O tombo

Eu sempre tive e admirei gatos por sua capacidade inquestionável de dar conta do improvável. Como enfrentar uma queda não planejada e cair sob suas quatro patas. Lembro-me de ser pequena e desafiá-los a situações adversas só para vê-los superá-las. Caindo sempre sob quatro patas.

Na minha vida, por algum tempo, também fui assim. Me desafiava constantemente a superar situações adversas. Muitas vezes fiz como fazia com meus gatos, e coloquei-me em situações adversas de propósito, apenas para testar minha capacidade de resolução. Obvio que com o tempo isso se tornou arriscado e cansativo, e com a chegada a maturidade (isso aconteceu?!) parei de procurar conflitos, e me contentei em rebater os desafios da vida. Sempre buscando cair sob as minhas quatro patas.

Isso até aquele casamento. Aquele casamento me marcou.

Era uma celebração linda. Na beira de um rio ao pôr do sol, sob a proteção de um majestoso carvalho e doces palavras de uma juíza de paz. Celebrávamos o amor da Franchesca e do Julio, com lágrimas de alegria e também de despedida, pois os dois iriam morar em um paraíso distante de nós, dias depois do casamento. Abençoamos os noivos com areias coloridas e desejos de diversas vibrações positivas. Tudo estava naquele vaso multicor: cumplicidade, compaixão, saúde, alegria, paz e amor. Muito amor.

O casamento seguiu deslumbrante, e as borbulhas rolavam cedo em nossas taças. Na minha mesa, um buque com as minhas flores preferidas: Melina, Tamara, Taíssa, Uana e a Mana, a irmã mais nova da Uana. Entre canapés e quitutes, mais borbulhas. Confesso que logo cedo fiquei preocupada com a rapidez do álcool, e lentidão da comida. Pedi ao garçom que regasse minhas flores com água, assim todas curtiriam a festa até o final. Antes que ele terminasse de servir a água, Uana já se mostrava um pouco mais desinibida, e afoita com os bocejos da irmã e da Taíssa. Disse às duas que não seriam convidadas para o casamento dela, dado o cansaço evidente das duas em um dia tão importante. Não deu nem tempo de intervir. Irmã e Taíssa pegaram suas bolsas, e foram embora.

Chilique a parte a festa rola solta depois da janta. Os noivos dançam primorosamente sua primeira dança, abrindo a pista. A turma do cigarro decide tomar um ar lá fora. Junto com a Melina, Uana e eu, Fabiano, e Guilherme nos acompanham para uma fumacinha. Embaixo do carvalho. Num espaço mais recluso do pátio. Do lado da cama elástica. Cama elástica?!! Como, diabos, isso veio parar aqui? Fabiano e Uana que já enrolavam a língua do champanhe, comentam que a presença da cama elástica naquele casamento era no mínimo uma situação adversa. E era. E aí, reacendeu em mim, aquele espírito de gato, de desafio, de pular e cair sob as quatro patas.

Tirei os sapatos e com vestido de cetim e coque banana na cabeça, subi na cama elástica. Melina, Uana, Fabiano e Guilherme riam sem parar da minha habilidade em pular e ao mesmo tempo tapar as calcinhas embaixo do vestido. Uana decide juntar-se a brincadeira. As duas pulam em círculos, afastadas o suficiente para evitar o contrachoque da cama elástica. Num dado momento, Uana pula perigosamente perto de mim. A cama elástica me arremessa.

Cetim. Coque banana. Risadas. Tudo direto ao chão, sob a dureza de um paralelepípedo. Eu… não caí sob as quatro patas. Eu caí sob o coque banana. E desfaleci.

Minutos depois me lembro de ser levantada pelo Fabiano e pelo Guilherme. Tento sorrir e dizer que está tudo bem. Meu pescoço esquenta. Sinto algo escorrer. Toco a minha nuca de leve. Olho as mãos para vê-las vermelhas. Vermelho espesso. Pesado. Dolorido. Vermelho que contrastava com o véu da noiva. Vermelho medo. Vermelho incerteza.

Uana desce rapidamente da cama com mil desculpas. Só consigo dizer que não foi culpa dela, antes de perder a habilidade de dizer coisa alguma. Melina, como boa produtora que é (lembram da Melina?!), aciona discretamente a cerimonialista, que entra em pânico e por isso leva uma mijada da Melina . Ela então orienta a cerimonialista a não falar nada pra noiva, e providenciar um transporte para o hospital. “Rápido!” Na beira da cama elástica, e possivelmente de outro ataque de pânico, Fabiano e Guilherme seguravam a minha cabeça com guardanapos de linho que tinham as iniciais dos noivos. Linho branco, agora também vermelho. Vermelho medo. Vermelho incerteza.

Minutos depois o motorista acelera sentido hospital. No carro comigo, Uana e Melina tentam me acalmar, muito embora já nem estivesse mais ali. Eu já estava num outro plano, enquanto as duas beliscavam as minhas pernas para ver se eu ainda podia senti-las. Uana chorava. De culpa. De medo. De raiva, raiva pelo champanhe  impedi-la de poder ajudar mais. Não havia o que pudesse ser feito. Ela não podia me ajudar.

No hospital, um pandemônio. Escutei algo distante sobre meu plano de saúde, e a Melina argumentando verazmente. Uana gritava ao meu lado “eu vou juntoxx com aaa Antôniaaa, eu não vous sair dãquii”, com a voz meio embaralhada. Melina então pegou na minha mão e me olhou bem nos olhos: “Antônia, vai ficar tudo bem tá?” – “Liga pro meu pai”, peço convicta – “Liga agora”. Encho os olhos de lágrimas pela primeira vez desde o tombo para pedir pelo meu pai. Eu não queria incomodar minha mãe – mãe também de outros dois pequenos. Mas eu queria ter alguém da minha família, caso precisasse me despedir.

Depois de entrar na emergência, tudo foi um borrão. Lembro-me de nunca ter sentido tanto medo quando fui submetida a uma tomografia.  Dentro da máquina, recordo-me que pensava que não queria morrer. Não era a minha hora! Que queria ver meus irmãos de novo. Beijar minha mãe. Ver meu pai sorrir. Tomar banho de mar gelado. Queria chorar de rir com as minha amigas. Tomar chimarrão. Beijar na boca. Queria viajar. Ver as pirâmides.  Comer escargot. Queria dizer pra Uana não brigar mais com a irmã dela. Queria pedir desculpas. Queria agradecer. Mas não podia. Não podia fazer nada. Estava presa dentro de um túnel escuro, presa às possibilidades. Presa àquele computador grotescamente enorme, que ia dizer se havia algo errado com a minha cabeça – algo além do obvio, que me fez subir numa cama elástica em um casamento.

Lembro-me de enfermeiras me xingando, que estava bêbada, ocupando lugares de gente “de bem”. Eu era gente de bem. Eu não estava bêbada – bem, eu já estivera muito pior, isso é fato. Mas não era isso que tinha acontecido. Recordo da dor da sutura. Lembro-me de implorar que me limpassem. Tirassem aquele vermelho todo de mim. Explicava sem parar ao corpo médico que meu pai não podia me ver naquele estado. Não naquele vermelho medo. Vermelho incerteza. Lembro-me de apagar novamente, sem saber o que seria de mim.  Eu era um gato em plena queda.

gatos 1

Acordei na cadeira de rodas com meu pai segurando a minha mão. Face transtornada. Mistura de pânico e raiva profunda. Vermelho raiva, pensei.  Empurrou minha cadeira de rodas pela recepção. “Onde estão a Melina e a Uana?” – perguntei. “Foram embora quando cheguei. Pedi que fossem. Tua amiga Uana queria entrar a todo custo. A Melina levou-a antes que a colocasse a força na glicose. Você também merecia uma glicose. A enfermeira disse que vocês estavam bêbadas.” Não expliquei. Me resumi em ficar com vergonha. Vermelho vergonha. Levantei-me da cadeira de rodas, sob as minhas duas patas. Suspirei de alívio pela primeira vez, incrédula da minha sorte.

Em casa, dormi um sono profundo sob a vigilância do meu irmão. Quando acordei, meu pai não estava mais lá – acho que não queria me ver. Encontrei um bilhete seu, com recomendações de remédios para a dor do corte de cinco pontos, e juízo para o que restava dentro da cabeça. Chorei. Chorei de vergonha por não ter caído sob as quatro patas. Chorei por ter perdido a festa tão linda do casal. Chorei pela possibilidade de tê-la estragado.  Chorei de dor de cabeça.

No celular, mensagens de carinho e preocupação. Algumas orientações sobre voltar ao hospital e apresentar minha carteirinha do plano de saúde – a Melina havia engenhosamente convencido à equipe a não me cobrar o valor de atendimento particular, sob a promessa do meu retorno para acerto. Da Uana também tive notícias. Seguia preocupada. E de ressaca, claro.

Quando peguei minha liberação do hospital, uma informação chama a minha atenção. Dentre inúmeras informações pessoais, ao lado do meu nome, na lacuna que dizia “RESPONSÁVEL”, estava escrito “Melina Dorneles”.  Ri por uns segundos pensando que não esperava ver naquele prontuário o nome da Uana.

Guardei o prontuário comigo. Como passei a carregar os cinco pontos que caíram da minha cabeça, junto a carteirinha do meu plano de saúde, que passei a carregar comigo na carteira desde então. Não que eu pretenda pular de uma cama elástica de novo. Claro. Guardei também uma cicatriz. Uma na cabeça, e outra na alma.

Naquele domingo pensei muito em como a vida era frágil. Que em um minuto se está no ar, e logo no outro podemos estar no chão. Que em um minuto as areias de benção podem ser coloridas, e que um pulo em falso podia tornar tudo vermelho.  Acima de tudo, pensei na importância da palavra “RESPONSÁVEL”. Da sorte que tive em ter gente responsável por mim, quando eu não fui. Para segurar o que eu tinha dentro da cabeça, como o Fabiano e o Guilherme. Para garantir meu bem estar, como a Melina. Ou ainda garantir a companhia, mesmo que fosse dormindo na recepção, como a Uana. Pensei como eu era sortuda de ter por perto, gente que me ama – seja quando estivesse em cima, ou embaixo da cama elástica da vida.

O telefone então toca com o número da Franchesca no visor, atendo envergonhada, esperando um xingão da noiva:

– “Samba Lelê tá doente, Tá com a cabeça quebrada. Samba Lelê precisava, de umas dezoito palmadas!”

– Oi, Fran. Hmm… Desculpa.

– Que tombo hein?  Samba Lelê tá bem?

– Não. Mas com vocês por perto, a cabeça sempre há de curar.

– “Samba, samba, Samba ô Lelê. Pisa na barra da saia ô Lalá.”

– Teu casamento me marcou, Fran. 5 pontos, pra ser mais exata.

– HAHAHAHAHA.


Hoje em dia, por vezes a cicatriz ainda dói. Penso que serve como um eventual lembrete. Um capacete que carrego comigo. Serve para me lembrar que embora eu seja uma gata, nem sempre eu vou cair sob as quatro patas. Mas que eu preciso sempre me levantar.

Quando preocupo-me com algo besta ou trivial, a cicatriz coça. Lembrando-me de que eu estou viva. Com a cabeça no lugar, ainda que Samba Lelê.

 


Fim da sessão.

 

5 ideias sobre “O tombo”

  1. Oi Antônia! Conheci seu blog ontem, assim por acaso e já li alguns textos. E já coloquei ele na minha listinha de blogs pra ler pela manhã hahahaha.
    Mas sinceramente estou pensando em retira-lo da minha listinha. Pois a cada texto é um balde de lágrimas kkkkkk
    Eu também amo escrever, é a única coisa que quando me perguntam sobre o que eu sei fazer bem, eu não tenho duvida na resposta: ESCREVER. E sempre existe a vontade de compartilhar meus textos num blog assim como você, mas falta ainda a tal coragem… Mas enfim estou aqui pra falar dos teus textos e não de mim! Me identifico com cada palavra menina, por isso a vontade de chorar! Estou num momento muito estranho da minha vida, de não fazer a minima ideia do que vai ser amanhã, logo eu que sempre planejei tudo certinho. E esse momento me faz refletir o tempo todo, sobre tudo. E ler sobre suas experiências me faz ter mais fé de que tudo vai dar certo. Pois a partir de agora sempre que eu estiver aflita com algo, vou lembrar da sua cicatriz como se fosse minha: ” Afinal a vida é tão frágil, e quando se preocupar com algo bobo a cicatriz vai coçar, mostrando que o importante é isso aqui, é estar viva”

    1. Oi Michelly! Que amada! Gentileza sua. Não estou aqui pra distribuir conselhos, mas vou em arriscar a te dar um só. ESCREVE. Escreve pra você. Escreve porque é bom, porque és boa e porque faz bem pra alma. Se vai virar um best-seller a gente não sabe, mas pelo menos não fica guardado dentro do peito (e o mundo está carente de pessoas com sensibilidade). E me manda o endereço do blog! beijão!

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