A arte de decepcionar

Dia desses mandei uma mensagem arriadinha para uma amiga, sobre um antigo affaire que havia casado na Tailândia. No outro dia, o comentário dela foi longe de ser uma piada. Lembrou-me de que eu havia me esquecido de seu aniversário, que não havia ligado para o namorado dela, um grande amigo meu, cuja mãe estava doente. Pontuou duramente que enquanto eu perdia tempo com o meu passado (ainda que brevemente), eu estava dedicando menos tempo às pessoas que realmente importavam na minha vida, no presente.

Entre todas as incertezas que aquela crítica incendiou, uma certeza permaneceu, a de que sou perita na arte de decepcionar.

Eu sempre representei a decepção de muita gente. Eu falo demais e muito alto, e isso já decepciona uma pá de pessoas. Tenho uma veia crítica aguçada, que não é a preferida de ninguém. E as minhas escolhas… bem, essas promoveram também uma série de decepções por toda a minha vida. Mas essa é a beleza e risco do livre arbítrio, é impossível agradar todo mundo. Expectativa é tipo, física: dois corpos “não se agradam” do mesmo lugar ao mesmo tempo.

Acho que o maior rompante do que significava decepcionar, eu aprendi aos 18 anos. Eu fui uma grande decepção pro meu pai quando perdi minha virgindade, ainda que o evento fosse previsível. Nunca achei que meu hímen rompido pudesse doer mais alguém do que em mim, mas aparentemente doeu no meu pai. A partir dali eu entendi que as minhas escolhas – ainda que muito minhas, decepcionariam as pessoas que eu amo. Uma decepção tão grande quanto esta, aconteceu muitos anos depois, quando eu, herdeira da empresa familiar, decidi que meu destino profissional era outro. Você não passa uma vida inteira de escolhas, ilesa de decepcionar profundamente alguém que ama.

Fui decepção pros meus irmãos sempre que não quis emprestar meus brinquedos, meu carro, ou meu tempo – e ninguém além deles teve e tem tanto de mim, ironicamente. Eu sou uma decepção para a minha mãe, toda vez que ela furtivamente inspeciona o meu quarto, e encontra a “organização artística” que faço com as minhas roupas em cima da minha cama. Acho que ela se decepciona também toda vez que eu saio sem batom, ou acendo um cigarro. E vou dizer, em menor ou maior escala, não tem nada pior que decepção de mãe.

Eu sou uma definitiva decepção para o padrão de beleza que me impõem, já que eu gosto muito mais de carboidrato do que abdominais.

Eu decepciono a minha família que mora longe, porque eu nunca visito – ainda que eles também nunca apareçam. Sou a decepção das feministas toda vez que beijo um machista, ainda que discorde de quase tudo que sai da boca dele, com exceção de sua língua. Sou a decepção dos vegetarianos pela minha tara por uma costela, e meu tesão por um vazio. Sou decepção dos meus amigos gremistas ou colorados em razão de nunca ter escolhido por nenhum deles (ou qualquer outro time). Sou uma decepção para as minhas amigas sempre que não atendo a um(a)aniversário/ casamento/mudança/expectativa. Ou quando decido falar aquilo que acredito, muito mais do que aquilo que elas querem ouvir.

Sou uma decepção pras minhas parceiras de boteco, toda vez que decido me aquietar. Sou uma decepção eterna para aquele ex-namorado cuja história ficou mal acabada (e que ainda promove discussões acaloradas, seguidas de um “vai escrever mediocridades naquele teu ‘bloguezinho’”). Eu sou, inclusive, a decepção de muita leitora que acompanha o blog e que presencialmente, conclui “que eu não sou tão querida assim”. E de fato não sou. Não sou tão pontual, nem tão disposta. Nem tão gentil, nem tão ponderada. Bem, nem sempre. E não tendo a orientação prévia da escala de expectativa de cada uma das minhas intersecções, eu vou seguir sendo, muitas vezes, uma decepção.

Isso porque para ser uma decepção, basta ter a característica básica da humanidade. Somada a uma expectativa, essa que sabe como ninguém, ser a mãe da merda. Talvez por isso hoje, eu tenha maior tendência a decepcionar do que ser decepcionada. Porque eu já aceitei que todo mundo é humano e sucessível a falhas, e que contexto sempre ajuda a aliviar a frustração. Contexto, ponto de vista, empatia. E também que é muito melhor criar codornas, do que expectativas. Pessoas em que depositamos/apoiamos nossos planos e sonhos não são estruturas de ferro e concreto, são apenas pessoas, de carne e osso.

Fato é que a gente passa a vida acorrentada às expectativas do outro, o que na maioria das vezes resulta em enormes doses de culpa e rancor. E esses sentimentos são demasiadamente amargos e pesados pra ditar regra para as nossas relações.

Bom mesmo é viver a vida acreditando que está fazendo o melhor que se pode, ponderando as expectativas alheias e sendo tolerante com a nossa humanidade.

A gente cresce decepcionando e sendo decepcionado. E entender o valor deste aprendizado dolorido – é uma arte.

Fim da sessão.


ps: Ei, ex-namorado, escrevi sobre você no meu “bloguezinho”. Pelo menos nisso não te decepcionei 😉

Miga, sua loca [coisa de antônia]

Hoje o Coisa de Antônia no ATL Girls faz uma homenagem a essa loucura chamada amizade. Miga, sua loca, hoje é nosso dia!

Clique na imagem:

Miga, sua loca (1)

7 segundos

Eu tenho uma obsessão por momentos que desafiam as métricas do relógio. Sabe, aqueles instantes cujas emoções são tão intensas, as expectativas tão palpáveis, que o tempo parece desacelerar? Eu vivo por momentos assim. Guardo-os todos em caixinhas estofadas do meu coração, como recordações das mais queridas. Adoro quando as borboletas na minha barriga alçam voo e me fazem levitar por alguns segundos nesses recortes da vida real. Eu corro o tempo todo, mas em raros momentos da vida, eu tomo o meu tempo vendo ele se arrastar, deliciosamente. Dentre os meus preferidos… aqueles preciosos 7 segundos antes de beijar alguém pela primeira vez.

A principio 7 segundos não parecem nada. Presumo que nada de relevante possa ser efetivado em tão pouco tempo. Mas aqueles 7 segundos efervescentes entre uma boca e outra, esses sim, podem ter a magnitude de 7 horas, 7 dias. É neste pequeno intervalo de tempo que o rosto chega tão perto de outro rosto, que é possível sentir o cheiro da pessoa pela primeira vez. E aqui não estou falando sobre perfume, desodorante, ou pós-barba. É o cheio do beijo da pessoa. Uma mistura que pode variar um bocado, entre um chiclete furtivamente adicionado, prevendo o encontro dos hálitos. Ou o gosto de cerveja, de vinho, de café, de chocolate, o gosto de alguém. É a química do beijo sem beijar. Um perfume quente e intenso que vem da boca, e aquece o momento antes mesmo dele começar.

Durante estes rápidos e longínquos movimentos dos ponteiros, é quando acontece o posicionamento das mãos, prevendo a moldura do beijo. Moldura que normalmente é feita através de um abraço, um entrelaço. É claro que essa dança começa muito antes dos 7 segundos, com toques suaves aqui e ali, sorrisos convidativos, um caminho a ser sutilmente tateado.  Uma mão nas costas, ou na cintura. Talvez um joelho tímido encostado no outro, testando a permissão, aproximação, o aconchego. Não gosto do “chegar-chegando” de supetão. Gosto de toques que pouco a pouco se constroem, se permitem, se enroscam. Adoro lugares com música alta que possibilitam cochichos no ouvido, completamente justificáveis. Musica alta é a desculpa perfeita para chegar mais perto da orelha, aquela que fica tão perto do pescoço. E o pescoço é um ótimo lugar para iniciar a jornada dos 7 segundos.

Nesta fração de tempo, os olhares ficam perdidos, entre boca e outro par de olhos. É tempo suficiente para não ser uma intimada, mas longo o bastante para confirmar o interesse. Gosto quando os olhos avisam gentilmente que o melhor está por vir. Carregados de excitação pela novidade, e a confiança de que beijo na boca tende a ser sempre bom. Eu adoro olhares pré-primeiro beijo. São confusos, e atrapalhados, mas ao mesmo tempo seguros do objetivo comum. Gosto do leve ar de embriagados que estes olhos têm, de quem está louco para matar a sede no outro. Piscadelas, olhares 43, cílios tocando no famoso “beijo de borboleta”. São as janelas da alma gritando “vai acontecer” ou pedindo “chega mais perto”. A respiração acelera, o coração sapateia.

Esses 7 segundos são o mais puro estado de graça. Talvez porque ali as expectativas estejam intimamente ligadas com o presente. Neste pedacinho de tempo, ninguém está preocupado com os beijos do passado que acabaram em corações partidos, ou tão pouco se o beijo em questão será a última boca a ser beijada antes do “felizes para sempre”. Não. 7 segundos antes de um beijo é o mais próximo de estar presente em um momento. É quase um execício de meditação, de inspiração e expiração, antes de chegar a nirvana, aquele estado transcendente onde você é liberado de todos os efeitos do karma e  do senso de si…

7,

6,

5,

4,

3,

2,

1.

E o melhor está por vir. Fim da contagem. Fim da espera. Fim da expectativa.

Fim da sessão


Ps: Hoje a sessão foi curtinha. Porque alguns momentos da vida não precisam de muito para se eternizarem.

Cinderela Americana – uma opereta croata

9:45 os motores da balsa ligam. Tempo estimado de chegada em Dubrovnik: 18:45. Faça as contas.

Era a minha segunda parada da Croácia, após o que foi um sonho chamado Jelsa (que merece um capitulo a parte). Frustrada com a perda do meu bilhete de railtrain que valia 550 euros e representava o meu passe-livre pela Europa, achei uma cadeira naquela balsa para dormir um pouco, e assim fingir por um minuto que não tinha perdido meu principal documento naquela viagem que estava apenas na metade. Uma menina com a pele naturalmente bronzeada e olhos de oliveiras me pergunta se pode sentar-se ao meu lado. Eu concordo, viro-me para o outro lado e desmaio em sono profundo.

O sol do meio-dia me desperta. Eu estava prestes a fechar as cortinas, mas a vista era surpreendente demais para ser ignorada.  Montanhas enormes de rochas brancas, pequenas ilhotas e as águas do mar verde-azul brilhante. Mihaela, a bela garota croata sentada ao meu lado, sorri para a minha cara de sono. “Você gosta?” – referindo-se a visão da janela  “O que não amar nesta vista?!”  respondi atônita.  Pegamos-nos a falar e assim descobri que Mihaela morava em Dubrovnik e trabalhava como fisioterapeuta em Split. Pensei comigo que se ela vivia na maravilhosa Dubrovnik, onde diabos ela devia passar as férias.

Mihaela concorda em vigiar a minha mochila enquanto eu desfrutaria de algum bronzeamento no convés superior. No convés tento adiantar o meu livro, curto um pouco o sol e logo fico entediada – como é esperado após 6h no mar. Mas não por muito tempo. De repente, eu vi esse cara que surpreendentemente preenchia todas as aspirações da minha lista de desejos: cabelos loiros que refletiam de volta para o sol, barba por fazer, queixo quadrado, sorriso largo, abdominais meticulosamente trabalhados e uma pele levemente dourada.  Eu precisava de água. Gelada.

Percebi que aquele deus saído do Olimpo estava com outros três amigos, e como eles estavam sentados ao meu lado, pude perceber que eram americanos. Como Dubrovnik era um dos poucos destinos da minha viagem que eu não tinha reservado alojamento, pensei que seria uma boa ideia verificar onde eles estavam hospedados. Descubro que o grupo era de Chicago. Depois de pegar duas indicações de alojamentos, despedi-me de forma ponderada (apesar do coração palpitando lhufas ao lado do loiro-cor-de-sol) agradecendo as indicações.

Chegando ao porto, Mihaela me mostra algumas casas interessantes pela costa, como uma casa com um elevador de vidro de frente para o mar e outra com um aquário de crocodilos (sim, porque não basta morar em Dubrovnik…) e uma pequena praia deserta onde Mihaela tinha dado seu primeiro beijo. Anotei o e-mail da bela croata no meu livro, torcendo que ela arrumasse um tempo naquele final de semana para um drink.

Despedi-me de Mihaela  e me dirigi ao ponto de ônibus. Uma longa viagem de ônibus lotado depois, chego a Cidade Velha de Dubrovnik. Bato perna por longos minutos pedindo orientações sobre alojamento e nada. Nenhuma chance de uma cama. Frustrada e cansada, me dirijo ao escritório de turismo da cidade quando dou de cara com os americanos novamente. Desculpei-me afirmando que eu não estava seguindo eles, mas que talvez seria uma boa ideia acompanhá-los para verificar a possibilidade de um quarto no hostel deles. Felizmente ao chegar ao nosso destino, o anfitrião gentil e engraçado do local arruma um quarto para mim. Iniciamos bem.

Mochila no chão, banho no corpo, e eu estava na rua para verificar a Cidade Velha. Perdi-me sem rumo nas milhares de arruelas de  Dubrovnik, até chegar a um bar chamado Buza bem em tempo de desfrutar a minha parte favorita do dia: o pôr do sol. Todas as cores lindas do céu, escondendo-se por de trás dos muros enormes de pedra e deitando-se preguiçosas sobre o mar. Percebi também que havia um lugar maravilhoso para saltar na água, e eu fiz uma nota mental para voltar no dia seguinte para um mergulho.

Presenteei-me com um delicioso macarrão para o jantar – o mar entre a Croácia e a Itália, obviamente não era suficiente para mantê-las separadas, já que a maioria dos restaurantes da cidade eram italianos. Cheguei ao alojamento a tempo de conhecer minha nova companheira de quarto. Uma gatinha, que fez questão de dormir dentro da minha mochila. Adormeci entre o ronronar da bichana e as ondas batendo nos rochedos do forte de Dubrovnik.

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No dia seguinte, começo cedo. Alugo um áudio-guia e passeio por toda a cidade, aprendendo  sobre as histórias de batalhas, inovações (primeira farmácia na Europa), ofertas de diplomacia, incêndios e os terremotos de Dubrovnik. Como é que este lugar sobrevivera a tantas lutas e tragédias e ainda assim parecia intocado?  Uma parada para um banho de mar azul anil era perfeito para tirar o cansaço da longa caminhada da manhã. No mar conheço garotas divertidas de Marrocos, que resultou na troca de contatos e um happy hour agendado para mais tarde. No porto velho, me sento em uma das peixarias tradicionais para um almoço rápido – peixes frescos fritos, com muito limão siciliano. Ahhh como eu queria ser Mihaela e morar ali pra sempre.

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Descansei minha preguiça depois do almoço ao lado do porto onde se banham os moradores da cidade. Tomei o meu tempo ao sol, enquanto apreciava o mar lambendo os dedos dos meus pés e deixei a vista massagear meus olhos com suas belezas. Percorri todo o caminho das muralhas da cidade, contando a minha sorte em cada tijolo. Antes de ir de volta para o alojamento, uma parada rápida na delegacia – sim, porque é bem coisa de Antônia precisar fazer uma B.O. da perda de passagem de trem para talvez conseguir acionar o meu seguro.  A aventura burocrática começa. Ninguém na delegacia fala inglês. Ótimo. Converso com um cara que sabia dizer algumas palavras. Papel e caneta e lá estou eu, do outro lado do mundo, escrevendo o meu próprio relatório policial em inglês. Entrego-o a um dos oficiais. 40 minutos e 20 kunas (algo como £ 3) mais tarde, eu finalmente tenho a ocorrência registrada conforme desejado. Bem, não exatamente. O relatório me é entregue em croata. O que diabos eu podia fazer com uma ocorrência policial em croata?

No alojamento, tento traduzir a ocorrência de croata para inglês na internet, quando ouço os americanos pedindo ao nosso anfitrião informações sobre o horário do ônibus para Split, lugar para onde eu voltaria. No meu caminho até a rua para fumar um cigarro, entreguei aos meninos o cronograma de horários de ônibus que tinha encontrado no meu quarto na noite anterior. Pedi o cronograma de volta quando eles terminassem de consultá-lo, para que eu organizasse a minha partida no dia seguinte, também de ônibus, já que sem o meu bilhete de railtrain, voltar de balsa seria muito caro.

De volta ao meu quarto tento contato com as meninas de Marrocos, mas sem sucesso. Quando eu estava aceitando outra noite tranquila com a Nik (a gatinha de Dubrovnik), alguém bate na minha porta. Por de trás da minha porta surgem aqueles grandes olhos azuis e o cabelo loiro-cor-do- sol. Ele me entrega o cronograma do ônibus em meio a um largo sorriso e me agradece. Antes de sair do meu quarto, me pergunta se eu tinha planos para aquela noite, e se eu gostaria de jantar com ele e seus amigos em meia hora. Agradeci-lhe educadamente, mas disse-lhe que eu já tinha comido. “Bebidas então?” – sugere. Como dizer não pra alguém que brilha como o sol? “Claro, me avisem quando saírem”.

30 minutos mais tarde, quatro rapazes estavam prontos para jantar ao lado da minha porta. Pergunto ao loiro se o convite ainda estava de pé, e ele faz uma cara de pensativo e dá uma piscadinha. Amoleço discretamente (assim espero). E foi assim então que eu conheci oficialmente Luke (também chamado mentalmente por mim de “blondie”, loirinho), Nick, Matthew e Tyler.

A partir dali foi uma noite de jazz e conversa fiada. Passeamos de bar em bar, e concordamos que Dubrovnik apesar de incrível, era uma cidade de noite pacata e destino de férias de muitos casais. Sugiro então pub irlandês ao lado do nosso alojamento. Afinal, sabia pela minha experiência com os irlandeses, que o pub não nos decepcionaria. E não decepcionou. Lá, doses cavalares de cerveja, muito bate-papo, e nossas listas de TOP-5 de pessoas com quem transaríamos – e uma pausa enorme para todos rirem da minha atração por Vin Diesel (me julguem!).  Bombas de Jägermeister  (RedBull + Jägermeister), e pronto, finalmente tínhamos uma festa.

Horas mais tarde, o pub irlandês finalmente nos expulsa e seguimos em direção ao alojamento assumindo a nossa derrota. Luke sugere mais uma cerveja que ele tem em seu quarto, mas os outros estão muito cansados e desistem. Permaneço em silêncio tentando não ser sempre a última dos moicanos da noitada. Um cigarro depois, Matthew, Nick e Taylor dizem boa noite, Luke e eu ficamos para mais um. Sentados nas escadas de pedra da Cidade Velha, conversamos sobre o gosto de Luke por drinks tipicamente femininos e seu novo apelido, “blondie”. Ele ri e diz que gosta de como eu sou direta e digo tudo o que eu penso (rio sem graça, já que aquilo nunca tinha me sido dito como um elogio).

Ele então sugere uma última cerveja,  e eu concordo. No meu quarto a cerveja dele brindou a minha pequena garrafa de absinto de Praga. Luke me contou sobre suas lutas greco-romanas, o quanto ele gostava de tocar guitarra, e sua futura carreira como um consultor. Nós mostramos nossas playslists mais tocadas, ele me apresentou sua banda favorita. Todo o tempo eu não pude deixar de sorrir olhando para a luz da lua cheia que entrava pela minha janela e refletia nos belos olhos verdes-azuis dele. Assim como o mar croata. O resto da noite… bem, isso fica entre o Luke, eu e a lua cheia.

Na manhã seguinte, levanto cedo para pegar o ônibus de volta a Split. Arrumo tudo correndo, e percebo pertences que não são meus. Um par de tênis.  “Luke”, penso imediatamente. Mochila nas costas, deixo o par de tênis no corredor em frente a sua porta, com um bilhete de despedidas.

Achei que Cinderela deixava apenas um dos sapatos. Foi um prazer, blondie. Até a próxima. Beijos, Antônia”.

Pé na estrada de novo .

Não quis me despedir pessoalmente do Luke, ainda que tenha o beijado longamente antes de ele ir para o quarto dele na noite anterior. Abri mão do “bom-dia” constrangido, daqueles de quem se divertiu na noite anterior, mas não tem intimidade suficiente para admiti-lo. Preferi guardar o Luke na minha memória, sob a luz da lua e promessas de reencontro. Talvez em outro lugar com um mar tão lindo quanto o de Dubrovnik, para combinar com os seus olhos azul-Adriático.

Peguei o caminho triste da estação de ônibus, triste como nunca em toda a minha viagem. Eu tive que deixar a Croácia, e toda a diversão e belezas  pra trás, rumo ao meu infortúnio destino de voltar para Londres, já que sem meu bilhete de trem, não poderia seguir viagem.

No porto de Split decidi que não faria mal verificar qualquer novidade no escritório que já havia me confirmado por telefone nunca ter encontrado o meu bilhete. Ainda que tivesse sido o último lugar que lembrava de ter pego o maldito bilhete de railtrain. Lá expliquei a menina a minha situação, dei-lhe meus dados e ela logo começou a procura-lo ao redor das mesas e prateleiras, sem sucesso. Batendo a cabeça na parede do escritório, eu estava prestes a dizer a menina para não perder o seu tempo, quando a sorte bateu na minha cara – literalmente. Fixado na mesma parede em que eu batia a cabeça, em frente aos meus olhos, estava o bilhete perdido. Eu não podia acreditar! Agarrei o bilhete e a menina, e rodopiei ambos no ar em euforia.

Com meu bilhete e passaporte na mão, peguei o ferry rumo à Itália. Atravessando o Mar Adriático no deck superior dei adeus à Croácia e seu pôr do sol rosado, agradecendo o país por ter sido tão generoso comigo, enquanto encarei incrédula a beleza do sol se pondo pra mim atrás de suas montanhas pela última vez.

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Bem. Pelo menos até a próxima vez. 😉 Hvala, Croácia. Hvala.


Fim da sessão

ps: A ocorrência em croata está emoldurada e pendurada no meu quarto. Um lembrança do meu talento para o drama e da minha sorte.

A geração dos cagalhões | Coisa de Antônia

Hoje no Coisa de Antônia no ATL Girls da Rede Atlântida, um olhar sobre gerações, medos e coragens. Toma coragem e pula pra lá:

A geração dos cagalhões

 

Não cresça!

Mateus e Murilo, essa é uma carta aberta a vocês. Nesta semana, vocês completam 6 aninhos, e confesso, a mana está apavorada. Apavorada porque vocês agora usam duas mãos quando indicam a idade com os dedinhos. E duas mãos me assustam, porque contam até o 10, e 10 já tá logo ali e aí entramos na pré-adolescência. No auge dos 31 anos, a mana não sabe se é adulta o suficiente para lidar com pré-adolescentes. Pré-adolescentes fedem, tem pelos em lugares estranhos, batem punheta e discordam de tudo. Eu sei, porque eu fui assim, com exceção da punheta. Então queridos irmãozinhos, rogo-lhes, não tenham pressa em crescer – entretanto se não puderem evitar, aqui vão algumas dicas de quem cresceu muito mais rápido do que gostaria.

Não briguem com seus irmãos. Não importam quem pegou o que de quem, arrumem um jeito de conversar, em especial, de dividir. Não percam essa linguagem particular de gestos, olhares e palavras que só vocês dois entendem. E não a cultivem porque vocês dois são gêmeos, eu sempre tive meu vocabulário com o mano Léo, que nos acompanhou até a vida adulta, para o conforto do meu coração.  Celebrem as piadas internas, e as histórias que vocês dividem – aliás, entre vocês dois, e por favor, guardem as histórias com os manos mais velhos. Eu mesma já sinto saudade do tempo que vocês nem tinham cabelo e faziam guerra de polenta – e isso me parece que foi ontem.

Meninos, não cresçam a ponto de entender, ou pior, de se meter nos assuntos da mamãe e do papai. Acreditem, isso nunca é bom. Em algum momento vocês vão se dar conta de que eles não formam uma unidade a prova de falhas – não os condenem, numa coisa eles vão sempre concordar, que é o quanto amam vocês. Não tomem partido, e também não fiquem alheios às suas diferenças. Sejam tolerantes com os erros deles. Vocês vão descobrir mais cedo ou mais tarde, que eles são crianças como vocês – já diria Renato Russo. Ah, ouçam Renato Russo, em alguma fase da vida de vocês.

Aceitem desde cedo que mãe tem sempre razão – mesma quando ela estiver errada. Se ela mandar botar casaco e vocês desobedecerem, acredite, uma nevasca divina será enviada para provar que ela está sempre certa. Aliás, a maioria de nós leva muitos anos para admitir, mas ninguém escapa do “eu te avisei” quando a vida prova de novo, e mais uma vez, que a mulher acerta mais que o Polvo Paul na Copa. Conversem com ela e nunca mintam. E se acharem que por algum motivo não podem falar com ela, procurem a mana, mas nunca – nunca –  mantenham segredos quando o tema for a integridade de vocês. Estudem. Nem tanto quando o mano Léo, e nem tão pouco quando a mana. Achem equilíbrio entre deveres e diversão. Pratiquem esportes, ainda que não gostem. Vocês aprenderão a gostar com o tempo, do contrário vão sentir falta de disciplina na vida adulta, se não a praticarem desde cedo. Não usem drogas e não fumem. Vícios não tem nada de glamour, não são legais, e não fazem vocês mais bacanas. Bebam álcool depois da idade permitida – vocês tem todo o tempo do mundo para ficar de ressaca (e nem pensem que eu vou aliviar na fiscalização). Façam amigos. Muitos amigos.

Sejam gentis com as pessoas. Aprendam desde cedo a tolerar as diferenças, aliás, aprendam a admirá-las.

Mateus goste das cores e brinquedos que você quiser, não importa o que digam, seja você mesmo. Murilo, siga insistindo nos porquês e não sossegue até você entender tudo que precisa saber do mundo, mantenha-se curioso. Murilo, não leve a vida tão a sério. Mateus, não desista na primeira tentativa. Murilo, pegue leve com seu irmão quando a desempenho, e Mateus, pare de dedurar o seu irmão – vocês dois são cúmplices de crime. Mateus siga inventando novas rimas, mesmo depois de adulto, pois elas vão embalar os dias mais tediosos. Murilo continuas determinado, e não te preocupas em ser o melhor em tudo. Pinta o 7, Mateus, e foco nos idiomas como francês, inglês e espanhol, que tu já ensaia tuas palavrinhas preferidas. Murilo quebra tudo no futebol e nos “músculos” que tu orgulhosamente já cultiva (e imagina).

Escutem os mais velhos, ajudem os mais desfavorecidos. Muito respeito com as meninas, ou serei a primeira a dar-lhes uma bela dura. Sejam gratos, sempre, por cada tombo ou salto. Não preocupem-se com o futuro – piegas – mas por vivermos preocupados com o futuro ou arrependidos do passado, a minha geração hoje oscila entre a ansiedade e a depressão, e goza pouco do presente. Usem menos as redes sociais – definitivamente MUITO menos que eu – e façam mais programações ao ar livre. Não trabalhem por dinheiro, mas entendam que ele é importante. Viagem. Para todos os lugares que puderem. E não perambulem pelo mundo sem entender a história dele. Aprendam idiomas. Respirem outras culturas. Não façam juízo de valor por conta de etnia, aparência, condição social ou orientação sexual.

Usem filtro solar e tomem água. Plantem árvores. Se arrependam menos, e pelo amor de Deus, não se julguem tanto quando eu – levou anos, mas hoje eu sei que fui a minha pior crítica.  Insistam em tentar o melhor que puderem, e deixar rolar se o plano não der certo. Cometam seus próprios erros, ainda que eu queira protegê-los de todos eles. E discordem de mim sempre que precisarem – mas acreditem em mim quando eu digo, não cresçam. Pelo menos não completamente.  Vocês não precisam acreditar na fada do dente  a vida toda (spoiler – é a mamãe, e ela corre ruas e ruas para achar as tais moedas de chocolate), mas sigam acreditando nas pessoas. Vocês não precisam levar a vida na flauta, mas nunca deixem de brincar.  Evoluam, desenvolvam-se, mas nunca, nunquinha, deixe a criança que há em vocês crescer. É dela que depende a bondade e alegria que o mundo precisa.


Fim da sessão

PS: Ok, Esqueça a baboseira acima. Não cresçam por que a mana quer vocês embaixo da asa dela pra sempre. (Sorriso amarelo aqui).