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Meu primeiro amor

Nesta semana em que celebramos o dia da criança, me doeu ver a infância lá de casa ser ameaçada pelas decepções envolvidas com a dura arte de crescer. O Murilo foi encontrado às lágrimas pela minha mãe na volta da escola. O motivo era dos mais nobres: ele tivera o coração partido. Após o que foram longínquos 4 dias de um namoro “tórrido” (incluía dar as mãos em público) com uma garota de alcunha Sofia Andrade, o objeto de desejo do Murilo terminou a semana dando um beijo na bochecha de ninguém menos e ninguém mais do que o Mateus – o irmão do Murilo. A coisa toda teve um quê de novela mexicana para mim. Dois irmãos disputando o amor de uma garota, cujo nome é sempre pronunciado de forma completa e com tom solene. “Sofia Andrade. Sofia Andrade”. Já imaginei os dois duelando com espadas de massinha de modelar antes do jantar.

Eu quis xingar Sofia Andrade de nomes feios. Aliás, com todo respeito, e bem xinguei-a assim que soube da polêmica e do coração partido do Murilo. “Aquela puta!” – esbravejei. “Antônia!!!” – minha mãe gritou em choque com minha atitude desbocada – “Pelo amor de Deus, ela tem só 6 anos de idade. E de mais a mais foi o safado do teu irmão Mateus que ficou cortejando ela”. E foi ali que me dei conta. Eu estava culpando a Sofia Andrade de uma trama complexa que tinha muito mais a ver com a competitividade masculina, do que o puro amor de uma mulher/menina. E confesso, estava sendo pouco empática com o drama de Sofia Andrade – se eu estivesse sendo disputada por dois loiros, também estaria confusa, para dizer o mínimo. Pedi perdão em silencio a dama em questão, para que nem Murilo ou Mateus achassem que eu estava tomando partidos.

Mas confesso, fiquei muito mal. Pior que o Murilo, possivelmente.

Acho que o que realmente mexeu com o meu humor foi na verdade que o episódio do Murilo lembrou-me do meu primeiro amor, que obviamente foi seguido de uma tremenda decepção. O nome dele era William e nós tínhamos 8 anos. Ele tinha uma motinho e era a única criança motorizada do nosso camping, mas eu pouco dava bola para os luxos automobilísticos no auge dos meus 8 anos (ou tampouco depois deles). Entretanto eu me lembro com riqueza de detalhes de como eu me sentia quando ele me dava uma carona, e de como na garupa da motinho eu sentia o perfume dele no vento que ele cortava com velocidade. A gente tinha horário para se recolher, mas tinha tempo o suficiente para eu ver a lua cair na lagoa, iluminando os olhos dele nos luaus que promovíamos. Eu sempre sonhava com o William, e escrevi minhas primeiras histórias de amor em nome dele. Até ele provar ser um moleque, e começar a me provocar em todos os finais de semana dizendo que não voltaria mais no camping, para o desespero do meu coração apaixonado. 4 anos depois eu dei o meu primeiro beijo no William, e o segundo de toda a minha vida. Claro que ele se apaixonou por mim. Eu? Eu, agora queria rapazes mais velhos, para o desespero do coração apaixonado do William. O amor sabe ter um timing bizarro, não sabe?

Mas o episódio do Murilo resgatou uma saudade não do meu primeiro amor, mas do meu “eu” lá no primeiro amor. Quando eu tinha um coração novinho em folha, livre de ponderações. Fato é que nós somos, incontestavelmente, a soma das nossas relações passadas. E esse é o problema das decepções, as dores não são eternas, mas falhamos ao eternizar as decepções, carregando-as para as relações seguintes. Talvez não seja a Sofia Andrade que vai lidar com a fúria da primeira decepção do Murilo. Talvez seja a próxima garota com outro nome pomposo, que ele vai decepcionar antes de se ver decepcionado. “Eu nunca mais vou falar com a Sofia Andrade, maaaaanhhhhêêê” – O Murilo berra em meios às lágrimas, enquanto escrevo este texto. O Mateus dá risada. A Sofia Andrade, mesmo sem querer, fez a primeira contribuição para o Murilo ser um filho-da-mãe com as mulheres ( ou ao menos deu-lhe uma desculpa conveniente, da mesma forma como os caras problemáticos que cruzaram a minha vida todos culparam uma Sofia Andrade). Talvez o Murilo deixe de ser o último romântico e vire o próximo cafajeste mesmo. O Mateus, bem, esse parece que já nasceu com talento para ser safado, talento bem disfarçado nos cachos de anjo.

Sendo o primeiro ou último amor, sempre que me pego analisando um relacionamento ou mesmo fim dele, não consigo deixar de avaliar o contexto. E se eu não tivesse sido magoada tantas vezes, será que teria sido mais tolerante? Se eu nunca tivesse sido enganada, eu confiaria mais? Se eu não tivesse visto o divórcio dos meus pais virar um drama, temeria o casamento? Será que me acalmaria mais fácil se não tivesse vivido a inquietude e fascínio de encarar o mundo de forma mais independente? Onde enfio as minhas teorias, decepções, rancores, e preocupações para então, dar espaço a um amor? Um novo amor. Um primeiro amor de novo.

Eu tive saudade do meu idealismo, vendo as lágrimas do meu irmão, velando o fim de seu primeiro romance. E acho que fiquei mal por nós dois. Por saber que ele ainda vai passar por muitas destas. E por lembrar que eu mesma já carrego essa bagagem emocional muito mais do que gostaria. A diferença entre nós dois, é que eu tenho a experiência que o Murilo desejaria ter. E ele, bem, ele tem a inocência de um coração serelepe que se entrega sem medo. Eu queria chorar mais por amor. Sofrer mais, e esperar mais dele. Eu morro de medo de ficar apática, uma vez que sofro cada vez menos quando tudo se acaba numa relação. E torço pelo dia em que uma pessoa vai chegar e vai me fazer sentir o mesmo frenesi que o Murilo sentiu com a Sofia Andrade. E eu vou agradecer, por nunca ter dado certo com nenhuma outra pessoa.


Fim da sessão

ps: Garotos, numa pauta um pouco mais feminista, se cuidem. Sempre que vocês acharem que são malandros, vai ter uma Sofia Andrade ditando as regras. E pensando bem, elas é que estão certas.

Bônus: Do tempo que Macaulay Culkin ainda era fofo.

O que aprendi com a maternidade, mesmo sem ser mãe

É impossível adentrar o mês de maio sem pensar nelas. Maternidade, entretanto, é um tema recorrente aqui no divã, uma vez que falo com frequência sobre a minha relação com a minha mãe e suas contribuições na edificação da minha personalidade. O meu pai sempre colaborou muito, é claro – mas a minha mãe é quem me ensina hoje, e todos os dias, um dos importantes papéis que uma mulher pode ter (se assim escolher), que é o de ser mãe. E é sobre aprender a ser mãe que eu quero falar.

E quando eu digo “ser mãe”, não me julguem pela falta de frutos próprios. Uma das principais lições que aprendi nessa montanha russa da maternidade é que mãe é quem cria, quem pega junto ou em conjunto, e muitas vezes isso pode acontecer através de avós, tias, primas, madrinhas ou até mesmo uma irmã. Um fato é inquestionável: fazer parte deste universo desafiador de criar pequenos seres humanos implica em lidar com aprendizados tão profundos quanto complexos. E aqui estão alguns que colecionei:

1) Ser mãe é assustador.

Uma das primeiras lições aprendidas na pele é que ser mãe é assustador. E fico pensando se existe um acordo velado entre as mães de não testemunhar sobre isto. Verdade é que poucas mães admitem que esta tarefa é pesada, exaustiva, estressante e por vezes até triste. Não estou dizendo aqui que ser mãe não é compensador, calma. Mas nunca ninguém me avisou que quando criança se ataca, a tendência da mãe (ou da irmã) é de se atacar também – seja por sono, febre ou simplesmente birra. Ou que um puxão de orelha ou uma palmada, dói mais em quem deu, do que em quem recebeu o corretivo. Nenhuma sobrevivente da maternidade me avisou que um dia eu choraria, ao ouvir meu irmãozinho dizer que não gosta muito de mim, como toda criança faz quando se sente contrariada. Ou de como é ruim levantar a voz.

Ninguém me avisou que eu ia mentalmente planejar rotas emergenciais para o hospital mais próximo, sempre que estivesse com as crianças. Que teria medo do mar ou de agrotóxicos. Vi mãe alguma alegar sobre a assustadora fúria que se cria contra o coleguinha que faz bullying na escola, e seus desejos irracionais (e totalmente imaginários) de um plano de vingança. Ninguém avisa que mães não sabem de tudo, ao contrário, que são vítimas da dúvida o tempo inteiro. Ser mãe assusta porque é como ter o coração batendo fora do peito, principalmente porque mãe sabe que filho (ou irmão) se cria para o mundo.

2) Crianças são pequenos-grandes manipuladores.

A manipulação de pessoas é uma habilidade que aprendemos do berço: o bebê chora, alguém aparece para atendê-lo – e este aprendizado é tão empoderador quanto sedutor. Crianças pequenas, todavia, parecem ter aperfeiçoado a arte persuasão. Na minha humilde opinião tem algo a ver com a fase em que elas descobrem que são fofinhas. Tipo “Olha como eu sou bonitinho, agora me dá o que eu quero”. Sabe? Os meus irmãos são um ótimo exemplo – eles têm artimanhas infalíveis. Quando em uma missão, aplicam seus chamegos arquitetados, gentilezas planejadas e olhares cativantes. Nestas investidas deles, eu costumo me esquecer do horário em que eles deveriam ter ido para a cama, faço concessões em relação à dieta deles e fico constantemente sem bateria no celular por conta de seus jogos ou Snapchat.

Eles têm vocabulários próprios para a prática da manipulação: “mas você prometeu”, ou “eu me comportei, isso não conta?” ou ainda “pooooor favooooor maniiiinha?”. Eles mexem com nossas vulnerabilidades, nosso amor e às vezes até a nossa culpa. São enredos elaborados, tricotados como uma teia de recursos entre beijinhos, pequenos faniquitos, beiços, caretas e colos, direcionando a manipulada como uma mosquinha para o centro da teia e de repente: NHAC! Você não tem escapatória. Eu, que sempre me achei malandra, me vejo como uma mosca-morta frente à esperteza deles.

3) Crianças são esponjinhas e aprendem pelo exemplo

Não tem nada mais ineficaz na maternidade do que o velho “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”. Ou mesmo o “faça porque eu estou mandando e pronto!”. Não adianta, isso podia funcionar com a infância há 20/30 anos atrás, mas certamente não pega preço com as crianças de hoje. Que coisa mais difícil virou a arte de educar jovens mentes! Talvez porque os pequenos de hoje não são facilmente convencíveis como éramos. Eles já possuem habilidade argumentativa, pensamento crítico e como falei ali em cima, uma gigantesca capacidade de persuasão. Não sei, mas por vezes, sinto que estou numa reunião de negócios com pequenos adultos tentando vender os brócolis do prato. “É gostoso!” (primeiro atributo do produto); “Faz tão bem!” (atrativo adicional do produto); “Você vai ficar forte” (força, como subproduto dos brócolis); “Ok, depois você pode comer um pirulito” (suborno para incentivo do investimento). Negócio fechado!  “Vendido o brócolis para o jovem da camiseta do Homem de Ferro!!” Ufa.

As crianças de hoje querem entender o porquê das regras – e algumas destas regras a gente nem entende, porque quando aprendeu, aprendeu que era “porque sim!”. Nestas horas, hoje sei, não há nada melhor do que o exemplo. Seja comendo alguns legumes que nem você gosta, seja reciclando o lixo, seja na gentileza no trânsito, seja na gentileza com o mundo. A prova maior disso é ver meus irmãos doando brinquedos, para finalmente entenderem a sorte de tê-los. Ou dizer acidentalmente um palavrão na frente deles, para ver o “nome feio” sendo repetido freneticamente até a pré-adolescência.  Isto é, sendo o exemplo bom, ou nem tanto, crianças são esponjinhas, e devemos ter cuidado com o que elas absorvem.

O que aprendi com a maternidade, mesmo sem ser mãe, é que não existe esforço que eu respeite mais do que o desafio diário daquelas que lutam para criar bons filhos. Aprendi que toda mãe solteira  (as 20 milhões delas, segundo o IBGE) merece muito respeito, apoio e solidariedade. Que mãe de gêmeos/trigêmeos/etc são polvos com poderes de super-heróis. Eu aprendi que nem tudo é bonito e mágico, que também é difícil e impossível de não errar. Aprendi a respeitar ainda mais o cansaço e coragem da minha mãe e todas as mães do mundo.  E aprendi, entre fraldas e bonecos Transformers, que tudo vale a pena. E que se a gente ouvir os nossos filhos com atenção, a gente ainda vai aprender muito. E de quebra, leva o amor incondicional deles – aquele suborno para incentivo do investimento (exatamente como o pirulito).


Fim da sessão.

Quem é aquele menino?

“Mana, quem é aquele menino deitado na praia?”

Mateus, 5 anos,  indaga sobre as imagens na televisão do menino sírio desfalecido na beira do mar. Meu coração congela instantaneamente. Me sinto afogada nas verdades do mundo.

Quando descobri que seria irmã mais velha de novo, sabia que seria um desafio encarar a curiosidade dupla lá de casa, nestes dias de hoje que eu mesma não entendo bem.  Aos trinta anos, eu tinha que explicar para a pouca experiência de vida do Mateus, e também do Murilo, que falhamos não apenas como humanidade, na tomada de decisões. Mas que falhamos em proteger a inocência de quem ainda não decide nada.

Quando eu tinha 5 anos, não entendia porque meninos de rua não tinham casa, e batiam na nossa porta pedindo comida. Meu pai então preparava sanduíches para eles, sem saber muito o que me explicar, e se resumia a me envolver na tarefa de encher os pães com presunto. Era o jeito dele de ajudar, como também de preservar minha inocência. Na minha cabeça, o pão com presunto resolvia. E eu era parte da solução.

Não seria o mesmo que acontece hoje? Não seria eu, parte na solução?

O corpo sem vida as margens de qualquer lugar, choca os olhinhos antes tão serenos dos meus irmãos. Penso em desligar a TV e levá-los a cozinha para fazermos pão com presunto. Penso em explicar que aquele menino encarou a imensidão do mar junto aos pais, na esperança de um lar sem furos de balas. Aliás, bala deveria oferecer unicamente doçura às crianças. Não medo.  Penso em dizer que o mundo se tornou um lugar complicado, em que estamos preocupados exclusivamente com nossos filhos, seus tablets e Nickelodeon, do que com os filhos dos outros, aqueles despatriados. Desprotegidos. Desamparados.  Quem sabe, se o Mateus e o Murilo entendessem desde cedo que o mundo é um lugar egoísta, medíocre e desalmado, eles sofram menos. Tenham menos vergonha em fazer parte desta humanidade desconstruída.

Mas não seria eu, parte na solução?

E sou. Ainda que como irmã, eu tenho o compromisso de proteger a inocência deles, sem deixar de ensiná-los de que mesmo falhando gravemente com o presente que nos foi dado, devemos ter coragem em fazer um futuro bem melhor. E assim educar melhor. Dividir melhor. Devemos ensinar aos Mateus e Murilos de nossas casas dando exemplos construtivos, envolvendo-os em causas importantes. Ensinando sustentabilidade, sendo sustentável. Ensinando a amar o próximo, com ações de compaixão, respeito e comprometimento. Criando filhos melhores, que vão fazer nos próximos anos, um trabalho muito melhor que o nosso. Se hoje não somos seres humanos mais admiráveis para nós mesmos, sejamos admiráveis para os olhinhos que tudo enxergam e aprendem. Assim quando for a vez deles de fazer as escolhas, que façam escolhas muito melhores do que as nossas.

“Quem é aquele menino, mana?” – O Murilo agora repete a pergunta do Mateus, pedindo atenção ao segurar as minhas bochechas. Beijo a testa dos dois, e aperto-os num forte abraço, abraço esse que todos queríamos ter dado no menino sírio em um sincero pedido de desculpas.

“Aquele menino, Mateus e Murilo, vai ser o menino que vai mudar o mundo.” Respondo com uma esperança quase infantil, enquanto eles sorriem.  “Aquele menino vai ensinar ao mundo como cuidar de todos os meninos fazem parte dele.”


Fim da sessão.