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Vai ficar tudo bem, pai.

É engraçado que quando somos crianças nós não percebemos que as nossas brincadeiras e joguinhos, instintivamente nos preparam para sobreviver à vida adulta. Brincar de casinha, nos dá pequenas noções de sermos responsáveis por um espaço, ou quando brincamos de carrinho, imaginamos como manusear um veículo com cuidado, assim como bonecas e bonecos nos fazem imaginar interações com nossos futuros filhos, maridos, esposas e assim por diante. Infelizmente nenhuma destas brincadeiras nos prepara para uma das tarefas mais difíceis da vida adulta, que é cuidar dos nossos pais. Claro, como nós íamos imaginar que em algum momento, aqueles que sempre nos cuidaram, precisariam de cuidados? Era uma conclusão ilógica do ponto de vista da hierarquia e da maturidade. Então, a vida, essa brincalhona, vem e nos surpreende.

Eu comecei cedo a cuidar dos meus pais. Em especial do meu pai. Não que ele seja um cara incapaz, sob qualquer aspecto. Meu pai é novo, ativo e inteligente. Mas por vezes na nossa jornada, ele ficou um tanto perdido, e foi na minha mão que ele segurou. Foram duas vezes, em que tive que enfrentar um tratamento de saúde ao seu lado – eu e meu irmão – já que na época os meus pais já estavam separados. Durante os meses de tratamento intensivo, o meu pai teve medo da morte – e eu, medo da vida sem ele, e essa era uma sensação insuportável no auge dos meus 20 e poucos anos. Ainda que minha mãe estivesse sempre por perto, me dando apoio, cuidar do meu pai, passou a ser uma tarefa minha, e durante algum tempo, de mais ninguém.

Do meu lado, ele passou a se preocupar com o futuro dos negócios, e viu em mim uma aliada. Além de herdeira, eu passei a ser um dos braços direitos dele na empresa – e sofrer junto com ele, mês a mês, por resultados. Passei também a me preocupar com seus relacionamentos – coisa que antes era tarefa única, exclusiva dele: “mas quem é essa fulana?”, “De quem é essa jaqueta de mulher aqui?”, “Quando tu vai apresentar essa beltrana?”, até que finalmente, tivemos a tranquilidade de uma companheira de verdade entrar na vida do meu pai. Ainda assim, entramos naquela fase em que eu passei a questionar as atitudes e decisões dele, todo e qualquer momento: “como assim não vai tirar férias, tu precisa descansar!”, “tu tá indo no psiquiatra?”, “já foi no médico ver essa pintinha estranha?”, “que remédio é esse que tu tá tomando?”, “larga esse negócio pesado, tu acha que tu tem 20 anos, e não 60?”. E confesso, não é fácil. A hierarquia fica confusa, até porque sempre foi ele que botou as minhas atitudes e decisões à prova. Aceitar que os papeis eventualmente mudassem, foi confuso, e exigiu (e exige) muita paciência, tolerância e negociação.

Mas confuso, difícil, intolerável, ganhou todo outro sentido há algum tempo, como vocês sabem. Domingo é dia dos pais, e o primeiro sem o meu irmão. Assim como o primeiro natal, aniversário, dia das mães, esse é o primeiro dia dos pais sem o Leonardo. E se tudo que é a primeira vez, desde então, ficou insuportável, o dia dos pais, é a minha prova de fogo. Talvez porque o luto do meu pai, ainda é para mim, o mais complexo. Complexo porque meu pai busca respostas, das quais a minha mãe e eu, já abrimos mão. Complexo porque para o meu pai, a nossa situação hoje tem peso de castigo.  De um “preço alto” que estamos pagando. É complexo porque nunca antes na minha vida eu quis tanto pegar meu pai no colo, e embalar seu pranto, como só as mães conseguem fazer.

E eu não consigo fazê-lo. Basta-me apenas, a difícil tarefa de acompanhá-lo em seu ritual de manutenção na lápide do meu irmão – enquanto ele cuidadosamente remove as velhas flores, e troca por botões novos, que ele ressalta constantemente, durar muito do que as flores normais. Um fornecedor novo, que ele comenta ter descoberto, falando com orgulho. Ele então lava bem o potinho das flores, e esconde as orgânicas, com flores artificiais – já que as naturais são proibidas naquele espaço. Meu pai jamais deixaria meu irmão com flores de plástico, ainda que isso agisse contra as regras do próprio céu. E eu fico lá com o coração na mão, vigiando o seu empenho e sapequice  ao quebrar o protocolo daquele local de descanso.

Entre uma tarefa e outra que ele executa com precisão cirúrgica, ele fuma um cigarro. Eu engasgo o choro para dentro, enquanto vejo-o soprar a fumacinha em direção à fenda de pedra, para o caso do meu irmão – também fumante – sentisse falta de um barato proveniente dos vícios terrenos. Fico escutando suas dores, pensando em mil maneiras de aliviá-las, admitindo e aguentando as minhas próprias limitações, de que tudo que eu posso fazer pelo meu pai, estou … ali, ficando do seu lado. Escutando e entendendo. Desmistificando pouco a pouco a ideia que ele tem de que a partida do meu irmão seja um castigo, mas muito mais uma evolução, reconhecida pela entidade mais sagrada na vida e depois dela. Pelo meu pai eu finjo ser forte, mesmo quando ser forte, seria a minha última opção.

Talvez essa seja a lição mais difícil a ser aprendida, e por isso não aprendemos a cuidar dos nossos pais desde cedo. Porque a gente precisa ter a ilusão de que eles são fortes o tempo todo, para que a gente vá descobrindo a nossa própria força. Força essa, que um dia será útil até para cuidar deles, dos nossos pais.

Nesse dia dos pais eu queria agradecer a todos os pais que fingiram força pelos seus filhos uma vida inteira, mesmo quando era a sua última opção. Fingiram força, engoliram o choro, adiaram planos, parcelaram desejos, e entregaram tudo que era seu, para que nós, seus filhos, tivéssemos todas as chances de felicidade e oportunidades de sucesso deste mundo. E o meu pai sempre foi esse cara. Com todos os seus defeitos e limitações, ele sempre esteve do meu lado cuidando de mim, fingindo que era forte para enfrentar tudo.

E eu vou fazer o mesmo por ele.  Vai ficar tudo bem, pai.


Fim da sessão.

Um abraço apertado aos pais presentes e atuantes – aqueles que são os nossos heróis tão humanos.

Eu adoro aeroporto

– “Filha, não precisa me buscar no aeroporto. Eu pego o trem”.

– “De jeito, nenhum, mãe. Eu faço questão”.

Ela encerra a ligação agradecida, ainda que não tivesse tido tempo de explicar. Não que eu não fizesse questão de dar uma carona para a minha mãe, mas naquele contexto, o que eu fazia questão ali, era o aeroporto.

Eu adoro aeroporto. Gente chegando, gente indo embora. Pessoas se despedindo com lágrimas nos olhos, ou se reencontrando com sorrisos largos. Últimos beijos, primeiros abraços. Adoro chegar com antecedência e me pôr a vislumbrar histórias de partidas e chegadas, ou mesmo de inventá-las, com roteiros elaborados, dignos de blockbusters. Eu me sento com o meu pão de queijo ultra-inflacionado, um café expresso e observo os passos apressados seguidos de malas, mochilas, bolsas e travesseiros de pescoço.

Faço uma leitura visual dos passageiros, e simulo seus itinerários. “Aquela ali vai viajar pra longe da família pela primeira vez, pelo pranto da mãe. Europa, pelo tamanho da mala. Ninguém vai pra Austrália com tudo aquilo.”– concluo. “As pranchas daqueles lá indicam uma surf-trip dos amigos. Chile, provavelmente, um deles derrubou a roupa de borracha tipo long.  Mas o chapéu de palha do outro acusa que pode ser El Salvador.” “O cara de terno e micro-mala vai a São Paulo a negócios. Pela cara dele, ele trocaria a selva de pedras por qualquer mar do Caribe”. Talvez eu também devesse conhecer o Caribe…

“A Infraero informa…”. Pronto, sou retirada do meu mundo de simulações pela voz metálica da moça da Infraero. Eu adoro tudo que a Infraero informa. O tráfico de aviões, os atrasos, as chegadas antecipadas, as trocas de portões de embarque – ainda que eu nunca escute os avisos quando deveria. Esses áudios são musica para os meus ouvidos, mesmo quando em alguns aeroportos eu não entenda tudo que dizem.

Como em Abu-Dhabi, quando perdi a versão em inglês do anúncio de que trocaram a minha conexão para a Tailândia e eu quase perdi meu voo, não fosse por uma burca-preta tímida e gentil, que me apontou o telão que anunciava a informação. “Como se vai de burca para a Tailândia?”, pensava enquanto nós duas corríamos para o portão certo. Ou da vez que anunciaram em um belíssimo italiano que o aeroporto fechava durante a madrugada, e eu tive que dormir no meu saco de dormir no chão, junto as minhas amigas aranhas, sem ter como sair do recinto para um lugar mais confortável. No fundo eu estava em casa, dentro de um aeroporto. Entre a Roma e Istambul, o que eu tinha para reclamar (além as aranhas…)?

Gosto da expectativa inebriante destes saguões.  Encaro os telões cheios de voos separados apenas por alguns minutos, que chegam de todas as partes do mundo. Penso nos céus que cruzam, nos oceanos que sobrevoam. Faço uma lista mental de onde eu iria se não me sobrassem responsabilidades e me faltassem dólares, euros, yuans. Meu estômago pula, cada vez que os letreiros trocam números de voos e destinos. Penso nos aeroportos que já receberam a minha alegria, o meu cansaço, o meu atraso, e de que não existe pior sensação no mundo do que chegar atrasado em um aeroporto, e ficar pra trás em Barcelona. Bem, isso até descobrir um boteco que servia sangrias baratas até o próximo voo (caríssimo) disponível. Eu adoro aeroporto.

E de aeroporto em aeroporto, eu faço planos infalíveis de dominação do globo. De juntar milhas com a mesma euforia de quem junta horas na fila do scanner. Eu sempre temo ter esquecido um líquido sagrado na mochila, que possivelmente terá de ficar ao lado da máquina de raio-x para descarte, até me lembrar que eu gasto os meus bocados muito mais com drinks do que com cremes caros. Eu me tremelico toda nas conferencias de passaporte. Já esqueci meu próprio nome em duas ocasiões distintas (talvez eu deva escrevê-lo na minha mão, na próxima). Eu sempre acho que vou ser confundida com uma prostituta em Madrid, uma traficante em Paris, confundida por sóbria demais para a Escócia, ou vítima da Ebola na saída da Johanesburgo. E eu nunca fiquei mais que 7 perguntas e alguns minutos suando frio nestes interrogatórios. É a síndrome do “não vou passar do aeroporto”. Ainda que eu adore aeroporto.

Adoro os pátios de aeroporto. Do cheiro de aventura. Cheio de aventura misturada com gasolina de aviação. Eu nunca liguei para carros, mas sou bem Maria-Gasolina-de-Aviação. É meu perfume favorito. Adoro o barulho vibratório de turbinas. O vento bagunçando o meu cabelo entre a sala de espera e um avião.  A sensação de inquietude que me causa. E se o vento faz voar um avião, imagina o que faz com as borboletas da minha barriga.  Elas voam, voam, voam, sem precisar de carona de boeing ou airbus algum.

Aeroportos me tiram do meu fuso. Quero abordar turistas e interroga-los em inglês, apenas pelo prazer que sinto do idioma dançando na minha língua. Eu me abalo cada vez que me despeço de alguém nele, nem que seja a minha mãe visitando a minha vó – abraço-a como se ela fosse cruzar o Atlântico – e a minha vó mora em Uberlândia. É culpa do aeroporto. Encaro sem vergonha os beijos apaixonados de casais recém juntados por uma conexão. Tenho vontade de abraçar famílias que nem conheço, quando recebem seus entes queridos com faixas, balões e buzinas. Celebro o reencontro deles dentro da minha cabeça, segurando a vontade maluca de me jogar junto no montinho de abraços desconhecidos. Ali, naquele desembarque onde tantas vezes o meu irmão me esperou na porta, com sua cara de sono,  o Django no colo e sorriso receptivo.  Onde me despedi de tanta gente, e reencontrei as melhores amigas do mundo.  Eu adoro aeroporto. São inícios, são meios, são fins.

Aeroporto é minha praia. Meu imaginário construído sobre concreto e asas. Ahhh são meus pés no chão e a cabeça no céu. Aeroporto é a confirmação em matéria física de que tudo é transitório, passageiro. Passageiro, sabe,  assim como você e eu.

Fim da sessão.


– “Oi filha! Tá aqui há muito tempo me esperando?”

– “Não mãe, cheguei às 11h.”

– “Mas eu te disse que o voo chegava só às 12h45.”

– “Não te preocupa, mãe. Eu tava aqui viajando.”

– “E esse cartaz?” – referindo-se a folha de papel branco com os dizeres “BEM-VINDA, MAMÃE” que eu segurava em frente ao portão de desembarque.

– “Eu gosto de celebrar reencontros.”

Ela me olha confusa – “Mas filha, eu fiquei menos de uma semana fora.”

– “Ah, mãe. Eu adoro aeroporto.”

O abraço do meu pai

É difícil chegar à vida adulta e não deparar-se com algumas características pessoais herdadas de nossos pais. Depois de anos de terapia dei-me conta que a maioria das discussões que explodiam entre meu pai e eu, eram acionadas pelas falhas que dividíamos.  Passado um tempo me analisando, comecei a entender que as nossas farpas, eram na verdade um sintoma do que os freudianos chamam de teoria da projeção. Basicamente a projeção é um mecanismo de defesa no qual os atributos pessoais de determinado indivíduo (eu) que são inaceitáveis ou indesejados por esta pessoa, são atribuídos à outra(s) pessoa(s) – no caso o meu pai. Tipo como colocar a culpa em alguém pelo seu fracasso. Você tira o próprio desconforto jogando ele lá pra grama do vizinho. Projeção.

E entendo um pouco mais sobre a projeção, comecei a aceitar que tudo que sempre nos levou a discórdia, era de fato muito do que compartilhávamos. A indisciplina dele bagunçava a minha. A minha ansiedade cutucava a dele. Nós nos pegamos inúmeras vezes alegando exatamente a mesma ideia, de formas diferentes, e em tom de desentendimento. Passado o tempo da minha adolescência rebelde, eu passei a ter uma necessidade de concordar mais do que discordar com o cara, e dada a evolução da minha análise, eu entendi que era muito mais fácil mudar a minha teimosia, do que a do meu pai. Ainda que tivéssemos passado muito tempo desbravando as águas de conflito, nós dois sempre estivemos um ao lado do outro enfrentando qualquer maremoto. Remando juntos, mesmo que um pensando bombordo enquanto o outro almejava o estibordo.

Dentre todas as nossas similaridades, uma divergência sempre foi gritante. Diferentemente do meu pai, eu sempre fui fã número um do abraço, do beijo, do carinho e do contato físico. Lembro-me do quanto sofri em Londres pela falta do calor humano brasileiro. Eu poderia tranquilamente ser uma daquelas pessoas que carrega um cartaz escrito “Abraços Grátis”. Mas no final, eu acabei me adaptando. O meu pai não, embora sempre tenha sido um cara queridão, sorridente e muito gente boa. E assim eu sempre me vi com dificuldade de cair no abraço do meu pai. Talvez ele fosse um eterno encabulado. Ou estivesse sempre com a cabeça preocupada. Ou mesmo penso que meu pai, o irmão mais velho de outros nove filhos, pudesse não ter tido muita chance no revezamento de abraços dos pais dele, os meus avós. Ou ainda poderia ser que seja uma coisa de época. Quem sabe quando o meu pai foi criado e educado, não era costume abraçar e beijar os seus rebentos.

Óbvio que quando eu era pequeninha, a primogênita da casa e toda bonequinha, nunca me faltaram mimos, mesmo do meu pai. Todavia, eu fui crescendo e durante boa parte da minha vida, eu aprendi a escutar uma expressão muito peculiar do meu pai: “ta-ta-ta-ta”. “Ta-ta-ta-ta” era o jeito do meu pai dizer que estava adequado e suficiente o tempo que eu o abraçava, como quem diz “ok, agora pode soltar”. Era como se ele estivesse com pressa de sair dos meus braços, ou desviar dos meus beijos babados. E eu sempre achei aquilo muito estranho, mesmo nós dois sendo tão parecidos. Eu nunca vi o desconforto dele como um problema pessoal comigo, muito mais como uma atrapalhação dele com ele mesmo. E ainda assim, sempre que possível eu tentava segurar meu pai no meu abraço um minutinho a mais. Recebia o conhecido “ta-ta-ta-ta”, ainda que atrasado, e então eu sabia que era hora de soltá-lo. Talvez o meu pai nem sonhasse o quanto eu calculava aqueles movimentos

Depois de adulta, eu comecei a pensar que talvez eu estivesse me tornando inconveniente com as minhas manhas e necessidades de atenção. A gente começou a trabalhar juntos, e eu passei a chamá-lo pelo nome ao invés de “pai”, por inúmeras razões que o mundo corporativo exige. Então eu me acostumei a abraçá-lo e beija-lo com rapidez e precisão, tentando evitar o “ta-ta-ta-ta” dentro da empresa. Essa pressa no abraço gradativamente escalonou para os nossos momentos de convívio social fora do trabalho.  Um ano ou dois se passaram, e os beijos acabaram cessando, e passamos a resumir nossos cumprimentos a encostar as bochechas, como dois pseudo-conhecidos fazem ao se encontram na rua. Nós dois finalmente estávamos parecidos em tudo. E eu, abrindo mão do “ta-ta-ta-ta” do meu pai, acabei abrindo mão dos abraços longos e dos beijos babados nele. Apenas nele.

Bom, aí veio a vida e levou o meu irmão, com todos os seus abraços. Abraços que meu pai desejou ter dado, sabido dar, sem vergonha, recato, cerimônia. Talvez naquele momento mais do que nunca, o meu pai desejasse que o pai dele tivesse o ensinado a abraçar mais vezes, mais forte, por mais tempo. Na semana passada, quando de novo eu ofereci a bochecha para o meu pai me cumprimentar, ele teve um rompante. Disse-me “por que você não me beija?! Por que só beija e abraça a sua mãe?”. Fiquei atônita olhando para ele, sem saber como explicar como chegamos naquele ponto. Resumi-me a ficar muda, beija-lo rapidamente, e partir a tagarelar sobre negócios, antes que eu aguasse a sala dele com o peso daquele momento. O meu pai só tinha eu de filha agora. Uma filha que havia desaprendido a receber e retribuir os abraços de pai que ele só tinha a mim para entregar.

Ontem, nos deslocamos para a minha cidade natal, com a difícil tarefa de nos despedirmos do meu tio, irmão do meu pai, e aquele que inspirou a doação de sangue que fizemos aqui no blog (O Corredor). Meu tio estava doente, cansado e sua passagem veio como um descanso merecido. A todo o momento durante o velório, eu olhava para os meus primos, filhos do meu tio, me perguntando quantos abraços e beijos, eles também, assim como eu, talvez tivessem desperdiçado. E agora não dava mais tempo. De nada.

Sabe, não há nada que nos faz pensar mais sobre a vida, do que a própria morte, isso hoje eu sei. E esse pensamento é tão sombrio, quanto esclarecedor.

Na cozinha da capela, quando finalmente consegui chegar perto do meu pai, ultrapassando a legião de carolas presentes com seus terços e orações decoradas, me joguei nos braços do homem sem nenhum constrangimento. Desabei chorando pelo meu tio, pelos meus primos, pelos abraços do meu irmão que tanto me fazem falta, e chorei pelos abraços que eu havia deixado de dar no meu pai nos últimos tempos.

Ele me segurou no abraço dele, e beijou minha bochecha demoradamente. E desta vez, ele não disse “ta-ta-ta-ta”.


Fim da sessão.

É preciso deixar ir embora

Eu começo esse texto pedindo desculpas. Não pelo silêncio dos últimos dias, esse tão necessário durante meu luto. Mas à todas as pessoas que de alguma forma eu ofendi ou fui insensível ao escrever o texto “É preciso ir embora“. Algo que se deve entender aqui, é que eu sempre estive na posição de quem partiu, tão cheia de expectativa rumo a novas aventuras, e por isso não entendia em profundidade a dor de quem fica no porto ou aeroporto abanando em saudade – todo tipo de saudade. Hoje, no entanto, eu passo a entender a dificuldade de não ter perto dos olhos, quem mora no coração. E eu tive que aprender a me despedir da forma mais dolorida e irreversível. Não suficiente, tal lição veio através da pessoa que eu mais amei e amo nesta vida.

Há um mês eu perdi meu irmão. Encontrei-o inconsciente após o que indicava um mal súbito/convulsão, e depois de tentativas de soprar toda a minha vida pra dentro dele, minha ilusão dissipou-se ao ouvir meu pai, anunciando com a voz desesperançosa, que ele havia partido. “Morreu”, disse em choque. E com apenas uma palavra, um verbo estranhamente conjugado no passado, uma parte de nós, do nosso presente – de tempo e de Deus – também se foi. Rasguei minha garganta em gritos de discórdia e desespero. Era como se naquele instante o tempo tivesse parado, ressaltando cada detalhe da falta de sorte que nos esmagava contra o chão. Abracei minha mãe enquanto ela implorava para eu dizer que aquilo era uma mentira. Nunca vou me esquecer dos olhos dela, antes tão cheios de amor, e ali naquele momento, vazios. Um gosto amargo tomou conta da minha boca, da minha vida. O Leonardo havia ido embora pra uma viagem sem volta, cujo destino eu não tinha visto de entrada. Com o meu coração sangrando nas mãos, chorei por não ter me despedido, e desde então não se acordou um único dia que não tenha sido regado a lágrimas de saudade.

Eu nunca falei do Leonardo aqui por dois motivos bem sinceros. Diferentemente de mim, o Léo sempre foi muito comedido – nada como a irmã que nunca teve papas na língua pra tornar o privado, público. E eu sempre respeitei isso. Além do respeito, a incapacidade de traduzir em palavras o que meu irmão significa pra mim. Já soltei o verbo sobre minha mãe, pai, sobre os irmãos gêmeos, minhas melhores amigas. Nunca sobre o Leonardo, e talvez apenas para o Leonardo. A dificuldade possivelmente está no fato de que ele personifica (ainda no presente) todos estes papéis. Meu irmão, meu melhor amigo, meu responsável, meu pupilo, meu protegido, meu confidente, meu filho, meu pai. Minha alma gêmea. Alguém cujo meu coração sempre bateu em sintonia, desde os primeiros anos da infância. Dono do meu amor maternal e fraternal coexistindo. Guardião da melhor parte de mim. Ser feliz ao lado do meu irmão sempre foi fácil. E se eu fui destemida a vida toda, era porque com ele ao meu lado, eu nunca tive nada a temer. E isso tudo mudou.

O luto da maior perda da minha vida trouxe a urgência de aceitar uma despedida sem qualquer preparo e em praça pública. Com sua partida tão antecipada e não anunciada e tendo ele passado mal dentro de casa – vieram as perguntas. “Como e por que ele foi embora?” e nós não sabíamos responder, ninguém sabia. Muito embora o Léo tivesse passado mal outras duas vezes neste ano, ambas resultando em convulsões, nenhum exame apontava qualquer alteração ou falência. A causa declarada no óbito como indeterminada, potencializou nossa dor, fez ecoar a nossa impotência frente à fragilidade da vida e alimentou uma culpa irracional constante – “o que aconteceu?”; “por que não deu tempo de fazermos mais exames?”; “como podíamos tê-lo salvo?” e lógico “queria ter ido no lugar dele”. Frente à falta de respostas, não demoraram muito para os abutres levantarem suas hipóteses infundadas, fomentadas pela curiosidade mórbida do ser humano e completo desconhecimento da pessoa que meu irmão era – uma pessoa alegre, bondosa e inteligente. Um futuro psiquiatra promissor, vivendo possivelmente a melhor fase da sua vida através da formatura de medicina no mês de dezembro, o início de uma bolsa de PhD, um visual novo lindo que finalmente combinava com sua personalidade e as novidades alegres trazidas pela maturidade. O meu irmão era a favor da vida, e fã nº1 da dele, e ouvir falácias supondo o contrário neste momento de despedida foi como perdê-lo duas vezes.

O aviso do ocorrido postado pela família no seu perfil do Facebook foi dito “mal escrito” e “inadequado” – agora me explica, existe jeito certo? Tem etiqueta ou tutorial para este tipo de despedida? Com que estrutura (de texto ou emocional) se notifica o fim da vida de um amor? Em meio ao nosso drama, ainda houve quem reivindicou viuvez de forma pública, sem nunca ter conhecido meu irmão, num ato desesperado de 15 minutos de fama em cima da dor alheia, para uma plateia de desinformados que bateu palmas para um amor que nunca existiu ou existiria – ao menos não aquele, eu é que sei. Era como se em meio à partida do meu irmão, tivéssemos ficado encarregados de toda a bagagem que ficou pra trás, não dele, mas impertinentemente a dos outros. Tudo tão público e incompatível com generosidade do meu irmão. Logo ele que preservava tanto sua privacidade e a dos outros. Eu me culpei por falhar com meu irmão no fim de tudo – eu fui calada pela dor da perda durante dias e não consegui protegê-lo de todo e qualquer mal, ainda que tratando-se de sua memória.

“Você sempre sabe como cuidar de mim”, o Léo me disse dias antes de partir. E talvez seja por isso que eu esteja tão perdida agora. Minha vida ganhou sentido no dia em que o Leonardo nasceu, e como irmã mais velha me pareceu linda a tarefa de sempre zelar por ele. E eu zelei. Quando puxava a cama dele pra perto da minha quando ele tinha medo de dormir sozinho. Quando saímos de casa juntos, para habitar um lugar neutro durante o divorcio dos nossos pais. Quando fiquei ao seu lado após uma cirurgia, para só sairmos do hospital se fosse juntos. Quando ele teve dúvida em relação a fazer e seguir com a medicina. Estive ao lado dele pra dar mijada e pra brigar quando ele não se cuidava – única razão pela qual a gente brigava. Para dar apoio em qualquer decisão. “Irmã” (como ele me chamava) sempre foi o meu título mais honroso e que definiu quase tudo do meu caráter até hoje. A minha existência sem a do Leonardo, me parece uma incoerência da vida, um engano do destino. É como se eu fosse um par de meias que perdeu o pé esquerdo – sem propósito, guardada numa gaveta escura. Uma porta trancada sem a chave.  “Avião sem asa, fogueira sem brasa”. Como ressignificar?

“É preciso deixar ir embora” – Frase proferida diversas vezes nos primeiros dias de luto, antes repetida como um conselho maldito, e hoje, ordem para o meu primeiro passo.

E é preciso deixar ir embora.

Hoje começo a entender que mais difícil e importante que aprender a ir embora, é aprender a deixar alguém partir. Seja essa partida temporária, com reencontros confortantes. Seja uma partida eterna, como a do meu irmão. E sei que só existe UM conforto para toda e qualquer separação – viver intensamente as pessoas que amamos durante o tempo que se tem. A ordem é nunca deixar nada pra trás. O Léo foi coautor de cada uma das minhas histórias. Eu vivi intensamente o meu irmão. Amei-o todos os dias da minha vida, disse e demonstrei esse amor, mesmo quando discordávamos. Eu celebrei o Leonardo a cada conquista, e ajudei-o em cada tombo. Então veja, eu não tenho nada pra me arrepender do nosso tempo juntos, porque ele foi aproveitado com cada batimento do meu coração.

Hoje também sei que o aprendizado de deixar ir embora é um período solitário, intransferível e demorado.  Haverá de deparar-se com a separação – temporária ou permanente – e obrigatoriamente fazer dela um período de ressignificação pessoal. Não importa a quantidade de pessoas que te rodeie, existirá por um bom tempo uma solidão latente, pois a ausência de qualquer pessoa – como a do meu irmão –  não pode e nem nunca será substituída. É intransferível porque por mais que meu pai, minha mãe, ou mesmo meus irmãos pequenos, estejam passando pela mesma perda, a nossa conexão com o Leonardo é única, e desta forma cada um de nós sente a dor e a saudade de uma forma também muito singular.  E não existe “tratamento” rápido. O processo anda a passos de formiga, todo dia é um desafio e o tratamento visa minimizar os sintomas da dor, mas nunca cura.

Ainda que solitário, intransferível e demorado, permitir que outras pessoas estejam por perto dando apoio, é talvez o único jeito de tolerar esse momento de adaptação e ressignificação. E aqui não haverá surpresas – eu vivi isso – você saberá sem nenhuma dúvida, quem vai te ajudar de verdade, seja com o ombro, com o colo ou simplesmente compartilhando do teu silêncio. E fomos sortudos em ter uma legião de anjos ao nosso lado durante o último mês, nos segurando sempre que a dor foi mais forte, e por eles temos uma gratidão que não pode ser traduzida em palavras.

Hoje sei que deixar ir embora é importante em respeito aos objetivos de quem está de partida ou quem já partiu. Se for por vontade, destino ou “porque Deus quis” (“aspas” aqui porque ainda estou de mal com Ele). Ir embora é etapa importante da vida de uma pessoa, e sei que não cabe a ninguém questionar as razões. Aprendi que não posso ser âncora na evolução pessoal ou espiritual de ninguém. E também sei que essa despedida não pode ser uma âncora na minha vida – não porque devo qualquer coisa ao meu irmão, mas porque a felicidade é um compromisso que eu assumi comigo mesma há muito tempo, o que sempre foi motivo de orgulho pra o Leonardo.

É preciso deixar ir embora porque tudo na vida é transitório, e eu confio no tempo – e somente nele – para me ajudar a conviver com a dor da saudade.  Entendo que não existe outro caminho que o caminho do meio – não tem como desviar ou contornar esta etapa de despedida/luto, é preciso encarar todas as suas fases. E para estes momentos não almejo ter força, mas coragem – porque viver além da despedida, exige coragem permanente. E aqui reforço o pedido de desculpas que fiz no início deste texto, se minimizei ainda que sem querer, a complexidade de uma despedida. Porque é preciso coragem para quem vai e também para quem fica. Então sempre que houver medo, dúvida ou tristeza – e vai acontecer muitas vezes – que minha família, eu e todas as pessoas que precisam, possamos ter coragem para perseverar.

É preciso deixar ir embora. Nas etapas da vida, e também na passagem para o outro lado – passagem essa, que talvez seja a única, que todos nós já temos reservada.

Fim da sessão.


Nota para o meu irmão:

Leuo, eu sei que tu não lias o meu blog (“eu não quero ler tuas sacanagens!”) e que tu deve ter coisas mais importantes pra fazer onde tu estiveres. Lamento “quebrar nosso sigilo”, mas falar em ti passou a ser a única forma de te sentir mais perto – então eu ainda vou falar muito em ti. Esse com certeza não é o texto que tu merece, e creio que eu jamais serei capaz de escrever algo a tua altura. Ainda assim que fique registrado aqui também, que foi o maior privilégio e honra estar ao teu lado neste plano e te agradeço por ter me escolhido para esta viagem – curta sim, mas cheia de amor e lindas memórias. Agradeço também porque sei que, assim como em outras viagens que fizemos, tu vais reservar os melhores lugares aí em cima, para o dia que estivermos lado a lado outra vez. Até lá, vou acumular milhas de felicidade e bondade por nós dois. Eu prometo.

Bombinhas (SC), 1990Léo descobrindo que adora o colo na irmã (1)