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Socorro: tem alguém dormindo na minha cama

Dividir a cama com alguém, sempre foi tabu pra mim. Ok deixe-me reformular esta frase. Dividir a cama para dormir com alguém, sempre foi tabu pra mim. Eu não tenho tantos problemas em dividir a cama para ficar acordada (ui, adoro!). Mas perceba que sexo – por vezes – pode ser pura e simplesmente um ato de prazer. Dormir junto, no entanto, é um ato de intimidade. E é aí que eu me atrapalho.

Eu simplesmente odeio dividir a cama. Pergunte as minhas amigas sobre nossos inúmeros verões na praia. Eu sou a primeira a me atirar num colchão no chão, contanto que não tenha que dividi-lo com ninguém. Note, eu me mexo pra caralho, fico horas futricando no celular antes de dormir, sou fumante e sensível ao cheiro (que sei que não agrada ninguém) e ronco. Jesus amado, como ronco. Botaram uma britadeira no lugar do meu sistema respiratório, só pode. Além disso, acordar perto de mim é uma atividade de alto risco. Sou daquelas que acha que deveria ser ilegal conversar com as pessoas antes do primeiro café.

Sendo assim, e considerando os meus anos de solteira, confesso que já virei muita noite em claro, pela simples inabilidade de relaxar e adormecer do lado de alguém.

Acontece que há algumas semanas, socorro, tem alguém dormindo na minha cama. Ok, pretensão a minha dizer isso. Mais sinceramente, tem alguém dormindo na cama dele. Ou não dormindo, no caso. Eu. Nas primeiras noites, o desconforto bem conhecido. A busca eterna por uma posição de conforto, horas encarando o teto, o malabarismo a lá Cirque Du Solei para tirar um cotovelo enorme de cima da minha teta e a tentativa ridícula de parecer linda ao acordar. Que gastura!

Mas lá fui eu, tentar entender a mágica da tal da conchinha, tendo quase certeza que sou mesmo é um ouriço de pijama. Eu não sei onde enfiar meus braços. Fico desconfortável pra ir ao banheiro /tomar água/ir no banheiro de novo. Tenho medo que meus cabelos sufoquem meu companheiro de travesseiro. E sofro com nossos fusos incompatíveis.

Dormir acompanhado é muito cansativo pra mim. Até a bela noite em que eu – exausta – relaxei e dormi por algumas horas, apenas para despertar no meio de um peido, furtivo e sonoro, que me acordou num susto. Eu quis morrer. Espiei com um olho aberto e outro fechado por trás do meu travesseiro se a outra parte da cama reconheceria a intimidade inadequada do meu intestino grosso. Nada – ou dormia solenemente, ou me fez a cortesia de ignorar a minha vergonhosa sonoridade. Como se o ambiente não fosse turbulento sem a minha flatulência… Enfiei a cara no travesseiro e fingi dormir até o outro dia. O peido só podia ser o meu castigo por adormecer.

Acontece, no entanto, que a privação de sono também pode enlouquecer (e ninguém aqui precisa ficar mais louca né). Depois de uma semana inteira tentando controlar o incontrolável, eu cedi à trama intricada de dois pares de pernas disputando harmoniosamente o mesmo edredom. Eu continuei com a minha rotina maluca, e indisciplinada de nunca ter hora pra dormir, mas aprendi a me deitar mais cedo pelo genuíno prazer de me aquecer ao toque da pele de alguém que me abraça com carinho. Na contrapartida, ele – que é de rotina matinal pré-cantar-do-galo – passou a vestir-se no escuro para não me acordar e a me enrolar como um temaki no edredom sempre que não podia me entregar mais “cinco minutinhos” de carinho por conta do trabalho.

Eu larguei o cigarro (ainda que em análise) e passei a celebrar beijos matutinos antes de escovar os dentes – realidade que eu achava que existia somente nos filmes. Abri mão de tentar ficar bonita ao acordar, porque ele tem mania de tirar fotos minhas dormindo e manda-las no meio da manhã, com a legenda “linda” logo abaixo – e por Jeová, como não ficar feliz quando alguém enxerga beleza no meio de uma macega de cabelos embaraçados e remelas? Gosto quando preciso de um espaço e ele negocia “um pezinho pelo menos” que eu tenho que deixar a disposição para que ele se encoste. Ou de como entende que por vezes eu preciso testar o outro lado da cama, porque ainda não entendo muito bem essa coisa de “lado da cama”.

Adoro buscar a luz dos olhos dele antes de sair catando a luz da tela do celular. Ou de como eu me sinto uma idiota sorrindo ao vê-lo dormir, ainda que com o maldito cotovelo em cima da minha teta – mas perto o suficiente para que eu possa sentir o cheiro da sua respiração. Eu que me condenava uma rebelde da conchinha, entendi que nos lençóis certos vale a pena pegar num sono. E cultivar sonhos de horas mais longas na cama – fazendo não muito mais do que dormir agarrado, feito um coala.

Por falar em coala, aqui na Austrália já é hora de dormir. Que felicidade.


Fim da sessão.
ps: tenho certeza que ele ouviu o meu peido

Preciso de um amor pra velhice

Preciso de um amor pra velhice

Eu nunca me vi tendo a necessidade de um relacionamento. Sabe, eu gosto de enrolar meus pés em alguém querido embaixo das cobertas. Amo beijos estalados. E adoro sexo com sentimento. Mas eu nunca pensei comigo “meu Deus, preciso de um relacionamento”. Eu preciso de dinheiro na minha conta. Preciso baixar meus triglicerídeos. Preciso trocar o óleo do meu carro. Ou seja, eu não preciiiiiso de amor. Amor me parece muito mais uma escolha do que uma necessidade, concordam?

OK, talvez eu esteja sendo um pouquinho infame quanto a “não precisar” de um amor porque a minha idade ainda me permite algum desdém (ou certa infantilidade). Veja, eu ainda olho pra minha bunda no espelho e consigo me achar um tesão. Cuido da maioria dos meus perrengues com um pé nas costas. Adoro a minha companhia, e dificilmente me sinto sozinha. Minha família me quer (na maioria das vezes) por perto. E eu tenho uma pá de amigos que largariam tudo para tomar uma gelada comigo. E isso é muito legal, mas é também uma condição associada à juventude. Foi aí que pensei que amor e necessidade poderiam sim, estar relacionados, quando colocarmos o fator idade na equação.

Hoje me peguei catando conchinhas na beira da praia. Fui de manhã cedo quando o sol não estava tão forte. E porque segundo um amigo-aspirante-a-companheiro me disse, eu tinha que “movimentar a minha carcaça preguiçosa” para viver mais anos. E ele não podia estar mais certo. Enquanto eu escolhia as conchas de cores lindas com cautela, o rapaz de corpo atlético e olhos da cor do mar, caminhava alguns passos a frente, dando soquinhos no ar, simulando uma luta – como os garotos fazem, sabe? Ele aguardou com paciência eu pegar uma a uma das conchas que queria. E quando finalmente o alcancei no fim da praia, beijou a ponta do meu nariz e disse como eu ficava linda sob a luz do sol.

Foi ali que eu me dei conta de que em algum momento, eu vou sim precisar do amor de alguém. E não estou dizendo aqui que todo mundo precise. Mas eu vou precisar. Quando a minha bunda não for mais motivo de orgulho, eu quero que alguém ainda olhe pra ela com interesse – me convencendo de que a beleza da minha retaguarda, será por onde ela já sentou para olhar o nascer ou pousar do sol. Quero que alguém beije as minhas marcas de sorriso – aquelas injustamente chamadas de “pés de galinha” – e as aprecie por serem marcas da alegria de uma vida inteira. Quero alguém preocupado com meus triglicerídeos e com o óleo do meu carro, quando a minha memória tirar o melhor de mim.

Alguém que faça questão da minha companhia, quanto eu já não for mais tão independe, e meus filhos já não tiverem mais paciência para a minha rabugentice. Ou quando a maioria dos meus amigos já tiver partido para festa no andar de cima. Alguém que me ajude a achar meus óculos, quando os mesmos estiverem na cabeça.

Preciso de um amor pra velhice porque em algum momento da vida a gente precisa ser lembrada que valor não tem validade, que a beleza está além do colágeno e também porque já não serei tão jovem a ponto de achar que sei de tudo. Preciso de um amor pra velhice, pra fazer dela a melhor idade. Aliás, preciso e quero um amor pra velhice.

Nem que seja pra ver aquele belo sorriso e a aquela careca refletindo o sol, aguardando pacientemente, enquanto eu pego conchinhas na beira da praia.

Fim da sessão.

Fiquei offline

Fui viajar e acredite, a internet não importou tanto assim. Confesso, pra uma heavy user como eu foi uma bela desintoxicação. Esqueci de pagar a conta do provedor do meu site, atrasei pautas para editores, já que por alguns dias, a minha presença “nas internê” já não era tão crucial. Nenhum desrespeito a editores ou leitores, eu juro, não era isso. Mas a vida real me chamou lá fora, exigiu a minha atenção. E quando a vida chama com tamanha intensidade, curtir publicações fica menos importante que curtir momentos. Vocês entendem, não é?

Eu fiquei offline porque o sol insistiu em brilhar lá na rua. Mudei a minha localização geográfica para um país que vive feliz com muito pouco. Ou talvez “pouco” tenha sido um valor distorcido na minha vida de acumuladora. Claro que tive que acumular dinheiro, para poder acumular histórias em outros cantos do mundo. Mas acumular roupa suja, joelhos encardidos e amizades novas me pareceu uma atitude de valor inestimável nos meus dias na Indonésia. Sendo assim o Wi-fi foi usado quase que exclusivamente para avisar a minha família de que eu estava feliz e com saudade e talvez compartilhar uma foto aqui ou outra ali. O apelo visual foi uma ferramenta utilizada quando me faltaram palavras para descrever a alegria que vivi.

Eu fiquei offline porque a conexão com templos era impossível de ignorar. Ou porque macacos selvagens tinham mania de roubar celulares, então por muitos momentos ele ficou guardado por precaução. Fiquei sem bateria incontáveis vezes, depois de tentar de forma frustrante tirar fotos e fazer vídeos que fizessem justiça ao que meus olhos presenciaram ao vivo, e falhei em todas as vezes. Fiquei sem bateria no corpo também, porque ser feliz cansa. Embaraça o cabelo, que passou a cultivar dreadlocks que levaram dias para serem desfeitos. Talvez uma dica do vento dizendo pra não me preocupar com o alinhamento das coisas, que a vida é mesmo um emaranhado de sentimentos, sonhos, angústias, paixões, e que tudo isso não é páreo para condicionador e pente.

Fiquei offline porque as pessoas a minha volta exigiram atenção. Gritante e espalhafatosa atenção. Com suas peripécias malucas, histórias incabíveis e impublicáveis. Larguei o celular pra pegar na mão de amigas, abraçar novos conhecidos, viver novas paixões e reencontrar comigo mesma. E eu adoro reencontrar comigo mesma. Larguei o celular porque ele não cabia na carona de uma moto, ou dirigindo um carro com 9 meninas lindas, na mão inglesa, que é a contrária daquela que aprendi, enquanto tentava falar “buzinês balinês” numa terra que não entende o uso do pisca. Abri mão dos eletrônicos porque eles não são bem vindos no mar, e precisava das mãos pra pegar conchas, admirar corais, e tentar (inutilmente) não escorregar de pedras nas cavernas que descobri. Precisei das mãos para fazer uma prece de gratidão a cada passo do caminho. E abrir uma cerveja Bintang a cada novo tropeção.

Fiquei offline por necessidade, mas também por escolha. Perdi aniversários de amigos, momentos dramáticos na política, não respondi e-mails importantes, e chateei muita gente por falta de retorno. Me perdoem, entretanto não foi por mal.

Às vezes a vida pede “presença presente”, ativa, contribuinte e alerta na vida real. Talvez são os momentos em que a gente se importa mais com estar vivo, do que estar online.

Agora tudo volta à “normalidade”. Com o coração pulsando pela próxima oportunidade de me desconectar do mundo, e me reconectar com o melhor de mim. Essa conexão sim, eu curto muito, e compartilho.

 

Fim da sessão.

ps: tem mais sobre Bali vindo aí, por hora: Tera Makasih.

Muito obrigado, doadores!

Em tempos em que ficou tão raro e difícil olhar ao próximo, que bom é perceber que com um pouquinho de amor, a gente pode fazer muito. Aqui está o resultado da nossa campanha de doação de sangue de 2017.

Agradecimentos especiais aos heróis e heroínas que fizeram bonito neste ano:

1. Leonardo Silva
2. Amanda Talasca
3. Vinicius Ludtke
4. Nathalia Travi Canabarro
5. Carine Moreira
6. Laura Zaparoli Zanrosso
7. Aline Mazzocchi
8. Lindonira dos Santos
9. Tiago Braga
10. Jean Maito Ragnini
11. Mineia Vinch
12. Eduardo Birkheuer
13. Tchay Ávila
14. Amanda Gros
15. Ana Carolina Siqueiras B. Melo
16. Nhaiobi Ruivo
17. Andréia Nunes dos Santos
18. Flávia Gomes
19. Amanda Lima Primo
20. Tatiane Theobald
21. Ivan Ferri
22. Conceição Mendes
23. Daniel Scherer
24. Mariana Nakamura
25. Irina Satie Goya
26. Bianca K. Medeiros
27. Rejane K. de Medeiros
28. Nestor de Medeiros
29. Rita Diogo
30. Neia Diogo
31. Maurício Afonso Ferreira
32. Ana Cristina Mello
33. Ana Paula Paes
34. Thalita Mendes
35. Amanda Schenkel
36. Juliane Kappke
37. Graziella Paniz
38. Valentina Metsavaht Cara
39. Josiane Sds
40. Jamile Hallam
41. Iwan Zemczak
42. Rita Engel
43. Dai Passinato dos Santos
44. Dionatas de Andrade
45. Camille Schneider Ribeiro
46. Melina Mello
47. Isadora Mahle

Agradeço também a todo mundo que tentou doar, divulgou a campanha e torceu por nós. E é claro, a minha mãe, ao Mateus e ao Murilo por sempre apoiarem os meus projetos, e ao Léo que me manda toda luz e inspiração do mundo de onde quer que ele esteja. Muito obrigada!


Fim da sessão, mas nunca da gratidão.

Baleia Rosa: o desafio por dias melhores

Nem todo dinheiro do mundo me faria reviver a minha adolescência. E perceba, eu fui adolescente antes de bullying ter nome, de tão feio que era. Isso considerando que eu era uma privilegiada – magra, branca, classe média, com nenhum atributo aparente para tornar-se foco de um ataque. Ainda assim, adolescentes sabem ser cruéis. Já tive a cara toda rabiscada por um grupo de garotas mais velhas porque eu era “metida à bonitona”. Chorava no ônibus na volta da escola técnica porque a galera cantava em coro que eu era “a patricinha”. Ninguém escapa ileso de cometer e sofrer algum tipo de pressão, durante estes que são os anos em que nos provamos ou divertimos a custa dos outros.

Na Netflix, o diálogo sobre bullying e abuso (de todo tipo) foi provocado pela série 13 Reasons Why. O drama descreve as desventuras da personagem Hannah, e a série de eventos que resultaram no fim trágico de sua vida (spoiler nenhum,ta? Esse desfecho está bem claro desde o primeiro episódio). Dentre as críticas recebidas, a maioria decaiu sobre os riscos promovidos pelos gatilhos presentes na série, a falta de profundidade do assunto,  e a ética envolvida na temática suicídio. Nos elogios, a maioria surge em razão do alerta ao assunto, da quebra de um tabu, e a chamada ao diálogo. De qualquer forma, e independe da opinião de quem assiste, uma reação é certa: uma retrospectiva de nossos anos mais jovens e a análise dolorida de nossas atitudes.

Coincidentemente ou não, a pauta pegou ainda mais corpo com a crescente aderência de adolescentes ao arriscado jogo da Baleia Azul – um desafio de 50 tarefas, em que a última instiga o participante a tirar a própria vida. Com o aumento de casos de depressão, a realidade fértil ao bullying, e a propensão aos games, adolescentes viram alvos fáceis da glamorização do sofrimento e da ideia de que não existe outra saída que não a morte. Infelizmente, como o própria historia da personagem Hannah nos faz entender, perceber os sinais de que um jovem precisa de ajuda não é algo tão simples. A busca pela independência e reclusão própria da adolescência, colabora para que pais e amigos não percebam a existência de um possível sofrimento crescente, o que dificulta o acesso a ajuda. O diálogo aberto, a observação próxima do comportamento, assim como o apoio e carinho ainda seguem sendo as recomendação mais eficazes sugeridas por especialistas.

Mas outra solução me ocorre. Talvez o maior antídoto para o bullying, o sofrimento e as perdas, seja criarmos crianças e adolescentes educadas para ter carinho ao próximo. E aqui sem hipocrisia – eu mesma já pratiquei bullying, e tive uma ótima educação em casa. Penso entretanto, que promovendo cada vez mais a empatia desde cedo (e não apenas a quem amamos, mas a quem pudermos), possamos ter maiores chances de uma sociedade colaborativa e fraternal. Uma utopia? Talvez, mas gosto da ideia de que seremos cada vez melhores com o coleguinha do lado. Sendo adultos mais gentis, e educando pelo exemplo. Uma boa ideia para começar pode ser a aderência a positividade, promovida pela iniciativa Baleia Rosa. Ao contrário do jogo Baleia Azul, a versão rosa é um game que sugere 50 ações de valorização a vida. Dicas como agradecer, elogiar a si próprio e perdoar são algumas das tarefas dos participantes.

Já pensou? Incluir 50 atividades promovendo a positividade e o amor ao próximo no nosso dia a dia? Talvez eu seja apenas uma sonhadora… Mas em tempos cada vez mais escuros, eu gosto de acreditar que viveremos dias mais cor de rosa.

E por falar em positividade, obrigada por você estar aqui! Você é importante.

Fim da sessão

Comece antes de estar pronto

Meu trabalho e profissão viraram do avesso desde que eu decidi sair de um emprego fixo, com uma cadeira só minha e um cartão de visitas com o meu nome. Eu não tenho mais horário, rotina, e meu escritório é uma mochila nas minhas costas. A única coisa fixa nesta minha nova realidade é a mudança. Trabalho hoje com três empresas diferentes, diversos clientes, inúmeros formatos. Recebo inputs diários, consultas constantes, a minha pauta muda com as horas do dia, e humor da semana. Para alguém que sempre trabalhou com planejamento, esse novo formato é o próprio inferno. Acrescente a isso, uma fraqueza em cobrar ou precificar esforços. E como cereja do bolo, aquela velha ideia de que eu ainda não estou pronta para os desafios que me propõe. E quer saber da verdade, eu não estou mesmo.

“Eu não estou pronto!”

Aprendizado é um processo dolorido, que pode até envolver algum nível de preparo e planejamento, mas ele funciona mesmo é na prática. Eu já aprendi que erros são balizadores do sucesso. Não dá pra aprender a andar de bicicleta lendo livros, vendo vídeos no YouTube ou fazendo design thinking do projeto. Você até pode se preparar para pegar no guidom, mas só vai entender o relacionamento entre velocidade e equilíbrio, através do movimento. É o movimento que calibra a expectativa e a execução. Não tem outra forma. Ok, vão haver alguns joelhos ralados no processo, mas eles só existem porque houve tentativa. Sem tentativa, não existem nem os joelhos ralados, só uma ideia de andar de bicicleta. E ideias não chegam a lugar nenhum sem algumas pedaladas.

“Eu não estou pronto!”

Nunca antes estive tão insegura. Talvez por isso eu celebre herpes nervosas na boca toda semana e uma atividade estomacal digna de montanha russa (oversharing alert!). Às vezes, eu pego emprestada a convicção que as pessoas têm em mim para seguir funcionando. “Tenho um projeto que é a sua cara, fica tranquila, você vai tirar de letra” – ora, se alguém acredita em mim, como eu posso não acreditar? E desta forma eu uso agentes de mudanças que já deram os seus primeiros passos, como trampolim da minha transformação. Se eu não sei precificar meu trabalho, eu busco aqueles que não têm nenhuma dificuldade de cobrar até por seus espirros. Se eu não gosto de vender, eu me associo a quem venda até a mãe (metaforicamente, por favor). Eu busco referência naquilo que ACHO que não sei, ainda que por vezes me dê conta que eu faria melhor que as minhas referências.

Por quê?

“Eu não estou pronto!”

Verdade é que desde que toda essa nova rotina começou, eu nunca – NUNCA – senti que estava pronta. Nem todos os meus cursos, as horas de especialização e meu MBA em outra língua retira de mim a angústia causada pela ausência da plenitude. A ansiedade envolvida na sensação de achar-se crua, verde, imatura. E depois de 10 anos de análise nas costas, arrisco-me agora a dizer que esse estado de “prontidão” não existe. A maioria de nós segue correndo atrás do coelho branco dono do relógio, tentando entender a nós mesmos, até cairmos no buraco negro – do descobrimento e das maravilhas. Esse corre-corre tem sempre a mesma origem:

 “Eu não estou pronto!”

E não vamos longe. Tudo no meu discurso é muito lindo, muito alerta, mas a prática segue meio bamba. Veja, eu consigo operar para os outros ainda que de forma insegura. Mas quando se trata de um projeto meu, e só meu, pronto! Estou eu paralisada novamente olhando a bicicleta no chão. Imaginando cenários, minimizando obstáculos, tentando prever alta performance dentro da minha cabeça. A bicicleta tá lá, só me esperando. Inúmeras oportunidades de passeio perdidas porque estou esperando que o relógio apite o momento da minha maturação. Como se aprendizado fosse recompensado pela intenção, ao invés da ação.

“Eu não estou pronto!”

Esse ano eu decidi investir no meu projeto autoral, sabendo que não estou pronta, e que nunca vou estar. Vou dar essa banda de bicicleta, prevendo joelheiras, e sabendo que eu posso ralar até a testa, afinal, planejamento nenhum prevê como o mundo vai tratar seus sonhos. Então vou lá ver o que vai dar. Eu vou fazer do jeito que der, afinal, não estou fazendo muito pelos meus planos, sentada aqui fermentando os “e se…” da vida. Eu sou a única filha da puta atravancando o meu caminho. E talvez justamente por eu não estar pronta que eu vou ser mais tolerante com os processos, mais gentil com meus erros e mais sensível às lições.

Acredito que quanto mais a gente se convence de nunca vai estar pronto pra nada mesmo, mais a gente tem certeza que não tem dia melhor para subir na bicicleta do que hoje.

Comece antes de estar pronto.


Fim da sessão

DOWN, UP!

Você entrou na minha vida como alguém diferente. Irmãzinha da minha melhor amiga, apenas alguns anos mais nova que eu. Teus olhos puxadinhos sorriam com qualquer estímulo. “Manuela” te chamaram, embora tu atendesse melhor com carinhos e cosquinhas. Um bebê lindo e “especial”. Pois é, além de Manuela, te chamavam de especial, e eu entendi bem o porquê. Apesar da pouca idade, quando criança, você sempre foi pura personalidade. Geniosa, destemida carinhosa, espertalhona. Logo: especial! Lembro-me de um dia perguntar para a minha mãe porque você tinha dificuldade de falar como as outras crianças. A minha mãe, então, me contou que você tinha Síndrome de Down.

“Síndrome de Down”. O nome me assustou. Imediatamente questionei minha mãe se aquilo era grave. Ela então, com todo carinho do mundo, me explicou que a tua condição não era uma doença. Você só era diferente, porque tinha um cromossomo a mais que eu. “Um cromossomo a mais” – pensei surpreendida. Aquela informação confirmava outra teoria que eu tinha: você estava a pelo menos um passo na minha frente em tudo.

Nossas famílias, vizinhas e amigas, seguiram suas vidas criando os filhos juntos. Não tenho uma memória de infância ou da adolescência em que você não estivesse lá. Com o tempo e afinidade, desenvolvemos uma linguagem própria para falar contigo.  E você nos ensinou outras formas de comunicação. Hora com sons, hora com referências, hora com olhares. Usava de toda paciência do mundo para me explicar tuas ideias, quando eu não conseguia – por alguma deficiência minha – entender o teu universo. Produzias um som, que te acompanhou a vida inteira, que expressava tua satisfação e felicidade – como a zumbido de uma abelhinha. Aliás, hoje penso que todos nós deveríamos desenvolver um som que anunciasse a nossa alegria – desta forma ela não passaria despercebida por ninguém, algo tipo “zzZZZzzz…  Ei! Olhem! Tô feliz!”.

Por causa de ti, desde muito cedo, entendi que todo mundo era diferente, de alguma forma. Da infância a fase adulta, por conta de meu contato próximo contigo, fui educada à ideia de que tu não eras menos capaz, menos inteligente ou de maneira nenhuma desprivilegiada. Só diferente. Olhava o mundo com outros olhos, tinha outra velocidade. E que “diferente” não era um problema. A convivência contigo me obrigou a tratar todas as pessoas que conheci com igualdade e respeito. Cromossomos a mais ou não. Talvez não fosse por ti, eu teria sido uma criança mal educada, daquelas que pratica bullying. Ou pior, um adulto intolerante.

Fato é que você cresceu, e hoje, uma mulher, continua me surpreendendo. Eu enxergo mais empatia nos teus olhos puxadinhos, do que outros cidadãos desprovidos do teu cromossomo extra. Já te vi apaixonada exatamente como eu. Sofrendo e se reerguendo após um término de namoro, como eu. Dormindo cedo, batendo ponto, pagando conta, como eu. De TPM, irritadiça e revoltada. Como eu. Vi também você me acolhendo no teu colo, dando teus conselhos e dividindo teu otimismo inabalável por dias melhores.

Mas não foi só em ti, que vi força em superar o preconceito. Vi em Débora Seabra, a primeira professora com Síndrome de Down a ganhar o prêmio de educação por uma câmara de deputados. Vi no kikito do ator Ariel Goldenberg, pelo filme “Colegas”. No maestro, conferencista, apresentador, escritor e ator espanhol Pablo Pineda. Como na também espanhola Angela Bachiller e sua posição de prestígio na câmara de vereadores da cidade de Valladolid. E outros tantos exemplos.

Nesta semana, o dia 21 de março foi marcado pelo Dia Internacional da Síndrome de Down. E eu vim aqui agradecer. Quero demonstrar a minha gratidão a todos os portadores da síndrome, que não apenas executam todas as tarefas diárias, mas que superam os preconceitos e ainda educam pessoas mundo a fora sobre inclusão, unicidade e respeito. Agradeço a perseverança e coragem de pais, que precisam lidar com a falta de estrutura no sistema educacional brasileiro, e que não desistem de mudar e melhorar o cenário atual. Agradeço a todas as empresas que contratam, preparam e promovem uma vida com dignidade e independência a este capital humano tão especial, quanto capaz.

Mas principalmente agradeço a Manuela Magalhães, a minha Manu – amiga, companheira, e exemplo de felicidade em cada etapa de seu crescimento e do meu. A tua participação na minha vida, Manu, elevou os meus conceitos a patamares mais dignos de humanidade. Talvez por isso a síndrome não devesse ser chamada Síndrome de Down* (*referência ao sobrenome do descobridor da síndrome, mas que no inglês poderia significar “baixo”). Talvez a síndrome devesse ser renomeada a Síndrome de “Up” (alto), uma vez que ela tem a capacidade de elevar o espírito e o orgulho de toda pessoa que tem o privilégio de conviver e aprender com alguém que nem você, Manu (Débora, Ariel, Pablo, Angela…).

Esse cromossomo a mais, merece uma dose extra de respeito e admiração. Sem dúvidas!


Fim da sessão.

Tá fora do carnaval

Preparem suas cuícas, pois ele está chegando. Para os foliões, um alívio ao ver o tão esperando carnaval entrando na avenida das nossas vidas. Para os que odeiam o carnaval, a boa notícia é que logo ele passa, e o ano brasileiro finalmente começa.

Aproveitei o clima de alegria para fazer o contrário da massa. Já que o carnaval é reconhecido como o momento de “liberar geral”, me ocupei de uma listagem daquilo que deveria ficar fora do samba-enredo deste ano.  Alalalôoooooo! Segura o meu batuque:

1) Tá fora do carnaval não entender que não é não.

Desistimos de vez do papinho de que tudo não passa de charminho e acreditemos da literalidade da negativa. “Siga em frente com o resto do bloco, meu bem!”. Foco nos sorrisos convidativos das outras investidas e desista de forçar a barra, a custo de ser confundido com neandertal, e levar um shade (ou um BO) em praça pública no meio da alegria.

2) Tá fora do carnaval julgar a fantasia do coleguinha.

Não importa se é uma diaba bem comportada, ou uma freira di-di saiiiiinha. Se o amigo resolveu vestir as cores do arco-íris (adoro), ou tomou goles de griter e deixou RuPaul no chinelo. Celebre a diversidade naquilo que é tida como a festa mais democrática deste país, sem piada ou atitude retrógrada. Larga desta de “ai que saco, carnaval politicamente correto”, e arrume formas mais originais de se divertir do que à custa do outro.

3) Tá fora do carnaval mijar no que é do outro.

Como uma amante da cerveja, e dona de uma bexiga que parece ser de grávida, eu sei que a tarefa não é fácil. Mas pense na tristeza de quem acorda na quarta-feira de cinzas e tem a calçada inteira tomada pelo mijo alheio. E mijo de bêbado sabe ser cruel, num é? Ah! Senhores donos de restaurantes e barzinhos: deem aquela força pra galera vai! Liberem o banheiro. Quem mija mais, bebe mais e isso é interesse de vocês também.

4) Tá fora do carnaval beber e dirigir.

E não tem mais desculpa. Vai de Uber, vai de Cabify, vai de bus, vai de taxi, vá a merda, mas não vá no volante.

5) Tá fora do carnaval se comportar como se não houvesse amanhã.

Calma! Haverá. E aí haja amanhã pra tanto ontem. Evite passar o ano inteiro de ressaca moral. Carnaval tem todo ano. Use com parcimônia.

6) Tá fora do carnaval ser idiota na cama.

Sim, é sabido que a galera transa mais no carnaval – mas não precisa transar pior. Na alegoria do “Sai Sai da Minha Cama” está aquela gente que não entende o que é preliminar, e só quer ver a mangueira entrar antes mesmo da apoteose estar liberada e “lavada”. Os despreocupados da “Vila de Não tô nem aí pra você” que não perguntam qual a sua alegoria preferida. Os sambistas das antigas da “Salgueiro é meu pau sem camisinha” que forçam sua existência, constrangem passistas e acabam com a folia. Os juízes de escola de samba que criticam quando a escola que desfila está demorando para chegar no ápice. O mestre-sala que tem nojo de descer na porta bandeiras. O abre alas que exige depilação digna de tapa-sexo. A rainha de bateria que finge orgasmo porque acha que é obrigada. Ou a “Vila da Maria vai com as Outras” que cede a pressão dos(as) amigos por qualquer motivo.

7) Tá fora do carnaval também ser idiota fora da cama.

Fingir que não conhece o/a coleguinha de escola de samba no dia seguinte. Tirar fotos de desfile intimo e divulgar para a arquibancada. Chamar foliões de nomes depreciativos porque estão na rua pra sambar. Regular beijo quando se está afim. Acreditar que amor de carnaval, não pode ser amor da vida inteira.

E por último mas não menos importante: Tá fora do carnaval não se divertir. E que a sua diversão, entenda e respeite a diversão do outro.

Afinal, respeito tem desfile nota 10, faça parte dele.


Fim da sessão

Bônus – Samba as Avessas de Pâmela Amaro, democratizando a malandragem:

Desapego

Acordei hoje e dei de cara com a minha mãe animada com sua mais recente missão:  retirar a esteira elétrica de dentro do seu quarto – um equipamento que nos últimos meses (anos!) servira como varal para as toalhas de banho  –  e leva-lo para o andar de baixo da casa, onde eu e o personal trainer recém contratado, pudéssemos dar novo sentido aquele trambolho.

A tarefa não era nada simples. Julgamos que havia mais esteira do que porta, na nossa primeira avaliação. Analisamos ângulos e medidas com incredulidade: “como essa bosta entrou aqui? Pois se entrou, tem que sair!” – concluíamos com mais leviandade do que eu gosto de admitir.  O conceito era simples, é claro, mas a prática envolveu dedos amassados, dores nas costas e uma briguinha básica entre duas pessoas cansadas de gerenciar 3 toneladas de esteira. Tiramos a desgraçada do quarto, e a aposentamos logo ao lado do sofá da sala – 3 lances de escada de distância da nossa meta original, na garagem.

– “Acha que ela fica bem aqui na sala?”

– “Claro. Realçou o quadro da parede.”  Concluímos as duas sentadas no chão, lavadas em suor, encarando o amontoado de ferro, plástico, engrenagens e frustrações.

A esteira da minha mãe era como se fosse um elefante branco assentado na sala, gozando de sua inutilidade. Um elefante branco que ocupava lugar nas nossas vidas, e pouco contribuía. E a cada minuto a mais que sua grandiosidade improdutiva permanecia ali, eu me ocupava em analisar a quantidade de tralha que arrastamos vida adentro, e que nos trazem pouco ou nenhum sentido.

Eu nunca fui aquela pessoa vidrada em bens materiais. OK, eu tinha minhas blusinhas preferidas, o brinco da sorte e um tênis com o qual eu seria capaz de enfrentar o apocalipse. Sempre fui fã de grandes faxinas, mas guardava diários – ainda que estivessem tomados pela umidade. Eu sou aquela que se desfaz de um item quase novo, mas guarda em um saquinho transparente o chiclete (blé)  mascado que tinha na boca no dia do meu primeiro beijo. Eu tenho a tendência de transferir sensações para objetos inanimados. Uma tentativa desesperada de transformar memórias em algo tangível – como eu já declarei em algum momento por aqui.

Mas tem algo na quinquilharia que acumulamos que me incomoda. A gente guarda calças que um dia poderá usar, mas joga fora do nosso convívio, algumas pessoas que já amamos . Talvez porque julgamos que reduzir a nossa massa corpórea em 6 números de calça jeans seja mais viável do que manter por perto a lembrança de um amor que já não cabe mais. Não é estranho? Se apegar a peças de roupas que nunca mais vão servir, e descartar por completo pessoas cujas memórias um dia serviram perfeitamente? Por que acumulamos tanta coisa inútil?

Livros são ótimos exemplos de como aprisionamos a liberdade que poderia ser transitória. Eu nunca conheci alguém que precisasse de uma biblioteca, a não ser pela ostentação de preencher prateleiras.  Então por que não colocamos nossos livros em movimento?  Assim eles poderiam ter uma nova chance de seduzir outros leitores, ao invés de serem condicionados a virar comida de traça. E aqui não estou sugerindo que vivamos em completa desestrutura ou desleixo com nossos pertentes. Mas pra que a gente precisa de tanta tralha? Por que não olhamos para nossos bens materiais como o resto da nossa vida – fluída, mutável, temporária?

Me arrisco a dizer que, se tem um legado que minha vida na estrada deixou comigo, foi esse: viaje leve. E aprendi isso da forma mais literal, quando cheguei na minha primeira parada dos dois meses que eu havia planejado passar de mochila nas costas, eu simplesmente não suportava mais o peso da minha bagagem. E lá, em um hostel em Brussels, eu deixei pra trás o meu par de botas preferidas e uma calça de jeans nova – ambas, pesadas demais para as minhas costas. E confesso que foi um desapego difícil na primeira instância, mas a leveza que proporcionou, ajudou-me a seguir pelo restante de todo o caminho. Colecionando histórias, muito mais do que coisas.

E pegando o exemplo mais extremo de desapego que eu possa ter, reavaliei mais uma vez todos os pertences deixados pelo meu irmão. O livro que fez sentido pra ele. O perfume que deixou fechado. A jaqueta grande demais para me servir. E nesse processo, eu reconheci a importância de todos estes objetos, escolhi alguns poucos talismãs importantes, e coloquei os demais itens em movimento. Porque se a vida é mudança, transição e ascendência, não vale mesmo a pena colecionar âncoras.

Desapego é necessário. É um descarrego.

Porque a vida precisa de espaço. Do contrário sinto que seremos cada vez mais atolados de passado, atravancados  por obstáculos, abafados por elefantes brancos. Como a esteira inútil da minha mãe que agora me encara com pinta de reprovação enquanto disserto sobre o desapego. Me olhando do alto de toda a sua plenitude enorme e ociosa. E que sequer destaca o quadro na parede,  diferentemente do eu alegava mais cedo .

Decidi que a esteira vai pro OXL. E eu vou correr na rua. Afinal, faz bem mais sentido pra mim ir a lugares, do que sentir que estou correndo num lugar só, acumulando coisas e pó.


Fim da sessão.

Grelo Azul – a sina de um tesão não atendido

Eu juro que fiquei temerosa quando senti pela primeira vez. Segurei o segredo comigo, e jurei que tinha alguma coisa errada lá em baixo. Eu já havia ouvido falar sobre as tais “bolas azuis” ou “roxas”, condição descrita pelos rapazes quando ficavam muito excitados e por algum motivo repreendiam a “descarga elétrica”. Mas eu era uma garota, não tinha pinto, ou tampouco bolas, e por isso fiquei preocupada quando pela primeira vez o tesão me deixou na mão e uma dor latente bateu na porta do meu prazer. Tum-tum-tum ecoou na minha vagina.

A primeira atitude foi procurar um médico, claro. Expliquei a minha condição e a ginecologista deu de ombros. Disse que não havia muita incidência do que eu havia descrito, e depois de me examinar alegou que eu estava saudável, e que não havia nada de errado lá em baixo. Ou dentro. Ou em qualquer área envolvida com a minha libido. Não satisfeita, fui pesquisar a minha conjuntura na internet. Encontrei uma ampla bibliografia sobre a condição masculina – é claro – em que as famosas “bolas azuis” eram descritas por entendidos como o “represamento” do líquido seminal dentro da próstata, das vesículas seminais e também dos testículos.  Nada fazia referência à natureza feminina deste “represamento”. Por dias me peguei pensando se haviam bolas azuis dentro de mim.

Fui mais afundo na minha inquisição – eu não conseguia aceitar a ideia de seguir com aquela inquietação – nas calcinhas e na cabeça. Medicina ou bibliografia nenhuma podia ser fonte mais segura do que os bons e velhos grupos de Whatsapp dazamigas. E foi lá, na intimidade de grupos só de meninas, que para a minha surpresa, eu descobri que não era a única que sofria da condição que batizei de “grelo azul”. A minha pesquisa levou-me de encontro a mulheres de todas as idades – cuja excitação não “atendida”, resultava em uma dor latente que podia ser tanto no interior da barriga (abaixo do umbigo), como também uma pressão, quase uma dormência, sobre os grandes lábios.

Ouvi as vítimas desta aflição temporária de forma atenta e curiosa. Fiquei feliz por encontrar outras que como eu, sofriam da mesma forma com o rala-e-rola interrompido. O meu grelo-azul não estava mais sozinho. E na falta de bibliografia mais científica, eu decidi compor uma ideia mais poética do saudosismo deixado por uma excitação que partiu.

Dor de tesão ou “grelo azul” é a presença da ausência. Ausência das delicias que foram insinuadas pelo restante do corpo, quando abruptamente o prazer mudou de rumo.  É o aquecimento fulminante encerrado por um balde de gelo, quando o corpo não teve oportunidade/tempo de esfriar naturalmente. É a indignação de um clitóris. O estresse de uma periquita. O injuriar de uma pepeca. O lamento de uma lubrificação perdida. O reclamar em alto e em bom tom dos grandes lábios. É o latejar físico da desesperança. A fome insaciada. O desejo agonizando.  A ânsia, a agonia e angústia de ver a chance de um orgasmo dizer adeus, ou pelo menos “até breve”. É o aprisionamento da vontade. E dói. Dói de verdade.

O grelo azul não é lenda urbana. E tão pouco uma invenção das moderninhas. Muito menos uma condição digna apenas das “safadas”. Não importa se a interrupção do tesão foi porque não havia tempo, ou por conta de uma intervenção externa, ou ainda se no caso mais comum, porque faltou estrutura para entrar em campo – o famoso “eu não tenho camisinha”.  Às vezes a dor surge de uma conversa acalorada ao pé do ouvido, um nude sacaninha no celular ou aparece na lembrança de um tesão que mora longe. O grelo azul existe, e sofre junto com a gente.

Durante este pequeno estudo que fiz – sem compromisso com amostragem, e que tem margem de erro de duas pepecas para mais ou para menos – eu me convenci que não existe necessidade de comprovação científica para justificar a nossa inquietação (até porque pouco estudo se dedica ao libido feminino – para muitos o nosso orgasmo ainda é um mito). Entretanto esse represamento de alegria de fato lateja em muitas de nós mulheres, para ser considerado uma condição exclusivamente masculina. Mesmo porque se o tesão é compartilhado, a consequência de sua falta também, não faz sentido? Até o dia – é claro – em que a excitação represa para aventuras mais promissoras. E acha seu rumo nas descargas mais genuínas.

Não tem antídoto mais gostoso para essa dor do que o prazer atendido. E aí minha gente, não tem grelo azul que não fique colorido. Aí é a vida que fica mesmo TUDO AZUL.


Fim da sessão.