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Minha mãe nunca me deixou andar sozinha | Coisa de Antônia

Há uma semana, em um jogo do campeonato Holandês, a torcida do Go Ahead Eagles prestou uma homenagem ao goleiro Jelle ten Rouwelaar do time adversário NAC Breda. Aos 61 minutos do jogo, a torcida inteira colocou-se de pé e homenageou a mãe do goleiro, que partiu aos 61 anos, cantando a música You’ll Never Walk Alone, “Você nunca andará sozinho”.

A minha mãe nunca me deixou andar sozinha.  Dá um pulo no ATL Girls clicando na imagem abaixo, e descubra porque:

Minha mãe nunca me deixou andar sozinha

O que aprendi com a maternidade, mesmo sem ser mãe

É impossível adentrar o mês de maio sem pensar nelas. Maternidade, entretanto, é um tema recorrente aqui no divã, uma vez que falo com frequência sobre a minha relação com a minha mãe e suas contribuições na edificação da minha personalidade. O meu pai sempre colaborou muito, é claro – mas a minha mãe é quem me ensina hoje, e todos os dias, um dos importantes papéis que uma mulher pode ter (se assim escolher), que é o de ser mãe. E é sobre aprender a ser mãe que eu quero falar.

E quando eu digo “ser mãe”, não me julguem pela falta de frutos próprios. Uma das principais lições que aprendi nessa montanha russa da maternidade é que mãe é quem cria, quem pega junto ou em conjunto, e muitas vezes isso pode acontecer através de avós, tias, primas, madrinhas ou até mesmo uma irmã. Um fato é inquestionável: fazer parte deste universo desafiador de criar pequenos seres humanos implica em lidar com aprendizados tão profundos quanto complexos. E aqui estão alguns que colecionei:

1) Ser mãe é assustador.

Uma das primeiras lições aprendidas na pele é que ser mãe é assustador. E fico pensando se existe um acordo velado entre as mães de não testemunhar sobre isto. Verdade é que poucas mães admitem que esta tarefa é pesada, exaustiva, estressante e por vezes até triste. Não estou dizendo aqui que ser mãe não é compensador, calma. Mas nunca ninguém me avisou que quando criança se ataca, a tendência da mãe (ou da irmã) é de se atacar também – seja por sono, febre ou simplesmente birra. Ou que um puxão de orelha ou uma palmada, dói mais em quem deu, do que em quem recebeu o corretivo. Nenhuma sobrevivente da maternidade me avisou que um dia eu choraria, ao ouvir meu irmãozinho dizer que não gosta muito de mim, como toda criança faz quando se sente contrariada. Ou de como é ruim levantar a voz.

Ninguém me avisou que eu ia mentalmente planejar rotas emergenciais para o hospital mais próximo, sempre que estivesse com as crianças. Que teria medo do mar ou de agrotóxicos. Vi mãe alguma alegar sobre a assustadora fúria que se cria contra o coleguinha que faz bullying na escola, e seus desejos irracionais (e totalmente imaginários) de um plano de vingança. Ninguém avisa que mães não sabem de tudo, ao contrário, que são vítimas da dúvida o tempo inteiro. Ser mãe assusta porque é como ter o coração batendo fora do peito, principalmente porque mãe sabe que filho (ou irmão) se cria para o mundo.

2) Crianças são pequenos-grandes manipuladores.

A manipulação de pessoas é uma habilidade que aprendemos do berço: o bebê chora, alguém aparece para atendê-lo – e este aprendizado é tão empoderador quanto sedutor. Crianças pequenas, todavia, parecem ter aperfeiçoado a arte persuasão. Na minha humilde opinião tem algo a ver com a fase em que elas descobrem que são fofinhas. Tipo “Olha como eu sou bonitinho, agora me dá o que eu quero”. Sabe? Os meus irmãos são um ótimo exemplo – eles têm artimanhas infalíveis. Quando em uma missão, aplicam seus chamegos arquitetados, gentilezas planejadas e olhares cativantes. Nestas investidas deles, eu costumo me esquecer do horário em que eles deveriam ter ido para a cama, faço concessões em relação à dieta deles e fico constantemente sem bateria no celular por conta de seus jogos ou Snapchat.

Eles têm vocabulários próprios para a prática da manipulação: “mas você prometeu”, ou “eu me comportei, isso não conta?” ou ainda “pooooor favooooor maniiiinha?”. Eles mexem com nossas vulnerabilidades, nosso amor e às vezes até a nossa culpa. São enredos elaborados, tricotados como uma teia de recursos entre beijinhos, pequenos faniquitos, beiços, caretas e colos, direcionando a manipulada como uma mosquinha para o centro da teia e de repente: NHAC! Você não tem escapatória. Eu, que sempre me achei malandra, me vejo como uma mosca-morta frente à esperteza deles.

3) Crianças são esponjinhas e aprendem pelo exemplo

Não tem nada mais ineficaz na maternidade do que o velho “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Ou mesmo o “faça porque eu estou mandando e pronto!”. Não adianta, isso podia funcionar com a infância há 20/30 anos atrás, mas certamente não pega preço com as crianças de hoje. Que coisa mais difícil virou a arte de educar jovens mentes! Talvez porque os pequenos de hoje não são facilmente convencíveis como éramos. Eles já possuem habilidade argumentativa, pensamento crítico e como falei ali em cima, uma gigantesca capacidade de persuasão. Não sei, mas por vezes, sinto que estou numa reunião de negócios com pequenos adultos tentando vender os brócolis do prato. “É gostoso!” (primeiro atributo do produto); “Faz tão bem!” (atrativo adicional do produto); “Você vai ficar forte” (força, como subproduto dos brócolis); “Ok, depois você pode comer um pirulito” (suborno para incentivo do investimento). Negócio fechado!  “Vendido o brócolis para o jovem da camiseta do Homem de Ferro!!” Ufa.

As crianças de hoje querem entender o porquê das regras – e algumas destas regras a gente nem entende, porque quando aprendeu, aprendeu que era “porque sim!”. Nestas horas, hoje sei, não há nada melhor do que o exemplo. Seja comendo alguns legumes que nem você gosta, seja reciclando o lixo, seja na gentileza no trânsito, seja na gentileza com o mundo. A prova maior disso é ver meus irmãos doando brinquedos, para finalmente entenderem a sorte de tê-los. Ou dizer acidentalmente um palavrão na frente deles, para ver o “nome feio” sendo repetido freneticamente até a pré-adolescência.  Isto é, sendo o exemplo bom, ou nem tanto, crianças são esponjinhas, e devemos ter cuidado com o que elas absorvem.

O que aprendi com a maternidade, mesmo sem ser mãe, é que não existe esforço que eu respeite mais do que o desafio diário daquelas que lutam para criar bons filhos. Aprendi que toda mãe solteira  (as 20 milhões delas, segundo o IBGE) merece muito respeito, apoio e solidariedade. Que mãe de gêmeos/trigêmeos/etc são polvos com poderes de super-heróis. Eu aprendi que nem tudo é bonito e mágico, que também é difícil e impossível de não errar. Aprendi a respeitar ainda mais o cansaço e coragem da minha mãe e todas as mães do mundo.  E aprendi, entre fraldas e bonecos Transformers, que tudo vale a pena. E que se a gente ouvir os nossos filhos com atenção, a gente ainda vai aprender muito. E de quebra, leva o amor incondicional deles – aquele suborno para incentivo do investimento (exatamente como o pirulito).


Fim da sessão.

Minha mãe para presidente

Dentre as pessoas que conheci no meu mochilão pela Europa, uma mexeu profundamente comigo. O nome dela era Alisson, e entre uma cerveja e outra em um hostel em Roma, ela me contou que estava de férias do trabalho voluntário. A causa do trabalho voluntário dela foi o que me surpreendeu. A Alisson era parte de um grupo cuja meta era fortalecer a autonomia de mães africanas. Em resumo a ideia do projeto era relativamente simples: mães que tinham emprego e se sustentavam, alimentavam melhor seus filhos, os colocavam na escola, cuidavam da saúde da prole, e toda a sociedade era fortalecida desta forma. As mães criavam cidadãos mais educados e saudáveis, e consequentemente a África tinha uma chance de erradicar a pobreza, desnutrição, a AIDS, dentre outras pragas que disseminam sua população. A solução estava nas mães.

Óbvio. Como ninguém havia pensando nisso antes?

Não é de hoje que eu sei que as mães são heroínas dos tempos modernos. Quando eu tinha uns cinco anos, meu irmão mais novo se engasgou com alguma coisa, e já estava ficando roxo com tentativas frustradas do meu pai em desafogá-lo. Minha mãe tirou aquele bebezinho do colo do meu pai, e sem pensar duas vezes, chupou o nariz dele fortemente com a boca, desobstruindo as narinas dele, e deixando novamente o ar passar. Lembro-me de ficar chocada com o desapego, coragem e assertividade da minha mãe. Ela não apenas dava a vida, mas também salvava. Eu fiquei inebriada com tamanho poder.

Certa vez, a peça do meu grupo de teatro foi cancelada no dia da apresentação, quando eu já estava toda pronta, com meus longos cabelos trançados com lã de tapeçaria para me tornar a boneca Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo. Corri pro meu quarto chorando em desconsolo. Meia hora depois minha mãe me chama da garagem, e lá estava toda a vizinhança em formato de plateia, pipoca para o bairro todo e um pequeno palco montado na calçada. Ela secou minhas lágrimas, beijou-me o rosto e disse “agora vai lá e arrasa”. Naquele dia eu decidi que ia ser quem eu quisesse, porque minha mãe acreditava na boneca Emília que havia em mim.

Eu sei, parece propaganda da Dove ou da Johnson & Johnson, mas não é. Eu tive um exemplo dentro de casa que me mostrou desde cedo que ia sempre me proteger (mesmo que isso envolvesse chupar o meu nariz) e que ia me dar apoio pra todo desafio que surgisse na minha vida. A minha mãe me fez uma cidadã consciente, nutrida e educada. Não que o meu pai não tivesse participado, longe disso. Mas na época, essa responsabilidade era da minha mãe.  E eu acredito que ela fez um ótimo trabalho, e que gostou, uma vez que encomendou mais dois rebentos quando já tinha dois criados.

Foi pensando no que a Alisson me disse sobre seu projeto na África, que pensei que talvez a minha mãe devesse tomar conta da presidência do país. Juro. Acho uma ótima ideia. Quem sabe assim os corruptos já estariam de castigo, implorando pinico, como eu fazia quando pequena. Uma vez roubei uma pedrinha quartzo de uma lojinha. A minha mãe não fingiu que não viu. Não disse que não sabia que aquilo estava acontecendo. Ela me arrastou de volta pra loja, e na frente de inúmeras pessoas tive que devolver o quartzo e pedir desculpas. Ela passou vergonha junto comigo, mas eu nunca mais peguei um apontador de um coleguinha sem pedir.  Foi horrível e eficaz. Como um remédio amargo.

Se a minha mãe fosse presidente, ela olharia pros malfeitores e diria “nós vamos conversar em casa”, aterrorizando a alma deles como fazia comigo quando eu aprontava em público. Eu gritava “não, vamos conversar AGORA, em casa não, por favor!!!”. O meu castigo, ela sabia, era a expectativa. Eu não podia lidar com não saber o que ela diria. Ela deliberadamente fazia de mim um peru de Natal – eu morria de angustia na véspera, e quando chegava em casa, o discurso não era tão duro quanto aquele que eu tinha imaginado.

Quando as obras públicas atrasassem, minha mãe ia pegar a pá e começar ela mesma, deixando com vergonha todo o resto que não o fez. A minha mãe odeia o “já vou”. Quantas louças eu deixei de lavar com o “já vou”, e depois fiquei me remoendo de culpa.

Com a minha mãe no planalto central, os hospitais iam estar sempre à disposição, pois mãe nenhuma deve sofrer a angustia da impotência de ter um filho doente nos braços. Ela ia ser justa com todos, porque afinal, coração e hospital de mãe, sempre cabem mais um.

A minha mãe, como professora idealista que é, ia tornar a educação acessível e divertida para todos, como fazia com os alunos dela. Ela ia cobrar da comunidade participação ativa na vida das escolas – ela me fez “Amiga da Escola” com 15 anos, quando dava aula de dança numa escola municipal. Fez-me responsável pela minha parte na educação dos outros, e agradecida por sempre ter tido acesso a minha.

Minha mãe ia escutar o povo porque entende que ela não sabe tudo, e que também está aprendendo. Ela não acha a administração dela é a prova de falhas, ela sabe que existe mães melhores e piores que ela, mas ela não deixa de tentar melhorar sempre porque “a gestão passada” ou “antepassada” era pior que a dela. A minha mãe também não ia deixar ninguém ficar falando mal do filho dela por aí. Nunca!

A chefa lá de casa, seria uma ótima chefa de estado porque entende que o tapa na bunda é tão importante quando o carinho na cabeça. Que tem hora para o tema de casa, e para a televisão. E que “a vida não é só carnaval, Antônia!”.

Talvez a solução do Brasil, seja a mesma proposta pela Alisson na África: mães no poder. Sim, a nação nas mãos de alguém pronta pra corrigir e educar, errar, assumir que errou, e depois acertar, doa o que doer. Afinal, mãe costuma saber de tudo, mesmo quando estão erradas. Quem sabe o que o país precise mesmo é de uma Mãe de Estado – nem presidente, nem presidenta, nem ditadura, nem democracia – mas uma mãecracia. Com castigo e carinho. Colo e incentivo, para que este país seja o filho que pode e merece ser, daqueles de deixar qualquer mãe orgulhosa.

Fim da sessão.


♥ Nota para a minha mãe: Neste domingo, como em muitos outros, quero de novo agradecer a presidente lá de casa, que já colocou ordem em muita crise, já segurou a economia na ponta do lápis, orquestrou revoluções adolescentes, e deu asas para ganhar o mundo. Você tem para o resto da minha vida, o meu voto irredutível. Saiba que o dia que eu me candidatar ao teu cargo, espero ter no mínimo coligação com teu partido – pois eu acredito incondicionalmente nele.

A ditadura da prole perfeita – uma ode às mães

Há mais ou menos quatro anos atrás, um dos grandes motivos que me fez retornar das longínquas terras da Rainha para o Brasil foi a notícia de que minha mãe ia virar mãe. De novo. E de dois. Eu, que não concebia a ideia de acompanhar a vida dos gêmeos pelo Skype, não pensei duas vezes em tomar o rumo de casa para ocupar meu lugar de irmã mais velha. De novo. De dois.

A diferença do meu primeiro irmão para estes dois, é que o par distanciava-se em ¼ de século de mim. Mais do que isso, a balzaquiana que sou, já tinha relógio biológico fazendo tic-tac, e as novas aquisições da família despertavam em mim não apenas o amor fraterno, mas também davam margem para o materno, este desconhecido até então. E foi mais ou menos assim  que lá em casa iniciei semestres intensos do meu novo MBA – Motherhood Business Administration.

Calma, mães de plantão. Eu sei, as minhas experiências como irmã não se comparam a tirar um filho de dentro do umbigo e acalentá-lo até a maturidade (ou depois dela, como é o caso da minha mãe). É lindo, é intenso, e é divino, ao que eu consigo entender. Entretanto o que ninguém conta é que a maternidade é também um antídoto pra qualquer nível de lucidez de uma pessoa. Talvez ninguém conte exatamente por isso, os úteros poderiam entrar em greve.

Antes de jogarem as pedras, eu explico. No final de semana passado fui convidada e incumbida de praticar a maternidade, intensa e sem breaks por 48h, cuidando dos irmãozinhos para que minha mãe pudesse atender a um compromisso. Planejei tudo na minha cabeça milhares de vezes, e uma ida ao camping que eles tanto amam era uma estratégia a prova de falhas. Ledo engano.

Aproveitei o sono deles da viagem de ida para descarregar rapidamente o carro, o que foi tempo suficiente para o Mateus ter o corpo inteiro picado por um enxame de mosquitos. Na chegada nenhum aparelho eletrônico ligava: TVs, tablets, iPhone, nada – nem um led de esperança. Nem Pepa pra ajudar. Só o barulho do vento, enfatizando a ausência da mãe (aquela de verdade). Dá-se então a primeira crise de choro – deles pela boca, minha por dentro. Mil artimanhas de distração, todos os argumentos do mundo, nada. Estava quase pegando o caminho de volta quando a TV ligou. Ufa! Pepa eu te amo. Agora é mamázinho e longas horas de sono. Foi o que eu pensei, mas o Murilo tinha planos de esticar até as 2h00, e assim o fizemos. Quem mesmo precisava dormir?

7h08, é um sábado chuvoso, e pelo que fui informada aos pulos, era hora de acordar. 1º desafio do dia: café da manhã. Banana com canela em forma de estrela: não! Sanduíche de pão de queijo: não! Mamázinho: não. “Por Deus, mas o que você quer?” “Eu quero a minha mãe!”  Claro – eu também, penso comigo. “OK, vamos poooor faaaavor comer um pouquinho e ir pra praia??”. 2º desafio do dia: evitar que eles se afoguem (mar ou esgoto). Na praia equipados com galochas e uma curiosidade monstra, pensei comigo, mínimo de duas horas sentada na cadeira vendo-os brincar. Ai como eu me engano. Murilo consegue enfiar o mar inteiro dentro das galochas, e o Mateus administra cair de cara na areia espumada, aquela entre as ondas e o esgoto. 23min. Os dois molhados. 16ºC. Recolho acampamento – todos os 42 brinquedos e as 3 cadeiras.

De volta ao camping, mais duas aquisições. Outros 2 amiguinhos também de quatro aninhos resolvem aparecer para brincar e duelar sob supervisão desta amadora. Quatro crianças. De quatro anos. Por quatro horas. E eu de quatro implorando por ajuda. Uma mãe aparece, e convida os gêmeos para passear – “SIM! CLARO! Leve-os. Não precisa devolver até o jantar!” Mas não. Não. O Mateus já tinha definido que a mana ia participar de tudo naquele final de semana, e eu não tinha como fugir. A brincadeira e os socos continuam. Quando era soco do amiguinho, queria cortar-lhe a cabeça. Quando era soco de um dos meus, queria enfiar a minha num buraco. Tudo isso entre um sorriso amarelo e outro, ora meu, ora da outra mãe.

Banho em dois. Seca um. O outro sai molhado do chuveiro. Corre e seca o outro. “Vamos fazer pizza pro jantar!” – sugiro. Mostro como espalhar o atum na massa. Viro as costas pra busca o queijo. Tiro as mangas dos dois de dentro do óleo do atum, dobro as mangas do pijama, ah azar! Não tem outro. Coloco e tiro a pizza do forno. “Mana, não quero pizza.” “O que você quer?” “Eu quero a minha mãe.” Ai, por que mesmo eu pergunto? Ok, cama! “E hoje não tem TV até as 2h00, Murilo!” Fecho um olho. Um só. O outro fica aberto.

O que tava fechado abre as 7h08 quando começa tudo de novo. Os amiguinhos vieram brincar, olha que legal. O Murilo está com tosse, “porque ficamos molhados da praia, mana”, o Mateus dá a minha sentença como se pudesse ler a minha mente. Banho de novo. 4 camadas de roupa em cada um. “Mateus, Murilo, parem de rolar na grama molhada! Se tiver que falar isso pela 13ª vez, a bunda de vocês vai esquentar!” – pro cacete a Xuxa e a lei da palmada, me enfureço. Hora do almoço. “Massinha verdinha?” –“Não!” “Carninha picadinha na boquinha?” “Não!” “Mas o que você qu…sim, a sua mãe, ok, toma essa Trakinas”. “Mana embala a gente no balanço da pracinha?” Claro que sim. “Mana, porque você ainda não tirou o pijama?” Ai, merda, esqueci de trocar de roupa.

Hora de embora. Tá quase. Eu vou conseguir entregar eles inteiros. Vou sim, torço por mim.  Na volta vou lembrando todas as coisas geniais que fizemos juntos. A praia, as brincadeiras, todas as bananas em formato de estrela que não foram comidas, a pizza, as risadas, enquanto a dupla concorda animada. “Vocês se divertiraaaaam?” – pergunto a eles. “Siiiim”, eles respondem em coro. “Querem fazer de novo?” – eu me empolgo. “Não. Eu prefiro a minha mãe”. Claro, de novo, por que mesmo eu pergunto?

E aí chega domingo e eu percebo que fiquei louca. Que gritei mais do que gostaria, que na hora não entendi que era só o sono, saudade, fome, e tudo que justifica aquela prole perfeita de atormentar. Reviso as conversas, acho que a banana devia ter sido em forma de lua e não estrela e penso como farei melhor no próximo final de semana que ficar com eles. Analiso que estou mesmo é contando os minutos pra virar mais uma louca destas desvairadas que se esquece de escovar os cabelos e que acha aquele ranhento a coisa mais linda deste mundo.

Aí deitada no divã ouço todas aquelas teorias do espertalhão do Freud que sempre dá um jeito de sugerir a você levar sua mãe para o tribunal. Muito provavelmente porque o melhor e também o pior de você é culpa da sua mãe. Sim, ou porque te amou demais, ou porque te amou de menos. Ora porque te deu muita atenção, ora porque algo passou despercebido por ela. Admita, por melhor que sua mãe seja ela tá sempre na berlinda. Por pior que você seja, você sempre será a prole perfeita dela. É ditadura das mais antigas. E também a mais sincera.

O que concluo por tudo que vivi e aprendi até agora, é que sempre que penso no céu, ou no paraíso, penso que o lugar é dividido em dois grupos de pessoas: as mães e o resto dos dignos. O que me pergunto hoje, entretanto, é qual o critério de avaliação do resto dos dignos, ora bolas!

Uma singela homenagem às mães-loucas espalhadas pelo mundo e em especial, é claro, a melhor delas: a minha!


Fim da sessão.