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O tombo

Eu sempre tive e admirei gatos por sua capacidade inquestionável de dar conta do improvável. Como enfrentar uma queda não planejada e cair sob suas quatro patas. Lembro-me de ser pequena e desafiá-los a situações adversas só para vê-los superá-las. Caindo sempre sob quatro patas.

Na minha vida, por algum tempo, também fui assim. Me desafiava constantemente a superar situações adversas. Muitas vezes fiz como fazia com meus gatos, e coloquei-me em situações adversas de propósito, apenas para testar minha capacidade de resolução. Obvio que com o tempo isso se tornou arriscado e cansativo, e com a chegada a maturidade (isso aconteceu?!) parei de procurar conflitos, e me contentei em rebater os desafios da vida. Sempre buscando cair sob as minhas quatro patas.

Isso até aquele casamento. Aquele casamento me marcou.

Era uma celebração linda. Na beira de um rio ao pôr do sol, sob a proteção de um majestoso carvalho e doces palavras de uma juíza de paz. Celebrávamos o amor da Franchesca e do Julio, com lágrimas de alegria e também de despedida, pois os dois iriam morar em um paraíso distante de nós, dias depois do casamento. Abençoamos os noivos com areias coloridas e desejos de diversas vibrações positivas. Tudo estava naquele vaso multicor: cumplicidade, compaixão, saúde, alegria, paz e amor. Muito amor.

O casamento seguiu deslumbrante, e as borbulhas rolavam cedo em nossas taças. Na minha mesa, um buque com as minhas flores preferidas: Melina, Tamara, Taíssa, Uana e a Mana, a irmã mais nova da Uana. Entre canapés e quitutes, mais borbulhas. Confesso que logo cedo fiquei preocupada com a rapidez do álcool, e lentidão da comida. Pedi ao garçom que regasse minhas flores com água, assim todas curtiriam a festa até o final. Antes que ele terminasse de servir a água, Uana já se mostrava um pouco mais desinibida, e afoita com os bocejos da irmã e da Taíssa. Disse às duas que não seriam convidadas para o casamento dela, dado o cansaço evidente das duas em um dia tão importante. Não deu nem tempo de intervir. Irmã e Taíssa pegaram suas bolsas, e foram embora.

Chilique a parte a festa rola solta depois da janta. Os noivos dançam primorosamente sua primeira dança, abrindo a pista. A turma do cigarro decide tomar um ar lá fora. Junto com a Melina, Uana e eu, Fabiano, e Guilherme nos acompanham para uma fumacinha. Embaixo do carvalho. Num espaço mais recluso do pátio. Do lado da cama elástica. Cama elástica?!! Como, diabos, isso veio parar aqui? Fabiano e Uana que já enrolavam a língua do champanhe, comentam que a presença da cama elástica naquele casamento era no mínimo uma situação adversa. E era. E aí, reacendeu em mim, aquele espírito de gato, de desafio, de pular e cair sob as quatro patas.

Tirei os sapatos e com vestido de cetim e coque banana na cabeça, subi na cama elástica. Melina, Uana, Fabiano e Guilherme riam sem parar da minha habilidade em pular e ao mesmo tempo tapar as calcinhas embaixo do vestido. Uana decide juntar-se a brincadeira. As duas pulam em círculos, afastadas o suficiente para evitar o contrachoque da cama elástica. Num dado momento, Uana pula perigosamente perto de mim. A cama elástica me arremessa.

Cetim. Coque banana. Risadas. Tudo direto ao chão, sob a dureza de um paralelepípedo. Eu… não caí sob as quatro patas. Eu caí sob o coque banana. E desfaleci.

Minutos depois me lembro de ser levantada pelo Fabiano e pelo Guilherme. Tento sorrir e dizer que está tudo bem. Meu pescoço esquenta. Sinto algo escorrer. Toco a minha nuca de leve. Olho as mãos para vê-las vermelhas. Vermelho espesso. Pesado. Dolorido. Vermelho que contrastava com o véu da noiva. Vermelho medo. Vermelho incerteza.

Uana desce rapidamente da cama com mil desculpas. Só consigo dizer que não foi culpa dela, antes de perder a habilidade de dizer coisa alguma. Melina, como boa produtora que é (lembram da Melina?!), aciona discretamente a cerimonialista, que entra em pânico e por isso leva uma mijada da Melina . Ela então orienta a cerimonialista a não falar nada pra noiva, e providenciar um transporte para o hospital. “Rápido!” Na beira da cama elástica, e possivelmente de outro ataque de pânico, Fabiano e Guilherme seguravam a minha cabeça com guardanapos de linho que tinham as iniciais dos noivos. Linho branco, agora também vermelho. Vermelho medo. Vermelho incerteza.

Minutos depois o motorista acelera sentido hospital. No carro comigo, Uana e Melina tentam me acalmar, muito embora já nem estivesse mais ali. Eu já estava num outro plano, enquanto as duas beliscavam as minhas pernas para ver se eu ainda podia senti-las. Uana chorava. De culpa. De medo. De raiva, raiva pelo champanhe  impedi-la de poder ajudar mais. Não havia o que pudesse ser feito. Ela não podia me ajudar.

No hospital, um pandemônio. Escutei algo distante sobre meu plano de saúde, e a Melina argumentando verazmente. Uana gritava ao meu lado “eu vou juntoxx com aaa Antôniaaa, eu não vous sair dãquii”, com a voz meio embaralhada. Melina então pegou na minha mão e me olhou bem nos olhos: “Antônia, vai ficar tudo bem tá?” – “Liga pro meu pai”, peço convicta – “Liga agora”. Encho os olhos de lágrimas pela primeira vez desde o tombo para pedir pelo meu pai. Eu não queria incomodar minha mãe – mãe também de outros dois pequenos. Mas eu queria ter alguém da minha família, caso precisasse me despedir.

Depois de entrar na emergência, tudo foi um borrão. Lembro-me de nunca ter sentido tanto medo quando fui submetida a uma tomografia.  Dentro da máquina, recordo-me que pensava que não queria morrer. Não era a minha hora! Que queria ver meus irmãos de novo. Beijar minha mãe. Ver meu pai sorrir. Tomar banho de mar gelado. Queria chorar de rir com as minha amigas. Tomar chimarrão. Beijar na boca. Queria viajar. Ver as pirâmides.  Comer escargot. Queria dizer pra Uana não brigar mais com a irmã dela. Queria pedir desculpas. Queria agradecer. Mas não podia. Não podia fazer nada. Estava presa dentro de um túnel escuro, presa às possibilidades. Presa àquele computador grotescamente enorme, que ia dizer se havia algo errado com a minha cabeça – algo além do obvio, que me fez subir numa cama elástica em um casamento.

Lembro-me de enfermeiras me xingando, que estava bêbada, ocupando lugares de gente “de bem”. Eu era gente de bem. Eu não estava bêbada – bem, eu já estivera muito pior, isso é fato. Mas não era isso que tinha acontecido. Recordo da dor da sutura. Lembro-me de implorar que me limpassem. Tirassem aquele vermelho todo de mim. Explicava sem parar ao corpo médico que meu pai não podia me ver naquele estado. Não naquele vermelho medo. Vermelho incerteza. Lembro-me de apagar novamente, sem saber o que seria de mim.  Eu era um gato em plena queda.

gatos 1

Acordei na cadeira de rodas com meu pai segurando a minha mão. Face transtornada. Mistura de pânico e raiva profunda. Vermelho raiva, pensei.  Empurrou minha cadeira de rodas pela recepção. “Onde estão a Melina e a Uana?” – perguntei. “Foram embora quando cheguei. Pedi que fossem. Tua amiga Uana queria entrar a todo custo. A Melina levou-a antes que a colocasse a força na glicose. Você também merecia uma glicose. A enfermeira disse que vocês estavam bêbadas.” Não expliquei. Me resumi em ficar com vergonha. Vermelho vergonha. Levantei-me da cadeira de rodas, sob as minhas duas patas. Suspirei de alívio pela primeira vez, incrédula da minha sorte.

Em casa, dormi um sono profundo sob a vigilância do meu irmão. Quando acordei, meu pai não estava mais lá – acho que não queria me ver. Encontrei um bilhete seu, com recomendações de remédios para a dor do corte de cinco pontos, e juízo para o que restava dentro da cabeça. Chorei. Chorei de vergonha por não ter caído sob as quatro patas. Chorei por ter perdido a festa tão linda do casal. Chorei pela possibilidade de tê-la estragado.  Chorei de dor de cabeça.

No celular, mensagens de carinho e preocupação. Algumas orientações sobre voltar ao hospital e apresentar minha carteirinha do plano de saúde – a Melina havia engenhosamente convencido à equipe a não me cobrar o valor de atendimento particular, sob a promessa do meu retorno para acerto. Da Uana também tive notícias. Seguia preocupada. E de ressaca, claro.

Quando peguei minha liberação do hospital, uma informação chama a minha atenção. Dentre inúmeras informações pessoais, ao lado do meu nome, na lacuna que dizia “RESPONSÁVEL”, estava escrito “Melina Dorneles”.  Ri por uns segundos pensando que não esperava ver naquele prontuário o nome da Uana.

Guardei o prontuário comigo. Como passei a carregar os cinco pontos que caíram da minha cabeça, junto a carteirinha do meu plano de saúde, que passei a carregar comigo na carteira desde então. Não que eu pretenda pular de uma cama elástica de novo. Claro. Guardei também uma cicatriz. Uma na cabeça, e outra na alma.

Naquele domingo pensei muito em como a vida era frágil. Que em um minuto se está no ar, e logo no outro podemos estar no chão. Que em um minuto as areias de benção podem ser coloridas, e que um pulo em falso podia tornar tudo vermelho.  Acima de tudo, pensei na importância da palavra “RESPONSÁVEL”. Da sorte que tive em ter gente responsável por mim, quando eu não fui. Para segurar o que eu tinha dentro da cabeça, como o Fabiano e o Guilherme. Para garantir meu bem estar, como a Melina. Ou ainda garantir a companhia, mesmo que fosse dormindo na recepção, como a Uana. Pensei como eu era sortuda de ter por perto, gente que me ama – seja quando estivesse em cima, ou embaixo da cama elástica da vida.

O telefone então toca com o número da Franchesca no visor, atendo envergonhada, esperando um xingão da noiva:

– “Samba Lelê tá doente, Tá com a cabeça quebrada. Samba Lelê precisava, de umas dezoito palmadas!”

– Oi, Fran. Hmm… Desculpa.

– Que tombo hein?  Samba Lelê tá bem?

– Não. Mas com vocês por perto, a cabeça sempre há de curar.

– “Samba, samba, Samba ô Lelê. Pisa na barra da saia ô Lalá.”

– Teu casamento me marcou, Fran. 5 pontos, pra ser mais exata.

– HAHAHAHAHA.


Hoje em dia, por vezes a cicatriz ainda dói. Penso que serve como um eventual lembrete. Um capacete que carrego comigo. Serve para me lembrar que embora eu seja uma gata, nem sempre eu vou cair sob as quatro patas. Mas que eu preciso sempre me levantar.

Quando preocupo-me com algo besta ou trivial, a cicatriz coça. Lembrando-me de que eu estou viva. Com a cabeça no lugar, ainda que Samba Lelê.

 


Fim da sessão.

 

Prezado amor platônico

Eu sempre me considerei uma pessoa sortuda no amor. O meu cupido sempre flechou de volta quem havia me flechado.  Por conta disso, eu nunca entendi o conceito de amor platônico. Nunca. Um amor, que segundo a concepção do filósofo Platão, é puro e desprovido de interesse. Focado na virtude do outro, alimentado de uma admiração, sem qualquer correspondência por parte do “objeto” admirado. Fala sério.

Imagine você, então, a minha surpresa, quando me deparei com o amor à primeira vista, combinado ao meu primeiro amor platônico. Eu queria me jogar no mar. No mar dos teus olhos.

Foi assim que tudo começou. Nos teus olhos. Redemoinhos azuis, emoldurados por tuas linhas de expressão. Cada sorriso fazia as cores dos teus redemoinhos me engolirem. Cada sorriso revelava linhas, linhas estas que me emaranhavam, como correntes de uma embarcação sendo tragada para o fundo do mar.

Eu me afoguei em ti no primeiro “Olá”.

Era o meu primeiro dia no emprego novo. Você me fora apontado como tutor. A sua matéria incluía atividades do mercado da pesquisa paga daquela grande corporação, e tudo que envolvesse um amor não correspondido.

Levei uma dúzia de horas pra entender suas explicações relativamente simples. Não tinha medo de parecer idiota quando as métricas que me mostravas. Tinha medo de parecer idiota contemplando os teus primeiros fios de cabelos brancos, logo acima da orelha e alguns que nasciam na nuca. Tinha medo que você pudesse ouvir meu coração bater acelerado, quando chegavas perto pra me passar alguma orientação. Sendo orientação a única coisa que me faltava naquelas horas.

Eu, como toda boba apaixonada que se preze, passei a testar teu sobrenome na minha assinatura. A fechar os olhos quando sentia teu perfume no elevador. Escolhi a “nossa música” em segredo, e a cantarolava baixinho sempre possível, pra ver se música te embalava na minha direção.

Por você, passei abrir mão do final de semana. Lamentava a sexta-feira, odiava o maldito sábado, e o domingo foi julgado muitas vezes demasiadamente preguiçoso.

Aprendi o galês, só para poder te receber toda segunda-feira – meu mais novo dia favorito – e desejar bom dia na sua língua materna. Dizia “Bore Da” (bom dia), “Prynhawn Da” (boa tarde) e “gweld chi yn nes ymlaen” (até logo), querendo mesmo era dizer “Rwyf wrth fy modd i chi”, ou melhor:  dizer “eu te amo” no meu mais belo e polido português. Sim, a tua língua era impronunciável, mas confesso que não era o excesso de consoantes que me impedia de falar. Como em um bom amor platônico, era o medo da tua resposta – na língua que fosse – que me fazia calar.

Pegava-me sonhando acordada, planejando jeitos de dizer que estava apaixonada, e possivelmente louca – quando você me interrompia sem querer, aparecendo de trás do seu monitor, com aquele sorriso, olhos de redemoinho e as linhas… ahhh…  Àquelas linhas de expressão eram o que faziam meu mundo girar. Pequenas correntezas na direção dos meus redemoinhos preferidos.

Eu tentei resistir. Eu juro. Todo dia eu acordava decidida a não te amar. Todo dia eu fracassava. Bastava tu brincar comigo. Oferecer-me um chá. Ou pedir emprestado o camelo de pelúcia que ficava sob a minha mesa… aquele que você apelidou de Bob, e que se referia como se fosse um filho cuja guarda dividíamos – “De segunda a quarta na sua mesa, de quinta a sexta na minha”, você brincava, sem saber que queria dividir contigo muito além do camelo Bob.

Lembro-me de um dia ligar para uma amiga em desespero pedindo ajuda. Ela então, me aconselhou a esperar, pois o tempo cuidaria de tudo. A amiga falhou no conselho, como o tempo falhou em me fazer te esquecer. E eu vivi dia após dia como Platão sugeriu, admirando tuas virtudes, e idealizando o amor que eu nunca tive. Me convenci de que a tua ordem não combinava com o meu caos. E em silencio, eu padeci.

Chegara então o dia da minha despedida, dia em que eu cruzaria um oceano de volta pra casa, e para longe dos redemoinhos dos teus olhos. Talvez fosse essa a única maneira de não morrer afogada neles. Pensei que possivelmente era a oportunidade de te dizer tudo que queria. Planejei durante horas a conversa na minha cabeça, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, foi você quem falou.

Na despedida do escritório, o discurso foi teu. Você então falou sobre minhas meias calças coloridas, donas de todas as cores do arco-íris. Das nossas brigas no trabalho, dos meus exageros, e como eu era “passionate” como toda latina com sangue italiano deve ser. Falou sobre minhas desventuras do final de semana (aqueles que eu tolerava longe de você), e como gostavas de escutar minhas histórias. Falou que eu era um caos bem vindo pra tua ordem. Relembrou das nossas conversas quando trabalhávamos até depois do horário, e dos conselhos que você me dava e que eu nunca seguia. De como a gente era diferente um do outro. E de como ia ser tudo diferente quando eu fosse embora.

Eu por minha vez, despejava mares de lágrimas ao te escutar sem conseguir dizer uma palavra– tão alheia ao desconforto de amar alguém, e não ser correspondida. Enquanto derramavas carinho nas tuas palavras, me convencia de vez de que aquilo realmente não era amor. Não do jeito que eu queria que você me amasse. Não do jeito que eu queria poder te amar.

Na continuação da despedida, em um pub sob as margens do Tamisa, foi longe dos olhos dos outros que encarei os teus pela última vez. Te abracei, e chorei forte novamente, meu peito soluçando doído contra o teu. Você passou a mão nos meus cabelos e disse “não faz assim comigo”, como eu queria ter dito tantas vezes desde a primeira vez que te vi. Não faz assim comigo, prezado amor platônico. Mas já era tarde pra dizer qualquer coisa.

E então, você foi embora. Levando junto os olhos que por meses me afogaram. E depois eu fui embora. Levando comigo tudo que queria te dizer. Levando na mala os beijos que guardei pra ti, os suspiros que nunca mais serão de ninguém, as histórias que sonhei ter vivido contigo.

Um ano  depois recebo notícias suas. Uma bela garota havia ganhado o teu coração, e você estava animado com o casamento marcado. Escrevi de volta dizendo a última coisa que me restava, que te desejava todo amor do mundo (mesmo o amor não sendo o meu).

– “Hapusrwydd!”

Te escrevi “felicidades”, sendo possivelmente a última vez que escrevi em galês.

No escuro do meu quarto abracei o Bob  – aquele camelo de pelúcia que você tanto gostava – e chorei pela última vez o amor que a gente nunca viveu.


Fim da sessão.

Reticências…

Se você como eu, é do sexo feminino, solteira e tem quase 30, vai me entender.

Olá. Meu nome é Antônia, eu tenho quase 30 e ainda não casei. “Olá Antônia!!” – imagino outras solteiras respondendo em uníssono como em um grupo de apoio.

O que acontece é que ultimamente qualquer eventual encontro com conhecidos tem se resumido as mesmas inquisições e AQUELA sentença:

“Com quantos anos tu JÁ tá?” E AINDA não casou? Olha, se não casou até os 30 …”

Reticências …

Eu ganho reticências. Um PONTO FINAL pra cada dezena – sendo que a última eu nem completei! Ok.

Visando ajudar estas pessoas (afinal são elas que precisam de ajuda), resolvi disponibilizar algumas opções para a substituição das reticências.

“Olha, se não casou até os 30 …”

(  ) você vai casar depois dos 30.
(  ) você ainda tem muito tempo pra se preocupar com isso.
(  ) você devia estar ocupada até agora “não casando”, certo?
(  ) você está avaliando as suas opções – de vida, não apenas de marido.
(  ) você não casou com um tosco que acha que existe idade pra casar.
(  ) você ainda pode casar com Príncipe Harry e ter filhos ruivos.
(  ) você se formou, pós-graduou, viajou, na correria, #tudojunto&misturado.
(  ) você ainda tem aquele caderninho preto.
(  ) você devia conhecer meu primo, ele é um baita cara!
(  ) você evitou de divorciar-se aos 40.
(  ) você tem um amigo especial pra chamar de seu.
(  ) você tem um plano daquele último réveillon só com as amigas.
(  ) você chama a 4ª feira de “Dia do Sofá”, e não do futebol.
(  ) você acredita em príncipe do cavalo branco. Ferrari branca? Bicicleta branca?
(  ) você gosta de namorar / ficar/ reticências (aqui vale!).
(  ) você deve adorar ter um banheiro só seu.
(  ) você tá ralando pelo primeiro R$ 1 milhão, acertei?
(  ) você não se preocupa com famoso “chopp com os amigos” né?
(  ) você se depila quando quer.
(  ) você pode escrever a continuação de “Comer, Rezar e Amar”.
(  ) você sabia que Ryan Gosling tá solteiro?
(  ) você ainda terá a maravilhosa experiência encontrar o amor da vida;
(  ) todas as opções acima. Na dúvida, a primeira já atende.

Fim da sessão.

Eu quero colo

Peguei-me pensando hoje, como em mais vezes do que gosto de admitir, que queria chegar em casa e aterrissar em pouso único no colo de alguém. Sem escalas. Alguém que eu amo. Podia ser a minha mãe, podia ser meu irmão, podia ser aquele “não-tão-mais-estranho” para quem eu abri minha casa e chamei de amor. Juro. Entraria pela porta da frente, daria um back flip twist carpado atravessando a sala, e terminaria este dia – que teve mais horas do que gostaria – no colo de alguém. E lá, naquele colo, faria manha sobre a enxaqueca que me assombra há quatro dias (três deles num final de semana!), prometeria que lavaria a louça num segundo, e faria juras de pés juntos que iria parar um tempo, da minha vida ocupada somente com os outros, para planejar aquele sonho que há meses me espera guardado na gaveta.

Tem dias que é assim. A gente não se basta. Muito embora meu pai ache que sou independente desde o tempo que não tinha dente. Muito embora a ideia contrarie aquele ex-namorado que me julgou um tanto quanto autossuficiente. Muito embora isso vá na contramão daquele amigo que jura que eu sou feminista/mulher-moderna/mulher-chata. Muito embora eu tenha ido embora muitas vezes. Não. Lamento desapontá-los. Eu preciso de colo.

Eu sei, eu sei, isso não é fraqueza/luxo/desejo/necessidade que só eu alimento. A gente nasceu e foi direto pro colo, nada mais justo precisarmos quase que a vida toda de colo de pai, mãe, marido, esposa, namorado(a), amigo(a), amante, padre, terapeuta ou garçom. A fase que eu estou, entretanto, é curiosa. Eu sou adulta, moro sozinha, sou solteira, e sofro da síndrome do “desculpa, não queria atrapalhar”. Ou seja, tem situações que não dá pra pedir colo mesmo. Ok, eu já pedi pro meu irmão me trazer uma sopa no meio de uma febre, mas também já chorei sozinha na Unimed porque achei que era muito tarde pra ligar pra minha mãe. Eu não chorei porque tava com febre. Mas sim, porque tava sem a minha mãe. Acontece.

Fato é que nesta fase curiosa a gente é obrigada a aprender a se dar colo. Vejo isso lá em casa, e nos whatsapps pelo mundo. Entre as pérolas estão as minhas crises de abraços no sofá, discussões sobre o cronograma da louça comigo mesma, ou até carícias na própria cabeça ao sair do trabalho à 01h10 dizendo “ora, ora…”. Essa habilidade, confesso, me parece feita de argila. Um dia pode até ser pedra, escultura, arte, mas até lá você tem que ir moldando, a afagos, lágrimas, uma porrada aqui e outra acolá. E por mais duro que seja, creio que não pegaria atalho algum. É reconfortante a ideia de achar porto seguro em si mesmo. Até aquele dia que tudo muda…

E até lá… bom até lá, eu vou treinando. Nem que seja o meu back flip twist carpado.

Fim da sessão.

Carona

7h15, o despertador grita. “Merda! Merda! Merda”, são os 3 primeiros pensamentos da minha segunda-feira. Atrasada para um dia que historicamente eu odeio.

Afff… Enfio qualquer roupa, boto minha rasteirinha preferida e vou trabalhar. No escritório resmungo algo que parecia “bom dia” para os colegas, reclamo do novo nariz da Anitta, e agonizo lendo um contrato de 12 páginas de letras miúdas de um cliente onde assino que tudo sempre-sempre será minha culpa, afinal o cliente tem sempre a razão. Saio pra uma reunião. Esqueço o guarda-chuva. No lugar em que estaciono não há como sair do carro sem encharcar os pés; então os encharco. No retorno da reunião, a sola da minha rasteirinha cai. Aquela sabe, que antes desta segunda-feira, era a minha preferida. Vou pra casa, troco de roupa. No caminho do almoço reclamo dos buracos da Rua A, de que é impossível estacionar na Rua B, e de que como eu odeio os guardas de trânsito em qualquer dia da semana. Saio do carro. Encharco os pés de novo. “Merda! Merda! Merda!”.

No caminho acelerado até o restaurante vou tentando evitar a chuva, quando no meio da quadra um senhor de uns 70 anos emparelha ao meu lado dizendo “quer uma carona?”, colocando seu guarda-chuva sobre a minha cabeça. “Claro”, digo meio sem graça, “como negar uma gentileza tão rara nos dias de hoje, não é?” Ele sorri, enrugando os olhos cansados, “É verdade, menina, acho mesmo que está faltando amor no mundo”. E assim, quase que sem querer eu desacelero, e deixo ele me conduzir pela calçada embaixo da chuva. Ao atravessar a rua ele toca de leve meu braço e alerta “cuidado com o carro, menina” com ares de avô. Na porta do restaurante me despeço e o agradeço sorrindo. Não pela carona, mal sabia ele. Mas porque com aquela carona, mesmo sem saber, ele havia acabado de mudar completamente a sintonia do meu dia.

Bom dia, segunda-feira!!