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DOWN, UP!

Você entrou na minha vida como alguém diferente. Irmãzinha da minha melhor amiga, apenas alguns anos mais nova que eu. Teus olhos puxadinhos sorriam com qualquer estímulo. “Manuela” te chamaram, embora tu atendesse melhor com carinhos e cosquinhas. Um bebê lindo e “especial”. Pois é, além de Manuela, te chamavam de especial, e eu entendi bem o porquê. Apesar da pouca idade, quando criança, você sempre foi pura personalidade. Geniosa, destemida carinhosa, espertalhona. Logo: especial! Lembro-me de um dia perguntar para a minha mãe porque você tinha dificuldade de falar como as outras crianças. A minha mãe, então, me contou que você tinha Síndrome de Down.

“Síndrome de Down”. O nome me assustou. Imediatamente questionei minha mãe se aquilo era grave. Ela então, com todo carinho do mundo, me explicou que a tua condição não era uma doença. Você só era diferente, porque tinha um cromossomo a mais que eu. “Um cromossomo a mais” – pensei surpreendida. Aquela informação confirmava outra teoria que eu tinha: você estava a pelo menos um passo na minha frente em tudo.

Nossas famílias, vizinhas e amigas, seguiram suas vidas criando os filhos juntos. Não tenho uma memória de infância ou da adolescência em que você não estivesse lá. Com o tempo e afinidade, desenvolvemos uma linguagem própria para falar contigo.  E você nos ensinou outras formas de comunicação. Hora com sons, hora com referências, hora com olhares. Usava de toda paciência do mundo para me explicar tuas ideias, quando eu não conseguia – por alguma deficiência minha – entender o teu universo. Produzias um som, que te acompanhou a vida inteira, que expressava tua satisfação e felicidade – como a zumbido de uma abelhinha. Aliás, hoje penso que todos nós deveríamos desenvolver um som que anunciasse a nossa alegria – desta forma ela não passaria despercebida por ninguém, algo tipo “zzZZZzzz…  Ei! Olhem! Tô feliz!”.

Por causa de ti, desde muito cedo, entendi que todo mundo era diferente, de alguma forma. Da infância a fase adulta, por conta de meu contato próximo contigo, fui educada à ideia de que tu não eras menos capaz, menos inteligente ou de maneira nenhuma desprivilegiada. Só diferente. Olhava o mundo com outros olhos, tinha outra velocidade. E que “diferente” não era um problema. A convivência contigo me obrigou a tratar todas as pessoas que conheci com igualdade e respeito. Cromossomos a mais ou não. Talvez não fosse por ti, eu teria sido uma criança mal educada, daquelas que pratica bullying. Ou pior, um adulto intolerante.

Fato é que você cresceu, e hoje, uma mulher, continua me surpreendendo. Eu enxergo mais empatia nos teus olhos puxadinhos, do que outros cidadãos desprovidos do teu cromossomo extra. Já te vi apaixonada exatamente como eu. Sofrendo e se reerguendo após um término de namoro, como eu. Dormindo cedo, batendo ponto, pagando conta, como eu. De TPM, irritadiça e revoltada. Como eu. Vi também você me acolhendo no teu colo, dando teus conselhos e dividindo teu otimismo inabalável por dias melhores.

Mas não foi só em ti, que vi força em superar o preconceito. Vi em Débora Seabra, a primeira professora com Síndrome de Down a ganhar o prêmio de educação por uma câmara de deputados. Vi no kikito do ator Ariel Goldenberg, pelo filme “Colegas”. No maestro, conferencista, apresentador, escritor e ator espanhol Pablo Pineda. Como na também espanhola Angela Bachiller e sua posição de prestígio na câmara de vereadores da cidade de Valladolid. E outros tantos exemplos.

Nesta semana, o dia 21 de março foi marcado pelo Dia Internacional da Síndrome de Down. E eu vim aqui agradecer. Quero demonstrar a minha gratidão a todos os portadores da síndrome, que não apenas executam todas as tarefas diárias, mas que superam os preconceitos e ainda educam pessoas mundo a fora sobre inclusão, unicidade e respeito. Agradeço a perseverança e coragem de pais, que precisam lidar com a falta de estrutura no sistema educacional brasileiro, e que não desistem de mudar e melhorar o cenário atual. Agradeço a todas as empresas que contratam, preparam e promovem uma vida com dignidade e independência a este capital humano tão especial, quanto capaz.

Mas principalmente agradeço a Manuela Magalhães, a minha Manu – amiga, companheira, e exemplo de felicidade em cada etapa de seu crescimento e do meu. A tua participação na minha vida, Manu, elevou os meus conceitos a patamares mais dignos de humanidade. Talvez por isso a síndrome não devesse ser chamada Síndrome de Down* (*referência ao sobrenome do descobridor da síndrome, mas que no inglês poderia significar “baixo”). Talvez a síndrome devesse ser renomeada a Síndrome de “Up” (alto), uma vez que ela tem a capacidade de elevar o espírito e o orgulho de toda pessoa que tem o privilégio de conviver e aprender com alguém que nem você, Manu (Débora, Ariel, Pablo, Angela…).

Esse cromossomo a mais, merece uma dose extra de respeito e admiração. Sem dúvidas!


Fim da sessão.

O primeiro dia de aula

Segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Eu ainda consigo lembrar da comoção do meu primeiro dia de aula. De aula de verdade – não aquela recreação organizada que é o maternal e o jardim de infância. Aula da primeira série. A primeira série de muitas. Lembro-me do cuidado que minha mãe teve para organizar o meu material de forma sistêmica – tudo etiquetado, tudo combinando. O cheiro dos cadernos novos. As canetas. Eu estava oficialmente autorizada a usar canetas – ainda que fosse encorajada a usar o lápis antes. Na primeira série eu ia aprender as palavras – e eu sempre amei as palavras, ainda que não as entendesse.

Nesta segunda-feira eu revivi o meu primeiro dia de aula através dos moleques lá de casa. As badaladas das 6h30 tocaram, avisando que as férias haviam acabado. Nada de preguicinha no corpo. Os uniformes deles me lembraram a minha jardineira, ainda que não fossem tão coloridos. O sorriso de excitação tinha a mesma cor do meu aos quase sete anos. O Murilo tentou usar a lógica para ficar mais na cama – “mas a gente vai estudar todo dia, o que custa não ir no primeiro dia?”. Foi uma torcida de nariz da mãe para derrubar seu argumento, enquanto ela tentava com muito esforço domar a cachopa crespa do Mateus.

Revirei-me na cama por mais alguns minutos. Na minha condição de adulta eu já podia me dizer dona do meu horário. E da cama eu ouvi a doce melodia da primeira manhã agitada do ano. A mãe orquestrava com maestria o café da manhã, o preparo do lanche, a serelepice de ambos. Era tanta novidade e tantas perguntas que o sossego da minha cama já não fazia mais sentido. Ouvi o barulho da garagem, e corri apressada escada abaixo a tempo de roubar-lhes um beijo de boa sorte antes da aula. “Mana, tu tá com bafo!” – eles protestaram. E ganharam um segundo beijo só de implicância – coisa e irmã mais velha. Despediram-se abanando do carro, num misto de preguiça e excitação.

Eles dividiam esse dia, com a mesma alegria desajeitada e sonolenta que um dia, o meu irmão Leonardo e eu dividimos.  Um aperto de saudade despertou em mim.

O dia correu como outro qualquer para as adultas da casa. Contas para pagar, perrengues para resolver, dramas para acalmar. Um e-mail aqui, uma discussão ponderada dali, uma a uma as nossas metas sendo batidas ou procrastinadas. Olhando pra minha listagem de perrengues, cuja caligrafia segue parecendo a de uma recém-alfabetizada – voltei novamente à atenção para a minha primeira série. Havia tanto de mim que se criara dentro da escola – na mesma primeira série que nesta segunda-feira os meus irmãos iniciavam. O desejo pelo desconhecido. As cores da sala de aula. Os amigos novos. O desejo por desafios. O trabalho em equipe. Eu sempre tive sorte na minha educação. E com um esforço muito fodido, a minha mãe e eu (e mais alguns anjos da guarda), tentávamos garantir o mesmo para a dupla de jovens mentes lá de casa. O que mais podia ser prioridade?

Na saída do turno da manhã, perto do meio dia, esperava ansiosa a abertura dos portões da escola dos guris. Quando abriram, andei pelo pátio da escola com minhas pernas de menina querendo correr. Após localizar a sala dos dois, fiquei por alguns minutos escondida na janela, vendo suas classes ordenadas em fila, em uma estranha ordem que dificilmente se consegue lá em casa. Ao me avisarem, escondi-me atrás do muro da janela – subindo e levantando, enquanto eles gargalhavam e apontavam – “olha lá, aquela é a nossa mana”. Tive um súbito de felicidade quando os dois explodiram nos meus braços com suas mochilinhas do Cars nas costas. Pegando na minha mão – eles apontavam animados para o prédio ao lado “olha mana, agora a gente tem uma biblioteca!!!! ”.

Pronto.

O que mais uma escritora poderia querer, senão a empolgação de seus prodígios com o templo das histórias?

Logo o Mateus e o Murilo estarão eternizando suas próprias histórias, e tem certa ironia poética neste timing, justo que ao mesmo tempo estou tentando escrever a minha. Imaginei as cartas que escreverão para o Papai Noel neste Natal, ou o carinho que depositarão com suas letras tortas em nos nossos cartões de aniversário, dia das mães. Nos bilhetes da vida avisando aonde vão, o que pensam ou como se sentem. Amor no papel, daqueles que minha mãe guarda até hoje – do meu irmão e minhas, em uma caixa colorida, colorida como as nossas histórias.

O meu amor pelas palavras renovou-se mais uma vez nesta segunda-feira. Mas também pudera – não era qualquer dia. Era o primeiro dia de aula.


Fim da sessão.

Obs 1: Maior do que a minha empolgação com o início da trajetória escolar dos guris, é a minha consciência do tamanho do privilégio que eles têm por terem acesso à educação. E tão grande quanto o sonho de vê-los felizes com o dia de hoje, é o meu desejo de que toda criança neste país tenha a mesma sorte. Porque aqui, educação é uma questão de sorte.  Muita sorte.

Obs2: Quando as pessoas me perguntam por que eu voltei para o Brasil, ou por que eu não fiz minha vida e carreira lá fora, eu uso dias como estes para explicar. Eu voltei para viver a emoção de dias como estes.

Quem é aquele menino?

“Mana, quem é aquele menino deitado na praia?”

Mateus, 5 anos,  indaga sobre as imagens na televisão do menino sírio desfalecido na beira do mar. Meu coração congela instantaneamente. Me sinto afogada nas verdades do mundo.

Quando descobri que seria irmã mais velha de novo, sabia que seria um desafio encarar a curiosidade dupla lá de casa, nestes dias de hoje que eu mesma não entendo bem.  Aos trinta anos, eu tinha que explicar para a pouca experiência de vida do Mateus, e também do Murilo, que falhamos não apenas como humanidade, na tomada de decisões. Mas que falhamos em proteger a inocência de quem ainda não decide nada.

Quando eu tinha 5 anos, não entendia porque meninos de rua não tinham casa, e batiam na nossa porta pedindo comida. Meu pai então preparava sanduíches para eles, sem saber muito o que me explicar, e se resumia a me envolver na tarefa de encher os pães com presunto. Era o jeito dele de ajudar, como também de preservar minha inocência. Na minha cabeça, o pão com presunto resolvia. E eu era parte da solução.

Não seria o mesmo que acontece hoje? Não seria eu, parte na solução?

O corpo sem vida as margens de qualquer lugar, choca os olhinhos antes tão serenos dos meus irmãos. Penso em desligar a TV e levá-los a cozinha para fazermos pão com presunto. Penso em explicar que aquele menino encarou a imensidão do mar junto aos pais, na esperança de um lar sem furos de balas. Aliás, bala deveria oferecer unicamente doçura às crianças. Não medo.  Penso em dizer que o mundo se tornou um lugar complicado, em que estamos preocupados exclusivamente com nossos filhos, seus tablets e Nickelodeon, do que com os filhos dos outros, aqueles despatriados. Desprotegidos. Desamparados.  Quem sabe, se o Mateus e o Murilo entendessem desde cedo que o mundo é um lugar egoísta, medíocre e desalmado, eles sofram menos. Tenham menos vergonha em fazer parte desta humanidade desconstruída.

Mas não seria eu, parte na solução?

E sou. Ainda que como irmã, eu tenho o compromisso de proteger a inocência deles, sem deixar de ensiná-los de que mesmo falhando gravemente com o presente que nos foi dado, devemos ter coragem em fazer um futuro bem melhor. E assim educar melhor. Dividir melhor. Devemos ensinar aos Mateus e Murilos de nossas casas dando exemplos construtivos, envolvendo-os em causas importantes. Ensinando sustentabilidade, sendo sustentável. Ensinando a amar o próximo, com ações de compaixão, respeito e comprometimento. Criando filhos melhores, que vão fazer nos próximos anos, um trabalho muito melhor que o nosso. Se hoje não somos seres humanos mais admiráveis para nós mesmos, sejamos admiráveis para os olhinhos que tudo enxergam e aprendem. Assim quando for a vez deles de fazer as escolhas, que façam escolhas muito melhores do que as nossas.

“Quem é aquele menino, mana?” – O Murilo agora repete a pergunta do Mateus, pedindo atenção ao segurar as minhas bochechas. Beijo a testa dos dois, e aperto-os num forte abraço, abraço esse que todos queríamos ter dado no menino sírio em um sincero pedido de desculpas.

“Aquele menino, Mateus e Murilo, vai ser o menino que vai mudar o mundo.” Respondo com uma esperança quase infantil, enquanto eles sorriem.  “Aquele menino vai ensinar ao mundo como cuidar de todos os meninos fazem parte dele.”


Fim da sessão.