Eu tenho medo do futuro

Dia destes me peguei conversando com a minha mãe sobre congelar óvulos – os meus óvulos. Assim que as palavras saíram da minha boca eu me assustei. Havia passado o tempo em que tudo que eu queria no meu congelador eram sorvete e vodka, e agora eu calculava garantias para o meu útero, planejando congelar também ovos. O que acontece é que nos dias de hoje eu já não tinha mais tanta certeza sobre a vontade de me reproduzir. Ainda assim, eu jamais abriria mão de ter uma escolha.

Talvez eu nunca vá me esquecer daquela conversa, quando no primeiro ano dentro da minha balzaca, eu me preocupei com os frutos que iria ou não deixar para este mundo. A pergunta que me assombrava de verdade não era sobre a probabilidade de colocar ou não meus herdeiros num cofre seguramente refrigerado aguardando o momento ideal. Mas a dúvida sobre as reais condições do futuro em que eles eventualmente poderiam nascer.

Eu tenho medo do futuro.

Eu tenho medo do futuro em que a gente desembale mais do que descasque coisas para comer. Eu tenho medo do sódio da água, ou da água não existir mais, e a gente inventar um jeito de sobreviver a Coca-Cola. Tenho medo de um futuro em que picada de mosquito não resulte apenas numa coceira temporária, mas em uma infinidade de vírus de consequências irremediáveis.  Tenho medo de um futuro onde exames não são solicitados para não gerar custas adicionais para o sistema – já falido – de saúde que atende a maioria das pessoas. Tenho medo de que a ciência preocupe-se mais em criar formas de frear o envelhecimento, do que desenvolver soluções para vivermos melhor.

Eu tenho medo do futuro.

Tenho muito medo da segurança das ruas do futuro, porque a insegurança de agora já me faz repensar cada passo que eu dou. Tenho um medo de um futuro em que as empresas limitem o nosso acesso à informação para ganhar mais dinheiro ou para intencionalmente cegar as nossas decisões. Tenho medo de que o petróleo se torne mais importante que o sangue. Tenho medo do extremismo. Da falta de diálogo, e do excesso de explosivos.

Eu tenho medo do futuro.

Tenho medo de um futuro pavimentado por políticos que votam por Deus, por suas famílias exclusivamente, por bebês que nem nasceram, por suas tias, vizinhos e cunhados, por Jerusalém, pelas Chiquititas, pelo Wesley Safadão, pelo vampiro estranho do Crepúsculo e pelo ursinho de pelúcia chamado Ted que tiveram na infância. Tenho medo de um futuro onde respeito é exigido por quem cospe na cara dos outros. Tenho pavor e pânico de um futuro que se esquece dos erros desumanos do passado e reforça a propaganda de terroristas, torturadores e ditadores. Tenho medo de quem promove o medo como forma de correção ou coação. Tenho medo da falta de empatia e de altruísmo do ser humano. Tenho medo.

Eu tenho medo do futuro.

Tenho medo de não saber mais discernir o certo do errado neste futuro de valores cada vez mais confusos. Tenho medo da minha bondade se esvair na ingratidão e no egoísmo alheio. Tenho medo de um futuro onde fronteiras são cada vez mais fechadas, e boas vindas cada vez mais raras. Tenho medo de um futuro em que teremos cada vez mais seguidores, e cada vez menos amigos. Ou do futuro em que olharemos mais para telas de gadgets do que para os olhos dos nossos filhos, irmãos, amores. Tenho muito mais medo do futuro para jovens meninas. Por não ver o futuro prosperar em defesa delas na velocidade necessária. Tenho medo que não tenham direito a oportunidades e a escolhas que vão muito além de óvulos congelados.  Tenho medo de que sua inocência não seja protegida – aliás delas, e de todas as crianças do mundo.

Eu tenho medo do futuro.

E no meio deste registro de todos os meus medos do futuro, eis que surge o Mateus no meu home office,  com meu celular em punho, mostrando-me sua obra prima no Snapchat – app que ele, aos 5 aninhos e como parte desta geração do futuro, domina muito melhor que eu. É um vídeo curto, falando de que no futuro ele quer morar na Rússia, onde é frio, para poder viver perto dos pinguins (plano de vida construído exclusivamente pela cabecinha dele). Olhei para seus olhos brilhantes de esperança e não tive coragem de explicar que a Rússia é um lugar pouco tolerante com as diferentes escolhas das pessoas, e que lá uma simples opinião pode custar uma vida. Também não reuni forças para dizer que do jeito que anda o aquecimento global, possivelmente os pinguins seriam uma espécie com risco de extinção num futuro próximo. Não quis comentar com o Mateus que do jeito que anda a nossa situação politico-econômica, o dinheiro e passaporte brasileiro dele poderiam não ser dos mais bem-vindos mundo afora. Eu tinha tanto medo para dividir com ele…

Mas ao invés disso eu me calei. Tomei doses de esperança beijando os olhos dele. Abracei-o bem forte e sorri de volta.

– Posso né, mana? No futuro ir morar na Rússia com os pinguins, não posso?

– Pode sim, meu amor. – Respondi mesmo com todo o medo que eu tenho do futuro.

Dei-me conta de que muito pior que eu ter medo do futuro, é a geração que vai vivê-lo não ter a esperança de reinventá-lo.


Fim da sessão

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