Comece antes de estar pronto

Meu trabalho e profissão viraram do avesso desde que eu decidi sair de um emprego fixo, com uma cadeira só minha e um cartão de visitas com o meu nome. Eu não tenho mais horário, rotina, e meu escritório é uma mochila nas minhas costas. A única coisa fixa nesta minha nova realidade é a mudança. Trabalho hoje com três empresas diferentes, diversos clientes, inúmeros formatos. Recebo inputs diários, consultas constantes, a minha pauta muda com as horas do dia, e humor da semana. Para alguém que sempre trabalhou com planejamento, esse novo formato é o próprio inferno. Acrescente a isso, uma fraqueza em cobrar ou precificar esforços. E como cereja do bolo, aquela velha ideia de que eu ainda não estou pronta para os desafios que me propõe. E quer saber da verdade, eu não estou mesmo.

“Eu não estou pronto!”

Aprendizado é um processo dolorido, que pode até envolver algum nível de preparo e planejamento, mas ele funciona mesmo é na prática. Eu já aprendi que erros são balizadores do sucesso. Não dá pra aprender a andar de bicicleta lendo livros, vendo vídeos no YouTube ou fazendo design thinking do projeto. Você até pode se preparar para pegar no guidom, mas só vai entender o relacionamento entre velocidade e equilíbrio, através do movimento. É o movimento que calibra a expectativa e a execução. Não tem outra forma. Ok, vão haver alguns joelhos ralados no processo, mas eles só existem porque houve tentativa. Sem tentativa, não existem nem os joelhos ralados, só uma ideia de andar de bicicleta. E ideias não chegam a lugar nenhum sem algumas pedaladas.

“Eu não estou pronto!”

Nunca antes estive tão insegura. Talvez por isso eu celebre herpes nervosas na boca toda semana e uma atividade estomacal digna de montanha russa (oversharing alert!). Às vezes, eu pego emprestada a convicção que as pessoas têm em mim para seguir funcionando. “Tenho um projeto que é a sua cara, fica tranquila, você vai tirar de letra” – ora, se alguém acredita em mim, como eu posso não acreditar? E desta forma eu uso agentes de mudanças que já deram os seus primeiros passos, como trampolim da minha transformação. Se eu não sei precificar meu trabalho, eu busco aqueles que não têm nenhuma dificuldade de cobrar até por seus espirros. Se eu não gosto de vender, eu me associo a quem venda até a mãe (metaforicamente, por favor). Eu busco referência naquilo que ACHO que não sei, ainda que por vezes me dê conta que eu faria melhor que as minhas referências.

Por quê?

“Eu não estou pronto!”

Verdade é que desde que toda essa nova rotina começou, eu nunca – NUNCA – senti que estava pronta. Nem todos os meus cursos, as horas de especialização e meu MBA em outra língua retira de mim a angústia causada pela ausência da plenitude. A ansiedade envolvida na sensação de achar-se crua, verde, imatura. E depois de 10 anos de análise nas costas, arrisco-me agora a dizer que esse estado de “prontidão” não existe. A maioria de nós segue correndo atrás do coelho branco dono do relógio, tentando entender a nós mesmos, até cairmos no buraco negro – do descobrimento e das maravilhas. Esse corre-corre tem sempre a mesma origem:

 “Eu não estou pronto!”

E não vamos longe. Tudo no meu discurso é muito lindo, muito alerta, mas a prática segue meio bamba. Veja, eu consigo operar para os outros ainda que de forma insegura. Mas quando se trata de um projeto meu, e só meu, pronto! Estou eu paralisada novamente olhando a bicicleta no chão. Imaginando cenários, minimizando obstáculos, tentando prever alta performance dentro da minha cabeça. A bicicleta tá lá, só me esperando. Inúmeras oportunidades de passeio perdidas porque estou esperando que o relógio apite o momento da minha maturação. Como se aprendizado fosse recompensado pela intenção, ao invés da ação.

“Eu não estou pronto!”

Esse ano eu decidi investir no meu projeto autoral, sabendo que não estou pronta, e que nunca vou estar. Vou dar essa banda de bicicleta, prevendo joelheiras, e sabendo que eu posso ralar até a testa, afinal, planejamento nenhum prevê como o mundo vai tratar seus sonhos. Então vou lá ver o que vai dar. Eu vou fazer do jeito que der, afinal, não estou fazendo muito pelos meus planos, sentada aqui fermentando os “e se…” da vida. Eu sou a única filha da puta atravancando o meu caminho. E talvez justamente por eu não estar pronta que eu vou ser mais tolerante com os processos, mais gentil com meus erros e mais sensível às lições.

Acredito que quanto mais a gente se convence de nunca vai estar pronto pra nada mesmo, mais a gente tem certeza que não tem dia melhor para subir na bicicleta do que hoje.

Comece antes de estar pronto.


Fim da sessão

DOWN, UP!

Você entrou na minha vida como alguém diferente. Irmãzinha da minha melhor amiga, apenas alguns anos mais nova que eu. Teus olhos puxadinhos sorriam com qualquer estímulo. “Manuela” te chamaram, embora tu atendesse melhor com carinhos e cosquinhas. Um bebê lindo e “especial”. Pois é, além de Manuela, te chamavam de especial, e eu entendi bem o porquê. Apesar da pouca idade, quando criança, você sempre foi pura personalidade. Geniosa, destemida carinhosa, espertalhona. Logo: especial! Lembro-me de um dia perguntar para a minha mãe porque você tinha dificuldade de falar como as outras crianças. A minha mãe, então, me contou que você tinha Síndrome de Down.

“Síndrome de Down”. O nome me assustou. Imediatamente questionei minha mãe se aquilo era grave. Ela então, com todo carinho do mundo, me explicou que a tua condição não era uma doença. Você só era diferente, porque tinha um cromossomo a mais que eu. “Um cromossomo a mais” – pensei surpreendida. Aquela informação confirmava outra teoria que eu tinha: você estava a pelo menos um passo na minha frente em tudo.

Nossas famílias, vizinhas e amigas, seguiram suas vidas criando os filhos juntos. Não tenho uma memória de infância ou da adolescência em que você não estivesse lá. Com o tempo e afinidade, desenvolvemos uma linguagem própria para falar contigo.  E você nos ensinou outras formas de comunicação. Hora com sons, hora com referências, hora com olhares. Usava de toda paciência do mundo para me explicar tuas ideias, quando eu não conseguia – por alguma deficiência minha – entender o teu universo. Produzias um som, que te acompanhou a vida inteira, que expressava tua satisfação e felicidade – como a zumbido de uma abelhinha. Aliás, hoje penso que todos nós deveríamos desenvolver um som que anunciasse a nossa alegria – desta forma ela não passaria despercebida por ninguém, algo tipo “zzZZZzzz…  Ei! Olhem! Tô feliz!”.

Por causa de ti, desde muito cedo, entendi que todo mundo era diferente, de alguma forma. Da infância a fase adulta, por conta de meu contato próximo contigo, fui educada à ideia de que tu não eras menos capaz, menos inteligente ou de maneira nenhuma desprivilegiada. Só diferente. Olhava o mundo com outros olhos, tinha outra velocidade. E que “diferente” não era um problema. A convivência contigo me obrigou a tratar todas as pessoas que conheci com igualdade e respeito. Cromossomos a mais ou não. Talvez não fosse por ti, eu teria sido uma criança mal educada, daquelas que pratica bullying. Ou pior, um adulto intolerante.

Fato é que você cresceu, e hoje, uma mulher, continua me surpreendendo. Eu enxergo mais empatia nos teus olhos puxadinhos, do que outros cidadãos desprovidos do teu cromossomo extra. Já te vi apaixonada exatamente como eu. Sofrendo e se reerguendo após um término de namoro, como eu. Dormindo cedo, batendo ponto, pagando conta, como eu. De TPM, irritadiça e revoltada. Como eu. Vi também você me acolhendo no teu colo, dando teus conselhos e dividindo teu otimismo inabalável por dias melhores.

Mas não foi só em ti, que vi força em superar o preconceito. Vi em Débora Seabra, a primeira professora com Síndrome de Down a ganhar o prêmio de educação por uma câmara de deputados. Vi no kikito do ator Ariel Goldenberg, pelo filme “Colegas”. No maestro, conferencista, apresentador, escritor e ator espanhol Pablo Pineda. Como na também espanhola Angela Bachiller e sua posição de prestígio na câmara de vereadores da cidade de Valladolid. E outros tantos exemplos.

Nesta semana, o dia 21 de março foi marcado pelo Dia Internacional da Síndrome de Down. E eu vim aqui agradecer. Quero demonstrar a minha gratidão a todos os portadores da síndrome, que não apenas executam todas as tarefas diárias, mas que superam os preconceitos e ainda educam pessoas mundo a fora sobre inclusão, unicidade e respeito. Agradeço a perseverança e coragem de pais, que precisam lidar com a falta de estrutura no sistema educacional brasileiro, e que não desistem de mudar e melhorar o cenário atual. Agradeço a todas as empresas que contratam, preparam e promovem uma vida com dignidade e independência a este capital humano tão especial, quanto capaz.

Mas principalmente agradeço a Manuela Magalhães, a minha Manu – amiga, companheira, e exemplo de felicidade em cada etapa de seu crescimento e do meu. A tua participação na minha vida, Manu, elevou os meus conceitos a patamares mais dignos de humanidade. Talvez por isso a síndrome não devesse ser chamada Síndrome de Down* (*referência ao sobrenome do descobridor da síndrome, mas que no inglês poderia significar “baixo”). Talvez a síndrome devesse ser renomeada a Síndrome de “Up” (alto), uma vez que ela tem a capacidade de elevar o espírito e o orgulho de toda pessoa que tem o privilégio de conviver e aprender com alguém que nem você, Manu (Débora, Ariel, Pablo, Angela…).

Esse cromossomo a mais, merece uma dose extra de respeito e admiração. Sem dúvidas!


Fim da sessão.

5 razões para viajar | Vai para o Mundo

A grande maioria das pessoas que viaja por diversão, pouco se dá conta de que o ato de viajar é também um aprendizado intenso sobre o mundo, e o melhor, sobre você. A convite do blog Vai para o Mundo, e também para provar minha teoria, listei abaixo 5 razões para você botar a mochila nas costas, e seguir direto para essa escola chamada mundo:

1) Planejamento de projeto de curto, médio e longo prazo

Viajar exige um planejamento que vai desde destino, acomodações e métodos de deslocamento, até um estudo financeiro otimizado de um projeto que pode durar duas semanas, ou até um ano de volta ao mundo. Esse plano ajuda viajantes a calibrar expectativas, prever riscos e ter planos de contenção de crises. Cria hábitos saudáveis de autoproteção. Desenvolve a comunicação e poder de resolver problemas. Talvez a lição não fique tão óbvia porque você está se divertindo, mas o aprendizado começa antes de você sair de casa.

2) Conhecimento íntimo de novas culturas

Esse ponto é vendido como o bom e velho clichê de conhecer o mundo fora dos livros, mas é de fato uma boa oportunidade de entender questões sócio-políticas do mundo. Em sociedades que a globalização ganha cada vez mais velocidade, entender como novas culturas funcionam, vivenciando-as, pode ajudar você a entender o que acontece e porque acontece além das fronteiras do seu quadrado. Ajuda a formar opiniões com base em experiências, mais do que o que a mídia diz através da sua televisão ou redes sociais.

3) Acesso a novas fontes de inspiração

Viajar sempre fomenta a inquietude existente dentro de todos nós. O fato de sair do nosso lugar seguro, provoca todo tipo de criatividade que estava lá, guardadinho num lugar escuro do nosso inconsciente. Viajar é fonte interminável de inputs criativos, seja através da arte, da arquitetura, da música, e por aí vai. Não é a toa que grandes ideias e projetos surgem depois de uma viagem. Quer inspirar-se? Caia agora no mundo.

4) Renovação da fé

Ok, ok. Mesmo que você não seja religioso(a), entenda que viajar é um ótimo exercício de renovar a fé nas pessoas. Sim, porque ser viajante é constantemente encarar perrengues, e não existe nada mais gratificante que encontrar ajuda em um estranho cheio de boas intenções. Então se não for para renovar a sua fé através de uma visita a uma igreja linda, um templo budista inspirador, ou conhecendo uma curandeira de uma tribo, viajar pode ser uma boa pedida para botar fé na humanidade. Afinal, nestes momentos a gente percebe a divindade do outro que estende a mão. E isso nos torna mais humanos, e mais divinos.

5) Reconexão com você

Não existe verdade mais permanente entre viajantes de que viajar é conhecer o mundo, e talvez a melhor forma de conhecer seus limites pessoais, sua essência. É uma terapia de choque. É você com você mesmo, na alegria da descoberta de uma nova praia, ou na tristeza de ter as malas extraviadas. É a prova viva da sua adaptabilidade, do seu poder de superação. E é sem duvidas, uma gentil oportunidade de se apaixonar por você. E viciar nesse encontro – de você com o mundo, mas também, de você com você mesmo.

Convenceu-se a pegar a estrada? Bom, se estas 5 razões não forem suficientes para encarar a aventura, viaje porque é bom. Porque é divertido. Viaje porque você merece. E porque visitar e viver o mundo lá fora, pode fazer maravilhas com seus limites e as fronteiras de dentro.

Viaje! Vai para o mundo.

Fim da sessão.

  • Essa sessão foi escrita especialmente para o blog Vai para o Mundo, um projeto querido das minhas amigas Gabriela Brunelli, Gabriela Sarturi e Amanda Schenkel que como eu, são viajantes de carteirinha.  Confere lá!

Irmão é…

Ouvi dizer em algum lugar que a nossa construção é formada pela média das cinco pessoas com quem nos relacionamos. Lembro que o estudo provava por A+B que a nossa personalidade era a massa liquidificada dos nossos pais, irmãos, amigos, amores, na mesma proporção. Apesar de ser um estudo bem fundamentado, eu tive certeza que eu não era parte da amostra. Isso porque eu sei que metade de mim sempre foi, e sempre vai ser pilha do meu irmão. O restante dos 50% até pode espremer outras influências. Mas uma metade inteira é consolidada pelo elo que fiz com o meu primeiro e melhor amigo da vida toda.

Irmão é aquele cara que acredita que você pode consertar o redemoinho na franja dele com uma tesoura, e aguenta os próximos meses com um corte de cabelo ridículo por ter acreditado em você. É dividir cama de solteiro, e brigar pelo cobertor. É o cara que finge gostar de palhaços, quando você decidiu aparecer na festa dele fantasia como uma, esquecendo que ninguém mais gosta de palhaços aos 10 anos. E é também o mesmo pré-adolescente que te convida para ir ao banheiro de madrugada, quando você finge – junto com ele – que não tem medo do corredor escuro. É por quem você briga com garotos na praia, enchendo a boca deles de areia quando ousaram falar mal do seu irmãozinho.

Irmão é o primeira pessoa que vai fazer cara feia para os babacas que vão entrar na sua vida, fantasiados de príncipes encantados. Que vai acobertar tuas saídas furtivas para um sorvete com segundas intenções, e ouvir com atenção quando você contar que o seu primeiro beijo foi um nojo (e foi mesmo). Irmão é cara que vai brigar contigo pela internet discada, quando você insiste em namorar horas pelo telefone, com alguém com quem você acabou de passar o recreio junto. E vai tolerar teus ataques ciúmes e tua constante inquisição de irmã mais velha perguntando com quem você anda, e o que você faz quando não está por perto.

Irmão vai sair de casa com você, quando “casa” já não for mais sinônimo de tranquilidade. Vai morar num quarto de hotel por um mês enquanto as coisas se ajeitam , e te mostrar felicidade nas omeletes do café da manhã, quando nada mais parecer ter sentido. É quem vai segurar tuas lágrimas quando você estiver atrapalhada ou com medo. Dar-te força quando o futuro for incerto. Irmão é aquela pessoa que nunca te deixa sentir sozinha, mesmo quando o caminho é sinuoso, e você já não enxerga um palmo de alegria à frente do nariz. É o cara cujo amor você marca na pele, junto a um trevo de quatro folhas.

Irmão é a certeza da proximidade quando se está distante. É sintonia na descoberta de uma atração pop, e o back vocal certeiro naquele rock antigo que foi composto antes de vocês dois nascerem. É cara que te ensina a gostar de livros estranhos, e a quem você – depois de muita insistência – convence a dar aos musicais uma chance. Irmão é Londres, é Barcelona, é Madrid. É brigar na véspera de Natal, e fazer as pazes antes do ano novo. É morar junto, é brigar pela pia suja. Aliás, irmão é o único ser humano que vai tolerar encontrar seu vômito na pia do banheiro, sem lhe dar uma bela e merecida camaçada de pau – afinal o vaso com a descarga estavam tão pertinho. “Poxa irmã – você é a mais velha, cadê teu juízo?!”.

Irmão é nunca sentir-se só. Ou louca. É uma insanidade combinada, familiar. Uma tolerância garantida, não pelos traços genéticos, mas pelo amor forjado a ferro e fogo. Suor, sangue e lágrimas. É a única pessoa no mundo que não se esquece do teu aniversário. Ainda que nunca se lembre de te dar presente. Irmão é pra sempre… não é?

É. Irmão é pra sempre. E talvez por isso não ter mais o meu irmão ao meu lado seja a maior prova de que tudo o que passou valeu a pena. Porque cada perrengue dividido foi único e precioso, e me ajudou a juntar a coragem que eu hoje tenho de seguir adiante, ainda que os problemas não diminuam. Cada risada e musica cantada é a prova de que a vida é linda, e merece ser celebrada. E cada sonho construído não é apenas mais um compromisso com o futuro em construção, mas um ato de honra ao passado que edificamos juntos. Porque no fim de tudo, como eu dizia para o meu irmão, a gente só quer poder olhar a vida, e dizer “foi ducaralho, senhoras e senhores!”. Irmão é saudade para todo e sempre, com a certeza de que foi ducaralho, senhoras e senhores.

E se o meu irmão é o que acredito ser a metade de mim, e vice versa, a má notícia é que com sua partida, uma metade de mim também se foi. Mas a boa notícia (e essa que eu guardo com alegria no coração) é que a metade dele, em mim ficou.

Irmão é pra sempre, Léo. E neste 15 de março, no teu aniversário, eu vou seguir celebrando a melhor metade de mim.


Fim da sessão.

[convite]: Gramado celebra a identidade e diversidade da mulher através de evento e projeto fotográfico.

Organizado pelo Gabinete da Primeira-Dama de Gramado e com apoio das secretarias de Turismo e Cultura, acontecerá neste dia 08 de março o evento “Mulher: Construção da Nossa Identidade”. O evento que é aberto ao público, e tem início às 19h na Rua Coberta, busca promover a valorização do trabalho e da atuação das mulheres ao longo da construção da identidade e da história desta cidade, que é referência no Brasil e no mundo.

A apresentação do evento fica por conta desta colunista que vos fala, Aline Mazzocchi, autora do Antônia no Divã e integrante do time do ATL Girls. O evento também traz o fotógrafo, maquiador e apresentador, Fernando Torquatto, e a doutora em Imagem e Identidade de Pessoas, Charlene Dalbosco, com a palestra “O Criador e a Cientista”. Durante a noite também será apresentado o trabalho da fotógrafa Francine Tisiam que mostra a miscigenação da mulher gramadense por meio de 50 fotografias. Fica aqui uma provinha do trabalho lindo que será exposto:

A idealizadora do projeto, a primeira-dama Bianca Bertolucci  convida mulheres de todo o estado para celebrar este dia tão importante, ou como ela mesma coloca:

“No dia Internacional da Mulher, queremos integrar mulheres dos mais diversos espaços em um momento de reflexão e homenagens. Queremos apresentar a importância da construção de personagens femininos como agentes construtores da história, seja através de seu papel em áreas sociais, empresariais, médicas ou cultural”.

Também neste dia 8 de março, a partir das 19h, estarei ao vivo no podcast do ATL Girls direto do evento.

Fica aqui o meu convite para o evento, como também meu sincero respeito pelo gabinete da primeira-dama de Gramado e demais envolvidos, por promoverem um evento desta importância em um momento tão crucial da luta econômica e político-social das mulheres em nosso estado, país e no mundo.

Mais informações sobre o evento: Mulher Construção da nossa Identidade – GRAMADO, 08/03 – 19h.

Não sou da geração Pugliesi

Eu admiro para caralho as pessoas que sentem prazer em se exercitarem. Juro. De verdade. Às vezes quando num domingo, estou segurando o meu copo de chopp em um boteco qualquer, e passa alguém correndo, suando os poros para fora, eu tenho vontade de me levantar e bater palmas. Porque o sujeito que levanta do sofá num domingo para ir correr na rua, sem o incentivo de uma arma apontada para a sua cabeça, é digno de ser ovacionado publicamente.

Eu nunca fui fã de exercício físico. Eu dancei a vida toda e isso sempre teve mais sentido pra mim do que o ato puro e simples de “queimar calorias”. Eu não entendo (nem critico) a glória envolvida em ser blogueira fitness, tipo Pugliesi. Além disso, eu sempre odiei academias. Do cheiro, ao contexto social envolvido. “Não eu não quero dividir o aparelho”. E quem diz que não se importa em dividir tá mentindo por vergonha de não pertencer a “vibe” da academia. Ninguém quer trocar suor com estranhos, ainda que raramente eles carreguem suas toalhinhas (igualmente encharcadas) para disfarçar as cachoeiras que desaguam por suas virilhas, axilas, e outros lugares produtores do “doce” néctar dos campeões. Eu odeio academia.

Mais que a academia, eu odeio a atitude promovida nestes locais. Por que, ó mellll dells, por que vocês fortões precisam urrar e jogar os pesos no chão? Eu tomo susto sempre achando que estou sendo atacada por uma matilha de pitbulls. Se vocês conseguem levantar essa merda pra cima, custa acomodar os pesos no chão com suavidade? Ou o estrondo do impacto de 300kg de anilhas somado a um grunhido animalesco são necessários para construir músculos? E por falar em músculos – malhem perna! Esse formato triangular de peitão + bração e canela de graveto promove um medo danado no que diz respeito a gravidade. Base fraca não sustenta topo descomunal – fica a dica, e olha que eu nem sou Pugliesi. E larguem essa porra deste celular, ou desocupem aparelhos. Cês tão acumulando testosterona ou seguidores?

E como se não bastassem os meninos para liquidarem as calorias da minha paciência, vem as meninas. Magras, que diferentemente de mim, poderiam tranquilamente trocar o cardio da academia por uma volta no shopping, sem nenhum problema. Maquiagem, cabelos soltos, roupa combinando. Sério? Que inveja deste talento para plenitude que vocês têm. Eu me assumo recalcada nisso. Na contra-partida estou eu: usando uma camiseta promocional que ganhei de alguma marca sem nenhum senso estético, enquanto o meu cabelo – que inicialmente estava amarrado em um coque – figura o que parece um ninho de ratos impenetrável, e para finalizar, a minha cara tem a vermelhidão de um incêndio, e o tamanho da minha bunda. Não sei por que o meu rosto sempre fica do tamanho da soma das minhas nádegas quando tento diminuir medidas dos dois.

Então veja, eu não sou uma pessoa feita para espaços públicos de malhação. Eu odeio que peguem os aparelhos que estou usando no meu circuito (isso inclui a bola de pilates que uma senhorinha certa vez arrancou de mim ENQUANTO EU ESTAVA DEITADA NELA!). Eu tenho pavor da musica exageradamente animada que toca no ambiente, enquanto tento calibrar meu agachamento no ritmo de Menina Veneno do Zezé de Camargo e Luciano. E se a minha cara de descontente não deixa claro, que o mundo saiba que eu abomino conversar na academia. Sobre qualquer assunto. Porque diferentemente das demais pessoas deste espaço- eu ainda não domino a arte de respirar certo, não perder a contagem da minha série e ser eloquente sobre o novo botox da Anitta, durante um papo que rola enquanto um coleguinha espera para revezar comigo o aparelho (aquele que deixei claro que “SIM, eu me importava em dividir”).

Mas dentre todas as fobias de academia e dramas envolvidos em fazer exercícios, uma crescente me assustou. Os efeitos da ausência de exercícios na minha carcaça balzaquiana. Aumento de peso, mudança de medidas, dor nas costas e falta de resistência física até para o sexo. Agora o lance tinha ficado sério. Tomei uma atitude drástica. Contratei o único homem que já mandou em mim – um personal da academia que frequentei – e acertamos um atendimento na minha casa. De manhã cedo, para eu não dar desculpas. Paguei dois meses adiantados, para eu não dar desculpas. Expliquei para o cara que tinha tendência ao sedentarismo, bohemismo, tabagismo, procrastinação e a mentira, para eu não dar desculpas. E a gente blindou cada uma das minhas estratégias de auto sabotagem.

Fato é que eu dediquei tanto tempo odiando o exercício físico, que acabei esquecendo que esse habito estava associado a tendência de me odiar ao mesmo tempo. Odiar a minha postura. Minhas dores no corpo. Odiar transar de luz acesa. Odiar comprar roupa. Odiar ir à praia. Odiar fazer um monte de coisas que eu costumava amar. E não que eu acredite que eu deva ser magra para ser bonita ou me sentir bem. Mas me dei conta de que cuidar do meu corpo é uma necessidade indiferente do tamanho dele. Nem que seja para eu viver mais. Ou transar melhor. Mesmo que odiando o processo.

“ah, mas a endorfina vai ajudar você a gostar!” – Cadê esta m* então?

Acho que fiquei tanto tempo desdenhado o exercício físico, que minhas glândulas produtoras de endorfina atrofiaram. Então cá estou eu, completando duas semanas de exercícios físicos diários, praguejando cada minuto da experiência. Mas amando o desaparecimento das minhas dores nas costas, e a ideia de que um dia as minhas coxas não vão roçar e ficar assadas. Eu também não tenho pretensão de ter menos raiva do meu personal trainer cada vez que ele aparece todo animado na porta da minha casa – mas prometi pra mim mesma que não vou matá-lo, num esforço pessoal pelo bem estar de nós dois.

Eu entendi que não preciso ser da geração Pugliesi, aficionada pelo próprio corpo. O que não quer dizer que eu não tenha responsabilidades com o meu.

Então se por acaso um dia você estiver num barzinho num domingo, e me ver correndo pelas ruas sem uma arma apontada para a minha cabeça, faça aquilo que eu nunca fiz. Levante-se e bata palmas. Porque se alguém um dia disse que era fácil, era pura mentira. E as palmas não vão ser porque eu tô correndo – afinal, não é mais do que a minha obrigação cuidar de mim. Mas porque desviar de um chopinho e decidir seguir correndo … isso sim é um ato sobre-humano.


Fim da sessão.

PS: Lamento o meu nível de mau humor desta sessão. Até o fim dela ainda não achei a tal da endorfina.