Viajar é um estado de constante encardimento

Em primeiro lugar, que fique claro que minha mãe me educou com plenas orientações sobre higiene, ok? “Se você não pode estar bem arrumada, esteja pelo menos bem limpinha” – ela costumava dizer. Eu não desenvolvi grandes vaidades, mas sempre mantive as unhas bem limpas, o cabelo cuidado e as partes importantes lavadas todos os dias (com exceção ao fatídico episódio da calcinha suja, mas isso é outra história). O desodorante está sempre na validade e eu passo fio dental vez que outra. Ou seja, numa escala normal, dá pra dizer que eu sou limpa e cheiro bem.

Isso até começar uma viagem, é claro.

Tenho comigo que viajar é um estado de constante encardimento. Não importa o quanto você lute contra. E não estou tomando apenas o meu caso como fonte de estudo, mas sim todo fedorentinho encardidinho que encontrei pelo caminho. Calma! Isso não quer dizer que todo viajante abre mão de água e sabão quando bota a mochila nas costas. A gente tenta manter as coisas em ordem. Mas há de se considerar algumas situações são impossíveis de contornar.

Como por isso exemplo, pé é um troço que nunca mais fica limpo. Talvez porque quando viajamos largamos um pouco dos calçados fechados, e a poeira do caminho adore pegar uma carona. Adotamos a marca de sujeira que forma abaixo da alça das havaianas como a tatuagem oficial dos pés inquietos. O fato é que não tem como manter impecável a base da nossa caminhada. Desista de fazer as unhas do pé, porque a estrada não tem paciência com esmalte nenhum, e ninguém aqui carrega líquidos inflamáveis entre aeroportos. E se você acha que pode evitar estes percalços usando tênis, evite cheira-los após horas de caminhada por trechos desconhecidos.  Eu vivo numa constante guerra para desgrudar os vestígios da praia antes de ir dormir, e percebo que falho majestosamente toda vez que encontro a cama cheia de areia. Até que desisti. Depois de alguns dias viajando, permiti meus pés desfilarem descalços, desfrutando de um encardume que combina lindamente com os meus joelhos pretos (que sempre bronzeiam mais que o resto do corpo).

Por falar em joelho, as canelas mandam lembranças para aquela gilete que passou a ser usada em intervalos mais longos. Eu não perdi o meu completo desespero em remover os muitos pelos do meu corpo, mas confesso, os banheiros que tenho usado não tem nem água quente, que dirá iluminação para que eu faça um bom trabalho com a lâmina. O mesmo vale para as axilas. A virilha está sempre depiladinha, “como toda mulher deve ser”. Mentira! Não vê cera há meses, e minha mais nova invenção foi atenuar sua incidência com a maquinha de raspar o cabelo do boy. Julgue-me se for capaz.

Tudo que é meu tem algum odor e alguma mancha. Como não tenho tido o acesso continuo a lavadoras de roupa, e qualquer decisão de lavar roupas deve ultrapassar a preguiça de lavá-las na mão, a tolerância- ficou mais flexível. A mochila vive cheia de pó. E a maior parte das minhas roupas têm um resquício de amaciante misturado com suor, água do mar e mais suor. Se eu estou de férias, as minhas glândulas sudoríparas fazem hora extra. Meu vestuário tem manchas de protetor solar, de vinho que dividi com bêbados desconhecidos, respingos de molhos de pratos que experimentei e tempero de miojo no seu amarelo mais pulsante. Nada seca direito, então assumi a humidade como minha nova amiga, e a essência de cachorro molhado que vem junto dela.

Em Roma meu perfume já foi pizza e espresso, na Grécia cultivava uma essência de gyros e bomba de gás lacrimogênio (tempos difíceis!), em Amsterdã desfilava com um bálsamo de graxa de bicicleta, sexo e maconha, e aqui na Indonésia eu emano coco queimado, plumeria, gudang garam e oferenda. Cada parada é uma essência (ou ranço) diferente e único.

Meus cabelos seguem sendo bem tratados, mas agora por algas marinhas, areia (muita areia), shampoos de marca duvidosa e um eventual caranguejo. Aliás, viagem é a teoria do desapego em movimento, então até o cabelo pedi a alguém que o cartasse pela metade. O comprimento até a cintura me fazia perder muito tempo desfazendo os dread locks que passei a cultivar. Penteado que virou uma obra elaborada dos ventos que me lambiam a cabeça sempre que eu subia numa moto, num trem, num barco.

Eventualmente eu coloco um delineador e um rímel só para não esquecer como aplica-los, e porque gosto de ver as janelas da minha alma enfeitadas quanto encaram novidades. Penduro nas orelhas brincos que comprei de uma vendedora ambulante, amarro no tornozelo uma pulseirinha que encontrei no mar de Padang Padang e o meu sarong passou a virar saia, vestido, blusa e uma echarpe pros dias de frios imprevistos. Eu sou montada com pedaços do que achei na estrada. E confesso que adoro meu novo look. Carrego no corpo todos os vestígios de uma vida não higienizada, mas muito bem vivida.

Calma, mãe. Eu sigo lavando bem atrás das orelhas. Mas como falei, viajar é um estado de constante encardimento. A alma, entretanto, essa anda límpida. Com cheirinho de nova.

Encardida e feliz

Fim da sessão.

Pequeno milagre

Dizem que um pequeno milagre acontece quando duas pessoas decidem passar o resto de suas vidas juntas.

A gente gostaria de acreditar que os planetas se alinharam para fazer o amor acontecer, mas com o tempo descobre que foi uma escolha, essa de alinhar os planetas com as próprias mãos. Cruzar fronteiras. Redesenhar limites. Superar distâncias. 

Culpamos o cupido pelo amor porque ninguém admite que, em sã consciência, escolheu arriscar-se de forma tão vulnerável. Optou por sofrer de saudade. Sentir o corpo chacoalhando com os sintomas de uma paixão. Ou que decidiu deliberadamente ter parte do coração pulsando do lado de fora do próprio corpo.

Atribuímos o amor a um ser supremo, uma magia celestial, um poder sobrenatural, porque é difícil acreditar que nossa humanidade é capaz de algo tão grandioso. De praticar o altruísmo de forma tão transparente. Ajustar diferenças. Faz-nos desejar um mundo melhor só para que ele seja mais justo com quem tem o nosso afeto.

Amor é a transformação em todo o seu esplendor.

Aquele acontecimento que faz pessoas completas transbordarem. Faz-nos encontrar calma na agitação do outro. Intensifica o sol que brilha agora mais bonito lá fora. É companhia nas trilhas da vida. É perder o medo de soar clichê, afinal o amor é simultaneamente brega e exuberante mesmo. E não tem problema nenhum nisso.

É a alegria de achar alguém digno de andar de bicicleta do nosso lado, como a única coisa importante do final de semana. Encarar um milhão de motivos para partir, e decidir ficar. Amor é sobre acreditar. É ter fé no tempo, nos reencontros. Ver certeza nas incertezas.

Amar de verdade é dar graças a Deus por não ter dado certo com mais ninguém. Não porque encontramos alguém perfeito, mas porque decidimos amar inclusive as imperfeições tão perfeitas do outro. É ver beleza além da superfície. Segurar na mão quando a coisa fica feia. Principalmente quando fica feia.

Então talvez a beleza de “unir os trapinhos” de forma oficial seja justamente por ser uma história real, ao invés de um conto de fadas. Uma história de verdade sobre o esforço mútuo para manter o amor acima de todas as coisas. Uma narrativa escrita a duas mãos.

A gente intitula “amor” o carinho de construir um lar juntos. A euforia que causamos e sentimos pelo outro. É encontrar as múltiplas facetas em um só coração, amantes, amores, amigos, admirados e admiradores, tudo junto e misturado.

O casamento, que é uma das possíveis consequências do amor, surge porque acredita-se que uma relação precisa destes pequenos e grandes momentos de contemplação. De parar e entender que chegar até aqui foi a perfeita mistura entre a sorte e o comprometimento. E é preciso celebrar essa união: a da sorte e do comprometimento. A união entre ela e ele.

O que prova, de fato, que pequenos milagres existem. Entre a sorte e o comprometimento.

❤️
Fim da sessão

Essa sessão foi um presente de casamento especialmente escrito para a minha amiga Melina. Ainda que eu acredite que presente mesmo é ter uma amiga como ela e sorte a minha de através dela ter a chance de renovar a fé no amor. Aos noivos: todo amor do mundo!

O que li por aí

Ok, já que eu ando mais lendo que escrevendo resolvi contar um pouco sobre minhas leituras por aí. E não foram poucas. Passei 2 meses em uma ilha praticamente deserta, e como eu não surfo (apesar de amar o esporte, e os praticantes – um em especial) os livros foram meus companheiros de viagem. Aqui vai um review das 9 obras que me fizeram companhia:

1) Big Little Lies: a obra da autora Liane Moriarty conta a história de três mulheres cujas vidas se entrelaçam de maneira surpreende. A trama se passa em uma enseada australiana. As protagonistas Madeline , Jane and Celeste são mães de crianças que estudam na mesma escola. Suas vidas aparentemente são pacatas, mas as três sofrem em segredo com problemas tipicamente femininos: relacionamentos abusivos, bullying na escola de seus filhos, abandono na maternidade. As três guerreiras dão conta de seus desafios através da sororidade que só mulheres são capazes. E é bem lindo de ver como a força de cada delas é importante para que a outra seja capaz de superar as mazelas da vida. O final do livro é chocante e dramático. E não é à toa que o livro virou uma série de sucesso na HBO. Super recomendo.

2) O Milagre dos Andes: do escritor Vince Rause, o livro conta a surpreendente história de Nando Parrado e os tripulantes do avião que caiu no meio dos Andes no caminho de um campeonato de Rúgbi na Colômbia. A versão da história neste livro é sobre a perspectiva de Parrado, e explora os sentimentos dos tripulantes durante 72 dias em busca da sobrevivência no ambiente inóspito e mortalmente gelado dos Andes. A obra trata de questões como coragem e companheirismo. E embora a tragédia tenha sido marcada pelo tabu do canibalismo como meio de sobrevivência, a trama vai muito além disso. Mostra como o amor de Nando pelo pai, depois de ter perdido a própria mãe e irmã no desastre, foi o que manteve viva a vontade de sobreviver acima de todas as barreiras e o milagre da superação de todas as forças da natureza.

3) Beber, Jogar e [email protected]: li apesar do meu preconceito de ser um livro tratado como “a versão masculina de Comer, Rezar e Amar”. Preconceito porque as mulheres que conheço (e eu própria) conjugam os verbos beber, jogar e foder muito bem, obrigada. A obra de Andrew Goolieb conta a história de Bob Sullivan, após levar um pé na bunda da esposa, e trocar a vida pacata de publicitário em Nova York, para a aventura de um ano em uma viagem pela Irlanda (beber), Las Vegas (jogar) e Tailândia (foder), explorando a fundo os prazeres mundanos da vida. O livro tem pontos altos, mas é cheio de clichês e situações forcadas. O final é longe de ser verídico, mesmo que o livro trate como uma história real. Ainda que o tenha lido de peito aberto, minha suspeita se confirmou, o livro de fato reforça o clichê masculino de homem boêmio, jogador e comedor no pico mais alto da escala de forçação de barra.

4) Tem Alguém aí?: Obra da famosa escritora Marian Keyes autora dos livros Melancia, Sushi, Férias e outros best-sellers, conta a história de Anna, uma relações públicas de uma marca de produtos de beleza que vê sua vida virada do avesso após um acidente e “sumiço” do marido. O livro me tocou muito pois dialoga (alerta de spoiler) sobre luto e vida após a morte. De como Anna tem que superar a vida depois de uma grande perda de maneira resiliente e corajosa. E de como os sinais daqueles que amamos e se despediram, estão por toda parte, quando nos possibilitamos enxergar. E mais, de como a vida continua, acima de todas as coisas. Não preciso nem dizer que o nível de identificação com a história da protagonista foi total. Um olhar irreverente e sincero sobre as despedidas da vida e a transformação do amor após a morte.

5) O Alquimista: clássico mundial de Paulo Coelho que -pasmem- eu nunca tinha lido. A história trata sobre a jornada do jovem Santiago em busca de um tesouro. E sobre todas as riquezas que ele encontra no caminho. O livro é cheio de metáforas que dialogam a fundo com qualquer leitor. Os temas incluem a superação de medos e dificuldades, a leitura dos sinais que a vida dá em nos nossos aprendizados e sobre o real tesouro da vida. É o percursor do “É preciso ir embora”, com o perdão da minha falta de modéstia. E é um clássico pela capacidade de correlação que é possível de traçar entre leitores e protagonista.

6) Morte Súbita: primeiro livro destinado a adultos da famosa autora da série Harry Potter, J.K. Rowling. A história se desenrola a partir da morte súbita de um notório cidadão e conselheiro distrital de um vilarejo inglês. A história é cheia de personagens riquíssimos e complexos, e apesar de demorar um pouco pra engatar na leitura, vale muito a pena perseverar. A obra trata de temas como diferenças sociais e tetos de vidro. O final é dramático, improvável e calou fundo comigo por uma questão pessoal sobre o amor entre irmãos. Fiquei mexida com a história por dias. A autora prova que é capaz de descrever a realidade com o mesmo olhar perspicaz e brutal com que olha para a fantasia.

7) Steve Jobs: biografia do icônico e mais contraditório fundador da Apple. A biografia é extremamente factual e neutra. Steve Jobs permitiu ao jornalista Walter Isaacson- autor de sua biografia, uma liberdade editorial pouco vista em livros como estes. Os colaboradores do livro (familiares, amigos, colegas e até o maior concorrente Bill Gates) expõe todas as facetas de Jobs, do gênio ao monstro. O livro trata da relação de Jobs com a família, sua devoção a arte e tecnologia, seus próprios demônios, a construção de suas obras que tanto adoramos e muitos de nós dependemos (como o iPhone do qual eu escrevo pra vcs neste momento) e a luta de Jobs contra o câncer. Uma bíblia sobre o mundo dos negócios e como construir uma marca (e uma reputação) capaz de mudar o curso da história da arte, tecnologia, música, literatura, entre outras coisas redefinidas através do olhar e vida de Jobs.

8) Hunger Games (Jogos Vorazes): o primeiro livro da trilogia de Suzanne Collins sobre o jogo voraz enfrentado por Katniss Everdeen. Relutei em ler o livro porque não consigo lidar muito bem com histórias sem finais, e eu não tinha acesso aos dois outros livros que dão continuidade a trilogia. Apesar disso, o livro é muito bom, e trata de questões tão atuais nos dias de hoje, como governos opressores, uma estrutura social que mantém pobres cada vez mais pobres e ricos cada vez mais ricos e o poder que pequenos atos de rebeldia (e amor) podem causar em uma nação. Além, é claro, de tirar um sarro muito justo e acurado sobre a cultura dos reality shows. Apesar de ter achado o filme muito bom, o livro é daqueles que supera a versão das telonas. Vou atrás dos livros 2 e 3 com certeza.

9) Snowing in Bali: a história na contramão da versão bela e espiritual de “Comer, Rezar e Amar” que tanto associa-se com Bali. Snowing in Bali (“Nevando em Bali”) entra profundamente no mundo das drogas fomentado pelo turismo de Bali. A jornalista Kathryn Bonella entrevista os grandes traficantes de Bali, muitos deles brasileiros, em suas elaboradas rotas do tráfico de drogas de países como Brasil, Colômbia e Peru, para Bali, Europa e a meca do tráfico de cocaína, Austrália. O livro é cheio de histórias de corrupção policial, festas, orgias e “neve” pra todo lado. Tudo isso, com o toque picante de que em Bali, a pena para tráfico de drogas é o corredor da morte, que pode acontecer por fuzilamento ou esmagamento pela pata de um elefante. Um olhar curioso e uma leitura interessantíssima para quem vem pela segunda vez a Bali neste ano, e agora, com olhos mais abertos do que o que a doce versão de Bali vendida por Comer, Rezar e Amar.

Aqui estão as 9 obras que me seduziram de alguma forma nos últimos 2 meses de viagem. Muito dos livros me escolheram, através de algum viajante que encontrei, ou dica de alguém que conheci. Em maior ou menor escala, todos me tocaram de uma maneira muito feliz por tratarem jornadas pessoais de seus protagonistas em busca da superação e do autoconhecimento. Jornada essa que eu e você, insistimos e investimos todos os dias. Mas acima de tudo, todas as histórias de um jeito ou de outro falam de morte e falam de amor. E da correlação entre os dois. E essas mensagens, vieram na hora em que eu precisava, na medida que se aproxima a conclusão de mais um ano do falecimento do meu irmão.

Mas de tudo que li, quero compartilhar duas grandes lições. Nas palavras de Nando Parrado, sobrevivente dos Andes, aprendi em sua imensa sabedoria que: 1) todos nós temos os nossos “Andes” na vida. Trajetórias, tragédias, desafios, marcos que mudam o curso da nossa história. E que podem ou não definir como vamos viver o resto de nossas vidas. Tudo está em como encaramos os “Andes”. 2) O contrário da morte não é a vida, é o amor. É por amor que a gente luta pela vida. É o amor que faz da morte apenas uma transição, mas nunca o fim da aliança que criamos com aqueles que partiram. A vida continua por amor. E essa força transcende tudo e qualquer coisa.

Espero que vocês tenham gostado dos reviews. E aguardo ansiosa por dicas de leitura dos meus leitores aqui nos comentários.

Fim da sessão (leitura)