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Aceita idiota

Quando eu tinha uns 7 ou 8 anos eu era obcecada pelo mar. Aquela imensidão azul tinha uma força de atração indescritível sobre mim. E para o desespero da minha mãe, eu tinha pouquíssimo receio quanto os perigos e mistérios das marés. Por vezes vi minha mãe surtando na areia enquanto me desbravava para além da arrebentação das ondas, contando apenas com meus pequenos braços e pernas para a jornada até uma boia ou embarcação ancorada lá no “fundão“. Ainda que relativamente perto da praia, as minhas metas ficavam distantes da segurança da beira e dos olhos de minha mãe.  Quando atingia o meu objetivo, ficava lá, agarrada à minha conquista – uma boia de pesca, um casco de barco – olhando intrigada para a profundidade da água abaixo das minhas nadadeiras e encarando a lonjura da minha trajetória desde a praia. Depois eu voltava para a beira do mar, junto das outras crianças, e ouvia o sermão de minha mãe, que não minimizava o meu sentimento de vitória.

Hoje eu tenho medo de me aventurar no mar profundo. Tubarão, o fato de não conseguir enxergar o chão, pânico, ou pior ainda, a possibilidade de me afogar e ser retirada em público por um salva-vidas – um mico. E isso me faz pensar na melhor parte de ser criança: a ausência de medo. Medo de se machucar, de errar, de se envergonhar. É por conta desta bravura que a infância configura como o momento de maior aprendizado de toda a nossa vida. Ou você aprenderia a andar de bicicleta se soubesse que poderia quebrar o braço? E aí entravam os nossos pais, é claro, os nossos guardiões cujo objetivo principal dos primeiros anos da infância era justamente minimizar os efeitos negativos desta nossa coragem incondicional.

Na grande maioria das vezes foram os nossos pais que nos alertaram sobre os riscos, calibraram a nossa inquietude, nos prepararam para as decepções.  E assim, fomos absorvendo os pudores deles e criando os nossos próprios, através dos tombos que levamos. Cada dia ponderando mais os nossos atos de bravura. A segurança da areia da praia passou a ser mais atrativa, e o mar cada vez mais cheio de dúvidas, promovendo caldos cada vez mais salgados. Devagarinho, a decisão de entrar em certos mares já parecia não ter mais sentido. Afinal ser adulto envolvia muito mais prevenir do que remediar. Talvez aqui coubesse uma explicação para a minha obsessão por surfistas.  Porque são adultos com bravura de crianças. Superando os tombos e caldos pela possibilidade da diversão e da cabeça feita.

Eu confesso sofro constantemente com o medo, ainda que para a maioria das pessoas, eu seja bastante corajosa. Tenho medo das minhas decisões. Medo da solidão, da morte, da dor. Medo do futuro. Entretanto, dentre todas as possibilidades reais dos riscos que corro simplesmente por estar viva, um medo me ocupa mais do que qualquer outro. O medo de ser idiota. Ou de ser feita de idiota. Por conta deste pavor chamado “o que os outros vão pensar de mim” eu criei mecanismos de defesa eficazes para não me expor. Ou pelo menos, para minimizar as consequências sempre que eu me expusesse (ora, eu sou aquela que assina esta pagina sob um pseudônimo, lembram?).

Eu passei a desenvolver justificativas para as atitudes que não tomo com vergonha da avaliação alheia. Construí muros em volta do meu coração, afinal, pior que sofrer de amor, é ter o ego ferido por um idiota que te fez de idiota. E foi justamente por medo de ser feita de idiota que eu perdi o talento de acreditar nas pessoas de imediato. Foi por medo da crítica, que eu parei de dançar como se não houvesse ninguém olhando. Comecei a me preocupar com o volume da minha risada. Tornei-me menos arriada e mais formal, e sempre que pude, dei um jeito de abafar a criança serelepe que morava em mim.

No último final de semana fiz uma imersão de 24h na nobre arte na palhaçaria. E lá entreguei-me sem muitos pré-conceitos ou pudores. Dentre as inúmeras pautas abordadas, daquelas imersões que colocam tuas entranhas para fora, nós estudamos o efeito criança. Ou a falta do efeito criança na vida adulta. A escassez do nosso lado lúdico, imaginário – representado no exercício através de um nariz de palhaço. Aquele momento levantou uma a uma todas as vezes que escutei que eu parecia mais nova do que a minha idade – não pela minha cútis de pêssego, mas pela minha atitude com “frescor juvenil”. Essa atitude, entretanto, sempre que apontada como a fonte da minha juventude, me deixava constrangida. Com ela eu me julgava “abobalhada”. Uma idiota.

Durante a imersão, repassei um filme da minha historia na minha cabeça, e contabilizei mentalmente a energia que havia gasto durante a minha fase adulta, tentando sentar direito, falar corretamente e me vestir de acordo com a minha idade. Um esforço enorme para uma desadequada, desbocada e espaçosa como eu, tudo para que talvez um dia o mundo me levasse a sério.  Eu me sentia uma deslocada por conta da minha criancice viva. Até me dar conta de que no fundo, eu não quero mesmo que o mundo me leve a sério. Até concluir que as pessoas que eu mais admiro, tem sua criança viva e bem tratada além dos 50 anos. Até entender que sem a minha criança ativa, eu invento, sonho e construo muito menos. E que quando me preocupo em não parecer idiota para os outros, eu acabo errando muito mais. Comigo.

No final de uma das etapas do curso, deitei no chão em um exercício em que deveria revisitar o meu lugar preferido da infância. Armada de meu nariz de palhaço fui jogada de volta para a Praia de Bombinhas-SC, na beira do mar escolhendo uma embarcação ancorada. A embarcação desta vez não era um pequeno barco ou uma boia, como de costume, mas um barco a velas, com uma caveira em sua bandeira. Isso era 1990 e poucos, quando raríssimas embarcações piratas ainda circulavam pelo Brasil. Vi meu eu de 7 anos, vestida de um biquíni amarelinho da Hello Kitty e muita coragem, fazendo planos de viagens mar a fora. Bastava eu nadar até o casco, subir e me apresentar ao capitão do convés e oferecer os meus serviços para aquela travessia. Bem, aos 31, eu voltei a ser pirata, e encarei uma travessia.

Talvez hoje, eu não ande por aí em navios pirata cruzando águas desconhecidas. Mas na minha travessia eu me comprometi com pelo menos três metas/tesouros: voltar a entrar no mar sem medo, enaltecer e proteger cada vez mais a criança que existe em mim, e aceitar que eu sou mesmo uma idiota – de nariz de palhaço e tudo mais. E que ninguém tem nada com isso.


Fim da sessão

Diferente, de Bowie

O mundo ontem foi tomado pela dor da despedida de um artista único. David Bowie, vanguarda como apenas ele sabia ser, em seus últimos momentos despediu-se antes mesmo de fechar os olhos, presenteando fãs com o hit Lazarus, do álbum Blackstar. Em tom melancólico e nostálgico, sua música anunciava a saudade antecipada do camaleão do rock. Nossa saudade. Sobre o talento, não ficou nenhuma dúvida. Bowie foi ousado, livre da expectativa do mainstream. Ele não flutuou nas tendências – ditou-as. Influenciou o cenário musical, as artes, a moda. Fez contribuições sociais, questionando paradigmas, discutindo comportamentos. David não era deste mundo, talvez por isso precisasse do alienígena Ziggy para habitar entre nós. Ora, e quem nunca se sentiu um extraterrestre por aqui, não é mesmo?

Foi pensando nisso, nesse sentimento de não-pertencimento, que fiquei mais alarmada com a despedida de Bowie. Perdíamos um representante dos misfits, dos underdogs, dos outcasts. Óbvio que a partida de alguém do calibre de Bowie, por si só, geraria uma grande comoção. A minha surpresa, entretanto, foi que na paralela do talento, Bowie foi saudado por sua excentricidade. Sua diferenciação. Bowie foi (e seguirá sendo) comemorado por sua liberdade, pela alma alforriada, pela mente emancipada do resto do mundo. Quem de nós não gostaria de tal independência? Comportar-se atendendo aos desejos, mais que às ponderações e limitações de outrem? Pintar o rosto com o abstrato do sentir, ao invés do regulado da moda? Amar quem bem entender. Eu invejo Bowie. Aliás, invejo e me desconserto com o efeito dele.

Nesse processo de despedida de uma estrela de brilho único, vi gente que apoia a androgenia de Bowie, mas não suporta os transexuais. Reparei certo antagonismo no processo. Não era Bowie que tanto celebrou a transfiguração, com suas blusas de mangas bufantes, seu colorido vibrante, seu batom neon?  Li declarações de amor à distinção do cantor, dos mesmos indivíduos que descriminam as diferenças nas “pessoas comuns” – seja pela cor da pele, pela opção sexual, o dito “lugar de homem” ou “lugar de mulher”. E me peguei pensando: como alguém que transitava livremente entre tantos contextos pode ser tão aclamado, pelo mesmo grupo que adora apontar as diferenças? Pelo roqueiro que faz mal juízo do cara que curte sertanejo apenas porque seus gostos divergem. E não foi Bowie que uniu o rock ao punk, ao blues, ao folk? Esquecemo-nos que ele não dividia estilos, misturava-os, somava e então multiplicava. Não seria essa sua maior lição? O aprendizado a partir das diferenças?

Se olharmos a fundo a trajetória de todo criativo como ele, veremos que a vanguarda é um lugar muito solitário. Antes do reconhecimento de Bowie, ele era apenas um grande potencial incompreendido, um peixe fora d’água. Aos 17 anos criou um grupo de apoio ao cabelo comprido, estilo depreciado na antiga Inglaterra. Queria suas escolhas respeitadas – e esse processo é sempre dolorido pra quem é diferente, ou ousou nadar contra a maré. Quem dita tendência, é também quem recebe crítica, e desta forma acaba optando muitas vezes pela introspecção antes de qualquer extroversão. Lady Gaga usou a música para tratar de sua depressão, ansiedade e falta de aceitação própria. Lionel Messi recebeu ontem (e pela 5ª vez) o troféu de melhor do mundo, sendo que o futebol foi a ferramenta usada inicialmente para vencer o autismo e a baixa estatura.  Ou seja, gente que teve que superar as próprias diferenças para poder dizer para o mundo, “Sou diferente sim e eu arraso. Chupa essa manga!”. Criaram realidades dentro de seus próprios termos para vencer, inspirando-nos. Ok, talvez você não queira ser um rockstar ou ganhar a Bola de Ouro do futebol mundial. Mas quem de nós não luta diariamente por aceitação, para produzir, criar, ser feliz, gozar, amar? Bowie olhava o mundo de forma diferente (caralho, o cara tinha inclusive um olho diferente do outro!). Quem de nós tem essa coragem?

Ao invés disso mantemos nossos gostos, comportamentos, sexualidade, reprimidos e rotulados. Cultivamos uma aversão e medo a tudo que é diferente – precisamos logo responder a estas equações que nos desconsertam, ao invés de festejar a novidade. Dizemos-nos bem resolvidos, mas falamos mal da saia alheia, logo acusando “puta”, desconfiamos de olhos pintados, declarando “emo”, “gótico”. E neste mesmo universo então, temos o garoto de Brixton que foi reconhecido por sua estranheza, tanto quanto foi pelo seu talento na música. Excentricidade – veja bem, me parece que combina com sucesso, holofotes, plateias. Então por que não combina com o anonimato? Estranhos anônimos são apenas estranhos, deslocados, preteridos. O meu lado travesti e dramático chora por essa inversão de valores. Talvez não por mim, que já aprendi com a hipocrisia da nossa sociedade, mas fico pensando nas novas gerações de seres peculiares e excêntricos que vem por aí. Meu irmão Mateus, é um pequeno exemplo deste desafio. No auge dos seus cinco anos ele é obcecado pela cor rosa e por tudo que brilha. Devo ensiná-lo de que o mesmo mundo que adora a singularidade de David Bowie vai achar que ele é estranho, desajustado, desconectado? Não, eu gosto de pensar que meu irmão terá a alma de artista como eu, e beirando a rebeldia vai exaltar uma vida colorida e excepcional, como ele julgar melhor. Espero que ele aprenda que ser diferente pode ser fantástico. E torço que o mundo se torne um lugar mais tolerante para que ele possa ser diferente, assim, de boa.

Ou melhor, de Bowie.


Fim da sessão

PS: Numa pauta mais pessoal, o meu irmão Leonardo tinha uma expressão que ele adorava que dizia “Vai, Carlos, vai ser gauche na vida”, em referência ao “Poema de Sete Faces” de Drummond, onde gauche pode ser traduzido como “esquerdo”, “diferente”, “incompatível” ou “deslocado”. Dias antes de falecer, o Léo entregou ao Mateus um presente – um microfone do filme Frozen, colorido de rosa, roxo, azul e prateado brilhante. Acho que esse era o jeito dele dizer pro Mateus, “Vai meu irmão, vai ser gauche na vida”. Vai ser Bowie na vida.