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Feito é melhor que perfeito

Recentemente eu fui apresentada ao meu mais novo affaire. E quando eu digo “meu”, é porque a outra parte não está obrigatoriamente envolvida comigo, entretanto não restam dúvidas do meu interesse por ele. Seu nome é Charles Watson, um escocês que adotou o Brasil desde a época de 70, pesquisador, professor, palestrante, artista. Um indivíduo cuja inteligência é atraente na mesma proporção que é intimidadora. Alguém que usa fotos das sombras de pessoas no chão de Hiroxima para analisar a inversão poética de sermos todos passageiros por esse mundo. Somos todos sobras, afinal, não somos? Transitórios. Temporários.

E tratando da nossa temporariedade por aqui, Charles Watson nos desafia a praticar nossa criatividade como forma de transformar a nossa relação com o tempo e o espaço. Basicamente o cara desmistifica a ideia de que o processo criativo dependeria de um talento nato, uma “propensão divina”. Quando os alunos de suas aulas tentam contestá-lo usando Beethoven, Michelangelo e outros gênios para alegar superioridade pré-existente, Charles traz a questão do comportamento para a discussão. Usa estudos no córtex direito e esquerdo para provar que todos têm a capacidade de desenvolver habilidades. Para ele, talento não existe. É fruto de trabalho duro. Da capacidade de errar e seguir tentando, da compensação de dificuldades, da superação do medo e acima de tudo da disponibilidade.

“Todo mundo tem ideias.               A diferença está em quem decide concretizá-las.” – Charles Watson

Lembrei-me de uma conversa que tive com um amigo, não faz muito tempo, a respeito de um consultor que eu julgava deveras raso. E de fato o que me irritava é que muito além do meu julgamento, o negócio do cara ia “muito bem obrigado!”. Naquela conversa tive um rompante arrogante dizendo “eu faria esse trabalho muito melhor que ele”, quando o meu amigo me interrompeu: “a diferença entre vocês dois é que diferentemente de você, ele foi lá e fez”. Chocante? Não, né? E aqui reina a diferença entre pessoas que constroem sonhos e apenas os imaginam: a atitude. No seu sotaque importado, Charles nos convence durante as horas de curso que a criatividade é parte de um processo de convicção no investimento (tempo, recursos) e aceitação de que o erro é um pré-requisito. “A plateia é um mal necessário”, diz ele, reforçando de que a parte passional do envolvimento é muito mais importante que a validação alheia.

E aí estamos aqui, você e eu, cheios de ideias na cabeça, arquivadas naquele cantinho escuro dos nossos cérebros, ideias estas que foram julgadas insuficientemente boas para ir para o papel, ação, resultado. O medo de errar ficou tão grande e comum que paralisou a maior parte das pessoas, que assim preferem não explorar seu lado mais criativo onde quer que seja – “vou ficar aqui, nesse lugar comum onde eu não aprendo nada e também não me divirto já que ele é mais seguro”. O escocês com ares de durão cutuca-nos lembrando de que a vida deveria ser muito mais interessante do que “confortável”.  O curso progride e Charles mostra, prova e comprova de que exercitar a nossa criatividade em resolver problemas amplifica a nossa capacidade de lidar com a adversidade do mundo. Treina nosso cérebro a superar as frustrações envolvidas no aprendizado.  Edifica a ideia de que a criatividade se faz presente muito mais no processo, do que no produto final, afinal.

“Como o mundo se expande quando nos mantemos curiosos” – Charles Watson

A minha inquietação foi tanta com a lavagem cerebral promovida pelo Sr. Watson, que me peguei pensando no meu próprio processo criativo. Lembrei-me que tive que pegar emprestado a admiração de outros antes de jogar meus pensamentos para o grande público. Eu peguei deles a confiança, porque a dita “criativa” que vos fala, tinha medo de se expor e perder este importante rótulo social (sim, porque nenhum cidadão acusado de criativo, talentoso, habilidoso, quer abrir mão disso). Peguei-me analisando minha experiência de quatro anos de volta ao Brasil, que pode ser dividida em dois momentos distintos: três anos em que eu não estava escrevendo, e o um ano em que eu estou. Durante o período que eu não estava escrevendo, eu não li nenhum livro, não participei de nenhum curso, e realizei apenas uma curta viagem nas proximidades do Brasil. Durante um ano em que eu escrevi, eu li três livros (ok, não é muito, mas é 3x mais do que nenhum!), fiz quatro cursos envolvendo desde redes sociais a meditação, assisti doze palestras e dei uma, ministrei duas aulas e passei 30 dias na Austrália. Então veja que a escrita em si não é a parte mais importante. A escrita passou a me dar significado, e com significado veio a paixão, com a paixão veio a disponibilidade, com disponibilidade há o trabalho duro, e um dia, quem sabe, o reconhecimento alheio – já que o meu reconhecimento está na validade deste processo. E nele, eu já estou ganhando.

Neste divã, escrever me faz encarar outras formas de ver o mundo. Assim como uma aspirante a chef de cozinha, alguém que dança por amor, ou todas as outras pessoas que se arriscaram a trabalhar sua criatividade. E novas formas de ver o mundo são essenciais ao passo de que as respostas do passado, não servirão para os problemas do futuro – disse Charles Watson.  Desenvolver a criatividade nos faz questionar, muito mais que responder. Expandir, ao invés de conter. E não exercer uma habilidade ou elaborar um projeto por conta no julgamento de não ser uma ideia nova é perda de tempo, aliás, alegar que existe uma ideia que só você teve é um delírio, pois o mundo é composto de muita gente. Então por que não começar agora? Tirar o pó daquele seu caderno de desenho, reabrir o velho diário, reservar espaço para aquilo que te traz significado? Estes encontros podem promover o conhecimento de outro “eu”, que o conforto não permitiria. E é em territórios menos familiares, que podemos encontrar lados ainda mais atraentes da nossa personalidade. Não seria lindo? Aliás, não SERÁ lindo?

Então fica aqui, meu registro para prosperidade de um encontro elucidador com alguém estimulante como Charles Watson. O cara que chacoalhou a mediocridade da minha preocupação com a opinião alheia, e me lembrou de que o processo de fazer é muito mais enriquecedor e produtivo.  Que feito, é melhor do que perfeito.

Está é mais uma contribuição que lanço pro mundo, lugar muito melhor que a minha gaveta ou um arquivo no meu desktop.  E se o medo de errar um dia voltar a me assombrar e paralisar, volto aqui e me convenço de novo e mais uma vez, de que desempenho está relacionado obrigatoriamente com disponibilidade, trabalho e paixão. Que os melhores frutos são colhidos por quem se atreveu a subir na árvore. E os vôos mais altos alçados por aqueles que não tiveram medo de sair da gaiola.


Fim da sessão.

Com vocês,  Charles Watson♥: