Assistir a todos os seus DVDs e ler seus livros. Já me peguei usando seus óculos de leitura e eu nem preciso deles. Em noites difíceis já dormi com o estetoscópio do meu irmão nos ouvidos ouvindo meu próprio coração. Passei a colecionar suas tralhas e seus tesouros numa tentativa de sobreviver a ausência dele.

E diferentemente de outras despedidas, esses vestígio de amor, essas provas de existência, não eram mais a sobra do que foi. Mas simplesmente tudo o que me restou.

E assim eu passei a dar mais valor às memórias tangíveis, desde o dia em que elas passaram a única presença física que eu tenho de um amor que não vai mais voltar. E diferentemente do que disse lá no início, hoje posso dizer que a MELHOR parte de sentir a falta de alguém é a permanência dela em objetos inanimados. Objetos que podem ser abraçados e cheirados. Talvez eu finalmente tenha entendido que esses troços, são traços de uma passagem dentro da minha casa, da minha vida, da minha alma. E me arrisco a dizer que provavelmente seja por isso que a gente não leva nada desta vida. Quem sabe essas coisas sejam mesmo um legado físico herdado por quem mais precisa de traços palpáveis de amor.


Fim da sessão

PS¹: Beijo enorme para a minha mãe, essa boa alma que mesmo depois dos meus 30 anos, segue me consolando quando eu choro dentro do armário (desde os 5 anos).

PS²: Beijo enorme para o Murilo, que aos 5 anos, sabe quando me ligar às 7:00 da manhã, depois de uma noite ruim, apenas pra dizer que tem saudades minhas.