Lugar de fala | Coisa de Antônia

Cléo Pires, Paulinho Vilhena, Vogue, Paraolimpíadas, Representatividade. Se tem polêmica lá estamos nós no ATL Girls da Rede Atlântida falando do assunto. No Coisa de Antônia de hoje, o papo é sobre Lugar de Fala:

Lugar de Fala (1)

É preciso ir embora – a verdade

Há exatos 18 meses eu escrevi um texto que mudou a minha vida. Mal sabia eu, que o texto “É preciso ir embora” ia chacoalhar tanta gente, com aquilo que era apenas um desabafo. O texto viralizou de uma maneira que eu nunca esperava. Deu a volta ao mundo, e botou o meu pequeno divã, tão singelo e tímido, na boca do povo, nas páginas de jornais, nas ondas do rádio, e no coração de tanta gente que passei a conhecer. Desde então, não tem um dia sequer em que eu não receba histórias de outros inquietos, que encorajados pelo texto (e suas próprias vontades), saíram da sala, do emprego, da casa, do país. Todo dia recebo fotos, cartões postais, emails de novas aventuras, novas jornadas, novas histórias, tudo isso, segundo os meus queridos leitores, motivados pela minha coragem, de dizer em alto e bom tom, que a estrada, seja ela qual for, pode ser uma grande amiga no processo da mudança.

Aquele texto, o preferido de tanta gente, foi vomitado numa página branca de Word, em apenas 30 minutos. Não teve grandes planejamentos, ou revisões. Ele foi o texto mais visceral que já escrevi, porque nele cabiam as poucas verdades que eu conhecia da vida. A mais urgente delas, de que a vida segue, além das nossas decisões. As pessoas seguem vivendo além das despedidas, por mais doloridas que elas sejam. O mundo não pára porque você ousou mudar de rumo, partir, ou simplesmente botou um fim, para que houvesse um novo início. Essa é a dor e a delícia das histórias… elas precisam de fim, para que outros inícios tomem cena.  E eu aprendi isso viajando – entretanto, essa lição não me salvou de ter dúvidas.

Pouca gente sabe a verdade por detrás do “É preciso ir embora”. Eu usava como metáfora a partida de uma amiga para Londres, quando na verdade eu sofria de minha própria vontade/medo de ir embora. Após um longo período tentando acertar os ponteiros com o meu pai dentro da empresa que foi por muitas vezes dita como minha, eu finalmente chegava à conclusão de que aquele não era o meu lugar. E como todas as pessoas corajosas, eu estava ponderando os meus passos na tentativa da superação do meu medo de mudar. Medo da instabilidade do mercado. Medo de fracassar sob minhas próprias pernas/termos/objetivos. Medo da cortina de fumaça que cobre o desconhecido. E acima de todos os meus medos, tão meus, eu estava apavorada com a ideia de magoar o meu pai. Não o meu diretor-pai. O meu pai, o cara que havia depositado em mim tantos sonhos.

O post “É preciso ir embora” era a minha carta de alforria. Era eu assustada, dizendo para o mundo (e tentando me convencer) de que ia ficar tudo bem. Que eu era importante, mas não tanto a ponto de paralisar as pessoas a minha volta. Eu não estava dando argumentos para engrandecer a coragem da minha amiga que ia viajar para Londres, eu estava tentando juntar forças para o meu próprio ato de coragem. Afinal, eu não iria apenas pedir demissão de um emprego, eu precisava encerrar um vínculo, pagar uma dívida velada com alguém que eu amo muito, e entregar de volta as chaves daquele que me convenceram que era o meu “império”. Como uma herdeira pede as contas? Como uma filha diz “não” para um pai, sem carregar junto a culpa da ingratidão? Essas eram algumas das dúvidas que pesavam a mochila da minha partida – nada diferente das muitas dúvidas enviadas pelos leitores do blog.

“Caso ou compro uma bicicleta?” “Fico com a família, vou embora com o namorado?” “Promoção de gerente ou barista na Austrália?” “Saio ou fico em casa?” Foram tantos os pontos de interrogação jogados neste divã por conta deste texto, que por muitas vezes me arrependi de ter soado tão confiante. Não porque eu não gostava de dividir as angústias destas pessoas, mas porque elas acreditavam que eu poderia saber melhor do que elas. Eu não sabia melhor do que ninguém. Eu só podia ceder meus ouvidos a cada dilema que me foi consultado, e torcer por cada plano que foi comigo dividido.

Na mesma data que celebro 1 ano e meio do capítulo que iniciei dizendo que ir embora era importante, eu inicio a última semana da minha jornada na empresa familiar. Então veja que enfiar o pé na porta não foi um movimento rápido de uma coragem súbita. Eu tive que dividir com o mundo as minhas certezas, para com ele revisar todas as minhas inseguranças.

O que eu nunca discuti no famoso texto, era a importância e complexidade do timing de ir embora. Hoje eu sei, não existe calendário fixo para debandar. Desde o meu grito de liberdade lá em fevereiro de 2015, a programação da minha partida teve incontáveis revisões, e eu respeitei todas elas. A minha família mudou. Meus planos mudaram. As prioridades foram invertidas, revisadas, trocadas. Frida Kahlo ensina que “onde não puderes amar, não te demores”, mas hoje sei que sua frase é incompleta. Na minha humilde interpretação da vida, uma melhor versão da mesma seria “onde não puderes amar, não te demores, mas também não te apresses”,  porque ir embora, não é, nem nunca foi fácil.

Na semana passada eu caí febril na cama por dois dias. O corpo tremia no calor de 25°C, e eu suava a ponto de molhar os lençóis. Não era doença alguma o que me abatia, dias depois eu concluí. Era medo. Medo de ter escolhido um caminho errado. Era medo de ir embora. Ao me dar conta da razão do meu estado debilitado, sacolejei a febre, e me pus de pé para encarar o meu futuro. Blindada de planejamento, benzida pela fé e com doses extras de coragem na mala para a nova jornada. Jornada esta não inclui cruzar oceanos, mas todas as fronteiras da minha própria convicção e autonomia.

Em uma conversa planejando o encerramento das minhas atividades na empresa de meu pai, ele questionou os meus olhos mareados e o meu semblante preocupado.

– Estás preocupada que teus novos planos não deem certo?

– Sim. – assumi sem meias-palavras. 

– Então por que tu precisa ir embora?

– Porque só tem uma coisa que me assusta mais que a mudança. É ser paralisada pelo medo e não tentar.

E todo sonho e toda conquista começam com a decisão de tentar.


“As desculpas e preocupações sempre vão existir. Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas.”

Fim da sessão

Papa-Gringo

“Garota, você ia pirar na Vila Olímpica”.

Essa foi a mensagem de uma amiga direto do Rio. No meio de um grupo de whatsapp de 17 mulheres, foi para mim direcionado o foco dos romances intercontinentais.  “Papa-gringo”, algumas amigas  me chamam tirando sarro, devido ao meu interesse pelos espécimes que vem de fora. Não que ele seja exclusivo para os artigos importados. Eu amo o produto nacional. O que me faz colecionar bandeiras é primordialmente o meu tesão por falar inglês… o resto, bem, o resto é consequência.

O meu primeiro flerte cross-ocean foi um australiano. O pai dele tinha um parque para o cuidado e procriação de tubarões, e foi aí que ele me ganhou. Na minha cabeça jovial ele era selvagem e exótico como eu nunca tinha visto nada na vida. Isso claro, e o cabelo louro-dourado, olhos cor de mar, e físico de quem surfa desde que aprendeu a andar. Ele passava as férias na Praia do Rosa, enquanto eu passava os minutos planejando a nossa casa em Fresh Water, de frente pro mar. O romance durou 2 dias, mas perdurou por anos no meu imaginário.

O primeiro relacionamento intercontinental sério que tive foi com um tailandês de família chinesa. Eu morava em Londres há poucos meses, e tropecei nos olhos puxadinhos do Brett sem pensar duas vezes. Ainda que o namoro tivesse engatado rápido, o sexo era outra história. Depois de diversos amassos entre a gente, e nada dele tomar a iniciativa, eu perguntei se ele tinha algum impasse comigo. “Respeito”, ele disse. E me lembro de ter ficado em choque. Enquanto eu estava ouriçada como um animal no cio, o meu namorado estava puramente respeitando o meu tempo. Óbvio que “o meu tempo” levou só até o fim daquela conversa. Mas aí eu não culpo a minha brasilidade por isso.

Nesta mistura de culturas entre Brasil e Ásia, alguns pontos me chamaram a atenção. O fato de o meu namorado ter um irmão gêmeo, (e sendo isso na Ásia uma benção divina), fez com que os rapazes tivessem sido criados sempre juntos, e por isso nunca se desgrudavam (tipo, NUNCA). Por vezes eu tive a sensação bizarra de que estava num relacionamento com os dois. Outra situação inusitada foi em nossa viagem a Tailândia, em que fomos notícia em um site de fofocas – porque 1) o Brett, que tinha sido VJ na MTV por anos, estava de volta a Bangkok depois de muito tempo, e 2) porque ele trazia uma namorada “fora de padrão”, segundo o que contava o site.  Óbvio que minhas curvas não cabiam dentro da expectativa tailandesa, só não imaginava iriam torna-se notícia.

Mas as estranhezas não pararam ali. Ainda que o Brett e eu estivéssemos namorando há mais de um ano, na casa da minha sogra, tivemos que dormir em quartos separados. E claro, a mais bizarra experiência desta viagem, é que eu não pude participar de um almoço da família do Brett, em virtude do avô dele, o patrocinador de seus estudos em Londres e patriarca extremamente conservador, sentir-se-ia ofendido com a minha presença. Afinal, o Brett estava em Londres para estudar, e não para arrumar uma namorada brasileira. (Soube que este ano o velho teve que engolir a esposa Venezuelana com quem o Brett casou-se numa ilha tailandesa).  O Brett e eu terminamos numa boa, ainda que ele nunca mais tenha falado comigo, ou respondido minhas mensagens de despedida ou parabenização pelo casamento. Ele tinha promovido o mesmo isolamento com outra ex- namorada enquanto namorávamos, e entendi que aquele era o comportamento padrão de término dele (ou da cultura dele).

Tempos depois do Brett, acabei conhecendo um britânico e ele me chamou para sair. Durante a nossa conversa sobre diferenças culturais, o inglês comentou como nós brasileiros gostávamos de tocar nas pessoas enquanto falávamos. Propus então um desafio, que nós contássemos quantas vezes eu encostaria nele, e quantas vezes ele encostaria em mim durante o nosso “date”. 2 horas e muitos drinks se passaram e eu encostei 78 vezes nele. Ele? Duas. Uma na chegada, e outra na despedida. E juro que desde então, controlo sempre as minhas mãos quando conheço alguém – brasileiro ou não.

E assim eu segui, entre trancos e barrancos, me relacionando com bandeiras globais, sem muita comoção, até o meu primeiro e grande amor platônico por um galês. Bem, basta dizer que por ele, eu aprendi a falar “bom dia, boa tarde e boa noite” no idioma do País de Gales, que é campeão internacional de uso de consoantes impronunciáveis.

Durante os meus 2 meses de mochila nas costas pela Europa, um flerte aqui, e um lance ali, fui aprendendo e aproveitando a solteirice em outras línguas. Por conta destas aventuras, comecei a ponderar alguns comportamentos, e registrar todos as minhas efemérides em outro blog que guardei a sete chaves. Visito o blog até hoje sempre me dá saudade dos amores que deixei em cada porto, como a marinheira que sempre sonhei ser. Colecionando bandeiras e suspiros, com o tesão de quem descobre o mundo também na saliva e carinho do outro.

De volta ao Brasil, lembro com saudade da Copa do Mundo, aliás, a “copa da pegação” como a apelidaram aqui nos confins do Brasil. Recordo que escrevi o meu primeiro texto viral, muito antes de ter o Antônia no Divã, falando sobre as delícias de ter o mundo no nosso quintal. Ora, é claro que a minha amiga ia lembrar-se de mim na Vila Olímpica.

Recentemente, coletei minha primeira bandeira germânica, aqui, na minha própria cidade, e confesso que me vi atrapalhada. Eu, brasileira explosiva, passional até o último fio de cabelo, num romance temporário intercontinental de chacoalhar a minha desordem.

O alemão tinha pouco ou nenhum interesse pelos meus faniquitos – o que para uma aquariana egocêntrica é o mais azedos dos remédios. Corrigia-me sem nenhum constrangimento. Prestava atenção em tudo que eu falava (e eu falo pra car@$#*) como quem observa um experimento acontecer, e toma notas mentais. Ligava no final de cada dia para contar do trabalho e fazer planos. E ao fim de de duas semanas, ele já sabia o que cada uma das minhas expressões queria dizer, ainda que me forçasse a falar toda vez que eu fazia beiço – “eu posso até entender inglês, ou mesmo aprender português, Antônia, mas ainda não leio a sua mente. Melhor falar o que está te aborrecendo”. Como fazer drama com alguém que veio do país que praticamente inventou a engenharia de precisão?

Que saudade que eu estava deste choque de culturas.

Dentre amores e desamores, alguns aprendizados ficaram com este meu coração viajante: 1) Eu gosto de romances intercontinentais pela riqueza da troca cultural. É isso que me seduz. Então “Papa-gringo” ou não, eu já assumi que eu amo conhecer o mundo com todas as suas ferramentas. 2) Ainda que fã dos romances intercontinentais, eu não fui feita para relacionamentos à distância. E por último, mas não menos importante: 3) Mesmo que tudo comece pela vontade de falar inglês… gozar é sempre em português. O meu orgasmo não tem tradução. 🙂


Fim da sessão.

Session end.

Pen y sesiwn.

Sitzungsende.

ปลายเซสชั่น

Papai de Facebook | Coisa de Antônia

Paternidade é opcional?

Hoje no ATL Girls da Rede Atlântida o “Coisa de Antônia” discute os papais que são bonitos nas fotos, nem tanto nas atitudes.

Clica na imagem e cola lá:

Papai de Facebook

Vai ficar tudo bem, pai.

É engraçado que quando somos crianças nós não percebemos que as nossas brincadeiras e joguinhos, instintivamente nos preparam para sobreviver à vida adulta. Brincar de casinha, nos dá pequenas noções de sermos responsáveis por um espaço, ou quando brincamos de carrinho, imaginamos como manusear um veículo com cuidado, assim como bonecas e bonecos nos fazem imaginar interações com nossos futuros filhos, maridos, esposas e assim por diante. Infelizmente nenhuma destas brincadeiras nos prepara para uma das tarefas mais difíceis da vida adulta, que é cuidar dos nossos pais. Claro, como nós íamos imaginar que em algum momento, aqueles que sempre nos cuidaram, precisariam de cuidados? Era uma conclusão ilógica do ponto de vista da hierarquia e da maturidade. Então, a vida, essa brincalhona, vem e nos surpreende.

Eu comecei cedo a cuidar dos meus pais. Em especial do meu pai. Não que ele seja um cara incapaz, sob qualquer aspecto. Meu pai é novo, ativo e inteligente. Mas por vezes na nossa jornada, ele ficou um tanto perdido, e foi na minha mão que ele segurou. Foram duas vezes, em que tive que enfrentar um tratamento de saúde ao seu lado – eu e meu irmão – já que na época os meus pais já estavam separados. Durante os meses de tratamento intensivo, o meu pai teve medo da morte – e eu, medo da vida sem ele, e essa era uma sensação insuportável no auge dos meus 20 e poucos anos. Ainda que minha mãe estivesse sempre por perto, me dando apoio, cuidar do meu pai, passou a ser uma tarefa minha, e durante algum tempo, de mais ninguém.

Do meu lado, ele passou a se preocupar com o futuro dos negócios, e viu em mim uma aliada. Além de herdeira, eu passei a ser um dos braços direitos dele na empresa – e sofrer junto com ele, mês a mês, por resultados. Passei também a me preocupar com seus relacionamentos – coisa que antes era tarefa única, exclusiva dele: “mas quem é essa fulana?”, “De quem é essa jaqueta de mulher aqui?”, “Quando tu vai apresentar essa beltrana?”, até que finalmente, tivemos a tranquilidade de uma companheira de verdade entrar na vida do meu pai. Ainda assim, entramos naquela fase em que eu passei a questionar as atitudes e decisões dele, todo e qualquer momento: “como assim não vai tirar férias, tu precisa descansar!”, “tu tá indo no psiquiatra?”, “já foi no médico ver essa pintinha estranha?”, “que remédio é esse que tu tá tomando?”, “larga esse negócio pesado, tu acha que tu tem 20 anos, e não 60?”. E confesso, não é fácil. A hierarquia fica confusa, até porque sempre foi ele que botou as minhas atitudes e decisões à prova. Aceitar que os papeis eventualmente mudassem, foi confuso, e exigiu (e exige) muita paciência, tolerância e negociação.

Mas confuso, difícil, intolerável, ganhou todo outro sentido há algum tempo, como vocês sabem. Domingo é dia dos pais, e o primeiro sem o meu irmão. Assim como o primeiro natal, aniversário, dia das mães, esse é o primeiro dia dos pais sem o Leonardo. E se tudo que é a primeira vez, desde então, ficou insuportável, o dia dos pais, é a minha prova de fogo. Talvez porque o luto do meu pai, ainda é para mim, o mais complexo. Complexo porque meu pai busca respostas, das quais a minha mãe e eu, já abrimos mão. Complexo porque para o meu pai, a nossa situação hoje tem peso de castigo.  De um “preço alto” que estamos pagando. É complexo porque nunca antes na minha vida eu quis tanto pegar meu pai no colo, e embalar seu pranto, como só as mães conseguem fazer.

E eu não consigo fazê-lo. Basta-me apenas, a difícil tarefa de acompanhá-lo em seu ritual de manutenção na lápide do meu irmão – enquanto ele cuidadosamente remove as velhas flores, e troca por botões novos, que ele ressalta constantemente, durar muito do que as flores normais. Um fornecedor novo, que ele comenta ter descoberto, falando com orgulho. Ele então lava bem o potinho das flores, e esconde as orgânicas, com flores artificiais – já que as naturais são proibidas naquele espaço. Meu pai jamais deixaria meu irmão com flores de plástico, ainda que isso agisse contra as regras do próprio céu. E eu fico lá com o coração na mão, vigiando o seu empenho e sapequice  ao quebrar o protocolo daquele local de descanso.

Entre uma tarefa e outra que ele executa com precisão cirúrgica, ele fuma um cigarro. Eu engasgo o choro para dentro, enquanto vejo-o soprar a fumacinha em direção à fenda de pedra, para o caso do meu irmão – também fumante – sentisse falta de um barato proveniente dos vícios terrenos. Fico escutando suas dores, pensando em mil maneiras de aliviá-las, admitindo e aguentando as minhas próprias limitações, de que tudo que eu posso fazer pelo meu pai, estou … ali, ficando do seu lado. Escutando e entendendo. Desmistificando pouco a pouco a ideia que ele tem de que a partida do meu irmão seja um castigo, mas muito mais uma evolução, reconhecida pela entidade mais sagrada na vida e depois dela. Pelo meu pai eu finjo ser forte, mesmo quando ser forte, seria a minha última opção.

Talvez essa seja a lição mais difícil a ser aprendida, e por isso não aprendemos a cuidar dos nossos pais desde cedo. Porque a gente precisa ter a ilusão de que eles são fortes o tempo todo, para que a gente vá descobrindo a nossa própria força. Força essa, que um dia será útil até para cuidar deles, dos nossos pais.

Nesse dia dos pais eu queria agradecer a todos os pais que fingiram força pelos seus filhos uma vida inteira, mesmo quando era a sua última opção. Fingiram força, engoliram o choro, adiaram planos, parcelaram desejos, e entregaram tudo que era seu, para que nós, seus filhos, tivéssemos todas as chances de felicidade e oportunidades de sucesso deste mundo. E o meu pai sempre foi esse cara. Com todos os seus defeitos e limitações, ele sempre esteve do meu lado cuidando de mim, fingindo que era forte para enfrentar tudo.

E eu vou fazer o mesmo por ele.  Vai ficar tudo bem, pai.


Fim da sessão.

Um abraço apertado aos pais presentes e atuantes – aqueles que são os nossos heróis tão humanos.

Eu adoro aeroporto

– “Filha, não precisa me buscar no aeroporto. Eu pego o trem”.

– “De jeito, nenhum, mãe. Eu faço questão”.

Ela encerra a ligação agradecida, ainda que não tivesse tido tempo de explicar. Não que eu não fizesse questão de dar uma carona para a minha mãe, mas naquele contexto, o que eu fazia questão ali, era o aeroporto.

Eu adoro aeroporto. Gente chegando, gente indo embora. Pessoas se despedindo com lágrimas nos olhos, ou se reencontrando com sorrisos largos. Últimos beijos, primeiros abraços. Adoro chegar com antecedência e me pôr a vislumbrar histórias de partidas e chegadas, ou mesmo de inventá-las, com roteiros elaborados, dignos de blockbusters. Eu me sento com o meu pão de queijo ultra-inflacionado, um café expresso e observo os passos apressados seguidos de malas, mochilas, bolsas e travesseiros de pescoço.

Faço uma leitura visual dos passageiros, e simulo seus itinerários. “Aquela ali vai viajar pra longe da família pela primeira vez, pelo pranto da mãe. Europa, pelo tamanho da mala. Ninguém vai pra Austrália com tudo aquilo.”– concluo. “As pranchas daqueles lá indicam uma surf-trip dos amigos. Chile, provavelmente, um deles derrubou a roupa de borracha tipo long.  Mas o chapéu de palha do outro acusa que pode ser El Salvador.” “O cara de terno e micro-mala vai a São Paulo a negócios. Pela cara dele, ele trocaria a selva de pedras por qualquer mar do Caribe”. Talvez eu também devesse conhecer o Caribe…

“A Infraero informa…”. Pronto, sou retirada do meu mundo de simulações pela voz metálica da moça da Infraero. Eu adoro tudo que a Infraero informa. O tráfico de aviões, os atrasos, as chegadas antecipadas, as trocas de portões de embarque – ainda que eu nunca escute os avisos quando deveria. Esses áudios são musica para os meus ouvidos, mesmo quando em alguns aeroportos eu não entenda tudo que dizem.

Como em Abu-Dhabi, quando perdi a versão em inglês do anúncio de que trocaram a minha conexão para a Tailândia e eu quase perdi meu voo, não fosse por uma burca-preta tímida e gentil, que me apontou o telão que anunciava a informação. “Como se vai de burca para a Tailândia?”, pensava enquanto nós duas corríamos para o portão certo. Ou da vez que anunciaram em um belíssimo italiano que o aeroporto fechava durante a madrugada, e eu tive que dormir no meu saco de dormir no chão, junto as minhas amigas aranhas, sem ter como sair do recinto para um lugar mais confortável. No fundo eu estava em casa, dentro de um aeroporto. Entre a Roma e Istambul, o que eu tinha para reclamar (além as aranhas…)?

Gosto da expectativa inebriante destes saguões.  Encaro os telões cheios de voos separados apenas por alguns minutos, que chegam de todas as partes do mundo. Penso nos céus que cruzam, nos oceanos que sobrevoam. Faço uma lista mental de onde eu iria se não me sobrassem responsabilidades e me faltassem dólares, euros, yuans. Meu estômago pula, cada vez que os letreiros trocam números de voos e destinos. Penso nos aeroportos que já receberam a minha alegria, o meu cansaço, o meu atraso, e de que não existe pior sensação no mundo do que chegar atrasado em um aeroporto, e ficar pra trás em Barcelona. Bem, isso até descobrir um boteco que servia sangrias baratas até o próximo voo (caríssimo) disponível. Eu adoro aeroporto.

E de aeroporto em aeroporto, eu faço planos infalíveis de dominação do globo. De juntar milhas com a mesma euforia de quem junta horas na fila do scanner. Eu sempre temo ter esquecido um líquido sagrado na mochila, que possivelmente terá de ficar ao lado da máquina de raio-x para descarte, até me lembrar que eu gasto os meus bocados muito mais com drinks do que com cremes caros. Eu me tremelico toda nas conferencias de passaporte. Já esqueci meu próprio nome em duas ocasiões distintas (talvez eu deva escrevê-lo na minha mão, na próxima). Eu sempre acho que vou ser confundida com uma prostituta em Madrid, uma traficante em Paris, confundida por sóbria demais para a Escócia, ou vítima da Ebola na saída da Johanesburgo. E eu nunca fiquei mais que 7 perguntas e alguns minutos suando frio nestes interrogatórios. É a síndrome do “não vou passar do aeroporto”. Ainda que eu adore aeroporto.

Adoro os pátios de aeroporto. Do cheiro de aventura. Cheio de aventura misturada com gasolina de aviação. Eu nunca liguei para carros, mas sou bem Maria-Gasolina-de-Aviação. É meu perfume favorito. Adoro o barulho vibratório de turbinas. O vento bagunçando o meu cabelo entre a sala de espera e um avião.  A sensação de inquietude que me causa. E se o vento faz voar um avião, imagina o que faz com as borboletas da minha barriga.  Elas voam, voam, voam, sem precisar de carona de boeing ou airbus algum.

Aeroportos me tiram do meu fuso. Quero abordar turistas e interroga-los em inglês, apenas pelo prazer que sinto do idioma dançando na minha língua. Eu me abalo cada vez que me despeço de alguém nele, nem que seja a minha mãe visitando a minha vó – abraço-a como se ela fosse cruzar o Atlântico – e a minha vó mora em Uberlândia. É culpa do aeroporto. Encaro sem vergonha os beijos apaixonados de casais recém juntados por uma conexão. Tenho vontade de abraçar famílias que nem conheço, quando recebem seus entes queridos com faixas, balões e buzinas. Celebro o reencontro deles dentro da minha cabeça, segurando a vontade maluca de me jogar junto no montinho de abraços desconhecidos. Ali, naquele desembarque onde tantas vezes o meu irmão me esperou na porta, com sua cara de sono,  o Django no colo e sorriso receptivo.  Onde me despedi de tanta gente, e reencontrei as melhores amigas do mundo.  Eu adoro aeroporto. São inícios, são meios, são fins.

Aeroporto é minha praia. Meu imaginário construído sobre concreto e asas. Ahhh são meus pés no chão e a cabeça no céu. Aeroporto é a confirmação em matéria física de que tudo é transitório, passageiro. Passageiro, sabe,  assim como você e eu.

Fim da sessão.


– “Oi filha! Tá aqui há muito tempo me esperando?”

– “Não mãe, cheguei às 11h.”

– “Mas eu te disse que o voo chegava só às 12h45.”

– “Não te preocupa, mãe. Eu tava aqui viajando.”

– “E esse cartaz?” – referindo-se a folha de papel branco com os dizeres “BEM-VINDA, MAMÃE” que eu segurava em frente ao portão de desembarque.

– “Eu gosto de celebrar reencontros.”

Ela me olha confusa – “Mas filha, eu fiquei menos de uma semana fora.”

– “Ah, mãe. Eu adoro aeroporto.”