Celebrar a vida, mesmo depois dela | Coisa de Antônia

A convite da minha editora no ATL Girls, o Coisa de Antônia de hoje fala sobre a campanha #‎MeuPresenteProDrLéo‬. Fui lá, de coração aberto como sempre, e contei o presente que quero dar pro meu irmão, na esperança de muitos vão se juntar a nós.

Clique nas lindas pessoas abaixo e corre pra ler (e doar)!

POST - INTERNO

Troços e traços

A pior parte de sentir a falta de alguém é a permanência dela em objetos inanimados, coisas que antes eram inofensivas. É “um fio de cabelo no meu paletó”, já diria Chitãozinho e Xororó. Antes, aquele fio era apenas um cabelo solto, entretanto, na ausência da pessoa amada, ele é um universo de memórias. Tem cheiro, tem presença e até inconveniência. Não dá pra negar a saudade quando ela deixa provas do crime. O crime é essa falta que se sente. E a vítima é você, agarrado(a) apenas às evidencias do que já foi.

Durante a minha vida, sempre que eu terminava um namoro, gostava de exorcizar o meu apartamento de qualquer vestígio daquela relação. Pelo menos naquele tempo de lutar contra o luto, sabe? Devolvia tudo que era dele na primeira semana de separação, e lavava todas as minhas roupas para evitar resquícios de perfume. Ok, cheiro não é objeto, mas ainda assim é prova da presença-ausente do outro. Eu tocava fora as escovas de dente e de cabeços, para ter nenhum DNA daquele ex-amor.  Ficava meses sem usar alguns objetos, como taças de vinho, ou aquele cobertor que ele costumava me tapar quando pegava num sono no sofá. E quase tinha uma taquicardia quando me deparava com um CD de fotos nomeado “Frackels” (sardas) – fazendo referência às marcas que o verão deixava no meu rosto, e da coleção de momentos em que nós nos amávamos. No fim de um romance, todo mundo já teve vontade de chamar o caminhão da mudança (em alguns casos até o do lixo).

Fato é que objetos acabam personificando pessoas, lugares, momentos, fases, sensações. Um isqueiro esquecido por aquele amigo que botou o pé na estrada e deixou saudades. O vaso de flores secas daquela formatura memorável, cheia de momentos que não voltam mais. Aquele tamanco/tênis/chinelo que transpira a um verão especial. Um moletom que lembra o colo do pai. A blusinha que lembra alguém que você já foi, e não é mais. Todos os badulaques e tranqueiras que te lembram algum lugar do mundo, e aquele seu lado aventureiro que só floresce com a mochila nas costas.

E de fato é engraçado ver como vestimos certas indumentárias conforme a nossa necessidade. Sempre que eu estou desanimada, coloco um colar que tenho que comprei em Austrália, lá onde a minha melhor amiga anda voando as tranças. O colar tem uma bolota de vidro cheio de areia feita de conchinhas do Manly. Quando uso ele, é como se tomasse um pouco da energia de um final de tarde na praia na companhia da minha saudosa amiga, e costumo ficar mais animada. Ou quando me desespero com as minhas contas, acendo um incenso que ganhei de um hippie no Cabo Polônio, para me lembrar de que se eu quiser, também jogo tudo pro ar e vou morar sob as estrelas naquele lugar sem eletricidade. E esses cheiros e formas, de algum jeito vão mexendo conosco, mesmo sem terem a capacidade de se movimentar. Mas destapam ou cobrem as nossas angustias, afagam nossas agitações, acordam nossas saudades.

Ontem em mais uma das expedições ao apartamento do meu irmão para organizar os  pertences que ele deixou, minha mãe me encontrou chorando dentro do armário, abraçada a uma jaqueta horrorosa dele. Aquela jaqueta não tinha apenas o cheiro do meu irmão. Ela tinha gotas de sangria em Barcelona, tinha o pó dos guarda-sóis de Brighton. Tinha as brigas de quem ia ao supermercado durante o inverno. Tinha as minhas calcinhas escondidas nos bolsos quando voávamos nos minúsculos aviões de bagagens econômicas (e microscópicas). Tinha o recibo de um Starbucks que foi jogado fora, já que o meu irmão nunca lembrava da minha intolerância a lactose. Aquela jaqueta foi cobertor na praia, e aumento do assento durante inúmeros musicais ao lado dele.

Aquela jaqueta não era mais um pedaço de tecido, ela era nós dois soltos no mundo e presos um ao outro. Foi proteção, almofada, capa de chuva. Agarrada na jaqueta me dei conta de que aquela não era a minha primeira comossão frente a um “amuleto” do meu irmão. Desde que meu irmão se foi, passei a vestir suas camisetas arriadas. Assistir a todos os seus DVDs e ler seus livros. Já me peguei usando seus óculos de leitura e eu nem preciso deles. Em noites difíceis já dormi com o estetoscópio do meu irmão nos ouvidos ouvindo meu próprio coração. Passei a colecionar suas tralhas e seus tesouros numa tentativa de sobreviver a ausência dele.

E diferentemente de outras despedidas, esses vestígio de amor, essas provas de existência, não eram mais a sobra do que foi. Mas simplesmente tudo o que me restou.

E assim eu passei a dar mais valor às memórias tangíveis, desde o dia em que elas passaram a única presença física que eu tenho de um amor que não vai mais voltar. E diferentemente do que disse lá no início, hoje posso dizer que a MELHOR parte de sentir a falta de alguém é a permanência dela em objetos inanimados. Objetos que podem ser abraçados e cheirados. Talvez eu finalmente tenha entendido que esses troços, são traços de uma passagem dentro da minha casa, da minha vida, da minha alma. E me arrisco a dizer que provavelmente seja por isso que a gente não leva nada desta vida. Quem sabe essas coisas sejam mesmo um legado físico herdado por quem mais precisa de traços palpáveis de amor.


Fim da sessão

PS¹: Beijo enorme para a minha mãe, essa boa alma que mesmo depois dos meus 30 anos, segue me consolando quando eu choro dentro do armário (desde os 5 anos).

PS²: Beijo enorme para o Murilo, que aos 5 anos, sabe quando me ligar às 7:00 da manhã, depois de uma noite ruim, apenas pra dizer que tem saudades minhas.

Amor, cadê você? | Coisa de Antônia

Já se deu conta que hoje é mais fácil achar dinheiro na rua, do que amor?  Hoje no Coisa de Antônia no ATL Girls da Rede Atlântida, a implacável busca por essas quatro letras que mexem com a cabeça de qualquer vivente.

Pegue seu binóculo, clique na imagem abaixo e bora lá achar o amor!

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O corredor

Fumei meu quinto cigarro do lado de fora daquela sala abarrotada. Era uma tarde quente de quarta-feira, e as horas se arrastavam naquela espera angustiante. O cheio de suor e da falta de banho tomava conta daqueles metros quadrados que antecediam a entrada, cujo acesso se dava por uma porta bipartida amarelada. E se eu estava ali apenas algumas horas, não podia imaginar a impaciência de quem ali fazia plantão por dias à espera de uma chance. Meu pai andava de um lado para o outro tentando fazer algum sentido daquela cena. Meu tio, seu irmão, estava sentado no murinho da desilusão, com seu olhar perdido no medo e também na movimentação daquela porta. A porta era a entrada do atendimento do SUS do hospital, e o que tinha atrás dela era um misto de saúde e sorte (ou a falta de ambos).

Uma carinha conhecida surge detrás daquela porta. Apesar de toda a estranheza daquela situação, aqueles olhinhos de gotinha eu reconhecia. Meu irmão apareceu naquela recepção equipado de um RedBull nas mãos, estetoscópio no pescoço, jaleco branco emoldurando o peito e um ar de seriedade. Levantamos-nos todos em silêncio e seguimos meu irmão porta adentro. Era a primeira vez, desde o início da jornada do Leonardo na medicina, que víamos em primeira mão, ele atuando como futuro médico. E aqui não estou falando da minha dor de garganta que ele examinava vez que outra. Tratava-se de uma situação com um familiar cujo futuro nos preocupava. Em meio ao caos do SUS, passamos por um corredor abarrotado de desesperados e desesperança. A luz piscava, iluminando de maneira insuficiente aquele corredor comprido. No caminho muitos solicitavam a atenção do meu irmão e de outros médicos que estavam de passagem, e estes iam orientando e respondendo com atenção e rapidez, enquanto caminhávamos para um consultório. No consultório, o Dr.Meu-Irmão nos apresentou os fatos sobre a saúde do meu tio, explicou exames e calibrou a nossa expectativa. As mãos dele tremiam, acusando que para ele, aquela primeira vez também tinha peso. A voz não tremeu. Nem por um minuto.

Do meu lado, meu pai caiu em prantos. Perguntei se era de nervosismo, e ele respondeu engasgado – “Não, é de orgulho”, disse sorrindo. Acho que dentre tantos cheques para universidade do meu irmão, era a primeira vez que ele se dava conta que investia não apenas no filho, mas de certa forma na saúde da família e na saúde em si. Eu entendi bem o orgulho de meu pai. Muito embora eu já fosse fã do meu irmão desde o tempo em que ele era um bebê fofo que fechava os olhos quando sorria. E ele sorria muito. Para mim o brilho do jaleco branco somente destacava a pessoa especial que ele sempre foi. Saímos de lá orientados sobre os dias difíceis que viriam – internação, cirurgia e a burocracia brasileira em todas as etapas.

Os dias se passaram e meu irmão foi posto à prova não apenas como futuro médico, mas como familiar de um paciente que dependia do Sistema Único de Saúde neste país. Contrariando qualquer orientação de seu curso de medicina – o meu irmão se envolveu ativamente no caso de um familiar. Como julgá-lo? O Leonardo cobrou favores, pesquisou leitos e acompanhou cada etapa da enfermidade do meu tio. Ele perdeu o sono. Lembro-me de convidá-lo para um chopp, certo dia, e ele não conseguiu ficar 15 minutos no boteco. Após um plantão de 50 horas, me deu um beijo e saiu do bar apressado. Passou em casa e munido de travesseiro, radinho de pilhas e jornal para o meu tio, ele voltou ao hospital e acompanhou as primeiras 24h do meu tio aguardando atendimento naquele corredor. Corredor comprido. Sinuoso. Como uma cobra que pode ser tanto o veneno quanto a cura. O meu irmão ficou lá, ao lado do irmão do meu pai, zelando por ele sob a luz que piscava como um batimento descompassado de um coração doente.

Dias de tratamento depois, chegava a tão esperada cirurgia. Precisávamos de 10 doadores de sangue para repor os estoques do hospital. Em uma família composta de 10 irmãos, cada qual com um cônjuge e mínimo de dois filhos (isso sem contar amigos, conhecidos ou benfeitores desconhecidos), você pensaria que a tarefa seria fácil. E aí veio a grande surpresa. Três pessoas se apresentaram no banco de sangue em nome do meu tio: um dos filhos dele, o meu irmão e eu. Você pode estar pensando agora “mas que tipo de família é essa?!”  – e eu lhes respondo: uma família exatamente igual a todas as outras. Com seus compromissos inadiáveis, suas justificativas plausíveis e suas viagens pré-agendadas – assim como todo mundo. E claro, a minha família também se provou vítima daquele eterno sentimento humano de “se eu não fizer…  alguém vai fazer”. “Eu não vou, mas tenho certeza que os outros vão”. Coisa de gente ocupada, assim como você e eu.

E assim construímos uma sociedade inteira, entusiasta na crítica pela internet, mas que não bota o pé na rua para mudar coisa nenhuma. Lembro-me do olhar frustrado e quase indignado do Leonardo no banco de sangue. Ele que tinha conseguido leito, médicos, tempo, disposição, e que agora se via praticamente sozinho na luta por algo tão vital quanto abundante: sangue.  Seriam apenas 450ml de um cidadão comum. Mas a atitude exigia duas coisas que não estamos acostumados a abrir mão facilmente: o nosso tempo e nossa empatia ativa. Apesar da nossa derrota na coleta, meu tio foi operado com sucesso e todos os recursos necessários – dentre eles, o sangue.

Aquele episódio seria apenas mais um dos inúmeros desafios diários enfrentados por médicos, familiares e pacientes. Apenas mais um desafio enfrentado pelo meu irmão. Depois da doação, despedi-me do Leonardo com um abraço demorado, apertando-o forte como quem diz em silêncio “não desiste!”. Ele me devolveu um sorriso cansado, tendo a certeza do que o meu abraço significava. Na saída passei de novo pelo corredor da desesperança. No meu carro chorei por gente que nunca conheci. E fiz uma oração para que a melhor pessoa que eu conhecia – o meu irmão – achasse forças pra seguir cuidando dos outros, sem deixar de sorrir, aquele sorriso fofo que ele fazia enquanto fechava os olhos.

Fim da sessão


Amigos do Antônia no Divã. Como muitos de vocês sabem, o Léo partiu em outubro após uma convulsão. Não houve doação ou intervenção que o salvasse, uma vez que algumas partidas não tem aviso prévio ou mesmo uma despedida. Dia 15 de Março é o primeiro aniversário do Léo que não teremos seu sorriso de olhos de fechadinhos por perto. Sendo assim, queremos alegrar outras famílias e evitar outras despedidas promovendo a doação de nosso bem mais precioso: a nossa vida. Bem, na verdade, apenas 450 ml dela. Queremos juntar até o dia 15 de março o mínimo de 27 doadores de sangue e medula óssea. Um doador por cada ano que o Leonardo nos honrou. Escolha o hospital ou hemocentro mais próximo e faça parte desta corrente do bem. Gente que você nunca viu na vida vai agradecer. A minha família vai agradecer. Eu vou agradecer. E o Leonardo – bem, o Leonardo diria que esse é o mínimo que todos nós devemos fazer – então faça! 🙂 Confirme sua doação por aqui, mande sua foto, use #MeuPresenteProDrLéo e promova essa ideia. Vamos encher essa data de vida – exatamente como o meu irmão gostaria.

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Negra, poderosa e politizada | Coisa de Antônia

Ok, que Beyoncé arrasa, ninguém discute. Mas aí veio o 50° Super Bowl, e a coisa foi elevada a um nível em que até os conservadores tiveram que engolir a diva pop. Não por causa do carão e da caminhada baphônica. Não. Mas porque Bey ousou esfregar na cara dos Estados Unidos em seu principal evento esportivo, que o racismo merecia atenção. Não está sabendo da polêmica? Ficou vendo a Mangueira entrar e perdeu Queen-B sambando na cara dos preconceituosos? Não tem problema, aqui está a apresentação histórica de Beyoncé no Super Bowl de domingo (07/02):

Essa não foi a primeira ocasião em que Bey levantou uma bandeira politizada. Antes disso Queen-B já defendia o feminismo com suas letras empoderadoras e muita atitude. E se falar sobre feminismo já tinha dado pano pra manga, tratar da questão racial foi uma atitude digna de uma guerreira da terra dos livres e lar dos bravos. O single “Formation”, lançado apenas 1 dia antes do SuperBowl, chamou a atenção do mainstream para as questões raciais existentes no país, como o uso de violência policial contra comunidades negras. Mas Beyoncé não vai lá e simplesmente dá o recado – ela canta, grita, repete, desenha e dança a sua mensagem no maior evento televisionado da América do Norte. A apresentação no Super Bowl foi executada com perfeição em suas inúmeras referências culturais, além de dar um show de semiótica, com declarações menos óbvias e ainda assim, cruciais.

Durante a apresentação, assistida por 115 milhões pessoas, as bailarinas de Beyonce desfilaram um figurino inspirado na organização Panteras Negras, organização fundada em 1966 para proteger moradores dos guetos negros da Califórnia contra a brutalidade policial. O grupo, assim como o Super Bowl, comemora 50 anos de história em 2016. A coreografia não ficou para trás no simbolismo, quando em dado momento as bailarinas posicionam-se em formato de “X” no gramado, em uma referência ao líder negro Malcom X, que lutou pela aprovação da Lei de Direitos Civis que apoiava o fim da segregação racial e do linchamento dos negros. Beyoncé dançou orgulhosa com um figurino que remetia a outra grande referência da cultura negra, o Rei do Pop Michael Jackson, que se apresentara no mesmo evento em 1993.

O show do intervalo do Super Bowl, entretanto, era apenas extensão do soco que foi o vídeo clipe da mesma música. Lançando na véspera do Super Bowl, o vídeo de 5 minutos mostra imagens do descaso com a população negra de Nova Orleans e as consequências do furacão Katrina de 2005, como também referências aos protestos do movimento Black Lives Matter”, que balança os EUA há um ano e meio, desde a morte do adolescente Michael Brown. Para quem não se lembra do caso, Brown estava desarmado e foi morto a tiros por um policial em Ferguson, no Missouri, e o processo resultou na absolvição do policial. Casos similares ao episódio de Brown aconteceram posteriormente em outras cidades norte-americanas, sem nenhuma apreensão ou desqualificação de membros da polícia.

Em uma das imagens mais fortes do clipe uma criança dança em frente a policiais que se “rendem”, enquanto um muro pichado surge com a mensagem “parem de atirar na gente”. Martin Luther King aparece na capa de um jornal com a manchete “Mais do que um sonhador”, em referência ao famoso discurso “I Have a Dream”. O clipe traz ainda a valorização dos traços da cultura negra, com cabelos “baby e afro” e “narinas de Jacksons 5”, e nos leva a um passeio sombrio às fazendas escravocratas norte-americanas. Cada detalhe colocado com precisão cirúrgica para balançar qualquer fagulha de preconceito existente. O clipe incomodou tanto os grupos conservadores americanos, que eles iniciaram um boicote a Queen-B alegando que ela teria feito uso de um espaço midiático americano para vender uma bandeira “pessoal” e de que a mesma estaria invocando a população contra as forças policiais. Políticos alegam que Beyoncé não tem propriedade para falar do assunto (apesar de ser negra, com pais oriundos de cidades escravocratas como Luisiana e Alabama). E a polêmica segue desde domingo incendiando os noticiários do país (e fora dele), neste que é o mês da História Negra nos EUA – e que provavelmente não teria tamanha repercussão, não fosse por “Formation”.

Então perceba que esta podia ter sido só mais uma apresentação, só mais um clipe, ou só mais uma música, mas Beyoncé se aproveitou do timing para promover a discussão e fez de sua música um hino de empoderamento de uma minoria. Um posicionamento que reforça outra polêmica sobre o mesmo tema envolvendo a 88ª cerimônia de entrega dos Academy Awards, o Oscar (28/02), que neste ano conta com sua primeira presidente negra, e nenhum representante negro entre os nomeados a estatueta. Ou seja, eventos que convocam o público a pensar sobre forças (declaradas ou sutis) que tentam inferiorizar a cultura afro-descente em qualquer posição social. Precisamos falar de Formation e Beyoncé porque tratar-se de um marco na cultura pop que promove o fim das antigas/atuais amarras do preconceito.

Mas quem sou eu pra falar disso, apenas uma garota branca de classe média, que nunca sofreu racismo na vida? Sim, eu mesma. E eu uso este espaço para falar disso porque hoje acredito que não preciso ser negra para entender a importância deste movimento, visto que me basta empatia para fazer questão de apoiá-lo, promovê-lo. E o que você tem com isso? Bom, você mora no país dos Amarildos, que são alvejados e torturados diariamente, tal como o caso de Ferguson. Onde a maior representatividade de destaque da cor negra é encontrada no futebol, em meio a cachos de banana atirados no campo. País em que um pai é criticado por fantasiar o filho de Abu (macaco e melhor amigo do personagem Aladdin da Disney) mas não é aclamado por tê-lo adotado (67% das crianças na filha de adoção são negras e pardas). Então, meus lindos, precisamos todos falar de racismo.

Claro que Beyoncé deu um show de entretenimento no Super Bowl, mas ela arrasou mesmo foi cutucando o preconceito. Então palmas pra ela que é negra, poderosa, politizada e deu voz para esta causa. E pode chorar e boicotar quem achou ruim a atitude dela. Convenhamos que se a gravidade não derruba a abelha rainha:

O preconceito e o conservadorismo é que não vão.

antonianodiva.com.br

PS: E tratando de polêmica, racismo e Super Bowl, Concussion (Um Homem entre Gigantes) estreia dia 3 de março e promete dar o que falar.

Me engana, que eu gosto

Em um áudio de whatsapp qualquer, duas amigas atualizavam-se sobre as novidades de suas vidas, vidas essas separadas pela distância geográfica – uma no Brasil enquanto a outra morava em Barcelona. De um lado eu convencia a minha amiga que estava lidando relativamente bem (se é que isso é possível) com a perda recente do meu irmão, que neste mês completava quatro meses de saudade.  Do outro ela me contava como estava superando a separação com o ex-namorado, este já em outro relacionamento. Silenciamos a conversa por alguns instantes analisando uma a condição da outra, e aquelas nossas verdades tão presunçosas.

Do lado de lá, ouvi de minha amiga que talvez não estivesse ficando bem porque aprendera a conviver com a saudade do meu irmão, mas sim porque a minha ficha não tinha caído (ou talvez jamais caísse), e que eu havia criado uma “ilusão consciente” de que ele estava apenas ausente ou até mesmo viajando, e que logo retornaria de onde estivesse para perto de mim. Aquilo me fez completo sentido. Do lado de cá sugeri que talvez a minha amiga precisasse de mais tempo para superar o ex, e para isso deveria abrir mão da vontade dos outros de vê-la bem resolvida logo. Agradecemos uma a outra a nossa sinceridade mútua, e nos despedimos, cada uma com seu fuso horário e seus botões. De alguma forma muito diferente, ambas começaram aquela conversa mentindo. Ironicamente: para nós mesmas.

Ok, talvez a verdade não fosse mesmo bem-vinda. Quem sabe por hora, ao imaginar que meu irmão estivesse viajando e que em breve ele retornaria com souvenires, fosse o único jeito de eu seguir a minha vida e de erguer um sorriso de vez em quando. Da mesma forma como para a minha amiga talvez fosse importante declarar que ela já estava com o coração curado, ao invés de admitir que pudesse ainda estar sofrendo. Talvez ambas esperassem que através da repetição de um milhão de vezes daquelas mentiras, elas se transformariam em verdades. Penso que às vezes a gente opta pela mentira pelo simples fato de não ter paciência com o tempo, ao passo que ainda tem fé no desgraçado. É como se estivéssemos fazendo um empréstimo da verdade futura – “não estou bem hoje, mas no futuro vou ficar, então vou antecipar essa condição, nem que seja no discurso”. Já me peguei dizendo em voz alta (mais vezes do que consigo contar) a frase “está tudo bem, Antônia”, numa tentativa de me convencer de algo que não tenho bem certeza. Eu minto para eu mesma acreditar e sossegar.

E se hoje eu minto para acalmar uma dor, antes disso eu sempre menti para sossegar um conflito interno. “Segunda-feira eu começo a academia/dieta/carboxi”. Quem nunca se revoltou com a própria autoestima,  fez juras de morte à gordura trans e prometeu mudar de vida no dia seguinte? Ou no seguinte? Ou no dia depois dele? “Eu nunca mais vou beber”. Nunca? Jogue a primeira pedra quem nunca regurgitou tal frase entre uma gorfada no banheiro, e uma aspirina no quarto. “Eu não me preocupo em casar/ter filhos/ comprar uma casa/ (encaixe sua pressão da sociedade aqui). Aponte o dedo quem nunca deu de ombros numa conversa sobre expectativas para afastar o assunto do público, para tão somente  remoer a questão interna e exaustivamente? (Aliás, essa é a mentira que eu profiro de forma mais convincente – interpretação digna de roubar o Oscar do Leonardo di Caprio.) Quem não engoliu calada a saudade de um amor que não deu certo, dizendo “oi” ao invés de “eu ainda te amo”? Ou respondeu “estou bem” quando não estava? Prometeu não gastar tanto, enquanto se encaminhava para uma liquidação no outlet preferido? “Semana que vem eu largo a bosta deste meu emprego”. Não? Nenhuma delas? Pois eu já. Todas estas mentiras estão ou já estiveram na minha lista.

E nesse redemoinho de mentiras próprias, me peguei estudando as razões pelas quais eu minto pra mim mesma. Concluí, depois de muito bater cabeça no áudio da minha amiga de Barcelona, que as verdades que inventamos para nós mesmos, são como as histórias que gostaríamos viver. Isso porque dentro deste imaginário tem-se toda a estrutura necessária: existe tempo adequado, força de vontade, lá existem soluções rápidas para problemas complexos, não existe dor, saudade ou perdas. A verdade, essa boba tão digna e tão sublime, essa sim tem despedidas eternas, tem conta pra pagar, tem ex-namorado coexistindo, tem o preço de bancar a sua existência.

A mentira é um pequeno escape, um pulinho em um mundo mais idealizado onde dá pra dar uma relaxada da dureza de assumir os próprios passos, sortes e infortúnios. E é um “pulinho” uma vez que ninguém sustenta morar na mentira por muito tempo. De fato prefiro dizer que a mentira contada para si mesmo é uma projeção (um sonho?). É, isso mesmo, uma projeção. Um ensaio de uma nova verdade, para testar a sua convicção ao dizê-la em voz alta. Um teste para examinar se realmente aguenta superar o fim do romance. Ou talvez não. Se vai abrir mão do sorvete e pegar nos alteres. Ou talvez não. É avaliar a nova condição nos lábios, para depois assumi-la de corpo e alma. E se para atingir a nova verdade perseguida, for necessário mentir para si mesmo por um tempo… bom, paciência. Vou assumir para o meu consciente despreparado, que enquanto eu não estiver pronta, por favor, me engana que eu gosto.

Irmãozinho, me traz um imã de geladeira quando tu voltares.


Fim da sessão.

A Loka e as 9inhas | Coisa de Antônia

Quando a editora do ATL Girls da Rede Atlântida me ligou pedindo um texto sobre a polêmica Ana Paula Vs  Laércio no BBB, eu sabia que estava entrando num vespeiro. Pedofilia, “chilique”, rede nacional, novinhas, velhos, certo e errado. Mas como aqui ninguém foge da raia e a gente adora analisar as peripécias da nossa sociedade, fui lá pagar de “loka”, exatamente como a Ana Paula.

Não entendeu nada? Clica na imagem abaixo e corre pra lá pra saber:

A LOKA E AS 9INHAS (1)

O melhor lugar do mundo

Desde pequena eu me mudei muito. De cidade, de casa e eventualmente de país. Depois que eu voltei para as terras tupiniquins, viajei mais um pouco, e essa inquietude sempre me fez pensar onde seria o melhor lugar do mundo para se estar. Londres tinha me ensinado tanto, então eu pensei que poderia ser lá. Mas voltando pro Brasil eu me lembrei do quanto eu gosto daqui. E entre idas e vindas, lugares estranhos e outros mais conhecidos, um lugar comum a todos se destacou. O melhor lugar do mundo é dentro de um abraço, hoje eu sei. Ok, acuse-me de clichê, se você ousar. Mas estou para dizer, sem sombra de dúvidas, que o abraço é um dos poucos lugares que te recebe sempre, você estando bem ou mal, e dele você sempre volta melhor. Lá não te pedem visto de entrada e sempre falam a tua língua. O abraço é, indiscutivelmente, o melhor lugar do mundo.

Talvez a melhor parte do abraço seja que ele tem fronteiras pouco definidas. Onde começa o seu abraço e termina o do outro? É um círculo que costuma não ter limites, uma mistura. Às vezes você acha que entrou nele para sair rapidinho, mas decide ficar um minuto a mais, já que ele é tão seu quanto da outra parte. De quem recebe. Ou de quem dá. Aliás, nesse lugar mágico é difícil também definir quem entregou e quem recebeu. Talvez o abraço viva dentro de uma eterna política de escambo, “aqui tudo é de todo mundo, e só funciona através da troca”. Não é socialismo, porque ninguém pode levar mais do que contribuiu, não é capitalismo porque indivíduo nenhum paga para estar lá, e não é anarquia porque ele tem as suas regras.

As regras na verdade são bem democráticas, mas elas existem. Para começar, só se entra no melhor lugar do mundo se for de peito aberto. E peito aberto, é uma das posições mais vulneráveis de um encontro, então para entrar no abraço deve se ter confiança. Além disso, para adentra-lo, há de se ter intimidade. Até porque o abraço abre portas para aquele espaço lindo e íntimo que é a área entre o pescoço e a orelha. Ali se sente cheiro, calor e os sussurros resolvem qualquer barreira de linguagem. O pedágio para estar ali são juras de amor, desejos de carinho ou eterna gratidão por ter sido bem recebido. Outra regra do abraço é que para entrar nele você deve depositar a sua energia e até uma dose gentil de força. Isso porque o abraço é o lugar do mundo que promove alívio na proporção inversa do aperto. Quanto mais apertado é o abraço, mais alivio se sente.

O abraço é também um lugar bem amplo, além de apertado. E ele não é exclusivo. Você pode entrar no abraço de uma amiga de quem morria de saudades. Ou do seu amor para pedir desculpas. Pode se jogar naquele do seu irmão ou irmã para alegrar o seu dia. Do seu pai para pedir apoio. Ou ainda no da sua mãe quando o bicho realmente pega. Fato é que você sempre sai melhor do que entrou neste lugar. Muita gente pode ser salva visitando o abraço. Na hora da dor ou da raiva, o abraço pode guardar a parte mais pura e positiva de você, para que os sentimentos negativos não tomem conta. É difícil morar no luto ou nos pontapés da vida. Morar no abraço é de boa, é lindo e por vezes, faz o planeta dar uma desacelerada… e girar devagarzinho em torno do melhor lugar do mundo.

Gosto dos abraços despretensiosos de reencontros casuais, que animam a rotina, despertam as borboletas e acalmam a mente. Lembro com carinho de todos os abraços que nunca mais visitei, os de amigos distantes, ou de amores que não estão mais por perto, como aqueles de vó e de vô, sabe? Tem abraços que a gente daria um braço para ter de volta, de tão bem que nos fizeram. E aqueles que a gente ainda quer descobrir. Ou ainda que nem imagina o quanto nos farão suspirar, serenar e até embalar o início de uma dança. Abraços que curam, que não julgam, que protegem. O melhor lugar do mundo é aquele que promove o altruísmo, a humildade, e claro, a aproximação de dois corações. Ou mais, se for um montinho!

O que não dá, é seguir perambulando pelo mundo, correndo por passagens egoístas, fazendo percursos solitários e firmando raízes em destinos ásperos. O meu conselho é: Nunca perca de vista o caminho do abraço. É lá que você mora. E é lá, que se encontra o melhor lugar do mundo.


Fim da sessão.

Jota Quest - Dentro de um Abraço