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O que eu quero

Depois de um tempo lidando com o passado das nossas relações, é impossível não colecionar uma lista daquilo que a gente quer evitar no futuro. E a tendência é começarmos a ficar com a casca mais grossa e um pouco mais intolerante com os desconfortos naturais causados por novos pretendentes. O que eu não quero já está super claro para mim, e considero esta lista importante porque representa um compromisso com os aprendizados do passado. É o cinto de segurança na estrada no amor. Entretanto, mais do que segurança, a gente precisa saber pra onde quer ir. A equação é mais ou menos assim: “o que eu quero” X “o que eu não quero” /dividido pela expectativa igual= caia na real. Ou seja, não é uma matemática exata, mas ajuda a balizar prioridades e concessões, sem perder o rumo da jornada.

“O que eu quero?”

Eu quero alguém que minta bem. Sério, eu tenho uma pá de romances nas costas e já tendo a certeza de que todo mundo mente, eu só queria encontrar alguém que me faça o favor de mentir bem. Se a verdade for amarga ou irrelevante, quero uma pessoa que se comprometa com uma história bem contada, para a sanidade dos personagens. Parece pessimismo, mas é de fato realismo e elemento de sobrevivência de uma relação. Se a verdade não vai ser produtiva, ok, eu consigo conviver com a mentira bem contada. Claro, tendo em mente que as intenções devem ser sempre as melhores para ambos.

Quero alguém com vida própria. Inclusive que esta vida seja composta de algumas programações que não me incluam, por favor. Quero um vivente que valorize os espaços e os momentos de saudade. E que me ajude a perceber quando eu estiver grudando, como a boa intensa que sou. Que me lembre de que sentir falta é saudável, e estar sozinho é igualmente importante para as partes. Quero alguém que me lembre de que eu preciso fazer concessões na minha agenda, mesmo que para programações pouco estimulantes, como a festa da firma ou o campeonato de futebol de várzea. E eu não sou muito boa nisso, já aviso. Mas eu adoro aprender.

Eu sonho com alguém que entenda a diferença entre um chilique e uma crise. Aliás, quero alguém que me ajude a diferenciar os dois, pois meu lado dramático tende a me confundir. Quero alguém que faça meia-culpa e que não tenha medo de pedir desculpas. Eu também quero alguém que não entre em pânico quando eu chorar, pois vai entender que a vida às vezes transborda. Alguém que saiba levar uma piada, e fazer outra.

Quero alguém que não vá se importar de escutar os hits dos anos 90 comigo e “Ode To My Family” do The Cranberries no repeat. Alguém que mexa no meu cabelo, e não repare nos fios brancos. Espero muito poder encontrar alguém que goste de praia e de boteco – ou aquela pessoa que vai me apresentar algo mais viciante que essas duas programações. E que não se importe com as minhas calcinhas largas que eu adoro usar para dormir (nem todo amor deveria sobreviver de fio-dental). Prometo tolerância com as zorbas amarelas (porque nem todo amor deveria sobreviver de boxes Calvin-Klein).

Quero alguém que eu não possa resistir, por maior que seja a minha birra. Que eu admire muito mais pelas ações do que pela eloquência.

Uma pessoa que seja gentil com garçons, com motoristas irritados e com a minha mãe. Alguém que não abra mão da serenidade com facilidade. Alguém que se adore, apesar de seus defeitos. E que ache os meus charmosos e administráveis. Que goste das pintas do meu corpo e que me convença que eu não sou nariguda (ou gorda, ou louca, dependendo da neura do momento – mulheres…).

Alguém com quem eu adore conversar. Afinal, quando a gente ficar velhinhos, talvez seja a única coisa importante. Uma pessoa com quem eu consiga discutir, discordar, sem nunca perder o respeito, ou levantar a voz. Eu odeio quando levantam a voz, ou pior, odeio quando me vejo fazendo o mesmo. Quero amar alguém com quem eu consiga ficar confortável em silêncio, superando a minha tagarelice nervosa. Que cale meus argumentos com um sorriso. Alguém que seja o meu “oi” preferido e meu “tchau” mais difícil.

Quero muito alguém que aceite quando eu convido para dançar, mesmo se a pista estiver vazia. Ou que não pensa duas vezes em topar um eventual skinny-dipping. Um indivíduo que não leve a vida tão a sério e saiba valorizar o que de fato é fundamental nela. Alguém que me faça mudar de ideia esteja eu contrariada, desencorajada ou teimosa. E que mudar de ideia não seja o mesmo que mudar o sentimento. Alguém com quem eu troque e me ajude a ser melhor e vice-versa. E que me coloque no meu lugar – que não é acima, nem abaixo, nem à frente, nem atrás. Mas ao lado. Lado a lado nesta estrada linda que é o amor.

O que eu quero? Quero alguém que me faça agradecer por nunca ter dado certo antes. E a lutar com unhas e dentes para não precisar dar certo com mais ninguém.


Fim da sessão.

O primeiro frio

Hoje foi aquele dia do ano em que admitimos que o período de estações mais quentes acabou. Do sudeste ao sul do país, esta terça-feira foi dia de procurar um casaquinho e considerar não apenas a troca de guarda-roupas, mas também a troca de cenários. Ruas mais vazias, programações mais caseiras e vinho. Ora, se tem algo que justifique o frio, é o aquecimento de um coração através da vinhoterapia – afinal, antes só vinho, do que mal acompanhado. Mas o primeiro frio do ano traz muito mais que um cobertorzinho para a nossa cama. Ele tem um quê de nostalgia, de memória. É impossível não sentir todo tipo de arrepio causado pelas temperaturas baixando e os dias se transformando. O primeiro frio sempre mexe com a gente.

O primeiro frio mexe comigo, por exemplo, porque me lembra a infância. Lembro-me com saudade da minha mãe lutando para arrancar-me da cama enquanto me socava roupa, a ponto de eu não conseguir me mexer direito. O primeiro frio recorda o meu pavor infantil quando encarava a serração fantasmagórica das manhãs, no melhor estilo The Walking Dead, a caminho da escola. Lembra-me da minha habilidade de pequena de estar sempre com as mangas ou meias molhadas. O primeiro frio traz de volta a lembrança do meu pai ligando a estufa no banheiro meia hora antes da minha vez de lavar as orelhas, para que eu “não pegasse uma friagem”. Faz-me recordar da minha adolescência, na parada esperando o ônibus, dançando no lugar para não congelar com o ventinho provocado pelo deslocamento dos carros. Lembra-me de sentar com receio na cadeira gelada da sala de aula e da busca por todo e qualquer raio sol na hora do recreio.

O primeiro frio desperta a hora de trocar os biquínis da gaveta pela coleção de meias-calças, e colocar os casacos coloridos para tomarem um ar. Traz o charme das tocas, das mantas e das luvas. O primeiro frio marca o início da era das polainas (me julguem!). O desejo por sobreposições, por abusar do batom escurão e realça o fervor que causam os gatos de jaqueta e botas cano médio. O frio tira pra fora do armário aquela calça gostosa de moletom que cabe tanto em você quando nele. O primeiro frio aponta que acordou a oportunidade de reinventar o visual, se transfigurar, se travestir e mudar. Trocar a paleta. Sacudir a nossa roupagem.

Com o primeiro frio acordamos para súbita troca de cardápio. Onde antes tinha espaço para salada e sushi, agora o estômago clama por risotos, massas e fundis (a vida é curta para se viver sem carboidrato). Aqui nas querências  – e na minha humilde opinião, nada seduz mais que a semente que chega junto com o vento Minuano. Garotos, por favor, não me deem flores, deem-me sacos de pinhão! Com sal, com mel, com vinho, com amor. Isso sim aquece o meu coração no frio. Ou me convidem para ir a serra para tomar uma sopa no pão. Não tem nada mais definitivo entre a solteirice do calor, e o engajamento do frio, que uma sopa no pão em Gramado. É romance com queijo ralado e um bom Carbernet.

E por falar em romance, o primeiro frio faz pensar em carinho, xodó, colo, entrelaçamento. Desculpe-me o clichê, mas como substituir um cobertor de orelha? Ahn? Ou incontáveis domingos chuvosos de edredom, Netflix e amassos?  Longas e promissoras horas daquelas caricias quentes que deixam as janelas embaçadas e o frio do lado de fora. Que estação que sabe criar boas companhias. O primeiro frio lembra pés enroladinhos. Faz recordar da delícia e do desespero que é aquecer as mãos geladas nas costas quentinhas de alguém. Delícia pras mãos e desespero para as costas. O primeiro frio relembra aquele cara que um dia amei e que me enrolava como um tamaki em meio aos cobertores nas sonecas preguiçosas de sábado. O primeiro frio evoca a ida à praia com alguém especial. Ou aquele final de semana no sítio. O primeiro frio lembra o frio na barriga.

Ahhhh nostalgia gelada… O primeiro frio lembra Londres e a Trafalgar Square lotada de turistas e seus guarda-chuvas. Lembra croissant quentinho na cafeteria. O primeiro frio lembra que os ranhentos lá de casa ficarão de narizes assados logo, logo – eles e todas as crianças do mundo. Lembra bolinho de chuva e chimarrão (ou equivalente). Lembra quentão. Livros finalmente lidos! Lembra Game of Thrones e que “Winter is (finally) coming”. Lembra Frozen, Olaf e abraços quentinhos. Lembra bolsa de água quente e cheirinho de chá. O primeiro frio lembra que é hora chamar as amigas para a sala de casa e acender a lareira, ou chamar o gato e aumentar o calor do quarto. O primeiro frio lembra que a temperatura pode até cair, mas que os próximos meses merecem ser aquecidos com bons momentos, pequenos e grandes prazeres e suspiros com vaporzinho.

Pega o casaquinho e te joga.


Fim da sessão.

Felicidade silenciosa

“Felicidade é discreta, silenciosa e frágil, como a bolha de sabão.  Vai-se muito rápido, mas sempre se podem assoprar outras.”  Rubem Alves

 

Certa vez viajei para um paraíso na costa da Austrália, e após alguns dias sem dar notícias, uma amiga me escreveu preocupada: “E aí, Antônia, não está gostando da viagem?” – não entendendo a pergunta, respondi prontamente, “Poxa, é claro que estou. Da onde você tirou essa ideia?”. Ela então, concluiu sua lógica – “ah, é que você não postou nada a respeito, achei que não estivesse se divertindo”.  A lógica dela, que é a lógica da maioria (incluindo a minha), me fez pensar. Estaríamos tão acostumados a propagar nossa alegria, que desaprendemos a reconhecer a felicidade silenciosa?

Felicidade silenciosa. É assim que eu chamo aqueles momentos da vida em que não faz a menor diferença se o celular tem bateria ou não. Sabe? A turma certa, a beira de praia perfeita, o boteco no meio da semana, o sítio com os irmãos, os lençóis cheios de delícias, o livro novo, o dia de ser boa companhia pra si mesma(o). Momentos onde a beleza de ser e estar é tão sublime, que ninguém fora destes pequenos universos precisa ficar sabendo. Talvez ela aconteça por medo de que os holofotes ofusquem quem enxerga estas maravilhas. Ou ainda por conta de quem teme o olho gordo. A minha teoria reina na simplicidade da distração. Felicidade silenciosa ocorre por pura distração. Algo do tipo, “opa, esqueci de viver o online pros outros, enquanto vivia o off-line pra mim”.

“Ora, ora, não seja hipócrita, Antônia!”. Sim. É claro que as fotos da minha viagem estão no meu perfil, obvio que eu faço check-in em lugares bacanas e divido meus momentos de emoção com minha audiência preferida em inúmeras ocasiões. Sem dúvidas sou uma daquelas pessoas que gosta de compartilhar onde foi, o que viu, como viveu (afinal, eu tenho um blog!). Todo mundo é um pouco assim.  Entretanto, verdade também é que nada me distrai mais que a felicidade silenciosa. Eu adoro me perder em ruas que desconheço mundo afora e memorizar os cheiros e as sensações. Eu deixo o celular fora do quarto pra me perder nas curvas de alguém que me tira a atenção. Amo e prefiro contar minhas aventuras pessoalmente, pra aqueles que gostam de me ouvir vendo a emoção nos meus olhos e não no brilho de uma tela. Quando não me encontram no celular, quem me conhece já sabe e canta a pedra “está por aí aprontando alegria e sendo feliz!”. E estão certos.

Penso que a felicidade silenciosa é aquela mais egoísta, sabe? Alguns momentos de contemplação da vida que merecem ser divididos com poucos, ao invés de serem lançados no vento para muitos. A felicidade silenciosa é como um bem valioso – você não sai desfilando com ela pendurada no pescoço. Você guarda numa caixa de jóias dentro do coração. Cada risada de doer a barriga com sua melhor amiga. Cada suspiro arrancado por um amor. O colo da sua mãe (mesmo aos 30!). E todo sorriso que não pode ser reproduzido para a prosperidade. Para estes casos de felicidade silenciosa, não precisa de registro oficial. Porque quando eu ficar bem velhinha, quero lembrar-me de como eu me senti, e não de quantas fotos tirei. E para isso a minha atenção tem que ser dedicada.

Felicidade silenciosa para os outros, mas que clama dentro da alma. Eu sei que quando a gente está feliz, quer gritar essa condição aos quatro cantos do mundo e que nos dias de hoje a tarefa de fazê-lo realmente é possível. Preste atenção, entretanto, que a felicidade silenciosa se basta em existir. Sobrevive dos sussurros de amor e juras menos dramáticas. É propagado em grupos menores, entre abraços que falam mais que palavras. Não precisa de conexão wi-fi. Não é transmitida em um tweet e certamente não tem filtros. Ela é pura. Sincera e por vezes tão rara. Então não se deixe distrair pelos gritos de euforia no mainstream da felicidade pública. Preste atenção na felicidade silenciosa. O resto é só barulho.


Fim da sessão.

O que eu não quero

Dia destes peguei-me em um “first date” com um cara mais velho. Eu, que já tive a minha cota considerável de garotos, achei um tanto quanto revigorante a ideia de sair com um homem com “H” maiúsculo. Revigorante e intimidador, pra dizer o mínimo, claro. Durante o encontro tentei direcionar a nossa conversa para assuntos aleatórios e inofensivos. Papo vai e papo vem entre uma cerveja e outra, e a pergunta latente e implacável surge na conversa:

– Mas afinal, Antônia. O que você espera de um relacionamento? O que você quer ?

Fiquei muda, como poucas vezes na vida eu fiquei (logo eu que não pago imposto pra falar demais). E lá eu me calei, por longos minutos sem saber o que dizer. Foi um choque. Naquele momento eu me dei conta que a esta altura do campeonato, eu não tinha a menor ideia do que eu queria. Mas já não tinha a menor dúvida das coisas que eu não queria.

Sabe o que eu não quero? Eu não quero ter azia de ciúmes. Sabe aquela queimação no estômago, justificada ou não, por conta de um sentimento de perda ou ciúmes compulsivo? Não quero. Nem por um minuto. A “sorte de um amor tranquilo”, como o de Cazuza, nada de chiliques. Também não quero pressa ou pressão, ou alguém me prendendo à força – deixe-me livre e verás que não irei a lugar nenhum, tente me prender na marra, e serei a primeira a pular fora mesmo sem paraquedas. Não quero ficar que não seja por escolha própria. E também não quero ter que pedir carinho. Carinho se entrega de graça. Beijos são tascados ou roubados, jamais solicitados. E não quero sair da cama sem cafuné. Aliás, eu me nego a sair da cama dividida sem cafuné.

Não quero perfil de rede social compartilhado. Não quero a sua senha do celular. Não quero me importar com aquela sua ex que curte todas as tuas fotos no Instagram. Aliás, também não quero falar de ex, nem das suas, nem dos meus – eles já fizeram a contribuição deles ensinando tudo que eu não quero mais. Não quero achar ruim que você joga futebol/peteca/ hockey/pedrinha n’água toda quarta-feira. Não quero conta conjunta. Não quero que você diga que eu não arrumo os potes da cozinha como a sua mãe. Aliás, não quero e nem vou competir com a sua mãe. E nem imagine que você poderá falar qualquer coisa da minha. Não quero que você troque o pneu do meu carro, e nem fique chateado quando por vezes eu precisar provar pra minha própria teimosia que eu preciso aprender a pedir ajuda.  Não quero alguém que largue a minha mão quando a coisa ficar feia. Ou quando eu ficar feia.

Não quero ser responsável pelas suas roupas, mas não me importo de jogar suas cuecas na máquina de vez em quando. E também não quero comentários a respeito da minha toalha molhada sobre a cama, mas confesso que posso me apaixonar se te pegar recolhendo-a, ainda que contrariado.  Não quero deixar de ser botequeira (= leia corretamente), e não vou ser uma lady por ninguém. Mas se me disseres que eu fico linda naquele vestido arrumadinho que você me deu, não vou deixar de usá-lo me esforçando para não estragar o cetim de alta costura pulando de uma cama elástica (história verídica).

Não quero e nem vou pedir desculpas pelas minhas celulites, e não vou me importar com sua pancinha de chopp. Não quero que você diga “eu te amo também”, só pra tranquilizar meu ego, pois eu já não sou mais tão imatura, e posso esperar você ter vontade de dizer quando estiveres pronto. Não quero que você deixe de sair com seus amigos, não vou deixar de sair com as minhas amigas, não vou abrir mão de termos amigos em comum. Não quero que você corrija seus defeitos ou calibre seus excessos por mim, pois eu também prefiro tomar estas atitudes por vontade própria. Não quero que você invente desculpas, por você ou por mim. Não quero que você se apaixone por alguém que eu “possa ser”, ao invés de amar quem eu realmente sou.

Não quero passar um final de tarde na praia sem você. Não quero que você deixe de dançar comigo porque tem vergonha. Não quero me perder por aí quando a gente brigar. Não quero me esquecer de quem eu sou e amo ser.

Hoje eu entendi finalmente que precisava estabelecer todos os meus nãos, antes de aceitar os sins. Fui calibrando minha expectativa de um romance duradouro por eliminatória. Um solavanco de um aqui, uma pressão do outro ali, um “nem te ligo” acolá. Hoje todos os sinais vermelhos aparecem quando eu detecto o que eu não quero. Até o dia em que chegar a exceção à regra, onde todos os meus nãos serão facilmente substituídos por um único sim.

“Pode falar, Antônia. O que você quer?” – perguntou novamente o homem de “H” maiúsculo, me retirando da minha autoanalise.

Dei um longo suspiro de quem correu uma maratona interna no assunto antes de responder:

“Eu ainda não sei o que eu quero. Mas sei o suficiente para desviar do que eu não quero.    E tenho o coração aberto para dia desses, reconhecer quando encontrar o que procuro. Disso, eu não tenho dúvidas.”


 

Fim da sessão.

 

Ninguém é de ninguém

“Eu não tenho mais nenhum sonho em cima de você”

Essa frase foi proferida pelo meu pai, quando discordávamos de alguns planos de futuro. Eu, a pseudo-herdeira, sabia que ele só estava brabo comigo e tentando com aquilo nos manter juntos através da amarra da decepção dele. Óbvio que ouvir isso de alguém, alguém que você ama muito, é tão sutil quanto um tiro no peito. Ainda que sentisse a dor, eu só sobrevivi porque estava fardada de um colete a prova de balas chamado individualidade. E aqui não confunda individualidade com egoísmo, egocentrismo e outros “ismos” negativos. Mas puramente a capacidade de se enxergar como um indivíduo. De exercer sua autonomia. Afinal, ninguém pertence a ninguém. Ou não deveria.

Calma, eu não nasci de um ovo. Eu tenho família que me ama muito, que me apoiou e irá me apoiar em todas as fases da vida. Ainda que discordando muitas vezes, e sofrendo tantas outras – os melhores pais criam os filhos pro mundo. Não dá pra voar alto sem sair debaixo da asa deles. O que também não quer dizer que o processo é tarefa fácil. Família tem que lidar intensamente com a tal da projeção, seja nos sonhos de seus pais em você se tornar uma bailarina ou um astronauta. Seja porque você nunca vai querer decepcionar as pessoas que te botaram no mundo. O que acontece dentro de casa (e depois na vida), é que aprendemos a projetar grandes expectativas em cima pessoas, e quando frustrados apontamos que as pessoas é que eram pequenas. Não eram. Eram apenas pessoas. Com dramas e peculiaridades singulares e imprevisíveis. Então vem a maturidade, e temos que aprender aos trancos e barrancos a ter sonhos pessoais em cima de expectativas próprias. E agora como é que faz?

Eu tive que deitar muito tempo em um divã pra entender que o que é do outro, é do outro. E queria jogar minha terapeuta pela janela cada vez que ela me dizia isso. Com o tempo, consegui enxergar que minhas expectativas em cima de outras pessoas eram projeções únicas e exclusivamente minhas, e que ninguém era culpado em não atendê-las. Fato é que não sabemos nos bastar. Aliás, não queremos nos bastar. Entendemos que uma vez nos bastando, seremos reclusos em nossa individualidade, quando o que acontece é justamente o contrário.

Quando a gente se basta, a gente não PRECISA de mais ninguém, e passa a ESCOLHER estar com alguém. Seja família, amigos ou um amor. A companhia desta gente toda é muito mais gostosa quando eles não carregam a responsabilidade de ser um pedaço nosso, do qual a ausência não nos permite sermos inteiros, completos. Desta forma, faz muito mais sentido entender e trabalhar para que nossos entes queridos tornem-se uma extensão de nós, ou seja, uma parte extra que nos faz ainda melhores. É batata frita do nosso Mc, não o hambúrguer.

A verdade mais perturbadora que já escrevi em todo o conteúdo do blog foi dizer em voz alta que ninguém precisa de ninguém pra seguir vivendo, e que isso é chocante e libertador (evite aqui jogar suas pedras dizendo que estou alegando que uma pessoa largue os filhos pequenos para se mudar para Bora Bora, não é isso!).  Estou falando de pessoas adultas presas as correntes da expectativa alheia. E eu entendo que pra muita gente seguir as próprias vontades seja feio, dolorido ou até desonroso. A pergunta é: não segui-las, faz bem pra quem? Você casaria porque é o que esperam de você, “até que a morte os separe”? Assumiria um legado inteiro de alguém, porque lhe foi apontado? Conseguiria aproveitar o caminho, quando lhe foi imposto o destino?

Não nos permitimos ir embora das outras pessoas ou deixá-las ir embora porque aceitamos as amarras impostas, ou criamos as nossas próprias. Não arriscamos ousar sozinhos, porque se falharmos, falharemos sozinhos e não haverá ninguém em quem colocar a culpa. Lembrando sempre que “culpa” é mais da metade da “desCULPA“. Jogamos no outro a responsabilidade de nossas próprias decisões, apenas para cultivar o que? O ressentimento? Agora imagina ser para o resto de sua vida responsável pela alegria, tristeza, amor, compreensão, felicidade de outro alguém? Onde arrumaríamos tempo e energia para a nossa própria felicidade e aceitação? O que é do outro é do outro. Ninguém é de ninguém.  Nós podemos colaborar com a felicidade alheia, jamais ser os donos dela. Nós podemos compartilhar da nossa felicidade, jamais entregá-la nas mãos de outra pessoa.

O que precisamos entender é que somente através do conhecimento e amor próprio, que conseguiremos genuinamente entregar o melhor de nós ao outro, sem torná-lo prisioneiro. “Cultive o jardim”, lembre-se daquela velha frase. “As borboletas virão sozinhas”. Entendemos que não dá é pra ser uma junção de pedaços dos outros, ao invés de ser um inteiro de si próprio. Quando meu pai alegou que não tinha mais nenhum sonho em cima de mim, expliquei que ele nunca deveria ter tido. E que ele me amando muito – do jeito que sei que ele me ama – vai entender que não posso ser a menina dos sonhos dele, porque estou lutando bravamente pra ser a mulher dos meus.


Fim da sessão.

Você é meu Julian Wilson

Na semana que se celebra o dia do amigo, que cena fala mais sobre amizade do que o ataque de um tubarão ao Mick Fanning? Enquanto um acelerava as braçadas na direção de uma monstruosa barbatana e uma boca com incontáveis dentes, o outro mandava o amigo se afastar antes mesmo de estar salvo do perigo. Não é preciso ser surfista pra entender a atitude de Julian Wilson, basta ser amigo. E se há indícios de que o mundo ainda tem jeito, isso se dá por conta da amizade. Somos pessoas melhores por conta dos nossos amigos. E eu sou melhor por causa de você. Você é meu Julian Wilson.

Num tempo de relações tão voláteis, sentimentos tão vazios, onde telefones são mais conectados do que pessoas, dias são acelerados e cheios de “a gente se vê” ou “precisamos marcar algo”, que bom que ainda existe você e eu. Você, que entrou na minha história como tantas outras pessoas, por conveniência e um pouquinho de afinidade – é dependente de praia e água salgada como eu. Você que ficou pra valer na minha história apesar de ser completamente o meu oposto, provando que sintonia nasce do respeito pela diversidade. Você é meu Julian Wilson.

Você é meu Julian Wilson porque amizade de verdade não é forjada apenas de alegria e bons momentos. Do contrário, é validada embaixo de muita tempestade, ou até momentos de desespero. Amizade é ser bom senso no desequilíbrio do outro. Calmaria na angustia alheia. É colocar os próprios problemas no bolso em prol dos de alguém. É silencio tranquilo quando não se precisa dizer mais nada. É a mão que ajuda a nos levantarmos das quedas. O abraço apertado quando não há mais pra onde correr. Você é meu Julian Wilson.

Você é meu Julian Wilson porque sempre teve coragem quando me faltou. Porque me conhece melhor do que eu, e sabe o que estou pensando antes mesmo que eu diga. Porque acredita em todas as promessas idiotas que já me fiz. É a verdade que eu não quero ouvir. É quem me diz “não” quando eu preciso, e sempre entrega o “sim” quando eu nem peço. É atleta da vida como eu, que se importa em superar os próprios limites, e os de mais ninguém. É memória na minha história. Juízo quando me falta sorte. Você é meu Julian Wilson.

Você é meu Julian Wilson porque amigo não é aquela pessoa que tem que estar sempre com a gente, mas é quem leva a gente consigo sempre. Que não precisa concordar o tempo todo, do contrário, que vai discordar sem o menor constrangimento, porque você sabe que as intenções são as melhores. Que vai te aconselhar a não tomar certa atitude, e depois de você tomá-la mesmo assim, vai te consolar dizendo, “ok, acontece…” morrendo de vontade de dizer “eu tentei te avisar”. Você é quem sabe que não precisa me dar lição de moral, pois o julgamento de ninguém é pior do que o meu próprio. E se um dia decidir me julgar, o que é natural do ser humano, não vai ousar proferir tal julgamento, vai guardar dentro do peito, pois é isso que amigos de verdade fazem. Você é meu Julian Wilson.

É saudade a um áudio de distancia, é a musica brega no rádio e o grão de areia dentro de um livro. É reconhecer que nada muda com o passar do tempo a cada post bizarro na minha timeline, cada piada interna, a cada encontro na esquina de casa ou do outro lado do mundo. É a escolha diária de aceitar o melhor, e principalmente, o pior de outra pessoa. E de se comprometer através de laços tão fortes quanto os familiares, e tão duradouros quanto os da genética. Você é meu Julian Wilson pelo sentimento altruísta de ajudar sem pedir nada em troca, e nunca me negar socorro. Por encarar indiadas, aventuras e sonhos do meu lado, mesmo não tendo certeza dos caminhos escolhidos. E por jamais, jamais me deixar enfrentar qualquer desafio sem estar ao meu lado, presente ou em oração.

Eu sou Mick Fanning. Você é meu Julian Wilson. E a vida é um enorme tubarão, faminto por coragem e atitude. Essa vida é mesmo louca pra devorar quem não reage e fica paralisado pelo medo. E é aí que você faz toda a diferença. Verdade é que se você estiver no mar comigo, com tua amizade remando do meu lado, nada vai me impedir de lutar. Daí a vida que se prepare para uns bons sopapos, porque você e eu temos muitas baterias pela frente, e inúmeras vitórias para compartilhar. A gente pode até ter medo de cara feia e boca grande, mas vai sair no tapa se precisar. Então vai nadando tubarão.


Fim da sessão.

julian wilson

Entressafra

Aí você optou pelo “antes só vinho, do que meio acompanhada”. Seja porque ele simplesmente não estava mesmo afim de você, seja porque você acreditou que merecia mais do que o que estava ganhando. Fato é que ninguém estava errado,  vocês só estavam com cronômetros desalinhados ou queriam coisas diferentes. Ok. Agora é cada um seguir o seu caminho, e chamar a próxima ficha, certo? Foi o que você pensou? Pois pense de novo.

Acredito fielmente na dura realidade de que, uma vez que você deixa alguém entrar na sua história, retirá-la não é tarefa tão simples. Isso porque sempre que alguém vai, leva consigo um pouquinho da gente, e acaba deixando um tanto de si. É muito escambo.

Claro que quando eu falo em “alguém”, não estou falando do carinha que você pegou na ultima balada, quando estava mucho loca. Estou falando da pessoa pra quem você se permitiu mostrar um pouquinho mais. O cara que você deixou te ver doente, com cólica ou sem rímel. Que presenciou uma crise de fúria sem sentido e sem entender com quem mesmo você estava brigando. Aquele alguém que você quis apresentar para as amigas, que planejou idas a praia. Alguém que você curtiu, que dividiu bons momentos, boas conversas e cosquinhas, além das boas transas. Não era o cara da sua vida, mas não foi qualquer cara. Ele.

O que acontece é que depois do fim, você irá apagar o telefone dele (e adicionar de novo, e apagar mais uma vez), mas ainda há de lembrar da voz do outro lado da linha. Vai agradecer porque a tampa do seu vaso finalmente vai ficar abaixada, e na contrapartida terá dificuldade entrar no banheiro sem lembrar de tudo que o chuveiro já testemunhou. Por algum tempo ainda irá escrever textos homéricos no whatsapp nas madrugadas de insônia, apenas para mastigá-los sem nunca apertar “enviar”. Talvez vá estranhar a própria cama, pois já não sabe de qual lado dela você deveria ficar. Ou ainda, irá fechar os olhos, e do nada – no meio de uma reunião qualquer – lembrar-se de como ele pegava na sua mão do meio do sexo, e do frisson que este movimento produzia. Acontece. Não é porque você fez uma escolha prática e racional de seguir adiante, que vai livrar-se da irracionalidade da saudade. Essa cretina.

Saudade, esta baita inconveniente, palavrinha que só existe na safada da língua portuguesa, pra te lembrar de que o fato de ter um fim, não quer dizer que irás aniquilar todas as sensações imediatamente. Onde fica o botão ‘’OFF’’ da saudade? Então veja, esse período subsequente a uma separação, por menor que ela seja, não chega a ser um luto, ou mesmo um coração partido. É uma melancolia suave “a la Adele” do tipo “We could’ve it all”, mas #sóquenão. É a contemplação do vazio deixado pelas borboletas, essas malditas, que foram voar em estômagos de outrem que não o meu. Às vezes fico me convencendo de maneira infantil que o que eu tenho é fome. Mas não, esse vazio, eu sei bem, é o que eu chamo de entressafra.

Entressafra, substantivo feminino (que ironia), que se refere ao período intermédio entre uma safra e outra, subsequente, de um fruto/colheita. As entressafras podem ser de três tipos:

consequência das condições climáticas – alguns frutos são frutos de estação, não amadurecem no verão, apenas no inverno – assim como algumas relações. Quão frutífero é o amor no carnaval, hã? Junho é outra história, não é? Pois veja, uma questão de natureza do ambiente e de condições, ora muito, ora pouco favoráveis pro amadurecimento.

uma estratégia de mercado – ou seja, recessos planejados para reduzir a oferta, e aumentar a procura por determinado período, valorizando, desta forma, algum produto, e alternativamente, o seu tempo/coração;

ou ainda;

uma necessidade natural – a mais orgânica das entressafras é aquela que se dá em respeito à natureza da plantação. Você plantou, regou, cuidou, colheu. Não importa o que fez com a colheita, mas enfim, usou o terreno. Tirou dele todos os nutrientes que precisou para apostar na boa agricultura. E agora, respeitosamente, precisa dar um tempo para a natureza se recompor. Não adianta sair distribuindo semente em cima de terreno cansado, com vestígios da plantação passada. Já tentou comer laranja de entressafra? Já tomou vinho de entressafra?

A entressafra, no seu equivalente masculino, também pode ser reconhecida como “entre séries”, ou seja, período flat entre uma sessão e outra de boas ondas. É como o terreno esperando. Você ainda está no mar, você ainda acredita do swell, mas não vai sair dropando qualquer marola. Vai ficar ali, curtindo o balanço do mar pra pegar fôlego para a entrada de uma próxima série.  E em tempos de crise, meus amigos, na economia ou no amor, não dá pra ficar desperdiçando semente ou braçada por causa da saudade. Se jogando em qualquer abraço pra ocupar as mãos. Não. Há de se respeitar a entressafra e a entre séries.

Então veja, mais uma vez estamos aqui discutindo o tempo e a naturalidade do amadurecimento, que na nossa afobação constante, são subjugados. Acredito que o que não dá é pra se nutrir de despeito, semear orgulho e regar com álcool o terreninho do coração, pois boa coisa não vai florescer. Eu aprendi, nesta longa estrada dos afetos e desafetos, que é necessário respeitar o período de entressafras. Ou então sua escolha de “antes só vinho, do que meio acompanhada”, que fora tão prática e racional, terá gosto de vinagre. Ou pior, você corre o risco de acabar com uma laranja podre nas mãos.

Entressafra, meus queridos. Plantem lá na frente que as borboletas voltam, elas sempre voltam. Essas malditas.


Fim da sessão.

Antes só vinho, do que meio acompanhada

Neste domingo, um grande número de amigas que há tempos não se via reuniu-se para uma celebração. O evento pra mim era duplamente proveitoso: eu ia matar a saudade das minhas amigas e de quebra voltar pra casa cheia de ideias para as minhas sessões. Atualizávamo-nos de nossas vidas (nada) amorosas, quando me dei conta de uma realidade alarmante. Estávamos todas ficando com o mesmo cara. Sim, todas. As mesmas desculpas, as mesmas saídas pela esquerda, os sumiços repentinos, reaparecimentos randômicos e as mesmas artimanhas de virada de jogo. Eu escutava uma a uma delas, pensando “meu Deus, mas essa história é minha!”. E não era. Era a nossa.

Algumas conferencias de nomes Vs fotos do Facebook verificamos que de fato, literalmente não estávamos envolvidas com a mesma pessoa – quem duvida que o mundo é minúsculo é louco – entretanto no lado figurado da questão, a história só mudava de CPF e tamanho do… do pé (vamos deixar o pé).  Negava-me a acreditar que mulheres tão diferentes, com desejos tão singulares, envolvidas com caras nada parecidos pudessem estar sofrendo da mesma angustia. Examinei com cuidado as histórias pensando que tamanha coincidência podia ser uma coisa regional, ou de uma determinada faixa etária, ou ainda talvez fosse um defeito de um grupo social específico. Não, não era possível tanta similaridade. Deixei a pauta de lado, visto que desconfiava de certo nepotismo da minha parte decorrente do encerramento do meu atual pseudo-romance. Tinha certeza que estava distorcendo as histórias para fortalecer o meu despeito.

Acontece que a pauta ganhou nova força na segunda-feira, quando me deparei com um texto do Daniel Bovolento. Conheci o trabalho do Daniel, autor do blog “Entre Todas as Coisas”, quando o mesmo gentilmente me escreveu elogiando um texto meu que havia viralizado. Desde então passei a acompanhar o trabalho do Daniel, que apresenta uma sensibilidade bem rara nos assuntos do coração – razão pela qual ele tem centenas de fãs e uma enxurrada de suspiros a cada post. Pois ele, um homem, estava deparando-se com a mesma sina em sua piscina de opiniões. O autor do blog pediu para que suas leitoras que indicassem motivos pelos quais elas estavam largando os caras de mão. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que a pesquisa dele, reproduzia exatamente o meu papo de domingo com as minhas amigas.

Foram elencadas 7 principais mancadas propagadas pelos cuecas: 1) “Vamos marcar/A gente se fala”. 2) “Você não deu a entender que tava afim”, ou como eu prefiro chamar a virada de jogo ou ainda o pulo do lambari. 3) “A gente ainda não tem nada”. 4) “Ta fazendo alguma coisa agora?”, ou como as minhas amigas e eu chamamos, o ressurgimento das cinzas. 5) “Tô querendo conhecer alguém legal e ver no que dá”, ou em outra interpretação, se eu disser que é só sexo vou parecer cachorro. 6) “Não tinha visto a sua mensagem”, o famoso vácuo. 7) “Tava ocupado esses dias”, ou em outra analise contornando a situação pra não perder a moita. Pelamordedeus. O texto (clique aqui) era praticamente um roteiro da minha ultima D(n)R – discutindo o não-relacionamento. Com interpretações e dicas bem pessoais do autor, mas ainda sim, tão minhas. Tão nossas.

Tentei por horas justificar o injustificável. Coloquei-me no lugar deles e tentei entender o que provoca essa ausência de clareza entre os wannabe-lovers. As meias verdades. Meias desculpas. Meias conversas. Meias presenças. Pensei que talvez eu pudesse não deixar claro que eu prefiro fazer sexo a fazer jogo – aliás que eu odeio fazer jogo. Mas eu sei que me entrego com todos os versos que encontro, mesmo que por vezes me vejo tola sobrevivendo da lembrança de contatos esporádicos no meio de angustiantes desaparecimentos. Me indaguei se de repente o que faltava entender este Clube do Bolinha , é que nós realmente preferimos as verdades inteiras e o papo reto sem firulas ou açúcar. Nós já não somos mais as mesmas desde a obra “Ele simplesmente não esta afim de você”. O que também não quer dizer que queremos arrastar alguém para o altar simplesmente por não tolerar nos colocarem na prateleira ao bel-prazer.

Talvez a culpa seja realmente minha. Ou nossa. Quando eu comecei a namorar lá na adolescência, minha mãe disse que eu devia começar mais tarde – óbvio que eu, teimosa como toda rebelde boba, contrariando a orientação dela, me entreguei bem cedo aos delírios e tragédias do amor. Anos se passaram e com eles um acúmulo de cicatrizes, e uma pá de mentiras e desculpas que não me pegam mais. Todo novo inicio prometo que vou começar leve, tentar deixar minha bagagem emocional bem longe da cama – e perto da geladeira onde ela pode esfriar. De fato o que a minha mãe anunciava há 15 anos é que a minha tolerância com meias entregas, meias verdades ia ficar comprometida. E ela estava certa. Ela irritantemente sempre está.

Eu tenho a paciência curta pra enrolação. Não me assusta a decepção de uma rejeição, ninguém é obrigado a gostar de mim. Eu respeito os pontos finais. São deles que surgirão novas linhas, novos personagens, novas historias. Por isso não me venha com reticências, ponto e vírgula, interrogações, frases incompletas, ausência de contexto. Faz história quem tá presente, do contrário é memória.

A esta altura na minha existência afetiva, concluí que se for pra estar por perto, eu não trabalho meia fase. Quero tesão, assistência, energia, retorno – não precisa ser namoro, casamento, relacionamento, eu escolho o discernimento. Basta ter coerência, consistência, coesão. Guarde suas 7 (e outras) desculpas, pois eu não vou esperar você decidir se vai me escolher para provar. Lembre-se que única coisa que fica boa com o tempo esperando ser escolhida da prateleira é vinho. E convenhamos, então antes só vinho, do que meio acompanhada.

Taça pra uma pessoa, por favor.


Fim da sessão.

Nota para as minhas amigas/leitoras: Vinho e fé♥, garotas. Meu sincero agradecimento pelas contribuições nesta sessão.

A faca do amor

Revisava a minha lista de pautas para a sessão de terça-feira, quando recebi um e-mail promocional um tanto inusitado. A chamada dizia “FACAS Fulano. Neste dia dos namorados não basta amar, tem que demonstrar (!?!). Facas Fulano”. Soltei uma risada instantânea pensando na ironia de vender o que pode ser considerada uma arma branca no dia mais romântico do ano, quando outro pensamento mais inquietante me ocorreu – eu havia me esquecido completamente que adentrávamos a semana do dia dos namorados. Nada na agenda. Nem um coraçãozinho no calendário, que fosse para lembrar-me de incluir a celebração nos assuntos das minhas sessões – não fosse o e-mail das Facas Fulano.

Logo me botei a pesquisar os assuntos mais diversos girando em torno da data, que incluíam, é claro, a campanha do O Boticário (que eu não vou comentar aqui, uma vez que meu coração já saiu do armário há muito tempo) e a eterna guerra entre solteiros Vs comprometidos. Sério, não sei bem quando essa polêmica começou, em que momento os grupos tornaram-se facções opostas disputando superioridade, mas a pauta é no mínimo intrigante. “20 razões para ser solteiro(a)”, “Ame uma pessoa assim”, “Case com alguém assado”, “Mulheres inteligentes se bastam” entre outras teorias de teor nada democrático. Quando mesmo que virou mandatório o mundo ser tão polarizado? Solteiros = despeitados ou descolados. Comprometidos = submissos ou respeitáveis. Será que ainda não entendemos que a faca do amor tem dois gumes pra todo mundo?

Eu já caí na besteira de namorar por convenção. O Marcos era um grande amigo, com quem eu acabei ficando.  Durante meses ele e eu nos divertimos pra caralho. O tempo passou, e por conta unicamente do relógio, o Marcos entendeu que o relacionamento TINHA que ir pra algum lugar. E foi. Foi para o brejo. Uma vez que viramos namorados, ele deixou de ser o Marcos, eu deixei de Antônia, e o relacionamento – antes sadio e positivo – virou um redemoinho expectativas e frustrações. Tínhamos mais obrigações que direitos, discutíamos mais do que transávamos. No dia dos namorados que passei namorando o Marcos, eu ganhei um quadro gigante com fotos de uma viagem que fizemos a Paraty. Eu dei a ele uma cafeteira Nespresso (bem melhor que uma faca, não?). Era óbvia a nossa falta de sintonia como casal. O Marcos queria um namoro para colocar na parede. Eu queria um que funcionasse. E de quebra, que colocasse cafeína na minha vida. O resultado desta equação foi um término amargo e o fim de uma amizade. Nós perdemos duas vezes.

De lá pra cá prometi que não cairia de cabeça em mais nenhuma relação por convenção. Não iria namorar porque minha mãe passou usar o termo “desencalhar”. Nem por conta dos fios de cabelos brancos que já começaram a aparecer. Ou por qualquer outra razão que comece com “a sociedade impõe que…”. A sociedade tem outros problemas maiores que meu status social, eu garanto.  Ao mesmo tempo, eu também não tenho pretensão nenhuma de ser uma solteira inveterada. Daquelas que bate no peito e grita aos sete ventos que se garante e se basta o tempo todo. Eu me basto na maioria das vezes, em algumas não. Outras eu não quero me bastar – às vezes eu quero mesmo é colo. E isso não faz de mim uma “mulherzinha” ou uma desesperada. Faz de mim alguém que gosta de carinho – pura e simplesmente.

Sabe o que eu quero? Mais apelidos carinhosos e menos rótulos. Relacionamentos mais preocupados com os momentos, do que com o futuro. Eu não quero ser a metade da laranja de ninguém – quero continuar sendo a fruta inteira que sou, e não ter a responsabilidade de preencher parte qualquer de outrem. Quero gozar da companhia de gente que me dá preferência por prazer, e não por obrigação – aqui incluem amigos e amores. Quero histórias mais despretensiosas, pois sei que o amor gosta mesmo é dos distraídos. E enquanto ele não me encontrar, quero aproveitar cada minuto da minha solteirice sem culpa nenhuma.

Talvez eu tenha esquecido o dia dos namorados porque eu tenha cansado das celebrações de hora marcada. Quero surpresas numa segunda-feira. Eu quero mesmo são as sutilezas. Beijos na testa depois do sexo. Conversas ensopadas de maresia num final de tarde na praia. Quero alguém que respeite a minha bagunça e também meu jeito atrapalhado de gostar. Essa venda de ideias como “ame assim”, “seja assado”, “transforme-se na pessoa que você quer conhecer”, “74 motivos pelos quais o amor acontece/não acontece”, “namore alguém que viaja/que não viaja” é muito chata e pouco efetiva/afetiva. Só serve mesmo para alimentar neuras e uma ansiedade desnecessária, você namorando ou não.

O que hoje eu concluo é que não dá pra traçar rotas para o amor ou tentar justificar falta dele. Rotular e julgar sentimentos, estágios ou status sociais. A vida é muito mais randômica e inesperada que isso. Então meus votos pra quem está oficialmente no barco do amor, é de aproveitar a viagem mais do que preocupar-se com o destino.  E para aqueles que ainda não encontraram o grande amor, é de aproveitar a faceirice de ter o coração desempregado, sabendo que todo dia pode ser o dia de conhecer alguém especial.  Acima de tudo, que o amor nasce de momentos, suspiros, propensão. Não é matemática e nem física. E que tentar criar padrões pra ele é tão eficaz quanto vender facas no dia dos namorados (viu, Facas Fulano?).


Fim da sessão.

Intolerante a borboletas

Sabe aquele momento que você se dá conta que começou a gostar de alguém novo e sua barriga se enche de borboletas? Aquela sensação de não pertencer completamente a você mesmo? De tremelicar quando o telefone toca? Ou ter uma mini-taquicardia com o interfone? Sabe aquela fase de se pegar constantemente relembrando momentos fofos? Pois então. Eu odeio essa fase.  Ok, talvez odiar seja um verbo um tanto forte. Digamos que eu até aguento essa sensação por 24h –  não mais que isso. A minha tolerância para borboletas é péssima. No fundo acho que o que devo ter alergia.  Sou intolerante a lactose, glúten e também a borboletas.

Não precisa nem ser amor. Basta ser interesse, carinho ou mesmo desejo. Se a pessoa me tem, nem que seja um pouquinho, eu sofro um ataque alérgico beirando o epilético. Talvez o motivo da intolerância a borboletas seja o mesmo da lactose e do glúten: excesso de consumo ao longo dos anos. Possivelmente eu já amei mais do que devia. Hipoteticamente pode ser que eu tenha medo de me entregar de novo. Fato é que na fase das borboletas eu desenvolvo uma condição de estresse e sabotagem tão grande, que o amor tem dificuldade de florescer. Meu coração vira ambiente inóspito.

É como se eu perdesse completamente o controle, a decência e a noção, os três juntos.  Eu quero dizer “fica mais um pouco”, mas as palavras tropeçam na minha língua presa e saem como “tu não está atrasado?”. Se o objeto do meu desejo está no mesmo ambiente que eu, desempenho uma coreografia que intitulo “agindo normalmente”, mas que parece uma garça constipada tentando fazer yoga. Eu fico oscilando entre o “obviamente estou na tua”, com desaparecimentos eventuais que podem durar 12h ou 3 dias. “Mas deste jeito como o cara vai te entender, Antônia?” – minha mãe pergunta, enquanto me encaminha um e-mail com um prospecto de curso chamado “COACHING NO AMOR”. (Não mãe, eu não vou fazer o curso). Mas ela tá certa, eu fico muito atrapalhada. Culpa das borboletas, essas malditas!

Quando ele está comigo e por algum motivo começa a mexer no celular, eu fico futricando no meu também só de raiva, mesmo sem ter UMA pessoa que quisesse falar naquele momento. Se o whatsapp dele está online, e ele não está falando comigo, tenho o instintivo desejo de aparecer na casa dele, arrancar-lhe o aparelho das mãos e estraçalha-lo no chão. Assim sabe, atitudes super plausíveis e justificáveis (revirando os olhos).

Se recebo retornos como “talvez” ou “a gente vai se falando…”, tenho vontade de ligar para aquele contato que não vale nada, mas que vai querer me ver/comer “com certeza” ou “pra ontem”  – só para preencher o despeito criado pela incerteza de quem eu queria com certeza. Tenho súbitos de luxúria que me inflamam o sangue, e entro em módulo “diabo no corpo”. Quero sentir o peso de alguém em mim, apenas para não admitir que sinto falta de um calor específico. Queria muito me jogar nos braços de um canalha nestas horas. Mas o fato é que perco tesão por todo mundo quando me interesso por alguém.

Aí eu embebedo as borboletas para ver se elas se afogam logo e me deixam em paz. Elas, que pelo tamanho do desconforto só podem ser pterossauros se debatendo nas paredes do meu estomago.  Nestas horas eu temo pela minha sanidade e paz de espírito. Crio teorias absurdas na minha cabeça. Psicopateio sozinha. Argumento DRs infinitas comigo mesma. Atormento as amigas.  Fico exausta. E mais uma vez concluo que a ideia de paixão, interesse, “estar afim”, é coisa pra maluco. Que o  seguro mesmo é manter os pés no chão e a mente focada em criar codornas, e não expectativas.

Mas aí ele liga e convida pra ver um filme. E eu respondo com meu “sim” mais polido e casual, para que ele não perceba a tempestade que este estágio me causa. Eu fecho os olhos para beijo-lo torcendo que assim ele não possa enxergar minha alma atormentada. Eu tranco o suspiro quando tenho um orgasmo com medo que eu exploda em declarações de bem querer. Eu disfarço o meu acanhamento, quando ele investe na mais sexy de todas as posições, quando pega na minha mão. Evito encarar os olhos dele quando conversamos – enquanto ele massageia minha panturrilha – por morrer de medo que meu coração descongele de vez.  Afinal, gelo com calor vira água, água faz florescer e o florescer traz mais borboletas. Essas malditas.

Talvez a minha grande confusão é que hoje eu até já aprendi que eu nunca vou morrer de amor. Mas de borboletas, ahhh… essas são perigosas.

Alguém tem um sal de frutas?


Fim da sessão.