Respira, não pira.

No começo de tudo, eu não escolhi deitar num divã. Não mesmo. Eu me vi obrigada a deitar nele. Sim, obrigada. Até porque ninguém acorda no auge dos 20 anos e decide “quero me analisar”– sendo esta a idade em que acreditamos saber basicamente de tudo. Pois eu só virei Antônia no Divã porque precisei muito. E o motivo, não era feliz.

Era o primeiro divorcio que eu enfrentava, e rezo que também o último. Orquestrando a discórdia, meus pais – que antes do divórcio eram meus ídolos incontestáveis, e que durante o divórcio tornaram-se dois trens descarrilhados. Minha mãe estava fraca, chorando perdida no chão do nosso lar em ruptura. Meu pai estava descontrolado, mergulhando em seus excessos e proferindo ofensas das quais eu jamais antes havia tomado conhecimento. Na época o meu irmão não era o homem que é hoje. Era um adolescente assustado que não chorava, e também não reagia. Foram longínquos dois anos entre segurar a mão do meu irmão, dar apoio a minha mãe e enfiar lucidez goela abaixo no meu pai, até que tudo se resolvesse. Antes do fim, entretanto, algo em mim se quebrou. O controle. O meu controle.

Foram necessários três cardiologistas e dois neurologistas para diagnosticar a causa das minhas constantes taquicardias, faltas de ar e eventuais desmaios, que me faziam passar mais tempo no hospital do que em qualquer outro lugar.  O último dos especialistas com quem me consultei, analisou longamente meus exames, para então perguntar o que faltava no meu prontuário: “como estão as coisas em casa?”. Na hora, eu desandei a chorar de tal forma, que não foi preciso mais nada para concluir: eu me tornara mais uma vítima da síndrome do pânico.

O primeiro desafio foi administrar que eu tinha um problema. Que não era louca. Nem fresca. E aceitar que muitas pessoas não iriam entender e que elas não tinham nada a ver com isso. Mas principalmente, aprender que podia vencer aquela condição. Depois disso foi a hora de escolher o caminho a ser trilhado. Quando fui diagnosticada, fui medicada durante uma semana com pequenos comprimidos saídos de caixas tarjadas de preto. Neste período tive a sensação de estar presa dentro de mim mesma, de corpo presente e mente em um universo paralelo. Foi lá que eu escolhi o caminho mais longo, o do autoconhecimento. Decidi que ao invés de anular as sensações, tinha que entendê-las. Enfrentá-las, acalma-las. Logo, ‘estar em análise’ começou a fazer parte de mim. Deitar no divã tornou-se uma escolha, apesar de eu me sentir pelada cada vez que fazia. Tinha que me despir das culpas, medos e julgamentos, e aos poucos fui recuperando o meu controle.

Tempos depois de  ganhar alta da terapia, um amigo sugeriu que eu fizesse um curso de respiração/meditação. Na verdade o curso é bem mais amplo que isso –  Happiness Program –  eles chamaram, A Arte de Viver (e que aqui não terei a pretensão de explicá-lo, apenas de enormemente recomendá-lo). Na ocasião do curso, achei que poderia ser mais uma vertente para entender a encruzilhada que ainda é a minha cabecinha. A verdade é que o encontro foi mais profundo do que esperava. Dentre o vasto leque de ensinamentos passados, a programação incluía um treinamento intenso da arte de simplesmente respirar. Respirar, sabe, aquilo que a gente faz sem perceber? Confesso que fui extremamente cética no início, até me dar conta de quantas vezes e por quais motivos eu deixava de respirar.

Uma vez a minha atenção voltada para a respiração, percebi que prendia o ar sempre que estava escutando o meu chefe falar uma besteira, tentando controlar o ímpeto de jogar uma cadeira nele. Que trancava a respiração toda vez que abria a fatura do meu cartão de crédito. Que evitava respirar profundamente quando discutia com meu pai, porque o meu peito tendia a transbordar em lágrimas. Que o meu pulmão tencionava cada vez que eu pensava no futuro – inspirando mais preocupação do que oxigênio. Que quase ficava roxa esperando o “digitando…” do whatsapp quando em conversa com alguém importante. Que me esquecia de respirar toda vez que a minha mãe dizia que tinha um assunto sério pra falar comigo. Então perceba, não que eu seja uma pessoa com mais problemas do que as outras. Ainda assim eu precisava parar de abrir mão de algo fundamental: respirar! Precisava respirar pra não pirar.

Terminado o curso me dei conta que os exercícios me ajudariam a controlar a ansiedade em longo prazo, somente se eu me comprometesse com a disciplina de executá-los (algo extremamente difícil para uma aquariana, essa coisa da disciplina). Óbvio que eu tentei algumas vezes, e logo desisti, voltando a prender o ar a cada tropeço da vida ou TPM.  Aceitei que era mais fácil ficar estressada e ansiosa, do que me disciplinar a fazer o contrário. Até que no final de semana passado, após um longo período sem qualquer tipo de crise de pânico, me vi sem ar e com o coração pulsando dentro da garganta. Eu estava na praia, lugar que mais amo no mundo, sem qualquer motivo óbvio pra entrar em parafuso. Mas entrei. Naquele momento eu tinha a opção de enfrentar a ida ao hospital, como sempre fiz, ou enfrentar o desafio de me dar solução através da respiração.  Decidi encarar a obviedade e complexidade da cura interna.

Sentei na posição que me foi ensinada. Fiz os exercícios um a um, me concentrando apenas na contagem e no barulho do mar. Tudo muito mecânico e com a pouquíssima destreza que tinha na execução. Aos poucos o coração desceu da garganta. Aos poucos o ar voltou para os meus pulmões.  Aos poucos eu estava relaxada. Aos poucos eu voltara a ser dona de mim mesma. O choque foi de 220volts! Fiquei encantada com o poder que tinha nas mãos/pulmões/mente. Ok, “mas pra que este alvoroço por UMA vitória dentro de uma constate guerra?”. Bom, aquela fora a primeira que venci sozinha. E eu respeito muito o valor dos primeiros passos.

Naquele momento, entre o pânico e a cura, compreendi que somos os instantes que vivemos. De corpo e alma. E que por vezes é preciso fazer a escolha de deixar pra trás, tudo que não te leva pra frente, focando em algo muito mais simples, básico e fundamental. É parar por alguns minutos em silêncio e trocar o modus operandi (inspira e expira). Se obrigar, ainda que mecanicamente (num primeiro momento) a aquietar o que está inquieto (inspira e expira). Com o tempo… (inspira e expira) ahhh, com o tempo vai passar a ser como a água de um rio, vai indo, transformando, renovando, movimentando – pegando fluidez.

Hoje arrisco a dizer que seja somente através do processo de tranquilizar mente e o coração, que nos abriremos para as situações pelas quais realmente valem a pena perder o ar: momentos de contemplação da felicidade, surpresas bem-vindas, banhos de mar gelado e beijos de tirar o fôlego.

Para todo resto: inspira e expira. Respira, não pira.


Fim da sessão.

49 ideias sobre “Respira, não pira.”

    1. Ana, eu tinha vários. A grande maioria envolvendo a instabilidade do futuro. Hoje eu sei que não posso tornar estável o mundo a minha volta, mas posso coordenadar a estabilidade dentro de mim. Eu sigo tendo medos – a diferença é que hoje eles já não me paralisam mais. Espero que tenha esclarecido tua dúvida. Beijocas

          1. Já passei por isso. Porém mais leve que o seu.. Tb admiro os primeiros passos, eles são fundamentais..A cura é interior. E tdo na vida é passageiro. Boa sorte e sucesso na sua vida!

  1. Oi Antônia, veja bem… recebi a sua postagem de uma amiga, e antes disso, desde o momento em que acordei já estava com crise de pânico, falta de ar, falta de concentração, sensação de desmaio, aqueles sintomas todos que infelizmente acho que você está familiarizada, no trabalho, já começando a ficar mais forte os sintomas, fui ao banheiro e pedi pra Deus: Pai, se eu tiver que voltar a tomar os medicamentos, me dá um sinal! Logo que me sentei na mesa minha amiga me mandou o link para esta página. Acho que fui atendida, né?! Rs
    Acho que tenho síndrome do pânico desde bem jovem, mas nunca soube o que era e obviamente nunca soube lidar, mas nunca havia procurado terapia muito menos psiquiatras para tratar do problema, sempre achei que isso era um problema bobo até que começou a situação ficou insustentável. Procurei os dois, psicólogo e psiquiatra, comecei a tomar medicações, mas nunca gostei muito da ideia e quando me senti melhor parei a medicação por conta, porém logo as crises voltaram a acontecer.
    Aí que pedi a Deus que me desse um sinal e ele me deu!
    Obrigada por compartilhar, é de grande valia saber que não é só com a gente que essas coisas acontecem e dividir, mesmo que de longe essa “dor” com alguém é reconfortante. Desejo a cura pra você, abraços!

    1. Olá Anônimo(a)! Fico muito feliz em receber comentários como o teu, noto então que o que eu faço tem propósito e é bom pra alguém (além de ser bom pra mim, claro). Demorei a controlar meus demônios, e em alguns dias eles ainda dão o ar da graça. A diferença é que hoje eu aceito que isso faz parte da minha história, uma parte importante sem a qual eu jamais teria procurado ajuda pra “me entender”; E todo mundo precisa de ajuda. Alguns nunca pedem e por isso nunca recebem. Outros, pedem, recebem e retribuem. E o mundo volta a ser um lugar lindo de viver. Exemplo disso foi a tua mensagem. Fez meu dia um dia lindo de viver! Siga forte. Meu ombro/divã tá sempre aqui. Beijocas

  2. Nossa Antônia, quantas similitudes! Tenho um contexto familiar similiar e há mais de dois anos tive duas crises de pânico em uma semana, a última e pior foi no mar, em um mar calmo e muito familiar, estava de joelhos e surtei, sentia que tinha um abismo brutal a frente do meu joelho. Ainda não tinha aprendido a respirar. Foi então que decidi por me cuidar e ter saúde física, mental e espiritual. Com o desdobramento dos conhecimentos e o curso do rio, acabei conhecendo o budismo de Nitiren Daishonin, há exatos dois anos a vida passou a ter uma auto consciência incrível da simplicidade e complexidade que nossa mente e o universo tem, quando alinhados, a respiração e a vida segue num ritmo perfeito. Gosto bastante dos seus textos. Muito próximos. Gratidão pelo (com)partilhamento.

  3. Como diria a linda música cantada pela Leila Pinheiro…. “tudo é uma questão de manter, a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo” e outra parte eu amo: “…viver é afinar o instrumento, de dentro prá fora, de fora prá dentro. A toda hora, todo momento.”
    Parabéns de novo e de novo…tô viciando em seus textos. Eles dão aquele soco nas costas que a gente gosta de levar quando tem dores na coluna…rsrs (deu pra entender?…)

    1. HAhahaha. As pessoas seguem me escrevendo dizendo que dou porrada. Juro que são “socos” “tapas na cara” “sacudões”, cheios de amor. como os que já levei! (ok, nem todos, mas a maioria). Beijos e volta sempre

  4. O texto é ótimo, espero que as pessoas possam entender que a Síndrome do Pânico não é frescura, é algo sério, muito sério. Que existem recursos (como a respiração) para tentar amenizar sozinho, mas é muito importante o atendimento em psicologia. Sou Psicoterapeuta Cognitivo-Comportamental e o primeiro grande passo que “apresento” para os meus pacientes é a respeito das técnicas de respiração, mas é o autoconhecimento e o controle que aprende a ter de si que faz toda a diferença.
    Parabéns pelo texto, pelos passos caminhados e a sensibilidade de expor algo tão importante nos dias de hoje.
    Beijos

  5. Quando aprendemos a viver e isso inclui saber respirar o ar que nos faz saudável e jogar prá fora o que nos faz mal, a vida flui melhor e tudo fica claro em nossa mente. Obrigada Antônia, mais uma vez, por esse texto esclarecedor e por dividir conosco os seus pânicos.

  6. Adorei conhecer seu blog! Incrível como as dores e os amores de nós, adoráveis humanos, se repetem… e é lindo ver como conseguimos nos ressignificar apesar de tantos tropeços e desafetos! Amo viver e sinto essa energia em você também e sinto também, como no meu caso, foi conquistada passo a passo e por isso é sustentável 🙂 meu blog é http://www.porquevocemerece.com Vou adorar te ver por lá 🙂 Beijo e ARTEabraço!

  7. Sei bem o quanto é doloroso o pânico, sofri com ele durante alguns anos. Ele paralisou minha vida e me aprisionou completamente. Aos poucos fui tentando entender o que havia comigo e passei a escutar meu corpo e suas reações tão específicas. Sempre que sentia chegar tentava controlar e buscar o que tinha sido o detonador da crise. Acreditei que sozinha superaria o problema, ledo engano e parti para a terapia.Já havia começado e parado diversas vezes. A terapia é um processo delicado onde acabamos nos deparando com sentimentos que preferimos não ter contato.
    Bom do pânico a fobia social. Impossibilitada de assinar e agora com uma certeza : desistir da terapia nunca mais!

    1. Cristina, os efeitos podem ser diversos, tenho amigas com as mesmas reações que você experimentou. Não tem outra saída do que mergulhar em si mesma e procurar o remédio. Não tem em outro lugar, não é? Beijocas e fica bem! Respira! 🙂

  8. E aí Antônia! Está tudo bem agora?

    Os casos:
    1- Meu pai mostrou para mim e para meu irmão, Eduardo, um Long Play (LP, o bolachão preto, aquele que tem que colocar a agulha para ouvir), que tinha em seu conteúdo, uma aula de relaxamento. Imagina a voz do locutor, igual aquelas dos radialistas quando querem mostrar uma filmagem antiga. Mas seu conteúdo foi realmente muito bom para os dois. Foi apresentado todo um processo de concentração com evolução que passava do se portar de forma bem relaxada até a sua completa sensação de que todo seu corpo estava sob controle de sua mente.
    Os passos apresentados devem ser diferentes do que você aprendeu, mas o objetivo sempre o mesmo, se concentrar e relaxar. Com o tempo, como demonstrado no curso, você consegue “ativar” esse momento máximo com apenas uma concentração mais rápida e em posições que não necessariamente seria a mais correta, porém, possível de alcançar tal pico de relaxamento.

    2 – Muito aflito com muitas situações e me sentindo mal a ponto de explodir com as pessoas ao meu redor, tomei a atitude de ir ao cardiologista para fazer uns exames. Ao chegar minha vez, estava até aflito com o que conversar com o médico. Com uma simpatia que faria o bigodinho perdoar qualquer judeu, após o inicio do bate papo, o cara tomou a mesmíssima atitude sofrida por você. Viu que o problema é mais em cima, nas profundezas do nosso mar de confusões que chamamos de mente humana, dentro do nosso cérebro. Daí, fomos batendo um papo que se estendeu até meu sonho de morar em Londres e diversos outros assuntos. A emoção transbordou o momento tornando-o um agradável remédio para o encaminhamento de melhora dos diversos pontos que não estavam sintonizados. Resultado: foi receitado um remédio dito como fraco, para tomar por duas semanas, para tranquilizar minhas inquietações. O comentário do médico foi o seguinte: “…depois que saí do hospital onde atendia a pacientes com problemas cardíacos, e montei esta clínica, agora atendo pacientes com problemas emocionais…”

    Conclusão: nada melhor que nos tocarmos quanto à vida que estamos vivendo, fazendo o máximo para tranquilizar o ambiente ao nosso redor.

    Paz a todos. Abraço.

  9. Antônia…..Eu respiro qdo abro meu email e vejo que tem uma nova postagem sua,,,,Mas eu piro qdo não posso ler na hora!!!! rsrsrsrs….Adorei o post!

  10. Mto bom. Sinto isso tb, e sempre me controlei sozinha dessa forma. Não quero remédios, acredito q a soluçao está em nós mesmos. As crises diminuíram mto, há alguns meses que não trnho.

  11. Amei esse texto. ! Minha filha teve síndrome do pânico com 18 anos e eu pirei pq não me conformava com esse problema…Eu dizia para ela: vc tem tudo que quer, vai onde quer , tem uma família linda! Porque vc esta assim????? Fomos ao medico e ele falou: não vou receitar nenhum remédio….vá dançar, passear, espairecer e não leve tudo muito a sério e não se cobre demais….Aos pouco ela foi melhorando…..Graças à Deus !

  12. Uau.. Lindo texto. Neste momento tenho usado bastante essa técnica de inspirar e expira e tem me ajudado a manter a ansiedade sobre controle. Parabéns pelo texto.

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