Opinião é pena de morte

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A vida perfeita

Ontem me peguei chorando pela rua.

O vento bagunçava meus cabelos, as folhas das arvores chacoalhavam como percussão musicando o meu caminho. E como em raras oportunidades (e que sem CNH, futuramente nem tão raras) voltava a pé do trem, e passei pela cobertura dourada – palco de tantas das nossas estripulias – de onde o céu brilhava com ares superiores (porque se dissesse “angelicais” tu farias piada).

Ontem me peguei chorando pela rua. Mas era um choro alegre. Ri da sorte que tenho de viver contigo dentro de mim.

Sabe, irmão, eu te culpei por ter me deixado, porque uma vez a minha vida já foi perfeita. Mas ontem, caminhando despretensiosamente pela rua, e por motivos que fogem a minha compreensão, eu entendi que ela segue sendo perfeita – afinal ela só tornou-se perfeita um dia, porque nossos carmas se cruzaram/escolheram.

Hoje cada vez que fico perdida, olho para aquela cobertura – a mais alta da cidade – como um farol me orientando pelo mar revolto – e ele anda tendo dias de ressaca (não das boas).

O farol, ele próprio, tem um paradoxo interessante – pois é responsável pela luz, da mesma forma que é pela escuridão. Nada mais justo, sabendo que a vida e a morte também tem o mesmo apelo contraditório. Luz e escuridão. Perder e encontrar-se. Chega a ser poético.

E eu vou seguir te sentindo perto, e falando contigo como se estivesse caminhando do meu lado. E de certa forma está. Talvez por isso a vida vá seguir sendo perfeita.

The perfect life.

Meus passos

Tudo começou em um carnaval há dois anos. Depois de algumas cervejas, era hora de me locomover, e pedi a uma amiga que não havia bebido para levar o meu carro até a lancheria onde curaríamos a nossa bebedeira. Horas depois de comer, eu já estava me sentindo melhor para dirigir – aliás, eu já tinha pegado o volante bem pior em outras vezes, ainda que não me orgulhasse. Um amigo então sugeriu que eu lhe desse uma carona, já que sua casa ficava apenas duas quadras de onde estávamos, e eu prontamente aceitei. Eis que em seu caminho ele escolhe uma rua fechada por policias para a blitz da Balada Segura. E vestindo uma camiseta de bloco, purpurina no rosto e cílios postiços que batiam na minha testa, fui parada pelo policial: “moça, preciso que a senhora faça o teste do etilômetro”.

Pronto. Era o fim da minha carteira.

Chorei aquilo que foram 7 dias seguidos. O meu irmão foi o único para quem eu tive coragem de contar. Ainda que meus pais já não fossem responsáveis por mim há muito tempo, senti uma imensa vergonha da minha irresponsabilidade. E aqui eu não estou falando da irresponsabilidade de ser pega em uma blitz, mas de me colocar nesta condição de risco (tanto para mim quanto para os outros), de novo, de novo, e mais uma vez. Uma parte de mim ficou feliz com o castigo, eu confesso. Talvez porque desde pequena eu sou aquela que infelizmente não aprende com avisos, mas sim, a duras perdas. Paguei quantias exorbitantes entre multa e advogado para prorrogar a suspensão do meu direito de dirigir por algum tempo, até que eu pudesse me organizar a nova rotina. Bem, esse dia chegou, muito antes do previsto.

Semana passada eu entreguei minha carteira. Na verdade o B.O. da minha carteira, pois consegui perdê-la exatamente a 1 dia de entrega-la. Um ato falho que possivelmente acusava que o meu psicológico estava em negação – afinal, depois de 13 anos dirigindo, eu tinha que ficar 1 ano sem a autonomia que eu tanto amava. (Aliás, todo mundo que me conhece anda em choque com essa novidade, por saber do meu amor por voando as tranças por aí). Mas eu não tinha mais escapatória. Tinha que sair da bolha em que eu vivia, e me juntar a massa majoritária que dependia do transporte público. Aquele que eu achava tão dignificante lá em Londres. É engraçado como encaramos as mudanças lá fora como transformações que edificam a nossa personalidade (veja o depoimento de Sasha Meneghel assumindo que leva a louça e arruma a própria cama em Nova York – guerreira! Uhu!). Em compensação quando essas mesmas situações nos são impostas no berço de nossa origem, o gosto deste aprendizado não é doce, é amargo.

A semana que passou foi a primeira que deixei o carro em casa, e apostei no trem, no Uber, no ônibus, nos meus passos. E confesso que agora existe todo um ritual de planejamento envolvido nesta mudança. Antes eu jogava toda a minha vida dentro do meu porta-malas. Agora carrego a ela nas costas – uma versão bem mais leve, é claro. Antes eu podia sair com minutos de antecedência. Agora eu precisava considerar tempos de deslocamento, impossibilidades, atrasos, desvios, e velocidade que eu movimento as minhas coxas grossas. E aqui não é soar classista, o paradigma não está em perder luxos, ou não se misturar a massa – eu sou a massa. O aprendizado está em ver beleza na transformação que, de um jeito ou outro, eu provoquei.

O QUE APRENDI
Em alguns dias sem CNH, eu vi a beleza de perder meus olhos pela cidade, e não apenas no trânsito, ou no celular. Finalmente sofri do efeito sonífero que o trem tem, com seu balanço que nana como colo de mãe. Que motoristas de Uber tem se organizado para atender todas as regiões, inclusive “Pequenópolis”, onde eu moro. Entendi também que uma das melhores partes desta viagem sob meus passos, é que as pessoas ainda fazem gentilezas, como oferecer um canto no guarda-chuvas, ao me verem ensopada ao lado delas. Que a gente conversa mais com estranhos, inevitavelmente, e isso é enriquecedor. Aprendi que secar a franja no ar-condicionado do Uber é mais fácil do que no meu carro, e o motorista ainda me achou super inventiva. Aprendi que ganhei horas para ler e escrever, e que sair de casa com antecedência não precisar ser uma perda de tempo, e por vezes, um ganho de tempo.

O QUE PRECISO APRENDER
Neste mesmo tempo, descobri o que eu preciso aprender a pedir carona – por dois motivos, a) porque eu sempre dei carona e nunca me importei em dar – ora, eu perdi a carteira fazendo exatamente isso – b) porque não é feio pedir favor/ajuda. Eu também descobri que preciso deixar de ser teimosa e levar guarda-chuvas, pois água nenhuma tá nem aí para meu desgosto em carregar sombrinha, e me molha indiferente da minha birra. Preciso aprender a desviar dos jatos dos carros na calçada – aliás, que fique registrado aqui a minha vergonha por nunca ter prestando atenção nisso para com os pedestres enquanto dirigia. Preciso para ontem melhorar meu cardio, e afinar as coxas grossas (ou apelar para o talco). A planejar despesas de viagem. E por fim, e não menos importante, preciso aprender a desapegar cada vez mais. E depois, desapegar mais um pouco.

Hoje aprendi que toda perda tem também um ganho. Porque no fundo eu não perdi a minha liberdade e autonomia junto com a carteira de motorista. Eu apenas ganhei a oportunidade de praticá-las com meus próprios passos. E estes, ninguém segura. As minhas coxas grossas vão se acostumar, eventualmente.

Fim da sessão.

É preciso ir embora [convite]

Ano passado, na festa de despedida de uma amiga, ouvia calada e com atenção seu dolorido discurso sobre o quanto ela se preocupava com a decisão de ir embora. Dizia se preocupar com a saudade antecipada da família, com a tristeza em deixar um amor pra trás e com a dor de se afastar dos amigos. Ela iria embora para Londres com tantas incertezas sobre cá e lá, que o intercambio mais parecia uma sentença ao exílio.

Dentre dicas e conselhos reconfortantes de outras amigas, lembro-me de interromper a discussão de forma mais fria e prática do que gostaria:


“Quando você estiver dentro daquele avião, olhar pra baixo e ver todas estas dúvidas e desculpas do tamanho de formigas, voltamos a falar. E você vai entrar naquele avião, nem que eu mesma te coloque nele.”

Ela engoliu seco e balançou a cabeça afirmativa.

Penso que na época poderia ter adoçado o conselho. Mas fato é que a minha certeza era irredutível, tudo que ela precisava era perspectiva. Olhar a situação de outro ângulo, de cima, e ver seus dilemas e problemas como quem olha o mundo de um avião. Óbvio, eu não tirei essa experiência da cartola. Eu, como ela, já havia sido a garota atormentada pelas dúvidas de partir, deixando tudo pra trás rumo ao desconhecido. Hoje sei que o medo nada mais era do que fruto da minha (nossa) obsessão em medir ações e ser assertiva. E foi só com o tempo e com as chances que me dei que descobri que não há nada mais libertador e esclarecedor do que o bom e velho tiro no escuro.

Hoje a minha amiga não tem mais dúvida. Celebra a vida que ela criou pra ela mesma lá na terra da rainha, onde eu mesma descobri tanto sobre minha própria realeza. Ironicamente – e também assim como eu – ela aprendeu que é preciso (e vai querer) muitas vezes uma certa distancia do ninho. Aprendeu que nem todo amor arrebatador é amor pra vida inteira. Que os amigos, aqueles de verdade, podem até estar longe, mas nunca distantes. Hoje ela chama o antigo exílio de lar, e adora pegar um avião rumo ao desconhecido. Outras, como eu, e como ela, fizeram o mesmo. Todas entenderam que era preciso ir embora.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim, que a vida segue, com ou sem você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os problemas que antes você acreditava só você resolver. É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo. Nem sua mãe, nem seu pai, nem seu ex-patrão, nem sua pegada, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem uma noção bem distorcida da importância do próprio umbigo – novidade para quem sofre deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com isso.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você veja que você é muito importante sim! Seja por 2 minutos, seja por 2 anos, quem sente sua falta não sente menos ou mais porque você foi embora – apenas sente por mais tempo! O sentimento não muda. Algumas pessoas nunca vão esquecer do seu aniversario, você estando aqui ou na Austrália. Esse papo de “que saudades de você, vamos nos ver uma hora” é politicagem. Quem sente sua falta vai sempre sentir e agir. E não se preocupe, pois o filtro é natural. Vai ter sempre aquele seleto e especial grupo que vai terminar a frase “Que saudade de você…” com “por isso tô te mandando esse áudio”; ou “porque tá tocando a nossa música” ou “então comprei uma passagem” ou ainda “desce agora que tô passando aí”.

Então vá embora. Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém. Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar – e se voltar – vai ver as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião.

As desculpas e preocupações sempre vão existir. Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas.

Fim da sessão.

[ CONVITE ]

Oi gatedo!

Venho através deste convidá-los para a minha palestra “É preciso ir embora – aprendendo com o pé na estrada” no Movimento de Expansão no dia 26 de novembro – na Ulbra Canoas/RS. O evento conta com grandes nomes como Amyr Klink, Gustava Tanaka entre outros, falando sobre temas que inspiram e movimentam.

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Adquira seu ingressos pelo site www.movimentodeexpansao.com.br e use o código promocional ALINEMAZZOCCHI50 que garante desconto exclusivo de 50% para os leitores do Antônia no Divã. Nos vemos lá!

AHHH. E se você quiser me levar para palestrar em sua cidade, me chama que eu vou!

Ahhh novinho…

Eu sempre gostei de caras mais velhos que eu. Sempre. Desde a adolescência, e para o desespero dos meus pais, os rapazes com mais idade sempre atraíram a minha atenção. Eu ouvi dizer que as mulheres amadurecem mais cedo, e eu usava essa teoria para justificar minha admiração pelos anos a mais que meus affaires detinham. E foi assim, por um bom tempo.

Eis que como tudo na vida se transforma, estou numa fase engraçada quanto a relacionamentos e faixas etárias. Perceba que os caras da minha idade – 30 e poucos, ainda buscam mulheres mais novas – 20 e poucos. E os caras de 20 e poucos, bem, esses também, quase que na maioria, não procuram parceiras muito longe da sua geração. É como se em uma reunião dançante (sim, eu sou dessa época), todo mundo fosse escolhido para dançar, e eu aquela que ficou com a vassoura.

Ok, essa não é nenhuma ciência exata, quanto menos uma teoria metodologicamente fundamentada. É muito mais um ibope segundo Antônia, sem nenhuma preocupação com exatidão dos fatos, e quantificado pela minha experiência pessoal, que outras mulheres podem ou não se identificar. E talvez isso não tenha nada a ver com a idade, mas sim com afinidade. Ainda assim, o fenômeno me inquieta. O que aconteceu com o mercado das balzaquianas?

Analisando o conjunto da obra, às vezes tenho impressão que a culpa é do marketing que gira em torno da minha geração. Sou do grupo de mulheres que são julgadas como “as mulheres que querem casar”, e assim parece que fomos tomadas por algum tipo de doença cujo sintoma principal é a urgência sangrenta em carregar pobres almas para o altar. The Walking Dead to get Married. Ah, ainda tem quem diga que as mulheres de trinta têm o fantasma do útero-bomba-relógio fazendo tic-tac ditando regra para as nossas vidas e escolhas. Agora vem cá, não tá na hora de demitir os responsáveis por essa campanha de marketing que diz que a balzaca é a porta das desesperadas? Vocês estão ferrando com a minha turma!

Talvez por conta da escassez de homens da minha idade na minha horta, eu comecei a olhar para a horta vizinha. E posso dizer que tive a feliz experiência de parar de julgar os novinhos, e beber desta fonte da juventude. Assim como tantas mulheres da minha idade, eu também não tenho pressa em casar, e sei que nem todo lance vira romance, e sendo assim, muito despretensiosamente, eu cai pra dentro da toca do coelho e fui para no país das maravilhas.

Eu deixei um novinho entrar no meu mundinho e também nos meus lençóis, e a surpresa foi pra lá de positiva. E aqui, que fique bem claro que o “novinho” em questão tem mais de 20 anos e é responsável pelas próprias decisões. O que descobri é que o novinho compensa a falta de experiência com energia e criatividade. Ele pode não saber o que fazer com precisão, mas não vai ter vergonha de perguntar o caminho certo. Usa a língua como sua arma, e não pensa duas vezes em botar um gelo ou um Halls preto pra jogo. A velocidade pode ser um pouco acelerada, mas o combustível dura longas viagens, o que faz da aventura uma experiência sensacional e deliciosamente exaustiva.

O novinho não tem muitos pudores em fazer contato ou falar que está afim. Talvez porque ele não carregue tantas decepções nos “quilômetros de desvantagens” que acumulei de viagens passadas. Ele me chama de “amor” sem compromisso, mas quando vê meus olhos arregalados responde em tom de deboche – “eu chamo todas assim, pra não errar o nome”, e dá risada, enquanto sou obrigada a rir também de sua petulância moleca. Ele adora provocar, e depois me adocica com um novo “amor” aqui e um tapa na bunda ali. É o tipo de cara que pula de trás do sofá para me dar um susto, ou liga a água do chuveiro no gelado só pra me ouvir gritar. Faz-me rir, além de gozar. Dá leveza tanto ao carinho quanto a sacanagem.

Ahh novinho, que grata surpresa te descobrir nesta fase em que me cobram buscar um compromisso, posar de bela, recatada e do lar. O novinho cozinha um prato elaborado que ele pesquisou no YouTube, enquanto joga os lençóis suados da minha cama na máquina de lavar. E eu já não me importo que ele ande pelado pela minha casa como se fosse o dono do pedaço, ou que me mande fotos de cueca enquanto tento parecer concentrada no trabalho. Adoro quando ele pede para que eu escolha a sua camisa, quando finalmente decide se vestir. Tem uma displicência tolerável, quase invejável, no novinho. Eu odeio/amo como ele me atiça e me faz parecer mais nova do que ele, sedendo às suas instigações e pirraças. Talvez seja exatamente isso que eu goste no novinho. Da lembrança de que eu também sou nova, de fato, não importa o que o marketing social injusto tenha feito pela a minha geração.

Eu sei, dizem que idade é só um numero, mas às vezes precisamos de um lembrete de que este número não deveria nos definir. E eu aprendi isso com um novinho. Isso e o valor do Halls preto.

Ahh novinho… você sabe muito.

Fim da sessão.

Cuide de seus pais

Eu fico impressionada com a quantidade de planejamento que é feito para a chegada de um bebê. Quer dizer, aquela pessoinha é menor que um antebraço, caberia tranquilamente numa caixa de sapato, e movimenta mundos e fundos antes mesmo de sua estreia. Pelo novo rebento a gente monta quartos, visita médicos, compra pencas de modelitos que vão durar 6 meses, e estoca uma quantidade de fraldas capaz de drenar um tsunami. Nós tapamos todas as tomadas da casa, cercamos piscinas, protegemos quinas de móveis. E se pudesse, enrolava a criança em plástico bolha.

Entretanto hoje, eu já cheguei na idade em que alguns dos papeis mudaram. Quem se preocupa e pega no pé sobre comportamento sou eu. “Pai, larga isso, é pesado demais para as tuas costas”, “Quando tu vai começar a planejar tua aposentadoria?”, “Calma, eu te ajudo com o computador”. Meu pai é aquele cara que nunca vai se admitir idoso, nem perante a lei. Ele se nega a pegar a fila preferencial em qualquer circunstância, porque tem medo de que isso o torne de alguma forma, menos capaz. Acho que ele preferiria partir dessa para uma melhor, antes de sentir-se improdutivo. Ele é impaciente com a tecnologia, porque não admite não “dar conta” das novidades. Lúcido e criativo, tem a energia e pretensão de alguém convicto de que vai viver para sempre.

Com a minha mãe não é muito diferente. Por ser mais nova que meu pai, ou talvez por ter filhos pequenos, ela não tem nenhum plano de se aquietar tão cedo. Pensa em empreender, em trocar de emprego, de cidade. E depois de muito tempo na berlinda dela, é de mim que ela ouve orientações e cobranças. “Ligou o alarme da casa?”, “Já foi arrumar teu carro?”, “deixa que eu leio, tu estás sem óculos”. Eu preciso lembra-la de cuidar de si mesma, afinal ela está sempre ocupada cuidando dos outros. “Mas é que eu sou mãe, minha filha”, ela responde justificando as suas prioridades, e a energia de quem tá sempre com funcionando a mil pela prole.

Penso que justamente por ter sido muito amada e cuidada, que cultivo uma profunda estranheza quando percebo que nós – de maneira geral – não nos planejamos para cuidarmos dos nossos pais. Os meus pais ainda são novos e independentes. Mas e quando não forem? E quando os nossos pais chegam à idade de dependerem dos filhos? Nos preparamos de alguma forma? Modificamos as nossas casas para atender às suas necessidades? Nos planejamos financeiramente para garantir o seu descanso merecido? Estocamos fraldas, e arrisco a perguntar, ou paciência para lidar com suas demandas?

Para o aumento do meu desconforto com esta questão, eis que vejo casas de repouso com idosos largados ao próprio tédio. E eu acredito que não existe nada tão letal quando o tédio. Em razão do meu trabalho, visitei recentemente duas instituições que atendem a estes cidadãos de mais idade: uma extremamente precária, e outra com mais estrutura. Em ambas reconheci inúmeras histórias de descaso de filhos que estavam muito ocupados para cuidarem, ou mesmo, visitarem os seus pais. A única necessidade mútua entre a instituição mais simples, e aquela mais afortunada, era a atenção. Os hospedes daqueles locais pediam não muito mais do que atenção.

Quando foi mesmo que nós filhos, nos tornamos tão mal agradecidos? Por que nos preparamos para cuidarmos de bebês incapazes, e não fazemos o mesmo com os nossos pais, quando tornam-se incapazes de cuidarem-se sozinhos?

E aqui por favor, não entendam como uma crítica aqueles que optaram por casas de repousos, asilos, cuidadoras, enfermeiras. Eu entendo que muitas vezes os nossos pais vão precisar de cuidados especiais. Eu só não consigo entender a situação de isolamento social que muitos deles precisam encarar nos últimos anos de vida. A cultura oriental celebra aqueles que chegam a maioridade como entidades de extremo valor para a sociedade. A grande maioria deles é ativa, e atua como referência e fonte de inspiração para os mais novos. Suas experiências de vida são vistas como riquezas, e não uma bagagem pesada que carregam antes de mudarem-se para o andar de cima.

E não seria justamente essa, a melhor parte de envelhecer? Celebrar experiências e gozar de cuidados? Ou ainda, não seria esta uma das maiores vantagens de criar os filhos? Ter a certeza de que o cuidado que se teve com eles, será garantido quando os passos de nossos pais tornarem-se mais lentos, e a cabeça mais anuviada? E aqui não estou dizendo que para isso precisamos lhes receber em nossas casas, sem considerar as demais opções. Ou mesmo analisar estas questões naqueles que achamos que são “os últimos anos” – nós nunca saberemos quando são os últimos anos. Então porque não aproveitar os nossos pais agora, hoje? Por que afinal o tempo corre, e não perdoa ninguém. E a ideia não é justamente aproveitar o tempo que se tem, ao invés de correr atrás dele quando não houver mais o que fazer?

Certa vez ouvi de cara muito inteligente, que se tudo der certo, nós iremos enterrar os nossos pais. E quando eu digo “se tudo der certo”, parte-se do pressuposto de que pais jamais deveriam ter de enterrar um filho (isso deveria ser proibido por intervenção divina, inclusive). Então se tudo der certo, sou eu quem vai enterrar eles. Lembrar deles com saudade, ser grata, e talvez, levar-lhes flores. E de fato eu quero enterrar os meus pais, porque sei que essa é a lei natural da vida. Quero enterrá-los, sim. Mas não em vida.

Em vida, quero que eles se sintam produtivos e bem-vindos, por mais ranzinzas que se tornem com o tempo. Que recebam flores de seus netos em todas as ocasiões ou em ocasiões quaisquer. Enquanto eles estiverem aqui, quero abraçar-lhes e dizer o quanto os amo em todos os dias que estivermos juntos. E agradecer, de corpo, alma e atitude, tudo que fizeram para cuidar de mim. Dando-lhes a certeza de que eu vou sim, cuidar deles quando for a minha vez. Eu quero proteger a tranquilidade da velhice deles. E rezar para que alguém, um dia, zele por mim.

Cuide de seus pais.

Fim da sessão.

Na hora da morte

Confesso que quis escrever este texto desde o velório do meu irmão, no ano passado. Na época, eu estava amarga, e provavelmente a minha língua felina tiraria o melhor de mim, então eu decidi esperar. Depois de toda a experiência bizarra de ter de enterrar a pessoa que eu mais amei na vida, eu quis criar um manual de etiqueta do que fazer ou não fazer nestas ocasiões – para ajudar as pessoas a se comportarem em momentos inquietantes como estes. Infelizmente, depois do meu irmão, tive a oportunidade de aprimorar a minha lista mais do que gostaria, já que a minha vida encontrou com a morte em pelo menos mais três ocasiões no período de 12 meses.

Peguei o clima do dia de finados e tentei, de toda forma ser didática. Hoje eu já não sou mais amarga com a postura em velórios, entendendo que é mesmo muito difícil saber o que fazer. Hoje eu sou mais sensata com o assunto – e por isso decidi falar sobre ele. Até porque, como sociedade, a gente pouco discute a morte, o que deixa a maioria de nós completamente sem noção quando ela bate na nossa porta. Alguns vão torcer o nariz pra essa postagem porque ela tem um ar sombrio. Outros vão entender, até porque, como já falei por aqui, falar sobre morte, é obrigatoriamente falar sobre vida. E como muitas etapas da vida merecem um protocolo (batizados, casamentos, formaturas) e uma postura a ser seguida, nada mais justo, do que ensaiar um protocolo para velórios. Tudo, é claro, como sugestão com base nos meus aprendizados:

O que NÃO fazer


* Não deseje força para quem perdeu alguém. Força é uma das poucas coisas que se consegue ter naquele momento, e tudo que a pessoa que está se despedindo de alguém não quer, é ficar pensando que ela está sendo fraca. Alternativamente deseje coragem, porque viver a saudade de alguém querido depende muito mais de coragem, do que força. Força só o tempo entrega.

* Não dê chilique. O nível de comoção deve ser proporcional à relação com o falecido. Mães, pais, irmãos, cônjuges e pessoas mais idosas têm o direito de se comoverem a ponto de perder o controle. Você não quer ser a tia-prima de terceiro grau gritando grudada no caixão achando que é a única pessoa do mundo que está sofrendo. Respeitar e promover um ambiente tranquilo para as pessoas mais próximas, é o mínimo que uma pessoa de bom senso pode fazer.

* Não medique ninguém. A menos que seja médico. Ou na pior das hipóteses, a menos que pessoa esteja pedindo e você saiba a dosagem segura. A coisa que mais me incomodou nos últimos velórios que fui, é a necessidade das pessoas de minimizar a dor alheira com medicação. O que acontece é que quem é medicado acaba sofrendo duas vezes, porque remédio nenhum cura a dor da despedida, apenas prorrogam os momentos de tristeza. Quando a medicação perde o efeito, a pessoa vive o ápice da dor depois do velório, num momento em que normalmente não tem todas as pessoas por perto para dar apoio. Deixe a dor doer – ela é parte do processo.

* Não aumente a dor da família. Se a pessoa que partiu estava doente, não enfatize o quanto ela sofreu, mas o quanto ela LUTOU. Não discuta teorias da conspiração do que você pensa que realmente aconteceu, o que poderia ter sido feito para evitar a partida do falecido. Abafe toda e qualquer curiosidade mórbida que é inerente na maioria dos seres humanos, afinal, já diz o ditado, que em boca fechada não entra mosca.

* Não reivindique o morto alheio. Quem decide onde e quanto o finado é velado é a família mais próxima – pais, irmão, cônjuges. Discutir se a pessoa deve ser cremada ou enviada para o jazido da família não é democracia para todo mundo, entenda o seu lugar nesta pauta.

* Não lave roupa suja no velório. Com ninguém. Não importa se apareceu um herdeiro que ninguém conhecia, ou mais de uma viúva. Respeito o momento da despedida, e leve a roupa suja para casa.

* Não mexa no falecido em demasia. Parece uma dica de mau gosto, mas é preciso lembrar que somos matéria, e matéria passa por um processo de transformação após a passagem. Seja gentil no toque, e evite ficar pegando muito no rosto do falecido, acredite, você não vai querer passar pela experiência de ter que enterrar alguém de boca aberta, porque uma tia insistiu em alisar constantemente o cavanhaque do finado.

* Não empurre religião garganta abaixo em ninguém. Despedidas são doloridas, e por vezes envolvem algum nível de revolta, o que é bem natural. Inclusive com as entidades superiores. É muito comum ficarmos questionando os planos da galera que coordena o cosmos, então ouvir pregação de qualquer tipo, muitas vezes, sabe ser um tapa na cara de quem está tentando passar por um turbilhão de emoções sem perder a fé. Isso vale para padres – parem de pregar em velórios (APENAS PAREM), ou de falar de pecado, dor, culpa. Contem a parte bonita da partida – seja sobre o descanso, o paraíso, o harém das virgens, sei lá. O encontro com a religião acontece com o tempo, quando as emoções já estão mais assentadas, e a busca pelo entendimento e aceitação é voluntária. Não force a barra.

* Não suma! A pior parte da despedida vem depois de todas as formalidades. No silêncio. Na volta pra casa. Nas fichas caindo. Esteja próximo de maneira gentil, para que as pessoas entendam que tem apoio, além das usuais 48h de comoção generalizada.

O que fazer

* Pelo menos em ALGUM momento durante a formalidade, ajude a certificar que existe um tempo para que a família mais próxima do finado tenha uma oportunidade de ficar sozinhos com o ente-querido. Não tive dois minutos para chorar sozinha do lado do meu irmão, e essa é uma das coisas que mais me marcou no dia – de que como essa passagem é pública, quando deveria, pelo menos por alguns instantes, íntima.

* Seja útil. Ofereça ajuda na burocracia, caso você tenha intimidade o suficiente para dar apoio à família. A maioria das pessoas envolvidas com quem partiu não está em condições de ter pensamento crítico ou prático. Ajude a tomar decisões e a garantir estrutura mínima de conforto para os presentes (providenciar café, água, comida, travesseiro para as pessoas que vão passar a noite no local).

* Ajude as pessoas a comerem. Parece uma besteira, mas a dor toma conta até mesmo do estômago. Se tiver intimidade, ajude estas pessoas a comerem o suficiente para funcionarem, e assim evitarem uma queda de pressão e desmaios no meio de toda a comoção final, que normalmente vem junto ao enterro/cremação.

* Conte histórias felizes da pessoa que partiu para a família. Divida as memórias bonitas que você guarda do finado com as pessoas que mais vão sentir saudades. Cada história é um carinho, e um tesouro a ser guardado para sempre dentro do peito.

* Respeite as formas de luto. Então evite orientar como as pessoas mais próximas do falecido devem sofrer. “Você tem que ser assim, ou assado, fazer isso, fazer aquilo”. Como eu aprendi na pele, ninguém TEM que fazer nada. Sobreviver a uma perda de um grande amor, já é em suma, uma conquista grandiosa.

* E por fim, mas não menos importante, a gente precisa começar a falar de morte, com menos tabu e mais compreensão. Assim, evitamos que estes eventos virem um circo de horrores ou um festival de gafes. Morte é parte da vida, e aprender sobre ela, é tão importante quanto qualquer outra etapa.

Eu decidi escrever sobre o tema por ter me sentido extremamente invadida em vários aspectos no falecimento do meu irmão, e vi o mesmo acontecer com inúmeras pessoas que eu gosto em outras despedidas. Só quem passou por isso de forma próxima e intensa, sabe como estas dicas são importantes. E se esta sessão puder ajudar uma pessoa que seja em um momento difícil, terá valido a pena.

Lembro que ao me despedir do meu irmão, tomei uma dose da vodka que ele havia comprado para a sua formatura, e joguei parte do meu copo no caixão – escondida, além de colocar uma carteira do seu cigarro, em meio às flores sem que ninguém notasse. Eu fiz escondida porque tive vergonha de ofender o luto de alguém – naquele evento tão público, ainda que soubesse, que o meu luto era extremamente genuíno, e adequado, já que talvez um dos últimos desejos do meu irmão, fosse justamente brindar a vida dele comigo. No meu velório, não quero ninguém com vergonha de brindar a alegria da minha vida e a saudade da despedida. Aliás, é o mínimo que eu espero de quem me conhece e me ama.

Neste dia de finados, meu grande respeito aos mortos. E flores aos vivos.

Fim da sessão