Os 3 caras que me fizeram broxar | Coisa de Antônia

O Gildo, o Frota e o Caio são os caras que me fizeram broxar. Quer saber o que eles fizeram de errado? Pula lá no ATL Girls da Rede Atlântida, clicando na imagem abaixo:

Os 3 caras que me fizeram broxar

Despatriados

A todos vocês que estão tomando coragem de botar o pé na estrada, não me levem a mal, mas vocês estão enfrentando a parte mais fácil do processo. A crise econômica brasileira é quase um trampolim para tupiniquins finalmente tomaram coragem de fazerem as malas, investirem naquele curso de línguas, na pós-graduação ou naquele ano sabático que sempre sonharam. Digo-lhes com certeza, não se assustem! Essa é a parte mais tranquila e promissora. Ok, vai-lhes causar aquele medo/borboletas na barriga por um bom tempo. Você vai se sentir perdido muitas vezes, tentando chegar em casa ou simplesmente aprendendo sobre a intrincada teia que representa o transporte público de países desenvolvidos. Vai dar algumas mancadas até aprender as novas regras do país, e definitivamente vai colecionar gafes até entender em alguma extensão um pouco da nova cultura. Mas vai passar. A evolução é natural, e logo, tudo aquilo que antes lhe era estranho, você vai chamar de lar.

Morar fora, por um curto ou longo período, é como planejar o próprio exílio. Sim, porque você nunca mais será a mesma pessoa depois da experiência. Vai sofrer da maldição de ter o coração sempre dividido em dois (ou mil). Entre cá e lá. Entre ir embora e ficar. Entre permanecer ou mudar. Vai ser sempre amargo e doce. Chegadas e partidas. Reencontros e despedidas. Vai ter que abrir mão dos eventos importantes da família e dos amigos, vai perder aniversários e casamentos, talvez atrasar aquele velho sonho de comprar coisas – carro, apartamento, casa na praia. Ou vai decidir que não precisa de nada disso, e vai seguir investindo em “ver/viver coisas” mais do que “tê-las”. Ou seja, vai ser um eterno confuso, afinal, não dá pra ter tudo fora da zona de conforto. E uma vez morando fora do seu país, você será para toda vida um despatriado.

A pior parte de ser um despatriado, entretanto, não é a partida ou a adaptação ao novo cenário, mas o momento em que você retorna de onde saiu. Entenda, eu sei disso, porque carrego na bolsa até hoje as chaves da minha casa no bairro londrino de Bermondsey e ando com meu Oyester Card dentro do carro, assim, no caso de eu ter que pegar o tube e voltar para a terra do Big Ben por alguma emergência do destino (e já fazem 5 anos que eu regressei ao Brasil – me julguem!). Sou daquelas que tem ciúmes quando alguém me diz vai visitar Londres. Ok, talvez eu seja um caso exagerado de despatriada. E calma lá, isso não quer dizer que eu não gosto do Brasil, não ame estar próximo a minha família, ou que tenha me arrependido de ter ido, ou sequer, de ter voltado. Não é isso. O problema, é que como todo despatriado, eu nunca mais tive certeza de se queria firmar raízes nem cá, e nem lá. A vida se tornou mais volátil, eu mais adaptável, e justamente dada a multiplicidade de possibilidades, o meu coração cigano, ficou no mínimo, atrapalhado.

Quando você volta a morar no seu país de origem, é normal colecionar manias estranhas e por vezes inconvenientes. Você compara a sua terra natal com a terra de escolha em quase tudo, e segura a língua frequentemente na frente dos amigos, toda vez que pensa em dizer “Lá em Londres/Barcelona/Roma/Austrália, não é assim, é assado”, afinal já cansou dos sorrisos amarelos que recebe sempre que solta a pérola. Você tenta, de maneira maluca, adaptar a sua versão de lá de fora no Brasil. Todo mundo acredita que “morar na gringa”, faz da gente pessoas melhores (e na maioria das vezes, faz mesmo –  “é preciso ir embora“). Acontece que é bem comum também ter extrema dificuldade de aplicar todo o nosso bom senso e disciplina aprendido, quando se decide voltar pra casa. A maioria de nós bota a culpa na cultura ou no sistema, e desabafa que “o Brasil não tem jeito mesmo”, enquanto decide não reciclar mais o lixo porque o vizinho não o faz.

Eu sei, é um retorno cheio de expectativas e muitas vezes, com certa dose de frustrações com outros e com a gente mesmo. A maioria dos seus amigos já casou ou se reproduziu enquanto você estava fora, ao passo de que você fica com a sensação de que se tornou um adolescente mochileiro que perdeu o timing, e que pensa em trocar chás de fraldas e de casa nova, por pontos de milhagens de companhia área. Vive com a cabeça no mundo da lua, e arruma qualquer desculpa para planejar a próxima viagem. Despatriado é bem assim mesmo. Fica caçando pessoas na rua que falem o idioma que você aprendeu no exterior, e propõe/impõe conversas sem qualquer acanhamento. Quantas vezes peguei-me interagindo com estranhos pelo simples prazer de ver a minha segunda língua desenferrujada. Pareço um cachorro pidão, que ao invés de pedir comida, implora por verbo to-be e slangs. Eu sinto falta de usar “fucking” nas minhas frases. Adorava ver meu inglês variar entre a polidez do MBA e a bagaceirice do pub.

Sexta-feira passada, acordei com o peito de uma despatriada ainda mais dolorido. A minha segunda casa, a terra que me fez despatriada, deixava a União Europeia. O Reino Unido não parecia mais tão unido, já que se dividiu pela metade na decisão. A Escócia e Irlanda davam sinais de divorcio com a Inglaterra. A ilha mais cosmopolita que eu conheci, agora registrava casos e mais casos de racismo e xenofobia. Senti-me uma filha expulsa de casa. O que é irônico, porque eu como estrangeira, tive minha entrada e saída com tempo determinado – e ainda que eu pudesse ter estendido meu período por lá, foi dentro dos meus termos que eu entrei e sai. Comecei a pensar em todos os despatriados, que fizeram da segunda terra, sua morada para sempre. Aqueles que, ao contrário de mim, não tem mais dúvidas sobre onde querem morar. Pensei nos 2 anos que esse pessoal tem pela frente, vendos britânicos decidirem o destino deles. Se ser um despatriado por escolha própria já é difícil, imagina não ter escolha, como os estrangeiros deslocados ou os refugiados sem pátria?

Hoje de manhã acordei de um sonho lindo. A Rainha Elizabeth me beijava as bochechas enquanto fazíamos selfies em uma das sacadas do Palácio de Kensington. Entendi o sonho como um bom presságio, de que por cima deste referendo, os ingleses irão construir mais pontes do que muros, e vão continuar a ser essa nação misturada e de riqueza cultural incomparável que sempre foram. Espero que o sonho seja o prenuncio de que a “tia Beth” adora estrangeiros, e que não vai deixar seu reino seguir na contramão da globalização. E quero, muito em breve, visitar a Inglaterra e poder olhá-la com o mesmo carinho que sempre tive, e poder falar daquela ilha com o mais alto tom de estima, de quem uma vez foi recebida de braços abertos. E que seja assim em todos os reinos. Mais beijos, e menos divisões.

God save the Queen.


Fim da sessão.


Fim da sessão.

 

Antes de eu morrer | Coisa de Antônia

Já pensou o que você faria se soubesse que tem os dias contados? Eu já. Vem comigo no Coisa de Antônia no ATL Girls da Rede Atlântida, clicando na imagem abaixo:

Antes de eu morrer (1)

A irmã mais velha

Sábado passado caiu a luz lá de casa. Não foi por muito tempo, somente tempo suficiente para o Mateus aparecer na minha cama em um pulo, e o Murilo sair correndo do chuveiro gritando meu nome – “MANAAAAA” – sim porque lá em casa meu nome é “mana”. Enquanto a minha mãe arrumava o disjuntor no andar de baixo, eu no andar de cima, acalmava a dupla. O Murilo, ensopado e enrolado numa toalha, chorava no meu colo desconsolado pela ausência da luz. O Mateus, por outro lado, tentava manter-se forte no escuro, mas não, é claro, sem arrumar um cantinho para sentar-se na segurança do meu joelho. Sugeri contarmos histórias enquanto a luz não voltava. O Murilo discordou, entre uma fungada e outra. Ouvindo a contrariedade do irmão, o Mateus sugeriu brincarmos de mímica, e eu achei graça: “Como podemos brincar de mímica no escuro, Mateus?” Pronto, agora os três caiam na risada.

A luz volta.

Frente à claridade, cada um retorna a seus afazeres. O Mateus voltou para o desenho dele, o Murilo foi tirar o sabão do corpo, e eu voltei pro meu quarto e para o Netflix.  Sem perigo eminente, cada um deles podia seguir seu caminho de forma independente. Frente ao perigo, eu era essencial.  A cena me jogou de volta para a minha infância. Quatro anos mais velha que o meu irmão Leonardo, algumas vezes na nossa juventude eu me peguei encarando a escuridão, tendo certeza de que eu não podia fraquejar. Lembro-me de uma época em que morávamos em um sobrado grande, que tinha um longo e assustador corredor até o banheiro, e de como o Léo sempre me acordava para acompanhá-lo durante o seu xixi no meio da noite. Eu nunca confessei para o meu irmão, mas eu devia ter mais medo do corredor que ele – mas por causa dele, eu ficava corajosa.

Como irmã mais velha de três meninos, eu não consigo minimizar a função deles no fortalecimento do meu caráter. O Leonardo, o Mateus e o Murilo são propulsores ativos da minha evolução. Sempre foram. Se dependesse só de mim, talvez eu não tivesse força ou muito menos coragem para encarar os inúmeros perrengues que a vida nos jogou. Mas esta é a mágica existente entre irmãos: como irmã mais velha, eu nunca me vi com escolha de desistir, e por conta deles, me tornei a mulher forte, determinada e destemida que sou hoje. Ou pelo menos alguém que quando precisa, finge bem todas essas características.

Para cada irmã ou irmão mais velho no mundo, existe um irmão mais novo desafiando a nossa fibra. Eu vi isso acontecer com o Léo, quando ele, por sua vez, se tornou corajoso pelo Murilo e pelo Mateus. A cada tosse medonha que os guris tiveram, o Léo, novato na medicina, acalmava a família frente ao desconhecido. Ninava os dois quando eles tinham suas cólicas. E muitas vezes, confortou seus pequenos corações enfrentado o escuro que precede o sono. O Léo deixou de ser unicamente o meu irmão mais novo, e decidiu ser forte, muito mais forte, como irmão mais velho dos dois pequenos.

Depois de muito tempo sendo irmã mais velha, eu finalmente entendi o que esse laço significava. Irmãos mais novos – hoje sei – não são apenas o link direto com o nosso passado, o nosso compromisso com a nossa história, o nosso cúmplice de crime. Eles são também um trampolim para o futuro. E essas etapas mudam a gente. Irmãos mais novos nos dão um preview do que é ser mãe ou pai de alguém. Ser responsável por outra vida além da nossa. Mostra-nos na prática a importância de dar exemplo, muito mais do que dar ordem. Nos forçam a comer legumes que a gente não gosta, afinal legumes são cruciais para o crescimento – eu, por exemplo, odeio beterraba. Mas como irmã mais velha, eu disfarço o nojinho pela raiz roxa e mando ver com cara de quem tá comendo pizza.

Ao lado dos nossos irmãos, a gente ensaia uma versão melhor da gente mesmo. Fuma escondido para não dar mal exemplo. Usa cinto de segurança, mesmo quando acha que “não precisa”. Na frente dos irmãos toda regra é importante. Foi com os meus irmãos e suas demandas, eu aprendi a deixar de dizer “já vou” e comecei a dizer “estou aqui”. Comecei a me preocupar com a violência, com o perigo de alimentos transgênicos e confesso, depois que virei irmã, eu nunca mais dormir sem pelo menos um olho meio aberto.  Por causa dos meus irmãos, eu comecei a querer mudar o mundo pra melhor.

O mais engraçado é que entre um colo e outro, quando a gente acha que está dando força para eles, está na verdade tomando goles de coragem que eles nos oferecem. Sim, porque não dá pra não ser guerreira(o) por um irmão ou irmã. Nós somos os heróis da vida real. Porque mesmo no meio da escuridão, são os nossos irmãos que promovem a coragem e alegria que a gente precisa na luta pelo esclarecimento. E assim, a luz sempre volta.


Fim da sessão

Hoje decidi dividir uma coisa ainda mais pessoal sobre ser irmã. A mensagem abaixo foi escrita pelo meu irmão – um dos meus escritores favoritos. Nela o Léo me desejava feliz aniversário (pela última vez), como também se admitia no desafio como irmão mais velho (pela primeira vez). É com certeza uma das mensagens que irá me tocar pelo resto da minha vida de irmã mais velha. E eu espero que faça o mesmo com todos os irmãos e irmãs aqui neste divã, para que eles nunca deixem de perceber o valor deste vínculo.

Foto: El Retiro - Jardines del Buen Retiro de Madrid
Foto: El Retiro – Jardines del Buen Retiro de Madrid.
“…e em 1768 o recinto foi aberto pra cidadãos não-nobres desde que estivessem bem vestidos e lavados” era o que dizia sobre esse lugar em um dos guias de viagem baratos que a gente comprava nas banquinhas de cada cidade que chegava.
Definitivamente não era nosso caso. As poucas libras que só nos permitiam voar de Ryanair (e comemorar cada pouso com o avião inteiro) nos davam direito a duas ou três mudas de roupas em uma mini-mala (e mais algumas peças escondidas no meu casaco tamanho gigante-plus). Assim a gente sobrevivia, lavando roupa no chuveiro frio do hostel e torcendo pra secar antes de ter que guardar na mini-mala de novo. Então bem ‘vestidos e lavados’ certamente não era o nosso caso, mas conseguimos entrar e aproveitar o ‘recinto’. Era isso que importava.  A mesma briga no início de cada manhã pra definir o plano do dia se repetia na volta pra casa pra decidir quem ia ver as fotos primeiro.
Era ali que eu percebia que não tinha porque discutir roteiro, na verdade o que realmente tinha valor era quem tava junto comigo durante ele.
E essa pessoa foi tu. Sempre tu.

Não me refiro aos 3 meses da nossa viagem, mas aos 26 anos que completo em breve. Não existiu pessoa que me deu tanto apoio e me defendeu tanto quanto tu, não importava o Atlântico de distância que a gente teve que conviver por três anos ou tu estar do outro lado do mundo, como é o caso de hoje que tu comemora teu aniversário na Austrália. A gente se obrigou a aprender que a distância geográfica é o de menos.

Há 4 anos e meio eu me tornei irmão mais velho, papel que tu exerceu praticamente a tua vida toda e acho que foram poucas as vezes que parei pra te dizer muito obrigado por ter suportado nas costas toda a responsabilidade desse cargo.

Mesmo com todos os acontecimentos dos últimos anos que multiplicaram nossa família, sempre vai ser tua a primeira imagem que me vem a cabeça quando penso na palavra irmão. Tu que não me deixou desistir da Medicina todas as vezes que (de saco cheio) cogitei isso. Tu que com o olho cheio d’água segurou minha mão em março do ano passado enquanto eu saía meio grogue do bloco cirúrgico e deitou naquele sofá duro pra só sair quando eu pudesse sair junto contigo pra casa.

Então além de te parabenizar pelos 30 anos queria te agradecer pelos 26 que tu passou do meu lado.  Nem sempre ‘bem vestidos e lavados’, mas sempre juntos.

Te amo, irmã,  feliz aniversário.

Foto de capa: Orgânico Estúdio

Por que meu gozo te incomoda?

Hoje no Coisa de Antônia do ATL Girls da Rede Atlântida, eu vou gozar bem alto e pra todo mundo ver. Vem também – clique na imagem abaixo:

Por que meu gozo te incomoda- (2)

Você não está sozinh@

Na mesma madrugada que o incidente de Orlando aconteceu, resultando em 50 vítimas fatais na boate gay Pulse, em um terrível atentado a vida, ao amor e a liberdade, eu batia cabelo em um bar local, lugar igualmente frequentado pela comunidade LGBT. O que eu fazia num bar gay? Meus amigos estavam lá. Tinha cerveja gelada. E eu sou da teoria de que “Gay DJs know best”, ou seja, DJs gays sabem melhor. Aliás, diga-se de passagem, eu não precisava de uma justificativa para estar lá, bastava o interesse. A minha vontade. E a liberdade que tenho de ir e vir sem ter que pedir licença para o preconceito alheio.

Eu frequentei e frequento lugares como estes desde o meu amor à primeira vista pelo bairro Soho em Londres, o mais colorido e animado conjunto de bares e boates da capital inglesa. Nunca sofri preconceito por ser hétero nesses lugares, a não ser por um encostão acidental que dei certa vez num cara, quando não estava usando sutiã, e ele gritou “ui… boobs” (ui… seios!) com uma tremenda cara de nojo. Eu levei na boa, e nunca mais fui ao KU Bar (eu adoro o nome!) sem meus protetores de seios. Esse foi o pior episódio, e desde então eu coloquei o peito (ambiguidade aqui) em perspectiva.

Se eles dividiam a pista de dança comigo, por que diabos sofríamos tanto em dividir espaço com [email protected]?

Quando o meu melhor amigo se assumiu, toda a minha estrutura mudou. Isso porque ele teve um receio gigante em me contar (ainda que a gente tenha vivido boa parte da vida juntos – e eu no fundo já soubesse). A partir dali eu recebi a minha educação. Por causa do meu amigo, comecei a ler sobre questões de gênero, sobre apoio e sobre as lutas da comunidade LGBT. Quando mais eu me informava, mais eu fui tendo razões para me juntar a luta. A ponto de nesta segunda-feira pós atentado, receber um inbox questionando “se a minha luta declarada pela causa gay, não seria devido a uma grande vontade minha de sair do armário”. Ri alto, lendo a pergunta. Na cabeça do meu indagador, eu, uma garota hétero, não tinha motivos para rufar tambores pelas cores da bandeira arco-íris. Quanta miopia.

Miopia em especial porque aquela não era a pergunta mais importante. A pergunta que deveria ser feita é por que não estamos TODOS numa luta declara pela causa gay e outras causas de gênero? E assim como fiz questão de esclarecer na minha timeline ontem, disse-lhe (e digo-lhes) que eu também sou a favor do fortalecimento da cultura negra, ainda que seja branca como papel. Eu sou a favor do acesso a educação de milhares de meninas indianas, e eu sou brasileira e nunca botei o pé na Índia. Eu também sou a favor da proteção das baleias e dos coalas, e não preciso de barbatanas ou subir em árvores para me importar. Eu vim com o kit da empatia de fábrica e aprendi cedo a importância de unir forças. Além disso, eu não estou de maneira nenhuma roubando a voz de ninguém não. E nem colocando agenda pessoal oculta na minha fala. Isso é coisa de enrustido, destes que dizem “eu não tenho preconceito, mas…”.

Então a pergunta que fica pra mim do questionamento que recebi essa semana é: se você não precisa de barbatanas para proteger as baleias, por que precisaria ser gay para defender o direito de outras pessoas serem? (Essa pergunta, na verdade veio da minha mãe, discutindo a questão).

Essas questões de gênero e intolerância me assustam, eu confesso. Especialmente dado o exaustivo tempo que tem levado para evoluírem. E mais, tratando de números, pensemos que existiam no mínimo 50 pessoas boas na boate Pulse, e bastou apenas um monstro com acesso indiscriminado a armas, uma influência nefasta disfarçada de religião, e uma intolerância ao diferente, para exima-las deste mundo. 50 famílias que perderam filhos, filhas, pais, mães, irmãos e irmãs. Eu sei a dor de perder alguém bom. Não imagino a dor de tê-lo arrancado de mim de forma tão covarde, como aconteceu com tanta gente em Orlando.

E se uma pessoa ruim pode fazer tanto mal, quantas pessoas boas em silêncio têm o mesmo poder?

Quando nos calamos frente a uma piada homofóbica, não estamos assim nos unindo ao autor da homofobia? Quando apoiamos parlamentares que são declaradamente contra a comunidade LGBT, não estamos dando passe livre para que seus direitos sejam alvejados, da mesma forma como 50 pessoas foram alvejadas no último sábado?

“Mas Antônia, o caso de Orlando não foi homofobia, foi terrorismo.”

De fato, um terrorismo contra uma minoria muito específica que resultou na maior aniquilação de cidadãos americanos depois de 11 de setembro. Isso sem falar no cara que foi preso com alta munição dentro do carro, rumo à parada gay de Los Angeles. Terrorismo? Ou homofobia?  As pessoas tem dificuldade de se enxergarem em assassinos. Terroristas estão lá longe, no Oriente Médio. Homofóbicos não, estes estão na mesa do lado no escritório, na porta vizinha da sua rua, ou dentro da sua casa, nos amigos do Facebook. Mas e o que você tem a ver com isso? Você é parte de uma das nações que mais mata e espanca membros da comunidade LGBT. Será que ainda somos dignos ao ficarmos em silêncio?

Hoje essa sessão não é para falar da Antônia, mas das 50 pessoas que morreram por pensar diferente. Por amar diferente da maioria. É uma sessão para pedir ajuda, estimular que todos nós unimos força levantando as cores desta bandeira. Eu podia ser uma das pessoas alvejadas na boate gay, neste sábado, aqui nos confins da minha pequena cidade de interior. E não sendo, juro aqui, vou usar a voz que tenho para dizer, VOCÊS NÃO ESTÃO SOZINHOS. Não estão mesmo.

E se eu tiver que ser gay para defender essa causa, eu beijarei todas as garotas do mundo para garanti-la. Pode organizar a fila.


Fim da sessão.

Socorro, eu não tenho um namorado! | Coisa de Antônia

Ontem foi dia de Coisa de Antônia no ATL Girls da Rede Atlântida, e a gente tratou do drama de não ter um namorado neste dia 12 de junho e todos os outros dias.

Convoco você leitor, a entender a pior parte de não ter um namorado, clicando na imagem abaixo. Aliás, convoco você, e aquela tia chata que vive perguntando “dos namoradinhos”.

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10 coisas que eu odeio em você

A primeira vez que vi o filme “10 Coisas Que Eu Odeio Em Você”, dei-me conta de que o longa-metragem não era apenas a versão hollywoodiana da obra de Shakespeare de “A Megera Domada”. A obra era também muito de como eu via a minha própria vida fora das telas. Kat, uma das protagonistas, é aquela rebelde bacanona que todo mundo quer ser, com senso de humor sarcástico, eloquência felina e um desinteresse pelo óbvio. Eu me vi nela no primeiro ato/cena. Assim como ela, me enxergava como uma garota com gosto pela escrita, com uma confiança que às vezes era confundida com arrogância, pouquíssima paciência para papo furado, e um coração molenga disfarçado por trás de um nariz empinado. (E minha mestria em dramas shakespearianos, claro!).

Além da semelhança na atitude, Kat e eu dividíamos um fraco por caras marrentos com incontestável talento para a malandragem. Mesmo que contando com certo senso crítico para quase tudo, eu, como Kat, sempre escorreguei na marra alheia, como quem se esborracha numa casca de banana. Mas com o tempo e alguma experiência, aprendi que não era qualquer malandro que me pegava ou qualquer mentira que me enrolava. Bom, isso era o que eu pensava até você chegar.

Não era um Heath Ledger em seus coturnos juvenis, mas arrancava alguns suspiros de menina por onde passava. Eu prometi que não ia me dobrar aos teus discursos de promessas fáceis e teu charme irritantemente irresistível. E quando achei que alguma parte de mim já tinha azedado para o romance, me surpreendi ao ver a megera aqui domada muito mais fácil do que previ. Bastou um saco de pinhão (coisa do sul), meia dúzia de chamegos e algumas manhãs divididas. Pronto! E há quem diga que eu sou difícil de me apegar.

Entre suspiros e pirraças eu me aventurei por onde tinha prometido não ir tão cedo. Acostumei-me com tua presença e provei teu gosto incontáveis vezes, até preferir você à sorvete. E eu adoro sorvete. Escrevi-te mil versos, entre borboletas, banhos, roncos e todas as recaídas entre o “dar certo” e os nossos finais. Guardei tuas e minhas mentiras junto das lágrimas que prometi não derramar na frente de ninguém. Evitei teus caminhos buscando proteção, mas como evitar o algoritmo da vida sempre tão randômico? E foi voltando a te encarar, que assim como a megera Kat do filme, eu fiz a minha lista. A lista das 10 coisas que eu odeio em você.

Eu odeio o jeito como você me deixa vulnerável, caindo por terra toda essa persona confiante que eu demorei meses para construir. Que para você um simples toque no braço, não significa o tremelicar de um corpo inteiro. Que olhares não instiguem pequenas erupções dentro do peito, remexendo em tudo o que já foi, e o que eu não quero mais que seja. É difícil acalmar um vulcão.

Odeio esse teu jeito relaxado de quem está com a vida ganha, de quem sempre dorme bem à noite e de quem não nutre nenhuma paranoia. Eu pareço louca perto de você, sim, porque eu tinha todo um plano pra ficar de boa na tua presença, mas eu não vim com o kit “be cool” de fábrica. Você sim veio com o kit, o teu e o meu provavelmente, porque tenho impressão que cada passo seu tem a leveza de um passeio no parque, enquanto eu sou perita em pisar em ovos.

Odeio que você desafia cada um dos meus argumentos, e me questiona com a precisão de um investigador de sobrenome Holmes. Não se intimida por mais que eu fale grosso, use as minhas doses cavalares de veneno ou desista de tudo e faça beiço. Você segue com seu discurso que tem tudo que eu quero ouvir, e nada do que devia querer lembrar. Minha fala fica completamente limitada, e minhas justificativas são tão profundas quando o balbuciar de um bebê. Nessas horas me pergunto onde fica o meu lado escritora para te reescrever mudo, me ouvindo tendo razão sem você contestar?

Odeio como teu cheio é sempre bom e fica grudado em mim ao menor contato com a minha pele. Fico com raiva do meu perfume que, como eu, se rende facilmente à tua intervenção. Parece que nada que é meu é pareô para o que tu trazes pra mesa. E eu odeio perder. Meu orgulho fica muito magoado.

Odeio a tua intimidade comigo, servindo o meu copo, cutucando a minha cintura ou falando da minha vida como quem já me sacou inteirinha. Eu tenho raiva de como você conhece (ou acha que conhece) o meu enredo. Mas pior ainda, eu odeio a forma como eu fico previsível perto de ti, ainda que tenha ensaiado sacadas diferentes e novos passos para usar nesse nosso tango argentino.

Odeio quando tu olhas nos meus olhos com a petulância de quem entra na minha cabeça sem pedir licença. Eu te evito, encaro os teus pés e conto as voltas dos teus cadarços, as pontas duplas do meu cabelo, ou finjo brincar com o copo de cerveja para não ter que te encarar. Não sei o que pode acontecer se eu te encarar, e nem quero saber. Onde se toma vacina pra essa porra que você me causa?

Odeio tuas conversas fáceis, promessas rasas e alegações duvidosas. E de como tu enfeita a tua fala com doçuras de um passado que eu levei meses para sufocar.  Odeio como eu queria acreditar na tua história, como quem acredita na fada do dente ou no monstro do lago Ness. Odeio como tu te ofendes que eu não acredito em ti, ainda que nenhuma das tuas atitudes combine com as firulas que caem da tua boa.

Odeio a tua boca. Na verdade odeio o conjunto dos teus olhos com a tua boca. Especialmente quando sorriem. Eles formam aquele pacote de sorriso + olhos fechadinhos que eu odeio tanto quanto amo. Mas na tua cara eu odeio. Parece que eles compactuam um complô, isso sim. Um convite como quem diz, “entre neste universo, você vai se ferrar, mas pelo menos o convite é lindo”. Lindo tanto quanto o gelo que eu ei de levar dias depois, quando você mudar de ideia mais uma vez, e cansar de sorrir para mim. Ei garoto, nem comece, você está proibido de sorrir pra mim, ouviu?

Odeio que tu nega que foram falsas promessas, e que a gente deveria se ver mais, conversar mais, enquanto tudo que eu penso é menos, menos deste teu sorriso, das promessas, menos de você. Menos de nós dois, a gente é tão passado neste presente. E ainda assim, cá estou, escrevendo meus versos mais uma vez, para quem eu duvido ter guardado uma sílaba minha. Que dirá um verbo conjugado no futuro com sujeito no plural. Quem sabe você seja apenas estímulo mesmo, tipo uma entidade da mitologia grega, que tem como única intenção inspirar (versos, sentimentos, paranoias, confusões). Talvez você tenha sido/seja o meu “Erato“, ao invés de amor. E fui eu, a artista, que confundiu tudo.

Eu sei que essa história nunca vai acabar com você cantando “Can’t Take My Eyes Off You” na frente de todo mundo, enquanto eu fico corada e assumo que sou tímida. Sei que tu não é do tipo de malandro que se redime (aliás, não se fazem mais malandros como antigamente). Mas algo entre nós acaba como no filme. Essa nossa história termina do mesmo jeito que o poema de redenção da megera domada.

O que eu mais odeio em você, entre todas as coisas e sem sombra de dúvidas, é o fato de não conseguir te odiar. 

Quanto a isso, eu não te perdoo.


Fim da sessão

A rua é delas | Coisa de Antônia

Ehhhhhhhhhhhhhhh!! Ontem teve protesto, e foi lindo! Cola lá na Rede Atlântida, que o Coisa de Antônia fez a cobertura!

Clique na imagem:

a rua é delas (1)