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O casamento

Tudo começou lá em dezembro. Uma ligação inesperada, um pedido jamais imaginado. “Como assim, celebrante?” – perguntei intrigada a soon-to-be-bride do outro lado da linha. Até porque não me imaginava nada perto de uma juíza de paz, muito menos alguém ordenada pela igreja. Na minha cabeça a noiva, uma grande amiga minha, me entregava a tarefa de casá-la ao seu grande amor, apenas para me dar uma alegria naquele que fora, sem duvidas, o ano mais difícil da minha vida. Mas não, a noiva – dona de uma sinceridade que vi em poucos seres vivos que habitam esta terra, explicou: “Tu presenciaste o bom, o ruim, o horrível, o maravilhoso da nossa relação. Tu estiveste na maioria dos nossos momentos definitivos. Queremos você lá, contando a nossa história.” Fui as lágrimas 4 meses antes da cerimonia. Eu nunca fiquei tão feliz em poder contar uma história – e olha que eu conto histórias desde que aprendi a falar! A emoção já transbordava antes mesmo de ver o branco do vestido.  Eu disse o meu “sim” para o meu casal de amigos, antes deles dizerem “sim” um ao outro no grande dia.

No tempo até a cerimonia, ouvi as histórias do casal, revivi muitos momentos que presenciei e me emocionei. Chorei ao ouvir ao ver a mãe da noiva falar sobre promessa de amor. Talvez eu tivesse alguma experiência em contar histórias, mas de fato não tinha alguma no quesito casamento. A mãe da noiva me contou como no auge dos seus 42 anos de namoro/casamento, ainda celebrava a delicadeza dos dias de uma vida a dois. Falou sobre como era importante lutar contra a rotina e nunca perder de vista aquilo que uma vez foi decisivo para unir duas pessoas. Mostrou-me a importância do acordo que eu orquestraria na cerimonia. Foi quando caiu a minha ficha. Depois da minha conversa com a mãe da noiva, eu finalmente entendi que de nada serviria o meu papel como celebrante (ou de um padre, ou de uma juíza de paz, ou de um cacique tribal), de nada valeria um pedaço de papel registrando civilmente um matrimonio, se os noivos não estivessem dispostos e comprometidos com a promessa de amor que é o casamento. Não como entidade familiar, ou estrutura sociológica. E sim dois indivíduos dando mais um passo na direção de um futuro juntos. Aquilo não era um teatro, não era uma festa, não era uma dívida. Era uma promessa sincera de amor.

Os meses até o casamento passaram rápido. Se o 1º dia do mês de abril era o dia da mentira, o dia 2 seria marcado pela verdade. Do casal. E minha também, confesso.  Cheguei cedo para aproveitar cada minuto do dia de noiva, como testemunha ocular daquelas horas mágicas de preparação que antecediam a união. Nunca imaginei que tudo aquilo me emocionaria, mas a grinalda imaginária que reina da cuca de toda mulher, falou mais alto (isto que a minha amiga nem estava usando grinalda). Chorei ao vê-la encarando o espelho. Era a mesma que eu conhecia há anos, mas naquele instante algo havia mudado. Já não era mais dona de uma única historia, era em parte dona também da história de outro alguém.  Talvez não, dona, mas contribuinte fundamental da alegria compartilhada.  Saramago disse certa vez que em um matrimônio há três pessoas: o Homem, a Mulher (ou H&H ou M&M) e a terceira pessoa formada pelos dois. Naquele momento, olhando no espelho, eu vi nascer no brilho dos olhos da noiva, aquela terceira pessoa. Ela me olhou e sorriu um sorrido de menina, da chica uruguaia que é, lembrando-me da parte dela sempre será a mesma.

A figueira empalhava-se acima de minha cabeça, como uma benção natural das palavras que cuidadosamente escolhi para o grande dia, tentando não água-las de emoção. Os noivos entram juntos de mãos dadas – decisão que não me causou nenhuma estranheza.  O par tinha andado lado a lado durante toda a sua história por mais de uma década. A noiva não seria entregue pelo pai, já que se entregou aquele amor nos próprios termos há muito tempo, dispensando qualquer formalidade ou tradição. O noivo exibia um sorriso largo e uma excitação no olhar. Era diferente de todos os olhares que já o tinha visto depositando nela. Ela, por sua vez, retribuía com a mesma euforia, própria da grandeza de um momento como aquele. Eu tinha a melhor das posições naquela formação. Enxergava o par frente a todos os seus outros amores, suas famílias, seus amigos, convidados. Via o amor em forma de ato solene. Segurei ao microfone com força perto ao peito tentando acalmar o meu coração. Era hora. Era o primeiro casamento como eu veria nenhum outro.

Nunca conseguirei descrever em palavras a honra e emoção que configurou a minha participação no ato de casar duas pessoas. De vê-las na minha frente, fazendo aquela promessa de amor que a mãe da noiva me explicou lá no sofá de sua sala. Ali, embaixo daquela figueira, algo em mim mudou. Vendo toda a formalidade da cerimônia sendo desconstruída, toda a expectativa orientada pela naturalidade do casal, eu me vi capaz de fazer tais votos. Foi embaixo daquela figueira que eu vi duas pessoas se transformando em três, exatamente como Saramago poetizou. Não uma, não duas, mas três – todas importantes. Naquele casamento, naquela figueira, me vi celebrando não um conto de fadas, como muitos almejam, mas uma história real de esforço mútuo para manter o amor acima de todas as coisas. Daquelas histórias que eu mesma gostaria de escrever/viver com alguém.

Hoje, divido esta sessão com o buquê da noiva enfeitando a minha escrivaninha, bem ao lado do computador. O buquê me foi dado pela noiva, intencionalmente. Acho que no fundo ela queria que eu lembrasse da benção que dei, e eu mesma recebi embaixo daquela figueira. O colorido das flores, agora vejo, apenas reforça no peito a alegria  de redescobrir a esperança no vínculo estabelecido pelo casamento.

Naquela figueira, eu os declarei amores casados. No mesmo momento em que me declarei renovada da fé no amor.


Fim da sessão.