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O primeiro dia de aula

Segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Eu ainda consigo lembrar da comoção do meu primeiro dia de aula. De aula de verdade – não aquela recreação organizada que é o maternal e o jardim de infância. Aula da primeira série. A primeira série de muitas. Lembro-me do cuidado que minha mãe teve para organizar o meu material de forma sistêmica – tudo etiquetado, tudo combinando. O cheiro dos cadernos novos. As canetas. Eu estava oficialmente autorizada a usar canetas – ainda que fosse encorajada a usar o lápis antes. Na primeira série eu ia aprender as palavras – e eu sempre amei as palavras, ainda que não as entendesse.

Nesta segunda-feira eu revivi o meu primeiro dia de aula através dos moleques lá de casa. As badaladas das 6h30 tocaram, avisando que as férias haviam acabado. Nada de preguicinha no corpo. Os uniformes deles me lembraram a minha jardineira, ainda que não fossem tão coloridos. O sorriso de excitação tinha a mesma cor do meu aos quase sete anos. O Murilo tentou usar a lógica para ficar mais na cama – “mas a gente vai estudar todo dia, o que custa não ir no primeiro dia?”. Foi uma torcida de nariz da mãe para derrubar seu argumento, enquanto ela tentava com muito esforço domar a cachopa crespa do Mateus.

Revirei-me na cama por mais alguns minutos. Na minha condição de adulta eu já podia me dizer dona do meu horário. E da cama eu ouvi a doce melodia da primeira manhã agitada do ano. A mãe orquestrava com maestria o café da manhã, o preparo do lanche, a serelepice de ambos. Era tanta novidade e tantas perguntas que o sossego da minha cama já não fazia mais sentido. Ouvi o barulho da garagem, e corri apressada escada abaixo a tempo de roubar-lhes um beijo de boa sorte antes da aula. “Mana, tu tá com bafo!” – eles protestaram. E ganharam um segundo beijo só de implicância – coisa e irmã mais velha. Despediram-se abanando do carro, num misto de preguiça e excitação.

Eles dividiam esse dia, com a mesma alegria desajeitada e sonolenta que um dia, o meu irmão Leonardo e eu dividimos.  Um aperto de saudade despertou em mim.

O dia correu como outro qualquer para as adultas da casa. Contas para pagar, perrengues para resolver, dramas para acalmar. Um e-mail aqui, uma discussão ponderada dali, uma a uma as nossas metas sendo batidas ou procrastinadas. Olhando pra minha listagem de perrengues, cuja caligrafia segue parecendo a de uma recém-alfabetizada – voltei novamente à atenção para a minha primeira série. Havia tanto de mim que se criara dentro da escola – na mesma primeira série que nesta segunda-feira os meus irmãos iniciavam. O desejo pelo desconhecido. As cores da sala de aula. Os amigos novos. O desejo por desafios. O trabalho em equipe. Eu sempre tive sorte na minha educação. E com um esforço muito fodido, a minha mãe e eu (e mais alguns anjos da guarda), tentávamos garantir o mesmo para a dupla de jovens mentes lá de casa. O que mais podia ser prioridade?

Na saída do turno da manhã, perto do meio dia, esperava ansiosa a abertura dos portões da escola dos guris. Quando abriram, andei pelo pátio da escola com minhas pernas de menina querendo correr. Após localizar a sala dos dois, fiquei por alguns minutos escondida na janela, vendo suas classes ordenadas em fila, em uma estranha ordem que dificilmente se consegue lá em casa. Ao me avisarem, escondi-me atrás do muro da janela – subindo e levantando, enquanto eles gargalhavam e apontavam – “olha lá, aquela é a nossa mana”. Tive um súbito de felicidade quando os dois explodiram nos meus braços com suas mochilinhas do Cars nas costas. Pegando na minha mão – eles apontavam animados para o prédio ao lado “olha mana, agora a gente tem uma biblioteca!!!! ”.

Pronto.

O que mais uma escritora poderia querer, senão a empolgação de seus prodígios com o templo das histórias?

Logo o Mateus e o Murilo estarão eternizando suas próprias histórias, e tem certa ironia poética neste timing, justo que ao mesmo tempo estou tentando escrever a minha. Imaginei as cartas que escreverão para o Papai Noel neste Natal, ou o carinho que depositarão com suas letras tortas em nos nossos cartões de aniversário, dia das mães. Nos bilhetes da vida avisando aonde vão, o que pensam ou como se sentem. Amor no papel, daqueles que minha mãe guarda até hoje – do meu irmão e minhas, em uma caixa colorida, colorida como as nossas histórias.

O meu amor pelas palavras renovou-se mais uma vez nesta segunda-feira. Mas também pudera – não era qualquer dia. Era o primeiro dia de aula.


Fim da sessão.

Obs 1: Maior do que a minha empolgação com o início da trajetória escolar dos guris, é a minha consciência do tamanho do privilégio que eles têm por terem acesso à educação. E tão grande quanto o sonho de vê-los felizes com o dia de hoje, é o meu desejo de que toda criança neste país tenha a mesma sorte. Porque aqui, educação é uma questão de sorte.  Muita sorte.

Obs2: Quando as pessoas me perguntam por que eu voltei para o Brasil, ou por que eu não fiz minha vida e carreira lá fora, eu uso dias como estes para explicar. Eu voltei para viver a emoção de dias como estes.