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A arte de decepcionar

Dia desses mandei uma mensagem arriadinha para uma amiga, sobre um antigo affaire que havia casado na Tailândia. No outro dia, o comentário dela foi longe de ser uma piada. Lembrou-me de que eu havia me esquecido de seu aniversário, que não havia ligado para o namorado dela, um grande amigo meu, cuja mãe estava doente. Pontuou duramente que enquanto eu perdia tempo com o meu passado (ainda que brevemente), eu estava dedicando menos tempo às pessoas que realmente importavam na minha vida, no presente.

Entre todas as incertezas que aquela crítica incendiou, uma certeza permaneceu, a de que sou perita na arte de decepcionar.

Eu sempre representei a decepção de muita gente. Eu falo demais e muito alto, e isso já decepciona uma pá de pessoas. Tenho uma veia crítica aguçada, que não é a preferida de ninguém. E as minhas escolhas… bem, essas promoveram também uma série de decepções por toda a minha vida. Mas essa é a beleza e risco do livre arbítrio, é impossível agradar todo mundo. Expectativa é tipo, física: dois corpos “não se agradam” do mesmo lugar ao mesmo tempo.

Acho que o maior rompante do que significava decepcionar, eu aprendi aos 18 anos. Eu fui uma grande decepção pro meu pai quando perdi minha virgindade, ainda que o evento fosse previsível. Nunca achei que meu hímen rompido pudesse doer mais alguém do que em mim, mas aparentemente doeu no meu pai. A partir dali eu entendi que as minhas escolhas – ainda que muito minhas, decepcionariam as pessoas que eu amo. Uma decepção tão grande quanto esta, aconteceu muitos anos depois, quando eu, herdeira da empresa familiar, decidi que meu destino profissional era outro. Você não passa uma vida inteira de escolhas, ilesa de decepcionar profundamente alguém que ama.

Fui decepção pros meus irmãos sempre que não quis emprestar meus brinquedos, meu carro, ou meu tempo – e ninguém além deles teve e tem tanto de mim, ironicamente. Eu sou uma decepção para a minha mãe, toda vez que ela furtivamente inspeciona o meu quarto, e encontra a “organização artística” que faço com as minhas roupas em cima da minha cama. Acho que ela se decepciona também toda vez que eu saio sem batom, ou acendo um cigarro. E vou dizer, em menor ou maior escala, não tem nada pior que decepção de mãe.

Eu sou uma definitiva decepção para o padrão de beleza que me impõem, já que eu gosto muito mais de carboidrato do que abdominais.

Eu decepciono a minha família que mora longe, porque eu nunca visito – ainda que eles também nunca apareçam. Sou a decepção das feministas toda vez que beijo um machista, ainda que discorde de quase tudo que sai da boca dele, com exceção de sua língua. Sou a decepção dos vegetarianos pela minha tara por uma costela, e meu tesão por um vazio. Sou decepção dos meus amigos gremistas ou colorados em razão de nunca ter escolhido por nenhum deles (ou qualquer outro time). Sou uma decepção para as minhas amigas sempre que não atendo a um(a)aniversário/ casamento/mudança/expectativa. Ou quando decido falar aquilo que acredito, muito mais do que aquilo que elas querem ouvir.

Sou uma decepção pras minhas parceiras de boteco, toda vez que decido me aquietar. Sou uma decepção eterna para aquele ex-namorado cuja história ficou mal acabada (e que ainda promove discussões acaloradas, seguidas de um “vai escrever mediocridades naquele teu ‘bloguezinho’”). Eu sou, inclusive, a decepção de muita leitora que acompanha o blog e que presencialmente, conclui “que eu não sou tão querida assim”. E de fato não sou. Não sou tão pontual, nem tão disposta. Nem tão gentil, nem tão ponderada. Bem, nem sempre. E não tendo a orientação prévia da escala de expectativa de cada uma das minhas intersecções, eu vou seguir sendo, muitas vezes, uma decepção.

Isso porque para ser uma decepção, basta ter a característica básica da humanidade. Somada a uma expectativa, essa que sabe como ninguém, ser a mãe da merda. Talvez por isso hoje, eu tenha maior tendência a decepcionar do que ser decepcionada. Porque eu já aceitei que todo mundo é humano e sucessível a falhas, e que contexto sempre ajuda a aliviar a frustração. Contexto, ponto de vista, empatia. E também que é muito melhor criar codornas, do que expectativas. Pessoas em que depositamos/apoiamos nossos planos e sonhos não são estruturas de ferro e concreto, são apenas pessoas, de carne e osso.

Fato é que a gente passa a vida acorrentada às expectativas do outro, o que na maioria das vezes resulta em enormes doses de culpa e rancor. E esses sentimentos são demasiadamente amargos e pesados pra ditar regra para as nossas relações.

Bom mesmo é viver a vida acreditando que está fazendo o melhor que se pode, ponderando as expectativas alheias e sendo tolerante com a nossa humanidade.

A gente cresce decepcionando e sendo decepcionado. E entender o valor deste aprendizado dolorido – é uma arte.

Fim da sessão.


ps: Ei, ex-namorado, escrevi sobre você no meu “bloguezinho”. Pelo menos nisso não te decepcionei 😉

Antes de eu morrer | Coisa de Antônia

Já pensou o que você faria se soubesse que tem os dias contados? Eu já. Vem comigo no Coisa de Antônia no ATL Girls da Rede Atlântida, clicando na imagem abaixo:

Antes de eu morrer (1)

A irmã mais velha

Sábado passado caiu a luz lá de casa. Não foi por muito tempo, somente tempo suficiente para o Mateus aparecer na minha cama em um pulo, e o Murilo sair correndo do chuveiro gritando meu nome – “MANAAAAA” – sim porque lá em casa meu nome é “mana”. Enquanto a minha mãe arrumava o disjuntor no andar de baixo, eu no andar de cima, acalmava a dupla. O Murilo, ensopado e enrolado numa toalha, chorava no meu colo desconsolado pela ausência da luz. O Mateus, por outro lado, tentava manter-se forte no escuro, mas não, é claro, sem arrumar um cantinho para sentar-se na segurança do meu joelho. Sugeri contarmos histórias enquanto a luz não voltava. O Murilo discordou, entre uma fungada e outra. Ouvindo a contrariedade do irmão, o Mateus sugeriu brincarmos de mímica, e eu achei graça: “Como podemos brincar de mímica no escuro, Mateus?” Pronto, agora os três caiam na risada.

A luz volta.

Frente à claridade, cada um retorna a seus afazeres. O Mateus voltou para o desenho dele, o Murilo foi tirar o sabão do corpo, e eu voltei pro meu quarto e para o Netflix.  Sem perigo eminente, cada um deles podia seguir seu caminho de forma independente. Frente ao perigo, eu era essencial.  A cena me jogou de volta para a minha infância. Quatro anos mais velha que o meu irmão Leonardo, algumas vezes na nossa juventude eu me peguei encarando a escuridão, tendo certeza de que eu não podia fraquejar. Lembro-me de uma época em que morávamos em um sobrado grande, que tinha um longo e assustador corredor até o banheiro, e de como o Léo sempre me acordava para acompanhá-lo durante o seu xixi no meio da noite. Eu nunca confessei para o meu irmão, mas eu devia ter mais medo do corredor que ele – mas por causa dele, eu ficava corajosa.

Como irmã mais velha de três meninos, eu não consigo minimizar a função deles no fortalecimento do meu caráter. O Leonardo, o Mateus e o Murilo são propulsores ativos da minha evolução. Sempre foram. Se dependesse só de mim, talvez eu não tivesse força ou muito menos coragem para encarar os inúmeros perrengues que a vida nos jogou. Mas esta é a mágica existente entre irmãos: como irmã mais velha, eu nunca me vi com escolha de desistir, e por conta deles, me tornei a mulher forte, determinada e destemida que sou hoje. Ou pelo menos alguém que quando precisa, finge bem todas essas características.

Para cada irmã ou irmão mais velho no mundo, existe um irmão mais novo desafiando a nossa fibra. Eu vi isso acontecer com o Léo, quando ele, por sua vez, se tornou corajoso pelo Murilo e pelo Mateus. A cada tosse medonha que os guris tiveram, o Léo, novato na medicina, acalmava a família frente ao desconhecido. Ninava os dois quando eles tinham suas cólicas. E muitas vezes, confortou seus pequenos corações enfrentado o escuro que precede o sono. O Léo deixou de ser unicamente o meu irmão mais novo, e decidiu ser forte, muito mais forte, como irmão mais velho dos dois pequenos.

Depois de muito tempo sendo irmã mais velha, eu finalmente entendi o que esse laço significava. Irmãos mais novos – hoje sei – não são apenas o link direto com o nosso passado, o nosso compromisso com a nossa história, o nosso cúmplice de crime. Eles são também um trampolim para o futuro. E essas etapas mudam a gente. Irmãos mais novos nos dão um preview do que é ser mãe ou pai de alguém. Ser responsável por outra vida além da nossa. Mostra-nos na prática a importância de dar exemplo, muito mais do que dar ordem. Nos forçam a comer legumes que a gente não gosta, afinal legumes são cruciais para o crescimento – eu, por exemplo, odeio beterraba. Mas como irmã mais velha, eu disfarço o nojinho pela raiz roxa e mando ver com cara de quem tá comendo pizza.

Ao lado dos nossos irmãos, a gente ensaia uma versão melhor da gente mesmo. Fuma escondido para não dar mal exemplo. Usa cinto de segurança, mesmo quando acha que “não precisa”. Na frente dos irmãos toda regra é importante. Foi com os meus irmãos e suas demandas, eu aprendi a deixar de dizer “já vou” e comecei a dizer “estou aqui”. Comecei a me preocupar com a violência, com o perigo de alimentos transgênicos e confesso, depois que virei irmã, eu nunca mais dormir sem pelo menos um olho meio aberto.  Por causa dos meus irmãos, eu comecei a querer mudar o mundo pra melhor.

O mais engraçado é que entre um colo e outro, quando a gente acha que está dando força para eles, está na verdade tomando goles de coragem que eles nos oferecem. Sim, porque não dá pra não ser guerreira(o) por um irmão ou irmã. Nós somos os heróis da vida real. Porque mesmo no meio da escuridão, são os nossos irmãos que promovem a coragem e alegria que a gente precisa na luta pelo esclarecimento. E assim, a luz sempre volta.


Fim da sessão

Hoje decidi dividir uma coisa ainda mais pessoal sobre ser irmã. A mensagem abaixo foi escrita pelo meu irmão – um dos meus escritores favoritos. Nela o Léo me desejava feliz aniversário (pela última vez), como também se admitia no desafio como irmão mais velho (pela primeira vez). É com certeza uma das mensagens que irá me tocar pelo resto da minha vida de irmã mais velha. E eu espero que faça o mesmo com todos os irmãos e irmãs aqui neste divã, para que eles nunca deixem de perceber o valor deste vínculo.

Foto: El Retiro - Jardines del Buen Retiro de Madrid
Foto: El Retiro – Jardines del Buen Retiro de Madrid.
“…e em 1768 o recinto foi aberto pra cidadãos não-nobres desde que estivessem bem vestidos e lavados” era o que dizia sobre esse lugar em um dos guias de viagem baratos que a gente comprava nas banquinhas de cada cidade que chegava.
Definitivamente não era nosso caso. As poucas libras que só nos permitiam voar de Ryanair (e comemorar cada pouso com o avião inteiro) nos davam direito a duas ou três mudas de roupas em uma mini-mala (e mais algumas peças escondidas no meu casaco tamanho gigante-plus). Assim a gente sobrevivia, lavando roupa no chuveiro frio do hostel e torcendo pra secar antes de ter que guardar na mini-mala de novo. Então bem ‘vestidos e lavados’ certamente não era o nosso caso, mas conseguimos entrar e aproveitar o ‘recinto’. Era isso que importava.  A mesma briga no início de cada manhã pra definir o plano do dia se repetia na volta pra casa pra decidir quem ia ver as fotos primeiro.
Era ali que eu percebia que não tinha porque discutir roteiro, na verdade o que realmente tinha valor era quem tava junto comigo durante ele.
E essa pessoa foi tu. Sempre tu.

Não me refiro aos 3 meses da nossa viagem, mas aos 26 anos que completo em breve. Não existiu pessoa que me deu tanto apoio e me defendeu tanto quanto tu, não importava o Atlântico de distância que a gente teve que conviver por três anos ou tu estar do outro lado do mundo, como é o caso de hoje que tu comemora teu aniversário na Austrália. A gente se obrigou a aprender que a distância geográfica é o de menos.

Há 4 anos e meio eu me tornei irmão mais velho, papel que tu exerceu praticamente a tua vida toda e acho que foram poucas as vezes que parei pra te dizer muito obrigado por ter suportado nas costas toda a responsabilidade desse cargo.

Mesmo com todos os acontecimentos dos últimos anos que multiplicaram nossa família, sempre vai ser tua a primeira imagem que me vem a cabeça quando penso na palavra irmão. Tu que não me deixou desistir da Medicina todas as vezes que (de saco cheio) cogitei isso. Tu que com o olho cheio d’água segurou minha mão em março do ano passado enquanto eu saía meio grogue do bloco cirúrgico e deitou naquele sofá duro pra só sair quando eu pudesse sair junto contigo pra casa.

Então além de te parabenizar pelos 30 anos queria te agradecer pelos 26 que tu passou do meu lado.  Nem sempre ‘bem vestidos e lavados’, mas sempre juntos.

Te amo, irmã,  feliz aniversário.

Foto de capa: Orgânico Estúdio

Você não está [email protected]

Na mesma madrugada que o incidente de Orlando aconteceu, resultando em 50 vítimas fatais na boate gay Pulse, em um terrível atentado a vida, ao amor e a liberdade, eu batia cabelo em um bar local, lugar igualmente frequentado pela comunidade LGBT. O que eu fazia num bar gay? Meus amigos estavam lá. Tinha cerveja gelada. E eu sou da teoria de que “Gay DJs know best”, ou seja, DJs gays sabem melhor. Aliás, diga-se de passagem, eu não precisava de uma justificativa para estar lá, bastava o interesse. A minha vontade. E a liberdade que tenho de ir e vir sem ter que pedir licença para o preconceito alheio.

Eu frequentei e frequento lugares como estes desde o meu amor à primeira vista pelo bairro Soho em Londres, o mais colorido e animado conjunto de bares e boates da capital inglesa. Nunca sofri preconceito por ser hétero nesses lugares, a não ser por um encostão acidental que dei certa vez num cara, quando não estava usando sutiã, e ele gritou “ui… boobs” (ui… seios!) com uma tremenda cara de nojo. Eu levei na boa, e nunca mais fui ao KU Bar (eu adoro o nome!) sem meus protetores de seios. Esse foi o pior episódio, e desde então eu coloquei o peito (ambiguidade aqui) em perspectiva.

Se eles dividiam a pista de dança comigo, por que diabos sofríamos tanto em dividir espaço com [email protected]?

Quando o meu melhor amigo se assumiu, toda a minha estrutura mudou. Isso porque ele teve um receio gigante em me contar (ainda que a gente tenha vivido boa parte da vida juntos – e eu no fundo já soubesse). A partir dali eu recebi a minha educação. Por causa do meu amigo, comecei a ler sobre questões de gênero, sobre apoio e sobre as lutas da comunidade LGBT. Quando mais eu me informava, mais eu fui tendo razões para me juntar a luta. A ponto de nesta segunda-feira pós atentado, receber um inbox questionando “se a minha luta declarada pela causa gay, não seria devido a uma grande vontade minha de sair do armário”. Ri alto, lendo a pergunta. Na cabeça do meu indagador, eu, uma garota hétero, não tinha motivos para rufar tambores pelas cores da bandeira arco-íris. Quanta miopia.

Miopia em especial porque aquela não era a pergunta mais importante. A pergunta que deveria ser feita é por que não estamos TODOS numa luta declara pela causa gay e outras causas de gênero? E assim como fiz questão de esclarecer na minha timeline ontem, disse-lhe (e digo-lhes) que eu também sou a favor do fortalecimento da cultura negra, ainda que seja branca como papel. Eu sou a favor do acesso a educação de milhares de meninas indianas, e eu sou brasileira e nunca botei o pé na Índia. Eu também sou a favor da proteção das baleias e dos coalas, e não preciso de barbatanas ou subir em árvores para me importar. Eu vim com o kit da empatia de fábrica e aprendi cedo a importância de unir forças. Além disso, eu não estou de maneira nenhuma roubando a voz de ninguém não. E nem colocando agenda pessoal oculta na minha fala. Isso é coisa de enrustido, destes que dizem “eu não tenho preconceito, mas…”.

Então a pergunta que fica pra mim do questionamento que recebi essa semana é: se você não precisa de barbatanas para proteger as baleias, por que precisaria ser gay para defender o direito de outras pessoas serem? (Essa pergunta, na verdade veio da minha mãe, discutindo a questão).

Essas questões de gênero e intolerância me assustam, eu confesso. Especialmente dado o exaustivo tempo que tem levado para evoluírem. E mais, tratando de números, pensemos que existiam no mínimo 50 pessoas boas na boate Pulse, e bastou apenas um monstro com acesso indiscriminado a armas, uma influência nefasta disfarçada de religião, e uma intolerância ao diferente, para exima-las deste mundo. 50 famílias que perderam filhos, filhas, pais, mães, irmãos e irmãs. Eu sei a dor de perder alguém bom. Não imagino a dor de tê-lo arrancado de mim de forma tão covarde, como aconteceu com tanta gente em Orlando.

E se uma pessoa ruim pode fazer tanto mal, quantas pessoas boas em silêncio têm o mesmo poder?

Quando nos calamos frente a uma piada homofóbica, não estamos assim nos unindo ao autor da homofobia? Quando apoiamos parlamentares que são declaradamente contra a comunidade LGBT, não estamos dando passe livre para que seus direitos sejam alvejados, da mesma forma como 50 pessoas foram alvejadas no último sábado?

“Mas Antônia, o caso de Orlando não foi homofobia, foi terrorismo.”

De fato, um terrorismo contra uma minoria muito específica que resultou na maior aniquilação de cidadãos americanos depois de 11 de setembro. Isso sem falar no cara que foi preso com alta munição dentro do carro, rumo à parada gay de Los Angeles. Terrorismo? Ou homofobia?  As pessoas tem dificuldade de se enxergarem em assassinos. Terroristas estão lá longe, no Oriente Médio. Homofóbicos não, estes estão na mesa do lado no escritório, na porta vizinha da sua rua, ou dentro da sua casa, nos amigos do Facebook. Mas e o que você tem a ver com isso? Você é parte de uma das nações que mais mata e espanca membros da comunidade LGBT. Será que ainda somos dignos ao ficarmos em silêncio?

Hoje essa sessão não é para falar da Antônia, mas das 50 pessoas que morreram por pensar diferente. Por amar diferente da maioria. É uma sessão para pedir ajuda, estimular que todos nós unimos força levantando as cores desta bandeira. Eu podia ser uma das pessoas alvejadas na boate gay, neste sábado, aqui nos confins da minha pequena cidade de interior. E não sendo, juro aqui, vou usar a voz que tenho para dizer, VOCÊS NÃO ESTÃO SOZINHOS. Não estão mesmo.

E se eu tiver que ser gay para defender essa causa, eu beijarei todas as garotas do mundo para garanti-la. Pode organizar a fila.


Fim da sessão.

Ser Visto Vs Ser Relevante | Coisa de Antônia

Vou sair pelada na rua hoje. E lá no ATL Girls da Rede Atlântida eu te explico porque. Clique na imagem e pula pra lá:

Ser visto Vs Ser Relevante

O primeiro frio

Hoje foi aquele dia do ano em que admitimos que o período de estações mais quentes acabou. Do sudeste ao sul do país, esta terça-feira foi dia de procurar um casaquinho e considerar não apenas a troca de guarda-roupas, mas também a troca de cenários. Ruas mais vazias, programações mais caseiras e vinho. Ora, se tem algo que justifique o frio, é o aquecimento de um coração através da vinhoterapia – afinal, antes só vinho, do que mal acompanhado. Mas o primeiro frio do ano traz muito mais que um cobertorzinho para a nossa cama. Ele tem um quê de nostalgia, de memória. É impossível não sentir todo tipo de arrepio causado pelas temperaturas baixando e os dias se transformando. O primeiro frio sempre mexe com a gente.

O primeiro frio mexe comigo, por exemplo, porque me lembra a infância. Lembro-me com saudade da minha mãe lutando para arrancar-me da cama enquanto me socava roupa, a ponto de eu não conseguir me mexer direito. O primeiro frio recorda o meu pavor infantil quando encarava a serração fantasmagórica das manhãs, no melhor estilo The Walking Dead, a caminho da escola. Lembra-me da minha habilidade de pequena de estar sempre com as mangas ou meias molhadas. O primeiro frio traz de volta a lembrança do meu pai ligando a estufa no banheiro meia hora antes da minha vez de lavar as orelhas, para que eu “não pegasse uma friagem”. Faz-me recordar da minha adolescência, na parada esperando o ônibus, dançando no lugar para não congelar com o ventinho provocado pelo deslocamento dos carros. Lembra-me de sentar com receio na cadeira gelada da sala de aula e da busca por todo e qualquer raio sol na hora do recreio.

O primeiro frio desperta a hora de trocar os biquínis da gaveta pela coleção de meias-calças, e colocar os casacos coloridos para tomarem um ar. Traz o charme das tocas, das mantas e das luvas. O primeiro frio marca o início da era das polainas (me julguem!). O desejo por sobreposições, por abusar do batom escurão e realça o fervor que causam os gatos de jaqueta e botas cano médio. O frio tira pra fora do armário aquela calça gostosa de moletom que cabe tanto em você quando nele. O primeiro frio aponta que acordou a oportunidade de reinventar o visual, se transfigurar, se travestir e mudar. Trocar a paleta. Sacudir a nossa roupagem.

Com o primeiro frio acordamos para súbita troca de cardápio. Onde antes tinha espaço para salada e sushi, agora o estômago clama por risotos, massas e fundis (a vida é curta para se viver sem carboidrato). Aqui nas querências  – e na minha humilde opinião, nada seduz mais que a semente que chega junto com o vento Minuano. Garotos, por favor, não me deem flores, deem-me sacos de pinhão! Com sal, com mel, com vinho, com amor. Isso sim aquece o meu coração no frio. Ou me convidem para ir a serra para tomar uma sopa no pão. Não tem nada mais definitivo entre a solteirice do calor, e o engajamento do frio, que uma sopa no pão em Gramado. É romance com queijo ralado e um bom Carbernet.

E por falar em romance, o primeiro frio faz pensar em carinho, xodó, colo, entrelaçamento. Desculpe-me o clichê, mas como substituir um cobertor de orelha? Ahn? Ou incontáveis domingos chuvosos de edredom, Netflix e amassos?  Longas e promissoras horas daquelas caricias quentes que deixam as janelas embaçadas e o frio do lado de fora. Que estação que sabe criar boas companhias. O primeiro frio lembra pés enroladinhos. Faz recordar da delícia e do desespero que é aquecer as mãos geladas nas costas quentinhas de alguém. Delícia pras mãos e desespero para as costas. O primeiro frio relembra aquele cara que um dia amei e que me enrolava como um tamaki em meio aos cobertores nas sonecas preguiçosas de sábado. O primeiro frio evoca a ida à praia com alguém especial. Ou aquele final de semana no sítio. O primeiro frio lembra o frio na barriga.

Ahhhh nostalgia gelada… O primeiro frio lembra Londres e a Trafalgar Square lotada de turistas e seus guarda-chuvas. Lembra croissant quentinho na cafeteria. O primeiro frio lembra que os ranhentos lá de casa ficarão de narizes assados logo, logo – eles e todas as crianças do mundo. Lembra bolinho de chuva e chimarrão (ou equivalente). Lembra quentão. Livros finalmente lidos! Lembra Game of Thrones e que “Winter is (finally) coming”. Lembra Frozen, Olaf e abraços quentinhos. Lembra bolsa de água quente e cheirinho de chá. O primeiro frio lembra que é hora chamar as amigas para a sala de casa e acender a lareira, ou chamar o gato e aumentar o calor do quarto. O primeiro frio lembra que a temperatura pode até cair, mas que os próximos meses merecem ser aquecidos com bons momentos, pequenos e grandes prazeres e suspiros com vaporzinho.

Pega o casaquinho e te joga.


Fim da sessão.

A vistoria

Existe uma grande batalha traçada ao lidar com a ausência de alguém, que é tratar dos assuntos que ficaram depois da vida. Realocação de pertences, venda de bens, organização de papéis. E como já falei algumas vezes aqui, essas coisas tornam-se pesadas, porque relembram da bagagem emocional que colecionamos durante essa viagem que é a vida, e também a morte. Eu queria poder parar de escrever sobre isso, entretanto estes sentimentos rondando o luto são tão presentes quanto a minha própria presença. Tão visíveis quando a roupa que eu visto. Tão urgentes quanto à vontade que eu tenho de seguir adiante.

Aconselharam-me a não falar mais o nome dele. Disseram-me que eu atrapalharia a passagem dele deste para o outro plano, então eu me calei. Eu parei de olhar as nossas fotos, para assim tentar fazer menos presente a ausência dele. Não mandei mais mensagens na sua página do Facebook contanto as frivolidades do meu dia, meus comentários sobre o novo single da Rihanna e as novidades sobre o que os irmãos dele andam aprontando. Parei de conversar com ele em pensamento enquanto dirijo, e de pedir conselhos, ainda que certa do silêncio em retorno. Ao invés disso, passei a rezar orações decoradas, mantras eficazes, e me resumi a mandar luz, pois me disseram que assim estaria o ajudando. Acendi velas, escutei médiuns, e tentei calar o meu coração, cujo idioma preferido passou a ser a saudade.  Ocupei-me, atendi tarefas e fui produtiva. Distrai-me por dias e a coisa toda começou a ter um quê de evolução. Isso até a vistoria.

Precisei ir até o apartamento de meu irmão para acompanhar a vistoria do seguro do carro dele, que agora seria vendido para o seu melhor amigo. Como sempre, o meu pai – avoado como sabe ser – esqueceu-se do compromisso, e levou a chave do carro com ele em uma viagem. Pediu-me então, que subisse até o apartamento do meu irmão e procurasse em meio as suas coisas, a chave reserva. Fiz uma revisão rápida em armários e gavetas, focada em não pensar nele, não chamar por ele, não chorar. Sem querer, abri a gaveta que jamais fora revisitada após a nossa despedida. Lá estava a certidão de nascimento, um título de eleitor (que ele nunca encontrava quando precisava), um chaveiro com a letra “L” que ele julgou deveras infantil e aposentou, certificados, comprovantes. Uma vida registrada em papel. A chave reserva do carro eu não encontrei, mas o canal lacrimal abriu sem chave ou nenhuma cerimônia. Eu podia ter passado os últimos dias tentado ser forte, trabalhando o meu pisco como deveria e como me era esperado,  mas bastou uma vistoria para entender a minha dor estava mais viva do que nunca.

Desci correndo para liberar o técnico da vistoria, de cara inchada, maquiagem borrada, e apesar de toda e qualquer tentativa de secar os meus olhos,  as janelas da alma vazavam sem nenhum constrangimento. No caminho dou de cara com o porteiro do prédio – “Dona Antônia, a senhora está bem?” – balanço a cabeça freneticamente de forma positiva, contrariando tudo que o resto da cena dizia. O porteiro, que dada a nossa falta de contato eu não  sabia o nome, me abraçou contra o peito, passou a mão nos meus cabelos e me disse que tudo ia ficar bem. E ali eu chorei. Chorei por não conseguir parar de chorar. Chorei de raiva daquela vistoria, do carro e do meu luto. Chorei por não ter ele aqui para poder reclamar que eu sempre tenho que resolver tudo por ele – a vida toda e depois dela. E chorei por falhar em todas as orientações que me deram, já que até meu luto passou a ser pautado por ele, para aquilo que ele precisa para seguir adiante no seu caminho de luz, enquanto eu estava ali, paralisada nos braços de um estranho num corredor escuro.

Tentei me recompor e agradeci o auxilio do porteiro – “A senhora quer que eu ligue para o seu pai, dona Antônia?”. Agradeci mais uma vez e disse que não seria necessário.  Na garagem, chegando perto do carro, o técnico da vistoria do seguro já me olhava com feições de pena, o que declarava que o porteiro havia o inteirado da situação. Disse rapidamente, tentando controlar o choro, que não havia encontrado a chave e pedi que ele reagendasse a vistoria em 2 dias. Ele sorriu um sorriso de amparo, colocou a mão nos meus ombros e disse “eu sei, eu sei, não te preocupa, pode ficar tranquila – eu sei, eu sei”. E de novo, sem acanhamento, lágrimas gordas e acrobatas saltaram dos meus olhos vermelhos. E mais uma vez, me vi chorando no abraço de uma pessoa que sequer eu sabia o primeiro nome.

A vistoria do carro não fora concluída, mas cada fibra da minha dor fora revisitada. Era como se no compromisso de fazer tudo certo, eu estivesse de fato abafando todas as dores do meu peito. E assim, elas não diminuam, apenas acumulavam para romper ao menor sinal de inspeção. E aí que me ocorreu o aprendizado envolvido nesta metáfora. Não existe seguro, sem vistoria. É preciso inspecionar, revisitar, falar, anotar cada parte envolvida. Registrar os sinistros, e os bens preciosos que seguem. Não tem como assegurar o “seguir adiante”, escondendo o que está presente no agora. A vistoria era a única forma de assegurar o bem que estava sendo inspecionado, o bem carro, ou o bem estar.

O telefone toca, é meu pai – muito provavelmente a pedido do porteiro.

– Filhinha, tá tudo bem?

– Não pai, mas vai ficar.

– Conseguiu fazer a vistoria?

– Sim, mas não a do carro.

– Não entendi – disse ele confuso.

– Eu te explico pessoalmente, pai.

– Vou passar mais tarde na tua casa, acho que tu estás precisando de um abraço.

Concordo e desligo, lembrando agradecida dos abraços daqueles dois estranhos que me acolheram durante a minha vistoria.


Fim da sessão.

A mudança

Era o terceiro andar, escada abaixo. A cada degrau o sofá pesava mais nos meus braços. “Segura ele pra cima!” – minha mãe orientava. “Não consigo mais!” desabafei enquanto largava o peso morto, apoiando-o sobre o corrimão. Aquele conforto de couro, que já havia acolhido o meu cansaço tantas vezes, agora me fazia suar em meio à musculação que representa fazer a própria mudança. Mudança, essa palhaça desta constante que surge quando você achou que finalmente tinha colocado a casa em ordem. Quando você começa acreditar na existência da estabilidade, vem à mudança, sem hora marcada, dando risada dos planos que você fez e da ordem que conseguiu conquistar. Troca a musica, muda a dança. Chegou a mudança.

Eu nunca tinha me imaginado fazendo o caminho de volta pra casa da minha mãe. Possivelmente porque antes, a ideia de “retornar” tivesse um ar de retrocesso. Passos para trás. Talvez por isso uma parte de mim precisasse de um tempo para respirar antes de arrastar o meu sofá para sua nova posição, lá, embaixo do teto da minha mãe. Quer dizer, o sofá ainda era meu, mas eu não seria a única dona do pedaço. E para quem morou sozinha por mais de 10 anos, compartilhar um teto é uma tarefa – no mínimo – desafiadora. Fato é que a vida tinha nos jogado outra bola curva. Minha família, por razões tão diferentes, quanto parecidas, precisava ficar junta.

E “ficar junto” demanda esforço, como em qualquer outra família. Na minha casa, aquela que era só minha, o controle da TV também era só meu. Eu perambulava pela casa pelada, sem o menor compromisso. As tarefas diárias eram executadas conforme o meu humor, e a rotina da casa obedecia somente às minhas vontades. Neste novo e conhecido lar, não. A TV tem uma programação completa de “Masha e o Urso” e “Tom & Jerry”, alternando, em loop. Eu já não ando mais pelada pela casa, pois a divido com dois mocinhos. As tarefas diárias são compartilhadas em sintonia ritmada, e a rotina da casa obedece às necessidades da família – sem desatender ninguém.

A parte mais engraçada desta mudança, é que surpreendentemente, eu passei a ter mais prazer em voltar para casa depois de um dia puxado, do que quando eu era a única dona do campinho. É como se nesse gap de 10 anos morando sozinha, eu tivesse esquecido das delícias de viver estilo “A Grande Família”, onde tudo é de todo mundo, e todo mundo fala ao mesmo tempo. Adoro quando o meu irmão pula na minha cama, porque acordou com frio, às 6:37 de um sábado. Ou nas fofices que minha mãe faz para deixar meu quarto mais feminino. Ou sobre a arte de comermos juntos. Por que as famílias não comem mais juntas? Um universo familiar inteiro acontece entre o “passa o sal” e o “me alcança o milho, por favor”.       É amor + purê de batata!

Fazer uma mudança, é também revisitar o acumulado. Não dá pra começar uma fase nova, sem uma faxina na vida que já foi. Embalando os meus pertences, revivi muitas memórias, cheirei antigas camisetas, abracei alguns amuletos. Assim como também joguei muito do passado fora. Roupas que eu insistia em guardar, mas que nunca mais irão me servir (graças a Deus, e não ao meu bom senso). Mágoas registradas em cartas de papel amarelado. Um quadro de fotos do ex – que não pode mais ser pendurado em nenhuma das minhas paredes.

Reciclei amizades que já não somam, e coloquei plástico bolha naqueles que nunca vou jogar fora. Voltei a Europa na coleção de postais que nunca saem do meu campo de visão, e joguei pela janela (metaforicamente) extratos bancários e exames médicos. Preenchi malas, mas tentei deixar minha bagagem emocional leve. Pratiquei o desapego, pensando no espaço que preciso abrir para os novos pertences – tangíveis e intangíveis – que quero reunir. Guardar. Dividir.

Acredito que essa é a grande magia da mudança. Ainda que não planejada, ela vem e te convida a recalcular a rota. E fazendo isso… andando por caminhos desconhecidos, ou mesmo revisitando aqueles tão comuns, a gente percebe a beleza da paisagem. Mesmo que a bagagem deixe as nossas costas cansadas. Mesmo que destino nos tire da nossa zona de conforto. A metamorfose é o único pedágio.

– Tá pronta, filha?

– disse minha mãe segurando a outra ponta do meu sofá.

– Tô sim, mãe. Vambora!

– e o sofá ficou mais leve.


Fim da sessão.

Aos meus erros, obrigada.

2016 tá me parecendo meio zicado sabe? Além do pandemônio em volta do zika vírus, a economia parece que segue doente, a política celebra o grande circo que sabe ser, e o social anda em pé de guerra com o politicamente correto. Sim, o Leonardo di Caprio finalmente ganhou o Oscar, (e teve que ser devorado por um urso pra isso), mas no resto do nosso drama diário é outra história. Chego a alegar que pensar em dias melhores, às vezes é digno de Glória Pires, “não sou capaz de opinar”.

Desde que decidi deitar no divã pela primeira vez, me vi enfrentando a difícil tarefa de desassociar do outro, as consequências negativas na minha vida. Assim, foram anos enfrentando crises e encarando problemas pessoais, numa análise profunda de causa e consequência, efeito e ressonância. Após muito treino, foi tornando-se  natural o processo de assumir os meus próprios erros, e deixando de responsabilizar os outros por eles. De certa forma, eu passei a entender que as minhas quedas eram muito mais tropeções, do que rasteiras. Afinal, se eu sou a autora da minha vida, como posso entregar a caneta a outrem?

Ainda que vivendo em dias tensos, não consigo desacreditar que a solução das minhas angustias está no outro. Óbvio que eu também me indigno com o ICMS, a falta de incentivo à educação e funk “Tá tranquilo, Tá favorável” (até porque não tá nem um nem outro). O que eu não consigo pensar é que chorar num cantinho frente às dores do mundo, vai resolver qualquer uma das minhas.  Até porque ter raiva de alguém, só causa efeito em mim, e não colabora para solução de dilema algum. Culpar meu trabalho da minha falta de dinheiro, não faz cifras extras entrar na minha conta. E praguejar o meu cupido, não coloca Mark Ruffalo na minha porta (eu sei que ele é casado, mas uma garota pode sonhar). Então veja que depositar em outros ou em outras coisas, as nossas frustrações, é tão eficaz quando mascar chiclete pra curar dor de cabeça.

O que reparei nessa mudança de sistema, é que uma vez assumindo que eu sou responsável por todo desvio na minha jornada, eu também me tornava dona do leme, e mais preocupada em aprender o meu caminho. Não que eu não comemore meus acertos, e os divida com outras pessoas. Sim, eu celebro as minhas conquistas e compartilho os meus méritos. Os erros não. Os erros eu quero que sejam somente meus, pois através deles costumo aprender mais e melhor. Os erros me fazem mais esperta. Ajudam-me a desacelerar o carro, a pagar minhas contas em dia, a fazer exames preventivos. Os meus erros me tornam mais tolerante com os erros dos outros, afinal, quem nuca?  O que não quer dizer que eu preciso errar sempre para aprender. Mas confesso que algumas das lições mais difíceis e duras que aprendi, foram em momentos de distresse, e de juntar a própria carcaça do chão, pra começar tudo de novo. Ou seja, os erros me tornaram mais resiliente. Persistente no caminho do sucesso. Ou até teimosa, como diria a minha mãe (claro que teimosa é ela, que teima comigo).

A desvantagem de assumir os próprios erros é a baixa tolerância ao mimimi alheio. Quando você passar a pegar as suas limitações pelas bolas e encará-las de frente, é difícil ter respeito por quem transfere toda e qualquer culpa de seus infortúnios. “O meu trabalho não me reconhece/promove/dá aumento”. “O meu relacionamento terminou por causa das amigas/filhos/manias dela(e).” “Eu não emagreço”. “Meus pais não me incentivam”.”Eu sou mesmo um azarado (sobra até pro cosmos)”. Ok, a vida sabe ser dura às vezes, mas passar por ela justificando baixo rendimento ou infelicidade é assumir uma atitude perdedora. E o que mais desmotiva em lidar com pessoas como estas, as reclamistas, as mimimis, as eu-não-tive-uma-chance, as a-culpa-é-da-vida, é que elas limitam por completo seu poder de aprendizado ou superação. Não tem como você aprender com os erros, se você transfere a responsabilidade deles pro vizinho/mãe/ex-mulher. Errar dói, sim, assim como aprender e crescer (e aparecer). Agora o que pode condenar alguém ao conformismo e dodoísmo por uma eternidade, é transferir pros outros a única possibilidade de mudar o rumo das coisas na própria vida.

Então eu vim aqui solenemente agradecer a todos os meus erros, que moldaram uma versão melhor de mim mesma. Vocês, meus professores dedicados, de castigos adequados e lições valiosas, a vocês a minha sincera gratidão. Através de vocês, meus deslizes, mancadas, enganos, equívocos,  eu calibro a minha expectativa e compaixão. Eu compreendo o valor dos meus acertos. E a medida da minha força. Através de vocês, eu me torno dona única e exclusiva do meu sucesso, dos meus sonhos e da linda história que quero escrever. Aos meus erros, muito obrigada.

Agora, você que tá aí, sentando no cantinho, chorando com as baratas, se quiser continuar dizendo que a responsabilidades dos desacertos não é sua, pode ficar bem à vontade. Afinal a culpa é sua, você joga ela em quem quiser. 😉

Fim da sessão.