Feliz ano novo: pazes com o tempo!

Chegou o momento daquele olho no olho. O vídeo de final de ano de ano no nosso querido divã. Gatedo, que em 2017 a gente faça as pazes com o tempo:

Fim da sessão.

Mamãe Noel

Eu sei quando é Natal quando a minha mãe decide que é Natal. Tudo começa com um pequeno vaso de poinsétia sobre a mesa. Poinsétia, bico de papagaio, estrela de Belém, ou também conhecida como a flor do Natal. É nas suas folhas vermelhas sobre a mesa de jantar que eu sou notificada que o Natal chegou.

Mamãe não sabe brincar de Natal. Ela leva a sério. A decoração da nossa casa competiria tranquilamente com a de um grande shopping. A arvore é meticulosamente arrumada e posicionada em uma janela de frente para a rua – para que os vizinhos saibam que o Natal chegou.

Lá em casa existe uma legião de Papais Noel fazendo de tudo. Tem Papai Noel alpinista subindo o corrimão da escada, tem um a la James Bond pendurado na cristaleira se equilibrando com apenas uma mão. Tem Papai Noel sentado no vaso na pia no banheiro – duvide, e com um xixi lá em casa você vai saber que eu não estou exagerando.

Temos rodízio de guirlandas, trepadeiras de ramos de pinheiros e colares de bolas douradas. Já falei do pinheiro? Sim, meticulosamente arrumado, com seus ramos cheios de neve – afinal estamos no Brasil, neve falsa é mandatório no nosso Natal de 40º graus.

Tem presépio com toda trupe – Maria, José, Reis Magos, Menino Jesus e uma ou duas mulas. Quando eu pergunto as crianças o que simbolizam, eles me dizem “são bonecos de Natal da mamãe”, que se fossem algum brinquedo que ela só brinca em dezembro. Quem sabe em alguns anos eles aprendam sobre o mais simbólico dos nascimentos, e como eu, ficarão frustrados de não ter sido o deles.

Mamãe prepara o salpicão com orgulho. Enfeita potes para presentear as amigas com seu petisco de grão de bico, sua mais nova sensação da culinária. Ela tem uma coleção de fitas douradas, vermelhas, verdes, salpicadas, com pinheiros, sem pinheiros, ela parece sócia de uma papelaria.

Temos renas – aquelas que vivem apenas no Polo Norte, e lá em casa. Temos bonecos de neve, com a indumentária completa para o Natal – toca, cachecol, tudo para combinar com a neve falsa. Velas, toalhas de mesa, toalha de mesa de centro, de mesa de canto – pra que mesmo temos tanta mesa? Para os pratos e copos temáticos do Natal, é claro. Tem até enfeite de taça de Papai Noel e a gente raramente bebe em taça.

Natal é mesmo quando a minha mãe decide, e sei que ela adora enfeitar a casa, desde o tempo em que ninguém lá em casa era mais criança. Agora com a segunda leva de moleques então… Encanta-me a maneira como ela insiste na magia, ainda que tenha tido um ano difícil. Ainda que sinta tanta saudade nesta época.

Por falar em saudade, eis que dentre tantos adereços, quatro enfeites natalinos são os que me pegam suspirando. As quatro meias de Natal que ela pendura na lareira, para que o Papai Noel coloque mimos para os teus quatro pimpolhos. Leonardo, Murilo, Mateus e eu. As dos três meninos são iguais, com tons de verde e vermelho. A minha, a única menina da casa, tem um cintinho preto com dourado, charmosa e perua como a minha mãe gosta de me imaginar sendo (e não o 4º menino que eu realmente sou).

Gosto de saber que saudade nenhuma evita que ela pendure a meia do meu irmão, ainda que presencialmente ele não estará conosco na ceia. Sei que esse amor todo, expresso em tanto carinho enfeitando a nossa casa, é o melhor presente de Natal que nós podemos ter. Eu não abriria mão dele nem por neve de verdade ou fita dourada alguma.

Papai Noel que me desculpe, mas lá em casa, quem comanda o Natal é a Mamãe Noel. Pode tirar o trenó da chuva.


Fim da sessão.

Feliz Natal, gatedo! Beijos da turminha lá de casa:

Festa da firma

Mais certo que a enxurrada de amigos secreto na nossa agenda de final de ano, é a pragmática festa da firma. Sim, dia de fazer festa ao lado do chefe, fingindo plenitude no meio da manguaça paga pela empresa. Me diz, por que o mundo corporativo achou produtivo promover um evento que exige ao mesmo tempo tanto descontração quanto formalidade?

Não importa se sua empresa é uma séria corporação do ramo petrolífero ou uma startup descoladinha que quer mudar o mundo. Festa da firma sempre dá o que falar, e talvez por isso ela seja agendada pré-recesso. Precisamos de tempo para assentar algumas novidades promovidas por doses de vodka com o CEO, os beijos furtivos do TI com a garota do financeiro, ou o ragatanga sem camisa do gerente de vendas. Ahhh, nada como uma meta que envolva copos de tequila para incentivar uma equipe.

Festa da firma é dia de maldade. Dia de lavar roupa suja sobre aquele e-mail esquentadinho que a gente engoliu durante o ano, mas que com três champanhotas na cabeça vira motivo para queda de braço com o colega de ilha. Dia de dar com a língua nos dentes sobre as fofocas da festa da firma do ano passado. De contar o apelido do chefe para o chefe.

Festa da firma é suprassumo das temáticas. Dia de vestir a fantasia, realizar uma, dia de travestir o ego. Festa da firma é dia de pintar o rosto, pintar o sete. De sair do armário do pré-julgamento. De reparar como o cara do jurídico fica lindo fora do terno e usando All Star, ou como a sua coordenadora fica sexy de cabelos soltos.

Festa da firma é dia de dar moral para o gato do RH, de tomar coragem de dizer pro mina de projetos que você gosta mais dela do que dos post-its que vive pedindo emprestado. Dia de lembrar que onde se faz o pão não se come a carne, e de esquecer da regra depois de dançar Wando juntinho.

De rebolar a bunda como se não houvesse amanhã ao som de Anitta, e cantar 50 Reais no alto dos pulmões como se fosse a dona da história, e de promover a histeria coletiva tocando Evidências. “E nesta louuuuucura, de dizer que não te queeeeero…”. Dia de fazer trenzinho segurando na cintura do coleguinha. Dia de cair tombo no salão, ora quem nunca?

Festa da firma é momento de fazer discurso dizendo o que pensa, mas que talvez não devesse falar. “Chupaaaaa departamento X!”. Dia de roubar o microfone e cantar desafinado. De tirar fotos que vai se arrepender depois, de mandar nude sem querer para  o grupo de trabalho e de acordar com uma tremenda ressaca física, e uma descomunal ressaca moral. Festa da firma é o M da merda, ainda que todo mundo se diga profissional. É o mal necessário do encerramento de ciclo. E pauta para o resto do ano, ou pelo menos assunto até a próxima festa da firma.

Aliás, haja segunda-feira para tanta festa da firma.


Fim da sessão.

PS: queria aproveitar e pedir desculpas para os meus colegas que receberam o nude que mandei ontem. Era para ser só para o Paulinho da TI, foi mal!

16 medos

Não precisa ser nenhum gênio para concluir que esse ano foi fodido. Desculpe o meu francês, eu normalmente sou mais educada, mas esse ano foi fodido e pronto. Se você torcia pela Dilma, por Temer, pelo país, foi fodido. Pela economia brasileira, pela mundial, ou pela sua, foi fodido. E quanto tenta sair da esfera econômico-política, e for para religião, relações humanas, causas ecológicas ou mesmo futebol, você vai concluir que 2016 não tava pra brincadeira. 2016 literalmente cagou para os nossos planos de 2015, e cuspiu na cara da maioria dos otimistas. Eu sei, eu mesma nunca tinha escrito que um ano foi fodido, e cá estamos. Fo-di-do.

Mas então eu resolvi ser despeitada com 2016, do mesmo jeito que ele foi comigo, e quis mostrar pra ele que era EU que mandava na bagaça. Listei aqui 16 coisas que eu tive medo neste ano que passou. E 16 pequenas/grandes vitórias que eu carrego sob costas, hoje, mais largas. Acho que eu até fiquei mais alta em 2016, de tanto que eu me estiquei para colocar o nariz pra fora do turbilhão de cada dia. E se eu puder pedir uma coisa neste ano, que seja que ao final desta sessão, você – que está aí me lendo, e que é parte desta sessão tanto quanto eu – compartilhe um medo e uma superação que enfrentou no fodido ano de 2016.

1) Eu superei o medo de viver sem alguém que eu amo.

Eu comecei o ano com uma das tarefas mais difíceis que alguém que ama pode ter: viver além da saudade.  Despedir-me do meu irmão foi e segue sendo um processo diário de sobrevivência.  Em 2016 eu me dei conta de que eu não morri junto com o meu amor. E isso me assustou muito. Muito. Porque se no momento mais louco da minha visão de futuro eu sonhasse que perderia alguém tão próximo e crucial como foi, e ainda é, o meu irmão, eu sempre me imaginei partindo junto. E eu não parti. Eu fiquei. Eu sobrevivi à despedida. E mais do que isso: eu ousei ser feliz. Porque era assim que ele ia querer. Porque ser feliz sempre foi o objetivo, e mais do que isso, sempre foi uma certeza de merecimento.

2) Eu superei o medo de dizer NÃO.

Quando a gente começa a pensar sobre a finitude do nosso tempo, a gente começa a valorizar mais a dança dos ponteiros. E eu passei a dizer não para aquilo que não me agregava, não me dava prazer, e não fazia jus o valor do meu tempo. Nos primeiros ensaios, dizer não parecia uma ofensa mortal às outras pessoas. Então aprendi que dizer SIM apenas porque os outros querem era uma ofensa a mim mesma. Então eu me dei prioridade, e o NÃO virou meu amigo.

3) Eu superei o medo de levar um fora.

Eu nunca lidei bem com rejeição, talvez porque eu tenha sido sortuda (ou manipuladora) o suficiente para não encarar os nãos dos outros por muito tempo. Pois esse ano eu amordacei meu ego no porão do meu consciente, e disse com todas as letras que eu gostava de alguém. Tipo, no dia dos namorados (porque não tinha drama suficiente envolvido… nãooooo…). E eu levei um fora. Gentil, suave, mas um fora. Ganhei uma amizade, e superei não apenas o fora, mas o medo de seguir platônica. E superei o platônico também. Hoje eu tenho a completa certeza de que existem riscos que valem a pena correr, nem que seja para seguir a diante.

4) Eu superei o medo de errar.

Bem, eu tenho superado o medo de errar num ato contínuo e diário. Eu larguei meu próprio chicote e assumi que na grande maioria das vezes, eu não erro querendo errar, muito pelo contrário: erro tentando acertar. E esta conclusão tem me ajudado a ser mais gentil comigo. Afinal, como que eu perdoo os erros do outros com facilidade, e me mando para a masmorra a cada tropeçãozinho? 2016 eu me dei uma chance, e tem sido maravilhoso aprender a me perdoar.

5) Eu superei o medo de não saber.

Talvez tenha sido influência de Glória Perez e o Oscar, ou porque neste ano tanta gente fez merda, eu decidi também adubar a vida. Não sei o motivo. Mas apostei nos meus instintos, nos conhecimentos que reuni ao longo dos anos, e parei de me exigir perfeição. O resultado foi um aumento de produtividade imenso, e ascensão na minha curva de aprendizado. Afinal, sem o medo de errar, a gente vai lá e tenta, e é só tentando que de fato, consegue. Pura e simplesmente.

6) Eu superei o medo de ficar sem carro.

Ok, esse aprendizado é novinho em folha, mas tem fortalecido os meus passos (literalmente) todos os dias. Superei o medo de achar que eu dependia de carro para tudo, e como resultado o meu leque de possibilidades duplicou e a minha criatividade para vencer dilemas de mobilidade ainda não conhece limites. Chupa IPVA.

7) Eu superei o medo de não fazer planos.

Talvez aqui tenha sido mais por necessidade, do que por vontade. Eu fiquei cansada de ter que ter todos os meus passos planejados, porque assumi que essa vida é louca mesmo, e que é mais produtivo treinar o improviso, do que prever o imprevisível. Ou como disse um amigo meu, “eu acredito na lei da sobrevivência das espécies – sobrevive quem se adapta”. Claro que os dinossauros botarão a culpa no asteroide – mas fora o asteroide, eu sei de perdurar. Essa é a meta.

8) Eu superei o medo de não ser a melhor.

Essa foi difícil, porque por mais que eu demore a admitir, eu sou muito competitiva. E tenho forte tendência à comparação. Mas 2016 me ensinou a ser mais colaborativa, e ainda que tenha medo de cair no velho clichê de que “juntos somos mais fortes”, de fato, a recíproca é verdadeira. Eu superei o medo de não ser a melhor, e no processo, me tornei bem melhor do que eu era. E foi irônico. E eu ri da minha paspalhice.

9) Eu superei o medo de tomate.

Ok, essa é super pessoal, mas eu passei boa parte da minha vida adulta com medo de comer tomate cru, por razões que fogem a minha compreensão. Bruschettas me ajudaram na superação deste medo, e por elas – agradeço aos italianos.

10) Eu superei o medo de ser chefe de família.

Depois de mais uma reviravolta na família, em 2016 eu voltei para a casa da minha mãe, e superei o medo de que não daria conta de assumir algumas responsabilidades dignas de chefe de família. Abdiquei de coisas que considerava fundamentais como a minha liberdade e certo egocentrismo, e reorganizei minhas prioridades. Aceitei que nem todo mundo pode ter a referência de pai e mãe que eu tive, o que é uma pena, mas que eu nunca vou deixar de batalhar para ser referência e porto seguro para minha família.

11) Superei o medo de perder amigos.

O ano de 2016 levou embora algumas das pessoas que eu pensei que sempre teria por perto. Trouxe outras de volta, e levou mais algumas. E eu entendi que está tudo certo. Que pessoas não deixam de se amar porque tomaram rumos diferentes. Ou mesmo de que muitas amizades simplesmente acabam. E outras iniciam, se fortalecem – e estes ciclos são naturais, e responsabilidade mútua de no mínimo dois lados, e não apenas do meu.

12) Superei o medo de ficar sozinha.

Ainda que eu goste de sexo, de beijo na boca, de nude na madrugada, de conchinha na cama. Eu superei o medo de não ter alguém do meu lado, e que tudo é transitório. Eu sou completamente desconfiada daquela frase (quase brega) de que “o que é teu tá guardado” – porque se fosse o caso, eu ficaria bem preocupada já que eu vivo perdendo tudo que eu guardo. Mas eu acredito no poder da plenitude, e de quando a gente está de boa com a nossa companhia, a tendência natural, é que outras pessoas façam questão dela.

13) Superei o medo de fazer fiasco.

Porque se mexerem comigo na rua, eu vou fazer fiasco. Porque se limitarem os meus direitos, ou os de quem eu amo, ou mesmo os de quem eu nem conheço, eu vou fazer fiasco. Porque se for para comemorar as vitórias da vida, eu vou fazer fiasco. E se eu tentar dançar depois de beber… preparem-se: eu vou fazer fiasco. E não vou pedir desculpas.

14) Eu superei o medo de pedir ajuda.

E para este eu só tenho a dizer: graças a Deus e já não era em tempo de entender a diferença entre autossuficiência e teimosia.

15) Eu superei o medo de ir embora.

E mesmo que isso soe um tanto em desacordo com meu discurso mais famoso, de que é preciso ir embora, eu aprendi em 2016, de novo e mais uma vez a importância do timing de ir embora. Eu perdi o medo de ir embora do meu trabalho, ainda que isso pudesse magoar o meu pai. E nós dois ficamos bem depois do passo dado, ainda que dado na fé. Eu perdi o medo de ir embora de relacionamentos mal resolvidos do passado. Eu perdi o medo de ir embora das salas das quais eu não era bem vinda, não me agregavam ou que eu não agregava. Eu superei o medo de ir embora de 2016, um ano fodido, mas cheio de aprendizado.

16) Eu superei o medo de me jogar.

Eu superei o medo de me arriscar. 2016 eu assumi pra mim mesma que a vida é cheia de saltos baseados no improvável, no incomum, no intangível. Mas que com fé e muito desejo, a gente pode ter surpresas bem maravilhosas para contar no ano que inicia. Como uma cachoeira de 5 metros de altura, cuja delícia você só goza, se você se atira. A moral é entrar em 2017 dando tibum mesmo, porque tem muita água para rolar.


Fim da sessão.

> E você, que medo você superou neste 2016? Conta aqui nos comentários.

Relacione-se com quem você admira. E só!

Há muito tempo, quando eu ainda trabalhava na Atlântida, em uma das minhas muitas conversas filosóficas com o meu colega de ilha, eu tive uma epifania. Um daqueles momentos divisores de água. O Luciano Lopes, mais conhecido como Potter, tinha muitas teorias das quais eu discordava sobre relacionamento, mas uma delas me mudou de forma definitiva. Na época eu namorava um cara, e jurava que ele era pra sempre. O Potter então me disse que aquele namoro estava fadado ao fracasso, simplesmente porque eu não admirava o meu namorado. E que relacionamentos precisavam ter como base a admiração mútua do casal.

Lembro que na época eu apenas fiquei puta da cara com o comentário impertinente, e pensei que aquilo era apenas um papinho furado dele com a intenção de eventualmente me comer. Mas a teoria da admiração se confirmou. Naquele namoro, e em outros. O amor (ou mesmo a paixão) encerrava a partir do momento que eu me dava conta de que eu não admirava ou que tinha deixado de admirar a pessoa com quem eu estava. A situação chegou a ficar tão gritante em um dado momento, que meu irmão avisou-me de um fim de namoro, antes mesmo que eu desse conta de que ele havia terminado:

Você precisa e admira o fulano, da mesma forma como precisa e admira uma samambaia no canto da sala.
Pronto. O namorado virou ex-namorado porque eu nunca mais consegui enxergar ele de outra forma a não ser como uma planta no canto de um cômodo qualquer.

Essas mudanças de percepção começaram a mexer com a forma como eu via o mundo e as minhas conexões. Não apenas nos relacionamentos amorosos, como nos profissionais. Eu passei a não ter paciência para ambientes inertes. Comecei a sentir necessidade não apenas de respeitar a minha hierarquia, mas de admirá-la. Não precisava ser na sua plenitude, mas eu precisava admirar ALGUM atributo que fosse da pessoa que conduzia a minha equipe. O meu projeto, e bem… que tinha parte ativa em pelo menos 8h da minha vida.

Partindo do pressuposto de que se você se considera a pessoa mais inteligente da sala, você provavelmente está na sala errada, eu comecei a sair das salas. E comecei a procurar lugares mais estimuladores, pois reconheci o poder de contágio da atmosfera profissional. Marasmo promovia marasmo. Agitação gerava agitação. Tipo inércia. Tudo que eu queria encontrar era alguém suficientemente admirável para me convencer de ir à lua, que eu seria a primeira a começar a construir o foguete. E foi assim que eu fui trabalhar com gente que me dava tesão. Tesão de vida, de atitude, gente com tesão de pegar os problemas pelas bolas e dizer “vai encarar, seu filho da p***?”.

O efeito no meu desempenho foi imediato. Afinal, a inspiração, bem, essa é outra coisa que sabe ser contagiante.

Hoje a admiração é uma das vertentes que orienta todos os meus relacionamentos. Eu passei a filtrar as minhas amizades por admiração, ao invés de conveniência. E o filtro é bem sincero, e duro algumas vezes. Eu não dedico mais tempo com gente que me entendia. Com quem se entendia. E essa decisão partiu da triste realidade de que temos cada vez menos tempo para sorrisos amarelos e meios abraços. Hoje eu exijo intensidade nas minhas relações. Todas elas. Exijo retorno de ligações. Suspiros sinceros. Hoje eu quero beijos mais longos. Orgasmos mais intensos. Projetos mais ousados. E voltando pro foguete, quero ver estrela brilhar, quero ser estrela. E tudo, meus amigos, é parte da admiração. Admiração que a gente busca e também que promove. Nos momentos, nas conversas, nas trocas, nas conexões.

Até porque, a vida é muito curta para ser a samambaia no canto da sala. Ou se relacionar com ela.

Fim da sessão.

Abundância

Dia dessas uma amiga minha falava sobre o poder da abundância, e eu ouvia calada com certo ceticismo. Eu odeio quando sou cética frente a estes movimentos mais humanos, mais otimistas. Normalmente eu sou uma otimista. Entretanto, por vezes eu perdoo a minha falta de fé, afinal, fomos treinados para competir, muito mais do que para colaborar.

Nós aprendemos bem cedo que tudo tem que ter uma razão, uma agenda oculta ou uma recompensa: “Coma o seu jantar direitinho, e você ganha sobremesa”. Claro, a gente está ocupado demais para explicar as nossas crianças que elas tem que atender às demandas sem um prêmio no final. A gente quer que eles comam e pronto. “Trabalhe duro e atinja o sucesso”, escutamos a vida toda, e cresce mos esquecendo de pensar o que de fato é sucesso, e logo conectamos sucesso e resultado à dinheiro, e tudo vira uma corrida por grana.

Bem, voltando a minha amiga, ela andava vivendo um momento mais otimista que o meu. Contou-me que andava entregando energia a outras pessoas, sem pensar muito em ser beneficiada na troca. Dava aulas de coaching, consultorias, sem muito apego com o retorno objetivo das suas ações. Claro, ela também se preocupava com dinheiro, afinal, ainda não sobrevivia de amor – pagar a luz exigia reais no bolso, impreterivelmente. Mas ainda assim apostava numa aventura de que, eventualmente, toda a sua benfeitoria acharia o caminho de volta para casa.

Em poucos dias neste modus operandi, ela havia conseguido acesso a inúmeras pessoas, que como ela, a ajudaram de bom grado. Algo atípico que só o universo manda, como receber um atendimento de um topógrafo que tem noções de Feng Shui, de graça, para o seu novo empreendimento. Um profissional extremamente específico, que era exatamente o que ela andava buscando. ”Abundância, Antônia. Confia, promove e deseje abundância”.  E como eu nunca formo uma opinião sem botá-la para teste, lá fui eu promover a abundância.

Entreguei meu tempo, ouvidos e energia a projetos que não necessariamente tinham uma remuneração envolvida. Respondi a pedidos de conselhos que estavam parados na minha caixa porque eu não tive tempo de respondê-los. Não respondi com conselhos, mas com aquela frase mágica que diz “eu estou aqui para você”, que por si só, já opera milagres. Tirei tempo para ouvir meus amigos que precisavam de um café e um ombro reconfortante. Parei tudo que eu estava fazendo e dei atenção carinhosa e comprometida a uma palestra para a qual fui convidada, e que trazia em sua programação pessoas bem mais fodas que eu. Não me preocupei em competir – ou me comparar – que é uma tendência horrível que eu tenho. Preocupei-me em somar. Ouvi o tal do “flow” e deixei rolar.

O que veio a seguir foi nada menos que uma enxurrada de abundância. Na cabeça.  Aquela palestra que eu entreguei de peito aperto, foi abraçada por lágrimas, risadas e braços. Muitos abraços. Recebi histórias de pessoas que foram tocadas pelas minhas palavras, e acariciei não o meu ego, como poderia ser o caso, mas o meu propósito. Vi de perto as lágrimas de um Amyr Klink emocionado (e quando um cara que cruzou os mares a remo se emociona, você PRECISA se emocionar junto!). Recebi convites. Pessoas me ofereceram seus serviços, suas recomendações. Ganhei livros, contatos. Tudo de forma genuína. Despretensiosa. As pessoas seguiram me oferecendo carona nas horas que eu mais precisava, ou me entregando recursos sem eu nunca ter pedido.

Abundância. Entretanto perceba que a abundância é algo como o oxigênio. Você se acostuma e passa a não perceber mais a sua presença. A menos que pare, fique alerta e a reconheça – da mesma forma como é feito com o oxigênio através da meditação e a arte de respirar.  É preciso inspirar e expirar abundância para senti-la inflando o peito. A falta da abundância, essa sim é percebida rapidamente, nos momentos em que perdemos o ar. A falta de sorte, de ajuda, de fé.

Na semana seguinte ao meu momento de contemplação da abundância, tive dias mais desafiadores. Quase fui assaltada por um cara com uma faca, não fosse as minhas lágrimas de desespero e meus suplícios de ”por favor, não”. Ele me deixou ir embora, ilesa e com todos os meus pertences, levando apenas a minha tranquilidade. Daí veio a tragédia com a Chapecoense e eu revisitei aquele momento de contemplar a falta de sentido. Quinta-feira acordou atrapalhada, e ao pegar um Uber, o motorista erra o caminho e acaba preso em meio a um estacionamento de taxistas furiosos com o Uber. Fomos hostilizados e eu sai correndo, temendo que minha sorte tivesse chegado ao fim. Na sexta ao me deslocar de novo de Uber, uma van comercial colide bem na lateral que eu estava sentada. Nada de grave, apenas burocracia e espera. No domingo um amigo me ofereceu uma carona para um evento do meu trabalho. Na volta o carro dele entrou em pane completa e nunca mais ligou.

Aí você está pensando, cadê a abundância?

Acontece que quando percebi cada um dos meus infortúnios da semana passada, eu estava alerta às boas ondas que eu andava surfando. Eu agradeci por nada cruel ter me acontecido. E mesmo quando a tragédia bateu a porta de todos nós, me preocupei em agradecer que em meio a tantas perdas em Medellín, houve aqueles que se salvaram. Eu chorei pelas vidas que se foram. Mas sorri para o milagre dos que ficaram. Quais as chances disso acontecer?

E essa é outra das qualidades da abundância. Ela te ensina o poder da gratidão. E não gratidão desta moda facebookiana de enfiar essa palavra sem menor sentido ou contexto para soar cool ou meter um namastê qualquer porque você fez duas aulas de yoga. Gratidão na qualidade de ser grato, de reconhecer a grandeza do que lhe é ofertado, daquilo que é protegido, engrandecido.

Eu sei que passamos todos por período de escassez. De falta de fé. Mas estou aprendendo cada vez mais que precisamos começar a enxergar a abundância que nos rodeia. E entregar a abundância de bom grado. Percebê-la operando não como moeda de troca, mas moeda de valor. Que não representa uma economia exata, mas há indícios de que ela saber ser justa. Conheço gente com menos recurso que eu, que não sorri pra vida. Já lidei com pessoas que serão sempre pobres por carregar uma pesada e descomunal pobreza de espírito. A riqueza está em reconhecer a abundância que oferecemos e que nos é ofertada.

E eu sou grata pela abundância da qual eu gozo. Não trocaria de lugar nem com tio Patinhas.


Fim da sessão.

A maldita calcinha suja [vídeo]

Para quem conhece o blog há mais tempo, vai lembrar que a crônica “A maldita calcinha suja”, marcou a história do blog.

Não por sua improbabilidade, mas pela cara de pau e deboche de quem conta. Ela foi a primeira sessão pública no Antônia no Divã, e frequentemente é solicitado que ela seja contada por sua protagonista.

No sábado passado, ao final da minha palestra no Movimento de Expansão (que tratava de assuntos muito mais profundos do que a calcinha), me rendi aos pedidos do público de contar aquela que é uma das histórias mais despudoradas deste meu divã. Ora, a coisa toda só podia acabar em risada. Pobre do meu pai que estava presente. hahaha.

– Gatilhos: linguagem forte, conteúdo de conotação sexual, [18+]
– Imagens e comentários: Amanda Schenkel
– A maldita calcinha suja: https://goo.gl/OytjDM
– A maldita calcinha suja – episódio 2: https://goo.gl/DYk8sC