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Tá fora do carnaval

Preparem suas cuícas, pois ele está chegando. Para os foliões, um alívio ao ver o tão esperando carnaval entrando na avenida das nossas vidas. Para os que odeiam o carnaval, a boa notícia é que logo ele passa, e o ano brasileiro finalmente começa.

Aproveitei o clima de alegria para fazer o contrário da massa. Já que o carnaval é reconhecido como o momento de “liberar geral”, me ocupei de uma listagem daquilo que deveria ficar fora do samba-enredo deste ano.  Alalalôoooooo! Segura o meu batuque:

1) Tá fora do carnaval não entender que não é não.

Desistimos de vez do papinho de que tudo não passa de charminho e acreditemos da literalidade da negativa. “Siga em frente com o resto do bloco, meu bem!”. Foco nos sorrisos convidativos das outras investidas e desista de forçar a barra, a custo de ser confundido com neandertal, e levar um shade (ou um BO) em praça pública no meio da alegria.

2) Tá fora do carnaval julgar a fantasia do coleguinha.

Não importa se é uma diaba bem comportada, ou uma freira di-di saiiiiinha. Se o amigo resolveu vestir as cores do arco-íris (adoro), ou tomou goles de griter e deixou RuPaul no chinelo. Celebre a diversidade naquilo que é tida como a festa mais democrática deste país, sem piada ou atitude retrógrada. Larga desta de “ai que saco, carnaval politicamente correto”, e arrume formas mais originais de se divertir do que à custa do outro.

3) Tá fora do carnaval mijar no que é do outro.

Como uma amante da cerveja, e dona de uma bexiga que parece ser de grávida, eu sei que a tarefa não é fácil. Mas pense na tristeza de quem acorda na quarta-feira de cinzas e tem a calçada inteira tomada pelo mijo alheio. E mijo de bêbado sabe ser cruel, num é? Ah! Senhores donos de restaurantes e barzinhos: deem aquela força pra galera vai! Liberem o banheiro. Quem mija mais, bebe mais e isso é interesse de vocês também.

4) Tá fora do carnaval beber e dirigir.

E não tem mais desculpa. Vai de Uber, vai de Cabify, vai de bus, vai de taxi, vá a merda, mas não vá no volante.

5) Tá fora do carnaval se comportar como se não houvesse amanhã.

Calma! Haverá. E aí haja amanhã pra tanto ontem. Evite passar o ano inteiro de ressaca moral. Carnaval tem todo ano. Use com parcimônia.

6) Tá fora do carnaval ser idiota na cama.

Sim, é sabido que a galera transa mais no carnaval – mas não precisa transar pior. Na alegoria do “Sai Sai da Minha Cama” está aquela gente que não entende o que é preliminar, e só quer ver a mangueira entrar antes mesmo da apoteose estar liberada e “lavada”. Os despreocupados da “Vila de Não tô nem aí pra você” que não perguntam qual a sua alegoria preferida. Os sambistas das antigas da “Salgueiro é meu pau sem camisinha” que forçam sua existência, constrangem passistas e acabam com a folia. Os juízes de escola de samba que criticam quando a escola que desfila está demorando para chegar no ápice. O mestre-sala que tem nojo de descer na porta bandeiras. O abre alas que exige depilação digna de tapa-sexo. A rainha de bateria que finge orgasmo porque acha que é obrigada. Ou a “Vila da Maria vai com as Outras” que cede a pressão dos(as) amigos por qualquer motivo.

7) Tá fora do carnaval também ser idiota fora da cama.

Fingir que não conhece o/a coleguinha de escola de samba no dia seguinte. Tirar fotos de desfile intimo e divulgar para a arquibancada. Chamar foliões de nomes depreciativos porque estão na rua pra sambar. Regular beijo quando se está afim. Acreditar que amor de carnaval, não pode ser amor da vida inteira.

E por último mas não menos importante: Tá fora do carnaval não se divertir. E que a sua diversão, entenda e respeite a diversão do outro.

Afinal, respeito tem desfile nota 10, faça parte dele.


Fim da sessão

Bônus – Samba as Avessas de Pâmela Amaro, democratizando a malandragem:

Feliz ano novo: pazes com o tempo!

Chegou o momento daquele olho no olho. O vídeo de final de ano de ano no nosso querido divã. Gatedo, que em 2017 a gente faça as pazes com o tempo:

Fim da sessão.

Na sarjeta

Em novembro do ano passado houve o maior rebuliço porque a diva Letícia Sabatella, depois de uma noitada com os amigos, rolou no chão de tanto rir em alguma sarjeta de Brasília. A mídia massivamente criticou o comportamento “indigno” da atriz. Ela, por sua vez, tirou de letra o “mimimi” rebatendo categoricamente com a frase Que auê por causa de uma noitada de cantoria e pisco sauer com os amigos! Deitar no chão de tanto rir, beber do céu as estrelas. Me recuso a sentir vergonha”. A crítica, entretanto tinha um viés de preconceito quanto ao cenário do pileque. Talvez se o porre de Letícia tivesse sido em um requintado camarote de uma luxuosa casa noturna, o fato não teria chamado tanta atenção. O problema é que Letícia estava na sarjeta, e a sarjeta – injustamente – estava em baixa.

Por influencia do post musical pré-feriado ou por puro destino, eu também tive um momento “deitaço Sabatella” na sarjeta neste feriado. Assim como Letícia, me peguei chorando de rir com as amigas em um ambiente menos requintado, o que resultou em uma noite na tão democrática e recepctiva sarjeta. Óbvio que o plano não era este. Ninguém sai de casa dizendo “vamos passar rímel e ir curtir a noite bebendo com estranhos sentados na calçada”. Não. A ideia, como sempre, era sair no local mais pop do bairro mais badalado do destino mais cobiçado daquele feriado. A Larissa, nossa anfitriã, orientou “nós vamos num lugar mais top, mais arrumadinho, então invistam no look” – ela falou enquanto eu investia era num shortinhos e numa rasteirinha.

Depois de algumas horas na balada pica das galáxias com doses de vodka a R$ 17,00, recolhemos a nossa alegria da pista e nos encaminhamos pra saída sob a orientação de seguranças carrancudos.  Ao contrário de nossa energia, a festa tinha acabado. A Larissa então, por conta da nossa evidente frustração – sugere uma última cerveja no posto da esquina. No posto, pegamos nossas cervejas geladas de R$ 3,75, e sentamos na rua mesmo.

O que aconteceu em seguida é algo que só consigo descrever como mágico. Pouco a pouco, pessoas juntam-se a nós com o único objetivo de dividir aquele modus operandi – cerveja gelada + sarjeta. Minutos depois apareceu um violão, logo mais um pandeiro, daqui a pouco dois pandeiros, e muito em breve uma madrinha de bateria – a Luciana, e no caso a mais sofisticada das minhas amigas. Ali, com toda a sua loirice de duquesa sambando como quem segura um standart imaginário em meio a uma comunidade carnavalesca.

Peguei-me instintivamente analisando a cena. Sentados na mesma sarjeta estavam patricinhas gaúchas, playboys paulistas, garçons de folga, artistas de rua, músicos de ocasião. Éramos todos um grande e heterogêneo grupo, mas ali sem qualquer distinção de berço, sobrenome, cor, idade, educação ou status social. Na sarjeta, não tinha pulseirinha VIP. Ali na sarjeta, o banheiro era o bequinho com vista pra praia, vigiado por um amigo para alguma segurança e privacidade.

Ali na sarjeta, o malandro ensinava um novo cumprimento para o mauricinho, e contava o sonho de fazer engenharia. Ali na sarjeta, um viajante da Australia sentia saudade das sete crianças que adotou na terra dos cangurus. Na sarjeta, o sambista que me ensinava passos novos tinha diamantes maiores que os meus nas orelhas. Nas duas orelhas. Ali, minha amiga Caren tocava pandeiro, ela que teve aulas de violino quando pequena com um instrumento vindo da Rússia –  enquanto um moreno alto com a cara do Seu Jorge puxava mais uma no violão. Ali na sarjeta, como diria Martinho da Vila, se “tem alguém cantando todo mundo canta, todo mundo dança, todo mundo samba, e ninguém se cansa”. É democracia e sintonia na mais pura essência.

Não pude evitar em repassar na minha cabeça todas as listas que já havia pedido para incluir meu nome. Em quantos esquemas de camarote eu já havia entrado. Quantos backstage, onstage, frontstage, motherfucker stage, eu tivera que usar todo o meu latim pra provar ser digna. Festas de gente que não enxerga ninguém além do próprio reflexo na tela do celular. Eventos que ninguém conversa, mas todo mundo se “curte/like”. Ali na sarjeta eu não era filha de empresário. Eu era filha do samba. Ali na sarjeta eu não tinha MBA de “business in London”. Eu era ph.D em standup comedy e “blogueira” por paixão. Ali na sarjeta ninguém me olhava de cima ou se importava com meu sobrenome. Todo mundo me olhava no olho e sabia o meu nome.

Peguei o caminho de casa quando o sol raiou com o cotovelo esfolado da minha tentativa de andar de skate e uma tatuagem de canetinha feita por um artista de rua no meu braço. No bolso R$20,00 amassados, uma rosa feita de guardanapo e a indicação de um contador que vai fazer fazer meu imposto de renda “na faixa”. Eu tinha dado tanta risada que havia ficado afônica. Eu me sentia rica de alegria. Antes de dormir fiz uma prece sincera para nunca me esquecer da simplicidade daquela noite. Entendi que talvez fosse quando eu paro querer estar no topo do mundo com a cabeça nos ares, que eu encontre conforto com os pés bem no chão. Ali na sarjeta mesmo, onde Letícia Sabatella, eu, todo mundo é bamba. “Onde todo mundo bebe, todo mundo samba”.


Fim da sessão