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As grandes lições

Já percebeu como algumas das maiores lições da vida não são lhe entregues de mão-beijada? Existe uma premissa de que o conhecimento está associado com merecimento. “Cerca Trova”“Busca e encontrarás”, Giorgio Vasari já dava a dica sobre um dos maiores mistérios da história da arte. Conhecimento é algo valioso que precisa ser decifrado. Sim, porque coisas importantes não são simplesmente “largadas” por aí. Preciosidades são sempre protegidas por códigos complexos, segredos profundos, ou na mais fácil das hipóteses, trancafiados a sete chaves. Ainda assim, conhecimento, mesmo que protegido, costuma ser acessível, lhes garanto. Ele é deveras democrático, por isso dificilmente será colocado sob uma torre de marfim.

As grandes lições da vida normalmente são encontradas em lugares comuns do nosso cotidiano. E cabe a nós – única e exclusivamente nós – decifrar os códigos únicos para destravar novas etapas de conhecimento. Tipo, passar de fase no candy-crush, só que melhor.

Grandes lições podem vir nas mais variadas formas, como através de livros, cursos, jornadas. Eles podem ter caráter bem pessoal, ou atingir níveis mais superficiais de aptidão. Às vezes essas lições nos são passadas por outros mestres, como professores, pais, gurus, entidades, ou mesmo por mestres que nem sabiam que foram nossos mestres – um irmão, uma amiga, um desconhecido especial que cruzou a nossa cruzada. Tem gente que encontra suas respostas num encontro com a morte, outros que despertam para vida com o nascer de uma nova. Como afirmei antes, as lições são bem democráticas, além de polimorfas e sem aviso prévio.

Algumas das minhas respostas, por exemplo, eu encontrei na terapia depois de anos de reflexão. Outras a vida me jogou na cara em segundos. Dos aprendizados que coleciono, o meu mais valioso (aquele que eu desencavei de uma arca profunda do inconsciente),   é o de estar sempre alerta as grandes lições. Justamente por sua capacidade camaleônica de misturar-se com o conhecimento banal e passageiro. E principalmente por estar disponível em lugares menos óbvios. É como o santo graal no filme do Indiana Jones. Conhecimento nunca vai ser um cálice dourado, modelinho ostentação. Vai ser de madeira, palpável, disponível, compartilhável. Isso, é claro, se houver dedicação, e se estivermos ALERTAS ao conhecimento oferecido.

Dia destes, peguei-me assistindo pela milésima vez o filme “A Volta do Todo Poderoso”, em que o personagem principal, Evan Baxter, é convencido por Deus (interpretado por ninguém menos que Morgan Freeman), a construir uma arca. O plot é engraçadinho, mas me tem de verdade por três motivos específicos: 1) como o personagem principal eu também cultuo uma dançinha da vitória sempre que estou feliz, 2) sempre imaginei Deus negro, indiferente do que diziam as freiras do meu colégio 3) uma lição profunda e sincera sobre aprendizado e grandes lições.

No filme Deus-Morgan-Freeman explica para esposa do Noé Pós-moderno, que muitas vezes rezamos por algum tipo de conhecimento ou respostas às grandes lições da vida.  “Deus me faça mais paciente.” –  “Senhor engrandeça a minha coragem”. – “Pai (Alá – Oxum- quem-você-acredita), faça de mim uma pessoa melhor”. O que acontece, entretanto, não é a entrega de um pacotinho com esse novo conhecimento pronto para ser absorvido como a versão atualizada do iOS no seu iPhone. Deus, a sua entidade luz preferida, ou mesmo a vida, lhe apresentam oportunidades para ser mais paciente. São-lhe oferecidas oportunidades para edificar a sua coragem. O que você ganha é a oportunidade de aprender a ser uma pessoa melhor. A lógica me fez total sentido.

Desde então, me pego pensando no Deus-Morgan-Freeman, sempre que me vejo estagnada frente a uma tarefa que exige a pior das minhas habilidades (como paciência, por exemplo). E na medida do possível, eu encaro aquela nova cruzada alerta da oportunidade que eu tenho de aprender novos códigos, condutas e comportamentos para desvendar níveis superiores do meu conhecimento. Ou se tudo der errado – no mínimo eu vou aprender alguma coisa pra encontrar a minha paz de espírito.

Hoje conversando com uma amiga (alguém que eu considero de uma inteligência emocional acima da média), ela me contava como odiava agir de certa forma com as pessoas para que elas entendessem o certo do errado. E de como ela ficava mal frente a este enfrentamento. E mais uma vez me vieram à cabeça as palavras de Deus-Morgan-Freeman: “estás ganhando uma oportunidade de aprender mais essa lição”.

Sabe, às vezes nós recebemos lições duras da vida, e nosso coração se enche de pesar, e ficamos cegos de tristeza a ponto de não conseguir desvendar novos códigos de aprendizado. Outras vezes ficamos tão enfurecidos frente a um impasse, que somos incapazes de desatar os nós, ou procurar as malditas 7 chaves que abram a urna da iluminação. Ainda há quem perca a lição por achar que sabe tudo, ou por acreditar que tamanha inspiração jamais viria de uma fonte tão ordinária, uma determinada pessoa, um encontro, uma perda. Não se assuste. Aqui vai ter sempre o dedo de outro grande professor atento a tudo: o tempo, como senhor de todas as lições.

Hoje eu decidi compartilhar tudo que já aprendi sobre as grandes lições da vida: estar sempre alerta às oportunidades. E caso tenha perdido a lição, confie sempre no tempo, como grande professor.

Fim da sessão.

ps: Há pouco menos de 2 anos eu procuro todos os dias por oportunidades para aprender com aquela que considero a maior (e mais dolorida) lição da minha vida. E há pouco menos de 2 anos, a única certeza que eu tenho é que ela tem a ver com paciência e fé. Mas eu sigo alerta.

(não achei legendado, então vai o dublado pra quem não manja do inglês)

Socorro: tem alguém dormindo na minha cama

Dividir a cama com alguém, sempre foi tabu pra mim. Ok deixe-me reformular esta frase. Dividir a cama para dormir com alguém, sempre foi tabu pra mim. Eu não tenho tantos problemas em dividir a cama para ficar acordada (ui, adoro!). Mas perceba que sexo – por vezes – pode ser pura e simplesmente um ato de prazer. Dormir junto, no entanto, é um ato de intimidade. E é aí que eu me atrapalho.

Eu simplesmente odeio dividir a cama. Pergunte as minhas amigas sobre nossos inúmeros verões na praia. Eu sou a primeira a me atirar num colchão no chão, contanto que não tenha que dividi-lo com ninguém. Note, eu me mexo pra caralho, fico horas futricando no celular antes de dormir, sou fumante e sensível ao cheiro (que sei que não agrada ninguém) e ronco. Jesus amado, como ronco. Botaram uma britadeira no lugar do meu sistema respiratório, só pode. Além disso, acordar perto de mim é uma atividade de alto risco. Sou daquelas que acha que deveria ser ilegal conversar com as pessoas antes do primeiro café.

Sendo assim, e considerando os meus anos de solteira, confesso que já virei muita noite em claro, pela simples inabilidade de relaxar e adormecer do lado de alguém.

Acontece que há algumas semanas, socorro, tem alguém dormindo na minha cama. Ok, pretensão a minha dizer isso. Mais sinceramente, tem alguém dormindo na cama dele. Ou não dormindo, no caso. Eu. Nas primeiras noites, o desconforto bem conhecido. A busca eterna por uma posição de conforto, horas encarando o teto, o malabarismo a lá Cirque Du Solei para tirar um cotovelo enorme de cima da minha teta e a tentativa ridícula de parecer linda ao acordar. Que gastura!

Mas lá fui eu, tentar entender a mágica da tal da conchinha, tendo quase certeza que sou mesmo é um ouriço de pijama. Eu não sei onde enfiar meus braços. Fico desconfortável pra ir ao banheiro /tomar água/ir no banheiro de novo. Tenho medo que meus cabelos sufoquem meu companheiro de travesseiro. E sofro com nossos fusos incompatíveis.

Dormir acompanhado é muito cansativo pra mim. Até a bela noite em que eu – exausta – relaxei e dormi por algumas horas, apenas para despertar no meio de um peido, furtivo e sonoro, que me acordou num susto. Eu quis morrer. Espiei com um olho aberto e outro fechado por trás do meu travesseiro se a outra parte da cama reconheceria a intimidade inadequada do meu intestino grosso. Nada – ou dormia solenemente, ou me fez a cortesia de ignorar a minha vergonhosa sonoridade. Como se o ambiente não fosse turbulento sem a minha flatulência… Enfiei a cara no travesseiro e fingi dormir até o outro dia. O peido só podia ser o meu castigo por adormecer.

Acontece, no entanto, que a privação de sono também pode enlouquecer (e ninguém aqui precisa ficar mais louca né). Depois de uma semana inteira tentando controlar o incontrolável, eu cedi à trama intricada de dois pares de pernas disputando harmoniosamente o mesmo edredom. Eu continuei com a minha rotina maluca, e indisciplinada de nunca ter hora pra dormir, mas aprendi a me deitar mais cedo pelo genuíno prazer de me aquecer ao toque da pele de alguém que me abraça com carinho. Na contrapartida, ele – que é de rotina matinal pré-cantar-do-galo – passou a vestir-se no escuro para não me acordar e a me enrolar como um temaki no edredom sempre que não podia me entregar mais “cinco minutinhos” de carinho por conta do trabalho.

Eu larguei o cigarro (ainda que em análise) e passei a celebrar beijos matutinos antes de escovar os dentes – realidade que eu achava que existia somente nos filmes. Abri mão de tentar ficar bonita ao acordar, porque ele tem mania de tirar fotos minhas dormindo e manda-las no meio da manhã, com a legenda “linda” logo abaixo – e por Jeová, como não ficar feliz quando alguém enxerga beleza no meio de uma macega de cabelos embaraçados e remelas? Gosto quando preciso de um espaço e ele negocia “um pezinho pelo menos” que eu tenho que deixar a disposição para que ele se encoste. Ou de como entende que por vezes eu preciso testar o outro lado da cama, porque ainda não entendo muito bem essa coisa de “lado da cama”.

Adoro buscar a luz dos olhos dele antes de sair catando a luz da tela do celular. Ou de como eu me sinto uma idiota sorrindo ao vê-lo dormir, ainda que com o maldito cotovelo em cima da minha teta – mas perto o suficiente para que eu possa sentir o cheiro da sua respiração. Eu que me condenava uma rebelde da conchinha, entendi que nos lençóis certos vale a pena pegar num sono. E cultivar sonhos de horas mais longas na cama – fazendo não muito mais do que dormir agarrado, feito um coala.

Por falar em coala, aqui na Austrália já é hora de dormir. Que felicidade.


Fim da sessão.
ps: tenho certeza que ele ouviu o meu peido

Preciso de um amor pra velhice

Preciso de um amor pra velhice

Eu nunca me vi tendo a necessidade de um relacionamento. Sabe, eu gosto de enrolar meus pés em alguém querido embaixo das cobertas. Amo beijos estalados. E adoro sexo com sentimento. Mas eu nunca pensei comigo “meu Deus, preciso de um relacionamento”. Eu preciso de dinheiro na minha conta. Preciso baixar meus triglicerídeos. Preciso trocar o óleo do meu carro. Ou seja, eu não preciiiiiso de amor. Amor me parece muito mais uma escolha do que uma necessidade, concordam?

OK, talvez eu esteja sendo um pouquinho infame quanto a “não precisar” de um amor porque a minha idade ainda me permite algum desdém (ou certa infantilidade). Veja, eu ainda olho pra minha bunda no espelho e consigo me achar um tesão. Cuido da maioria dos meus perrengues com um pé nas costas. Adoro a minha companhia, e dificilmente me sinto sozinha. Minha família me quer (na maioria das vezes) por perto. E eu tenho uma pá de amigos que largariam tudo para tomar uma gelada comigo. E isso é muito legal, mas é também uma condição associada à juventude. Foi aí que pensei que amor e necessidade poderiam sim, estar relacionados, quando colocarmos o fator idade na equação.

Hoje me peguei catando conchinhas na beira da praia. Fui de manhã cedo quando o sol não estava tão forte. E porque segundo um amigo-aspirante-a-companheiro me disse, eu tinha que “movimentar a minha carcaça preguiçosa” para viver mais anos. E ele não podia estar mais certo. Enquanto eu escolhia as conchas de cores lindas com cautela, o rapaz de corpo atlético e olhos da cor do mar, caminhava alguns passos a frente, dando soquinhos no ar, simulando uma luta – como os garotos fazem, sabe? Ele aguardou com paciência eu pegar uma a uma das conchas que queria. E quando finalmente o alcancei no fim da praia, beijou a ponta do meu nariz e disse como eu ficava linda sob a luz do sol.

Foi ali que eu me dei conta de que em algum momento, eu vou sim precisar do amor de alguém. E não estou dizendo aqui que todo mundo precise. Mas eu vou precisar. Quando a minha bunda não for mais motivo de orgulho, eu quero que alguém ainda olhe pra ela com interesse – me convencendo de que a beleza da minha retaguarda, será por onde ela já sentou para olhar o nascer ou pousar do sol. Quero que alguém beije as minhas marcas de sorriso – aquelas injustamente chamadas de “pés de galinha” – e as aprecie por serem marcas da alegria de uma vida inteira. Quero alguém preocupado com meus triglicerídeos e com o óleo do meu carro, quando a minha memória tirar o melhor de mim.

Alguém que faça questão da minha companhia, quanto eu já não for mais tão independe, e meus filhos já não tiverem mais paciência para a minha rabugentice. Ou quando a maioria dos meus amigos já tiver partido para festa no andar de cima. Alguém que me ajude a achar meus óculos, quando os mesmos estiverem na cabeça.

Preciso de um amor pra velhice porque em algum momento da vida a gente precisa ser lembrada que valor não tem validade, que a beleza está além do colágeno e também porque já não serei tão jovem a ponto de achar que sei de tudo. Preciso de um amor pra velhice, pra fazer dela a melhor idade. Aliás, preciso e quero um amor pra velhice.

Nem que seja pra ver aquele belo sorriso e a aquela careca refletindo o sol, aguardando pacientemente, enquanto eu pego conchinhas na beira da praia.

Fim da sessão.

O meu irmão gordo não cabia neste mundo

“A indústria da dieta é o único negócio lucrativo do mundo com um índice de insucesso de 98%.”

eatingdisorderfoundation.org

Para vocês que acompanham estas sessões públicas de terapia, essa não é uma daquelas que termina com um grande aprendizado de espírito elevado, ou uma celebração das lições da vida. Não, essa não será uma destas sessões. Essa sessão é daquelas que você levanta do divã tendo a certeza de que teve de engolir um brejo inteiro, ao invés do sapo.

Aos 20 e poucos anos meu corpo mudou drasticamente. E confesso, tem uma parte de mim que acha que foi proposital. Note, sem qualquer arrogância pretendida, eu nunca fui alguém que passou desapercebida. Eu sempre fui aquela garota dita “popular”. As pessoas sabiam meu nome (aliás, meu sobrenome que aparentemente me garantia uma imagem mais pomposa) antes mesmo que eu soubesse o delas. Eu não tinha uma vida pública – mas tudo que era meu parecia não ser privado. Namorados, tropeços, primeira transa. Aquilo que as pessoas celebram como popularidade, eu via como o desgosto de crescer e me desenvolver sob a lente de um microscópio.

“Ora, por favor, quem não gostaria do mundo aos seus pés?”. Eu não gostaria. Tive a bunda fotografada em diversos ângulos por um garoto na escola, que publicou-as em um site (em uma época que ninguém sabia fazer sites) para que minhas bochechas inferiores ficassem sempre a disposição. Tive propostas de relacionamento muito mais ligadas à minha aparência (ou a apostas) do que a minha personalidade. As pessoas lembravam que eu tinha um corpo de bailarina, mas tinham pouquíssimo interesse no meu discurso. Eu participava de trabalhos sociais desde muito nova, mas era o “social da novinha” que excitava o interesse. Era um saco.

“Óh… pobre menina bonita (adicione sua dose favorita de ironia aqui).” Eu sentia que nada que eu fizesse era mais importante do que como eu aparentava. Me encolhia sob os olhares de interesse e de constante julgamento. Cuidava do meu visual com demasiado sofrimento. Repensava as minhas frases duas vezes antes de pronuncia-las em público. Se as outras garotas odiavam o anonimato, eu aprendia pouco a pouco, o peso cavalar do holofote.

E foi com peso que me vi aliviando essa atenção. Bom, isso podia ser o plano original, ainda que na época, fosse inconsciente. No término da faculdade, eu precisei entregar o meu TCC em 30 dias, por conta de uma crise crônica de procrastinação. Então eu me deleitei naquilo que julgava uma compensação pelas longas horas de escrita. Pizzas, energéticos e guloseimas foram os meus companheiros contra o relógio do TCC durante aquele mês. E na contrapartida do relógio, a balança. 1kg para cada ponto que ganhei na minha dissertação: eu tirei 10.

Peguei meus 10kg e fui pra Londres longe do olhar julgador de conhecidos. Adquiri mais uns 4kg bem conscientes entre longos happy hours e novas culinárias. Perdi 7kg só de desespero na primeira visita ao Brasil. Tive medo que o tamanho alargado dos meus quadris fosse a única coisa que as pessoas iam comentar, deixando de lado as minhas suadas conquistas – como o trabalho numa grande corporação internacional e o MBA na Inglaterra. Ali, eu aprendi que se antes o foco das pessoas estava ligado a minha imagem externa, agora, bem… nada havia mudado. Talvez apenas piorado.

Eu aprendi que meu corpo virou uma pauta pública (mais uma vez e agora de forma depreciativa). Pessoas se sentiam a vontade para falar sobre o meu sobrepeso e de como eu ERA bonita (conjugado no passado). Eu havia – de certa forma – conseguido o que queria. Não era julgada pela minha beleza. Eu só não imaginava, que seria pela “falta” dela. Fato é que pra maioria do mundo, você é o que você come. A minha grande surpresa foi que mesmo comendo coisas gostosas, eu jamais seria uma com as minhas novas formas. É como se o meu (o seu, o nosso) valor fosse medido numa escala interpretada apenas por quilos sobre a balança. Quando vi, passei a colecionar olhares de pena, no lugar daqueles que antes eram de inveja ou interesse. Eu não sabia o que era pior.

Eu não sabia o que era pior até ver a mesma situação – em uma magnitude estratosférica – acontecer com o meu irmão. Desde a adolescência ele havia brigado com a balança, até atingir a vida adulta com o dobro do peso que deveria ter para ser “socialmente aceitável” (ânsia de vomito aqui) e cautelosamente saudável. Se para mim, com apenas alguns quilos a mais, era difícil não pertencer ao grupo das bonitas, para o meu irmão com excesso de peso imensamente maior, era triste não pertencer mais ao grupo dos bem-vindos.

Vi ele sucumbir no silêncio de seu quarto, enquanto a minha família lutava para lhe oferecer toda a estrutura e apoio necessário na luta contra a obesidade. Ele tinha vergonha de se servir na frente dos outros. Nunca entrava em lojas para, sequer, olhar as roupas de longe. E quando muitas vezes usávamos transporte público enquanto viajávamos, ele só sentava se fosse ao meu lado, num semi-pânico de possivelmente invadir o espaço de um passageiro desconhecido. Falar sobre o assunto era demasiadamente doloroso e com um pesar associado sempre a muita vergonha.

Você já imaginou sentir-se completamente exposto 24h/dia?

Era como se ele andasse pelado na rua. Sabe, quando você vira referência? “Quebra a direita no corredor onde está parada aquela gordinha.” “Fulano, sabe, aquele que é bem gordo”. Você vira o que você pesa e ponto final. De repente tudo que as pessoas queriam era discutir as métricas do meu irmão, como se ele por acaso saísse falando do Botox que via na cara das minhas tias ou dos pêlos no nariz daquele cidadão que não via desde criança. Entendemos o real sentido do termo “gordofobia”. O corpo dele parecia que não era mais dele, e a reclusão foi a saída de emergência mais próxima. A comida virou um circulo vicioso de: vergonha > ânsia por satisfação > mais vergonha.

Quando o Leonardo decidiu fazer a bariátrica, eu fui contra. Não que não quisesse ver o meu irmão receber a ajuda que precisava, não é isso. Mas achava que deveria haver um tratamento preparatório maior, do ponto de vida psicológico. Sabe, preparar a pessoa para esse novo corpo, essa nova vida. O meu irmão já era um adulto, quase um médico formado, então ainda que respeitasse as minhas ressalvas, ele seguiu em frente. E teve meu apoio incondicional em cada parte excruciante do pós-operatório.

O Leonardo viu seu corpo reduzir drasticamente. Pela metade. Ficou obcecado pela perda de peso, que parecia nunca ser o suficiente. E com todo o peso perdido, os cabelos, as unhas. Tinha que tomar vitaminas e um calhamaço de cuidados que teria de ter pro resto da vida. Sofria de constantes quebras de consciência. Estava comigo num minuto, de repente, no outro, não estava mais. Começou apresentar variações na fala. E em duas ocasiões diferentes, convulsões que o levaram ao chão. Nos exames dele, tudo normal.

Na vida dele, para os outros, tudo melhor. O Léo começou a receber uma atenção nunca antes sentida. Era convidado para finais de semana na casa de praia de familiares. Ganhava constantemente presentes de pessoas não tão próximas. Recebia cantadas de mulheres e homens. Convites nunca recebidos para todo tipo de programação. Era como se com a capa de gordura, ele tivesse também removido a capa de invisibilidade que ele antes vestia.

E eu? Tive crises de ressentimento e muito rancor. Rancor por todas as pessoas que passaram enxergar atratividade estética, onde eu sempre vira beleza. A beleza do meu irmão, acima de qualquer coisa. O meu irmão era um jovem brilhante, sensível e gentil, com uma carreira cheia de conquistas e um futuro promissor e excitante. Mas tudo o que a maioria das pessoas enxergavam era um cara gordo. Ou naquele novo corpo, um cara magro. Eu guardei seus rostos e nomes na minha memória. Intitulei a lista como “amigos da beleza conveniente”. Tive raiva de cada aproximação interesseira que presenciei. Mas me nutri da alegria que meu irmão sentia por toda essa nova sensação de interesse, “bem querer” e pertencimento.

Meses atrás, um pouco antes de tirar umas férias da vida que deixei pra fora da minha mochila, eu terminei de ler um livro que meu irmão havia comprado. Achei o livro em seu armário e esperei um ano e meio antes de ter coragem de lê-lo. O livro era “Grande Irmão” de Lionel Shriver. O bestseller conta a história de Pandora, uma mulher que larga tudo em sua vida para ajudar o irmão na difícil tarefa de perder peso. Eu devorei o livro a procura de respostas. Achei que ali poderia encontrar uma pista do que eu poderia ter feito. Me deparei com a tragédia na arte, da mesma forma como me deparei com a tragédia na minha vida. Entendi que certas fatalidades são inevitáveis na literatura ou fora dela. A personagem do livro, perdeu o irmão gordo para complicações da obesidade. Eu, perdi o irmão magro para as complicações que ele passou a ter depois da cirurgia.

Foi difícil de encara a inevitabilidade de ambas as histórias.

Talvez por conta disso eu tenha decido nunca perdoar as pessoas que trataram o meu irmão com descaso ou despeito quando ele era gordo. Gente que entende prestígio da mesma forma que encara a arroba de um boi. Eu nunca vou esquecer dos nomes daqueles que enxergaram o meu irmão apenas quando ele foi magro, e de alguma forma, o convenceram de que a única forma de ser reconhecido, era tornando-se padrão. Mediano. Custasse o que custasse.

E aqui talvez seja crueza ou até crueldade da minha parte dividir essa sessão tão visceral. Visceral a ponto de não ser lapidada para o grande público em forma de uma significativa e poderosa lição ou de um comportamento exemplar. Visceral porque surgiu de mais uma noite que perdi o sono com esse assunto. De mais um dia que chorei porque alguém sugeriu que eu tivesse que emagrecer, e eu lembrei que o peso deste assunto vai muito além do meu corpo. E que a perda é muito mais profunda que a dos quilos.

O meu irmão gordo não cabia neste mundo. Nem nas roupas. Nas cadeiras frágeis. Não cabia nos elevadores. Na foto. Na praia. Na luz do dia. Na turminha. Nos olhares de reprovação. No destaque positivo.

E por conta disso eu passei a cultivar um outro peso, que é o peso do rancor. Do rancor e da pena. Com o tempo eu também passei a sentir pena daquele grupo de pessoas que segue medindo valor humano baseado na circunferência da cintura alheia ou dos IMCs. Porque enquanto eu conseguia enxergar a beleza do meu irmão durante todos os dias de sua vida, teve quem se limitou a visão de um caixão bem magro no fim dela.

E como avisei pra vocês. Essa não é uma daquelas sessões que faz a gente se sentir melhor. Não, é. Eu lamento.

Fim da sessão.

Observação importante: Eu poderia falar horas sobre obesidade, cirurgia bariátrica, tudo que vivi e pesquisei. Os prós e os contras que aprendi de perto, e senti muitas vezes na pele. Mas aqui eu vou fazer um único apelo, a qualquer pessoa que considere a cirurgia bariátrica: estude muito bem os efeitos colaterais pouco divulgados, como as convulsões, as perdas de consciência, nutrientes, quedas agressivas de cabelo, mal estar, e em casos graves, até o alcoolismo e o óbito. Não quero com a história do meu irmão vender a ideia de que a cirurgia não deve acontecer. Não é isso. Obesidade também é um grande problema de saúde que deve ser tratado. Mas caso a cirurgia seja a última opção, que seja uma decisão com intenso acompanhamento – físico e psicológico – entendendo que é uma decisão que terá consequências e cuidados para o resto da vida.

Acima de tudo. Ame-se. Você tem motivos de sobra para se amar, eu garanto.

Fiquei offline

Fui viajar e acredite, a internet não importou tanto assim. Confesso, pra uma heavy user como eu foi uma bela desintoxicação. Esqueci de pagar a conta do provedor do meu site, atrasei pautas para editores, já que por alguns dias, a minha presença “nas internê” já não era tão crucial. Nenhum desrespeito a editores ou leitores, eu juro, não era isso. Mas a vida real me chamou lá fora, exigiu a minha atenção. E quando a vida chama com tamanha intensidade, curtir publicações fica menos importante que curtir momentos. Vocês entendem, não é?

Eu fiquei offline porque o sol insistiu em brilhar lá na rua. Mudei a minha localização geográfica para um país que vive feliz com muito pouco. Ou talvez “pouco” tenha sido um valor distorcido na minha vida de acumuladora. Claro que tive que acumular dinheiro, para poder acumular histórias em outros cantos do mundo. Mas acumular roupa suja, joelhos encardidos e amizades novas me pareceu uma atitude de valor inestimável nos meus dias na Indonésia. Sendo assim o Wi-fi foi usado quase que exclusivamente para avisar a minha família de que eu estava feliz e com saudade e talvez compartilhar uma foto aqui ou outra ali. O apelo visual foi uma ferramenta utilizada quando me faltaram palavras para descrever a alegria que vivi.

Eu fiquei offline porque a conexão com templos era impossível de ignorar. Ou porque macacos selvagens tinham mania de roubar celulares, então por muitos momentos ele ficou guardado por precaução. Fiquei sem bateria incontáveis vezes, depois de tentar de forma frustrante tirar fotos e fazer vídeos que fizessem justiça ao que meus olhos presenciaram ao vivo, e falhei em todas as vezes. Fiquei sem bateria no corpo também, porque ser feliz cansa. Embaraça o cabelo, que passou a cultivar dreadlocks que levaram dias para serem desfeitos. Talvez uma dica do vento dizendo pra não me preocupar com o alinhamento das coisas, que a vida é mesmo um emaranhado de sentimentos, sonhos, angústias, paixões, e que tudo isso não é páreo para condicionador e pente.

Fiquei offline porque as pessoas a minha volta exigiram atenção. Gritante e espalhafatosa atenção. Com suas peripécias malucas, histórias incabíveis e impublicáveis. Larguei o celular pra pegar na mão de amigas, abraçar novos conhecidos, viver novas paixões e reencontrar comigo mesma. E eu adoro reencontrar comigo mesma. Larguei o celular porque ele não cabia na carona de uma moto, ou dirigindo um carro com 9 meninas lindas, na mão inglesa, que é a contrária daquela que aprendi, enquanto tentava falar “buzinês balinês” numa terra que não entende o uso do pisca. Abri mão dos eletrônicos porque eles não são bem vindos no mar, e precisava das mãos pra pegar conchas, admirar corais, e tentar (inutilmente) não escorregar de pedras nas cavernas que descobri. Precisei das mãos para fazer uma prece de gratidão a cada passo do caminho. E abrir uma cerveja Bintang a cada novo tropeção.

Fiquei offline por necessidade, mas também por escolha. Perdi aniversários de amigos, momentos dramáticos na política, não respondi e-mails importantes, e chateei muita gente por falta de retorno. Me perdoem, entretanto não foi por mal.

Às vezes a vida pede “presença presente”, ativa, contribuinte e alerta na vida real. Talvez são os momentos em que a gente se importa mais com estar vivo, do que estar online.

Agora tudo volta à “normalidade”. Com o coração pulsando pela próxima oportunidade de me desconectar do mundo, e me reconectar com o melhor de mim. Essa conexão sim, eu curto muito, e compartilho.

 

Fim da sessão.

ps: tem mais sobre Bali vindo aí, por hora: Tera Makasih.

Adeus, tchau e até logo

Escrevo essa sessão de um lugar que gosto mais que um bom divã. Um aeroporto. O dia não amanheceu ainda, mas o meu pânico de perder um voo por conta do trânsito, me trouxe ao aeroporto Internacional de Guarulhos um pouco depois das 4h da manhã. Munida de um café hiperinflacionado, eu observo a movimentação sonolenta de funcionários e passageiros que como eu, aguardam as horas mais efetivas do dia. Não sei por que demorei tanto para comentar sobre essa viagem aqui. Talvez porque ainda que esteja a algumas horas de cruzar o globo, essa viagem tem um ar de tranquilidade e pouca presunção. O destino já é conhecido: Austrália, com alguns dias de pura alegria na Indonésia. Tempo estimado de viagem: 2 meses. Ou seja, eu vou logo “ali” e “já” volto.

O que me impressionou nesta viagem em particular foi a comoção alheia com a movimentação que, em tese, dizia respeito apenas a mim. Amigos, familiares e conhecidos, dedicaram bom tempo a especulações sobre o meu retorno e sobre a intenção com o meu deslocamento para lá onde Judas perdeu as botas (Timberland, possivelmente).  Não importava quantas vezes eu explicasse com tranquilidade que logo voltava e minimizasse o drama envolvido em alguns dias de ausência física. Sim, física, porque depois do Whatsapp, ninguém tem um minuto mais de reclusão na vida. Houve lágrimas, ansiedade crescente e horas de explicações pouco compreendidas (pra não dizer abafadas pelas lágrimas infundadas).  Para muitos, a minha viagem não era logo “ali” e tão pouco era um “já” volto.

Acuso esse fenômeno desconcertante que precede uma viagem, como a síndrome do  desconhecimento sobre a diferença entre o adeus, o tchau e o até logo. Não posso ser injusta com meus amigos. Ora, eu sou uma viajante incorrigível, então a ideia de eu não voltar a criar raízes não é tão absurda. Isso agravado pelo fato de que meu retorno do mundo para a pequena cidadezinha que chamo de lar no interior do Rio Grande do Sul, nunca ser suave. É como tentar usar dois pares de sapatos nos meus únicos dois pés.  É um desequilíbrio constante tentar existir perto da minha morada fixa, e aquela que habita o peito e segue solta pela estrada. Existe também chance de encontrar um amor em outros portos. A possibilidade de um livro. A conquista de uma nova cidadania. Ok, talvez eu tenha sido dura demais avaliando o drama envolvido das minhas despedidas. Eu tenho muito pelo que partir.

Mas eu também tenho muito pelo que voltar. Certo dia, um amigo que mora justamente na Austrália, me perguntava do que eu mais gostava na minha pequena cidadezinha, afinal eu havia trocado o mundo, para voltar pra lá. E a minha respostar não podia incluir a minha família e amigos. Fiquei consternada ao descobrir que além dos meus amores, o meu bar preferido era a única coisa que ocupava a minha lista. Ok que o bar em questão fazia tele-entrega de bêbada na minha casa, vez que outra quando necessário. Mas ainda assim, não conseguia justificar que meu único elo com a cidade se resumia ao local onde eu bebia. Em conversa com o dono do mesmo bar, reclamava preocupada sobre meu drama, quando ele me mostrou que a pergunta do meu amigo era injusta.  Porque o “além da minha família e amigos” imposto na minha resposta, era justamente o fundamentava todo meu existir. E até a escolha do bar só reforçava o meu “além”. Porque era onde eu encontrava com quem eu amava, além da minha casa.

Eu evitei despedidas antes de chegar a este aeroporto, hoje, às 4h da madruga. Mas o meu esforço foi totalmente em vão. Vivi os últimos dias com gente que fez plantão na minha casa, até quando eu dormia, para ter certeza de que curtiriam os últimos momentos, antes dos próximos, na minha companhia. Recebi mensagens de quem eu sequer avisei sobre a minha partida. Eu bebemorei amizades mais do que meu corpo aguentou nas últimas horas, e confesso que meu fígado odeia despedidas mais do que eu, neste momento. Eu vi meus pais reforçarem o poder das minhas asas, mais do que a importância do meu ninho, provando que amor é mesmo deixar livre para poder voltar. E que embora todo mundo duvide da diferença entre adeus, tchau e até logo, tem algumas certezas que são irredutíveis. De que às vezes é preciso ficar longe de todo mundo, para poder ficar perto da gente mesmo. E que nada no mundo é melhor do que ter motivos pelos quais voltar pra casa.

É bom ir embora pelas razões certas, eu garanto. Mas nada supera voltar pelas mesmas ou novas razões. E se existe dúvida em relação onde e porque a gente faz raízes, não existem dúvidas de que somos todos passageiros. Então faz sentido apenas aproveitar a viagem. Cheia de partidas e chegadas. Despedidas e reencontros.  A vida é muito curta para ficar parado, e importante demais para não ter ao que se apegar.  Então acreditem, eu vou até “ali” e “já” volto. Bon Voyage.

Fim da sessão.

Ps: O divã segue com suas sessões, com cronograma um pouco bagunçado em razão de fuso, e horas intermináveis de diversão. A meta inclui o famoso livro, que eu comunico aqui com a intenção única de botar pressão em mim mesma. Quem quiser curtir o divã na estrada pode me acompanhar pelas redes sociais – Facebook ou Instagram (@antonianodiva). Mandem dicas, convites para café e cerveja além dos mares, ou apenas seus desejos de boa viagem. É preciso ir embora, sim,  mas não quer dizer que não quero todos vocês juntos comigo. Vem também.

 

Muito obrigado, doadores!

Em tempos em que ficou tão raro e difícil olhar ao próximo, que bom é perceber que com um pouquinho de amor, a gente pode fazer muito. Aqui está o resultado da nossa campanha de doação de sangue de 2017.

Agradecimentos especiais aos heróis e heroínas que fizeram bonito neste ano:

1. Leonardo Silva
2. Amanda Talasca
3. Vinicius Ludtke
4. Nathalia Travi Canabarro
5. Carine Moreira
6. Laura Zaparoli Zanrosso
7. Aline Mazzocchi
8. Lindonira dos Santos
9. Tiago Braga
10. Jean Maito Ragnini
11. Mineia Vinch
12. Eduardo Birkheuer
13. Tchay Ávila
14. Amanda Gros
15. Ana Carolina Siqueiras B. Melo
16. Nhaiobi Ruivo
17. Andréia Nunes dos Santos
18. Flávia Gomes
19. Amanda Lima Primo
20. Tatiane Theobald
21. Ivan Ferri
22. Conceição Mendes
23. Daniel Scherer
24. Mariana Nakamura
25. Irina Satie Goya
26. Bianca K. Medeiros
27. Rejane K. de Medeiros
28. Nestor de Medeiros
29. Rita Diogo
30. Neia Diogo
31. Maurício Afonso Ferreira
32. Ana Cristina Mello
33. Ana Paula Paes
34. Thalita Mendes
35. Amanda Schenkel
36. Juliane Kappke
37. Graziella Paniz
38. Valentina Metsavaht Cara
39. Josiane Sds
40. Jamile Hallam
41. Iwan Zemczak
42. Rita Engel
43. Dai Passinato dos Santos
44. Dionatas de Andrade
45. Camille Schneider Ribeiro
46. Melina Mello
47. Isadora Mahle

Agradeço também a todo mundo que tentou doar, divulgou a campanha e torceu por nós. E é claro, a minha mãe, ao Mateus e ao Murilo por sempre apoiarem os meus projetos, e ao Léo que me manda toda luz e inspiração do mundo de onde quer que ele esteja. Muito obrigada!


Fim da sessão, mas nunca da gratidão.

Baleia Rosa: o desafio por dias melhores

Nem todo dinheiro do mundo me faria reviver a minha adolescência. E perceba, eu fui adolescente antes de bullying ter nome, de tão feio que era. Isso considerando que eu era uma privilegiada – magra, branca, classe média, com nenhum atributo aparente para tornar-se foco de um ataque. Ainda assim, adolescentes sabem ser cruéis. Já tive a cara toda rabiscada por um grupo de garotas mais velhas porque eu era “metida à bonitona”. Chorava no ônibus na volta da escola técnica porque a galera cantava em coro que eu era “a patricinha”. Ninguém escapa ileso de cometer e sofrer algum tipo de pressão, durante estes que são os anos em que nos provamos ou divertimos a custa dos outros.

Na Netflix, o diálogo sobre bullying e abuso (de todo tipo) foi provocado pela série 13 Reasons Why. O drama descreve as desventuras da personagem Hannah, e a série de eventos que resultaram no fim trágico de sua vida (spoiler nenhum,ta? Esse desfecho está bem claro desde o primeiro episódio). Dentre as críticas recebidas, a maioria decaiu sobre os riscos promovidos pelos gatilhos presentes na série, a falta de profundidade do assunto,  e a ética envolvida na temática suicídio. Nos elogios, a maioria surge em razão do alerta ao assunto, da quebra de um tabu, e a chamada ao diálogo. De qualquer forma, e independe da opinião de quem assiste, uma reação é certa: uma retrospectiva de nossos anos mais jovens e a análise dolorida de nossas atitudes.

Coincidentemente ou não, a pauta pegou ainda mais corpo com a crescente aderência de adolescentes ao arriscado jogo da Baleia Azul – um desafio de 50 tarefas, em que a última instiga o participante a tirar a própria vida. Com o aumento de casos de depressão, a realidade fértil ao bullying, e a propensão aos games, adolescentes viram alvos fáceis da glamorização do sofrimento e da ideia de que não existe outra saída que não a morte. Infelizmente, como o própria historia da personagem Hannah nos faz entender, perceber os sinais de que um jovem precisa de ajuda não é algo tão simples. A busca pela independência e reclusão própria da adolescência, colabora para que pais e amigos não percebam a existência de um possível sofrimento crescente, o que dificulta o acesso a ajuda. O diálogo aberto, a observação próxima do comportamento, assim como o apoio e carinho ainda seguem sendo as recomendação mais eficazes sugeridas por especialistas.

Mas outra solução me ocorre. Talvez o maior antídoto para o bullying, o sofrimento e as perdas, seja criarmos crianças e adolescentes educadas para ter carinho ao próximo. E aqui sem hipocrisia – eu mesma já pratiquei bullying, e tive uma ótima educação em casa. Penso entretanto, que promovendo cada vez mais a empatia desde cedo (e não apenas a quem amamos, mas a quem pudermos), possamos ter maiores chances de uma sociedade colaborativa e fraternal. Uma utopia? Talvez, mas gosto da ideia de que seremos cada vez melhores com o coleguinha do lado. Sendo adultos mais gentis, e educando pelo exemplo. Uma boa ideia para começar pode ser a aderência a positividade, promovida pela iniciativa Baleia Rosa. Ao contrário do jogo Baleia Azul, a versão rosa é um game que sugere 50 ações de valorização a vida. Dicas como agradecer, elogiar a si próprio e perdoar são algumas das tarefas dos participantes.

Já pensou? Incluir 50 atividades promovendo a positividade e o amor ao próximo no nosso dia a dia? Talvez eu seja apenas uma sonhadora… Mas em tempos cada vez mais escuros, eu gosto de acreditar que viveremos dias mais cor de rosa.

E por falar em positividade, obrigada por você estar aqui! Você é importante.

Fim da sessão

A casa da mãe Joana

A minha casa sempre foi sinônimo de confusão. Daquelas casas que o cachorro insiste em mijar onde quer, talvez porque saiba que a hierarquia é meio torta. O meu quarto ficava no último andar, numa alusão a uma torre de princesa porque, acredite, eu já quis ser princesa. O meu pai nunca colocou televisão perto da mesa de jantar, porque “refeições eram momentos de conversa em família”, ainda que ele adorasse escapulir para a área externa, onde tinha uma televisão velha, para bisbilhotar o jornal entre uma garfada e outra. Às vezes ele deixava eu e meu irmão assistirmos Tom & Jerry na TV dele, e talvez seja por isso que o desenho seja o meu favorito até hoje. Nós o assistíamos juntos.

A minha casa foi aquela construída com suor dos meus pais, e péssimos marceneiros. Casa cuja cozinha levou meses para ser montada porque meu pai e minha mãe passaram semanas discutindo a estampa das lajotas que cobririam as paredes. Até hoje eu acho que a lajota escolhida tem cara de estampa de pijama, mas a minha mãe gosta, e por isso eu enxergo certo charme. Na nossa casa o quarto do meu irmão  ficava a um lance de telhas da minha sacada. Um portal mágico por onde conversávamos sempre que ficávamos de castigo em nossos quartos. Aliás, a minha casa tinha caminhos secretos além do teto. Uma verdadeira aventura nas alturas que eu descobria sempre que esquecia a chave, e precisava escalar o muro e o telhado para entrar. Ainda assim, a minha casa parecia uma fortaleza.

A minha casa ruiu quando os meus pais se separaram, e “casa” virou um conceito turvo para mim desde então. Meu pai morou num apartamento, depois em outro, depois noutro. Meu irmão foi morar em Portos mais Alegres por conta da universidade e eu virei vizinha da Tia Beth além do oceano. A minha mãe ficou na nossa casa, aquela que não era mais “nossa” no coletivo completo. A casa do teto ruído, e que ficou ruído por muito tempo. A nossa família passou a ocupar quatro casas diferentes, mas nenhuma era realmente nossa.

A nossa casa voltou a ser minha durante alguns meses após o meu retorno de terras distantes. Naquela época, a nossa casa abrigava duas cabeças carecas recém chegadas que eu passei a chamar de irmãos, e um cara que nunca conseguiu me chamar de família. Não demorou muito para a “nossa casa”, virar a “casa deles”, e pequena demais para mim, mais uma vez. A “casa deles”, passou a ser um lugar em que éramos visitas, com códigos e condutas trazidos por um estranho cada vez mais desconhecido.

Não entendíamos as formalidades que nos foram impostas naquele espaço aonde nos vimos crescer. Logo, comecei a pedir licença para abrir a geladeira (aquela que ainda tinha meus adesivos de infância), e o conceito de “nossa casa” ficou cada vez mais complexo. O cara que não nos queria família, fazia checklist de inventário, naquela mesa em que não muito tempo atrás, dividíamos absolutamente tudo.

Assim, fiz lar em outro endereço. O meu irmão também se mudou. Seguido pelo meu pai, que chegou a mudar de cidade e evitar qualquer chance de passar na rua daquela que tinha sido a nossa casa. Com o tempo a gente pouco visitava um ao outro. Talvez porque a saudade daquela casa era insuportável. Talvez porque não conseguíamos edificar raízes em outros chãos. Às vezes, eu arrumava desculpas para dormir no meu irmão, buscando achar de volta o caminho para o portal mágico da nossa sacada.

Depois dizem que lar é onde está o coração, mas nem sempre é tão simples.

O meu irmão então, vocês sabem, partiu e fez morada na cobertura celeste, aquela que a gente não consegue aparecer para um cafézinho. E assim, como num sopro, nenhuma casa era mais a “nossa casa”, e todos os tetos estilhaçaram. O homem que morava na “nossa casa”, foi embora da casa agora cheia de lamento. Ora, ninguém que puder ir embora, fica para ver a tristeza umedecendo as paredes. Isso é coisa para família tolerar. Reerguer. Reconstruir.

Com medo da solidão eu larguei o velho apartamento alugado, e voltei para onde tudo começou. Retomei o quarto de adolescente onde eu já não mais me sentia princesa. Os pequeninos agora eram donos do antigo quarto do nosso saudoso irmão. E foi dividindo a minha sacada com eles dois que eu me senti em casa. Na sacada do meu quarto, lugar em que ambos, na grandiosidade de seus 6 anos, frequentemente ocupam para rezar para o mano que mora no céu. Foi o início de um novo início, da casa que antes era fim.

A casa ruída, a “casa deles”, “aquela casa”, começava a ser de novo a nossa casa.

A nossa casa que hoje não tem mais chaves na porta (ou na dispensa). Primeiro porque chaves não combinam com crianças, e também porque minha mãe tem uma necessidade virginiana de garantir que meus lençóis estão esticados. O Mateus precisa redecorar o meu quarto sempre que dá na telha. E o Murilo gosta das portas abertas para saber que eu tô ali, no caso da mãe dar um pulo no supermercado.

A casa agora tem as janelas sempre abertas para a luz entrar, e as portas escancaradas para os amigos surgirem. Na nossa casa agora, todo dia aparece gente. Uma pra almoçar, outra porque estava passando e deu saudade. Tem gente que precisa vir aqui comemorar a vida – a minha, a nossa, a deles. Tenho amigos que vem aqui para lamberem suas feridas, afinal, casa é onde a gente se cura. Reergue alicerces. Reconstrói os tetos.

A nossa casa é onde as minhas amigas viraram amigas da minha mãe, e onde meu pai já se sente à vontade para aparecer. Nossa casa tem quadros que costumavam ficar no quarto do meu irmão, e agora ficam na área, na mesma área externa em que assistíamos Tom & Jerry com o pai. E onde hoje eu assisto meus irmãos ralarem os joelhos andando de bicicleta no pátio. Ou assisto o assador da ocasião assumir a churrasqueira, antes aposentada durante anos.

A nossa casa é onde amigo aparecem às 00:40 de uma segunda-feira sem a menor cerimônia e querendo assunto, e a outra surge logo atrás porque enfim, ficou sabendo, estava em casa de férias, e às vezes segunda vira domingo aqui em casa. Onde a gente divide quatro latinhas de cerveja quente, e alguns sonhos. Onde o primeiro a dormir no sofá ganha um bigode desenhado com delineador, porque maturidade nenhuma tira o nosso tesão pela piada. E aqui na nossa casa a regra é clara: o respeito pelo teu sono termina no desejo do meu bigode.

E foi assim que dia após dia, a casa que um dia foi nossa, e não foi de mais ninguém, virou a casa de todo mundo. A casa da mãe Joana. Mãe Antônia. A casa da minha mãe. Porque “nossa casa” não se define pelas rachaduras nas paredes – prova de que muito ainda está de pé, apesar dos terremotos. Casa é onde moram as memórias. Onde estão os tesouros de pescaria do meu pai. Mora o cheiro do pastelão de forno da minha mãe, e onde nunca falta maionese verde pros amigos. É a lajota com estampa de pijama. Casa é onde tem bagunça, barulho, olha, coitado do vizinho. Casa é onde nego dorme onde quer porque achou morada no nosso humilde palacete. É pisar em Hot Wheels no chuveiro. É nunca fazer cocô sozinha (porque aqui não é mesmo uma opção). É gente se apertando na mesinha da copa para tomar café ou apenas fofocar.

É a certeza de que a gente pode cruzar fronteiras e superar barreiras, mas não existe melhor lugar no mundo, do que a nossa casa.


Fim da sessão.

Comece antes de estar pronto

Meu trabalho e profissão viraram do avesso desde que eu decidi sair de um emprego fixo, com uma cadeira só minha e um cartão de visitas com o meu nome. Eu não tenho mais horário, rotina, e meu escritório é uma mochila nas minhas costas. A única coisa fixa nesta minha nova realidade é a mudança. Trabalho hoje com três empresas diferentes, diversos clientes, inúmeros formatos. Recebo inputs diários, consultas constantes, a minha pauta muda com as horas do dia, e humor da semana. Para alguém que sempre trabalhou com planejamento, esse novo formato é o próprio inferno. Acrescente a isso, uma fraqueza em cobrar ou precificar esforços. E como cereja do bolo, aquela velha ideia de que eu ainda não estou pronta para os desafios que me propõe. E quer saber da verdade, eu não estou mesmo.

“Eu não estou pronto!”

Aprendizado é um processo dolorido, que pode até envolver algum nível de preparo e planejamento, mas ele funciona mesmo é na prática. Eu já aprendi que erros são balizadores do sucesso. Não dá pra aprender a andar de bicicleta lendo livros, vendo vídeos no YouTube ou fazendo design thinking do projeto. Você até pode se preparar para pegar no guidom, mas só vai entender o relacionamento entre velocidade e equilíbrio, através do movimento. É o movimento que calibra a expectativa e a execução. Não tem outra forma. Ok, vão haver alguns joelhos ralados no processo, mas eles só existem porque houve tentativa. Sem tentativa, não existem nem os joelhos ralados, só uma ideia de andar de bicicleta. E ideias não chegam a lugar nenhum sem algumas pedaladas.

“Eu não estou pronto!”

Nunca antes estive tão insegura. Talvez por isso eu celebre herpes nervosas na boca toda semana e uma atividade estomacal digna de montanha russa (oversharing alert!). Às vezes, eu pego emprestada a convicção que as pessoas têm em mim para seguir funcionando. “Tenho um projeto que é a sua cara, fica tranquila, você vai tirar de letra” – ora, se alguém acredita em mim, como eu posso não acreditar? E desta forma eu uso agentes de mudanças que já deram os seus primeiros passos, como trampolim da minha transformação. Se eu não sei precificar meu trabalho, eu busco aqueles que não têm nenhuma dificuldade de cobrar até por seus espirros. Se eu não gosto de vender, eu me associo a quem venda até a mãe (metaforicamente, por favor). Eu busco referência naquilo que ACHO que não sei, ainda que por vezes me dê conta que eu faria melhor que as minhas referências.

Por quê?

“Eu não estou pronto!”

Verdade é que desde que toda essa nova rotina começou, eu nunca – NUNCA – senti que estava pronta. Nem todos os meus cursos, as horas de especialização e meu MBA em outra língua retira de mim a angústia causada pela ausência da plenitude. A ansiedade envolvida na sensação de achar-se crua, verde, imatura. E depois de 10 anos de análise nas costas, arrisco-me agora a dizer que esse estado de “prontidão” não existe. A maioria de nós segue correndo atrás do coelho branco dono do relógio, tentando entender a nós mesmos, até cairmos no buraco negro – do descobrimento e das maravilhas. Esse corre-corre tem sempre a mesma origem:

 “Eu não estou pronto!”

E não vamos longe. Tudo no meu discurso é muito lindo, muito alerta, mas a prática segue meio bamba. Veja, eu consigo operar para os outros ainda que de forma insegura. Mas quando se trata de um projeto meu, e só meu, pronto! Estou eu paralisada novamente olhando a bicicleta no chão. Imaginando cenários, minimizando obstáculos, tentando prever alta performance dentro da minha cabeça. A bicicleta tá lá, só me esperando. Inúmeras oportunidades de passeio perdidas porque estou esperando que o relógio apite o momento da minha maturação. Como se aprendizado fosse recompensado pela intenção, ao invés da ação.

“Eu não estou pronto!”

Esse ano eu decidi investir no meu projeto autoral, sabendo que não estou pronta, e que nunca vou estar. Vou dar essa banda de bicicleta, prevendo joelheiras, e sabendo que eu posso ralar até a testa, afinal, planejamento nenhum prevê como o mundo vai tratar seus sonhos. Então vou lá ver o que vai dar. Eu vou fazer do jeito que der, afinal, não estou fazendo muito pelos meus planos, sentada aqui fermentando os “e se…” da vida. Eu sou a única filha da puta atravancando o meu caminho. E talvez justamente por eu não estar pronta que eu vou ser mais tolerante com os processos, mais gentil com meus erros e mais sensível às lições.

Acredito que quanto mais a gente se convence de nunca vai estar pronto pra nada mesmo, mais a gente tem certeza que não tem dia melhor para subir na bicicleta do que hoje.

Comece antes de estar pronto.


Fim da sessão