Do limão, limonada – O efeito Lemonade | Coisa de (Antônia) Beyoncé

Segurem os seus limões, pois Queen B veio de soco na boca! Gente, precisamos* (*precisei) falar sobre ‪#‎Lemonade‬, o novo álbum de Beyoncé. A experiência toda tem um quê de sessão de terapia com trilha sonora, então cá estamos. É intrigante, é ousado, é delícia. Pula pra Rede Atlântida, pega teu “hot sauce”, faz carão e vem comigo! Bow down, bitches!

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Do limão, limonada

O primeiro frio

Hoje foi aquele dia do ano em que admitimos que o período de estações mais quentes acabou. Do sudeste ao sul do país, esta terça-feira foi dia de procurar um casaquinho e considerar não apenas a troca de guarda-roupas, mas também a troca de cenários. Ruas mais vazias, programações mais caseiras e vinho. Ora, se tem algo que justifique o frio, é o aquecimento de um coração através da vinhoterapia – afinal, antes só vinho, do que mal acompanhado. Mas o primeiro frio do ano traz muito mais que um cobertorzinho para a nossa cama. Ele tem um quê de nostalgia, de memória. É impossível não sentir todo tipo de arrepio causado pelas temperaturas baixando e os dias se transformando. O primeiro frio sempre mexe com a gente.

O primeiro frio mexe comigo, por exemplo, porque me lembra a infância. Lembro-me com saudade da minha mãe lutando para arrancar-me da cama enquanto me socava roupa, a ponto de eu não conseguir me mexer direito. O primeiro frio recorda o meu pavor infantil quando encarava a serração fantasmagórica das manhãs, no melhor estilo The Walking Dead, a caminho da escola. Lembra-me da minha habilidade de pequena de estar sempre com as mangas ou meias molhadas. O primeiro frio traz de volta a lembrança do meu pai ligando a estufa no banheiro meia hora antes da minha vez de lavar as orelhas, para que eu “não pegasse uma friagem”. Faz-me recordar da minha adolescência, na parada esperando o ônibus, dançando no lugar para não congelar com o ventinho provocado pelo deslocamento dos carros. Lembra-me de sentar com receio na cadeira gelada da sala de aula e da busca por todo e qualquer raio sol na hora do recreio.

O primeiro frio desperta a hora de trocar os biquínis da gaveta pela coleção de meias-calças, e colocar os casacos coloridos para tomarem um ar. Traz o charme das tocas, das mantas e das luvas. O primeiro frio marca o início da era das polainas (me julguem!). O desejo por sobreposições, por abusar do batom escurão e realça o fervor que causam os gatos de jaqueta e botas cano médio. O frio tira pra fora do armário aquela calça gostosa de moletom que cabe tanto em você quando nele. O primeiro frio aponta que acordou a oportunidade de reinventar o visual, se transfigurar, se travestir e mudar. Trocar a paleta. Sacudir a nossa roupagem.

Com o primeiro frio acordamos para súbita troca de cardápio. Onde antes tinha espaço para salada e sushi, agora o estômago clama por risotos, massas e fundis (a vida é curta para se viver sem carboidrato). Aqui nas querências  – e na minha humilde opinião, nada seduz mais que a semente que chega junto com o vento Minuano. Garotos, por favor, não me deem flores, deem-me sacos de pinhão! Com sal, com mel, com vinho, com amor. Isso sim aquece o meu coração no frio. Ou me convidem para ir a serra para tomar uma sopa no pão. Não tem nada mais definitivo entre a solteirice do calor, e o engajamento do frio, que uma sopa no pão em Gramado. É romance com queijo ralado e um bom Carbernet.

E por falar em romance, o primeiro frio faz pensar em carinho, xodó, colo, entrelaçamento. Desculpe-me o clichê, mas como substituir um cobertor de orelha? Ahn? Ou incontáveis domingos chuvosos de edredom, Netflix e amassos?  Longas e promissoras horas daquelas caricias quentes que deixam as janelas embaçadas e o frio do lado de fora. Que estação que sabe criar boas companhias. O primeiro frio lembra pés enroladinhos. Faz recordar da delícia e do desespero que é aquecer as mãos geladas nas costas quentinhas de alguém. Delícia pras mãos e desespero para as costas. O primeiro frio relembra aquele cara que um dia amei e que me enrolava como um tamaki em meio aos cobertores nas sonecas preguiçosas de sábado. O primeiro frio evoca a ida à praia com alguém especial. Ou aquele final de semana no sítio. O primeiro frio lembra o frio na barriga.

Ahhhh nostalgia gelada… O primeiro frio lembra Londres e a Trafalgar Square lotada de turistas e seus guarda-chuvas. Lembra croissant quentinho na cafeteria. O primeiro frio lembra que os ranhentos lá de casa ficarão de narizes assados logo, logo – eles e todas as crianças do mundo. Lembra bolinho de chuva e chimarrão (ou equivalente). Lembra quentão. Livros finalmente lidos! Lembra Game of Thrones e que “Winter is (finally) coming”. Lembra Frozen, Olaf e abraços quentinhos. Lembra bolsa de água quente e cheirinho de chá. O primeiro frio lembra que é hora chamar as amigas para a sala de casa e acender a lareira, ou chamar o gato e aumentar o calor do quarto. O primeiro frio lembra que a temperatura pode até cair, mas que os próximos meses merecem ser aquecidos com bons momentos, pequenos e grandes prazeres e suspiros com vaporzinho.

Pega o casaquinho e te joga.


Fim da sessão.

Bela, recatada e do lar | Coisa de Antônia

Precisamos falar sobre Marcela Temer. Aliás, permita-me uma correção, precisamos falar sobre o que falaram sobre Marcela Temer – a “bela, recatada e do lar”, esposa do vice-presidente Michel Temer.

Vinde a mim as belas, recatadas e do lar:

Bela,Recatadae do lar

Beijo, ‪#‎belarecatadaedolar‬ Bela, Recatada e do Lar

Eu tenho medo do futuro

Dia destes me peguei conversando com a minha mãe sobre congelar óvulos – os meus óvulos. Assim que as palavras saíram da minha boca eu me assustei. Havia passado o tempo em que tudo que eu queria no meu congelador eram sorvete e vodka, e agora eu calculava garantias para o meu útero, planejando congelar também ovos. O que acontece é que nos dias de hoje eu já não tinha mais tanta certeza sobre a vontade de me reproduzir. Ainda assim, eu jamais abriria mão de ter uma escolha.

Talvez eu nunca vá me esquecer daquela conversa, quando no primeiro ano dentro da minha balzaca, eu me preocupei com os frutos que iria ou não deixar para este mundo. A pergunta que me assombrava de verdade não era sobre a probabilidade de colocar ou não meus herdeiros num cofre seguramente refrigerado aguardando o momento ideal. Mas a dúvida sobre as reais condições do futuro em que eles eventualmente poderiam nascer.

Eu tenho medo do futuro.

Eu tenho medo do futuro em que a gente desembale mais do que descasque coisas para comer. Eu tenho medo do sódio da água, ou da água não existir mais, e a gente inventar um jeito de sobreviver a Coca-Cola. Tenho medo de um futuro em que picada de mosquito não resulte apenas numa coceira temporária, mas em uma infinidade de vírus de consequências irremediáveis.  Tenho medo de um futuro onde exames não são solicitados para não gerar custas adicionais para o sistema – já falido – de saúde que atende a maioria das pessoas. Tenho medo de que a ciência preocupe-se mais em criar formas de frear o envelhecimento, do que desenvolver soluções para vivermos melhor.

Eu tenho medo do futuro.

Tenho muito medo da segurança das ruas do futuro, porque a insegurança de agora já me faz repensar cada passo que eu dou. Tenho um medo de um futuro em que as empresas limitem o nosso acesso à informação para ganhar mais dinheiro ou para intencionalmente cegar as nossas decisões. Tenho medo de que o petróleo se torne mais importante que o sangue. Tenho medo do extremismo. Da falta de diálogo, e do excesso de explosivos.

Eu tenho medo do futuro.

Tenho medo de um futuro pavimentado por políticos que votam por Deus, por suas famílias exclusivamente, por bebês que nem nasceram, por suas tias, vizinhos e cunhados, por Jerusalém, pelas Chiquititas, pelo Wesley Safadão, pelo vampiro estranho do Crepúsculo e pelo ursinho de pelúcia chamado Ted que tiveram na infância. Tenho medo de um futuro onde respeito é exigido por quem cospe na cara dos outros. Tenho pavor e pânico de um futuro que se esquece dos erros desumanos do passado e reforça a propaganda de terroristas, torturadores e ditadores. Tenho medo de quem promove o medo como forma de correção ou coação. Tenho medo da falta de empatia e de altruísmo do ser humano. Tenho medo.

Eu tenho medo do futuro.

Tenho medo de não saber mais discernir o certo do errado neste futuro de valores cada vez mais confusos. Tenho medo da minha bondade se esvair na ingratidão e no egoísmo alheio. Tenho medo de um futuro onde fronteiras são cada vez mais fechadas, e boas vindas cada vez mais raras. Tenho medo de um futuro em que teremos cada vez mais seguidores, e cada vez menos amigos. Ou do futuro em que olharemos mais para telas de gadgets do que para os olhos dos nossos filhos, irmãos, amores. Tenho muito mais medo do futuro para jovens meninas. Por não ver o futuro prosperar em defesa delas na velocidade necessária. Tenho medo que não tenham direito a oportunidades e a escolhas que vão muito além de óvulos congelados.  Tenho medo de que sua inocência não seja protegida – aliás delas, e de todas as crianças do mundo.

Eu tenho medo do futuro.

E no meio deste registro de todos os meus medos do futuro, eis que surge o Mateus no meu home office,  com meu celular em punho, mostrando-me sua obra prima no Snapchat – app que ele, aos 5 aninhos e como parte desta geração do futuro, domina muito melhor que eu. É um vídeo curto, falando de que no futuro ele quer morar na Rússia, onde é frio, para poder viver perto dos pinguins (plano de vida construído exclusivamente pela cabecinha dele). Olhei para seus olhos brilhantes de esperança e não tive coragem de explicar que a Rússia é um lugar pouco tolerante com as diferentes escolhas das pessoas, e que lá uma simples opinião pode custar uma vida. Também não reuni forças para dizer que do jeito que anda o aquecimento global, possivelmente os pinguins seriam uma espécie com risco de extinção num futuro próximo. Não quis comentar com o Mateus que do jeito que anda a nossa situação politico-econômica, o dinheiro e passaporte brasileiro dele poderiam não ser dos mais bem-vindos mundo afora. Eu tinha tanto medo para dividir com ele…

Mas ao invés disso eu me calei. Tomei doses de esperança beijando os olhos dele. Abracei-o bem forte e sorri de volta.

– Posso né, mana? No futuro ir morar na Rússia com os pinguins, não posso?

– Pode sim, meu amor. – Respondi mesmo com todo o medo que eu tenho do futuro.

Dei-me conta de que muito pior que eu ter medo do futuro, é a geração que vai vivê-lo não ter a esperança de reinventá-lo.


Fim da sessão

Terapia do Beijo | Coisa de Antônia

“Amo os beijos de paixão. Sinto a endorfina agir, o coração bombear e a pele arrepiar só de pensar em beijos de paixão. Todo e qualquer batimento cardíaco acelerado vale a pena quando o ímpeto é matar a sede no desejo do outro. Beijos daqueles “que delicia ter você pra sempre” ou dos“tomara que essa noite nunca acabe”. Quem nunca já acordou com os lábios doloridos de paixão? Ou foi trabalhar com o queixo assado porque viveu demais um domingo embaixo das cobertas? Um efeito colateral tolerável e bem-vindo desta terapia, é claro.

Gosto destes beijos roubados e tomados sem cerimônia por quem já é dono da minha afeição. Beijos que não se pedem, daqueles que se tasca! Que te grudam contra uma parede, um amor ou simplesmente contra o tesão. Com mordida no lábio inferior como quem quer levar um pedaço do beijo pra casa, e com direito a uma mãozinha na nuca para auxiliar na tontura. Quem nunca perdeu a linha num beijo de paixão?”

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Terapia do beijo (1)

A vistoria

Existe uma grande batalha traçada ao lidar com a ausência de alguém, que é tratar dos assuntos que ficaram depois da vida. Realocação de pertences, venda de bens, organização de papéis. E como já falei algumas vezes aqui, essas coisas tornam-se pesadas, porque relembram da bagagem emocional que colecionamos durante essa viagem que é a vida, e também a morte. Eu queria poder parar de escrever sobre isso, entretanto estes sentimentos rondando o luto são tão presentes quanto a minha própria presença. Tão visíveis quando a roupa que eu visto. Tão urgentes quanto à vontade que eu tenho de seguir adiante.

Aconselharam-me a não falar mais o nome dele. Disseram-me que eu atrapalharia a passagem dele deste para o outro plano, então eu me calei. Eu parei de olhar as nossas fotos, para assim tentar fazer menos presente a ausência dele. Não mandei mais mensagens na sua página do Facebook contanto as frivolidades do meu dia, meus comentários sobre o novo single da Rihanna e as novidades sobre o que os irmãos dele andam aprontando. Parei de conversar com ele em pensamento enquanto dirijo, e de pedir conselhos, ainda que certa do silêncio em retorno. Ao invés disso, passei a rezar orações decoradas, mantras eficazes, e me resumi a mandar luz, pois me disseram que assim estaria o ajudando. Acendi velas, escutei médiuns, e tentei calar o meu coração, cujo idioma preferido passou a ser a saudade.  Ocupei-me, atendi tarefas e fui produtiva. Distrai-me por dias e a coisa toda começou a ter um quê de evolução. Isso até a vistoria.

Precisei ir até o apartamento de meu irmão para acompanhar a vistoria do seguro do carro dele, que agora seria vendido para o seu melhor amigo. Como sempre, o meu pai – avoado como sabe ser – esqueceu-se do compromisso, e levou a chave do carro com ele em uma viagem. Pediu-me então, que subisse até o apartamento do meu irmão e procurasse em meio as suas coisas, a chave reserva. Fiz uma revisão rápida em armários e gavetas, focada em não pensar nele, não chamar por ele, não chorar. Sem querer, abri a gaveta que jamais fora revisitada após a nossa despedida. Lá estava a certidão de nascimento, um título de eleitor (que ele nunca encontrava quando precisava), um chaveiro com a letra “L” que ele julgou deveras infantil e aposentou, certificados, comprovantes. Uma vida registrada em papel. A chave reserva do carro eu não encontrei, mas o canal lacrimal abriu sem chave ou nenhuma cerimônia. Eu podia ter passado os últimos dias tentado ser forte, trabalhando o meu pisco como deveria e como me era esperado,  mas bastou uma vistoria para entender a minha dor estava mais viva do que nunca.

Desci correndo para liberar o técnico da vistoria, de cara inchada, maquiagem borrada, e apesar de toda e qualquer tentativa de secar os meus olhos,  as janelas da alma vazavam sem nenhum constrangimento. No caminho dou de cara com o porteiro do prédio – “Dona Antônia, a senhora está bem?” – balanço a cabeça freneticamente de forma positiva, contrariando tudo que o resto da cena dizia. O porteiro, que dada a nossa falta de contato eu não  sabia o nome, me abraçou contra o peito, passou a mão nos meus cabelos e me disse que tudo ia ficar bem. E ali eu chorei. Chorei por não conseguir parar de chorar. Chorei de raiva daquela vistoria, do carro e do meu luto. Chorei por não ter ele aqui para poder reclamar que eu sempre tenho que resolver tudo por ele – a vida toda e depois dela. E chorei por falhar em todas as orientações que me deram, já que até meu luto passou a ser pautado por ele, para aquilo que ele precisa para seguir adiante no seu caminho de luz, enquanto eu estava ali, paralisada nos braços de um estranho num corredor escuro.

Tentei me recompor e agradeci o auxilio do porteiro – “A senhora quer que eu ligue para o seu pai, dona Antônia?”. Agradeci mais uma vez e disse que não seria necessário.  Na garagem, chegando perto do carro, o técnico da vistoria do seguro já me olhava com feições de pena, o que declarava que o porteiro havia o inteirado da situação. Disse rapidamente, tentando controlar o choro, que não havia encontrado a chave e pedi que ele reagendasse a vistoria em 2 dias. Ele sorriu um sorriso de amparo, colocou a mão nos meus ombros e disse “eu sei, eu sei, não te preocupa, pode ficar tranquila – eu sei, eu sei”. E de novo, sem acanhamento, lágrimas gordas e acrobatas saltaram dos meus olhos vermelhos. E mais uma vez, me vi chorando no abraço de uma pessoa que sequer eu sabia o primeiro nome.

A vistoria do carro não fora concluída, mas cada fibra da minha dor fora revisitada. Era como se no compromisso de fazer tudo certo, eu estivesse de fato abafando todas as dores do meu peito. E assim, elas não diminuam, apenas acumulavam para romper ao menor sinal de inspeção. E aí que me ocorreu o aprendizado envolvido nesta metáfora. Não existe seguro, sem vistoria. É preciso inspecionar, revisitar, falar, anotar cada parte envolvida. Registrar os sinistros, e os bens preciosos que seguem. Não tem como assegurar o “seguir adiante”, escondendo o que está presente no agora. A vistoria era a única forma de assegurar o bem que estava sendo inspecionado, o bem carro, ou o bem estar.

O telefone toca, é meu pai – muito provavelmente a pedido do porteiro.

– Filhinha, tá tudo bem?

– Não pai, mas vai ficar.

– Conseguiu fazer a vistoria?

– Sim, mas não a do carro.

– Não entendi – disse ele confuso.

– Eu te explico pessoalmente, pai.

– Vou passar mais tarde na tua casa, acho que tu estás precisando de um abraço.

Concordo e desligo, lembrando agradecida dos abraços daqueles dois estranhos que me acolheram durante a minha vistoria.


Fim da sessão.

Ei garota, vira mulher vai! | Coisa de Antônia

Garota, senta aqui e me escuta direitinho. Ninguém tem inveja de você, é serio. Você pode guardar o seu passive-agressive facebookiano porque ninguém liga para o que você tem a dizer “prazinimiga” ou “prazinvejosas”. A gente tá muito preocupada pagando boleto da Leroy Merlin – coisa de adulto, sabe? Então simplesmente PARE agora.

E lá no ATL Girls da Rede Atlântida vou te explicar porque, corre pra lá:

Ei garota, vira mulher vai!

O casamento

Tudo começou lá em dezembro. Uma ligação inesperada, um pedido jamais imaginado. “Como assim, celebrante?” – perguntei intrigada a soon-to-be-bride do outro lado da linha. Até porque não me imaginava nada perto de uma juíza de paz, muito menos alguém ordenada pela igreja. Na minha cabeça a noiva, uma grande amiga minha, me entregava a tarefa de casá-la ao seu grande amor, apenas para me dar uma alegria naquele que fora, sem duvidas, o ano mais difícil da minha vida. Mas não, a noiva – dona de uma sinceridade que vi em poucos seres vivos que habitam esta terra, explicou: “Tu presenciaste o bom, o ruim, o horrível, o maravilhoso da nossa relação. Tu estiveste na maioria dos nossos momentos definitivos. Queremos você lá, contando a nossa história.” Fui as lágrimas 4 meses antes da cerimonia. Eu nunca fiquei tão feliz em poder contar uma história – e olha que eu conto histórias desde que aprendi a falar! A emoção já transbordava antes mesmo de ver o branco do vestido.  Eu disse o meu “sim” para o meu casal de amigos, antes deles dizerem “sim” um ao outro no grande dia.

No tempo até a cerimonia, ouvi as histórias do casal, revivi muitos momentos que presenciei e me emocionei. Chorei ao ouvir ao ver a mãe da noiva falar sobre promessa de amor. Talvez eu tivesse alguma experiência em contar histórias, mas de fato não tinha alguma no quesito casamento. A mãe da noiva me contou como no auge dos seus 42 anos de namoro/casamento, ainda celebrava a delicadeza dos dias de uma vida a dois. Falou sobre como era importante lutar contra a rotina e nunca perder de vista aquilo que uma vez foi decisivo para unir duas pessoas. Mostrou-me a importância do acordo que eu orquestraria na cerimonia. Foi quando caiu a minha ficha. Depois da minha conversa com a mãe da noiva, eu finalmente entendi que de nada serviria o meu papel como celebrante (ou de um padre, ou de uma juíza de paz, ou de um cacique tribal), de nada valeria um pedaço de papel registrando civilmente um matrimonio, se os noivos não estivessem dispostos e comprometidos com a promessa de amor que é o casamento. Não como entidade familiar, ou estrutura sociológica. E sim dois indivíduos dando mais um passo na direção de um futuro juntos. Aquilo não era um teatro, não era uma festa, não era uma dívida. Era uma promessa sincera de amor.

Os meses até o casamento passaram rápido. Se o 1º dia do mês de abril era o dia da mentira, o dia 2 seria marcado pela verdade. Do casal. E minha também, confesso.  Cheguei cedo para aproveitar cada minuto do dia de noiva, como testemunha ocular daquelas horas mágicas de preparação que antecediam a união. Nunca imaginei que tudo aquilo me emocionaria, mas a grinalda imaginária que reina da cuca de toda mulher, falou mais alto (isto que a minha amiga nem estava usando grinalda). Chorei ao vê-la encarando o espelho. Era a mesma que eu conhecia há anos, mas naquele instante algo havia mudado. Já não era mais dona de uma única historia, era em parte dona também da história de outro alguém.  Talvez não, dona, mas contribuinte fundamental da alegria compartilhada.  Saramago disse certa vez que em um matrimônio há três pessoas: o Homem, a Mulher (ou H&H ou M&M) e a terceira pessoa formada pelos dois. Naquele momento, olhando no espelho, eu vi nascer no brilho dos olhos da noiva, aquela terceira pessoa. Ela me olhou e sorriu um sorrido de menina, da chica uruguaia que é, lembrando-me da parte dela sempre será a mesma.

A figueira empalhava-se acima de minha cabeça, como uma benção natural das palavras que cuidadosamente escolhi para o grande dia, tentando não água-las de emoção. Os noivos entram juntos de mãos dadas – decisão que não me causou nenhuma estranheza.  O par tinha andado lado a lado durante toda a sua história por mais de uma década. A noiva não seria entregue pelo pai, já que se entregou aquele amor nos próprios termos há muito tempo, dispensando qualquer formalidade ou tradição. O noivo exibia um sorriso largo e uma excitação no olhar. Era diferente de todos os olhares que já o tinha visto depositando nela. Ela, por sua vez, retribuía com a mesma euforia, própria da grandeza de um momento como aquele. Eu tinha a melhor das posições naquela formação. Enxergava o par frente a todos os seus outros amores, suas famílias, seus amigos, convidados. Via o amor em forma de ato solene. Segurei ao microfone com força perto ao peito tentando acalmar o meu coração. Era hora. Era o primeiro casamento como eu veria nenhum outro.

Nunca conseguirei descrever em palavras a honra e emoção que configurou a minha participação no ato de casar duas pessoas. De vê-las na minha frente, fazendo aquela promessa de amor que a mãe da noiva me explicou lá no sofá de sua sala. Ali, embaixo daquela figueira, algo em mim mudou. Vendo toda a formalidade da cerimônia sendo desconstruída, toda a expectativa orientada pela naturalidade do casal, eu me vi capaz de fazer tais votos. Foi embaixo daquela figueira que eu vi duas pessoas se transformando em três, exatamente como Saramago poetizou. Não uma, não duas, mas três – todas importantes. Naquele casamento, naquela figueira, me vi celebrando não um conto de fadas, como muitos almejam, mas uma história real de esforço mútuo para manter o amor acima de todas as coisas. Daquelas histórias que eu mesma gostaria de escrever/viver com alguém.

Hoje, divido esta sessão com o buquê da noiva enfeitando a minha escrivaninha, bem ao lado do computador. O buquê me foi dado pela noiva, intencionalmente. Acho que no fundo ela queria que eu lembrasse da benção que dei, e eu mesma recebi embaixo daquela figueira. O colorido das flores, agora vejo, apenas reforça no peito a alegria  de redescobrir a esperança no vínculo estabelecido pelo casamento.

Naquela figueira, eu os declarei amores casados. No mesmo momento em que me declarei renovada da fé no amor.


Fim da sessão.

Todo mundo mente | Coisa de Antônia

Esse texto já circulou por aqui, mas dada a condição atual do país e o Dia dos Bobos (que graças ao congresso nacional tem sido todo dia) resolvi postá-lo mais uma vez.

Me pego pensando diariamente sobre a nossa contribuição na lama de sujeira que vivemos hoje na política, religião, esporte e até mesmo dentro de casa. A pergunta é, quanto das nossas mentiras, reconfiguram a nossa verdade. Ficou curios@? Pula pro ATL Girls da Rede Atlântida e traz teu nariz de Pinóquio para a discussão.

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Todo mundo mente (1)