Antes só vinho, do que meio acompanhada

Neste domingo, um grande número de amigas que há tempos não se via reuniu-se para uma celebração. O evento pra mim era duplamente proveitoso: eu ia matar a saudade das minhas amigas e de quebra voltar pra casa cheia de ideias para as minhas sessões. Atualizávamo-nos de nossas vidas (nada) amorosas, quando me dei conta de uma realidade alarmante. Estávamos todas ficando com o mesmo cara. Sim, todas. As mesmas desculpas, as mesmas saídas pela esquerda, os sumiços repentinos, reaparecimentos randômicos e as mesmas artimanhas de virada de jogo. Eu escutava uma a uma delas, pensando “meu Deus, mas essa história é minha!”. E não era. Era a nossa.

Algumas conferencias de nomes Vs fotos do Facebook verificamos que de fato, literalmente não estávamos envolvidas com a mesma pessoa – quem duvida que o mundo é minúsculo é louco – entretanto no lado figurado da questão, a história só mudava de CPF e tamanho do… do pé (vamos deixar o pé).  Negava-me a acreditar que mulheres tão diferentes, com desejos tão singulares, envolvidas com caras nada parecidos pudessem estar sofrendo da mesma angustia. Examinei com cuidado as histórias pensando que tamanha coincidência podia ser uma coisa regional, ou de uma determinada faixa etária, ou ainda talvez fosse um defeito de um grupo social específico. Não, não era possível tanta similaridade. Deixei a pauta de lado, visto que desconfiava de certo nepotismo da minha parte decorrente do encerramento do meu atual pseudo-romance. Tinha certeza que estava distorcendo as histórias para fortalecer o meu despeito.

Acontece que a pauta ganhou nova força na segunda-feira, quando me deparei com um texto do Daniel Bovolento. Conheci o trabalho do Daniel, autor do blog “Entre Todas as Coisas”, quando o mesmo gentilmente me escreveu elogiando um texto meu que havia viralizado. Desde então passei a acompanhar o trabalho do Daniel, que apresenta uma sensibilidade bem rara nos assuntos do coração – razão pela qual ele tem centenas de fãs e uma enxurrada de suspiros a cada post. Pois ele, um homem, estava deparando-se com a mesma sina em sua piscina de opiniões. O autor do blog pediu para que suas leitoras que indicassem motivos pelos quais elas estavam largando os caras de mão. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que a pesquisa dele, reproduzia exatamente o meu papo de domingo com as minhas amigas.

Foram elencadas 7 principais mancadas propagadas pelos cuecas: 1) “Vamos marcar/A gente se fala”. 2) “Você não deu a entender que tava afim”, ou como eu prefiro chamar a virada de jogo ou ainda o pulo do lambari. 3) “A gente ainda não tem nada”. 4) “Ta fazendo alguma coisa agora?”, ou como as minhas amigas e eu chamamos, o ressurgimento das cinzas. 5) “Tô querendo conhecer alguém legal e ver no que dá”, ou em outra interpretação, se eu disser que é só sexo vou parecer cachorro. 6) “Não tinha visto a sua mensagem”, o famoso vácuo. 7) “Tava ocupado esses dias”, ou em outra analise contornando a situação pra não perder a moita. Pelamordedeus. O texto (clique aqui) era praticamente um roteiro da minha ultima D(n)R – discutindo o não-relacionamento. Com interpretações e dicas bem pessoais do autor, mas ainda sim, tão minhas. Tão nossas.

Tentei por horas justificar o injustificável. Coloquei-me no lugar deles e tentei entender o que provoca essa ausência de clareza entre os wannabe-lovers. As meias verdades. Meias desculpas. Meias conversas. Meias presenças. Pensei que talvez eu pudesse não deixar claro que eu prefiro fazer sexo a fazer jogo – aliás que eu odeio fazer jogo. Mas eu sei que me entrego com todos os versos que encontro, mesmo que por vezes me vejo tola sobrevivendo da lembrança de contatos esporádicos no meio de angustiantes desaparecimentos. Me indaguei se de repente o que faltava entender este Clube do Bolinha , é que nós realmente preferimos as verdades inteiras e o papo reto sem firulas ou açúcar. Nós já não somos mais as mesmas desde a obra “Ele simplesmente não esta afim de você”. O que também não quer dizer que queremos arrastar alguém para o altar simplesmente por não tolerar nos colocarem na prateleira ao bel-prazer.

Talvez a culpa seja realmente minha. Ou nossa. Quando eu comecei a namorar lá na adolescência, minha mãe disse que eu devia começar mais tarde – óbvio que eu, teimosa como toda rebelde boba, contrariando a orientação dela, me entreguei bem cedo aos delírios e tragédias do amor. Anos se passaram e com eles um acúmulo de cicatrizes, e uma pá de mentiras e desculpas que não me pegam mais. Todo novo inicio prometo que vou começar leve, tentar deixar minha bagagem emocional bem longe da cama – e perto da geladeira onde ela pode esfriar. De fato o que a minha mãe anunciava há 15 anos é que a minha tolerância com meias entregas, meias verdades ia ficar comprometida. E ela estava certa. Ela irritantemente sempre está.

Eu tenho a paciência curta pra enrolação. Não me assusta a decepção de uma rejeição, ninguém é obrigado a gostar de mim. Eu respeito os pontos finais. São deles que surgirão novas linhas, novos personagens, novas historias. Por isso não me venha com reticências, ponto e vírgula, interrogações, frases incompletas, ausência de contexto. Faz história quem tá presente, do contrário é memória.

A esta altura na minha existência afetiva, concluí que se for pra estar por perto, eu não trabalho meia fase. Quero tesão, assistência, energia, retorno – não precisa ser namoro, casamento, relacionamento, eu escolho o discernimento. Basta ter coerência, consistência, coesão. Guarde suas 7 (e outras) desculpas, pois eu não vou esperar você decidir se vai me escolher para provar. Lembre-se que única coisa que fica boa com o tempo esperando ser escolhida da prateleira é vinho. E convenhamos, então antes só vinho, do que meio acompanhada.

Taça pra uma pessoa, por favor.


Fim da sessão.

Nota para as minhas amigas/leitoras: Vinho e fé♥, garotas. Meu sincero agradecimento pelas contribuições nesta sessão.

24 ideias sobre “Antes só vinho, do que meio acompanhada”

  1. Antônia, o seu jeitinho de escrever me lembra a minha melhor amiga… ela é assim: sincera de coração, direta, divertida e com muito amor pra compartilhar. Será que são a mesma pessoa????rsrsrsrs… Tô brincando. Acho que vc virou uma amiga on line. Já sou casada, mas adoro suas historias de amor, sobre esses homens enrolados, gostosos e que fazem a gente suspirar. Adoro você, mesmo sem ter te visto…

    1. É muita identificação para um texto só! Cada semana me apaixono mais por esse divã! Parabéns “Antônia”!!!

  2. Oi Antônia, parabéns pelo texto. Acredito que esse “desalinhamento” entre homens e mulheres seja em relação a timing. Homens levam muito mais tempo para se decidirem se querem ficar com uma mulher, por isso enrolam. Eu, por exemplo, acabei de ficar solteiro, e depois de 2 semanas saindo com uma mulher, ela me questionou se eu não ia namorá-la. Eu não gosto de ficar enrolando mulheres, mas eu preciso de um tempo de convivência pra saber se quero ou não namorar uma pessoa. E esse tempo é muito curto para as mulheres. Acho um erro, pois elas não conhecem bem a pessoa e tendem a idealizar essa pessoa conforme querem, e não como a pessoa é. Pra mim, essa ansiedade e essa idealização forçam um pouco os homens a tomar atitudes como as descritas no teu texto, mas não que sejam a causa total disso. Nós erramos, e erramos feio. O que é uma pena porque, até pra meu próprio benefício, preferiria que homens e mulheres estivessem mais alinhados e próximos. Bj

    1. Oi Gustavo. Que nome lindo! Obrigada por tua contribuição. Achei acurado o posicionamento sobre timing, visto que este é um tema que desafia homens e mulheres na arte da convivência desde o início dos tempos, a própria maturidade chega em tempos diferentes para ambos. E também acho que mulher tem tendência à ansiedade e idealização – sou vítima dos dois. O meu caso, entretanto, foi bem diferente do teu, eu nunca propus namorar, atenção me bastava, afinal intimidade nasce da assistência e não da inconsistência. É mais ou menos assim, se eu só tenho um lugar do meu lado, um travesseiro ao lado do meu na minha cama, prefiro ter certeza que quem está lá, tá mesmo afim de ver se dá certo. Esse espaço não precisa ser oficial ou mesmo formal. Mas nem por isso negligenciado. Só isso. Vou torcer para num futuro próximo encontrar o mesmo tu – alinhamento e proximidade. Pois eu posso perder a cabeça neste contexto, mas nunca a fé. 😉 Volta sempre! Beijos

  3. Perfeito o seu texto mais uma vez Antônia.
    “Por isso não me venha com reticências, ponto e vírgula, interrogações, frases incompletas, ausência de contexto. Faz história quem tá presente, do contrário é memória.”

    Muito bom, parabéns !!!

  4. uma bosta de texto feito pra meninas e pra elas acharem que tão certas e os homens tudo errado… enquanto a mulherada achar que quem tá errado é apenas o homem, vai continuar pra sempre esse mimimi… e poderiam começar dando o exemplo e parar vocês de usarem essas 7 desculpas listadas pelo autor (daonde que só o homem fala isso? hahaha)

    1. Oi Fábio. Obrigada pela tua contribuição. O que tento deixar claro bem no texto é que é uma opinião baseada uma pequena amostra, dentro do universo feminino. Eu já fiz textos baseados na opinião masculina. Esse foi na feminina. Agradeço tua contribuição pq talvez seria interessante mesmo uma pauta com o outro lado da história. Descobriremos 7 ou mais desculpas que enlouquece vcs. Talvez sejam as mesmas, como vc diz. Ainda assim, não me posiciono como a dona da verdade. Essa, sei lá a quem pertence. Volte sempre! Beijocas

  5. “Por isso não me venha com reticências, ponto e vírgula, interrogações, frases incompletas, ausência de contexto. Faz história quem tá presente, do contrário é memória.” É isso aí, garota! PALMAS. Quero uma taça também, hahah.

  6. Estava aguardando o e-mail, avisando sobre o novo post.. já virou vício! Gosto de ler, mas quando é bom mesmo fico viciada 🙂
    E como todos os textos, foi maravilhoso! Cada um deixando um gostinho de quero mais e aquela ansiedade pela quinta-feira rsrsrs… Bjs Carol Ribeiro (Facebook)

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