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Ahhh novinho…

Eu sempre gostei de caras mais velhos que eu. Sempre. Desde a adolescência, e para o desespero dos meus pais, os rapazes com mais idade sempre atraíram a minha atenção. Eu ouvi dizer que as mulheres amadurecem mais cedo, e eu usava essa teoria para justificar minha admiração pelos anos a mais que meus affaires detinham. E foi assim, por um bom tempo.

Eis que como tudo na vida se transforma, estou numa fase engraçada quanto a relacionamentos e faixas etárias. Perceba que os caras da minha idade – 30 e poucos, ainda buscam mulheres mais novas – 20 e poucos. E os caras de 20 e poucos, bem, esses também, quase que na maioria, não procuram parceiras muito longe da sua geração. É como se em uma reunião dançante (sim, eu sou dessa época), todo mundo fosse escolhido para dançar, e eu aquela que ficou com a vassoura.

Ok, essa não é nenhuma ciência exata, quanto menos uma teoria metodologicamente fundamentada. É muito mais um ibope segundo Antônia, sem nenhuma preocupação com exatidão dos fatos, e quantificado pela minha experiência pessoal, que outras mulheres podem ou não se identificar. E talvez isso não tenha nada a ver com a idade, mas sim com afinidade. Ainda assim, o fenômeno me inquieta. O que aconteceu com o mercado das balzaquianas?

Analisando o conjunto da obra, às vezes tenho impressão que a culpa é do marketing que gira em torno da minha geração. Sou do grupo de mulheres que são julgadas como “as mulheres que querem casar”, e assim parece que fomos tomadas por algum tipo de doença cujo sintoma principal é a urgência sangrenta em carregar pobres almas para o altar. The Walking Dead to get Married. Ah, ainda tem quem diga que as mulheres de trinta têm o fantasma do útero-bomba-relógio fazendo tic-tac ditando regra para as nossas vidas e escolhas. Agora vem cá, não tá na hora de demitir os responsáveis por essa campanha de marketing que diz que a balzaca é a porta das desesperadas? Vocês estão ferrando com a minha turma!

Talvez por conta da escassez de homens da minha idade na minha horta, eu comecei a olhar para a horta vizinha. E posso dizer que tive a feliz experiência de parar de julgar os novinhos, e beber desta fonte da juventude. Assim como tantas mulheres da minha idade, eu também não tenho pressa em casar, e sei que nem todo lance vira romance, e sendo assim, muito despretensiosamente, eu cai pra dentro da toca do coelho e fui para no país das maravilhas.

Eu deixei um novinho entrar no meu mundinho e também nos meus lençóis, e a surpresa foi pra lá de positiva. E aqui, que fique bem claro que o “novinho” em questão tem mais de 20 anos e é responsável pelas próprias decisões. O que descobri é que o novinho compensa a falta de experiência com energia e criatividade. Ele pode não saber o que fazer com precisão, mas não vai ter vergonha de perguntar o caminho certo. Usa a língua como sua arma, e não pensa duas vezes em botar um gelo ou um Halls preto pra jogo. A velocidade pode ser um pouco acelerada, mas o combustível dura longas viagens, o que faz da aventura uma experiência sensacional e deliciosamente exaustiva.

O novinho não tem muitos pudores em fazer contato ou falar que está afim. Talvez porque ele não carregue tantas decepções nos “quilômetros de desvantagens” que acumulei de viagens passadas. Ele me chama de “amor” sem compromisso, mas quando vê meus olhos arregalados responde em tom de deboche – “eu chamo todas assim, pra não errar o nome”, e dá risada, enquanto sou obrigada a rir também de sua petulância moleca. Ele adora provocar, e depois me adocica com um novo “amor” aqui e um tapa na bunda ali. É o tipo de cara que pula de trás do sofá para me dar um susto, ou liga a água do chuveiro no gelado só pra me ouvir gritar. Faz-me rir, além de gozar. Dá leveza tanto ao carinho quanto a sacanagem.

Ahh novinho, que grata surpresa te descobrir nesta fase em que me cobram buscar um compromisso, posar de bela, recatada e do lar. O novinho cozinha um prato elaborado que ele pesquisou no YouTube, enquanto joga os lençóis suados da minha cama na máquina de lavar. E eu já não me importo que ele ande pelado pela minha casa como se fosse o dono do pedaço, ou que me mande fotos de cueca enquanto tento parecer concentrada no trabalho. Adoro quando ele pede para que eu escolha a sua camisa, quando finalmente decide se vestir. Tem uma displicência tolerável, quase invejável, no novinho. Eu odeio/amo como ele me atiça e me faz parecer mais nova do que ele, sedendo às suas instigações e pirraças. Talvez seja exatamente isso que eu goste no novinho. Da lembrança de que eu também sou nova, de fato, não importa o que o marketing social injusto tenha feito pela a minha geração.

Eu sei, dizem que idade é só um numero, mas às vezes precisamos de um lembrete de que este número não deveria nos definir. E eu aprendi isso com um novinho. Isso e o valor do Halls preto.

Ahh novinho… você sabe muito.

Fim da sessão.

A arte de decepcionar

Dia desses mandei uma mensagem arriadinha para uma amiga, sobre um antigo affaire que havia casado na Tailândia. No outro dia, o comentário dela foi longe de ser uma piada. Lembrou-me de que eu havia me esquecido de seu aniversário, que não havia ligado para o namorado dela, um grande amigo meu, cuja mãe estava doente. Pontuou duramente que enquanto eu perdia tempo com o meu passado (ainda que brevemente), eu estava dedicando menos tempo às pessoas que realmente importavam na minha vida, no presente.

Entre todas as incertezas que aquela crítica incendiou, uma certeza permaneceu, a de que sou perita na arte de decepcionar.

Eu sempre representei a decepção de muita gente. Eu falo demais e muito alto, e isso já decepciona uma pá de pessoas. Tenho uma veia crítica aguçada, que não é a preferida de ninguém. E as minhas escolhas… bem, essas promoveram também uma série de decepções por toda a minha vida. Mas essa é a beleza e risco do livre arbítrio, é impossível agradar todo mundo. Expectativa é tipo, física: dois corpos “não se agradam” do mesmo lugar ao mesmo tempo.

Acho que o maior rompante do que significava decepcionar, eu aprendi aos 18 anos. Eu fui uma grande decepção pro meu pai quando perdi minha virgindade, ainda que o evento fosse previsível. Nunca achei que meu hímen rompido pudesse doer mais alguém do que em mim, mas aparentemente doeu no meu pai. A partir dali eu entendi que as minhas escolhas – ainda que muito minhas, decepcionariam as pessoas que eu amo. Uma decepção tão grande quanto esta, aconteceu muitos anos depois, quando eu, herdeira da empresa familiar, decidi que meu destino profissional era outro. Você não passa uma vida inteira de escolhas, ilesa de decepcionar profundamente alguém que ama.

Fui decepção pros meus irmãos sempre que não quis emprestar meus brinquedos, meu carro, ou meu tempo – e ninguém além deles teve e tem tanto de mim, ironicamente. Eu sou uma decepção para a minha mãe, toda vez que ela furtivamente inspeciona o meu quarto, e encontra a “organização artística” que faço com as minhas roupas em cima da minha cama. Acho que ela se decepciona também toda vez que eu saio sem batom, ou acendo um cigarro. E vou dizer, em menor ou maior escala, não tem nada pior que decepção de mãe.

Eu sou uma definitiva decepção para o padrão de beleza que me impõem, já que eu gosto muito mais de carboidrato do que abdominais.

Eu decepciono a minha família que mora longe, porque eu nunca visito – ainda que eles também nunca apareçam. Sou a decepção das feministas toda vez que beijo um machista, ainda que discorde de quase tudo que sai da boca dele, com exceção de sua língua. Sou a decepção dos vegetarianos pela minha tara por uma costela, e meu tesão por um vazio. Sou decepção dos meus amigos gremistas ou colorados em razão de nunca ter escolhido por nenhum deles (ou qualquer outro time). Sou uma decepção para as minhas amigas sempre que não atendo a um(a)aniversário/ casamento/mudança/expectativa. Ou quando decido falar aquilo que acredito, muito mais do que aquilo que elas querem ouvir.

Sou uma decepção pras minhas parceiras de boteco, toda vez que decido me aquietar. Sou uma decepção eterna para aquele ex-namorado cuja história ficou mal acabada (e que ainda promove discussões acaloradas, seguidas de um “vai escrever mediocridades naquele teu ‘bloguezinho’”). Eu sou, inclusive, a decepção de muita leitora que acompanha o blog e que presencialmente, conclui “que eu não sou tão querida assim”. E de fato não sou. Não sou tão pontual, nem tão disposta. Nem tão gentil, nem tão ponderada. Bem, nem sempre. E não tendo a orientação prévia da escala de expectativa de cada uma das minhas intersecções, eu vou seguir sendo, muitas vezes, uma decepção.

Isso porque para ser uma decepção, basta ter a característica básica da humanidade. Somada a uma expectativa, essa que sabe como ninguém, ser a mãe da merda. Talvez por isso hoje, eu tenha maior tendência a decepcionar do que ser decepcionada. Porque eu já aceitei que todo mundo é humano e sucessível a falhas, e que contexto sempre ajuda a aliviar a frustração. Contexto, ponto de vista, empatia. E também que é muito melhor criar codornas, do que expectativas. Pessoas em que depositamos/apoiamos nossos planos e sonhos não são estruturas de ferro e concreto, são apenas pessoas, de carne e osso.

Fato é que a gente passa a vida acorrentada às expectativas do outro, o que na maioria das vezes resulta em enormes doses de culpa e rancor. E esses sentimentos são demasiadamente amargos e pesados pra ditar regra para as nossas relações.

Bom mesmo é viver a vida acreditando que está fazendo o melhor que se pode, ponderando as expectativas alheias e sendo tolerante com a nossa humanidade.

A gente cresce decepcionando e sendo decepcionado. E entender o valor deste aprendizado dolorido – é uma arte.

Fim da sessão.


ps: Ei, ex-namorado, escrevi sobre você no meu “bloguezinho”. Pelo menos nisso não te decepcionei 😉

7 segundos

Eu tenho uma obsessão por momentos que desafiam as métricas do relógio. Sabe, aqueles instantes cujas emoções são tão intensas, as expectativas tão palpáveis, que o tempo parece desacelerar? Eu vivo por momentos assim. Guardo-os todos em caixinhas estofadas do meu coração, como recordações das mais queridas. Adoro quando as borboletas na minha barriga alçam voo e me fazem levitar por alguns segundos nesses recortes da vida real. Eu corro o tempo todo, mas em raros momentos da vida, eu tomo o meu tempo vendo ele se arrastar, deliciosamente. Dentre os meus preferidos… aqueles preciosos 7 segundos antes de beijar alguém pela primeira vez.

A principio 7 segundos não parecem nada. Presumo que nada de relevante possa ser efetivado em tão pouco tempo. Mas aqueles 7 segundos efervescentes entre uma boca e outra, esses sim, podem ter a magnitude de 7 horas, 7 dias. É neste pequeno intervalo de tempo que o rosto chega tão perto de outro rosto, que é possível sentir o cheiro da pessoa pela primeira vez. E aqui não estou falando sobre perfume, desodorante, ou pós-barba. É o cheio do beijo da pessoa. Uma mistura que pode variar um bocado, entre um chiclete furtivamente adicionado, prevendo o encontro dos hálitos. Ou o gosto de cerveja, de vinho, de café, de chocolate, o gosto de alguém. É a química do beijo sem beijar. Um perfume quente e intenso que vem da boca, e aquece o momento antes mesmo dele começar.

Durante estes rápidos e longínquos movimentos dos ponteiros, é quando acontece o posicionamento das mãos, prevendo a moldura do beijo. Moldura que normalmente é feita através de um abraço, um entrelaço. É claro que essa dança começa muito antes dos 7 segundos, com toques suaves aqui e ali, sorrisos convidativos, um caminho a ser sutilmente tateado.  Uma mão nas costas, ou na cintura. Talvez um joelho tímido encostado no outro, testando a permissão, aproximação, o aconchego. Não gosto do “chegar-chegando” de supetão. Gosto de toques que pouco a pouco se constroem, se permitem, se enroscam. Adoro lugares com música alta que possibilitam cochichos no ouvido, completamente justificáveis. Musica alta é a desculpa perfeita para chegar mais perto da orelha, aquela que fica tão perto do pescoço. E o pescoço é um ótimo lugar para iniciar a jornada dos 7 segundos.

Nesta fração de tempo, os olhares ficam perdidos, entre boca e outro par de olhos. É tempo suficiente para não ser uma intimada, mas longo o bastante para confirmar o interesse. Gosto quando os olhos avisam gentilmente que o melhor está por vir. Carregados de excitação pela novidade, e a confiança de que beijo na boca tende a ser sempre bom. Eu adoro olhares pré-primeiro beijo. São confusos, e atrapalhados, mas ao mesmo tempo seguros do objetivo comum. Gosto do leve ar de embriagados que estes olhos têm, de quem está louco para matar a sede no outro. Piscadelas, olhares 43, cílios tocando no famoso “beijo de borboleta”. São as janelas da alma gritando “vai acontecer” ou pedindo “chega mais perto”. A respiração acelera, o coração sapateia.

Esses 7 segundos são o mais puro estado de graça. Talvez porque ali as expectativas estejam intimamente ligadas com o presente. Neste pedacinho de tempo, ninguém está preocupado com os beijos do passado que acabaram em corações partidos, ou tão pouco se o beijo em questão será a última boca a ser beijada antes do “felizes para sempre”. Não. 7 segundos antes de um beijo é o mais próximo de estar presente em um momento. É quase um execício de meditação, de inspiração e expiração, antes de chegar a nirvana, aquele estado transcendente onde você é liberado de todos os efeitos do karma e  do senso de si…

7,

6,

5,

4,

3,

2,

1.

E o melhor está por vir. Fim da contagem. Fim da espera. Fim da expectativa.

Fim da sessão


Ps: Hoje a sessão foi curtinha. Porque alguns momentos da vida não precisam de muito para se eternizarem.

A rua é delas | Coisa de Antônia

Ehhhhhhhhhhhhhhh!! Ontem teve protesto, e foi lindo! Cola lá na Rede Atlântida, que o Coisa de Antônia fez a cobertura!

Clique na imagem:

a rua é delas (1)

 

O que eu quero

Depois de um tempo lidando com o passado das nossas relações, é impossível não colecionar uma lista daquilo que a gente quer evitar no futuro. E a tendência é começarmos a ficar com a casca mais grossa e um pouco mais intolerante com os desconfortos naturais causados por novos pretendentes. O que eu não quero já está super claro para mim, e considero esta lista importante porque representa um compromisso com os aprendizados do passado. É o cinto de segurança na estrada no amor. Entretanto, mais do que segurança, a gente precisa saber pra onde quer ir. A equação é mais ou menos assim: “o que eu quero” X “o que eu não quero” /dividido pela expectativa igual= caia na real. Ou seja, não é uma matemática exata, mas ajuda a balizar prioridades e concessões, sem perder o rumo da jornada.

“O que eu quero?”

Eu quero alguém que minta bem. Sério, eu tenho uma pá de romances nas costas e já tendo a certeza de que todo mundo mente, eu só queria encontrar alguém que me faça o favor de mentir bem. Se a verdade for amarga ou irrelevante, quero uma pessoa que se comprometa com uma história bem contada, para a sanidade dos personagens. Parece pessimismo, mas é de fato realismo e elemento de sobrevivência de uma relação. Se a verdade não vai ser produtiva, ok, eu consigo conviver com a mentira bem contada. Claro, tendo em mente que as intenções devem ser sempre as melhores para ambos.

Quero alguém com vida própria. Inclusive que esta vida seja composta de algumas programações que não me incluam, por favor. Quero um vivente que valorize os espaços e os momentos de saudade. E que me ajude a perceber quando eu estiver grudando, como a boa intensa que sou. Que me lembre de que sentir falta é saudável, e estar sozinho é igualmente importante para as partes. Quero alguém que me lembre de que eu preciso fazer concessões na minha agenda, mesmo que para programações pouco estimulantes, como a festa da firma ou o campeonato de futebol de várzea. E eu não sou muito boa nisso, já aviso. Mas eu adoro aprender.

Eu sonho com alguém que entenda a diferença entre um chilique e uma crise. Aliás, quero alguém que me ajude a diferenciar os dois, pois meu lado dramático tende a me confundir. Quero alguém que faça meia-culpa e que não tenha medo de pedir desculpas. Eu também quero alguém que não entre em pânico quando eu chorar, pois vai entender que a vida às vezes transborda. Alguém que saiba levar uma piada, e fazer outra.

Quero alguém que não vá se importar de escutar os hits dos anos 90 comigo e “Ode To My Family” do The Cranberries no repeat. Alguém que mexa no meu cabelo, e não repare nos fios brancos. Espero muito poder encontrar alguém que goste de praia e de boteco – ou aquela pessoa que vai me apresentar algo mais viciante que essas duas programações. E que não se importe com as minhas calcinhas largas que eu adoro usar para dormir (nem todo amor deveria sobreviver de fio-dental). Prometo tolerância com as zorbas amarelas (porque nem todo amor deveria sobreviver de boxes Calvin-Klein).

Quero alguém que eu não possa resistir, por maior que seja a minha birra. Que eu admire muito mais pelas ações do que pela eloquência.

Uma pessoa que seja gentil com garçons, com motoristas irritados e com a minha mãe. Alguém que não abra mão da serenidade com facilidade. Alguém que se adore, apesar de seus defeitos. E que ache os meus charmosos e administráveis. Que goste das pintas do meu corpo e que me convença que eu não sou nariguda (ou gorda, ou louca, dependendo da neura do momento – mulheres…).

Alguém com quem eu adore conversar. Afinal, quando a gente ficar velhinhos, talvez seja a única coisa importante. Uma pessoa com quem eu consiga discutir, discordar, sem nunca perder o respeito, ou levantar a voz. Eu odeio quando levantam a voz, ou pior, odeio quando me vejo fazendo o mesmo. Quero amar alguém com quem eu consiga ficar confortável em silêncio, superando a minha tagarelice nervosa. Que cale meus argumentos com um sorriso. Alguém que seja o meu “oi” preferido e meu “tchau” mais difícil.

Quero muito alguém que aceite quando eu convido para dançar, mesmo se a pista estiver vazia. Ou que não pensa duas vezes em topar um eventual skinny-dipping. Um indivíduo que não leve a vida tão a sério e saiba valorizar o que de fato é fundamental nela. Alguém que me faça mudar de ideia esteja eu contrariada, desencorajada ou teimosa. E que mudar de ideia não seja o mesmo que mudar o sentimento. Alguém com quem eu troque e me ajude a ser melhor e vice-versa. E que me coloque no meu lugar – que não é acima, nem abaixo, nem à frente, nem atrás. Mas ao lado. Lado a lado nesta estrada linda que é o amor.

O que eu quero? Quero alguém que me faça agradecer por nunca ter dado certo antes. E a lutar com unhas e dentes para não precisar dar certo com mais ninguém.


Fim da sessão.

O primeiro frio

Hoje foi aquele dia do ano em que admitimos que o período de estações mais quentes acabou. Do sudeste ao sul do país, esta terça-feira foi dia de procurar um casaquinho e considerar não apenas a troca de guarda-roupas, mas também a troca de cenários. Ruas mais vazias, programações mais caseiras e vinho. Ora, se tem algo que justifique o frio, é o aquecimento de um coração através da vinhoterapia – afinal, antes só vinho, do que mal acompanhado. Mas o primeiro frio do ano traz muito mais que um cobertorzinho para a nossa cama. Ele tem um quê de nostalgia, de memória. É impossível não sentir todo tipo de arrepio causado pelas temperaturas baixando e os dias se transformando. O primeiro frio sempre mexe com a gente.

O primeiro frio mexe comigo, por exemplo, porque me lembra a infância. Lembro-me com saudade da minha mãe lutando para arrancar-me da cama enquanto me socava roupa, a ponto de eu não conseguir me mexer direito. O primeiro frio recorda o meu pavor infantil quando encarava a serração fantasmagórica das manhãs, no melhor estilo The Walking Dead, a caminho da escola. Lembra-me da minha habilidade de pequena de estar sempre com as mangas ou meias molhadas. O primeiro frio traz de volta a lembrança do meu pai ligando a estufa no banheiro meia hora antes da minha vez de lavar as orelhas, para que eu “não pegasse uma friagem”. Faz-me recordar da minha adolescência, na parada esperando o ônibus, dançando no lugar para não congelar com o ventinho provocado pelo deslocamento dos carros. Lembra-me de sentar com receio na cadeira gelada da sala de aula e da busca por todo e qualquer raio sol na hora do recreio.

O primeiro frio desperta a hora de trocar os biquínis da gaveta pela coleção de meias-calças, e colocar os casacos coloridos para tomarem um ar. Traz o charme das tocas, das mantas e das luvas. O primeiro frio marca o início da era das polainas (me julguem!). O desejo por sobreposições, por abusar do batom escurão e realça o fervor que causam os gatos de jaqueta e botas cano médio. O frio tira pra fora do armário aquela calça gostosa de moletom que cabe tanto em você quando nele. O primeiro frio aponta que acordou a oportunidade de reinventar o visual, se transfigurar, se travestir e mudar. Trocar a paleta. Sacudir a nossa roupagem.

Com o primeiro frio acordamos para súbita troca de cardápio. Onde antes tinha espaço para salada e sushi, agora o estômago clama por risotos, massas e fundis (a vida é curta para se viver sem carboidrato). Aqui nas querências  – e na minha humilde opinião, nada seduz mais que a semente que chega junto com o vento Minuano. Garotos, por favor, não me deem flores, deem-me sacos de pinhão! Com sal, com mel, com vinho, com amor. Isso sim aquece o meu coração no frio. Ou me convidem para ir a serra para tomar uma sopa no pão. Não tem nada mais definitivo entre a solteirice do calor, e o engajamento do frio, que uma sopa no pão em Gramado. É romance com queijo ralado e um bom Carbernet.

E por falar em romance, o primeiro frio faz pensar em carinho, xodó, colo, entrelaçamento. Desculpe-me o clichê, mas como substituir um cobertor de orelha? Ahn? Ou incontáveis domingos chuvosos de edredom, Netflix e amassos?  Longas e promissoras horas daquelas caricias quentes que deixam as janelas embaçadas e o frio do lado de fora. Que estação que sabe criar boas companhias. O primeiro frio lembra pés enroladinhos. Faz recordar da delícia e do desespero que é aquecer as mãos geladas nas costas quentinhas de alguém. Delícia pras mãos e desespero para as costas. O primeiro frio relembra aquele cara que um dia amei e que me enrolava como um tamaki em meio aos cobertores nas sonecas preguiçosas de sábado. O primeiro frio evoca a ida à praia com alguém especial. Ou aquele final de semana no sítio. O primeiro frio lembra o frio na barriga.

Ahhhh nostalgia gelada… O primeiro frio lembra Londres e a Trafalgar Square lotada de turistas e seus guarda-chuvas. Lembra croissant quentinho na cafeteria. O primeiro frio lembra que os ranhentos lá de casa ficarão de narizes assados logo, logo – eles e todas as crianças do mundo. Lembra bolinho de chuva e chimarrão (ou equivalente). Lembra quentão. Livros finalmente lidos! Lembra Game of Thrones e que “Winter is (finally) coming”. Lembra Frozen, Olaf e abraços quentinhos. Lembra bolsa de água quente e cheirinho de chá. O primeiro frio lembra que é hora chamar as amigas para a sala de casa e acender a lareira, ou chamar o gato e aumentar o calor do quarto. O primeiro frio lembra que a temperatura pode até cair, mas que os próximos meses merecem ser aquecidos com bons momentos, pequenos e grandes prazeres e suspiros com vaporzinho.

Pega o casaquinho e te joga.


Fim da sessão.

Coisa de Antônia: A gente namora, mas você não sabe

No ATL Girls da Rede Atlântida o Coisa de Antônia (de Maria, de Carolina, de Tatiana, Larissa, Gabriela…) desta semana trata da habilidade feminina de criar romances… ainda que sozinha.

E você, já imaginou um amor todo seu? Pula pra lá, sua desvairadinha, e conta pra nós:

A gente namora, mas você não sabe

Inspiração contagiosa

Uma das grandes maravilhas do ser humano é a sua capacidade de reciclar a fé na vida. A esperança parece uma daquelas mudinhas que nasce em meio a uma rachadura no concreto ou no asfalto, sabe? Sob as condições mais improváveis de sobrevivência, vinda lá debaixo da dureza do curso da vida, ela insiste, empurra, renasce. Ela força a saída para a luz, alimentando-se da sede de prevalecer. Ela não se deixa amassar pela pedra, ela não se acomoda com a escuridão. Perseverar é um ato heroico por parte da mudinha. E exatamente como ela, é cada um de nós. Somos movidos a perseverança, resiliência. Instigados a acreditar.

Esse processo de luta pelo canudo do meu irmão provou que a inexistência da afetividade significa quase nada enquanto houver empatia. “Empatia é quase amor”, neste caso. Gente que não conhecia a nossa família, pessoas que nunca ouviram falar do meu irmão, indivíduos que jamais tinham falado comigo antes do meu pedido público. Um mar de rostos desconhecidos (além dos conhecidos), soltando seu latim na internet e chamando a atenção da mídia em prol de um bem que sequer lhes traria algum benefício. O benefício estava em ajudar, ser parte de algo que faria bem a outra família. Um canudo, um abraço, o reconhecimento. O que fosse. A minha família virou a família de tanta gente, e o nosso pedido virou o pedido de muitos. A empatia sabe ser a coisa mais linda deste mundo, não sabe?

E aqui aconteceu um processo interessante de inspiração retroalimentada. A nossa luta foi admirada e com o encorajamento da torcida, a nossa esperança – como a mudinha – prevaleceu. E o contrário também foi verdadeiro. Em resposta ao nosso pequeno ato heroico, daquele que força a passagem pelo concreto (leis, protocolos, tudo muito concreto), outras pessoas tomaram atitudes lindas. Recebemos ofertas de inúmeros advogados querendo operar pro bono na nossa causa, mesmo sabendo que já estávamos legalmente amparados. Pessoas linkaram seus contatos da mídia conosco na tentativa de fortalecer uma opinião publica favorável. Emails e mensagens de apoio foram enviados de todo o Brasil e de fora dele. Pacientes do meu irmão nos procuraram para contar de suas experiências, no intuito de reforçar a nossa (já gigantesca) admiração pelo Leonardo. Amigos voltaram a se falar, pois colocaram a nossa despedida em perspectiva. Pais que perderam seus filhos se fortaleceram com a nossa história, nos agradeceram e abraçaram. Sem qualquer pretensão de inspirar – talvez apenas ao Murilo e ao Mateus no que diz respeito ao amor fraternal  – ainda assim, sem objetivamente querer transformar nossa história, em um ato de inspiração, inspiramos.

“O mundo ainda tem jeito” – uns disseram. “Que coragem é essa?” – perguntavam outros. “Esta família é prova de amor, força e lealdade” – admiraram-se os demais. Veja que isso nunca foi o nosso plano. Disseram-me que eu era uma irmã de ouro, contudo o meu reconhecimento pessoal nunca esteve no meu pleito. Ou no de qualquer integrante da minha família. Queríamos tão somente manter intacta a consistente fonte de apoio que sempre fomos para o Leonardo.

Acontece que quando o coração da gente está no lugar certo, coisas admiráveis acertam. E inspiram outras pessoas. E cá pra nós, o mundo está mesmo precisando de histórias de gente que não desiste. Gente que se doa. Que pede ajuda de coração aberto. Jamais teríamos conseguido o reconhecimento da faculdade se tivéssemos nos resumido exclusivamente aos nossos recursos. A esperança requer humildade. É a extensão do próprio coração, pegando emprestado o amor que há no outro. Não surpreendentemente, a parte mais bonita da inspiração, é que ela é contagiosa. Atos de bondade inspiram outros atos de bondade. A coragem do outro, engrandece a nossa. A perseverança alheia encoraja a nossa própria tenacidade. A inspiração contagia.

E estes exemplos não precisam ser majestosos atos públicos ou demonstrações imponentes de nossos mais estimados predicados. Não mesmo. Pequenos atos de amor e bondade mudam o mundo. E eles inspiram tantos outros. Nós não precisamos ser gigantescos nas nossas ações, apenas regar a esperança com extraordinárias doses de perseverança e lealdade – como a mudinha, nascendo em meio ao concreto. A mudinha que em si, é pequena. Mas que é oxigênio para a nossa caminhada,  por caminhos muito mais floridos e verdejantes.


Fim da sessão

Coisa de Antônia: O lado negro da força

Ai, ai, ai. Tá difícil de enxergar na escuridão da negatividade. Pois peguem seus sabres de luz e venham comigo lutar contra o lado negro da força no ATL Girls da Rede Atlântida.

No botão  abaixo, clicar você deve – diria Yoda.

antônia no divã - o lado negro da força

 

Coisa de Antônia: A Recaída 

Eu fiz de tudo pra evitar uma recaída. Mas evitar uma recaída é tão eficaz quando evitar um tropeção. Não tem como se prevenir de um tropeção, tem?
No ATL Girls de hoje na Rede Atlântida, as delícias e malícias de uma recaída. Tropeça pra pra lá!