Quarentena

Parte 1 – “No meio do caminho tinha uma pedra”

Parte 2- “O garoto e a pedra”

A alta do hospital veio cheia de dúvidas. Se com o seguro válido havia sido complicado autorizar a primeira e segunda cirurgia, uma terceira estava quase fora de cogitação. Informei meus amigos e meu pai que estava tudo resolvido, pois a expectativa de autorizar novos procedimentos sob a atenção de uma plateia angustiada era algo que eu não queria repetir. Expliquei para a minha mãe que tentaria encerrar minha situação médica na Austrália, mas que estaria no primeiro voo para o Brasil caso não tivesse sucesso.

Mas o caminho do sucesso era árduo e demorado.

O seguro obviamente não tinha interesse (ou obrigação) nenhuma de me atender em uma terceira cirurgia. Ainda que tivessem usado duas semanas da minha franquia tentando autorizar o primeiro procedimento. Foram necessárias longas e acaloradas discussões no telefone, e uma carta de recomendação bem argumentada do meu urologista para que depois de quatro dias de negociações, a última etapa de remoção da minha pedra fosse finalmente autorizada.

O tempo todo deste processo burocrático, eu lidava com a recuperação que incluía um cateter que me repuxava a alma a cada xixi, um corte nas costas que vazava urina em um pequeno saquinho ligado a um curativo e uma autoestima localizada abaixo da sola do meu pé. Quando a autorização finalmente veio, a minha imunidade estava tão comprometida que desenvolvi uma tosse horrenda. Em contato com o consultório do urologista, fui informada de que não poderia me operar sem curar a minha tosse. Desta forma fui colocada em observação médica por 14 dias – ou seja, eu tinha 2 semanas para melhorar.

Em consulta ao GP (general practice) – a médica do centro clínico da Gold Coast me informa outra má notícia. A minha tosse era sintoma de uma virose chamada “Influenza” que estava atacando a população local. Para piorar a médica informa que não havia nada que eu pudesse fazer para melhorar a não ser ingerir líquidos e aumentar a minha imunidade.

Naquela situação eu não sabia se chorava ou se tossia, e na dúvida eu fiz os dois.

A Influenza me derrubou de tal forma, que passei dias entre leves melhoras, e fortes quedas. Febres e dores do corpo passaram a fazer parte da minha rotina – rotina essa que já andava complicada com a recuperação da cirurgia. A peste era tanta que meu apetite desapareceu, e em algumas crises de tosse chegava a vomitar pelo nariz a pouca comida que administrava colocar para dentro. Vomitar na cama do Boy – que fique registrado, para dar o devido drama a minha situação.

A minha condição debilitada começou a afetar meu espirito, e me peguei chorando inúmeras vezes no sofá por não ter ideia de como me sentir melhor. Tomava banhos escaldantes para controlar meus calafrios, e sobre muito protesto fazia gargarejos de vinagre e sal que o Boy recomendava. Passamos a discutir por conta do meu estado de definhamento – ele queria que eu reagisse, saísse para caminhar, fizesse o meu sangue circular. Tudo que eu conseguia fazer era dormir longas horas, me arrastar em seus pijamas e sonhar com uma ponte aérea “sofá  > colo da minha mãe”.

A minha mãe ligava e me pedia para ser forte, e eu derramava lágrimas inconformadas por me sentir tão carente. Eu nunca tinha ficado doente daquela forma – e agora somava uma quarentena de dias em que eu me sentia imprestável, horrorosa e fraca. Muito fraca. A balança marcava 7kg a menos. O meu rosto celebrava olheiras profundas e uma herpes labial que tomava conta de metade do lábio inferior e uma parte enorme do queixo. Pensei muito naquelas pessoas que tem que lidar com doenças de longo prazo e me senti uma idiota por meu corpo se mostrar tão frágil, e meu espírito se quebrar tão fácil. Eu odiava sentir pena de mim mesma.

O aniversário do Boy veio em um daqueles famosos churrascos australianos ao ar livre. Evento que participei hora entre os convidados, e hora dormindo dentro do carro como uma criança pequena que precisa ser protegida do frio. Pensava comigo “como esse garoto ainda não me despachou de volta?”. E como mágica, ele aparecia por perto, me beijava a testa e dizia “nós vamos sair dessa, linda” – como se pudesse ler meus pensamentos.

Duas longas semanas adentro da Influenza, veio a data reagendada da minha cirurgia. O dinheiro do seguro? Nada.

– “Srta Antônia aqui é a fulana do hospital Pindara, a Srta tem uma cirurgia hoje de tarde e gostaríamos de saber como irá pagar?”- uma funcionária solicitava do outro lado da linha.

Boa pergunta. Estávamos há duas semanas da autorização e nada da transferência de fundos. Faço uma ligação rápida para o seguro – considerando o fuso, penso que o dinheiro poderia estar a caminho. “Deve chegar ainda hoje, Antônia” – a supervisora me “tranquiliza”. “Deve chegar”. Meu estômago dá pulos de angustia. Preparo-me para a cirurgia de qualquer forma. Ajeito a mochila. Leio as instruções. “Fazer 4 horas de jejum antes da cirurgia”. Preparo um purê de batata e me alimento com dificuldade – culpa da virose e do estresse causado pela incerteza da minha situação.

A confirmação do dinheiro chega à 1h da minha baixa no hospital. A minha tosse a esta altura já cedia um pouco, mas não estava completamente curada e eu só rezava não apresentar nenhuma febre no meu pré-operatório. A enfermeira me examina – temperatura normal. Ufa. Despeço-me do Boy com esperança no olhar – “vai acabar tudo hoje!”. “Avisa esse urologista que chega de ter livre acesso a tua vagina” – ele brinca de volta, mais tranquilo.

Última cirurgia. O anestesista aparece para confirmar alguns dados. “Antônia, confirma pra mim uma informação do teu prontuário, você está há 4h de jejum?”“sim – comi um pequeno purê de batatas há 4h”, respondo como uma boa aluna. “Então nós temos um problema” – ele anuncia preocupado – “O jejum indicado para este procedimento é de 6h, alguém te passou uma informação errada. Se fizermos tua cirurgia agora você corre o risco de vomitar e aspirar purê de batata para os seus pulmões ”.  Por Jeová – “eu nem queria ter comido”, esbravejo sozinha. Agora o maldito purê de batatas era a pedra no caminho de remover a minha pedra.

Desabo. Se Deus estava querendo me ensinar paciência, eu estava na aula dos repetentes.

O anestesista entra no bloco cirúrgico apressado para discutir a situação com Dr. Tracey. De fora do bloco – já em meu avental descartável – ouço meu urologista advogar em minha causa. Longos minutos depois o anestesista volta – “Ok, Antônia. Vamos te deixar um tempinho esperando, pois Dr. Tracey quer muito fazer tua cirurgia hoje devido a tudo que te aconteceu –  (uma luz no fim do túnel chamado Dr. Tracey! O Boy que me desculpasse, mas esse homem merecia o livre acesso a minha vagina) – o anestesista continua: “Iremos te buscar em uma hora e meia no pré-operatório, ok?”.  Concordo disfarçando as minhas lágrimas de alívio.

Horas depois sou novamente posicionada embaixo das assustadoras luzes da sala de cirurgia. Olho com gratidão para Dr. Tracey e arrisco um pedido – “Leave nothing behind, ok?” (“não deixe nada pra trás, ok?”) – ele sorri e concorda.

“Ok, Antônia, hora de contar até 5. Pense em um lugar bonito que você gostaria de estar”.

“5,4,3…”

Ouço as ondas batendo nos corais ao fundo da praia. A água tem uma mistura interessante de tons azuis e verdes. Vindo da sacada, sinto o ar fresquinho da manhã. Da cama típica indonesiana – daquelas com estrutura de madeira e tecidos leves caídos por toda volta da cama – posso enxergar as lindas curvas do corpo de um surfista na beira da praia. Levanto-me e caminho sonolenta até a entrada do bangalow. A chuva da noite passada deixara um cheiro de mato límpido que preenche os pulmões.

Gasto um tempo observando o surfista. Há alguns minutos atrás, antes de deixar o travesseiro ao meu lado, ele tentava me acordar com beijos na boca, e outros pelo corpo até as pontas dos meus pés. Pés que ele insiste em chamar de “delicinhas”. Observo de longe a nuca dele e as lindas linhas das costas que vão até a entrada da bermuda.  Ele encara o oceano fazendo uma prece por boas ondas – eu tenho certeza. Caminho até o seu encontro e o abraço por trás, sentindo a areia fofa abraçando os nossos pés. Ao nosso redor, palmeiras infinitas são a moldura de uma cena bonita. Ermitões transitam com suas conchinhas nas costas e pequenos siris caminham entre os corais trazidos pela maré alta até a areia branca. Eles são as únicas testemunhas do nosso beijo matinal, e de nosso olhar contemplativo sobre o paraíso daquela ilha deserta.

– “Acordou finalmente.” – ele me abraça apertado, e eu sinto o cheio gostoso da sua pele.

– “Parece que não” – respondo suspirando e sorrio encarando aqueles lindos olhos verdes.

– “Fica tranquila, linda, eu te garanto que isso não é um sonho.” – e então me beija a boca com gosto de sol da manhã.

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Saudações das Ilhas Mentawais, queridos leitores. SENANG.

Fim da sessão.

ps: O nome do Boy é Leonardo. Achei importante pontuar que, como escritor, Deus adora uma ironia.

O garoto e a pedra

(Parte 1) –  No meio do caminho tinha uma pedra

A anestesia durou tempo suficiente para que eu sentisse o tubo respiratório sendo removido da minha garganta ao acordar. Queria ter sonhado por mais alguns segundos para não sentir o plástico duro arranhando as minhas profundezas até a boca. Frio. O meu corpo inteiro treme sem obedecer a comandos básicos. Um grupo de ritmadas enfermeiras arrumam meus travesseiros, posicionam cobertores. Máquinas de massagem são colocadas nas minhas pernas, além de meias muito apertadas – “para evitar embolia”, penso eu. Como se eu soubesse o que é embolia. Eu perguntaria para o meu irmão o que é embolia. Meu irmão! Lembro-me do meu pedido antes de entrar na cirurgia – “eu não morri”.

Eu sei, parece dramático achar que um furo nas costas pudesse me matar. Mas ao lembrar-me das lágrimas da minha mãe ao saber da cirurgia, sinto que passei a cultivar receios que antes não tinha. Cautelas que antes só conhecia através do dicionário. Minha mãe. Preciso avisar minha mãe que deu tudo certo. “Vou deixar que ela avise meu pai” – penso comigo – ela sabe como falar com ele. Coitado do meu pai – eu lamento – deve estar pensando mais uma vez que Deus está nos castigando. Meu pai não passou um dia desde a nossa tragédia familiar sem pensar que estamos todos recebendo um castigo divino. Sempre tento explicar que somos pessoas boas, que castigo não é o caso. “Pessoas boas não tem a filha operada do outro lado do mundo” – ele deve estar pensando agora mesmo.

Sinto uma dor no peito. Culpa? Saudade? A maquininha do meu lado começa fazer um bip-bip descompassado. O ar evapora dos meus pulmões. A enfermeira aperta alguns botões e ajusta uma máscara de oxigênio no meu rosto.

– “Você está apresentando oxigênio baixo, vamos ter que te manter na máquina mais ou pouco, ok?” – ela explica.

Por ironia do destino, havia parado de fumar fazia 30 dias (graças a minha falta de dinheiro muito mais do que força de vontade, confesso). A sensação da falta de ar me fez repensar os meus 10 anos de fumante. Aqueles que eu nunca admito aos médicos. “Fumante, Srta Antônia? – “Eu? Ahn, como você caracteriza alguém como ‘fumante’?” – eu enrolava. Agora estava eu, numa cama de hospital, aos 32 anos, lutando por ar, tendo a certeza de que a culpa era toda minha.

Hora de ir para o quarto. As enfermeiras do andar aparecem para se apresentarem e entender mais sobre o novo caso vindo do bloco cirúrgico. “Antônia tem 32 anos, apresentava um massivo cálculo renal no rim esquerdo, Dr. Tracey realizou uma “!@#$%¨&&*#$” (nome do procedimento de remover uma pedra pelas costas), ela está com um tubo ligado ao rim pelas costas e outro cateter através da uretra.” – “EU ESTOU COM UM TUBO ONDE????????????” – interrompo assustada. “Nas costas” – a enfermeira do bloco responde sorrindo. Coloco a mão na lombar e sinto um tubo da grossura de um dedo saindo de um curativo colado na pele. Vou tateando com a mão e vejo que o mesmo está ligado a uma bolsa – com um líquido amarelo e pequenos volumes transitando, como o trânsito de pedras numa marginal amarela.

“Eu acho que vou vomitar” – anuncio.

“É o efeito da anestesia, vamos te medic…” – Era tarde demais.

Uma hora mais tarde, a porta da qual transitavam enfermeiras a todo instante,  abre-se para uma visita mais esperada. Um alento para o meu peito cansado. Aqueles grandes olhos verdes me receberam com uma mistura de alívio e expectativa. Dei-me conta, pela primeira vez, do quanto esse garoto deveria estar assustado. Num minuto convida uma maluca para passar umas semanas na Austrália, e no outro tem de levá-la as pressas ao hospital e administrar o contato com a família e amigos dela (todos igualmente malucos) para dar notícias. Não tinha sido esse o nosso combinado, eu sabia.

Ele me abraça por entre tubos enfiados por veias e orifícios. Suspira longamente. “Eu estou bem” – lhe asseguro. “Foi moleza” – sorrio, forçando um pouco a barra. Ele beija a minha mão, e diz que eu estou linda. Agora ele forçava a barra. Comento o pouco que sei da cirurgia e dos variados tubos que tenho grudados em mim. Uma enfermeira entra para verificar o oxigênio – que agora é fornecido por um pequeno tubo no nariz, ao invés da mascara. “Esse é seu namorado?” – “NÃOOOO!!” – respondo em pânico antes que ele pudesse responder.

Desejei que ele não tivesse ouvido – mas sei ouviu. Não queria dar ao Boy o peso de perguntas complicadas por cima de uma situação já complicada o suficiente. Fiquei com medo que a máquina ligada aos meus batimentos cardíacos acusasse meu sobressalto. Olhei para ele sem graça enquanto ele sorria, com aquele grandes olhos verdes que combinavam com meu avental descartável.

Tudo se tornou real, entretanto, quando o efeito da medicação para dor chegou ao fim, sem qualquer aviso. O Boy que chegava de volta da cafeteria, cruzou com uma enfermeira apressada que saia do meu quarto ao som dos meus gritos.  Pausa para contextualização: se você já teve cólica renal ou se já encarou a dor de um parto vai me entender. A dor renal sai da intensidade do 0 ao 10 em questão de segundos. Faz você sentir um misto de sensações assassinas e suicidas ao mesmo tempo. Naquele momento o Boy entrou no quarto para encontrar uma Antônia emitindo grunhidos viscerais, audíveis por todo corredor, carregadas de feições faciais dignas do filme “O Exorcista”.  Não era nada bonito.

Enfermeiras entram, conferem meus dados, e aplicam uma injeção na minha coxa com algo que deveria ser parente da morfina. A cena toda durou apenas alguns minutos, mas o suficiente para ser traumatizante para alguém que nunca lidou com cólicas renais antes. O lindo garoto de olhos brilhantes estava em choque observando tudo da porta do quarto. Foi naquele momento que o vi perdendo o “cool” dele. Vi o medo e a responsabilidade jogando a falsa tranquilidade que eu havia lhe dado pela janela. Segundos depois da injeção, voltei a ser eu mesma. A transformação foi como uma cena do filme do Incrível Hulk ou O Médico e o Monstro. Eu estava finalmente melhor – mas não havia injeção para o estado de pânico que o garoto agora se encontrava.

Ele sentou na cadeira do lado da minha cama, e encarou longamente a parede com os olhos marejados. “Lindo, eu estou bem! Eu juro.” – eu dizia insistentemente. “Me dá uns minutos, Antônia” – ele pediu com a voz tremula. Eu me senti péssima por assustá-lo. Senti-me pior ainda por fazê-lo pensar que ele era responsável por mim, naquele país, tão longe de casa. Como eu podia privar meus pais dos detalhes doloridos da minha operação, e fazer alguém, que genuinamente entrou nesta de gaiato, passar por isso?

“Lindo, vai pra casa”. – exigi sem demora. “Amanhã você volta”.

“Vou ficar aqui contigo, eu só fiquei assustado que pudesse ter algo de errado contigo, e acontecesse algo de grave, e aí eu ia …”- a voz dele trava.

“São só dores, e elas vão vir e voltar a noite inteira hoje. E vai ficar tudo bem. Amanhã você volta. Vá agora”.  – Ele me beijou a testa inseguro, e com uma tristeza no olhar foi embora. A despedida foi curta o bastante para evitar que ele presenciasse uma nova crise de cólicas.

As crises duraram a noite inteira, como eu previ. E a noite inteira eu as encarei com a convicção de que devia passar por aquilo sozinha – porque é isso que a gente faz quando a gente cresce – esse foi mais um dos meus aprendizados. A gente protege quem a gente ama e quer bem, daquelas dores que só a gente pode aguentar. A gente protege os nossos pais. E os garotos bonitos que não suportam nos ver sofrer. E nessas situações a gente escolhe que algumas pedras a gente tem lidar sozinha – pelo menos por uma parte do caminho.

Nos dias que se passaram – entre uma segunda cirurgia pela uretra e outros três dias de internação, lá estava ele, com seus olhos curiosos e coração em prontidão. O Boy me viu ficar anojada diariamente com toda a medicação que recebia. Viu meu corpo inchar em 5kg de puro líquido como parte do processo de limpeza do meu rim. Por Deus, esse garoto me viu mijar pelas costas por um tubo. Viu-me arrastar até o banheiro com um cateter pendurado no meio das pernas. E me viu praguejar um hospital inteiro quando cheguei ao meu terceiro dia com o intestino absolutamente constipado, onde tudo que eu queria na vida era cagar (e só conseguia falar disso). Esse garoto só não viu a enfermeira enfiar um supositório no meu único orifício livre, porque eu pedi que ele saísse do quarto.  Fora isso – e o eventual efeito do supositório – ele esteve do meu lado o tempo inteiro.

Ele esteve do meu lado quando o urologista anunciou que eu precisaria de uma terceira cirurgia, pois um pedaço da pedra e um cateter haviam ficado para trás. Viu-me preocupada com o meu futuro, pois a esta altura o meu seguro previsto para 2 meses de viagem, já havia vencido. Eu não tinha certeza de como proceder sobre o futuro. E a ideia de ilhas desertas com o meu surfista parecia cada vez mais distante.

Mas dentre todas as angustias que eu ainda ia encarar com a minha saúde nos dias que viriam, uma certeza permanecia. A presença incondicional daquele garoto, apesar de todas as pedras no caminho.

Sabe, aos 32 anos, eu já não me apaixono mais tão fácil. Os meus relacionamentos esbarram no ciúme de um, na falta de ambição do outro – ou nem chegam a virar algo mais quando recebo um “vosê” no whatsapp. Então ver minha admiração por alguém crescer de forma consistente e tão justificável, foi como uma dose de morfina em um coração doído. Veja, eu sou uma pessoa legal de ter por perto na sua melhor forma – mas ali eu sabia que eu estava muito longe da minha melhor forma. E ver alguém ficar ao meu lado, depois de enxergar tudo aquilo que se encontra embaixo do bonito, do agradável, do sexy, me ajudou a curar outras partes de mim que nada tinham a ver com o meu rim.  

Eu não sabia o que o futuro reservava para nós dois. Mas eu sabia que o garoto ia ficar marcado em mim, como a cicatriz de uma cirurgia. Aquela marca que precisou ser feita para poder desbloquear algo vital de que se precisa para seguir vivendo. E amando.

Fim da Continuação na próxima sessão.

No meio do caminho tinha uma pedra

Quando ele ligou nos primeiros dias deste verão não entendi o contato. Era um amigo de longa data, que há tempos havia se mudado para a Austrália e estava passando o verão em Florianópolis. Não entendi a ligação pelo simples fato de que, dentre tantas pessoas que ele poderia sentir saudade, a nossa falta de contato nos últimos 6 anos me indicava que eu não era uma delas. Mas respondi com meu ar de boa praça de sempre. “Oi (espanto), sim, quanto tempo! É, nos encontramos? Claro, hoje? Ok, hmmm, sim, te busco, forró? Pode ser. Combinado, nos vemos.”

Naquela noite abafada de segunda-feira, me encaminhei para o que parecia ser um programa de índio. Forró na Praia da Joaquina pra encontrar com um cara com quem eu não falava há anos. Mas o meu ceticismo sempre teve tendências monstruosas a levar uns tapas na cara do destino, então lá foi eu.

Fui recebida com lindos olhos brilhantes, um abraço apertado e uma alegria sincera de reencontro. No forró, entre uma cerveja e outra, meu amigo admitiu que me acompanhava de longe, lia minhas intervenções online, e nutria uma enorme admiração. Eu tagarelava sem parar timidez adentro, falando sobre a sorte de ele viver num país organizado e de como a pequena cidade do interior, cenário do nosso passado, não havia mudado nada. Fiquei com as bochechas vermelhas ao reparar como os anos o haviam deixado atraente, e sorria sem graça todas as vezes que ele repetia como era bom me encontrar. Horas depois de atualizarmos nossas histórias sobre a última meia década, o dinheiro da cerveja acaba. Era hora de ir embora.

No caminho de volta, erro a velocidade num quebra-molas, e por reflexo – como as mães fazem com quem senta no banco do carona – coloco a mão no peito dele para evitar que a inércia o jogasse pra frente. No mesmo instante ele segura a minha mão em seu peito. Aperta-a contra ele mesmo.  Olho para o lado e encontro aquele belo par de olhos sorrido, enquanto segura carinhosamente a minha mão. Depois disso foram, deste pequeno e simbólico encontro de mãos – correram-se 20 dias de um amor de verão e uma dolorida despedida no aeroporto.

– Vem me visitar na Austrália – encorajou ele.

– Vou mesmo – eu disse com a convicção de quem não precisa muito para fazer as malas e pegar a estrada.

Meses se passaram e veio a data da esperada viagem. Com o coração cheio de dúvidas encarei as 36h cruzando o globo. Uma viagem adicional de duas semanas com as amigas em Bali foi o que precisei para poder dizer para mim mesma que não estava atravessando o mundo APENAS por causa de um caralho (por melhor que o caralho fosse). Bali veio e foi um sonho vivido do lado das pessoas que eu já sabia que amava. E então, sem muita demora, eu peguei o caminho da Austrália para encarar a aventura de ficar na casa do Boy (vamos chama-lo assim). Sim, aventura porque nada mais extremo que viver um amor de verão num minuto e no outro ir “morar” na casa do cara – ainda que por algum tempo. 

A primeira semana passou como mágica, regada pela alegria do reencontro, horas infinitas de sexo de saudade e o conhecimento da rotina dele. Esforcei-me para parecer bem organizada, bem composta, e supeeeer confortável em dividir a cama. Teve a primeira festa com os amigos dele, a primeira briga, a primeira menção sobre uma possível conversa sobre um possível futuro. O Boy me convidou para estender a minha viagem a Mentawais, outra parte remota da Indonésia formada por ilhas praticamente desertas. Era como um sonho se realizando. Eu, um surfista e uma ilha deserta. Não foi difícil começar a estudar a possibilidade.

O segundo final de semana veio com uma gripe. A dele passou com a chegada da segunda-feira. A minha piorou com a necessidade de uma ida ao hospital. Meu estado tinha cara de problema. Uma pedra no caminho da minha viagem. Mas em toda a minha imaginação, eu só não imaginava o tamanho da pedra.

Na emergência do hospital indicado pelo meu seguro, o diagnóstico. Estava sofrendo de uma infecção urinária medonha. As dores lombares alertaram o médico que me atendia para a necessidade de um CT Scan. O resultado do exame confirmava a pedra no caminho: A parte interna do meu rim esquerdo, tinha sido tomada completamente por um cálculo renal imenso. Uma pedra monstruosa. Um aerólito. Assusto-me por um minuto, mas percebo que o Boy parece mais assustado que eu, então tento manter a compostura até a chegada do especialista.

Da boca do urologista, em um inglês australiano tranquilo, ouvi aquilo que ninguém quer escutar a 13mil quilômetros de distância de casa (e com o dólar 3 vezes o valor dos meus míseros reais). Eu precisava de uma cirurgia. Urgente, já que meu rim estava sofrendo. Dei baixa no hospital para lidar com a minha infecção urinária e mandei o Boy pra casa para lidar sozinha com toda a onda de pavor que tomava conta de mim.  Lembrei-me da pedra no rim que havia removido 12 anos atrás e das cólicas renais memoráveis. Aquela que eu haveria de encarar, tinha nada menos que a mesma proporção do dólar – 3x maior.

No dia seguinte de volta a casa, iniciei o processo de autorização da minha cirurgia pelo meu seguro de viagens. Intermináveis ligações durante dias, uma pá de documentos e exames, e o maior número de e-mails que já mandei na vida, justificavam a necessidade da cirurgia. A autorização veio, para o nosso alívio (meu e do Boy que pipocava angustiado ao meu lado durante as negociações). O grande problema estava na transferência de fundos. E  fica aqui o meu primeiro grande aprendizado desta história – a transição internacional de dinheiro nunca é simples.

O meu caso, por exemplo: o hospital não aceitava o cartão de crédito do meu seguro, então para que eu fizesse a cirurgia, o seguro deveria transferir dinheiro para o hospital. Até aí sem problemas. Acontece que para realizar uma transição internacional, o seguro precisava de uma nota fiscal com os valores da cirurgia, e o hospital só emitiria a nota fiscal após a cirurgia, mas também só realizaria a cirurgia depois que o seguro transferisse o dinheiro. Entendeu? Meu rim entrou num loop burocrático infinito. A esta altura, já somávamos duas semanas de negociações e nada da minha cirurgia.

Mas aqui cabe outro grande aprendizado desta história – quando você mais precisa, você pode encontrar um amigo em um estranho. Ao acompanhar a minha trama, Dr. Tracey, meu urologista, ficou compadecido de certa forma com a minha história. Pela minha viagem interrompida pela pedra. Pelo tamanho da pedra. E pelo drama com o financiamento da minha cirurgia. Foi quando sugeri ao seguro pedir ao Dr. Tracey – em uma última tentativa  – que ele emitisse a nota com o valor do hospital, recebesse o dinheiro do seguro, e assim pagasse as custas do hospital. E foi na bondade de um estranho, que consegui organizar minha ida para o centro cirúrgico.

Neste dia, pela primeira vez, vi o belo par de olhos do meu lado, chorar de alívio e alegria.

Dia da operação, e eu estava animada. Depois de 15 dias de espera e angustia, estava pronta para entrar na faca e liberar meu pobre rim das pedradas desta vida. Pesquisei meu procedimento no YouTube. Pareceu-me não ter mistério – os caras iam furar as minhas costas até o meu rim, e de lá começariam a remover meu aerólito. “De boua” – pensei. O restante do que ficasse faltando, seria removido pelo canal da uretra – ou como eu gosto de dizer, pelo buraco que Deus me deu, lá pela vagina.

O Boy me deixou no pré-operatório com feições mais dramáticas do que ele normalmente me olhava. Os olhos lindos agora eram carregados de preocupação, enquanto eu fazia piadas idiotas sobre a “transferência do corpo” estar inclusa no seguro. Eu tenho tendências a idiotice quando estão para perfurar meu rim – agora eu sei. “Fica tranquilo – vou sentir só uma picadinha!” – tentava acalmá-lo em vão. Na entrada do bloco cirúrgico, usando minhas roupas descartáveis – fazia brincadeiras com a equipe com a tranquilidade de quem ia “logo ali se operar e já voltava”. Dr. Tracey apareceu por entre as portas do bloco (com seu sorriso de alívio por finalmente me ver no hospital) e garantiu “Nós cuidaremos de você”.

– “Não tenho palavras em inglês ou português para agradecê-lo” – digo com os olhos mareados.

Fico um minuto sozinha enquanto a equipe prepara a sala. Sem ninguém para entreter ou me tranquilizar, me ocupo do futuro desconhecido. “Eu não posso morrer”. Frase que passei a mentalizar sempre que fico com medo. Na turbulência de um avião. Num pequeno acidente de carro. Numa possibilidade de assalto. Antes da minha cirurgia. “Eu não posso morrer”. Eu não posso morrer e tirar dos meus pais mais um filho. Não posso morrer. Não posso ter uma lápide, não posso ir para o céu. Não ainda.

Eu nunca me ocupei da minha morte antes de perder o meu irmão. Sempre achei que morrer jovem seria até mesmo poético – com minha pele boa, antes de ter remorso demais da vida ou das pessoas. Pois não mais. Parece que com a despedida do meu irmão, a minha vida já não me pertencia mais. Pensei nos meus pais e chorei as lágrimas que escondia de todos até aquele momento. Agradeci por passar por esse processo bem longe deles. Não aguentaria tê-los na sala de espera, aguardando notícias minhas. Rezei para o meu irmão, pela primeira vez pedindo um favor. “Léo, por favor. Eu não posso morrer.”

– Está pronta, Antônia? – a enfermeira interrompe meu pedido.

– “Não. ‘Léo, por favor. Eu não posso morrer’ (mentalizo)”.  – Abro um falso sorriso de confiança – “Pronto. Agora sim, estou pronta”.  

Sou posicionada abaixo daquelas luzes enormes (e assustadoras) da sala de cirurgia.

– Oi Antônia, sou o anestesista, você vai sentir um piquizinho. Conte até cinco e pense num lugar que você queira visitar em seus sonhos.

– “Ok.  – respondo prontamente – ‘Léo, por favor. Eu não posso morrer’ (mentalizo de novo)”. “5,4,3 – …”

Fim da Continuação na próxima sessão….