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A maldita calcinha suja [vídeo]

Para quem conhece o blog há mais tempo, vai lembrar que a crônica “A maldita calcinha suja”, marcou a história do blog.

Não por sua improbabilidade, mas pela cara de pau e deboche de quem conta. Ela foi a primeira sessão pública no Antônia no Divã, e frequentemente é solicitado que ela seja contada por sua protagonista.

No sábado passado, ao final da minha palestra no Movimento de Expansão (que tratava de assuntos muito mais profundos do que a calcinha), me rendi aos pedidos do público de contar aquela que é uma das histórias mais despudoradas deste meu divã. Ora, a coisa toda só podia acabar em risada. Pobre do meu pai que estava presente. hahaha.

– Gatilhos: linguagem forte, conteúdo de conotação sexual, [18+]
– Imagens e comentários: Amanda Schenkel
– A maldita calcinha suja: https://goo.gl/OytjDM
– A maldita calcinha suja – episódio 2: https://goo.gl/DYk8sC

Coisa de Antônia: Gata Borralheira

No “Coisa de Antônia” no ATL Girls da Rede Atlântida, vamos relembrar um clássico dos contos de fada… da vida real.

Entra na sua abóbora e corre pra lá:

Coisa de Antônia: Intolerante à borboletas

No Coisa de Antônia de hoje no ATL Girls da Rede Atlântida,  vamos revisitar o pior sintoma da primavera… as borboletas.

E aí, você tem estômago pra isso? Clique na borboleta e decida:

antônia no divã - intolerante à borboletas (insta)

 

 

Queria ser perfeita

Eu queria ser perfeita. De verdade. E eu nem sei como isso começou. Em casa não foi. Meus pais nunca me exigiram perfeição, eles sequer intervinham nos meus assuntos da escola. Talvez porque a cobrança que vinha de mim já garantia notas altas e um bom desempenho em tudo que eu me envolvia. Eu estava entre os melhores alunos da turma, era destaque no meu grupo de dança e comecei a falar uma segunda língua bem cedo. Mas eu queria mais. Queria ser perfeita. Talvez eu culpe a Disney por isso, com suas princesas de cabelos perfeitos e comportamento adequado. Eu nunca fui adequada. Mas eu sempre quis ser perfeita.

A situação realmente piorou quando me tornei adolescente. Eu fui estudar em uma escola técnica cujo corpo estudantil era formado em 70% por meninos. Não foi difícil ganhar atenção na escola, e eu tinha que ser forte num universo basicamente masculino. Logo os holofotes que antes me envaideciam, me tornaram tensa e paranoica. Eu cuidava todos os meus passos, ensaiava minhas falas na cabeça e evitava qualquer situação que pudesse demonstrar minhas falhas. Era exaustivo. Na fase adulta não foi muito diferente. Eu conquistei todo emprego que almejei, eu me formei com distinção em tudo que estudei. Namorei os caras mais populares e fiz um monte de escolhas ruins baseadas na minha vaidade.

Quando o divorcio dos meus pais finalmente teve um fim, decidi que era hora de pegar o rumo do mundo e gozar de um encontro comigo mesma. Talvez lá eu encontrasse a perfeição pessoal que eu tanto buscava. Ao invés disso, Londres trouxe algo que eu jamais experimentara antes: completo e absoluto anonimato. Lá eu aprendi que podia ter meus dias de cabelo ruim que ninguém ia notar (e sempre tinha alguém bem pior). Eu corria na beira do Tâmisa apenas de shorts e top, sem me preocupar em mostrar o corpo. Eu uma vez vomitei de bêbada em público, dentro da manga do meu casaco em um ônibus da madrugada, e me achei genialmente inteligente pela solução encontrada. Algumas pessoas podiam dizer que eu havia me tornado alguém pior. Verdade era que Londres tinha me dado à chance de ser livre pra me tornar quem eu bem entendesse.

Quando chegou a hora de conseguir um emprego, todos os meus colegas de MBA miraram em vagas de gerencia na capital inglesa, posições complexas e reconhecidas. Eu batalhei por um estágio na Yahoo!UK que me parecia instrutivo e divertido. Lembro que na minha entrevista me peguei nervosa falando sobre uma viagem a Tailândia e a diarreia de três dias que tive em Koh Phi Phi. Eu sabia que não ganharia o emprego – era possivelmente a única candidata que havia falado sobre desarranjo durante uma entrevista. Mas para a minha surpresa o emprego era meu – segundo o meu novo gerente, eu tinha algo que ele não vira em mais ninguém: brilho nos olhos, curiosidade  e uma língua solta. E aquilo era bem vindo à minha nova equipe. Eu não precisava ser perfeita. Bastava ser eu mesma. O emprego também não era perfeito. Mas lá eu aprendi muito, e de quebra apertei a mão do Will Smith – e quem dos meus colegas de MBA podia pôr isso no currículo, hm?

Foram os anos mais felizes da minha vida, aqueles em Londres. Talvez porque tivesse o compromisso único e exclusivo comigo mesma. Não tinha que ser filha – irmã – funcionaria – vizinha – aluna – pessoa modelo pra ninguém. Muito embora soubesse que os fantasmas da perfeição moravam apenas no meu sótão, e no de mais ninguém. Já no Brasil consegui manter alguma liberdade das amarras que conquistei em Londres. Outras não foram tão fáceis.

Lembro-me de falar para a minha psicóloga que só voltaria a me relacionar com alguém depois que eu perdesse uns 14 kg, colocasse a minha carreira em ordem, me mudasse para um apartamento novo e parasse de beber tanto. Eu até podia aceitar meus defeitos, mas não estava disposta a dividi-los com mais ninguém. A minha terapeuta na época me mostrou, sempre através de perguntas, e nunca de respostas – como a maioria das psicólogas irritantemente eficazes fazem – que os defeitos podiam ser o tempero de uma relação. O problema é que eu não sabia cozinhar.

Mas aceitei o desafio. De abrir as portas da minha casa (talvez as do coração), e até mesmo as da cozinha para alguém. Já era o segundo mês que eu ficava com um gatinho, quando decidi que aquela quarta-feira seria o dia perfeito para fajitas mexicanas (cujas receitas, estudei profundamente o dia todo). Controlei minha inabilidade e impaciência com as panelas. Tentei não passar acidentalmente guacamole nos cabelos. Tenho certeza de que ele, da tranquilidade do sofá e de sua cerveja com tequila, não fazia ideia do esforço que eu estava fazendo para me manter em controle. Mas eu consegui. E administrei – quase sem nenhum acidente – um festival mexicano todo meu.

Depois da janta, deitei no sofá agradecendo por ele sugerir um filme. Se fossemos pra cama eu teria que ser sexy. Para ser sexy eu ia precisar tomar banho, secar os cabelos, passar rímel e meu gloss preferido e alongar minha musculatura tensa. Confesso que depois de cozinhar, (in)habilidade que eu evito, estava exaurida. Joguei as pernas que deveria ter depilado em cima dele, para então adormecer profundamente.

No dia seguinte, recebo pelo whatsapp dele um videozinho, que ele intitulou de “ronc-ronc”. Já no inicio do vídeo reconheço meu sofá, minhas almofadas – juro que com a evolução da filmagem comecei a temer ter sido uma daquelas garotas que foi filmada furtivamente fazendo um boquete, mas Graças a Deus não era o caso – e de repente aparece eu. Cabelo brilhoso apesar de sujo, semblante tranquilo, em um sono profundo. Parecia com uma das princesas da Disney, a Bela Adormecida – Isso, é claro, não fosse o fato do microfone se aproximar e gravar meu ronco, rouquíssimo e alto, que mais parecia uma britadeira em plena operação. Espraguejei os céus. Antes fosse um boquete no vídeo, mas não eu roncando! Merda! Claro que aquilo era novidade pra ele! Na minha neurose eu sempre o deixava dormir primeiro com medo de o meu segredo ser revelado.

Morri de vergonha, enquanto ele do outro lado, ria achando tudo muito fofinho, explicando que tinha curtido que eu estava dormindo tão tranquila. Dei-me conta que aquela era uma cena nova pra mim. Eu finalmente havia me rendido a exaustão de ser perfeita, pra ser eu mesma. Naquele momento finalmente entendi que não valia perder horas daquele sono tão gostoso para atender ao meu idealismo. Nem por mim, e nem por ninguém.

Concluí por fim , com aquele pequeno vídeo, que não conseguiria aceitar qualquer pessoa na minha vida, sem passar obrigatoriedade pela aceitação própria. Então faria daquele ronco o ecoar da minha liberdade, oras!  Hoje eu não tenho duvidas que ser perfeita deve ser muito bom. Eu queria ser perfeita. Acontece que ser eu mesma é ainda melhor. Ronco, língua presa, teimosia e tudo mais.

Mas vou deixar protetores de ouvido do lado da minha cama. Just in case.


Fim da sessão

Em tempo: O áudio deste post é a deliciosa melodia do sono de uma princesa. Num conto de fadas moderno, é claro.

A maldita calcinha suja – episódio 2

Quem acompanha o blog desde o início, sabe que o primeiro post público pra inaugurar o divã não foi uma história nada bonita, muito menos limpa. A saga da “A maldita calcinha suja” terminou no mínimo com algumas reticências, e não foi à toa que muitos escreveram perguntando como diabos a história terminava. Gostaria de poder dizer que o final tinha cheirinho de amaciante, mas se tivesse não seria o divã da Antônia. Não. A Antônia aqui se supera mesmo quando o assunto é calcinha suja.

Obviamente que dada à fatalidade do meu último encontro com o churrasqueiro de olhos verdes, eu evitei todo e qualquer contato, e prometi carregar uma calcinha limpa na bolsa sempre que fosse encarar uma festividade… assim, só por precaução. Fato é que nos meses que decorreram daquele churrasco, mal tivera chance de comparecer a qualquer festividade. Estava encarando um curso extenso e importante que me preparava para a fusão da empresa em que eu trabalhava com uma grande corporação americana. Eu, a única brasileira daquele escritório inglês, com a oportunidade de participar de uma das maiores fusões da história da internet. Eu não podia vacilar.

Após três meses de treinamento e preparação para a futura joint venture, cada um de nós deveria  preparar uma apresentação aos nossos gerentes de área sobre nosso entendimento íntimo com os novos sistemas. O seminário chamava-se “Intimate Understanding of Fusion”, algo como “Entendimento Íntimo sobre a Fusão” – um tanto quanto intimidador, pra dizer o mínimo. Eu estava no limiar de um ataque de nervos.

Já era tarde da hora naquela quinta, e eu ainda estava no escritório, revisando as minhas anotações para a apresentação no dia seguinte. O telefone toca.

– “Oooooooiiiiiññññe” – muito embora seu nome estivesse na tela do celular, só a manhice do cumprimento já entregava que era a Patrícia.

– “Fala rápido, Patrícia, tô no meio de algo importante”, respondo seca.

– “Aiiiiieennn, eu sei! Grossa! Você só fala nesse merda desta apresentação, quando é?”

 – “Amanhã, e eu estou uma pilha de nervos.”

– “Então eu tenho a solução pros teus problemas. A gente está aqui na casa dos guris (aquela do churrasco cuja porta do banheiro nunca tranca – lembram?), e tá rolando umas pizzas e uns drinks pra ver o final do X-Factor”.

– “Ai Patrícia, não dá, eu nem fui pra casa ainda, eu tenho apresentação amanhã de manhã….” vou respondendo rápido sabendo que vou ter que convencer ela muito melhor que isso…

– “Ta, ta, ta… chega de desculpas. Vem direto do escritório pra cá, hoje é bem tranquilinho, é coisa rápida e depois a gente racha um taxi, eu e o Pablo te deixamos em casa nas badaladas da Cinderela. Palavra de escoteiro!”

– “Patrícia, não quero dar de cara com o guri que lavou as minhas calcinhas!!” – penso que assim ela iria entender meu drama e desistir.

– “Sem problemas, os guris estavam comentando que ele trabalha até tarde hoje, vais ainda poder entrar de mancinho do quarto dele e reaver a tua dignidade.”

– “Acho que essa não revejo nunca mais. Mas ok, ótimo, assim recupero as malditas calcinhas sem ter que dar de cara com ele. Chego aí em 20 minutos se a Central Line não tiver lotada.”

Recolhi minhas anotações, notebook e enfiei tudo dentro da bolsa, e parti em direção a Central Line. Na casa dos guris, a coisa era tudo menos “tranquilinha” – não sei como eu ainda caio na da Patrícia. Chego no início do segundo bloco do “X-Factor”, onde as apostas dividiam a plateia da sala se Simon Cowell gostava ou não do artista – quem errasse encarava um shot de tequila. “Vamos Antônia! Só uma aposta!” Pensei que uma tequila não ia me fazer mal algum, e ainda ia me ajudar a relaxar para amanhã.

No final do quinto bloco do X-Factor, eu já tinha errado tantas opiniões do Sr. Cowell, que já fazia minhas próprias versões das apresentações usando o controle remoto como microfone. Quando achei que já estava bêbada o suficiente, fiz um sinal pra Patrícia e saí de fininho da sala rumo ao quarto do churrasqueiro de olhos verdes naquilo que eu e a Patrícia intitulamos a “Expedição Calcinha”.

Entrei pé por pé no quarto do gato. Suspiros. Aquele lugar tinha boas lembranças, apenar do término vergonhoso. Examinei o armário, a escrivaninha, as gavetas do bidê, nada. Procurei em baixo da cama, nada. Na tulha de roupas sujas (ele disse que tinha lavado, mas vai saber), nada. Vasculhei o quarto todo e nada. Deitei na cama frustrada – onde diachos esse guri guardaria uma calcinha? – pensei afofando o travesseiro. Opa! Ali estava. Limpinha e rosinha como eu lembrava! A minha maldita calcinha limpa embaixo do travesseiro! Safado!

Foram apenas alguns segundos de comemoração. Em seguida pânico. Passos acelerados na escada, a porta abrindo subitamente.

– “Oi linda! Que surpresa boa! Que bom que você achou a calcinha e já está bem à vontade. Eu tava com saudades.

7h00. O meu despertador grita estressado. Saio da cama num pulo, tentando achar sentido naquele quarto não-mais -tão-estranho. Ai meu Deus, eu já vi essa história. Antônia, você não aprende. Merda! Maldita Patrícia! Maldito Simon Cowell! Maldita tequila! Malditos olhos verdes! Tudo outra vez: reviro os moveis recolhendo brincos, pulseiras, blusa, sutiã, calça… calcinha e calcinha. Ah sim, pelo menos desta vez eu havia achado as duas. Coloco a calcinha limpa, e visto as roupas voando. Tinha que estar em Soho em 20 minutos na apresentação para a qual me prepara durante tanto tempo.

“Já vai sair correndo de novo, linda?”

“Ahhh… sim, estou atrasada.” – tento sem sucesso arrumar os cabelos.

– “Pegou tudo desta vez?” – ele pergunta com um sorriso abusado – “deixa a outra calcinha aqui pra você buscar outro dia”, ele sussurra cheio de malícia agarrando minhas coxas.

– “Não, obrigada! Eu tenho máquina de lavar, malandrinho.” – enfio a calcinha suja na bolsa, dou-lhe um beijo estalado e saio correndo.

Soho. Estou 15 minutos atrasada. Todos já estão na sala de reuniões.

-“Bom dia, Antônia. Que bom que pôde se juntar a nós. Que tal ser a primeira, já que chegou atrasada. Vamos começar com sua apresentação sobre “Entendimento Íntimo sobre a Fusão?

“Claro, Andrew.” – Sorrio sem graça para os outros 14 colegas em volta da mesa de reuniões.

Desligo as luzes, puxo da bolsa o meu notebook e minhas anotações e apressada coloco tudo em cima da mesa. Ligo o projetor de power point que ilumina a mesa de reuniões. Em seu centro, nada mais, nada menos, que a minha maldita calcinha suja.

“Ãhhh… vamos iniciar a apresentação de hoje nos perguntando… o que realmente quer dizer ‘íntimo’, meus senhores?


 

Fim da sessão.

Santa Claus. Santo Caos.

Natal sempre foi uma época tensa na minha juventude. Muito provavelmente ela fora cheia de magia na minha infância. Mas logo que comecei a cultivar o que acredito ser um pensamento crítico, eu não esperava mais por Santa Claus. Esperava por Santo Caos. Dentro do saco do Papai Noel, tinha expectativa, espera e deveres. Nada do que eu havia pedido pro Natal.

Lembro que nossa programação era toda dividida, e com certo teor de missão militar. Comprar presentes, vestir-se bem, “Antônia esse vestido tá curto, sua avó vai pirar!”, sair de casa no horário, “Antônia, nós estamos atrasados!”, passar na avó nº 1, sair da casa da avó nº 1 no horário para não chatear a avó nº 2, “Antônia, nós estamos atrasados!”, a avó nº 2 ficava chateada pois ganhou menos tempo da noite de Natal que avó nº 1. O meu avô, que durante muito tempo ficou entre esse plano e outro, era motivo de nos reunirmos, pois todo Natal tinha o peso mórbido da possibilidade de ser “o último Natal”. Recordo de meu avô passar as mãozinhas lisinhas nas minhas e dizer “o que vocês estão fazendo aqui? Vão pra praia! Eu iria se pudesse” – sempre com um sorriso de bom velhinho nos lábios.

Embora quisesse seguir os conselhos do meu avô, sabendo que seriam provavelmente os últimos, eu não tinha como escapar. Havia uma obrigação velada com aqueles encontros. As noites Natalinas eram o ápice da reunião familiar. Imagine uma família italiana com 9/10 tios para cada lado, com seus respectivos cônjuges, filhos, e agregados. Toda aquela energia familiar reunida em volta de uma única árvore de Natal num único encontro anual. Encontro este onde eram discutidas todas as pautas, rancores, frivolidades e lavação de roupa suja. A minha família não era melhor que as outras. Mas também não era a pior, eu sabia. Este caos provavelmente assombrava outros lares. E assombrava um tanto a minha cabeça.

Fato é que as energias desta época sempre foram concentradas, expectativas sempre tão grandes, as formalidades e as obrigações sempre tão complexas, que por um bom tempo, para esta que vos fala, a magia morria junto com o peru. Na véspera. Para mim, o Natal era um obstáculo que eu tinha que vencer para poder chegar à praia e fazer o que realmente gostava. Planejar um Ano Novinho com os pés na areia. Viver amores de verão. Curtir as pessoas com quem eu queria gastar meu tempo livre. Mas antes tinha o Natal. Ah o Natal… O Natal era o caos autorizado. Era “divino”. Mas eu odiava o Natal. E me perguntava se o aniversariante gostava da festa dele, festa que eu, declaradamente, era obrigada a participar.

O tempo passou e minha família também mudou. Certo Natal, a coisa dividiu e dissipou-se de tal maneira que em volta da mesa da ceia, estávamos apenas meu irmão, minha mãe e eu. Aquela cena Natalina também não foi das mais alegres. E eu me perguntava se a gente estava fazendo realmente aquilo que gostaria do Natal. Num súbito desespero de quem não queria colocar mais um Natal na lista dos que eu queria esquecer, convidei os dois para irmos à casa de uns amigos da família. Um grupo queridíssimo de pessoas que compartilhavam as nossas vidas desde muito cedo. “Mas Natal é para se passar em família”, disse minha mãe preocupada com nossa intervenção na ceia alheia. “Eles são uma família. Nós somos família. Nós só vamos juntar duas famílias!”.

 Pegamos nossos champanhes e nos movimentamos pra lá. Sem convite, sem aviso, sem formalidade. Vestidos de amor, carregando carinho, panetone e alegria. Na porta fomos recebidos com mais alegria embebida em uma feliz surpresa. Era um milagre de Natal. Passamos o resto da noite relembrando nossas histórias preferidas, a nossa vida compartilhada. Sem presentes. Apenas nós mesmos – presentes, naquele momento.

A partir daquele Natal, o encontro virou nossa tradição. Reuníamos as nossas famílias que não dividiam genéticas, mas dividiam histórias. Famílias de alma. Família por opção. O Natal neste formato não passou a ser mais organizado. Pelo contrário. As nossas famílias eram gritonas e atrapalhadas. Ocupávamos a cozinha juntos, todos os indivíduos falavam ao mesmo tempo, ninguém se escutava e todo mundo se entendia. Mãos trabalhavam nos quitutes e nos afagos. Nossas roupas vestiam nenhuma pompa, mas a tranquilidade de quem está em casa. Os cheiros preenchiam ambientes, as vozes ocupavam o lar. A comida era bem cuidada, cheia de atenção, cuidado e “sazon” – considerávamos todas as gulas, alergias e habilidades. “Tem que ter o salpicão!”;“E a bruschetta!”; “E aquele filé do ano passado ou o salmão do Natal reatrasado. Não! Vamos fazer os dois!”; “Não bota alho que eu tenho um encontro depois”; “Nem cebola, eu tenho alergia!”; “Traz mais uma mesa que não coube tudo.”; “Ih, quem esqueceu o porquinho no forninho!?”

O meu Natal tinha que ter barulho. Congestionamento de pessoas e de ideias. Tinha que acabar com degustação de todos os champanhes e as águas aromatizadas com laranja e alecrim. Tinha que ter cafezinho com chocolate. O Natal tinha que ter um vaso com as bico-de-papagaio da minha mãe. Não havia Natal sem as folhagens da minha mãe. Natal tinha que ter os enfeites de pinheirinho que passamos a colecionar juntos, embaixo de um mesmo teto durante os meses de dezembro. Eu passei a amar dezembro. Passei a plantar manjericão pra ter folhas frescas em dezembro. Passei a plantar expectativa, espera e deveres prazerosos. Tudo de volta no saco do Papai Noel, aquele que antes eu desprezava. E deste jeito, caótico e não planejado, eu fiz as pazes com o Natal.

Com o passar do tempo, essa família também mudou. Aumentou e multiplicou. O formato do Natal também se modificou. Ganhou mais crianças, e com elas, o fortalecimento da esperança. A saudade de um tempo mais lúdico. A renovação dos nossos votos de amor, e de compromisso com nossas novas gerações e novas tradições. Mas sempre cultivando a nossa história.

Penso hoje que Santa Claus nunca mais vai precisar me trazer coisa alguma, pois não desejo nenhum presente além do Santo Caos criado por quem eu amo. Penso hoje que quero pra sempre os meus Natais com as pessoas que eu escolhi, com os costumes que criamos, com as alianças que fortalecemos. Quero no Natal as luzes dos olhos das pessoas que me fazem bem, os abraços apertados e cheios de sentimento. Quero Natal com quem faz questão de lembrar das minhas histórias. E lembrar ano após ano de como foi bom passar o Natal comigo. Sei que desta forma a minha alma nunca vai envelhecer. E o Natal nunca mais será igual. E a cada ano, sempre- sempre melhor.

Feliz Santa Claus. Feliz Santo Caos a todos que como eu, são abençoados pela muvuca natalina.

“Traz o porquinho do forninho!”


Fim da sessão.

O tombo

Eu sempre tive e admirei gatos por sua capacidade inquestionável de dar conta do improvável. Como enfrentar uma queda não planejada e cair sob suas quatro patas. Lembro-me de ser pequena e desafiá-los a situações adversas só para vê-los superá-las. Caindo sempre sob quatro patas.

Na minha vida, por algum tempo, também fui assim. Me desafiava constantemente a superar situações adversas. Muitas vezes fiz como fazia com meus gatos, e coloquei-me em situações adversas de propósito, apenas para testar minha capacidade de resolução. Obvio que com o tempo isso se tornou arriscado e cansativo, e com a chegada a maturidade (isso aconteceu?!) parei de procurar conflitos, e me contentei em rebater os desafios da vida. Sempre buscando cair sob as minhas quatro patas.

Isso até aquele casamento. Aquele casamento me marcou.

Era uma celebração linda. Na beira de um rio ao pôr do sol, sob a proteção de um majestoso carvalho e doces palavras de uma juíza de paz. Celebrávamos o amor da Franchesca e do Julio, com lágrimas de alegria e também de despedida, pois os dois iriam morar em um paraíso distante de nós, dias depois do casamento. Abençoamos os noivos com areias coloridas e desejos de diversas vibrações positivas. Tudo estava naquele vaso multicor: cumplicidade, compaixão, saúde, alegria, paz e amor. Muito amor.

O casamento seguiu deslumbrante, e as borbulhas rolavam cedo em nossas taças. Na minha mesa, um buque com as minhas flores preferidas: Melina, Tamara, Taíssa, Uana e a Mana, a irmã mais nova da Uana. Entre canapés e quitutes, mais borbulhas. Confesso que logo cedo fiquei preocupada com a rapidez do álcool, e lentidão da comida. Pedi ao garçom que regasse minhas flores com água, assim todas curtiriam a festa até o final. Antes que ele terminasse de servir a água, Uana já se mostrava um pouco mais desinibida, e afoita com os bocejos da irmã e da Taíssa. Disse às duas que não seriam convidadas para o casamento dela, dado o cansaço evidente das duas em um dia tão importante. Não deu nem tempo de intervir. Irmã e Taíssa pegaram suas bolsas, e foram embora.

Chilique a parte a festa rola solta depois da janta. Os noivos dançam primorosamente sua primeira dança, abrindo a pista. A turma do cigarro decide tomar um ar lá fora. Junto com a Melina, Uana e eu, Fabiano, e Guilherme nos acompanham para uma fumacinha. Embaixo do carvalho. Num espaço mais recluso do pátio. Do lado da cama elástica. Cama elástica?!! Como, diabos, isso veio parar aqui? Fabiano e Uana que já enrolavam a língua do champanhe, comentam que a presença da cama elástica naquele casamento era no mínimo uma situação adversa. E era. E aí, reacendeu em mim, aquele espírito de gato, de desafio, de pular e cair sob as quatro patas.

Tirei os sapatos e com vestido de cetim e coque banana na cabeça, subi na cama elástica. Melina, Uana, Fabiano e Guilherme riam sem parar da minha habilidade em pular e ao mesmo tempo tapar as calcinhas embaixo do vestido. Uana decide juntar-se a brincadeira. As duas pulam em círculos, afastadas o suficiente para evitar o contrachoque da cama elástica. Num dado momento, Uana pula perigosamente perto de mim. A cama elástica me arremessa.

Cetim. Coque banana. Risadas. Tudo direto ao chão, sob a dureza de um paralelepípedo. Eu… não caí sob as quatro patas. Eu caí sob o coque banana. E desfaleci.

Minutos depois me lembro de ser levantada pelo Fabiano e pelo Guilherme. Tento sorrir e dizer que está tudo bem. Meu pescoço esquenta. Sinto algo escorrer. Toco a minha nuca de leve. Olho as mãos para vê-las vermelhas. Vermelho espesso. Pesado. Dolorido. Vermelho que contrastava com o véu da noiva. Vermelho medo. Vermelho incerteza.

Uana desce rapidamente da cama com mil desculpas. Só consigo dizer que não foi culpa dela, antes de perder a habilidade de dizer coisa alguma. Melina, como boa produtora que é (lembram da Melina?!), aciona discretamente a cerimonialista, que entra em pânico e por isso leva uma mijada da Melina . Ela então orienta a cerimonialista a não falar nada pra noiva, e providenciar um transporte para o hospital. “Rápido!” Na beira da cama elástica, e possivelmente de outro ataque de pânico, Fabiano e Guilherme seguravam a minha cabeça com guardanapos de linho que tinham as iniciais dos noivos. Linho branco, agora também vermelho. Vermelho medo. Vermelho incerteza.

Minutos depois o motorista acelera sentido hospital. No carro comigo, Uana e Melina tentam me acalmar, muito embora já nem estivesse mais ali. Eu já estava num outro plano, enquanto as duas beliscavam as minhas pernas para ver se eu ainda podia senti-las. Uana chorava. De culpa. De medo. De raiva, raiva pelo champanhe  impedi-la de poder ajudar mais. Não havia o que pudesse ser feito. Ela não podia me ajudar.

No hospital, um pandemônio. Escutei algo distante sobre meu plano de saúde, e a Melina argumentando verazmente. Uana gritava ao meu lado “eu vou juntoxx com aaa Antôniaaa, eu não vous sair dãquii”, com a voz meio embaralhada. Melina então pegou na minha mão e me olhou bem nos olhos: “Antônia, vai ficar tudo bem tá?” – “Liga pro meu pai”, peço convicta – “Liga agora”. Encho os olhos de lágrimas pela primeira vez desde o tombo para pedir pelo meu pai. Eu não queria incomodar minha mãe – mãe também de outros dois pequenos. Mas eu queria ter alguém da minha família, caso precisasse me despedir.

Depois de entrar na emergência, tudo foi um borrão. Lembro-me de nunca ter sentido tanto medo quando fui submetida a uma tomografia.  Dentro da máquina, recordo-me que pensava que não queria morrer. Não era a minha hora! Que queria ver meus irmãos de novo. Beijar minha mãe. Ver meu pai sorrir. Tomar banho de mar gelado. Queria chorar de rir com as minha amigas. Tomar chimarrão. Beijar na boca. Queria viajar. Ver as pirâmides.  Comer escargot. Queria dizer pra Uana não brigar mais com a irmã dela. Queria pedir desculpas. Queria agradecer. Mas não podia. Não podia fazer nada. Estava presa dentro de um túnel escuro, presa às possibilidades. Presa àquele computador grotescamente enorme, que ia dizer se havia algo errado com a minha cabeça – algo além do obvio, que me fez subir numa cama elástica em um casamento.

Lembro-me de enfermeiras me xingando, que estava bêbada, ocupando lugares de gente “de bem”. Eu era gente de bem. Eu não estava bêbada – bem, eu já estivera muito pior, isso é fato. Mas não era isso que tinha acontecido. Recordo da dor da sutura. Lembro-me de implorar que me limpassem. Tirassem aquele vermelho todo de mim. Explicava sem parar ao corpo médico que meu pai não podia me ver naquele estado. Não naquele vermelho medo. Vermelho incerteza. Lembro-me de apagar novamente, sem saber o que seria de mim.  Eu era um gato em plena queda.

gatos 1

Acordei na cadeira de rodas com meu pai segurando a minha mão. Face transtornada. Mistura de pânico e raiva profunda. Vermelho raiva, pensei.  Empurrou minha cadeira de rodas pela recepção. “Onde estão a Melina e a Uana?” – perguntei. “Foram embora quando cheguei. Pedi que fossem. Tua amiga Uana queria entrar a todo custo. A Melina levou-a antes que a colocasse a força na glicose. Você também merecia uma glicose. A enfermeira disse que vocês estavam bêbadas.” Não expliquei. Me resumi em ficar com vergonha. Vermelho vergonha. Levantei-me da cadeira de rodas, sob as minhas duas patas. Suspirei de alívio pela primeira vez, incrédula da minha sorte.

Em casa, dormi um sono profundo sob a vigilância do meu irmão. Quando acordei, meu pai não estava mais lá – acho que não queria me ver. Encontrei um bilhete seu, com recomendações de remédios para a dor do corte de cinco pontos, e juízo para o que restava dentro da cabeça. Chorei. Chorei de vergonha por não ter caído sob as quatro patas. Chorei por ter perdido a festa tão linda do casal. Chorei pela possibilidade de tê-la estragado.  Chorei de dor de cabeça.

No celular, mensagens de carinho e preocupação. Algumas orientações sobre voltar ao hospital e apresentar minha carteirinha do plano de saúde – a Melina havia engenhosamente convencido à equipe a não me cobrar o valor de atendimento particular, sob a promessa do meu retorno para acerto. Da Uana também tive notícias. Seguia preocupada. E de ressaca, claro.

Quando peguei minha liberação do hospital, uma informação chama a minha atenção. Dentre inúmeras informações pessoais, ao lado do meu nome, na lacuna que dizia “RESPONSÁVEL”, estava escrito “Melina Dorneles”.  Ri por uns segundos pensando que não esperava ver naquele prontuário o nome da Uana.

Guardei o prontuário comigo. Como passei a carregar os cinco pontos que caíram da minha cabeça, junto a carteirinha do meu plano de saúde, que passei a carregar comigo na carteira desde então. Não que eu pretenda pular de uma cama elástica de novo. Claro. Guardei também uma cicatriz. Uma na cabeça, e outra na alma.

Naquele domingo pensei muito em como a vida era frágil. Que em um minuto se está no ar, e logo no outro podemos estar no chão. Que em um minuto as areias de benção podem ser coloridas, e que um pulo em falso podia tornar tudo vermelho.  Acima de tudo, pensei na importância da palavra “RESPONSÁVEL”. Da sorte que tive em ter gente responsável por mim, quando eu não fui. Para segurar o que eu tinha dentro da cabeça, como o Fabiano e o Guilherme. Para garantir meu bem estar, como a Melina. Ou ainda garantir a companhia, mesmo que fosse dormindo na recepção, como a Uana. Pensei como eu era sortuda de ter por perto, gente que me ama – seja quando estivesse em cima, ou embaixo da cama elástica da vida.

O telefone então toca com o número da Franchesca no visor, atendo envergonhada, esperando um xingão da noiva:

– “Samba Lelê tá doente, Tá com a cabeça quebrada. Samba Lelê precisava, de umas dezoito palmadas!”

– Oi, Fran. Hmm… Desculpa.

– Que tombo hein?  Samba Lelê tá bem?

– Não. Mas com vocês por perto, a cabeça sempre há de curar.

– “Samba, samba, Samba ô Lelê. Pisa na barra da saia ô Lalá.”

– Teu casamento me marcou, Fran. 5 pontos, pra ser mais exata.

– HAHAHAHAHA.


Hoje em dia, por vezes a cicatriz ainda dói. Penso que serve como um eventual lembrete. Um capacete que carrego comigo. Serve para me lembrar que embora eu seja uma gata, nem sempre eu vou cair sob as quatro patas. Mas que eu preciso sempre me levantar.

Quando preocupo-me com algo besta ou trivial, a cicatriz coça. Lembrando-me de que eu estou viva. Com a cabeça no lugar, ainda que Samba Lelê.

 


Fim da sessão.

 

Inocente

Era uma pacífica sexta-feira, e por volta das 20h30 eu já gozava do conforto do meu pijama de inverno, me rendia a uma taça de vinho e a ideia de dormir cedo. Domingo era dia dos pais, e eu já tinha me convencido de que aquele deveria ser um final de semana tranquilo.

Inocente. Eu sou mesmo muito inocente.

O telefone toca. Do outro lado da linha a minha BFF Melina fala acelerada sobre uma viagem para o norte do país para acompanhar a gravação do DVD de um grupo de pagode. Queria que eu fosse junto para lhe fazer companhia. A Melina, que sempre foi ligada no 220v, vivia envolvida em eventos fodásticos como lançamento de bandas e shows pelo Brasil. Uma atividade que ela tirava de letra, mas que lhe tomava muito tempo, deixando pouco espaço para os amigos, ou até mesmo um relacionamento. Cedi à saudade que estava da amiga, e depois de alguma relutância, concordo em ir com ela. “OK, Melina, nós vamos!” “Ótimo!”. “Mas pra onde vamos?”  – alguns segundos de silêncio do outro lado… “Manaus, nós vamos pra Manaus.”

A Melina então explica que iria fazer algumas ligações para ajustar minhas passagens, e me orienta a fazer as malas imediatamente, pois antes de embarcarmos, deveríamos passar em outro evento de um artista que ela tinha interesse. Eu, muito obediente, começo a fazer as malas. Ligo pra minha mãe e informo-a de meus planos. “Manaus?! Mas domingo é dia dos pais, Antônia. O que eu digo pro teu pai?”. “Não precisa dizer nada, mãe. Domingo chegarei para o almoço, fique tranquila.”

Na van, a caminho do primeiro evento do final de semana, vou tentando obter mais informações sobre a viagem do dia seguinte. A Melina responde uma coisa ou outra sem muito interesse, evidentemente mais preocupada com o nosso destino. “Você está muito ansiosa por esse evento de hoje. Normalmente você faz isso com um pé nas costas”. Ela fica vermelha e eu fico confusa. “Melina, para onde estamos indo e quem vamos ver?”, ela sorri sem graça – “Taquara”. “Melina, isso fica a 80km do aeroporto! O nosso voo é às 6h00! Quem é esse cara que é digno de tanta comoção?”  “Possivelmente, o futuro pai dos meus filhos” –  desabafa. A Melina então me conta que dentro de sua rotina maluca, havia conhecido alguém especial, e que antes da nossa viagem, gostaria de ver o cara com quem ela estava iniciando o romance. Derreto-me toda com a história. “Motorista, toca pra Taquara que a gente tem pressa”, grito pro bigode no volante.

Por alguns instantes achei que nosso final de semana acabaria mesmo em Taquara. Mas não, às 5h35 o motorista da van freia bruscamente na frente do Aeroporto Salgado Filho e nos acorda com um grito: “Chegamos!! Corram gurias, acho que vai dar tempo!!” Sonolenta, remelenta, bêbada e toda encasacada, me encaminho com pressa para o guichê da companhia aérea e indago a atendente: “Moça, onde fica o check in para o voo das 6h para Manaus?”. Ela me olha com estranhamento e dispara: “Às 6h só tem voo para Belém do Pará!”

Oi?!?!!!

“Melinaaaaaaaaaaa!!!” Grito pra ela, interrompendo o beijo de despedida dos dois pombinhos na porta do saguão. “Pode vir até aqui, pois nós temos um probleminha…”

Passamos os nossos dados e lá estavam: duas passagens em nossos nomes para Belém do Pará. BELÉM DO PARÁ. Eu olho para a Melina, que no meio desta confusão, ainda assim não consegue esconder o sorriso bobo, embriagada de amores com os primeiros beijos do paquera. Eu, embriagada de vodka mesmo, olho novamente pra atendente e me contento: “Se é Belém do Pará que está aí, é pra Belém do Pará que a gente vai”.

Ligo pra minha mãe de novo, e deixo uma mensagem, avisando da mudança do trajeto, e explicando de antemão, que eu era inocente na história. Sempre inocente.

8h de voo depois, um rapaz com uma plaquinha com o nome da Melina nos aguardava. Ele, e claro, um calor de 50°C. Em Agosto. E nós com três camadas de roupas, direto do frio dos pampas. “Moço, nós vamos direto para o hotel?!”, pergunto. “Não! Vocês tem uma programação”. Claro que nós temos… como eu sou inocente.

Com duas blusas de gola, meia calça fio 40 e bota até o joelho, seguimos para encontrar o pessoal da banda e demais convidados em um restaurante da cidade. 3h depois, sem ar condicionado, segurando o sorriso e pesando 2kg a menos de tanto suar, o motorista nos informa: “o próximo destino fica no caminho do hotel, vamos passar lá”. Louvai-vos à Nossa Senhora do Ar Condicionado!

Chegando nas proximidades do hotel o motorista muda de ideia, “Vamos seguir! Vocês têm muito pra ver ainda e pouco tempo”. Es.pe.ta.cu.lar.

O tour incluía o porto da cidade e uma cervejaria fantástica digna de não perder mesmo. Terminado o tour, chegamos finalmente ao hotel. Já sonhava acordada com a minha cama, quando o motorista dá a nossa sentença: “Vocês tem 1h antes de irmos para a gravação do DVD. Vou aguardar na recepção.”

1h depois, fomos para a gravação do DVD. Um show com uma mega produção, dúzias de novos amigos,  vodka brotando do chão, horas e horas dançando muito e rindo litros. As 5h da manhã chegaram num piscar de olhos, e me encontraram dançando até o chão aquela música que conta que “o Pimpolho é um cara bem legal…”. Digníssima hora de ir embora.

 “Motorista, que horas é o nosso voo?” “6h30. Vai dar tempo de pegar as malas e sair correndo”. Claro. De novo. Recolhemos tudo no hotel, e saímos em maratona novamente para o guichê da companhia aérea, vestido curto, maquiagem borrada, embriagadas,  famintas e fechando 30h sem dormir.

 “Agora, já deu!” Penso comigo. “No avião é comer, dormir e chegar em casa.” Inocente. “Olá, meu nome é Antônia e eu sou mesmo muito-muito inocente”. “Olá, Antônia” respondem aeromoças em uníssono.

Minutos antes do serviço de bordo iniciar com o café da manhã, um senhor enfarta dentro do voo. Isso é hora de enfartar, oh desgraçado!! O serviço é suspenso, e fazemos todos um pouso de emergência em Brasília.

 “Moça, e o sanduíche?” pergunto nervosa, enquanto a Melina – que agora se alimentava só de amor – dormia. “Só quando voltarmos ao trajeto”.

Uma hora depois, voltamos aos céus e ao serviço de bordo. “Moça, tem como me deixar dois sanduíches? Eu não jantei.” – sorriso amarelo. Ela, com cara de desprezo, faz a caridade.

Nova parada: Rio de Janeiro. “Moça, por que paramos?”. “Precisamos abastecer devido ao pouso de emergência em Brasília”. Posamos. Decolamos e seguimos adiante. A fome voltou. “Moça, tem mais um daqueles sanduíches?” “Só depois que pararmos em Florianópolis” ela responde. “MAS POR QUE DIABOS VAMOS PARAR EM FLORIANÓPOLIS? – me altero. “Porque a escala deste voo é em Florianópolis”.

 Caceta!

18h da tarde. Olho para a Melina com uma cara de choro, e disparo “Se fizermos escala em Caxias do Sul antes de Porto Alegre, eu fico por lá mesmo”. Ela dá risada.

20h, chegamos ao nosso destino final. O paquera da Melina a esperava no portão para levá-la em casa. Depois desta viagem, ela contabilizou um amor de verdade, um casamento e um filho lindo.

Eu? Eu contabilizei 23h me deslocando, 8.000km percorridos de Norte a Sul do país, 15h em Belém do Pará, 3h de sono, 6 escalas, 3 sanduíches e um almoço de dia dos pais perdido.

Liguei pro meu pai, e contei minha improvável história. Ele riu da minha cara, e disse que eu era tudo,  menos inocente naquele episódio. Mas que me perdoava.

“Mas afinal, qual era o nome da banda?”

“Que banda, pai?”

“A banda, da tal gravação do DVD.”

“Tu não vai rir, né?”

“Eu prometo, Antônia.”

“Jeito Inocente”.

“HAHAHAHHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAH”.

 


 

 

Fim da sessão.

A maldita calcinha suja

Era o final de semana que antecedia o início do verão. E se você já passou um inverno chuvoso em Londres, vai entender que a data era motivo para celebração. A noite incluía a pista animada do Mother Bar em Shoreditch, doses intermináveis de Jager Bomb e o meu casal de amigos preferido, o Pablo e a Patrícia. A noite acabou num piscar de olhos e duas músicas do The Killers. Pulamos os três num taxi a caminho da casa do casal, como costumávamos fazer sempre que investíamos em uma late-night-out. O sofá deles era praticamente minha cama nos finais de semana. A estratégia garantia mais gente pra rachar o taxi de sábado e sempre rendia um almoço preguiçoso no domingo.

Acordei com a cara grudada no sofá sentido a pele toda transpirando Jager Bombs. Patrícia falava irritada ao celular com o que imagino era o landlord dela, algo sobre estarem sem água. Pablo me alcança um café e as minhas calças que estavam no chão.

Ela desliga furiosa. “Não temos água! Tem banho pra ninguém!”. Sorrio, e relevo a situação por dois motivos: o primeiro e o mais egoísta deles era porque eu podia ir pra minha casa tomar banho, o segundo era por conhecer a capacidade da Patrícia de ser dramática. “Deixa de ser fresca! O que são umas horinhas sem banho?”, mexo com ela. O Pablo ri, e ela bufa.

Comecei a me organizar pra ir embora, quando o telefone toca novamente. Com sorte era o landlord acabando com o drama deles. Mas não. Patrícia fica muito animada pra ser o landlord ou mesmo a água. Ao desligar, ela informa que fomos todos convidados para um churrasco de alguns amigos que brindavam a chegada do verão. Ela se empolga e agita Pablo e eu para nos arrumarmos. “Mas vamos assim, sem banho?” – pergunto. “O que são umas horinhas sem banho, hein fresca?” ela retruca.

O churrasco era tudo que o verão pedia, e tudo que eu sentia falta do Brasil. Caipirinha em jarra, churrasco feito com espeto, e a churrasqueira adaptada de um carrinho de supermercado. Ahhh os brasileiros, tão inventivos. Horas de risadas, entre jarras e jarras de caipirinha, me peguei conversando longamente com o churrasqueiro, que tinha os braços do tamanho das minhas coxas. Ele, recém-chegado, admirava-se com minhas histórias e experiências de Londres. E eu sempre-chegada num gatinho, admirava-me com os olhos verdes dele.

Na minha vigésima ida ao banheiro, daqueles banheiros de casa compartilhada, cuja tranca está sempre quebrada, fui surpreendida. Enquanto lavava as mãos, sem bater na porta,  alguém entra no banheiro: – “Ei! Tem gent…” e me viro pra dar de cara com os olhos verdes do churrasqueiro. “Eu sei que tem gente”, disse ele. “Se importa se eu usar o banheiro com você aqui?”.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele liga o chuveiro (este COM água). Antes que pudesse sair correndo, ele tira a camisa. E as calças. E a cueca. Escondo-me como uma menina com a testa na porta e as mãos nos olhos. “Você pode olhar se quiser… eu não me importo”, disse ele com um sorriso assanhado debaixo d’água passando a esponja ensaboada pelo corpo…  Penso comigo “Seria essa a minha chance de um banho?”. Nesta hora Patrícia tenta entrar no banheiro, subitamente trocando meus pensamentos sensuais por um ataque de pânico “TEM GENTE PORRA!!!!”, grito histérica. “Antônia, a gente tá indo embora, vamos?”  – “Ela vai ficar!”, ele responde de dentro do banheiro antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. “Nã… péra, eu, na verdad…” tento balbuciar algo enquanto raciocino. Patrícia cai na gargalhada do outro lado da porta, “Ok, Antônia. Já entendi. Me liga amanhã. Pabloooooo, vambora!”.

Quando eu me viro furiosa pra perguntar quem aquele metido achava que era, lá estava ele parado atrás de mim, enrolando-se numa toalha. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele joga o seu peitoral pesado contra o meu, me empurra contra a porta e me beija a boca. Queria resistir e fazer um charminho. Mas o calor daquela pele e o cheiro de shampoo eram inebriantes. Eu estava entregue.

7h00. O meu despertador grita estressado. Saio da cama num pulo, tentando achar sentido naquele quarto estranho. Reviro os moveis recolhendo brincos, pulseiras, blusa, sutiã, calça… péra, cadê a minha calcinha? Levanto travesseiros, levanto as cobertas, embaixo delas somente aquele corpo pelado cheio de testosterona, cheio de delícias, e de músculos, e… Não, Antônia! Foco: cadê a minha maldita calcinha! O celular desperta de novo lembrando-me de que eu tinha que estar em Soho em 20 minutos. “Já vai embora, linda?”, sussurra ele se revirando todo sonolento na cama… “Sim, sim.. só estou tentando juntar minhas coisas”. “Conseguiu achar tudo?”  Hmmmm… Encarei os olhos verdes mais uma vez, e sorri sem graça. “Sim, tudo!”. Não consegui reunir forças pra dizer que não achava a calcinha que vergonhosamente usara dois dias seguidos.

No trem, mal me importei com outros passageiros admirados com o meu estado caótico de 2 dias sem banho, e o cheiro de Jager Bomb, caipira e sexo que exalava de mim. Estava escrito “walk of shame” na minha testa e eu nem me importava. Eu só conseguia pensar na maldita calcinha suja que deixara pra trás.

Foram necessários 7 dias inteiros e 8 banhos para que eu tomasse coragem de ligar pro churrasqueiro de olhos verdes e acessar o estrago…

– “Oi, tudo bem? Aqui é a Antônia…”

– “Oi linda! Saiu daqui apressada aquele dia. Nem me deu um beijo…”

– “Ah, pois é, estavas dormindo, e eu com pressa… por falar em pressa… naquele dia eu esqueci no teu quarto a minha… a minha… o meu ANEL. Eu esqueci o meu ANEL. Por acaso você não achou?”

– “Não, linda. Mas achei a sua calcinha. Pode vir buscar a qualquer hora…”

– … (Rio nervosamente do outro lado).

– “Ah, e fica tranquila. Eu lavei ela tá?”

Desligo o telefone imediatamente.


Fim da sessão.