Mó otária

Peguei o rumo de São Paulo com objetivo de fugir. Claro, eu tinha outros compromissos na capital paulista, mas a ideia central era que eu precisava de um tempo fora de casa. Dar umas férias para a cabeça, achar refúgio para o coração cansado. Queria distância da violência do meu estado, que passou a ser destaque nacional na arte das atrocidades. Precisava renovar a fé no ser humano. E por isso, decidi fugi para outras terras.

Era um domingo de clima gentil nas redondezas do Beco do Batman. Respirava aliviada por sentir a doce alegria de andar a pé pelas ruas, sem estar completamente tensa com a possibilidade de ver meus pertences arrancados de mim. O colorido dos grafites era um abraço gostoso na minha alma de artista. Uma mesa na calçada da peixaria mais tradicional do bairro era tudo o que eu precisava para um almoço preguiçoso com as amigas. Aquele momento tinha uma tranquilidade que há dias não vivia. O céu estava azul, a cerveja estava gelada, e pequenas folhinhas de árvore aterrissavam sobre os meus ombros e cabeça embaladas pelo vento morno da primavera.

De repente, a tranquilidade do domingo é ceifada pelo som agudo de uma moto. O motociclista derrapa na água de uma imensa poça na esquina, e cai. À uma pequena distância de onde estava sentada, vejo o seu corpo encontrar o asfalto e por ele deslizar por alguns metros. A moto seguiu acelerada sem motorista, subiu a calçada contrária, e parou somente depois de colidir com outra moto estacionada. O motorista ficou deitado por alguns instantes, enquanto todos nós observávamos a cena em choque.

Enquanto a maioria apenas observava, um pequeno grupo se movimenta. Surgem alguns médicos que orientam o motociclista a não se mexer, pois poderia ter fraturado as costas ou o pescoço. Eu junto os pertences do rapaz, enquanto ligo para a SAMU, ainda que não faça ideia do endereço. Informo-me, oriento a SAMU e peço urgência. Uma hora e meia se passam sem nenhum sinal de socorro. Neste tempo converso com o Cícero, o acidentado, Aline e Bruno os jovens médicos que mantinham a cabeça do Cícero imóvel, entre outras pessoas que surgiam sugerindo maneiras de ajudar. Uso o espelho quebrado da moto para desviar o trânsito, já que as pernas do Cícero estavam muito próximas ao movimento da rua, e não podíamos deslocá-lo.

Durante a longa espera, curiosos se aproximam e montam suas teorias sobre as razões do acidente, sem qualquer informação. Outros mais preocupados informam constantemente que já ligaram – pela milésima vez– para a SAMU cobrando uma ambulância. As minhas amigas me alcançam os bolinhos do almoço que eu planejei comer sentada, almoço que agora foi substituído pela minha tarefa de guarda de trânsito. Um estranho se aproxima com uma garrafa de Heineken, e serve meu copo: “é o mínimo que posso fazer por ti, plantada aí neste sol”, agradeço com um sorriso. Outros jovens médicos aparecem oferecendo seus serviços – aliás, eu nunca vi tanto médico brotar de uma única peixaria num domingo. O Cícero é um cara de sorte, apesar da SAMU.

Faço piadas que o Cícero, mesmo deitado há mais de uma hora no asfalto, não resiste uma risada. Canto a marcha fúnebre em tom sarcástico, e apoio o copo de cerveja em seu joelho tirando sarro de sua posição vulnerável. E eu sou sempre aquela que vai fazer piada nos momentos mais inadequados – velórios, casos de tensão, dramas familiares. Não por desrespeito, nunca, acho que é um mecanismo de defesa do meu nervosismo, ou ainda uma vontade de lembrar as pessoas a minha volta, que eventualmente, quando tudo passar, ainda vamos conseguir sorrir. Eu sempre me comprometo em elevar a moral do ambiente, por mais dramático que ele seja. Acho que é um talento, ou talvez o meu pior defeito. Mas eu nunca resisto a ele.

A SAMU finalmente chega, seguida de uma unidade dos bombeiros. Palmas de toda a peixaria, que em polvorosa dá gritinhos de que variam entre “uhu” e “aleluia” e “já não era em tempo”. Os atendentes da SAMU verificam os movimentos de Cícero e seus sinais vitais. Informam que não sabem para qual hospital poderiam levá-lo, pois todos estão lotados, e Cícero abre mão de seu lugar na ambulância. A bem da verdade, ele teria se levantado e ido embora há muito tempo, não fosse o pedido dos médicos que prontamente o atenderam após o tombo. Entrego os pertences ao Cícero, peço o seu contato para verificar seu estado mais tarde. Ele agradece: “Sou sortudo de cair no meio de pessoas como vocês”, me dá um abraço e vai embora.

Na saída, Cícero recebe represarias de alguns espectadores na calçada. O fato de ele ter optado em não ir para o hospital, revoltou algumas pessoas que assistiram a espera pela ambulância, e o comprometimento de quem o atendeu durante este tempo. Ainda que não tivessem levantado a bunda da cadeira para fazer qualquer coisa. Termino o meu almoço, e na saída sou abordada pelo mesmo cidadão que xingou o Cícero. “Fica a dica pra você aí… da próxima vez, não fica dando de otária ajudando mané, aí não… o cara fez você e os outros de mó otária”.  Olhei bem na cara do maluco, incrédula da “dica” que estava levando. Respirei fundo, e contei até 10 e então falei sorrindo :

“Eu não fiz por ele. Eu fiz por mim. Porque se um dia acontecer algo comigo, espero ter a sorte de estar perto de alguém como eu, uma otária-altruísta e bem intencionada, do que rodeada de gente como você, que é simplesmente um otário.”

Voltando do almoço, me peguei pensando sobre tudo aquilo do que eu fugia, nesta temporada em São Paulo. Em especial, a maldade humana. E que de fato, ela existe em qualquer lugar, e em todos nós. Alguns optam em praticá-la, ainda que através da omissão. Agora imagina se todo ato de bondade for visto como burrice? Ficaremos cada vez mais sozinhos e isolados, e isso me parece um futuro horrível para a humanidade. Eu  prefiro ser uma ignorante na maldade. Prefiro ser uma otária. Mó-otária. Mas uma otária que dorme bem à noite, e que espera nunca se sentir sozinha quando mais precisar.


Fim da sessão.

V de Vagina

Eu nunca vou me esquecer da primeira vez que vi minhas partes íntimas serem apontadas como uma ofensa. Lembro que bati meu dedinho no canto do móvel da sala e gritei em protesto “BOCETA!!”. A escolha foi automática, mas não vi nela um problema. Meu pai, entretanto, ficou atônito e sem ar ao me ver proferir aquela palavra insolente. Disse que eu era uma mocinha – eu devia ter uns 15 anos – e que não podia sair jogando palavrões por aí. “Mas pai, teria sido melhor se eu tivesse gritado VAGINA, então?”. “Não, Antônia. Dá pra gente trocar de assunto?”, desligou a TV e saiu brabo da sala me deixando com meus pensamentos. E com minha vagina.

Eu achava engraçada a cautela do meu pai para falar de vagina. Até porque como bom paquerador, ele só podia gostar muito de vaginas. Acredito que tinha algo de imaculado que ele esperava da minha, talvez fosse esse o problema. Aliás, por anos a fio esse assunto sempre foi tabu, visto que eu aprendi inclusive a usar a minha vagina como arma. Toda vez que eu, como funcionária da empresa do meu pai eu tinha um compromisso que eu sabia que ele recriminaria – um curso diferente, uma sessão de terapia em horário comercial – eu dizia que eu tinha ginecologista. Era só eu dizer “ginecologista” que ele automaticamente pensava “vagina!” e me liberava sem mais perguntas. A simples menção do “v” o deixava atrapalhado. O v de vagina.

Semana passada eu vi uma das maiores nações do mundo com o mesmo problema do meu pai. A incapacidade de lidar com o v. Mas nesse caso não era bem “v”, era mais “p” de “pussy” (= buceta em inglês). Donald Trump, um misógino racista de pele laranja, que também é candidato a presidência dos Estados Unidos, foi pego em um áudio admitindo que se lançava ferozmente contra mulheres e às agarrava pela pussy. Isso mesmo, Trump declarou com todas as letra que assediava mulheres usando sua posição de poder, e avançava contra elas sempre que ELE sentia vontade. Até aí, convenhamos, nenhuma novidade dentro deste mundo homem, certo? A gente vê isso todo dia.

O que me fez rolar de rir (pra não dizer “rolar de desespero com tamanha canalhice”) é que  sendo o veículo de comunicação de tendência democrata ou republicana, a maior dificuldade da cobertura jornalística do caso não foi o fato de um possível residente da Casa Branca, admitir que abusava de mulheres. NÃO. A maior dificuldade da mídia foi fala “pussy”. Vagina. Boceta. “Partes íntimas”, “países baixos”, “partes das damas”, “aqueles lugares”. BBC, CNN, Fox, algumas das maiores gigantes da indústria da notícia, gastaram mais tempo criando adjetivos sutis para vagina, do que questionando a índole que quem as agarrava. E eu não quero aqui soar desbocada falando de boceta, mas me pareceu um completo contrassenso todo desconforto ficar em volta de uma palavra e não no ato grotesco relacionado a ela.

Com o tempo sendo dona de uma vagina, fui percebendo que ela me parece estar no centro de muita discussão que vai além da metalinguística. Eu sei, pois cada vez que jogo ela para uma audiência nas minhas palestras, aulas ou conversas, vejo bons cidadãos de todas as idades e gêneros ficando constrangidos. Eles começam com uma risadinha marota, mas logo puxam um sorriso amarelo. “Ela falou mesmo vagina em público?”, noto os olhares se cruzando em descrédito. E não importa se fui convidada para falar de feminismo,  viajar sozinha,  abuso sexual, ou vida de mulher. É só jogar a vagina no assunto que até a turma do fundão presta atenção.

E eu fico intrigada, toda vez. Que diacho tem a tal da vagina que movimenta tanta comoção, vergonha, desejo, repulsa, ódio? Sim porque a gente fala de pau, piroca, pênis, pinto, o tempo todo sem um terço deste drama  que movimenta os lábios mal falados da vagina. Agora bote “vagina” ou “pussy” na boca de um aspirante a presidente para ver a mídia mundial entrar em colapso. O que ele fez ou quer fazer com elas, as pussies, isso foi dito como mero “assunto de vestiário” como disseram mais uma vez normatizando o assédio feminino. Sim, porque “pussy” cabe em assunto de vestiário, mesmo se for na posição de abuso. Mas nunca pronunciada no jornal em horário nobre.

Tratando-se de vagina, o meu maior desejo num futuro próximo, é ver esse charlatão de peruca bem longe da Casa Branca nas eleições de novembro. Bem longe de qualquer buceta que ele possa alcançar – e aqui, desculpe se o meu linguajar te ofende mais do que a atitude dos homens no poder que existem por aí. E por falar em poder, quero ver uma vagina no poder da maior nação livre do ocidente. Quero ver Hillary Clinton com o V de vitória nas mãos. V de vagina.

Quem sabe assim a gente para de se constranger em falar dela, e comece a recriminar de fato o que fazem com ela. Aí sim vitória e vagina dividirão a mesma letra.

Fim da sessão.


PS: E que Deus nos proteja dos misóginos fantasiados de pai de família de chegar a qualquer posição de poder. Já tá difícil ser dona de uma vagina “sem” eles.

Meu primeiro amor

Nesta semana em que celebramos o dia da criança, me doeu ver a infância lá de casa ser ameaçada pelas decepções envolvidas com a dura arte de crescer. O Murilo foi encontrado às lágrimas pela minha mãe na volta da escola. O motivo era dos mais nobres: ele tivera o coração partido. Após o que foram longínquos 4 dias de um namoro “tórrido” (incluía dar as mãos em público) com uma garota de alcunha Sofia Andrade, o objeto de desejo do Murilo terminou a semana dando um beijo na bochecha de ninguém menos e ninguém mais do que o Mateus – o irmão do Murilo. A coisa toda teve um quê de novela mexicana para mim. Dois irmãos disputando o amor de uma garota, cujo nome é sempre pronunciado de forma completa e com tom solene. “Sofia Andrade. Sofia Andrade”. Já imaginei os dois duelando com espadas de massinha de modelar antes do jantar.

Eu quis xingar Sofia Andrade de nomes feios. Aliás, com todo respeito, e bem xinguei-a assim que soube da polêmica e do coração partido do Murilo. “Aquela puta!” – esbravejei. “Antônia!!!” – minha mãe gritou em choque com minha atitude desbocada – “Pelo amor de Deus, ela tem só 6 anos de idade. E de mais a mais foi o safado do teu irmão Mateus que ficou cortejando ela”. E foi ali que me dei conta. Eu estava culpando a Sofia Andrade de uma trama complexa que tinha muito mais a ver com a competitividade masculina, do que o puro amor de uma mulher/menina. E confesso, estava sendo pouco empática com o drama de Sofia Andrade – se eu estivesse sendo disputada por dois loiros, também estaria confusa, para dizer o mínimo. Pedi perdão em silencio a dama em questão, para que nem Murilo ou Mateus achassem que eu estava tomando partidos.

Mas confesso, fiquei muito mal. Pior que o Murilo, possivelmente.

Acho que o que realmente mexeu com o meu humor foi na verdade que o episódio do Murilo lembrou-me do meu primeiro amor, que obviamente foi seguido de uma tremenda decepção. O nome dele era William e nós tínhamos 8 anos. Ele tinha uma motinho e era a única criança motorizada do nosso camping, mas eu pouco dava bola para os luxos automobilísticos no auge dos meus 8 anos (ou tampouco depois deles). Entretanto eu me lembro com riqueza de detalhes de como eu me sentia quando ele me dava uma carona, e de como na garupa da motinho eu sentia o perfume dele no vento que ele cortava com velocidade. A gente tinha horário para se recolher, mas tinha tempo o suficiente para eu ver a lua cair na lagoa, iluminando os olhos dele nos luaus que promovíamos. Eu sempre sonhava com o William, e escrevi minhas primeiras histórias de amor em nome dele. Até ele provar ser um moleque, e começar a me provocar em todos os finais de semana dizendo que não voltaria mais no camping, para o desespero do meu coração apaixonado. 4 anos depois eu dei o meu primeiro beijo no William, e o segundo de toda a minha vida. Claro que ele se apaixonou por mim. Eu? Eu, agora queria rapazes mais velhos, para o desespero do coração apaixonado do William. O amor sabe ter um timing bizarro, não sabe?

Mas o episódio do Murilo resgatou uma saudade não do meu primeiro amor, mas do meu “eu” lá no primeiro amor. Quando eu tinha um coração novinho em folha, livre de ponderações. Fato é que nós somos, incontestavelmente, a soma das nossas relações passadas. E esse é o problema das decepções, as dores não são eternas, mas falhamos ao eternizar as decepções, carregando-as para as relações seguintes. Talvez não seja a Sofia Andrade que vai lidar com a fúria da primeira decepção do Murilo. Talvez seja a próxima garota com outro nome pomposo, que ele vai decepcionar antes de se ver decepcionado. “Eu nunca mais vou falar com a Sofia Andrade, maaaaanhhhhêêê” – O Murilo berra em meios às lágrimas, enquanto escrevo este texto. O Mateus dá risada. A Sofia Andrade, mesmo sem querer, fez a primeira contribuição para o Murilo ser um filho-da-mãe com as mulheres ( ou ao menos deu-lhe uma desculpa conveniente, da mesma forma como os caras problemáticos que cruzaram a minha vida todos culparam uma Sofia Andrade). Talvez o Murilo deixe de ser o último romântico e vire o próximo cafajeste mesmo. O Mateus, bem, esse parece que já nasceu com talento para ser safado, talento bem disfarçado nos cachos de anjo.

Sendo o primeiro ou último amor, sempre que me pego analisando um relacionamento ou mesmo fim dele, não consigo deixar de avaliar o contexto. E se eu não tivesse sido magoada tantas vezes, será que teria sido mais tolerante? Se eu nunca tivesse sido enganada, eu confiaria mais? Se eu não tivesse visto o divórcio dos meus pais virar um drama, temeria o casamento? Será que me acalmaria mais fácil se não tivesse vivido a inquietude e fascínio de encarar o mundo de forma mais independente? Onde enfio as minhas teorias, decepções, rancores, e preocupações para então, dar espaço a um amor? Um novo amor. Um primeiro amor de novo.

Eu tive saudade do meu idealismo, vendo as lágrimas do meu irmão, velando o fim de seu primeiro romance. E acho que fiquei mal por nós dois. Por saber que ele ainda vai passar por muitas destas. E por lembrar que eu mesma já carrego essa bagagem emocional muito mais do que gostaria. A diferença entre nós dois, é que eu tenho a experiência que o Murilo desejaria ter. E ele, bem, ele tem a inocência de um coração serelepe que se entrega sem medo. Eu queria chorar mais por amor. Sofrer mais, e esperar mais dele. Eu morro de medo de ficar apática, uma vez que sofro cada vez menos quando tudo se acaba numa relação. E torço pelo dia em que uma pessoa vai chegar e vai me fazer sentir o mesmo frenesi que o Murilo sentiu com a Sofia Andrade. E eu vou agradecer, por nunca ter dado certo com nenhuma outra pessoa.


Fim da sessão

ps: Garotos, numa pauta um pouco mais feminista, se cuidem. Sempre que vocês acharem que são malandros, vai ter uma Sofia Andrade ditando as regras. E pensando bem, elas é que estão certas.

Bônus: Do tempo que Macaulay Culkin ainda era fofo.

A garota do lenço na cabeça | Coisa de Antônia

Talvez porque nos últimos dias eu esteja mais sensível, ou mesmo por uma coincidência improvável, esta semana também me fez relembrar de outra história de amor e despedida. Promovida pela saudade ou mesmo pelo início do Outubro Rosa, lembramos na Rede Atlântida através do ATL Girls a história da Duda, uma guerreira de carne, osso e lenço na cabeça. E depois do nosso encontro, levo desde então não apenas uma saudade, mas o desejo de encarar a minha vida como um milagre – exatamente como a Duda fez. Fica aqui uma inspiração e um convite a se emocionar e transformar.

Clique na imagem abaixo:

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365 dias sem você

Eu prometi para mim que não contaria os dias da tua ausência. Mas essa foi mais uma das vezes que me enganei para poder sobreviver a nossa separação. Como uma dependente química em recuperação. “Hoje eu sobrevivi mais um dia sem meu irmão”. Fato é que eu contei cada um dos dias desde a tua partida, e neste domingo chegamos a marca de 365 dias sem você.

Eu iniciei uma relação bem estranha com o tempo desde que você se foi. O tempo, esse desgraçado, passou a coexistir em duas velocidades: às vezes parece que um vida inteira já aconteceu desde a nossa despedida. Em outros dias, sinto que foi ontem que te vi pela última vez. O tempo ele é impiedoso, sabe? Eu passei a ter raiva de como ele passa de forma tão despretensiosa.  Como ele pode correr livremente  se por vezes me sinto paralisada?

365 dias. Cheios de primeiras vezes que nunca planejei. Foi a primeira vez que eu quis morrer com todas as minhas forças. Não porque não queria mais viver, mas porque não queria mais sentir dor. Uma dor tão estranha e aguda. Foi a primeira vez que eu não consegui sair da cama por 30 dias, sendo que em 7 deles que eu não comi ou tomei banho. E quando saí foi pra enfrentar a minha primeira guerra pela tua memória, no famoso episódio do teu diploma. Talvez ali eu tenha me reconhecido pela primeira vez de novo, porque estava no papel de tua irmã, travando um duelo entre titãs: o nosso luto Vs a falta de empatia.

Teve o primeiro Natal sem você e suas desculpas esfarrapadas pelos atrasos de sempre, como senti falta do teu jeitinho espaçoso de entregar o presente que eu tinha comprado para a mãe, sem nunca me pagar a tua parte. Coisa de irmão mais novo. O meu primeiro aniversário, o teu primeiro aniversário, o aniversário dos teus irmãos, da mãe, do pai. Datas em que eu pirei calada tentando inutilmente compensar a falta do teu  “parabéns a você”. Ninguém podia imaginar como eu sofri tentando minimizar a saudade gritada que pairava sobre o teu silêncio.

365 dias que eu calculei tudo que tu teria feito. Quantos shots tu teria tomado na tua formatura. Quem de nós tu carregaria bêbada na formatura das tuas amigas. Contei na minha cabeça quantas ligações minhas tu ignoraria, para então depois do meu discurso afetado, quantas desculpas tu pediria, como tu fazias com todas as pessoas que tu gostavas. Fiz uma planilha de Excel com projeções de quantas pessoas tu terias ajudado através da medicina, e travei uma meta de propósito de fazer mais pelo mundo para compensar a falta da tua benfeitoria.

Eu contei cada cheesecake que comi e que teria divido contigo, ainda que brigando pela maior fatia. Cada série de Netflix que gostaria de ter feito review do teu lado. Fiz um inventário de todas as músicas que deveriam ter sido embaladas com o gingado tosco e hilário que tu fazias imitando as divas. Perdi-me no controle das lágrimas acrobatas que me escorreram sem aviso. Ou de quantos cigarros eu fumei na sacada olhando para o céu implorando de forma egoísta por um sinal teu.  Eu sei que tu estás onde precisava estar, ainda assim faz 365 dias que Deus e eu não conseguimos nos acertar. Eu também sei que a culpa não é dele, mas a minha imaturidade e humanidade me fazem errante inclusive nesta pauta.

365 dias que eu finjo ser forte. Para a maioria das pessoas por pura convenção. Eu nunca sei quantos minutos de tolerância vou ter das pessoas antes delas tentarem desviar o assunto quando me pego falando em ti. Ao passo que também finjo ser forte para não lidar com as reações de pena que as pessoas separam para mim, sempre que por iniciativa dos outros o teu nome surge na conversa. Faz 365 dias que eu forço sorrisos e digo “tá tudo bem” quando não está. 365 dias que não paro de me remoer de culpa sempre que eu tento seguir a diante e de fato consigo, porque nunca imaginei a vida sem você – e por conseguir viver, me assusto. Um ano inteiro de momentos felizes que dependem de eu me distrair da impossibilidade de tu dividires comigo as minhas risadas, memórias e momentos que teriam sido separados só pra ti.

Faz 365 dias que eu sigo interpretando uma versão mais iluminada de mim mesma toda vez que o Murilo pergunta algo de ti, ou que o Mateus faz planos de te visitar no céu.  Eu tento explicar que não tem como te visitar ainda que tenha o mesmo desejo dos teus irmãos de 6 aninhos. Eu também queria te visitar no céu. Eu morro por dentro um pouquinho a mais, toda vez que o pai repensa maneiras de ter evitado uma fatalidade. Ele nunca vai assumir a humanidade dele, porque ele é teu pai, e isso tem um peso enorme de herói que machuca muito. 365 foi o número de vezes que eu fingi ser indestrutível ao lado da mãe e por toda a pá de coisas que ela teve de lidar desde que tu partiste. Eu inventei uma série de maneiras para levantar ela do chão,  fazê-la sorrir e mentir que vai ficar tudo bem, quando eu não tenho certeza de nada. Eu aprendi neste ano que não existe termo para quem perde um filho, como quem perde os pais se chama de órfão, ou quem perde o cônjuge é viúvo ou viúva. Perder um filho é tão injusto e brutal que ninguém ousou dar nome pra esse lugar.

365 dias que eu me distraí buscando conforto. Eu bebi minhas dores, sendo que eu sempre havia bebido as minhas alegrias. 365 dias que eu reconheci o fundo do poço da tristeza. Que voltei para a terapia. Saí da terapia. Me dei alta, fiquei alta, fiquei puta. Eu nunca fiquei tão puta da vida como nestes 365 dias. 365 dias que eu me senti imensuravelmente sozinha, não porque não tive amparo, mas porque tu és e sempre serás insubstituível. Uma presença latente viva nos meus pensamentos, sonhos, lágrimas e sorrisos. Ouço há 365 dias que tu estás vivo em mim, e me indigno por sentir que não é suficiente.

Eu escrevi esse texto dentro de um avião, cruzando os céus – tão perto mas não longe de ti. Chorei o caminho inteiro de São Paulo a Porto Alegre lembrando que foi exatamente nestas condições que eu me despedi de ti pela primeira vez. Tu me esperavas chegar de um voo tarde, daqueles que eu tinha mania de pegar e por isso ninguém queria me buscar. Mas tu ias. Porque passou a ser mais responsável com as minhas necessidades nos últimos anos. E porque gostava de aeroporto, como eu. Recebeu-me com o Django no colo, e me abraçou sonolento. Perguntou da minha viagem e me deu dois livros de presente – “para inspirar o teu livro”, me disse encorajando o velho sonho. Me contou sobre a troca da tua música de formatura, fez planos de uma viagem que faríamos juntos no teu pós e me beijou a bochecha dando boa noite. Faz 365 noites que elas não são mais boas.

365 dias. 8.760 horas. 525.600 minutos. Todos cheios de saudade. Uma saudade imensurável, mas ainda assim, somada dia após dia. Até a gente se encontrar de novo.


Fim da sessão.

Edição da leitora: sugestão de trilha feita por uma grande amiga do meu irmão e querida leitora deste blog. Adequação a partir da mensagem da música e do grande amor que o Léo e eu dividíamos por musicais.

Seasons Of Love