Arquivo da tag: empoderamento

A rua é delas | Coisa de Antônia

Ehhhhhhhhhhhhhhh!! Ontem teve protesto, e foi lindo! Cola lá na Rede Atlântida, que o Coisa de Antônia fez a cobertura!

Clique na imagem:

a rua é delas (1)

 

A filha de alguém

Quando eu tinha uns 9 anos, o meu primo de 14 me fez sentar no colo dele. Ele me disse que era a nossa brincadeira secreta, um “futebol humano”, jogo em que eu era a bola, e ele me segurava sentada bem em cima da cintura dele, antes de me lançar para frente como um jogador faz em um impedimento. Eu nem sabia o que era impedimento, e muito menos como impedir aquela brincadeira. Aconteceu uma vez só, e eu odiei como eu me senti. Contei para a minha mãe, que prontamente tomou as providencias. Deve ter conversado com a minha tia, pois o episódio nunca mais se repetiu. Hoje o meu primo tem uma filha menina. E fico pensando se ele teme que um primo também brinque com ela, do jeito que ele brincou comigo.

Quando eu tinha uns 12 anos, eu comecei a ouvir de um tio que eu estava ficando “gostosinha”. Eu não sabia nem da onde ele tirava aquela expressão, pois dos meus seios inexistentes e da minha cintura sem curvas não devia ser. Lembro-me do desespero da minha avó abotoando todos os botões do meu vestido, rapidamente depois do banho, porque mocinha não podia mostrar as costas. Não entendia como as minhas costas ofendiam a minha castidade, ou a religiosidade da minha avó. E muito menos, não entendia como os meus botões eram pecaminosos, enquanto todo mundo achava o apontamento do meu tio normal. “Vai dar trabalho essa minha sobrinha!”, ele dizia enquanto dava um tapa na minha bunda. Eu odiei todas as vezes que isso aconteceu, e meu pai, filho do patriarcado, achava que era só um elogio, enquanto a minha mãe bufava. Hoje meu tio tem uma filha menina, e fico pensando se ele gostaria que outro tio comentasse ~insistentemente~ como ela é “gostosinha”.

Aos 14 anos tive o meu primeiro namorado, cujo relacionamento tinha orientações claras da minha mãe para não evoluir em nada que eu me arrependesse, ou pelo menos, nada sem antes conversar com ela. A minha mãe nem imaginava que eu morria de medo de perder a minha virgindade, e por conta disso ela não precisava se preocupar comigo. Em um almoço de família na casa do meu namorado, o meu então “sogro” perguntou ao meu namorado se ele já estava “comendo essa vaca” na frente de todos os convidados. Todos riram, inclusive o meu namorado. Eu quis sumir pra dentro do meu hímen intacto. O meu sogro na época tinha uma filha um pouco mais velha que eu. Eu sempre me perguntei se ele se preocupava com o filho ou pai de outro alguém, comendo ou comentando sobre a virgindade da filha dele em um almoço de domingo.

Aos 21 anos eu tive o meu primeiro relacionamento abusivo. Ele gritava, humilhava, e ficava violento. Usava o meu dinheiro sem nenhum constrangimento – “depois eu te pago” ou “tu ganha mais, pode pagar pra nós dois”, eram as justificativas que eu ouvia. Quando ele não queria transar, alegava que eu estava ficando gorda, e eu, que começava a ter um corpo de mulher, tive a autoestima destruída. Eu me afastei das minhas amigas e da minha família por vergonha dos abusos constantes. Ele conseguiu me convencer que era a melhor pessoa do mundo pra mim. Roubou todos os meus sorrisos de conquistas, alegando que eu “sempre tinha que me aparecer”. Em certas ocasiões, ele segurou meu pescoço e torceu meu braço. Eu mesma me tornei arisca como um gato escaldado. Ainda assim, ele vivia me dizendo que me amava como ninguém. Foram anos de abuso ainda que eu fosse bem instruída, bem nascida. Tempos depois da minha libertação daquele relacionamento, descobri que meu ex tornara-se tio de uma menina linda. Desde então fico pensando se ele gostaria de alguém como ele para “amá-la como ninguém”, do mesmo jeito que ele me “amou”.

Depois de uma vida namorando, tive alguns momentos de solteirice, que me levaram a ter relacionamentos mais curtos e levianos. Em um deles, no meio de uma relação, o cara arrancou a camisinha do pênis dele, e entrou em mim sem proteção e sem me avisar. Ele achou que tinha o direito de decidir por mim os riscos que eu podia correr. Meses depois, encontrei-o numa festa e fingi que não o vi, anojada da lembrança. Ele veio até mim e me perguntou em tom agressivo se eu era dessas de “dar para um cara e depois virar a cara”. Sorri constrangida e não consegui admitir em voz alta que a minha antipatia era fruto da invasão que ele tinha promovido. Tempos depois, estava saindo com outro cara, e passados alguns encontros ele decidiu que tinha intimidade suficiente para tirar fotos minhas pelada, enquanto eu dormia depois do sexo. Descobri as fotos usando o celular dele para chamar um táxi, com a intenção de não acordá-lo de seu sono de domingo (sim, como eu sou legal). Esses caras tinham irmãs, mães, tias, amigas, mas eu não era nenhuma delas. Eu era a filha de outro alguém. Irmã, de outro alguém. Talvez uma vagabunda, ou uma qualquer. Eu não podia ser só uma mulher, tinha que ser propriedade, objeto, descartável.

Na rua, sempre andei com medo. Dos tapas da bunda de caras de bicicleta, dos velhos tarados segurando o pau enquanto eu passava. Eu sempre odiei “fiu-fiu” de qualquer tipo. E de uns tempos pra cá, toda essa sensação de abuso constante começou a não caber mais dentro do peito. Eu comecei a enfrentar os atrevidos e encarar os bagaceiros. Eu passei a fazer barraco em festa, se alguém passasse a mão em mim. Eu cheguei a um ponto de tirar satisfação de um segurança de banco, que disse que ia “me chupar todinha” com uma escopeta na mão. Não bastava ser um homem, nojento, com duas vezes o meu tamanho. Ele mexia comigo sabendo que além de toda a opressão que ele inspirava, ele ainda estava armado. Não me calei, e não tenho mais me calado. Talvez eu esteja mesmo ficando maluca. Maluca, chata, feminista, revoltada. E eu estou consciente que eu posso ser todas essas coisas. Mas oprimida, nunca mais. Violada, nunca mais. Diminuída, nunca mais.

Na semana passada, em que todos nós tivemos que lidar a dor de uma jovem violentada por 33 homens, eu revivi cada um dos meus abusos – destes contados aqui, como todos os outros já vividos. Ironicamente, na mesma semana/feriado em que acorreu o caso, eu viajei para a praia na companhia apenas de homens, os meus amigos. Conversamos longamente sobre o caso, sobre as repercussões, e todas as formas de abuso que a gente precisava desconstruir. As piadas, os compartilhamentos, as posturas. Sempre que um deles ficava confuso sobre a cultura do estupro, eu botava a mãe no meio. Respeitosamente, claro. “E se fosse com tua mãe, essa situação?”; “E se falassem isso da tua irmã?”, “E se fossem fotos da tua amiga?”. Pouco a pouco, até mesmo as questões mais polêmicas, iam se enchendo de empatia. E conversando, a gente foi aprendendo juntos. Talvez em razão da enxurrada de conhecimento que se espalhou pelas redes nos últimos dias. Ou talvez porque com este caso, finalmente muitos dos homens – inclusive os meus amigos – se deram conta que toda mulher abusada, violada, humilhada, é sim, filha de alguém. Basta empatia para comover-se com suas histórias. Basta empatia para pôr um fim nisso tudo. Por todas nós.

Estupro nunca mais. Abuso nunca mais.

Somos todas filhas de alguém.


Fim da sessão.

(vídeo - você deverá estar logado no Facebook)

Gatedo, se você não é parte da solução, você é parte do problema.

Denuncie:180

Bela, recatada e do lar | Coisa de Antônia

Precisamos falar sobre Marcela Temer. Aliás, permita-me uma correção, precisamos falar sobre o que falaram sobre Marcela Temer – a “bela, recatada e do lar”, esposa do vice-presidente Michel Temer.

Vinde a mim as belas, recatadas e do lar:

Bela,Recatadae do lar

Beijo, ‪#‎belarecatadaedolar‬ Bela, Recatada e do Lar

Ei garota, vira mulher vai! | Coisa de Antônia

Garota, senta aqui e me escuta direitinho. Ninguém tem inveja de você, é serio. Você pode guardar o seu passive-agressive facebookiano porque ninguém liga para o que você tem a dizer “prazinimiga” ou “prazinvejosas”. A gente tá muito preocupada pagando boleto da Leroy Merlin – coisa de adulto, sabe? Então simplesmente PARE agora.

E lá no ATL Girls da Rede Atlântida vou te explicar porque, corre pra lá:

Ei garota, vira mulher vai!

Feminist

Hoje é a última terça-feira de março, e mais uma vez eu só tenho gratidão por esse canal. No mês em que “celebramos” o dia Internacional da Mulher, gostaria de agradecer a todos os leitores e leitoras do blog por fortalecer o meu feminismo.

Através de vocês fortaleci minha voz, promovi discussões e fiquei mais forte. E por saber que tenho muito para aprender, encerro o mês de março (mas não sua importância) através da fala de uma mulher admirável, muito mais inteligente que eu, cujo discurso não apenas inspira, mas elucida.

Com vocês, senhoras e senhores, a maravilhosa Chimamanda Ngozi Adichie: 

E se não servir, bota a Beyonce de plano de fundo para Chimamanda, e roda a baiana, linda.

 


Fim da sessão

O mundo é seu, mas não ande sozinha.

Eles dizem que o mundo é nosso, mas que não podemos andar “sozinhas”. Viajar sozinha. Ir até a esquina sozinha. Precisamos do “Vamos Juntas” para o simples ato de transitar.

Eles dizem que ser mãe é uma dádiva, mas impedem a tua escolha, marginalizando aquelas que optam pelo contrário. As mesmas pessoas que condenam o aborto, muitas vezes são desprovidas de um útero, ou mesmo da responsabilidade com a paternidade, já que o aborto masculino é legalizado de longa data.

Eles sexualizam o ato de amamentar, na mesma proporção que cobram tua responsabilidade como mãe.

Eles elogiam o vermelho do teu batom, mas negam o roxo da tua pele. Aquele que surge sempre que você “cai no banheiro” ou “tropeça na escada”.  Eles criticam o vermelho do teu batom, que é muito vermelho, o que caracteriza a tua falta de pudor e teu ar libertino. Puta, tu só podes ser.

Dão-te flores no trabalho, e um salário menor do que os colegas que vestem cuecas.

Se for negra, ou gorda, ou lésbica, teu valor será dado como inferior. Matam-te nas periferias, com a velocidade da internet 3.0, que diz que o mundo anda politicamente correto em excesso. Promovem a gordofobia, pois tuas curvas não cabem dentro de limitados padrões e da miopia de quem não entende nada sobre diversidade. Te agridem por gostares de mulher, porque teu problema é mesmo falta de pau.

Eles celebram a mulher moderna e decidida, mas condenam-na pelos shortinhos, saias, decotes, biquínis, tapas-sexo, burcas.

Vestem teus trajes no carnaval, e apedrejam outras mulheres que um dia nasceram homens.

Gostam da tua sensibilidade, te ridicularizam quando estás sensível.

Tua opinião é bem-vinda, desde que seja respaldada da razão masculina, ou o teu discurso alternará entre o “papo de mal comida” ou “de vagabunda”. Impressionante como a opinião feminina tem relação direta com a sua frequência sexual.

Serás exigida ser uma dama na sociedade e uma vagabunda na cama, enquanto muitos deles se comportam como querem na sociedade, e pouco se importam com o que queres na cama.

Alegam que somos sagradas criaturas aperfeiçoadas da costela de Adão, mas estupram os templos de Eva por que “pedimos por isso” através de nossa indumentária ou atitude.

Celebram nossa divindade de gerar a vida, enquanto a nossa própria é constantemente assediada, humilhada, mutilada, vendida, explorada, marginalizada. E com este tratamento que recebe um grupo sub-humano, um resto de gente, uma insignificância, não hei de celebrar o dia da mulher.

Dia 08 de março é um dia de luta, não deixe-se enganar pelas flores. Sim, nós somos maravilhosas! Mas lembre-se de o caminho pela igualdade é longo e árduo. Nós temos muito que revindicar, proteger, preservar. Que este dia sirva para reforçar de que juntas , somos muitas. Aliás, somos metade da força que povoa e movimenta este planeta. E mãe da outra metade. Tá mais do que na hora de botar ordem na casa.

E se o mundo é mesmo nosso, guerreemos para ter a segurança e liberdade de andar por ele sozinhas. Sozinhas, e mesmo assim, uma ao lado da outra.


Fim da sessão.

“Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida”

Milton Nascimento

Vá, gina. Vá ser feliz.

Eu vivo em constante conflito com a minha vagina. Aliás, pobre dela que não tem culpa nenhuma. Eu vivo em constante conflito com o fato de ser dona de uma vagina. Talvez seja coisa da idade, fase em que embora eu tenha muita coisa pra definir ainda, algumas eu já gostaria de ver com mais tranquilidade. E é uma montanha-russa de emoções, essa coisa de ser mulher. Para algumas o processo é super natural, e surge como o desabrochar de uma rosa. Eu nunca fui rosa. Eu mal e mal me considero uma couve-flor – mas ainda assim me esforço para ser reconhecida, importante e comida como uma couve-flor.

Hoje é difícil falar dos dilemas de ser mulher, sem parecer uma extremista. Já falei aqui que eu preferia não ser feminista, se os meus direitos fossem entregues de mãos beijadas. Não sendo o caso, eu preciso ser uma feminista. E este é um desafio diário. Há algum tempo atrás fui convocada para uma reunião com o alto escalão da minha empresa, na qual me pediram para que eu desse feedback/corretivo em um integrante da minha equipe. Comentei que o caso era uma reincidência, e sugeri tomar uma ação mais incisiva, através de uma advertência formal para a atitude desaprovada pela empresa. Foi quando me foi sugerido que, ao invés da advertência, a conversa fosse feita entre o meu gerente e o funcionário, numa linha assim mais… “de homem pra homem”. O que me espantou não foi a oferta do meu gerente fazer a intervenção no meu lugar, dada a sua posição superior na hierarquia. O choque veio porque ele se ofereceu pra ir no meu lugar, porque eu tinha uma vagina. Eu tenho pós-graduação em uma universidade bananinha de Londres, uma especialização em otimização de profissionais, curso que conclui com distinção (e em outra língua, for God’s sake!!!) e 10 anos de experiência. Ah, e uma vagina! Uma vagina bilíngue e pós-graduada, mas ainda assim, uma vagina. Tá me entendendo?

Ao passo que meu amadurecimento sexual vem sendo desenvolvido, dilemas deste tipo passaram a me assombrar não apenas na esfera de onde se ganha o pão, mas também onde se come a carne. Em uma recente conversa com um amigo gay mais experiente (pra não dizer mais velho), conversávamos sobre as diferenças de aplicativos de paquera e os divergentes comportamentos nas relações hétero e homo – mais especificamente, sobre a praticidade e igualdade nos relacionamentos entre homens. Durante a nossa conversa aquela bicha (com todo o meu respeito e admiração) disparou a sua sinceridade como um tiro de fuzil na minha cabeça. “Vocês mulheres evoluíram tanto sexualmente. Já conseguem falar abertamente sobre prazer, fantasia e desejo. Hoje vocês já tomam atitude. Entretanto, por que diabos vocês seguem fingindo orgasmos por aí?”.  Olhei para baixo encarando o chão. Tinha medo de olhar para os olhos do meu amigo e ter meu clitóris transformado em pedra, como quem encara a Medusa (do sexo). Como eu, uma pseudo – feminista, não conseguia me libertar desta “obrigação” de agradar na cama? E a custa do meu próprio prazer? Fiquei furiosa comigo por conta daquela conversa. E de novo, coitada da minha vagina!

Aprofundei-me na minha análise sobre o comportamento feminino de “fingir e esconder”. Concluí espantada que pouquíssimas das amigas moderninhas que tenho, são capazes de adquirir ou mesmo admitir, serem donas de seu próprio vibrador. Algumas alegam que o aparelho não substitui o contato, outras fogem da questão como se eu estivesse promovendo o anticristo. Eu mesma demorei anos pra ter meu primeiro vibrador – o Ricky Martin, presente de uma amiga muito mais inteligente que eu. E quer saber, o número de idiotas com quem eu transava apenas por querer transar caiu pela metade – pela metade! Eu me tornei mais seletiva. E se a vontade me pega desprevenida, não tem mais telefone vibrando na madrugada para um booty-call. É “un, dos, tres. Un pasito pa’delante María, e Ricky e eu vivemos “la vida loca” a noite toda, se eu quiser. Não estou aqui dizendo que eu trocaria um homem de verdade por um par de pilhas. Estou falando sobre a escolha de se conhecer, se curtir, e ser dona do próprio prazer. Parece simples, mas não é.  E quebrar essa tabu é difícil – gozar através dele, nem tanto 🙂 . E sua vagina agradece – eu garanto.

E se ser mulher no trabalho ou na cama é um perrengue, no contexto social não muda muito. Dia destes minha mãe encontrou uma antiga amiga minha em um evento, e me contou como ela achava que a Fulana devia estar feliz com a gravidez do segundo filho, e seu casamento estável. Foi até o momento do marido da Fulana começar a proferir insistentes grosserias contra a minha amiga, na frente da minha mãe. Naquele momento, ela parou de fantasiar o futuro da própria filha, e passou a admirar o presente dela – sim, o presente de uma solteira de 30 anos, mas de uma solteira feliz, longe de um relacionamento abusivo. Na ocasião deste papo comigo, minha mãe me abraçou e suspirou aliviada “ai, prefiro te ver mãe solteira, e estar condenada a infelicidade de um casamento disfuncional”. Fingi a ofendida – “Caraca mãe, essas são minhas duas opções: maternidade voo solo ou relacionamento abusivo?”. Ela riu das imposições sobre o futuro, com ares de culpada. De fato, eu nunca vi ninguém da minha família preocupar-se com o futuro amoroso do meu irmão, ao contrário do que ocorre comigo vez que outra. Talvez por eu ser mais velha. Ou simplesmente por ter uma vagina.

E no andar da carruagem do auto-conhecimento feminino, a gente tenta se convencer que estas questões não nos abalam, quando blindar-se da influencia negativa é tarefa árdua. Por mais segura que uma mulher seja, verdade é que ela se depara diariamente com questões complexas, dado o simples fato de ter uma vagina. Elas têm medo de sair à noite por ter uma vagina.  Elas sentam com as pernas fechadas por ter uma vagina. Elas toleram conversas nada bem-vindas durante a gravidez, porque todo mundo tem uma opinião sobre suas vaginas (trocar de lugar na hora do parto normal ninguém quer, né?). Elas regulam seu apetite sexual, pra não ter uma vagina “mal falada”. Elas são promovidas ou não são promovidas por ter uma vagina. E foi justamente por estar preocupada com tantas questões envolvendo a minha vagina que procurei uma especialista – uma ginecologista. Nada além de exames de rotina, pré-câncer (FAÇAM PRÉ-CÂNCER!) e uma preocupaçãozinha mínima sobre a queda da minha libido. Andava “desestimulada” até para brincar sozinha e aquilo vinha me preocupando. A gineco me disse que estava tudo certo comigo, não fosse uma “depressãozinha” da minha querida. Lembrei-me de Charlotte, na 4ª temporada de Sex and the City e seu dilema da vagina deprimida. A minha vagina estava triste, e apesar dos lábios, a pobrezinha não podia dizer nada a respeito num divã. A médica me explicou que era uma fase ligada ao meu psicológico, e que logo ela voltaria a ficar mais animadinha.

Óbvio que a minha vagina está triste. Não fosse todos os problemas que eu já enfrento, repare a quantidade de dilemas que ela ainda me causa. Aliás, de novo, coitada dela. Ela é só uma vagina. Mas para o meu chefe, ela resume a minha incapacidade. Para muitos ela tem mais obrigação de dar prazer, do que receber. Ela não pode nem ter brinquedos, ou deve tê-los em segredo. Ela é estuprável. Ela é casamenteira. Parideira. Ela é libertina. Depilada – pra sempre depilada. Ela é temperamental. Ela é deprimida. Mas no fundo, ela só queria ser uma vagina.

Sei que apesar de todas as dificuldades impostas, nós sairemos juntas desse momento de desânimo, a minha vagina e eu. Até porque dependemos uma da outra para sermos felizes. Então não importa quanto tempo vai levar, ou quantos tabus haveremos de quebrar, ou quanta intolerância e incompreensão teremos de derrubar. Um dia todas nós seremos livres destas amarras que nos abatem. E poderemos  dizer com tranquilidade: vá-gina, vá ser feliz.


Fim da sessão.