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Ele é de câncer

Não sei o quanto a influência do cosmos interfere na relação das pessoas, mas nunca neguei a forte presença de aquário na maneira como eu levo a vida.

Já tive virginianos que ferraram com a minha estrutura, em compensação três das mulheres que mais amo e me toleram são do mesmo signo. O meu irmão e também melhor amigo era de peixes, o que fazia sentido já que ele – de peixes- e eu – de Aquário- nos completávamos. Ao contrário, é claro, de muito pisciano que eu já quis matar por viverem no mundo da lua. Ou seja, o horóscopo acerta e erra comigo o suficiente para que eu tenha as minhas dúvidas.

Mas ele é de câncer e acredita no poder das estrelas. Emotivo e intenso, disse que a culpa é do elemento água que rege sua personalidade. Ele me explica que eu sou elemento ar, mesmo sendo de Aquário, o que pra mim não faz sentido. Pouco de câncer faz sentido pra mim. Ele não disputa com a minha liderança como alguém de Leão faria, pois vaidade não é o negócio dele. Tem tantas perguntas sobre a vida quanto Libra, e a energia por metas e novidades como um Ariano. Ele é fiel como Touro, entretanto não gosta de ciúmes. Ele é de câncer, o que é uma incógnita pra mim.

Eu tento ler seus olhos claros, que ele jura que são verdes, mas que eu juro que ficam azuis quando ele está feliz. Talvez seja uma coisa de câncer ser camaleão, em que nem uma coisa óbvia como a descrição dos olhos é simples com ele. Gosta de atenção, e nisso eu culpo o signo – carma também dos meus irmãos gêmeos e de uma amiga manhosa que Londres me deu, todos cancerianos. Ele é de câncer e tem o coração brincalhão. Faz carinho numa hora, e na outra coloca um dedo lambido na sua orelha provando que quem é de câncer não envelhece. Finge retirar a pinta que eu tenho embaixo do lábio e coloca em algum ponto do próprio rosto, em meio à gargalhadas. Ele tem a inocência que alguém de Escorpião consideraria tolice, mas ele é de câncer, so he doesn’t care.

Ele é de câncer, e como todo canceriano, é caseiro e gosta de família. Mas ele admira a minha habilidade social e meu interesse constante pela muvuca, ainda que ele esteja longe de ser um ermitão. O caranguejo dele não apresenta riscos de me machucar, e eu não sei porque isso me atrai, já que eu sempre tive o dedo podre de escolher quem apresentasse a maior probabilidade de me magoar. É observador, e diz que eu sou linda assim que eu acordo, com o rímel que eu insisto em não tirar e que pela manhã me borra até a altura da minha bochecha. Diz que meu cabelo é sensacional, mesmo quando tenho a franja grudada na testa pelo suor provocado pelo calor do sol do meio-dia ou daquele que ele provoca a meia-noite. Ele é de câncer, e parece ser meio louco quando gosta das coisas que eu mais abomino em mim. Mas confesso que “linda” é um estado de espírito que me desperta sempre que o adjetivo cai da boca dele, seguido de um beijo demorado.

Ele é de câncer e sua sensibilidade por vezes beira o descontrole, por isso ele diz que eu sou racional. Logo eu, racional. A dona do divã. Mas eu invejo a sapequice dele e a crença que ele tem de que tudo sempre vai dar certo. Ou do encantamento de como ele olha o mundo. Prova a maturidade emocional dele quando respeita a minha rebeldia aquariana (leia “tolice aquariana”), quando ajo daquela forma de quem diz “eu não sou obrigada a nada”, e concorda que de fato eu não sou mesmo, e assim me ganha mais ainda. Exige meu tempo sem parecer vulnerável ou piegas (até porque o contrário me embrulharia o estômago).

Ele é de câncer e faz pensar que minha tão estimada liberdade é um artigo de luxo dispensável perto do que ele me entrega quando eu me jogo no seu abraço. Perigoso esse signo de câncer.

Já me peguei suspirando alto, ou sorrindo abobada quando ele me explica a força dos quatro elementos nos signos. Acho graça de como acredita que saca completamente as pessoas toda vez que descobre qual é o ascendente delas, ou de como a lua tem efeito sobre as marés e sobre o meu humor. Ele é de câncer e o efeito dele em mim me inspira. Como outros musos inspiradores que já passaram por minhas histórias. Mas ele é diferente, ele é de câncer.

E ainda que eu tenha dúvidas sobre a real influência do seu signo, se ele combina com o meu, ou até mesmo qual a verdadeira cor dos seus olhos, uma certeza fica: eu adoro o jeito como ele olha pra mim. Com seus olhos verdes ou azuis. Mas também, pudera: Ele é de câncer.

Fim da sessão.

Feliz ano novo: pazes com o tempo!

Chegou o momento daquele olho no olho. O vídeo de final de ano de ano no nosso querido divã. Gatedo, que em 2017 a gente faça as pazes com o tempo:

Fim da sessão.

Relacione-se com quem você admira. E só!

Há muito tempo, quando eu ainda trabalhava na Atlântida, em uma das minhas muitas conversas filosóficas com o meu colega de ilha, eu tive uma epifania. Um daqueles momentos divisores de água. O Luciano Lopes, mais conhecido como Potter, tinha muitas teorias das quais eu discordava sobre relacionamento, mas uma delas me mudou de forma definitiva. Na época eu namorava um cara, e jurava que ele era pra sempre. O Potter então me disse que aquele namoro estava fadado ao fracasso, simplesmente porque eu não admirava o meu namorado. E que relacionamentos precisavam ter como base a admiração mútua do casal.

Lembro que na época eu apenas fiquei puta da cara com o comentário impertinente, e pensei que aquilo era apenas um papinho furado dele com a intenção de eventualmente me comer. Mas a teoria da admiração se confirmou. Naquele namoro, e em outros. O amor (ou mesmo a paixão) encerrava a partir do momento que eu me dava conta de que eu não admirava ou que tinha deixado de admirar a pessoa com quem eu estava. A situação chegou a ficar tão gritante em um dado momento, que meu irmão avisou-me de um fim de namoro, antes mesmo que eu desse conta de que ele havia terminado:

Você precisa e admira o fulano, da mesma forma como precisa e admira uma samambaia no canto da sala.
Pronto. O namorado virou ex-namorado porque eu nunca mais consegui enxergar ele de outra forma a não ser como uma planta no canto de um cômodo qualquer.

Essas mudanças de percepção começaram a mexer com a forma como eu via o mundo e as minhas conexões. Não apenas nos relacionamentos amorosos, como nos profissionais. Eu passei a não ter paciência para ambientes inertes. Comecei a sentir necessidade não apenas de respeitar a minha hierarquia, mas de admirá-la. Não precisava ser na sua plenitude, mas eu precisava admirar ALGUM atributo que fosse da pessoa que conduzia a minha equipe. O meu projeto, e bem… que tinha parte ativa em pelo menos 8h da minha vida.

Partindo do pressuposto de que se você se considera a pessoa mais inteligente da sala, você provavelmente está na sala errada, eu comecei a sair das salas. E comecei a procurar lugares mais estimuladores, pois reconheci o poder de contágio da atmosfera profissional. Marasmo promovia marasmo. Agitação gerava agitação. Tipo inércia. Tudo que eu queria encontrar era alguém suficientemente admirável para me convencer de ir à lua, que eu seria a primeira a começar a construir o foguete. E foi assim que eu fui trabalhar com gente que me dava tesão. Tesão de vida, de atitude, gente com tesão de pegar os problemas pelas bolas e dizer “vai encarar, seu filho da p***?”.

O efeito no meu desempenho foi imediato. Afinal, a inspiração, bem, essa é outra coisa que sabe ser contagiante.

Hoje a admiração é uma das vertentes que orienta todos os meus relacionamentos. Eu passei a filtrar as minhas amizades por admiração, ao invés de conveniência. E o filtro é bem sincero, e duro algumas vezes. Eu não dedico mais tempo com gente que me entendia. Com quem se entendia. E essa decisão partiu da triste realidade de que temos cada vez menos tempo para sorrisos amarelos e meios abraços. Hoje eu exijo intensidade nas minhas relações. Todas elas. Exijo retorno de ligações. Suspiros sinceros. Hoje eu quero beijos mais longos. Orgasmos mais intensos. Projetos mais ousados. E voltando pro foguete, quero ver estrela brilhar, quero ser estrela. E tudo, meus amigos, é parte da admiração. Admiração que a gente busca e também que promove. Nos momentos, nas conversas, nas trocas, nas conexões.

Até porque, a vida é muito curta para ser a samambaia no canto da sala. Ou se relacionar com ela.

Fim da sessão.

Miga, sua loca [coisa de antônia]

Hoje o Coisa de Antônia no ATL Girls faz uma homenagem a essa loucura chamada amizade. Miga, sua loca, hoje é nosso dia!

Clique na imagem:

Miga, sua loca (1)

7 segundos

Eu tenho uma obsessão por momentos que desafiam as métricas do relógio. Sabe, aqueles instantes cujas emoções são tão intensas, as expectativas tão palpáveis, que o tempo parece desacelerar? Eu vivo por momentos assim. Guardo-os todos em caixinhas estofadas do meu coração, como recordações das mais queridas. Adoro quando as borboletas na minha barriga alçam voo e me fazem levitar por alguns segundos nesses recortes da vida real. Eu corro o tempo todo, mas em raros momentos da vida, eu tomo o meu tempo vendo ele se arrastar, deliciosamente. Dentre os meus preferidos… aqueles preciosos 7 segundos antes de beijar alguém pela primeira vez.

A principio 7 segundos não parecem nada. Presumo que nada de relevante possa ser efetivado em tão pouco tempo. Mas aqueles 7 segundos efervescentes entre uma boca e outra, esses sim, podem ter a magnitude de 7 horas, 7 dias. É neste pequeno intervalo de tempo que o rosto chega tão perto de outro rosto, que é possível sentir o cheiro da pessoa pela primeira vez. E aqui não estou falando sobre perfume, desodorante, ou pós-barba. É o cheio do beijo da pessoa. Uma mistura que pode variar um bocado, entre um chiclete furtivamente adicionado, prevendo o encontro dos hálitos. Ou o gosto de cerveja, de vinho, de café, de chocolate, o gosto de alguém. É a química do beijo sem beijar. Um perfume quente e intenso que vem da boca, e aquece o momento antes mesmo dele começar.

Durante estes rápidos e longínquos movimentos dos ponteiros, é quando acontece o posicionamento das mãos, prevendo a moldura do beijo. Moldura que normalmente é feita através de um abraço, um entrelaço. É claro que essa dança começa muito antes dos 7 segundos, com toques suaves aqui e ali, sorrisos convidativos, um caminho a ser sutilmente tateado.  Uma mão nas costas, ou na cintura. Talvez um joelho tímido encostado no outro, testando a permissão, aproximação, o aconchego. Não gosto do “chegar-chegando” de supetão. Gosto de toques que pouco a pouco se constroem, se permitem, se enroscam. Adoro lugares com música alta que possibilitam cochichos no ouvido, completamente justificáveis. Musica alta é a desculpa perfeita para chegar mais perto da orelha, aquela que fica tão perto do pescoço. E o pescoço é um ótimo lugar para iniciar a jornada dos 7 segundos.

Nesta fração de tempo, os olhares ficam perdidos, entre boca e outro par de olhos. É tempo suficiente para não ser uma intimada, mas longo o bastante para confirmar o interesse. Gosto quando os olhos avisam gentilmente que o melhor está por vir. Carregados de excitação pela novidade, e a confiança de que beijo na boca tende a ser sempre bom. Eu adoro olhares pré-primeiro beijo. São confusos, e atrapalhados, mas ao mesmo tempo seguros do objetivo comum. Gosto do leve ar de embriagados que estes olhos têm, de quem está louco para matar a sede no outro. Piscadelas, olhares 43, cílios tocando no famoso “beijo de borboleta”. São as janelas da alma gritando “vai acontecer” ou pedindo “chega mais perto”. A respiração acelera, o coração sapateia.

Esses 7 segundos são o mais puro estado de graça. Talvez porque ali as expectativas estejam intimamente ligadas com o presente. Neste pedacinho de tempo, ninguém está preocupado com os beijos do passado que acabaram em corações partidos, ou tão pouco se o beijo em questão será a última boca a ser beijada antes do “felizes para sempre”. Não. 7 segundos antes de um beijo é o mais próximo de estar presente em um momento. É quase um execício de meditação, de inspiração e expiração, antes de chegar a nirvana, aquele estado transcendente onde você é liberado de todos os efeitos do karma e  do senso de si…

7,

6,

5,

4,

3,

2,

1.

E o melhor está por vir. Fim da contagem. Fim da espera. Fim da expectativa.

Fim da sessão


Ps: Hoje a sessão foi curtinha. Porque alguns momentos da vida não precisam de muito para se eternizarem.

O que eu quero

Depois de um tempo lidando com o passado das nossas relações, é impossível não colecionar uma lista daquilo que a gente quer evitar no futuro. E a tendência é começarmos a ficar com a casca mais grossa e um pouco mais intolerante com os desconfortos naturais causados por novos pretendentes. O que eu não quero já está super claro para mim, e considero esta lista importante porque representa um compromisso com os aprendizados do passado. É o cinto de segurança na estrada no amor. Entretanto, mais do que segurança, a gente precisa saber pra onde quer ir. A equação é mais ou menos assim: “o que eu quero” X “o que eu não quero” /dividido pela expectativa igual= caia na real. Ou seja, não é uma matemática exata, mas ajuda a balizar prioridades e concessões, sem perder o rumo da jornada.

“O que eu quero?”

Eu quero alguém que minta bem. Sério, eu tenho uma pá de romances nas costas e já tendo a certeza de que todo mundo mente, eu só queria encontrar alguém que me faça o favor de mentir bem. Se a verdade for amarga ou irrelevante, quero uma pessoa que se comprometa com uma história bem contada, para a sanidade dos personagens. Parece pessimismo, mas é de fato realismo e elemento de sobrevivência de uma relação. Se a verdade não vai ser produtiva, ok, eu consigo conviver com a mentira bem contada. Claro, tendo em mente que as intenções devem ser sempre as melhores para ambos.

Quero alguém com vida própria. Inclusive que esta vida seja composta de algumas programações que não me incluam, por favor. Quero um vivente que valorize os espaços e os momentos de saudade. E que me ajude a perceber quando eu estiver grudando, como a boa intensa que sou. Que me lembre de que sentir falta é saudável, e estar sozinho é igualmente importante para as partes. Quero alguém que me lembre de que eu preciso fazer concessões na minha agenda, mesmo que para programações pouco estimulantes, como a festa da firma ou o campeonato de futebol de várzea. E eu não sou muito boa nisso, já aviso. Mas eu adoro aprender.

Eu sonho com alguém que entenda a diferença entre um chilique e uma crise. Aliás, quero alguém que me ajude a diferenciar os dois, pois meu lado dramático tende a me confundir. Quero alguém que faça meia-culpa e que não tenha medo de pedir desculpas. Eu também quero alguém que não entre em pânico quando eu chorar, pois vai entender que a vida às vezes transborda. Alguém que saiba levar uma piada, e fazer outra.

Quero alguém que não vá se importar de escutar os hits dos anos 90 comigo e “Ode To My Family” do The Cranberries no repeat. Alguém que mexa no meu cabelo, e não repare nos fios brancos. Espero muito poder encontrar alguém que goste de praia e de boteco – ou aquela pessoa que vai me apresentar algo mais viciante que essas duas programações. E que não se importe com as minhas calcinhas largas que eu adoro usar para dormir (nem todo amor deveria sobreviver de fio-dental). Prometo tolerância com as zorbas amarelas (porque nem todo amor deveria sobreviver de boxes Calvin-Klein).

Quero alguém que eu não possa resistir, por maior que seja a minha birra. Que eu admire muito mais pelas ações do que pela eloquência.

Uma pessoa que seja gentil com garçons, com motoristas irritados e com a minha mãe. Alguém que não abra mão da serenidade com facilidade. Alguém que se adore, apesar de seus defeitos. E que ache os meus charmosos e administráveis. Que goste das pintas do meu corpo e que me convença que eu não sou nariguda (ou gorda, ou louca, dependendo da neura do momento – mulheres…).

Alguém com quem eu adore conversar. Afinal, quando a gente ficar velhinhos, talvez seja a única coisa importante. Uma pessoa com quem eu consiga discutir, discordar, sem nunca perder o respeito, ou levantar a voz. Eu odeio quando levantam a voz, ou pior, odeio quando me vejo fazendo o mesmo. Quero amar alguém com quem eu consiga ficar confortável em silêncio, superando a minha tagarelice nervosa. Que cale meus argumentos com um sorriso. Alguém que seja o meu “oi” preferido e meu “tchau” mais difícil.

Quero muito alguém que aceite quando eu convido para dançar, mesmo se a pista estiver vazia. Ou que não pensa duas vezes em topar um eventual skinny-dipping. Um indivíduo que não leve a vida tão a sério e saiba valorizar o que de fato é fundamental nela. Alguém que me faça mudar de ideia esteja eu contrariada, desencorajada ou teimosa. E que mudar de ideia não seja o mesmo que mudar o sentimento. Alguém com quem eu troque e me ajude a ser melhor e vice-versa. E que me coloque no meu lugar – que não é acima, nem abaixo, nem à frente, nem atrás. Mas ao lado. Lado a lado nesta estrada linda que é o amor.

O que eu quero? Quero alguém que me faça agradecer por nunca ter dado certo antes. E a lutar com unhas e dentes para não precisar dar certo com mais ninguém.


Fim da sessão.

A mudança

Era o terceiro andar, escada abaixo. A cada degrau o sofá pesava mais nos meus braços. “Segura ele pra cima!” – minha mãe orientava. “Não consigo mais!” desabafei enquanto largava o peso morto, apoiando-o sobre o corrimão. Aquele conforto de couro, que já havia acolhido o meu cansaço tantas vezes, agora me fazia suar em meio à musculação que representa fazer a própria mudança. Mudança, essa palhaça desta constante que surge quando você achou que finalmente tinha colocado a casa em ordem. Quando você começa acreditar na existência da estabilidade, vem à mudança, sem hora marcada, dando risada dos planos que você fez e da ordem que conseguiu conquistar. Troca a musica, muda a dança. Chegou a mudança.

Eu nunca tinha me imaginado fazendo o caminho de volta pra casa da minha mãe. Possivelmente porque antes, a ideia de “retornar” tivesse um ar de retrocesso. Passos para trás. Talvez por isso uma parte de mim precisasse de um tempo para respirar antes de arrastar o meu sofá para sua nova posição, lá, embaixo do teto da minha mãe. Quer dizer, o sofá ainda era meu, mas eu não seria a única dona do pedaço. E para quem morou sozinha por mais de 10 anos, compartilhar um teto é uma tarefa – no mínimo – desafiadora. Fato é que a vida tinha nos jogado outra bola curva. Minha família, por razões tão diferentes, quanto parecidas, precisava ficar junta.

E “ficar junto” demanda esforço, como em qualquer outra família. Na minha casa, aquela que era só minha, o controle da TV também era só meu. Eu perambulava pela casa pelada, sem o menor compromisso. As tarefas diárias eram executadas conforme o meu humor, e a rotina da casa obedecia somente às minhas vontades. Neste novo e conhecido lar, não. A TV tem uma programação completa de “Masha e o Urso” e “Tom & Jerry”, alternando, em loop. Eu já não ando mais pelada pela casa, pois a divido com dois mocinhos. As tarefas diárias são compartilhadas em sintonia ritmada, e a rotina da casa obedece às necessidades da família – sem desatender ninguém.

A parte mais engraçada desta mudança, é que surpreendentemente, eu passei a ter mais prazer em voltar para casa depois de um dia puxado, do que quando eu era a única dona do campinho. É como se nesse gap de 10 anos morando sozinha, eu tivesse esquecido das delícias de viver estilo “A Grande Família”, onde tudo é de todo mundo, e todo mundo fala ao mesmo tempo. Adoro quando o meu irmão pula na minha cama, porque acordou com frio, às 6:37 de um sábado. Ou nas fofices que minha mãe faz para deixar meu quarto mais feminino. Ou sobre a arte de comermos juntos. Por que as famílias não comem mais juntas? Um universo familiar inteiro acontece entre o “passa o sal” e o “me alcança o milho, por favor”.       É amor + purê de batata!

Fazer uma mudança, é também revisitar o acumulado. Não dá pra começar uma fase nova, sem uma faxina na vida que já foi. Embalando os meus pertences, revivi muitas memórias, cheirei antigas camisetas, abracei alguns amuletos. Assim como também joguei muito do passado fora. Roupas que eu insistia em guardar, mas que nunca mais irão me servir (graças a Deus, e não ao meu bom senso). Mágoas registradas em cartas de papel amarelado. Um quadro de fotos do ex – que não pode mais ser pendurado em nenhuma das minhas paredes.

Reciclei amizades que já não somam, e coloquei plástico bolha naqueles que nunca vou jogar fora. Voltei a Europa na coleção de postais que nunca saem do meu campo de visão, e joguei pela janela (metaforicamente) extratos bancários e exames médicos. Preenchi malas, mas tentei deixar minha bagagem emocional leve. Pratiquei o desapego, pensando no espaço que preciso abrir para os novos pertences – tangíveis e intangíveis – que quero reunir. Guardar. Dividir.

Acredito que essa é a grande magia da mudança. Ainda que não planejada, ela vem e te convida a recalcular a rota. E fazendo isso… andando por caminhos desconhecidos, ou mesmo revisitando aqueles tão comuns, a gente percebe a beleza da paisagem. Mesmo que a bagagem deixe as nossas costas cansadas. Mesmo que destino nos tire da nossa zona de conforto. A metamorfose é o único pedágio.

– Tá pronta, filha?

– disse minha mãe segurando a outra ponta do meu sofá.

– Tô sim, mãe. Vambora!

– e o sofá ficou mais leve.


Fim da sessão.

O verão é dos solteiros

Desculpem-me os casados. Vocês tem o inverno todinho pra vocês, com viagens delícia para a serra, cobertores de orelha e alguém para esquentar seus pés. Longas horas embaixo das cobertas deflorando o Netflix ou seus próprios corpos – pouco importa o frio que faz lá fora quando o calor está garantido. Enquanto nós, solteiros, padecemos na estação mais fria, com ruas vazias, bolsas de água quente, rezando por um raio de sol que irá nos convidar para passear. Desculpem mesmo, casais, o verão pode até ser bom pra vocês, mas tenho certeza ele é muito mais gentil com os solteiros (comparado aos ventos gelados e nefastos de julho).

Calma, não estou reivindicando que a estação pertença somente aos avulsos – mas a tendência é que o calor destes três meses favoreça a nossa autoestima e interação. Verão tem um quê de libertino, confessa. Uma excitação que emana da pele bronzeada. Uma vontade enlouquecida de beijar na boca. Melll Dells como é bom beijar na boca o ano todo, mas no verão… é sede matada na saliva. É nuca suada. Tudo contribui. A energia positiva das férias, nosso lado aventureiro no último volume e o desejo por novas experiências. Não me considero uma solteira convicta, mas bem mais convencida quando os termômetros aumentam.

Tudo isso porque não há coração que não se aqueça com o sol de verão brilhando lá fora – mesmo que você seja um grande fã do ar condicionado. Tem como fica alheio aos bares e praias lotadas de gente querendo ver gente? Nesse período do ano facilmente toleramos perrengues como engarrafamento, falta de água, asfalto digno de fritar ovo, aedes aegypti e sungas brancas, tudo em prol de se jogar na estação mais sexy. Você faria o mesmo durante as chuvas frias de inverno? Não, no verão cada esforço é uma delicia e costuma ser recompensado.

Adoro que no verão todo fim de tarde tem cara de happy hour, e cada momento longe do trabalho tem peso de diversão obrigatória. O sol nasce mais cedo, empurrando a gente pra fora da cama, sem deixar margem pra preguiça, e se estica até a presença da lua. Por vezes nesta estação, é possível ver os dois juntos, sol e lua flertando no céu (até eles!), misturando dia e noite, numa vontade de viver o melhor de cada minuto – sensação essa, ainda mais urgente para os solteiros. A lua que chega de mansinho, nesta época do ano é contemplada na maioria das vezes perto da água, no mar, rio, lagoa, com seu manto prateado, brilhando toda exibida, tornando o crepúsculo muito mais sensual. Ela que vem anunciar que se o dia foi quente, a noite de verão pode ser ainda mais promissora.

Amo que no verão, a indumentária é relaxada, e a etiqueta sabe ser menos restrita.  A pista de dança aceita o shortinho, o luau não julga o cabelo sujo da praia e as havaianas estão mais em alta do que o salto alto. Marquinha de biquíni tem mais estima que high couture. E para os gatos não é diferente: tênis, bermudas e regatas tem o apelo mais lascivo que um terno engomadinho (repudio qualquer dress code obrigatório no calor). A tendência no verão parece ser o conforto, e menos é mais (graças à Nossa Senhora das Coxas Grossas). Acredito que a gente se apresenta da forma mais sincera, sem pretensão de agradar ninguém – além do próprio ímpeto de curtir a temporada.

Adoro a energia atlética envolvendo o verão. Sedentários do ano todo assumem desafios no futebol de areia, no slackline do parque ou na simples caminhada do final de tarde. E sem falar nos surfistas. Jesus coroado abençoe os surfistas! Com suas pranchas frenéticas pra cima e pra baixo, a procura da onda perfeita – apenas para dar de cara com a velha frustração de todo verão, quando quase sempre o mar é flat, e se não é, tá crowdeado. Mas isso também não é problema, no verão dos solteiros. Tem sempre uma pá de gatas na areia, prontas para oferecer um ombro “amigo” àqueles corpos salgados (me escolhe!). Verão é uma delicia porque vem temperado com suor e por Iemanjá. Endorfina, feromônio – haja coração pra tanta química.

Verão tem churrasco onde os amigos dele se juntam com as suas amigas, e pode até faltar carvão, mas nunca o sexy appeal. Na piscina sempre cabe mais um corpo nu. Tem trilha (e amasso) no meio do mato. Tem música pra fazer o almoço, janta, chalaça e amor. Banheiros são divididos por grandes turmas e camas são por vezes compartilhadas ou trocadas, tudo promovendo o intercâmbio – de momentos, de risadas, de fluídos (com exceção daqueles controlados pela camisinha! Toquinha nele!). Verão é uma bagunça harmoniosa. A gente se permite escalar as pedras da virtude, descobrir novos caminhos e reinventar as relações. A estação vira uma aventura.

E de novo, aqui não estou alegando que os casados não gozam de prazeres similares, ou que o período é apenas digno dos desempregados do coração. Não é isso. É que o verão sabe tratar bem quem ainda não achou sua cara metade. Ele oferece uma estação inteira de possibilidades a 40ºC. A gente pode até se queimar – mas não abre mão do calor que ele promove dentro de um coração solteiro.

“Vem chegando o verão, o calor no coração. Essa magia colorida, são coisas da vida” – Marina já disse.


 

Fim da sessão

A garota antes alegre

“Ela vem?” – “Sim, com toda alegria”;

Ora pois, não há sexta-feira sem sua euforia.

Do seu lado tem riso, piada e graça;

Gostam dela com praia, boteco e cachaça.

Ela é rainha da parceria;

Companhia pra dor e também pra alegria;

Se precisar de ajuda, seu nome é só chamar;

Nunca disse “não” a um amigo, nunca deixou de ajudar.

Eis que numa sexta-feira, o seu belo riso foi da vida embora

E a garota antes alegre, viu sua felicidade caindo fora;

“Vamos chamá-la, ela pode estar precisando de um abraço”

“Acho melhor não, ela precisa mesmo é de tempo e de espaço”.

E assim a garota agora triste, viu muita gente silenciar

Por não saber o que dizer, ou por talvez não importar

A tristeza não era bem-vinda, era melhor não convidar

“Vamos esperar a alegria de volta, para a garota outra vez chamar”

A garota esbravejou pela atenção

que com tantos ousou dedicar;

Viu-se com o coração da mão,

e lágrimas que muita gente não quis secar;

E lá na Lutolândia, quando tão pouca gente foi visitar

A garota viu que era de sua alegria que o povo gostava de adorar

Os poucos amigos que ficaram, ela decidiu pra sempre lembrar

Os demais não levariam rancor, mas algo dentro do peito acabava de mudar

A garota entendeu de vez,

que tantos se afastam de quem está chorando

E nestas horas é melhor ter poucos bons amigos na mão,

do que muitos que só valorizam as risadas, pra longe voando

Mas a garota antes alegre, acredita que um dia a tristeza irá embora

Que o tempo confortará o coração, e lhe trará paz em alguma hora

Prometeu seu sorriso mais lindo, pra quando a felicidade decidir voltar,

E uma vida de abraços para os amigos que do seu lado decidiram ficar.

Então se a dor ensina a gemer,

hoje ela também mostra em quem confiar

Esse versinho veio aqui agradecer,

Quem mesmo na ausência do sorriso, aquela garota conseguiu amar.


Fim da sessão

♥ Amor de verdade, não é aquele que você recebe na melhor versão de si mesmo – mas na pior. Esta foi uma singela homenagem às amigas e amigos que ficaram do meu lado quando mais precisei.

É deles minha eterna gratidão.

Coisa de Antônia: Intolerante à borboletas

No Coisa de Antônia de hoje no ATL Girls da Rede Atlântida,  vamos revisitar o pior sintoma da primavera… as borboletas.

E aí, você tem estômago pra isso? Clique na borboleta e decida:

antônia no divã - intolerante à borboletas (insta)