Quarentena

Parte 1 – “No meio do caminho tinha uma pedra”

Parte 2- “O garoto e a pedra”

A alta do hospital veio cheia de dúvidas. Se com o seguro válido havia sido complicado autorizar a primeira e segunda cirurgia, uma terceira estava quase fora de cogitação. Informei meus amigos e meu pai que estava tudo resolvido, pois a expectativa de autorizar novos procedimentos sob a atenção de uma plateia angustiada era algo que eu não queria repetir. Expliquei para a minha mãe que tentaria encerrar minha situação médica na Austrália, mas que estaria no primeiro voo para o Brasil caso não tivesse sucesso.

Mas o caminho do sucesso era árduo e demorado.

O seguro obviamente não tinha interesse (ou obrigação) nenhuma de me atender em uma terceira cirurgia. Ainda que tivessem usado duas semanas da minha franquia tentando autorizar o primeiro procedimento. Foram necessárias longas e acaloradas discussões no telefone, e uma carta de recomendação bem argumentada do meu urologista para que depois de quatro dias de negociações, a última etapa de remoção da minha pedra fosse finalmente autorizada.

O tempo todo deste processo burocrático, eu lidava com a recuperação que incluía um cateter que me repuxava a alma a cada xixi, um corte nas costas que vazava urina em um pequeno saquinho ligado a um curativo e uma autoestima localizada abaixo da sola do meu pé. Quando a autorização finalmente veio, a minha imunidade estava tão comprometida que desenvolvi uma tosse horrenda. Em contato com o consultório do urologista, fui informada de que não poderia me operar sem curar a minha tosse. Desta forma fui colocada em observação médica por 14 dias – ou seja, eu tinha 2 semanas para melhorar.

Em consulta ao GP (general practice) – a médica do centro clínico da Gold Coast me informa outra má notícia. A minha tosse era sintoma de uma virose chamada “Influenza” que estava atacando a população local. Para piorar a médica informa que não havia nada que eu pudesse fazer para melhorar a não ser ingerir líquidos e aumentar a minha imunidade.

Naquela situação eu não sabia se chorava ou se tossia, e na dúvida eu fiz os dois.

A Influenza me derrubou de tal forma, que passei dias entre leves melhoras, e fortes quedas. Febres e dores do corpo passaram a fazer parte da minha rotina – rotina essa que já andava complicada com a recuperação da cirurgia. A peste era tanta que meu apetite desapareceu, e em algumas crises de tosse chegava a vomitar pelo nariz a pouca comida que administrava colocar para dentro. Vomitar na cama do Boy – que fique registrado, para dar o devido drama a minha situação.

A minha condição debilitada começou a afetar meu espirito, e me peguei chorando inúmeras vezes no sofá por não ter ideia de como me sentir melhor. Tomava banhos escaldantes para controlar meus calafrios, e sobre muito protesto fazia gargarejos de vinagre e sal que o Boy recomendava. Passamos a discutir por conta do meu estado de definhamento – ele queria que eu reagisse, saísse para caminhar, fizesse o meu sangue circular. Tudo que eu conseguia fazer era dormir longas horas, me arrastar em seus pijamas e sonhar com uma ponte aérea “sofá  > colo da minha mãe”.

A minha mãe ligava e me pedia para ser forte, e eu derramava lágrimas inconformadas por me sentir tão carente. Eu nunca tinha ficado doente daquela forma – e agora somava uma quarentena de dias em que eu me sentia imprestável, horrorosa e fraca. Muito fraca. A balança marcava 7kg a menos. O meu rosto celebrava olheiras profundas e uma herpes labial que tomava conta de metade do lábio inferior e uma parte enorme do queixo. Pensei muito naquelas pessoas que tem que lidar com doenças de longo prazo e me senti uma idiota por meu corpo se mostrar tão frágil, e meu espírito se quebrar tão fácil. Eu odiava sentir pena de mim mesma.

O aniversário do Boy veio em um daqueles famosos churrascos australianos ao ar livre. Evento que participei hora entre os convidados, e hora dormindo dentro do carro como uma criança pequena que precisa ser protegida do frio. Pensava comigo “como esse garoto ainda não me despachou de volta?”. E como mágica, ele aparecia por perto, me beijava a testa e dizia “nós vamos sair dessa, linda” – como se pudesse ler meus pensamentos.

Duas longas semanas adentro da Influenza, veio a data reagendada da minha cirurgia. O dinheiro do seguro? Nada.

– “Srta Antônia aqui é a fulana do hospital Pindara, a Srta tem uma cirurgia hoje de tarde e gostaríamos de saber como irá pagar?”- uma funcionária solicitava do outro lado da linha.

Boa pergunta. Estávamos há duas semanas da autorização e nada da transferência de fundos. Faço uma ligação rápida para o seguro – considerando o fuso, penso que o dinheiro poderia estar a caminho. “Deve chegar ainda hoje, Antônia” – a supervisora me “tranquiliza”. “Deve chegar”. Meu estômago dá pulos de angustia. Preparo-me para a cirurgia de qualquer forma. Ajeito a mochila. Leio as instruções. “Fazer 4 horas de jejum antes da cirurgia”. Preparo um purê de batata e me alimento com dificuldade – culpa da virose e do estresse causado pela incerteza da minha situação.

A confirmação do dinheiro chega à 1h da minha baixa no hospital. A minha tosse a esta altura já cedia um pouco, mas não estava completamente curada e eu só rezava não apresentar nenhuma febre no meu pré-operatório. A enfermeira me examina – temperatura normal. Ufa. Despeço-me do Boy com esperança no olhar – “vai acabar tudo hoje!”. “Avisa esse urologista que chega de ter livre acesso a tua vagina” – ele brinca de volta, mais tranquilo.

Última cirurgia. O anestesista aparece para confirmar alguns dados. “Antônia, confirma pra mim uma informação do teu prontuário, você está há 4h de jejum?”“sim – comi um pequeno purê de batatas há 4h”, respondo como uma boa aluna. “Então nós temos um problema” – ele anuncia preocupado – “O jejum indicado para este procedimento é de 6h, alguém te passou uma informação errada. Se fizermos tua cirurgia agora você corre o risco de vomitar e aspirar purê de batata para os seus pulmões ”.  Por Jeová – “eu nem queria ter comido”, esbravejo sozinha. Agora o maldito purê de batatas era a pedra no caminho de remover a minha pedra.

Desabo. Se Deus estava querendo me ensinar paciência, eu estava na aula dos repetentes.

O anestesista entra no bloco cirúrgico apressado para discutir a situação com Dr. Tracey. De fora do bloco – já em meu avental descartável – ouço meu urologista advogar em minha causa. Longos minutos depois o anestesista volta – “Ok, Antônia. Vamos te deixar um tempinho esperando, pois Dr. Tracey quer muito fazer tua cirurgia hoje devido a tudo que te aconteceu –  (uma luz no fim do túnel chamado Dr. Tracey! O Boy que me desculpasse, mas esse homem merecia o livre acesso a minha vagina) – o anestesista continua: “Iremos te buscar em uma hora e meia no pré-operatório, ok?”.  Concordo disfarçando as minhas lágrimas de alívio.

Horas depois sou novamente posicionada embaixo das assustadoras luzes da sala de cirurgia. Olho com gratidão para Dr. Tracey e arrisco um pedido – “Leave nothing behind, ok?” (“não deixe nada pra trás, ok?”) – ele sorri e concorda.

“Ok, Antônia, hora de contar até 5. Pense em um lugar bonito que você gostaria de estar”.

“5,4,3…”

Ouço as ondas batendo nos corais ao fundo da praia. A água tem uma mistura interessante de tons azuis e verdes. Vindo da sacada, sinto o ar fresquinho da manhã. Da cama típica indonesiana – daquelas com estrutura de madeira e tecidos leves caídos por toda volta da cama – posso enxergar as lindas curvas do corpo de um surfista na beira da praia. Levanto-me e caminho sonolenta até a entrada do bangalow. A chuva da noite passada deixara um cheiro de mato límpido que preenche os pulmões.

Gasto um tempo observando o surfista. Há alguns minutos atrás, antes de deixar o travesseiro ao meu lado, ele tentava me acordar com beijos na boca, e outros pelo corpo até as pontas dos meus pés. Pés que ele insiste em chamar de “delicinhas”. Observo de longe a nuca dele e as lindas linhas das costas que vão até a entrada da bermuda.  Ele encara o oceano fazendo uma prece por boas ondas – eu tenho certeza. Caminho até o seu encontro e o abraço por trás, sentindo a areia fofa abraçando os nossos pés. Ao nosso redor, palmeiras infinitas são a moldura de uma cena bonita. Ermitões transitam com suas conchinhas nas costas e pequenos siris caminham entre os corais trazidos pela maré alta até a areia branca. Eles são as únicas testemunhas do nosso beijo matinal, e de nosso olhar contemplativo sobre o paraíso daquela ilha deserta.

– “Acordou finalmente.” – ele me abraça apertado, e eu sinto o cheio gostoso da sua pele.

– “Parece que não” – respondo suspirando e sorrio encarando aqueles lindos olhos verdes.

– “Fica tranquila, linda, eu te garanto que isso não é um sonho.” – e então me beija a boca com gosto de sol da manhã.

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Saudações das Ilhas Mentawais, queridos leitores. SENANG.

Fim da sessão.

ps: O nome do Boy é Leonardo. Achei importante pontuar que, como escritor, Deus adora uma ironia.

O garoto e a pedra

(Parte 1)

A anestesia durou tempo suficiente para que eu sentisse o tubo respiratório sendo removido da minha garganta ao acordar. Queria ter sonhado mais uns segundos para não sentir o plástico duro arranhando as minhas profundezas até a boca. Frio. O meu corpo inteiro treme sem obedecer a comandos básicos. Um grupo de ritmadas enfermeiras arrumam meus travesseiros, posicionam cobertores. Máquinas de massagem são colocadas nas minhas pernas, além de meias muito apertadas – “para evitar embolia”, penso eu. Como se eu soubesse o que é embolia. Eu perguntaria para o meu irmão o que é embolia. Meu irmão! Lembro-me do meu pedido antes de entrar na cirurgia – “eu não morri”.

Eu sei, parece dramático achar que um furo nas costas poderia me matar. Mas ao lembrar-me das lágrimas da minha mãe ao saber da cirurgia, sinto que passei a cultivar receios que antes não tinha. Cautela que antes só conhecia através do dicionário. Minha mãe. Preciso avisar minha mãe que deu tudo certo. Vou deixar que ela avise meu pai – penso comigo – ela sabe como falar com ele. Coitado do meu pai – eu lamento – deve estar pensando mais uma vez que Deus está nos castigando. Meu pai não passou um dia desde a nossa tragédia familiar sem pensar que estamos todos recebendo um castigo divino. Sempre tento explicar que somos pessoas boas, que castigo não é o caso. “Pessoas boas não tem a filha operada do outro lado do mundo” – ele deve estar se culpando agora mesmo.

Sinto uma dor no peito. Culpa? Saudade? A maquininha do meu lado começa fazer um bip-bip descompassado. O ar evapora dos meus pulmões. A enfermeira aperta alguns botões e ajusta uma máscara de oxigênio no meu rosto.

– “Você está apresentando oxigênio baixo, vamos ter que te manter na máquina mais ou pouco, ok?” – ela explica.

Por ironia do destino, havia parado de fumar fazia 30 dias – graças a minha falta de dinheiro muito mais do que força de vontade, confesso. A sensação da falta de ar me fez repensar os meus 10 anos de fumante. Aqueles que eu nunca admitia aos médicos. “Fumante, Srta Antônia? – “Eu? Ahn, o que você quer dizer com ‘fumante’?” – eu enrolava. Agora estava eu, numa cama de hospital, aos 32 anos, lutando por ar, tendo a certeza de que a culpa era toda minha.

Hora de ir para o quarto. As enfermeiras do andar aparecem para se apresentarem e entender mais sobre o novo caso vindo do bloco cirúrgico. “Antônia tem 32 anos, apresentava um massivo cálculo renal no rim esquerdo, Dr, Tracey realizou uma !@#$%¨&&*#$ (nome do procedimento de remover uma pedra pelas costas), ela está com um tubo ligado ao rim pelas costas e outro cateter através da uretra.” – “EU ESTOU COM UM TUBO ONDE????????????”  – interrompo. “Nas costas” – a enfermeira do bloco responde sorrindo. Coloco a mão na lombar e sinto um tubo da grossura de um dedo saindo de um curativo colado na pele. Vou tateando com a mão e vejo que o mesmo está ligado a uma bolsa – com um líquido amarelo e pequenos volumes transitando, como o trânsito de pedras numa marginal amarela.

– “Eu acho que vou vomitar” – anuncio.

– “É o efeito da anestesia, vamos te medic…” – Era tarde demais.

Uma hora mais tarde, a porta que transitavam enfermeiras a todo instante,  abre-se para uma visita mais esperada. Um alento para os meus olhos cansados. Aqueles grandes olhos verdes me receberam com uma mistura de alívio e expectativa. Dei-me conta, pela primeira vez, do quanto esse garoto deveria estar assustado. Num minuto convida uma maluca para passar umas semanas na Austrália, e no outro tem que leva-la ao hospital e administrar o contato com a família e amigos dela (todos igualmente malucos) para dar notícias. Não tinha sido esse o nosso combinado, eu sabia.

Ele me abraça por entre tubos enfiados por veias e orifícios. Suspira longamente. “Eu estou bem” – lhe asseguro. “Foi moleza” – sorrio, forçando um pouco a barra. Ele beija a minha mão, e diz que eu estou linda. Agora ele forçava a barra. Comento o pouco que sei da cirurgia e dos variados tubos que tenho grudados em mim. Uma enfermeira entra para verificar o oxigênio – que agora é fornecido por um pequeno tubo no nariz, ao invés da mascara. “Esse é seu namorado?” – “NÃOOOO!!” – respondo em pânico antes que ele pudesse responder. Desejei que ele não tivesse ouvido – mas sei ouviu. Não queria dar ao Boy o peso de perguntas complicadas por cima de uma situação já complicada o suficiente. Fiquei com medo que a máquina ligada aos meus batimentos cardíacos acusasse meu sobressalto. Olhei para ele sem graça enquanto ele sorria, com aquele grandes olhos verdes que combinavam com meu avental descartável.

Tudo se tornou real, entretanto, quando o efeito da medicação para dor chegou ao fim, sem qualquer aviso. O Boy que chegava de volta da cafeteria, cruzou com uma enfermeira apressada que saia do meu quarto ao som dos meus gritos. – Pausa para contextualização: se você já teve cólica renal vai ou se já encarou a dor de um parto vai me entender. A dor renal sai da intensidade do 0 ao 10 em questão de segundos. Faz você sentir um misto de sensações assassinas e suicidas ao mesmo tempo. Naquele momento o Boy entrou no quarto para encontrar uma Antônia emitindo grunhidos viscerais, audíveis por todo corredor, carregadas de feições faciais dignas do filme “O Exorcista”.

Enfermeiras entraram, conferiram meus dados, aplicaram uma injeção na minha coxa com algo que deveria ser parente da morfina. A cena toda durou apenas alguns minutos, mas o suficiente para ser traumatizante para alguém que nunca lidou com cólicas renais. O lindo garoto de olhos brilhantes estava em choque observando tudo da porta do quarto. Foi naquele momento que o vi perdendo o “cool” dele. Vi o medo e a responsabilidade jogando a falsa tranquilidade que eu havia lhe dado pela janela. Segundos depois da injeção, voltei a ser eu mesma. A transformação foi digna do Incrível Hulk ou O Médico e o Monstro. Eu estava finalmente melhor – mas não havia injeção para o estado de pânico que o garoto agora se encontrava.

Ele sentou na cadeira do lado da minha cama, e encarou longamente a parede com os olhos marejados. “Lindo, eu estou bem! Eu juro.” – eu dizia insistentemente. “Me dá uns minutos, Antônia” – ele pediu com a voz tremula. Eu me senti péssima por assustá-lo. Senti-me pior ainda por fazê-lo pensar que ele era responsável por mim, naquele país, tão longe de casa. Como eu podia privar meus pais dos detalhes doloridos da minha operação, e fazer alguém que genuinamente entrou nesta de gaiato passar por isso?

– “Lindo, vai pra casa”. – exigi sem demora. “Amanhã você volta”.

– “Vou ficar aqui contigo, eu só fiquei assustado que pudesse ter algo de errado contigo, e acontecesse algo de grave, e aí eu ia …”– a voz dele voltava a falhar.

– “São só dores, e elas vão vir e voltar a noite inteira hoje. E vai ficar tudo bem. Amanhã você volta. Vá agora”.  – Ele me beijou a testa inseguro, e com uma tristeza no olhar foi embora. A despedida foi curta o bastante para evitar que ele presenciasse uma nova crise de cólicas.

As crises duraram a noite inteira. E a noite inteira eu as encarei com a convicção de que devia passar por aquilo sozinha – porque é isso que a gente faz quando a gente cresce – esse foi mais um aprendizado. A gente protege quem a gente ama e quer bem, daquelas dores que só a gente pode aguentar. A gente protege os nossos pais. E os garotos bonitos que não suportam nos ver sofrer. E nessas situações a gente decide que algumas pedras a gente tem lidar sozinha – pelo menos por uma parte do caminho.

Nos dias que se passaram – entre uma segunda cirurgia pela uretra e outros três dias de internação, lá estava ele, com seus olhos curiosos e coração em prontidão. O Boy me viu ficar anojada diariamente com toda a medicação que recebi. Viu meu corpo inchar em 5kg de puro líquido como parte do processo de limpeza do meu rim. Por Deus, esse garoto me viu mijar pelas costas por um tubo. Viu-me arrastar até o banheiro com um cateter pendurado no meio das pernas. E me viu praguejar um hospital inteiro quando cheguei ao meu terceiro dia com o intestino absolutamente constipado, onde tudo que eu queria na vida era cagar (e só falava disso). Esse garoto só não viu a enfermeira enfiar um supositório no meu único orifício livre, porque eu pedi que ele saísse do quarto.  Fora isso – e o eventual efeito do supositório – ele esteve do meu lado o tempo inteiro.

Ele esteve do meu lado quando o urologista anunciou que eu precisaria de uma terceira cirurgia, pois um pedaço da pedra e um cateter haviam ficado para trás. Viu-me preocupada com o meu futuro, pois a esta altura o meu seguro previsto para 2 meses de viagem, já havia vencido. E eu não tinha certeza de como proceder.

E dentre todas as angustias que eu ainda ia encarar com a minha saúde nos dias que viriam, uma certeza permanecia. A presença incondicional daquele garoto, apesar de todas as pedras no caminho.

Sabe, aos 32 anos, eu já não me apaixono mais tão fácil. Os meus relacionamentos esbarram no ciúmes de um, na falta de ambição do outro – ou nem chegam a virar algo mais quando recebo um “vosê” no whatsapp. Então ver minha admiração por alguém crescer de forma consistente e tão justificável, foi como uma dose de morfina em um coração doído. Veja, eu sou uma pessoa legal de ter por perto na sua melhor forma – mas ali eu sabia que eu estava muito longe da minha melhor forma. E ver alguém ficar ao meu lado, depois de enxergar tudo aquilo que se encontra abaixo do bonito, do agradável, do sexy, me ajudou a curar outras partes de mim que nada tinham a ver com o meu rim.

Eu não sabia o que o futuro reservava para nós dois. Mas eu sabia que o garoto ia ficar marcado em mim, como a cicatriz de uma cirurgia. Aquela marca de uma abertura que precisou ser feita para desbloquear algo vital de que se precisa para seguir vivendo. E amando.

Fim da Continuação na próxima sessão.

No meio do caminho tinha uma pedra

Quando ele ligou nos primeiros dias deste verão não entendi o contato. Era um amigo de longa data, que há tempos havia se mudado para a Austrália e estava passando o verão em Florianópolis. Não entendi a ligação pelo simples fato de que, dentre tantas pessoas que ele poderia sentir saudade, a nossa falta de contato nos últimos 6 anos me indicava que eu não era uma delas. Mas respondi com meu ar de boa praça de sempre. “Oi (espanto), sim, quanto tempo! É, nos encontramos? Claro, hoje? Ok, hmmm, sim, te busco, forró? Pode ser. Combinado, nos vemos.”

Naquela noite abafada de segunda-feira, me encaminhei para o que parecia ser um programa de índio. Forró na Praia da Joaquina pra encontrar com um cara com quem eu não falava há anos. Mas o meu ceticismo sempre teve tendências monstruosas a levar uns tapas na cara do destino, então lá foi eu.

Fui recebida com lindos olhos brilhantes, um abraço apertado e uma alegria sincera de reencontro. No forró, entre uma cerveja e outra, meu amigo admitiu que me acompanhava de longe, lia minhas intervenções online, e nutria uma enorme admiração. Eu tagarelava sem parar timidez adentro, falando sobre a sorte de ele viver num país organizado e de como a pequena cidade do interior, cenário do nosso passado, não havia mudado nada. Fiquei com as bochechas vermelhas ao reparar como os anos o haviam deixado atraente, e sorria sem graça todas as vezes que ele repetia como era bom me encontrar. Horas depois de atualizarmos nossas histórias sobre a última meia década, o dinheiro da cerveja acaba. Era hora de ir embora.

No caminho de volta, erro a velocidade num quebra-molas, e por reflexo – como as mães fazem com quem senta no banco do carona – coloco a mão no peito dele para evitar que a inércia o jogasse pra frente. No mesmo instante ele segura a minha mão em seu peito. Aperta-a contra ele mesmo.  Olho para o lado e encontro aquele belo par de olhos sorrido, enquanto segura carinhosamente a minha mão. Depois disso foram, deste pequeno e simbólico encontro de mãos – correram-se 20 dias de um amor de verão e uma dolorida despedida no aeroporto.

– Vem me visitar na Austrália – encorajou ele.

– Vou mesmo – eu disse com a convicção de quem não precisa muito para fazer as malas e pegar a estrada.

Meses se passaram e veio a data da esperada viagem. Com o coração cheio de dúvidas encarei as 36h cruzando o globo. Uma viagem adicional de duas semanas com as amigas em Bali foi o que precisei para poder dizer para mim mesma que não estava atravessando o mundo APENAS por causa de um caralho (por melhor que o caralho fosse). Bali veio e foi um sonho vivido do lado das pessoas que eu já sabia que amava. E então, sem muita demora, eu peguei o caminho da Austrália para encarar a aventura de ficar na casa do Boy (vamos chama-lo assim). Sim, aventura porque nada mais extremo que viver um amor de verão num minuto e no outro ir “morar” na casa do cara – ainda que por algum tempo. 

A primeira semana passou como mágica, regada pela alegria do reencontro, horas infinitas de sexo de saudade e o conhecimento da rotina dele. Esforcei-me para parecer bem organizada, bem composta, e supeeeer confortável em dividir a cama. Teve a primeira festa com os amigos dele, a primeira briga, a primeira menção sobre uma possível conversa sobre um possível futuro. O Boy me convidou para estender a minha viagem a Mentawais, outra parte remota da Indonésia formada por ilhas praticamente desertas. Era como um sonho se realizando. Eu, um surfista e uma ilha deserta. Não foi difícil começar a estudar a possibilidade.

O segundo final de semana veio com uma gripe. A dele passou com a chegada da segunda-feira. A minha piorou com a necessidade de uma ida ao hospital. Meu estado tinha cara de problema. Uma pedra no caminho da minha viagem. Mas em toda a minha imaginação, eu só não imaginava o tamanho da pedra.

Na emergência do hospital indicado pelo meu seguro, o diagnóstico. Estava sofrendo de uma infecção urinária medonha. As dores lombares alertaram o médico que me atendia para a necessidade de um CT Scan. O resultado do exame confirmava a pedra no caminho: A parte interna do meu rim esquerdo, tinha sido tomada completamente por um cálculo renal imenso. Uma pedra monstruosa. Um aerólito. Assusto-me por um minuto, mas percebo que o Boy parece mais assustado que eu, então tento manter a compostura até a chegada do especialista.

Da boca do urologista, em um inglês australiano tranquilo, ouvi aquilo que ninguém quer escutar a 13mil quilômetros de distância de casa (e com o dólar 3 vezes o valor dos meus míseros reais). Eu precisava de uma cirurgia. Urgente, já que meu rim estava sofrendo. Dei baixa no hospital para lidar com a minha infecção urinária e mandei o Boy pra casa para lidar sozinha com toda a onda de pavor que tomava conta de mim.  Lembrei-me da pedra no rim que havia removido 12 anos atrás e das cólicas renais memoráveis. Aquela que eu haveria de encarar, tinha nada menos que a mesma proporção do dólar – 3x maior.

No dia seguinte de volta a casa, iniciei o processo de autorização da minha cirurgia pelo meu seguro de viagens. Intermináveis ligações durante dias, uma pá de documentos e exames, e o maior número de e-mails que já mandei na vida, justificavam a necessidade da cirurgia. A autorização veio, para o nosso alívio (meu e do Boy que pipocava angustiado ao meu lado durante as negociações). O grande problema estava na transferência de fundos. E  fica aqui o meu primeiro grande aprendizado desta história – a transição internacional de dinheiro nunca é simples.

O meu caso, por exemplo: o hospital não aceitava o cartão de crédito do meu seguro, então para que eu fizesse a cirurgia, o seguro deveria transferir dinheiro para o hospital. Até aí sem problemas. Acontece que para realizar uma transição internacional, o seguro precisava de uma nota fiscal com os valores da cirurgia, e o hospital só emitiria a nota fiscal após a cirurgia, mas também só realizaria a cirurgia depois que o seguro transferisse o dinheiro. Entendeu? Meu rim entrou num loop burocrático infinito. A esta altura, já somávamos duas semanas de negociações e nada da minha cirurgia.

Mas aqui cabe outro grande aprendizado desta história – quando você mais precisa, você pode encontrar um amigo em um estranho. Ao acompanhar a minha trama, Dr. Tracey, meu urologista, ficou compadecido de certa forma com a minha história. Pela minha viagem interrompida pela pedra. Pelo tamanho da pedra. E pelo drama com o financiamento da minha cirurgia. Foi quando sugeri ao seguro pedir ao Dr. Tracey – em uma última tentativa  – que ele emitisse a nota com o valor do hospital, recebesse o dinheiro do seguro, e assim pagasse as custas do hospital. E foi na bondade de um estranho, que consegui organizar minha ida para o centro cirúrgico.

Neste dia, pela primeira vez, vi o belo par de olhos do meu lado, chorar de alívio e alegria.

Dia da operação, e eu estava animada. Depois de 15 dias de espera e angustia, estava pronta para entrar na faca e liberar meu pobre rim das pedradas desta vida. Pesquisei meu procedimento no YouTube. Pareceu-me não ter mistério – os caras iam furar as minhas costas até o meu rim, e de lá começariam a remover meu aerólito. “De boua” – pensei. O restante do que ficasse faltando, seria removido pelo canal da uretra – ou como eu gosto de dizer, pelo buraco que Deus me deu, lá pela vagina.

O Boy me deixou no pré-operatório com feições mais dramáticas do que ele normalmente me olhava. Os olhos lindos agora eram carregados de preocupação, enquanto eu fazia piadas idiotas sobre a “transferência do corpo” estar inclusa no seguro. Eu tenho tendências a idiotice quando estão para perfurar meu rim – agora eu sei. “Fica tranquilo – vou sentir só uma picadinha!” – tentava acalmá-lo em vão. Na entrada do bloco cirúrgico, usando minhas roupas descartáveis – fazia brincadeiras com a equipe com a tranquilidade de quem ia “logo ali se operar e já voltava”. Dr. Tracey apareceu por entre as portas do bloco (com seu sorriso de alívio por finalmente me ver no hospital) e garantiu “Nós cuidaremos de você”.

– “Não tenho palavras em inglês ou português para agradecê-lo” – digo com os olhos mareados.

Fico um minuto sozinha enquanto a equipe prepara a sala. Sem ninguém para entreter ou me tranquilizar, me ocupo do futuro desconhecido. “Eu não posso morrer”. Frase que passei a mentalizar sempre que fico com medo. Na turbulência de um avião. Num pequeno acidente de carro. Numa possibilidade de assalto. Antes da minha cirurgia. “Eu não posso morrer”. Eu não posso morrer e tirar dos meus pais mais um filho. Não posso morrer. Não posso ter uma lápide, não posso ir para o céu. Não ainda.

Eu nunca me ocupei da minha morte antes de perder o meu irmão. Sempre achei que morrer jovem seria até mesmo poético – com minha pele boa, antes de ter remorso demais da vida ou das pessoas. Pois não mais. Parece que com a despedida do meu irmão, a minha vida já não me pertencia mais. Pensei nos meus pais e chorei as lágrimas que escondia de todos até aquele momento. Agradeci por passar por esse processo bem longe deles. Não aguentaria tê-los na sala de espera, aguardando notícias minhas. Rezei para o meu irmão, pela primeira vez pedindo um favor. “Léo, por favor. Eu não posso morrer.”

– Está pronta, Antônia? – a enfermeira interrompe meu pedido.

– “Não. ‘Léo, por favor. Eu não posso morrer’ (mentalizo)”.  – Abro um falso sorriso de confiança – “Pronto. Agora sim, estou pronta”.  

Sou posicionada abaixo daquelas luzes enormes (e assustadoras) da sala de cirurgia.

– Oi Antônia, sou o anestesista, você vai sentir um piquizinho. Conte até cinco e pense num lugar que você queira visitar em seus sonhos.

– “Ok.  – respondo prontamente – ‘Léo, por favor. Eu não posso morrer’ (mentalizo de novo)”. “5,4,3 – …”

Fim da Continuação na próxima sessão….

As grandes lições

Já percebeu como algumas das maiores lições da vida não são lhe entregues de mão-beijada? Existe uma premissa de que o conhecimento está associado com merecimento. “Cerca Trova”“Busca e encontrarás”, Giorgio Vasari já dava a dica sobre um dos maiores mistérios da história da arte. Conhecimento é algo valioso que precisa ser decifrado. Sim, porque coisas importantes não são simplesmente “largadas” por aí. Preciosidades são sempre protegidas por códigos complexos, segredos profundos, ou na mais fácil das hipóteses, trancafiados a sete chaves. Ainda assim, conhecimento, mesmo que protegido, costuma ser acessível, lhes garanto. Ele é deveras democrático, por isso dificilmente será colocado sob uma torre de marfim.

As grandes lições da vida normalmente são encontradas em lugares comuns do nosso cotidiano. E cabe a nós – única e exclusivamente nós – decifrar os códigos únicos para destravar novas etapas de conhecimento. Tipo, passar de fase no candy-crush, só que melhor.

Grandes lições podem vir nas mais variadas formas, como através de livros, cursos, jornadas. Eles podem ter caráter bem pessoal, ou atingir níveis mais superficiais de aptidão. Às vezes essas lições nos são passadas por outros mestres, como professores, pais, gurus, entidades, ou mesmo por mestres que nem sabiam que foram nossos mestres – um irmão, uma amiga, um desconhecido especial que cruzou a nossa cruzada. Tem gente que encontra suas respostas num encontro com a morte, outros que despertam para vida com o nascer de uma nova. Como afirmei antes, as lições são bem democráticas, além de polimorfas e sem aviso prévio.

Algumas das minhas respostas, por exemplo, eu encontrei na terapia depois de anos de reflexão. Outras a vida me jogou na cara em segundos. Dos aprendizados que coleciono, o meu mais valioso (aquele que eu desencavei de uma arca profunda do inconsciente),   é o de estar sempre alerta as grandes lições. Justamente por sua capacidade camaleônica de misturar-se com o conhecimento banal e passageiro. E principalmente por estar disponível em lugares menos óbvios. É como o santo graal no filme do Indiana Jones. Conhecimento nunca vai ser um cálice dourado, modelinho ostentação. Vai ser de madeira, palpável, disponível, compartilhável. Isso, é claro, se houver dedicação, e se estivermos ALERTAS ao conhecimento oferecido.

Dia destes, peguei-me assistindo pela milésima vez o filme “A Volta do Todo Poderoso”, em que o personagem principal, Evan Baxter, é convencido por Deus (interpretado por ninguém menos que Morgan Freeman), a construir uma arca. O plot é engraçadinho, mas me tem de verdade por três motivos específicos: 1) como o personagem principal eu também cultuo uma dançinha da vitória sempre que estou feliz, 2) sempre imaginei Deus negro, indiferente do que diziam as freiras do meu colégio 3) uma lição profunda e sincera sobre aprendizado e grandes lições.

No filme Deus-Morgan-Freeman explica para esposa do Noé Pós-moderno, que muitas vezes rezamos por algum tipo de conhecimento ou respostas às grandes lições da vida.  “Deus me faça mais paciente.” –  “Senhor engrandeça a minha coragem”. – “Pai (Alá – Oxum- quem-você-acredita), faça de mim uma pessoa melhor”. O que acontece, entretanto, não é a entrega de um pacotinho com esse novo conhecimento pronto para ser absorvido como a versão atualizada do iOS no seu iPhone. Deus, a sua entidade luz preferida, ou mesmo a vida, lhe apresentam oportunidades para ser mais paciente. São-lhe oferecidas oportunidades para edificar a sua coragem. O que você ganha é a oportunidade de aprender a ser uma pessoa melhor. A lógica me fez total sentido.

Desde então, me pego pensando no Deus-Morgan-Freeman, sempre que me vejo estagnada frente a uma tarefa que exige a pior das minhas habilidades (como paciência, por exemplo). E na medida do possível, eu encaro aquela nova cruzada alerta da oportunidade que eu tenho de aprender novos códigos, condutas e comportamentos para desvendar níveis superiores do meu conhecimento. Ou se tudo der errado – no mínimo eu vou aprender alguma coisa pra encontrar a minha paz de espírito.

Hoje conversando com uma amiga (alguém que eu considero de uma inteligência emocional acima da média), ela me contava como odiava agir de certa forma com as pessoas para que elas entendessem o certo do errado. E de como ela ficava mal frente a este enfrentamento. E mais uma vez me vieram à cabeça as palavras de Deus-Morgan-Freeman: “estás ganhando uma oportunidade de aprender mais essa lição”.

Sabe, às vezes nós recebemos lições duras da vida, e nosso coração se enche de pesar, e ficamos cegos de tristeza a ponto de não conseguir desvendar novos códigos de aprendizado. Outras vezes ficamos tão enfurecidos frente a um impasse, que somos incapazes de desatar os nós, ou procurar as malditas 7 chaves que abram a urna da iluminação. Ainda há quem perca a lição por achar que sabe tudo, ou por acreditar que tamanha inspiração jamais viria de uma fonte tão ordinária, uma determinada pessoa, um encontro, uma perda. Não se assuste. Aqui vai ter sempre o dedo de outro grande professor atento a tudo: o tempo, como senhor de todas as lições.

Hoje eu decidi compartilhar tudo que já aprendi sobre as grandes lições da vida: estar sempre alerta às oportunidades. E caso tenha perdido a lição, confie sempre no tempo, como grande professor.

Fim da sessão.

ps: Há pouco menos de 2 anos eu procuro todos os dias por oportunidades para aprender com aquela que considero a maior (e mais dolorida) lição da minha vida. E há pouco menos de 2 anos, a única certeza que eu tenho é que ela tem a ver com paciência e fé. Mas eu sigo alerta.

(não achei legendado, então vai o dublado pra quem não manja do inglês)

Socorro: tem alguém dormindo na minha cama

Dividir a cama com alguém, sempre foi tabu pra mim. Ok deixe-me reformular esta frase. Dividir a cama para dormir com alguém, sempre foi tabu pra mim. Eu não tenho tantos problemas em dividir a cama para ficar acordada (ui, adoro!). Mas perceba que sexo – por vezes – pode ser pura e simplesmente um ato de prazer. Dormir junto, no entanto, é um ato de intimidade. E é aí que eu me atrapalho.

Eu simplesmente odeio dividir a cama. Pergunte as minhas amigas sobre nossos inúmeros verões na praia. Eu sou a primeira a me atirar num colchão no chão, contanto que não tenha que dividi-lo com ninguém. Note, eu me mexo pra caralho, fico horas futricando no celular antes de dormir, sou fumante e sensível ao cheiro (que sei que não agrada ninguém) e ronco. Jesus amado, como ronco. Botaram uma britadeira no lugar do meu sistema respiratório, só pode. Além disso, acordar perto de mim é uma atividade de alto risco. Sou daquelas que acha que deveria ser ilegal conversar com as pessoas antes do primeiro café.

Sendo assim, e considerando os meus anos de solteira, confesso que já virei muita noite em claro, pela simples inabilidade de relaxar e adormecer do lado de alguém.

Acontece que há algumas semanas, socorro, tem alguém dormindo na minha cama. Ok, pretensão a minha dizer isso. Mais sinceramente, tem alguém dormindo na cama dele. Ou não dormindo, no caso. Eu. Nas primeiras noites, o desconforto bem conhecido. A busca eterna por uma posição de conforto, horas encarando o teto, o malabarismo a lá Cirque Du Solei para tirar um cotovelo enorme de cima da minha teta e a tentativa ridícula de parecer linda ao acordar. Que gastura!

Mas lá fui eu, tentar entender a mágica da tal da conchinha, tendo quase certeza que sou mesmo é um ouriço de pijama. Eu não sei onde enfiar meus braços. Fico desconfortável pra ir ao banheiro /tomar água/ir no banheiro de novo. Tenho medo que meus cabelos sufoquem meu companheiro de travesseiro. E sofro com nossos fusos incompatíveis.

Dormir acompanhado é muito cansativo pra mim. Até a bela noite em que eu – exausta – relaxei e dormi por algumas horas, apenas para despertar no meio de um peido, furtivo e sonoro, que me acordou num susto. Eu quis morrer. Espiei com um olho aberto e outro fechado por trás do meu travesseiro se a outra parte da cama reconheceria a intimidade inadequada do meu intestino grosso. Nada – ou dormia solenemente, ou me fez a cortesia de ignorar a minha vergonhosa sonoridade. Como se o ambiente não fosse turbulento sem a minha flatulência… Enfiei a cara no travesseiro e fingi dormir até o outro dia. O peido só podia ser o meu castigo por adormecer.

Acontece, no entanto, que a privação de sono também pode enlouquecer (e ninguém aqui precisa ficar mais louca né). Depois de uma semana inteira tentando controlar o incontrolável, eu cedi à trama intricada de dois pares de pernas disputando harmoniosamente o mesmo edredom. Eu continuei com a minha rotina maluca, e indisciplinada de nunca ter hora pra dormir, mas aprendi a me deitar mais cedo pelo genuíno prazer de me aquecer ao toque da pele de alguém que me abraça com carinho. Na contrapartida, ele – que é de rotina matinal pré-cantar-do-galo – passou a vestir-se no escuro para não me acordar e a me enrolar como um temaki no edredom sempre que não podia me entregar mais “cinco minutinhos” de carinho por conta do trabalho.

Eu larguei o cigarro (ainda que em análise) e passei a celebrar beijos matutinos antes de escovar os dentes – realidade que eu achava que existia somente nos filmes. Abri mão de tentar ficar bonita ao acordar, porque ele tem mania de tirar fotos minhas dormindo e manda-las no meio da manhã, com a legenda “linda” logo abaixo – e por Jeová, como não ficar feliz quando alguém enxerga beleza no meio de uma macega de cabelos embaraçados e remelas? Gosto quando preciso de um espaço e ele negocia “um pezinho pelo menos” que eu tenho que deixar a disposição para que ele se encoste. Ou de como entende que por vezes eu preciso testar o outro lado da cama, porque ainda não entendo muito bem essa coisa de “lado da cama”.

Adoro buscar a luz dos olhos dele antes de sair catando a luz da tela do celular. Ou de como eu me sinto uma idiota sorrindo ao vê-lo dormir, ainda que com o maldito cotovelo em cima da minha teta – mas perto o suficiente para que eu possa sentir o cheiro da sua respiração. Eu que me condenava uma rebelde da conchinha, entendi que nos lençóis certos vale a pena pegar num sono. E cultivar sonhos de horas mais longas na cama – fazendo não muito mais do que dormir agarrado, feito um coala.

Por falar em coala, aqui na Austrália já é hora de dormir. Que felicidade.


Fim da sessão.
ps: tenho certeza que ele ouviu o meu peido

Preciso de um amor pra velhice

Preciso de um amor pra velhice

Eu nunca me vi tendo a necessidade de um relacionamento. Sabe, eu gosto de enrolar meus pés em alguém querido embaixo das cobertas. Amo beijos estalados. E adoro sexo com sentimento. Mas eu nunca pensei comigo “meu Deus, preciso de um relacionamento”. Eu preciso de dinheiro na minha conta. Preciso baixar meus triglicerídeos. Preciso trocar o óleo do meu carro. Ou seja, eu não preciiiiiso de amor. Amor me parece muito mais uma escolha do que uma necessidade, concordam?

OK, talvez eu esteja sendo um pouquinho infame quanto a “não precisar” de um amor porque a minha idade ainda me permite algum desdém (ou certa infantilidade). Veja, eu ainda olho pra minha bunda no espelho e consigo me achar um tesão. Cuido da maioria dos meus perrengues com um pé nas costas. Adoro a minha companhia, e dificilmente me sinto sozinha. Minha família me quer (na maioria das vezes) por perto. E eu tenho uma pá de amigos que largariam tudo para tomar uma gelada comigo. E isso é muito legal, mas é também uma condição associada à juventude. Foi aí que pensei que amor e necessidade poderiam sim, estar relacionados, quando colocarmos o fator idade na equação.

Hoje me peguei catando conchinhas na beira da praia. Fui de manhã cedo quando o sol não estava tão forte. E porque segundo um amigo-aspirante-a-companheiro me disse, eu tinha que “movimentar a minha carcaça preguiçosa” para viver mais anos. E ele não podia estar mais certo. Enquanto eu escolhia as conchas de cores lindas com cautela, o rapaz de corpo atlético e olhos da cor do mar, caminhava alguns passos a frente, dando soquinhos no ar, simulando uma luta – como os garotos fazem, sabe? Ele aguardou com paciência eu pegar uma a uma das conchas que queria. E quando finalmente o alcancei no fim da praia, beijou a ponta do meu nariz e disse como eu ficava linda sob a luz do sol.

Foi ali que eu me dei conta de que em algum momento, eu vou sim precisar do amor de alguém. E não estou dizendo aqui que todo mundo precise. Mas eu vou precisar. Quando a minha bunda não for mais motivo de orgulho, eu quero que alguém ainda olhe pra ela com interesse – me convencendo de que a beleza da minha retaguarda, será por onde ela já sentou para olhar o nascer ou pousar do sol. Quero que alguém beije as minhas marcas de sorriso – aquelas injustamente chamadas de “pés de galinha” – e as aprecie por serem marcas da alegria de uma vida inteira. Quero alguém preocupado com meus triglicerídeos e com o óleo do meu carro, quando a minha memória tirar o melhor de mim.

Alguém que faça questão da minha companhia, quanto eu já não for mais tão independe, e meus filhos já não tiverem mais paciência para a minha rabugentice. Ou quando a maioria dos meus amigos já tiver partido para festa no andar de cima. Alguém que me ajude a achar meus óculos, quando os mesmos estiverem na cabeça.

Preciso de um amor pra velhice porque em algum momento da vida a gente precisa ser lembrada que valor não tem validade, que a beleza está além do colágeno e também porque já não serei tão jovem a ponto de achar que sei de tudo. Preciso de um amor pra velhice, pra fazer dela a melhor idade. Aliás, preciso e quero um amor pra velhice.

Nem que seja pra ver aquele belo sorriso e a aquela careca refletindo o sol, aguardando pacientemente, enquanto eu pego conchinhas na beira da praia.

Fim da sessão.

O meu irmão gordo não cabia neste mundo

“A indústria da dieta é o único negócio lucrativo do mundo com um índice de insucesso de 98%.”

eatingdisorderfoundation.org

Para vocês que acompanham estas sessões públicas de terapia, essa não é uma daquelas que termina com um grande aprendizado de espírito elevado, ou uma celebração das lições da vida. Não, essa não será uma destas sessões. Essa sessão é daquelas que você levanta do divã tendo a certeza de que teve de engolir um brejo inteiro, ao invés do sapo.

Aos 20 e poucos anos meu corpo mudou drasticamente. E confesso, tem uma parte de mim que acha que foi proposital. Note, sem qualquer arrogância pretendida, eu nunca fui alguém que passou desapercebida. Eu sempre fui aquela garota dita “popular”. As pessoas sabiam meu nome (aliás, meu sobrenome que aparentemente me garantia uma imagem mais pomposa) antes mesmo que eu soubesse o delas. Eu não tinha uma vida pública – mas tudo que era meu parecia não ser privado. Namorados, tropeços, primeira transa. Aquilo que as pessoas celebram como popularidade, eu via como o desgosto de crescer e me desenvolver sob a lente de um microscópio.

“Ora, por favor, quem não gostaria do mundo aos seus pés?”. Eu não gostaria. Tive a bunda fotografada em diversos ângulos por um garoto na escola, que publicou-as em um site (em uma época que ninguém sabia fazer sites) para que minhas bochechas inferiores ficassem sempre a disposição. Tive propostas de relacionamento muito mais ligadas à minha aparência (ou a apostas) do que a minha personalidade. As pessoas lembravam que eu tinha um corpo de bailarina, mas tinham pouquíssimo interesse no meu discurso. Eu participava de trabalhos sociais desde muito nova, mas era o “social da novinha” que excitava o interesse. Era um saco.

“Óh… pobre menina bonita (adicione sua dose favorita de ironia aqui).” Eu sentia que nada que eu fizesse era mais importante do que como eu aparentava. Me encolhia sob os olhares de interesse e de constante julgamento. Cuidava do meu visual com demasiado sofrimento. Repensava as minhas frases duas vezes antes de pronuncia-las em público. Se as outras garotas odiavam o anonimato, eu aprendia pouco a pouco, o peso cavalar do holofote.

E foi com peso que me vi aliviando essa atenção. Bom, isso podia ser o plano original, ainda que na época, fosse inconsciente. No término da faculdade, eu precisei entregar o meu TCC em 30 dias, por conta de uma crise crônica de procrastinação. Então eu me deleitei naquilo que julgava uma compensação pelas longas horas de escrita. Pizzas, energéticos e guloseimas foram os meus companheiros contra o relógio do TCC durante aquele mês. E na contrapartida do relógio, a balança. 1kg para cada ponto que ganhei na minha dissertação: eu tirei 10.

Peguei meus 10kg e fui pra Londres longe do olhar julgador de conhecidos. Adquiri mais uns 4kg bem conscientes entre longos happy hours e novas culinárias. Perdi 7kg só de desespero na primeira visita ao Brasil. Tive medo que o tamanho alargado dos meus quadris fosse a única coisa que as pessoas iam comentar, deixando de lado as minhas suadas conquistas – como o trabalho numa grande corporação internacional e o MBA na Inglaterra. Ali, eu aprendi que se antes o foco das pessoas estava ligado a minha imagem externa, agora, bem… nada havia mudado. Talvez apenas piorado.

Eu aprendi que meu corpo virou uma pauta pública (mais uma vez e agora de forma depreciativa). Pessoas se sentiam a vontade para falar sobre o meu sobrepeso e de como eu ERA bonita (conjugado no passado). Eu havia – de certa forma – conseguido o que queria. Não era julgada pela minha beleza. Eu só não imaginava, que seria pela “falta” dela. Fato é que pra maioria do mundo, você é o que você come. A minha grande surpresa foi que mesmo comendo coisas gostosas, eu jamais seria uma com as minhas novas formas. É como se o meu (o seu, o nosso) valor fosse medido numa escala interpretada apenas por quilos sobre a balança. Quando vi, passei a colecionar olhares de pena, no lugar daqueles que antes eram de inveja ou interesse. Eu não sabia o que era pior.

Eu não sabia o que era pior até ver a mesma situação – em uma magnitude estratosférica – acontecer com o meu irmão. Desde a adolescência ele havia brigado com a balança, até atingir a vida adulta com o dobro do peso que deveria ter para ser “socialmente aceitável” (ânsia de vomito aqui) e cautelosamente saudável. Se para mim, com apenas alguns quilos a mais, era difícil não pertencer ao grupo das bonitas, para o meu irmão com excesso de peso imensamente maior, era triste não pertencer mais ao grupo dos bem-vindos.

Vi ele sucumbir no silêncio de seu quarto, enquanto a minha família lutava para lhe oferecer toda a estrutura e apoio necessário na luta contra a obesidade. Ele tinha vergonha de se servir na frente dos outros. Nunca entrava em lojas para, sequer, olhar as roupas de longe. E quando muitas vezes usávamos transporte público enquanto viajávamos, ele só sentava se fosse ao meu lado, num semi-pânico de possivelmente invadir o espaço de um passageiro desconhecido. Falar sobre o assunto era demasiadamente doloroso e com um pesar associado sempre a muita vergonha.

Você já imaginou sentir-se completamente exposto 24h/dia?

Era como se ele andasse pelado na rua. Sabe, quando você vira referência? “Quebra a direita no corredor onde está parada aquela gordinha.” “Fulano, sabe, aquele que é bem gordo”. Você vira o que você pesa e ponto final. De repente tudo que as pessoas queriam era discutir as métricas do meu irmão, como se ele por acaso saísse falando do Botox que via na cara das minhas tias ou dos pêlos no nariz daquele cidadão que não via desde criança. Entendemos o real sentido do termo “gordofobia”. O corpo dele parecia que não era mais dele, e a reclusão foi a saída de emergência mais próxima. A comida virou um circulo vicioso de: vergonha > ânsia por satisfação > mais vergonha.

Quando o Leonardo decidiu fazer a bariátrica, eu fui contra. Não que não quisesse ver o meu irmão receber a ajuda que precisava, não é isso. Mas achava que deveria haver um tratamento preparatório maior, do ponto de vida psicológico. Sabe, preparar a pessoa para esse novo corpo, essa nova vida. O meu irmão já era um adulto, quase um médico formado, então ainda que respeitasse as minhas ressalvas, ele seguiu em frente. E teve meu apoio incondicional em cada parte excruciante do pós-operatório.

O Leonardo viu seu corpo reduzir drasticamente. Pela metade. Ficou obcecado pela perda de peso, que parecia nunca ser o suficiente. E com todo o peso perdido, os cabelos, as unhas. Tinha que tomar vitaminas e um calhamaço de cuidados que teria de ter pro resto da vida. Sofria de constantes quebras de consciência. Estava comigo num minuto, de repente, no outro, não estava mais. Começou apresentar variações na fala. E em duas ocasiões diferentes, convulsões que o levaram ao chão. Nos exames dele, tudo normal.

Na vida dele, para os outros, tudo melhor. O Léo começou a receber uma atenção nunca antes sentida. Era convidado para finais de semana na casa de praia de familiares. Ganhava constantemente presentes de pessoas não tão próximas. Recebia cantadas de mulheres e homens. Convites nunca recebidos para todo tipo de programação. Era como se com a capa de gordura, ele tivesse também removido a capa de invisibilidade que ele antes vestia.

E eu? Tive crises de ressentimento e muito rancor. Rancor por todas as pessoas que passaram enxergar atratividade estética, onde eu sempre vira beleza. A beleza do meu irmão, acima de qualquer coisa. O meu irmão era um jovem brilhante, sensível e gentil, com uma carreira cheia de conquistas e um futuro promissor e excitante. Mas tudo o que a maioria das pessoas enxergavam era um cara gordo. Ou naquele novo corpo, um cara magro. Eu guardei seus rostos e nomes na minha memória. Intitulei a lista como “amigos da beleza conveniente”. Tive raiva de cada aproximação interesseira que presenciei. Mas me nutri da alegria que meu irmão sentia por toda essa nova sensação de interesse, “bem querer” e pertencimento.

Meses atrás, um pouco antes de tirar umas férias da vida que deixei pra fora da minha mochila, eu terminei de ler um livro que meu irmão havia comprado. Achei o livro em seu armário e esperei um ano e meio antes de ter coragem de lê-lo. O livro era “Grande Irmão” de Lionel Shriver. O bestseller conta a história de Pandora, uma mulher que larga tudo em sua vida para ajudar o irmão na difícil tarefa de perder peso. Eu devorei o livro a procura de respostas. Achei que ali poderia encontrar uma pista do que eu poderia ter feito. Me deparei com a tragédia na arte, da mesma forma como me deparei com a tragédia na minha vida. Entendi que certas fatalidades são inevitáveis na literatura ou fora dela. A personagem do livro, perdeu o irmão gordo para complicações da obesidade. Eu, perdi o irmão magro para as complicações que ele passou a ter depois da cirurgia.

Foi difícil de encara a inevitabilidade de ambas as histórias.

Talvez por conta disso eu tenha decido nunca perdoar as pessoas que trataram o meu irmão com descaso ou despeito quando ele era gordo. Gente que entende prestígio da mesma forma que encara a arroba de um boi. Eu nunca vou esquecer dos nomes daqueles que enxergaram o meu irmão apenas quando ele foi magro, e de alguma forma, o convenceram de que a única forma de ser reconhecido, era tornando-se padrão. Mediano. Custasse o que custasse.

E aqui talvez seja crueza ou até crueldade da minha parte dividir essa sessão tão visceral. Visceral a ponto de não ser lapidada para o grande público em forma de uma significativa e poderosa lição ou de um comportamento exemplar. Visceral porque surgiu de mais uma noite que perdi o sono com esse assunto. De mais um dia que chorei porque alguém sugeriu que eu tivesse que emagrecer, e eu lembrei que o peso deste assunto vai muito além do meu corpo. E que a perda é muito mais profunda que a dos quilos.

O meu irmão gordo não cabia neste mundo. Nem nas roupas. Nas cadeiras frágeis. Não cabia nos elevadores. Na foto. Na praia. Na luz do dia. Na turminha. Nos olhares de reprovação. No destaque positivo.

E por conta disso eu passei a cultivar um outro peso, que é o peso do rancor. Do rancor e da pena. Com o tempo eu também passei a sentir pena daquele grupo de pessoas que segue medindo valor humano baseado na circunferência da cintura alheia ou dos IMCs. Porque enquanto eu conseguia enxergar a beleza do meu irmão durante todos os dias de sua vida, teve quem se limitou a visão de um caixão bem magro no fim dela.

E como avisei pra vocês. Essa não é uma daquelas sessões que faz a gente se sentir melhor. Não, é. Eu lamento.

Fim da sessão.

Observação importante: Eu poderia falar horas sobre obesidade, cirurgia bariátrica, tudo que vivi e pesquisei. Os prós e os contras que aprendi de perto, e senti muitas vezes na pele. Mas aqui eu vou fazer um único apelo, a qualquer pessoa que considere a cirurgia bariátrica: estude muito bem os efeitos colaterais pouco divulgados, como as convulsões, as perdas de consciência, nutrientes, quedas agressivas de cabelo, mal estar, e em casos graves, até o alcoolismo e o óbito. Não quero com a história do meu irmão vender a ideia de que a cirurgia não deve acontecer. Não é isso. Obesidade também é um grande problema de saúde que deve ser tratado. Mas caso a cirurgia seja a última opção, que seja uma decisão com intenso acompanhamento – físico e psicológico – entendendo que é uma decisão que terá consequências e cuidados para o resto da vida.

Acima de tudo. Ame-se. Você tem motivos de sobra para se amar, eu garanto.

Fiquei offline

Fui viajar e acredite, a internet não importou tanto assim. Confesso, pra uma heavy user como eu foi uma bela desintoxicação. Esqueci de pagar a conta do provedor do meu site, atrasei pautas para editores, já que por alguns dias, a minha presença “nas internê” já não era tão crucial. Nenhum desrespeito a editores ou leitores, eu juro, não era isso. Mas a vida real me chamou lá fora, exigiu a minha atenção. E quando a vida chama com tamanha intensidade, curtir publicações fica menos importante que curtir momentos. Vocês entendem, não é?

Eu fiquei offline porque o sol insistiu em brilhar lá na rua. Mudei a minha localização geográfica para um país que vive feliz com muito pouco. Ou talvez “pouco” tenha sido um valor distorcido na minha vida de acumuladora. Claro que tive que acumular dinheiro, para poder acumular histórias em outros cantos do mundo. Mas acumular roupa suja, joelhos encardidos e amizades novas me pareceu uma atitude de valor inestimável nos meus dias na Indonésia. Sendo assim o Wi-fi foi usado quase que exclusivamente para avisar a minha família de que eu estava feliz e com saudade e talvez compartilhar uma foto aqui ou outra ali. O apelo visual foi uma ferramenta utilizada quando me faltaram palavras para descrever a alegria que vivi.

Eu fiquei offline porque a conexão com templos era impossível de ignorar. Ou porque macacos selvagens tinham mania de roubar celulares, então por muitos momentos ele ficou guardado por precaução. Fiquei sem bateria incontáveis vezes, depois de tentar de forma frustrante tirar fotos e fazer vídeos que fizessem justiça ao que meus olhos presenciaram ao vivo, e falhei em todas as vezes. Fiquei sem bateria no corpo também, porque ser feliz cansa. Embaraça o cabelo, que passou a cultivar dreadlocks que levaram dias para serem desfeitos. Talvez uma dica do vento dizendo pra não me preocupar com o alinhamento das coisas, que a vida é mesmo um emaranhado de sentimentos, sonhos, angústias, paixões, e que tudo isso não é páreo para condicionador e pente.

Fiquei offline porque as pessoas a minha volta exigiram atenção. Gritante e espalhafatosa atenção. Com suas peripécias malucas, histórias incabíveis e impublicáveis. Larguei o celular pra pegar na mão de amigas, abraçar novos conhecidos, viver novas paixões e reencontrar comigo mesma. E eu adoro reencontrar comigo mesma. Larguei o celular porque ele não cabia na carona de uma moto, ou dirigindo um carro com 9 meninas lindas, na mão inglesa, que é a contrária daquela que aprendi, enquanto tentava falar “buzinês balinês” numa terra que não entende o uso do pisca. Abri mão dos eletrônicos porque eles não são bem vindos no mar, e precisava das mãos pra pegar conchas, admirar corais, e tentar (inutilmente) não escorregar de pedras nas cavernas que descobri. Precisei das mãos para fazer uma prece de gratidão a cada passo do caminho. E abrir uma cerveja Bintang a cada novo tropeção.

Fiquei offline por necessidade, mas também por escolha. Perdi aniversários de amigos, momentos dramáticos na política, não respondi e-mails importantes, e chateei muita gente por falta de retorno. Me perdoem, entretanto não foi por mal.

Às vezes a vida pede “presença presente”, ativa, contribuinte e alerta na vida real. Talvez são os momentos em que a gente se importa mais com estar vivo, do que estar online.

Agora tudo volta à “normalidade”. Com o coração pulsando pela próxima oportunidade de me desconectar do mundo, e me reconectar com o melhor de mim. Essa conexão sim, eu curto muito, e compartilho.

 

Fim da sessão.

ps: tem mais sobre Bali vindo aí, por hora: Tera Makasih.

Adeus, tchau e até logo

Escrevo essa sessão de um lugar que gosto mais que um bom divã. Um aeroporto. O dia não amanheceu ainda, mas o meu pânico de perder um voo por conta do trânsito, me trouxe ao aeroporto Internacional de Guarulhos um pouco depois das 4h da manhã. Munida de um café hiperinflacionado, eu observo a movimentação sonolenta de funcionários e passageiros que como eu, aguardam as horas mais efetivas do dia. Não sei por que demorei tanto para comentar sobre essa viagem aqui. Talvez porque ainda que esteja a algumas horas de cruzar o globo, essa viagem tem um ar de tranquilidade e pouca presunção. O destino já é conhecido: Austrália, com alguns dias de pura alegria na Indonésia. Tempo estimado de viagem: 2 meses. Ou seja, eu vou logo “ali” e “já” volto.

O que me impressionou nesta viagem em particular foi a comoção alheia com a movimentação que, em tese, dizia respeito apenas a mim. Amigos, familiares e conhecidos, dedicaram bom tempo a especulações sobre o meu retorno e sobre a intenção com o meu deslocamento para lá onde Judas perdeu as botas (Timberland, possivelmente).  Não importava quantas vezes eu explicasse com tranquilidade que logo voltava e minimizasse o drama envolvido em alguns dias de ausência física. Sim, física, porque depois do Whatsapp, ninguém tem um minuto mais de reclusão na vida. Houve lágrimas, ansiedade crescente e horas de explicações pouco compreendidas (pra não dizer abafadas pelas lágrimas infundadas).  Para muitos, a minha viagem não era logo “ali” e tão pouco era um “já” volto.

Acuso esse fenômeno desconcertante que precede uma viagem, como a síndrome do  desconhecimento sobre a diferença entre o adeus, o tchau e o até logo. Não posso ser injusta com meus amigos. Ora, eu sou uma viajante incorrigível, então a ideia de eu não voltar a criar raízes não é tão absurda. Isso agravado pelo fato de que meu retorno do mundo para a pequena cidadezinha que chamo de lar no interior do Rio Grande do Sul, nunca ser suave. É como tentar usar dois pares de sapatos nos meus únicos dois pés.  É um desequilíbrio constante tentar existir perto da minha morada fixa, e aquela que habita o peito e segue solta pela estrada. Existe também chance de encontrar um amor em outros portos. A possibilidade de um livro. A conquista de uma nova cidadania. Ok, talvez eu tenha sido dura demais avaliando o drama envolvido das minhas despedidas. Eu tenho muito pelo que partir.

Mas eu também tenho muito pelo que voltar. Certo dia, um amigo que mora justamente na Austrália, me perguntava do que eu mais gostava na minha pequena cidadezinha, afinal eu havia trocado o mundo, para voltar pra lá. E a minha respostar não podia incluir a minha família e amigos. Fiquei consternada ao descobrir que além dos meus amores, o meu bar preferido era a única coisa que ocupava a minha lista. Ok que o bar em questão fazia tele-entrega de bêbada na minha casa, vez que outra quando necessário. Mas ainda assim, não conseguia justificar que meu único elo com a cidade se resumia ao local onde eu bebia. Em conversa com o dono do mesmo bar, reclamava preocupada sobre meu drama, quando ele me mostrou que a pergunta do meu amigo era injusta.  Porque o “além da minha família e amigos” imposto na minha resposta, era justamente o fundamentava todo meu existir. E até a escolha do bar só reforçava o meu “além”. Porque era onde eu encontrava com quem eu amava, além da minha casa.

Eu evitei despedidas antes de chegar a este aeroporto, hoje, às 4h da madruga. Mas o meu esforço foi totalmente em vão. Vivi os últimos dias com gente que fez plantão na minha casa, até quando eu dormia, para ter certeza de que curtiriam os últimos momentos, antes dos próximos, na minha companhia. Recebi mensagens de quem eu sequer avisei sobre a minha partida. Eu bebemorei amizades mais do que meu corpo aguentou nas últimas horas, e confesso que meu fígado odeia despedidas mais do que eu, neste momento. Eu vi meus pais reforçarem o poder das minhas asas, mais do que a importância do meu ninho, provando que amor é mesmo deixar livre para poder voltar. E que embora todo mundo duvide da diferença entre adeus, tchau e até logo, tem algumas certezas que são irredutíveis. De que às vezes é preciso ficar longe de todo mundo, para poder ficar perto da gente mesmo. E que nada no mundo é melhor do que ter motivos pelos quais voltar pra casa.

É bom ir embora pelas razões certas, eu garanto. Mas nada supera voltar pelas mesmas ou novas razões. E se existe dúvida em relação onde e porque a gente faz raízes, não existem dúvidas de que somos todos passageiros. Então faz sentido apenas aproveitar a viagem. Cheia de partidas e chegadas. Despedidas e reencontros.  A vida é muito curta para ficar parado, e importante demais para não ter ao que se apegar.  Então acreditem, eu vou até “ali” e “já” volto. Bon Voyage.

Fim da sessão.

Ps: O divã segue com suas sessões, com cronograma um pouco bagunçado em razão de fuso, e horas intermináveis de diversão. A meta inclui o famoso livro, que eu comunico aqui com a intenção única de botar pressão em mim mesma. Quem quiser curtir o divã na estrada pode me acompanhar pelas redes sociais – Facebook ou Instagram (@antonianodiva). Mandem dicas, convites para café e cerveja além dos mares, ou apenas seus desejos de boa viagem. É preciso ir embora, sim,  mas não quer dizer que não quero todos vocês juntos comigo. Vem também.

 

Muito obrigado, doadores!

Em tempos em que ficou tão raro e difícil olhar ao próximo, que bom é perceber que com um pouquinho de amor, a gente pode fazer muito. Aqui está o resultado da nossa campanha de doação de sangue de 2017.

Agradecimentos especiais aos heróis e heroínas que fizeram bonito neste ano:

1. Leonardo Silva
2. Amanda Talasca
3. Vinicius Ludtke
4. Nathalia Travi Canabarro
5. Carine Moreira
6. Laura Zaparoli Zanrosso
7. Aline Mazzocchi
8. Lindonira dos Santos
9. Tiago Braga
10. Jean Maito Ragnini
11. Mineia Vinch
12. Eduardo Birkheuer
13. Tchay Ávila
14. Amanda Gros
15. Ana Carolina Siqueiras B. Melo
16. Nhaiobi Ruivo
17. Andréia Nunes dos Santos
18. Flávia Gomes
19. Amanda Lima Primo
20. Tatiane Theobald
21. Ivan Ferri
22. Conceição Mendes
23. Daniel Scherer
24. Mariana Nakamura
25. Irina Satie Goya
26. Bianca K. Medeiros
27. Rejane K. de Medeiros
28. Nestor de Medeiros
29. Rita Diogo
30. Neia Diogo
31. Maurício Afonso Ferreira
32. Ana Cristina Mello
33. Ana Paula Paes
34. Thalita Mendes
35. Amanda Schenkel
36. Juliane Kappke
37. Graziella Paniz
38. Valentina Metsavaht Cara
39. Josiane Sds
40. Jamile Hallam
41. Iwan Zemczak
42. Rita Engel
43. Dai Passinato dos Santos
44. Dionatas de Andrade
45. Camille Schneider Ribeiro
46. Melina Mello
47. Isadora Mahle

Agradeço também a todo mundo que tentou doar, divulgou a campanha e torceu por nós. E é claro, a minha mãe, ao Mateus e ao Murilo por sempre apoiarem os meus projetos, e ao Léo que me manda toda luz e inspiração do mundo de onde quer que ele esteja. Muito obrigada!


Fim da sessão, mas nunca da gratidão.

Confissões e devaneios em formato de blog.