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A menina do lenço na cabeça

Eu nunca vou me esquecer da primeira vez que a vi. Era aniversário do primeiro aninho do filho de uma amiga. A festa era em um sítio distante, naquelas casas feitas de madeira, que tem cheirinho de laranja. Eu conhecia pouca gente no evento, apenas a mãe da criança e a Marília – minha melhor amiga e fiel escudeira. “Não me deixa sozinha!”, eu implorava segurando-a pelo braço. “Relaxa, Antônia. Desde quando tu é tímida?” – a Marília ria. Ora, desde sempre, ela sabia. Eu sempre fora tímida, apenas disfarçava com piadas e histórias (eu sempre contava histórias).

Após alguns cumprimentos casuais, a Marília se perde por longos minutos no abraço da menina do lenço na cabeça. Eu nunca entendi as mulheres que tapam seus cabelos. Eu sempre tive um caso profundo de amor com minhas longas crinas, uma síndrome de Rapunzel – talvez porque até os 8,9 anos minha mãe os cortava extremamente curtos. Desde que pude escolher, sempre cultivava as madeixas longas e esvoaçantes. Nunca escondidas. Nunca gostei de boné, toca, chapéu, lenço ou burca. Quer dizer, o lenço dela era até bonito, de cetim, roxo com flores amarelas. Eu adorava aquela combinação. Mas jamais usaria aquele lenço pra esconder minha cabeleira. A Marília me apresenta rapidamente, e logo começa a perguntar como a menina do lenço estava, e como ia o tratamento. Soco na boca do estômago. A menina não tapava os cabelos. Ela não os tinha. Uma consequência óbvia – pra qualquer idiota que não esta que vos fala – do tratamento de quimioterapia. Fiquei com vergonha. Sorri amarelo e quis sentir pena. O desconforto durou apenas um segundo.

A menina do lenço na cabeça era tudo, menos digna de pena. De sorriso largo e olhos brilhantes ela contou tudo a Marília como quem tirava de letra até mesmo a assustadora letra “C”. Falou sobre as rotinas de hospitais, e das férias maravilhosas que ela tinha deles vez que outra. Contou de uma adorável viagem com o namorado, um garoto bonito que segurava suas mãos com carinho. Ela falou animadamente de seu blog, que escrevia pra ajudar outras pessoas. Da alegria dos grupos de apoio. Das novidades estéticas que descobrira, como esmaltes que não causavam enjoos e lenços personalizados. E eu preocupada com meus cabelos. Quis engoli-los. Mais que isso. Quis ser amiga da menina do lenço na cabeça.

Entendi que eu não podia em sã consciência não me envolver com aquela pessoa. Não. Eu precisava ser amiga dela! Aquela menina do lenço na cabeça era muita luz. Ela era muita vida. E eu a queria na minha. Comecei a acompanhar o blog e fazer parte da torcida. A cada etapa do tratamento vibrava junto com ela em seus posts animados. Nos menos animados – e estes ainda sim cheios de garra- mandava mensagens de carinho, e ela devolvia outras de gratidão. Sempre muita gratidão.

Um dia, em uma viagem ao Rio de Janeiro encontrei amigos que há muito tempo não via, e um deles comentou comigo como o meu cabelo estava exageradamente comprido “Você deveria considerar doá-los”, ele sugeriu. Não deu outra. Mandei imediatamente uma mensagem pra menina do lenço na cabeça: “Vamos cortar meu cabelo! A gente faz uma ação no teu blog convidando mais gente a doar. Podemos tirar umas fotos, você com a tesoura na mão e meu cabelo na outra, vai ser demais!” Ela riu largo, como entendi que fazia sempre, e disse que eu estava maluca. “Mas Antônia, vai cortar esse cabelão lindo?!”. E pela primeira vez eu não vi meu cabelo longo como minha marca registrada, meu frisson feminino. “Ah, mas é SÓ cabelo, não é?!” – “Hahahah. Ok, vamos fazer”, ela respondeu empolgada.

Nos meses que se passaram mantivemos contatos frequentes. Ela tinha uma rotina conturbada com o tratamento. Eu tinha meus compromissos, e a gente tentava fechar um encontro. Ela me mandava fotos dela com seus lenços – que eu passei a admirar. Eu mandava fotos de meus irmãozinhos pequenos escovando meu cabelão – “a Mana vai dar o cabelo dela pra titia porque a Mana tem um montão e a titia não tem nenhum ”, eles contavam aos amigos, entendendo que aquilo era importante. Às vezes a menina do lenço na cabeça ficava desanimada, ou até com vergonha de me fazer esperar tanto tempo pra cortar o cabelo. Eu a encorajava “fique tranquila, vou juntando e só vou cortar o cabelo depois que você sair do hospital”, ela agradecia. Ela sempre agradecia.

Então as nossas agendas se fecharam para a semana seguinte, e eu estava feliz em finalmente ver de novo a menina do lenço na cabeça. Ao vivo e a cores. Todas as cores do seu lenço. Tinha sido uma semana difícil aquela. Eu havia perdido alguém importante. E eu queria encontrá-la para tomar doses de sua alegria. Sua energia. Sua coragem. Além disso, eu estava empolgada em doar meu cabelo.

Era uma sexta-feira de novembro, semana que antecedia o nosso encontro. Lembro que tinha dormido pesado por conta do meu pesar. A Marília me acorda as 7:00 da manhã pelo telefone, entre soluços inconsoláveis, me informa que a menina do lenço na cabeça havia partido para colorir o céu. Não consegui confortar a Marília. Apenas pedi para que ela tivesse coragem, como a amiga querida que ela havia me apresentado, aquela que em tão pouco tempo de convívio, tamanha admiração havia conquistado.

Eu rezei muito antes de cumprir minha promessa. Segurei aos cabelos como quem segura a uma corda no penhasco da realidade. Quando os cortei, lágrimas rolaram. A menina do lenço na cabeça não estava segurando a tesoura (ou estava?). E mesmo depois de corta-los, mantive as mexas perto de mim, como um amuleto improvável. Um lembrete diário para me desapegar das coisas sem valor. Um lembrete diário para ter coragem, alegria e doçura frente à diversidade. Um lembrete diário daquele lenço.

Ontem uma amiga me mandou um whatsapp dizendo “conta uma história bonita essa semana”, escreveu desanimada “o mundo tá tão carente de histórias bonitas, pessoas especiais e momentos de contemplação. Não fala de política. Desse ódio todo espalhado aí. Conta uma história bonita, Antônia.” E ela estava certa e de novo me peguei pensando na menina do lenço na cabeça. O mundo está mesmo carente de histórias de pessoas que enxergam a vida como um milagre, indiferente da sua trajetória. Se curta ou extensa. Descomplicada ou desafiadora.

Depois de meses segurando aos cabelos já cortados, hoje resolvi enviá-los para doação. Também resolvi contar essa história não porque acho que estou fazendo algo admirável, mas porque a menina do lenço na cabeça fez algo admirável por mim. Ela me tocou com a história dela, para que eu pudesse tocar alguém com a minha.  E este ciclo pode ser infinito. Este ciclo pode ser forte e muito amplo.  Basta que cada um de nós se empenhe em compartilhar e celebrar histórias de heroínas como esta, de carne, osso e lenço na cabeça.

O mundo está precisando de gente assim.

Fim da sessão


Uma singela e respeitosa homenagem a Eduarda Maíra Rauber, inspiração através do blog Força na Peruca e autora de uma linda história de vida.

Click na foto para mais informações sobre a doação.
Meu cabelo e meu novo lenço de cabelo – CLIQUE NA FOTO e saiba como ajudar.

 


Aproveito este espaço para convidar a todos  a doarem um pedaço de seus cabelos. É rápido e fácil, e não precisa cortar curto para ajudar – 15cm de você já colaboram. As mechas são direcionadas para instituições que confeccionam perucas para meninas e mulheres que, como a Duda costumava dizer, estão mostrando para o câncer que vencê-lo não é fácil, mas também não é impossível.  Procure a instituição de coleta mais próxima de você.

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