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O mundo é seu, mas não ande sozinha.

Eles dizem que o mundo é nosso, mas que não podemos andar “sozinhas”. Viajar sozinha. Ir até a esquina sozinha. Precisamos do “Vamos Juntas” para o simples ato de transitar.

Eles dizem que ser mãe é uma dádiva, mas impedem a tua escolha, marginalizando aquelas que optam pelo contrário. As mesmas pessoas que condenam o aborto, muitas vezes são desprovidas de um útero, ou mesmo da responsabilidade com a paternidade, já que o aborto masculino é legalizado de longa data.

Eles sexualizam o ato de amamentar, na mesma proporção que cobram tua responsabilidade como mãe.

Eles elogiam o vermelho do teu batom, mas negam o roxo da tua pele. Aquele que surge sempre que você “cai no banheiro” ou “tropeça na escada”.  Eles criticam o vermelho do teu batom, que é muito vermelho, o que caracteriza a tua falta de pudor e teu ar libertino. Puta, tu só podes ser.

Dão-te flores no trabalho, e um salário menor do que os colegas que vestem cuecas.

Se for negra, ou gorda, ou lésbica, teu valor será dado como inferior. Matam-te nas periferias, com a velocidade da internet 3.0, que diz que o mundo anda politicamente correto em excesso. Promovem a gordofobia, pois tuas curvas não cabem dentro de limitados padrões e da miopia de quem não entende nada sobre diversidade. Te agridem por gostares de mulher, porque teu problema é mesmo falta de pau.

Eles celebram a mulher moderna e decidida, mas condenam-na pelos shortinhos, saias, decotes, biquínis, tapas-sexo, burcas.

Vestem teus trajes no carnaval, e apedrejam outras mulheres que um dia nasceram homens.

Gostam da tua sensibilidade, te ridicularizam quando estás sensível.

Tua opinião é bem-vinda, desde que seja respaldada da razão masculina, ou o teu discurso alternará entre o “papo de mal comida” ou “de vagabunda”. Impressionante como a opinião feminina tem relação direta com a sua frequência sexual.

Serás exigida ser uma dama na sociedade e uma vagabunda na cama, enquanto muitos deles se comportam como querem na sociedade, e pouco se importam com o que queres na cama.

Alegam que somos sagradas criaturas aperfeiçoadas da costela de Adão, mas estupram os templos de Eva por que “pedimos por isso” através de nossa indumentária ou atitude.

Celebram nossa divindade de gerar a vida, enquanto a nossa própria é constantemente assediada, humilhada, mutilada, vendida, explorada, marginalizada. E com este tratamento que recebe um grupo sub-humano, um resto de gente, uma insignificância, não hei de celebrar o dia da mulher.

Dia 08 de março é um dia de luta, não deixe-se enganar pelas flores. Sim, nós somos maravilhosas! Mas lembre-se de o caminho pela igualdade é longo e árduo. Nós temos muito que revindicar, proteger, preservar. Que este dia sirva para reforçar de que juntas , somos muitas. Aliás, somos metade da força que povoa e movimenta este planeta. E mãe da outra metade. Tá mais do que na hora de botar ordem na casa.

E se o mundo é mesmo nosso, guerreemos para ter a segurança e liberdade de andar por ele sozinhas. Sozinhas, e mesmo assim, uma ao lado da outra.


Fim da sessão.

“Mas é preciso ter manha
É preciso ter graça
É preciso ter sonho sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania
De ter fé na vida”

Milton Nascimento

Eu queria ser só mulher

Eu queira ser só mulher. Sim, só mulher, assim como homens são só homens.

Ao defender direitos de gêneros, de igualdade no tratamento de homem e mulher, queria ser só mulher. Eu não queria ser feminista. Só mulher tava bom.

Quando tenho TPM, queria ser só mulher lidando com meus hormônios. Não queria ser temperamental, instável ou maluca. Só mulher.

Quando eu quero chegar em um carinha que eu quero conhecer, não queria ser fácil ou atirada. De novo, eu só queria mesmo era ser mulher.

Queria ser só mulher quando sou solteira. Nem encalhada, nem solteirona, nem titia. Mulher.

Na Índia queria ser só mulher, não dalit, nem intocável, nem estuprável, nem mártir. Só mulher.

Na África não queria ter lábios decepados pra manter minha pureza. Queria ser apenas mulher, com todos os lábios que Deus me deu.

Nas ruas de qualquer lugar também queria ser só mulher. Passando por construções, becos ou avenidas. Não queria ser “oh gostosa”, “senta aqui morena” ou “te chupava toda”. Só mulher tava de bom tamanho.

Quando eu declarar gostar de sexo, com palavras ou ações – e eu gosto mesmo – queria ser só mulher. Nem puta, nem safada, nem transarina, ou aquela que não é pra casar. Mulher.

Se não tiver as unhas ou depilação em dia, mulher.

Quando alcançar algum sucesso, nem “aquela que deu pro chefe”, ou “a filha do ‘homi’”. Só mulher tava bom.

Quando enfrentando o dilema de uma gravidez acidental, não queria ser assassina, criminosa, paciente ilegal. Mulher.

No volante, só mulher. E não “tinha que ser mulher”.

Se for curvilínea, nem gorda, nem relaxada: mulher.

Se for sarada, nem fútil, nem bombada: mulher.

Se for magra, nem anoréxica, nem fresca: mulher.

Se for feia, não quero ser puta-feia. Mulher.

Se for bela, não quero ser puta-gata. Mulher.

E se eu achar que está tudo errado, que meu lugar é onde eu bem entender, e se eu resolver não pedir permissão pra ninguém pra ser quem eu sou, ainda assim e independente do que pensem: mulher. Nem chata. Nem “moderninha”. Nem autossuficiente. Nem “mal comida”.

E isso vale pras Madalenas, Cassandras, Carens, Fridas, Joanas, Marias, Amélias, Malalas, Beyonces, Tinas, Anitas e Antônias. Todas elas e cada uma delas.

Porque ser tudo isso aí que as más-línguas dizem sobre nós é muito fácil.

Difícil…  difícil é ser só mulher.


Fim da sessão.