Coisa de Antônia: Coisa de outro Planeta

O “Coisa  de Antônia” está em clima de festival de música no ATL Girls da Rede Atlântida. Peço licença ao resto do Brasil representado aqui, mas estamos na véspera da maior festa do sul do país (o meu aniversário? Há! Não, loka) é o Planeta Atlântida, e não dá pra deixar de falar dele sem um misto de empolgação e nostalgia.

Corre pra lá e confere as 5 coisas que nunca faltam nesta maratona da alegria.

O verão é dos solteiros

Desculpem-me os casados. Vocês tem o inverno todinho pra vocês, com viagens delícia para a serra, cobertores de orelha e alguém para esquentar seus pés. Longas horas embaixo das cobertas deflorando o Netflix ou seus próprios corpos – pouco importa o frio que faz lá fora quando o calor está garantido. Enquanto nós, solteiros, padecemos na estação mais fria, com ruas vazias, bolsas de água quente, rezando por um raio de sol que irá nos convidar para passear. Desculpem mesmo, casais, o verão pode até ser bom pra vocês, mas tenho certeza ele é muito mais gentil com os solteiros (comparado aos ventos gelados e nefastos de julho).

Calma, não estou reivindicando que a estação pertença somente aos avulsos – mas a tendência é que o calor destes três meses favoreça a nossa autoestima e interação. Verão tem um quê de libertino, confessa. Uma excitação que emana da pele bronzeada. Uma vontade enlouquecida de beijar na boca. Melll Dells como é bom beijar na boca o ano todo, mas no verão… é sede matada na saliva. É nuca suada. Tudo contribui. A energia positiva das férias, nosso lado aventureiro no último volume e o desejo por novas experiências. Não me considero uma solteira convicta, mas bem mais convencida quando os termômetros aumentam.

Tudo isso porque não há coração que não se aqueça com o sol de verão brilhando lá fora – mesmo que você seja um grande fã do ar condicionado. Tem como fica alheio aos bares e praias lotadas de gente querendo ver gente? Nesse período do ano facilmente toleramos perrengues como engarrafamento, falta de água, asfalto digno de fritar ovo, aedes aegypti e sungas brancas, tudo em prol de se jogar na estação mais sexy. Você faria o mesmo durante as chuvas frias de inverno? Não, no verão cada esforço é uma delicia e costuma ser recompensado.

Adoro que no verão todo fim de tarde tem cara de happy hour, e cada momento longe do trabalho tem peso de diversão obrigatória. O sol nasce mais cedo, empurrando a gente pra fora da cama, sem deixar margem pra preguiça, e se estica até a presença da lua. Por vezes nesta estação, é possível ver os dois juntos, sol e lua flertando no céu (até eles!), misturando dia e noite, numa vontade de viver o melhor de cada minuto – sensação essa, ainda mais urgente para os solteiros. A lua que chega de mansinho, nesta época do ano é contemplada na maioria das vezes perto da água, no mar, rio, lagoa, com seu manto prateado, brilhando toda exibida, tornando o crepúsculo muito mais sensual. Ela que vem anunciar que se o dia foi quente, a noite de verão pode ser ainda mais promissora.

Amo que no verão, a indumentária é relaxada, e a etiqueta sabe ser menos restrita.  A pista de dança aceita o shortinho, o luau não julga o cabelo sujo da praia e as havaianas estão mais em alta do que o salto alto. Marquinha de biquíni tem mais estima que high couture. E para os gatos não é diferente: tênis, bermudas e regatas tem o apelo mais lascivo que um terno engomadinho (repudio qualquer dress code obrigatório no calor). A tendência no verão parece ser o conforto, e menos é mais (graças à Nossa Senhora das Coxas Grossas). Acredito que a gente se apresenta da forma mais sincera, sem pretensão de agradar ninguém – além do próprio ímpeto de curtir a temporada.

Adoro a energia atlética envolvendo o verão. Sedentários do ano todo assumem desafios no futebol de areia, no slackline do parque ou na simples caminhada do final de tarde. E sem falar nos surfistas. Jesus coroado abençoe os surfistas! Com suas pranchas frenéticas pra cima e pra baixo, a procura da onda perfeita – apenas para dar de cara com a velha frustração de todo verão, quando quase sempre o mar é flat, e se não é, tá crowdeado. Mas isso também não é problema, no verão dos solteiros. Tem sempre uma pá de gatas na areia, prontas para oferecer um ombro “amigo” àqueles corpos salgados (me escolhe!). Verão é uma delicia porque vem temperado com suor e por Iemanjá. Endorfina, feromônio – haja coração pra tanta química.

Verão tem churrasco onde os amigos dele se juntam com as suas amigas, e pode até faltar carvão, mas nunca o sexy appeal. Na piscina sempre cabe mais um corpo nu. Tem trilha (e amasso) no meio do mato. Tem música pra fazer o almoço, janta, chalaça e amor. Banheiros são divididos por grandes turmas e camas são por vezes compartilhadas ou trocadas, tudo promovendo o intercâmbio – de momentos, de risadas, de fluídos (com exceção daqueles controlados pela camisinha! Toquinha nele!). Verão é uma bagunça harmoniosa. A gente se permite escalar as pedras da virtude, descobrir novos caminhos e reinventar as relações. A estação vira uma aventura.

E de novo, aqui não estou alegando que os casados não gozam de prazeres similares, ou que o período é apenas digno dos desempregados do coração. Não é isso. É que o verão sabe tratar bem quem ainda não achou sua cara metade. Ele oferece uma estação inteira de possibilidades a 40ºC. A gente pode até se queimar – mas não abre mão do calor que ele promove dentro de um coração solteiro.

“Vem chegando o verão, o calor no coração. Essa magia colorida, são coisas da vida” – Marina já disse.


 

Fim da sessão

Coisa de Antônia: A dona do pedaço

“Baratas, faxina, mobília, aluguel. Ora, mas por que diabos a gente sai de casa então?”

Vem comigo no ATL Girls da Rede Atlântida, que o Coisa de Antônia de hoje fala sobre as delícias e perrengues de ser a dona do pedaço! Te joga pro meu canto lá, clicando na imagem:

Coisa de Antônia (1)

 

Vá, gina. Vá ser feliz.

Eu vivo em constante conflito com a minha vagina. Aliás, pobre dela que não tem culpa nenhuma. Eu vivo em constante conflito com o fato de ser dona de uma vagina. Talvez seja coisa da idade, fase em que embora eu tenha muita coisa pra definir ainda, algumas eu já gostaria de ver com mais tranquilidade. E é uma montanha-russa de emoções, essa coisa de ser mulher. Para algumas o processo é super natural, e surge como o desabrochar de uma rosa. Eu nunca fui rosa. Eu mal e mal me considero uma couve-flor – mas ainda assim me esforço para ser reconhecida, importante e comida como uma couve-flor.

Hoje é difícil falar dos dilemas de ser mulher, sem parecer uma extremista. Já falei aqui que eu preferia não ser feminista, se os meus direitos fossem entregues de mãos beijadas. Não sendo o caso, eu preciso ser uma feminista. E este é um desafio diário. Há algum tempo atrás fui convocada para uma reunião com o alto escalão da minha empresa, na qual me pediram para que eu desse feedback/corretivo em um integrante da minha equipe. Comentei que o caso era uma reincidência, e sugeri tomar uma ação mais incisiva, através de uma advertência formal para a atitude desaprovada pela empresa. Foi quando me foi sugerido que, ao invés da advertência, a conversa fosse feita entre o meu gerente e o funcionário, numa linha assim mais… “de homem pra homem”. O que me espantou não foi a oferta do meu gerente fazer a intervenção no meu lugar, dada a sua posição superior na hierarquia. O choque veio porque ele se ofereceu pra ir no meu lugar, porque eu tinha uma vagina. Eu tenho pós-graduação em uma universidade bananinha de Londres, uma especialização em otimização de profissionais, curso que conclui com distinção (e em outra língua, for God’s sake!!!) e 10 anos de experiência. Ah, e uma vagina! Uma vagina bilíngue e pós-graduada, mas ainda assim, uma vagina. Tá me entendendo?

Ao passo que meu amadurecimento sexual vem sendo desenvolvido, dilemas deste tipo passaram a me assombrar não apenas na esfera de onde se ganha o pão, mas também onde se come a carne. Em uma recente conversa com um amigo gay mais experiente (pra não dizer mais velho), conversávamos sobre as diferenças de aplicativos de paquera e os divergentes comportamentos nas relações hétero e homo – mais especificamente, sobre a praticidade e igualdade nos relacionamentos entre homens. Durante a nossa conversa aquela bicha (com todo o meu respeito e admiração) disparou a sua sinceridade como um tiro de fuzil na minha cabeça. “Vocês mulheres evoluíram tanto sexualmente. Já conseguem falar abertamente sobre prazer, fantasia e desejo. Hoje vocês já tomam atitude. Entretanto, por que diabos vocês seguem fingindo orgasmos por aí?”.  Olhei para baixo encarando o chão. Tinha medo de olhar para os olhos do meu amigo e ter meu clitóris transformado em pedra, como quem encara a Medusa (do sexo). Como eu, uma pseudo – feminista, não conseguia me libertar desta “obrigação” de agradar na cama? E a custa do meu próprio prazer? Fiquei furiosa comigo por conta daquela conversa. E de novo, coitada da minha vagina!

Aprofundei-me na minha análise sobre o comportamento feminino de “fingir e esconder”. Concluí espantada que pouquíssimas das amigas moderninhas que tenho, são capazes de adquirir ou mesmo admitir, serem donas de seu próprio vibrador. Algumas alegam que o aparelho não substitui o contato, outras fogem da questão como se eu estivesse promovendo o anticristo. Eu mesma demorei anos pra ter meu primeiro vibrador – o Ricky Martin, presente de uma amiga muito mais inteligente que eu. E quer saber, o número de idiotas com quem eu transava apenas por querer transar caiu pela metade – pela metade! Eu me tornei mais seletiva. E se a vontade me pega desprevenida, não tem mais telefone vibrando na madrugada para um booty-call. É “un, dos, tres. Un pasito pa’delante María, e Ricky e eu vivemos “la vida loca” a noite toda, se eu quiser. Não estou aqui dizendo que eu trocaria um homem de verdade por um par de pilhas. Estou falando sobre a escolha de se conhecer, se curtir, e ser dona do próprio prazer. Parece simples, mas não é.  E quebrar essa tabu é difícil – gozar através dele, nem tanto 🙂 . E sua vagina agradece – eu garanto.

E se ser mulher no trabalho ou na cama é um perrengue, no contexto social não muda muito. Dia destes minha mãe encontrou uma antiga amiga minha em um evento, e me contou como ela achava que a Fulana devia estar feliz com a gravidez do segundo filho, e seu casamento estável. Foi até o momento do marido da Fulana começar a proferir insistentes grosserias contra a minha amiga, na frente da minha mãe. Naquele momento, ela parou de fantasiar o futuro da própria filha, e passou a admirar o presente dela – sim, o presente de uma solteira de 30 anos, mas de uma solteira feliz, longe de um relacionamento abusivo. Na ocasião deste papo comigo, minha mãe me abraçou e suspirou aliviada “ai, prefiro te ver mãe solteira, e estar condenada a infelicidade de um casamento disfuncional”. Fingi a ofendida – “Caraca mãe, essas são minhas duas opções: maternidade voo solo ou relacionamento abusivo?”. Ela riu das imposições sobre o futuro, com ares de culpada. De fato, eu nunca vi ninguém da minha família preocupar-se com o futuro amoroso do meu irmão, ao contrário do que ocorre comigo vez que outra. Talvez por eu ser mais velha. Ou simplesmente por ter uma vagina.

E no andar da carruagem do auto-conhecimento feminino, a gente tenta se convencer que estas questões não nos abalam, quando blindar-se da influencia negativa é tarefa árdua. Por mais segura que uma mulher seja, verdade é que ela se depara diariamente com questões complexas, dado o simples fato de ter uma vagina. Elas têm medo de sair à noite por ter uma vagina.  Elas sentam com as pernas fechadas por ter uma vagina. Elas toleram conversas nada bem-vindas durante a gravidez, porque todo mundo tem uma opinião sobre suas vaginas (trocar de lugar na hora do parto normal ninguém quer, né?). Elas regulam seu apetite sexual, pra não ter uma vagina “mal falada”. Elas são promovidas ou não são promovidas por ter uma vagina. E foi justamente por estar preocupada com tantas questões envolvendo a minha vagina que procurei uma especialista – uma ginecologista. Nada além de exames de rotina, pré-câncer (FAÇAM PRÉ-CÂNCER!) e uma preocupaçãozinha mínima sobre a queda da minha libido. Andava “desestimulada” até para brincar sozinha e aquilo vinha me preocupando. A gineco me disse que estava tudo certo comigo, não fosse uma “depressãozinha” da minha querida. Lembrei-me de Charlotte, na 4ª temporada de Sex and the City e seu dilema da vagina deprimida. A minha vagina estava triste, e apesar dos lábios, a pobrezinha não podia dizer nada a respeito num divã. A médica me explicou que era uma fase ligada ao meu psicológico, e que logo ela voltaria a ficar mais animadinha.

Óbvio que a minha vagina está triste. Não fosse todos os problemas que eu já enfrento, repare a quantidade de dilemas que ela ainda me causa. Aliás, de novo, coitada dela. Ela é só uma vagina. Mas para o meu chefe, ela resume a minha incapacidade. Para muitos ela tem mais obrigação de dar prazer, do que receber. Ela não pode nem ter brinquedos, ou deve tê-los em segredo. Ela é estuprável. Ela é casamenteira. Parideira. Ela é libertina. Depilada – pra sempre depilada. Ela é temperamental. Ela é deprimida. Mas no fundo, ela só queria ser uma vagina.

Sei que apesar de todas as dificuldades impostas, nós sairemos juntas desse momento de desânimo, a minha vagina e eu. Até porque dependemos uma da outra para sermos felizes. Então não importa quanto tempo vai levar, ou quantos tabus haveremos de quebrar, ou quanta intolerância e incompreensão teremos de derrubar. Um dia todas nós seremos livres destas amarras que nos abatem. E poderemos  dizer com tranquilidade: vá-gina, vá ser feliz.


Fim da sessão.

Coisa de Antônia: A gente namora, mas você não sabe

No ATL Girls da Rede Atlântida o Coisa de Antônia (de Maria, de Carolina, de Tatiana, Larissa, Gabriela…) desta semana trata da habilidade feminina de criar romances… ainda que sozinha.

E você, já imaginou um amor todo seu? Pula pra lá, sua desvairadinha, e conta pra nós:

A gente namora, mas você não sabe

Diferente, de Bowie

O mundo ontem foi tomado pela dor da despedida de um artista único. David Bowie, vanguarda como apenas ele sabia ser, em seus últimos momentos despediu-se antes mesmo de fechar os olhos, presenteando fãs com o hit Lazarus, do álbum Blackstar. Em tom melancólico e nostálgico, sua música anunciava a saudade antecipada do camaleão do rock. Nossa saudade. Sobre o talento, não ficou nenhuma dúvida. Bowie foi ousado, livre da expectativa do mainstream. Ele não flutuou nas tendências – ditou-as. Influenciou o cenário musical, as artes, a moda. Fez contribuições sociais, questionando paradigmas, discutindo comportamentos. David não era deste mundo, talvez por isso precisasse do alienígena Ziggy para habitar entre nós. Ora, e quem nunca se sentiu um extraterrestre por aqui, não é mesmo?

Foi pensando nisso, nesse sentimento de não-pertencimento, que fiquei mais alarmada com a despedida de Bowie. Perdíamos um representante dos misfits, dos underdogs, dos outcasts. Óbvio que a partida de alguém do calibre de Bowie, por si só, geraria uma grande comoção. A minha surpresa, entretanto, foi que na paralela do talento, Bowie foi saudado por sua excentricidade. Sua diferenciação. Bowie foi (e seguirá sendo) comemorado por sua liberdade, pela alma alforriada, pela mente emancipada do resto do mundo. Quem de nós não gostaria de tal independência? Comportar-se atendendo aos desejos, mais que às ponderações e limitações de outrem? Pintar o rosto com o abstrato do sentir, ao invés do regulado da moda? Amar quem bem entender. Eu invejo Bowie. Aliás, invejo e me desconserto com o efeito dele.

Nesse processo de despedida de uma estrela de brilho único, vi gente que apoia a androgenia de Bowie, mas não suporta os transexuais. Reparei certo antagonismo no processo. Não era Bowie que tanto celebrou a transfiguração, com suas blusas de mangas bufantes, seu colorido vibrante, seu batom neon?  Li declarações de amor à distinção do cantor, dos mesmos indivíduos que descriminam as diferenças nas “pessoas comuns” – seja pela cor da pele, pela opção sexual, o dito “lugar de homem” ou “lugar de mulher”. E me peguei pensando: como alguém que transitava livremente entre tantos contextos pode ser tão aclamado, pelo mesmo grupo que adora apontar as diferenças? Pelo roqueiro que faz mal juízo do cara que curte sertanejo apenas porque seus gostos divergem. E não foi Bowie que uniu o rock ao punk, ao blues, ao folk? Esquecemo-nos que ele não dividia estilos, misturava-os, somava e então multiplicava. Não seria essa sua maior lição? O aprendizado a partir das diferenças?

Se olharmos a fundo a trajetória de todo criativo como ele, veremos que a vanguarda é um lugar muito solitário. Antes do reconhecimento de Bowie, ele era apenas um grande potencial incompreendido, um peixe fora d’água. Aos 17 anos criou um grupo de apoio ao cabelo comprido, estilo depreciado na antiga Inglaterra. Queria suas escolhas respeitadas – e esse processo é sempre dolorido pra quem é diferente, ou ousou nadar contra a maré. Quem dita tendência, é também quem recebe crítica, e desta forma acaba optando muitas vezes pela introspecção antes de qualquer extroversão. Lady Gaga usou a música para tratar de sua depressão, ansiedade e falta de aceitação própria. Lionel Messi recebeu ontem (e pela 5ª vez) o troféu de melhor do mundo, sendo que o futebol foi a ferramenta usada inicialmente para vencer o autismo e a baixa estatura.  Ou seja, gente que teve que superar as próprias diferenças para poder dizer para o mundo, “Sou diferente sim e eu arraso. Chupa essa manga!”. Criaram realidades dentro de seus próprios termos para vencer, inspirando-nos. Ok, talvez você não queira ser um rockstar ou ganhar a Bola de Ouro do futebol mundial. Mas quem de nós não luta diariamente por aceitação, para produzir, criar, ser feliz, gozar, amar? Bowie olhava o mundo de forma diferente (caralho, o cara tinha inclusive um olho diferente do outro!). Quem de nós tem essa coragem?

Ao invés disso mantemos nossos gostos, comportamentos, sexualidade, reprimidos e rotulados. Cultivamos uma aversão e medo a tudo que é diferente – precisamos logo responder a estas equações que nos desconsertam, ao invés de festejar a novidade. Dizemos-nos bem resolvidos, mas falamos mal da saia alheia, logo acusando “puta”, desconfiamos de olhos pintados, declarando “emo”, “gótico”. E neste mesmo universo então, temos o garoto de Brixton que foi reconhecido por sua estranheza, tanto quanto foi pelo seu talento na música. Excentricidade – veja bem, me parece que combina com sucesso, holofotes, plateias. Então por que não combina com o anonimato? Estranhos anônimos são apenas estranhos, deslocados, preteridos. O meu lado travesti e dramático chora por essa inversão de valores. Talvez não por mim, que já aprendi com a hipocrisia da nossa sociedade, mas fico pensando nas novas gerações de seres peculiares e excêntricos que vem por aí. Meu irmão Mateus, é um pequeno exemplo deste desafio. No auge dos seus cinco anos ele é obcecado pela cor rosa e por tudo que brilha. Devo ensiná-lo de que o mesmo mundo que adora a singularidade de David Bowie vai achar que ele é estranho, desajustado, desconectado? Não, eu gosto de pensar que meu irmão terá a alma de artista como eu, e beirando a rebeldia vai exaltar uma vida colorida e excepcional, como ele julgar melhor. Espero que ele aprenda que ser diferente pode ser fantástico. E torço que o mundo se torne um lugar mais tolerante para que ele possa ser diferente, assim, de boa.

Ou melhor, de Bowie.


Fim da sessão

PS: Numa pauta mais pessoal, o meu irmão Leonardo tinha uma expressão que ele adorava que dizia “Vai, Carlos, vai ser gauche na vida”, em referência ao “Poema de Sete Faces” de Drummond, onde gauche pode ser traduzido como “esquerdo”, “diferente”, “incompatível” ou “deslocado”. Dias antes de falecer, o Léo entregou ao Mateus um presente – um microfone do filme Frozen, colorido de rosa, roxo, azul e prateado brilhante. Acho que esse era o jeito dele dizer pro Mateus, “Vai meu irmão, vai ser gauche na vida”. Vai ser Bowie na vida.

 

Coisa de Antônia: Amor além da vida

Hoje no “Coisa de Antônia” no ATL Girls da Rede Atlântida, abri mão da possibilidade de vocês me chamarem de maluca, e contei os estranhos eventos que tem questionado a minha fé. E você, acredita em conexão após a morte?  Cai pra cá e dá tua opinião:

Coisa de Antônia (3)

Ano novo, velha zoeira

Abro os olhos para 2016, tendo a certeza que pulei do 1º dia de janeiro direto para o carnaval. Unidos da Velha Ressaca  está  ensaiando seu samba enredo dentro da minha cabeça. “Se o ENGOV não tomar, olé olé olá, de ressaca vai acordar”, canta a bateria entre bumbos e maracatus fazendo BUM-PRATACÁ PARATI BUM-BUM. Acredito que comi lentilha junto à todas as rolhas disponíveis, considerando o gosto de cortiça velha que tenho na boca. Aliás, lentilha, rolha e cigarro. Ou seria um charuto? Será que fumei um charuto? Mas que porra de cama estranha é essa? Ah, não, reparo que eu é quem deitou ao contrário. Lara está do meu lado atravessada da mesma forma. Ok, ela é bem mais sensata que eu, devo ter vindo direitinho pra casa. Aliás, como mesmo que eu cheguei em casa? (nova história, velha história) E.. onde… caralho, MEU CELULAR??! Ufa, encontro-o embaixo da minha bochecha, levemente (muito) babado, mas ainda assim, inteiro. Nele percebo o Facebook aberto com um contato adicionado pendente e uma mensagem que enviei, ainda sem resposta – Deus meu, quem é esse cara que eu adicionei? Ai! Um flashback da noite. Mais um marrento pra conta! Eu sempre faço isso.

Feliz ano novo, e velha zoeira.

Não adianta. Eu vou planejar, prometer e escrever os meus votos de ponderação, sensibilidade e juízo para o ano que inicia, e começar todos eles com a ressaca moral de sempre, arrotando borbulhas infinitas. Julguem-me, mas a desordem me persegue. Aliás, não só me persegue, como vem em formato de amigas – potencializando o alvoroço. Encontro a Carol na sala, com a mesma cara de Deus-nos-acuda que acordei usando.  “Oi Antônia! Viu minha irmã?” – ela pergunta sonolenta. “Oi amiga. Tá dormindo ali na cama. Chegou bem em casa?” – pergunto a ela enquanto tento ajeitar a minha cara. “Aham, acabei vindo a pé”. “Carol, como veio a pé, são mais de 7km da festa que estávamos?!”“Ah, sim, na verdade fiz um pedaço de bicicleta” – diz ela com ares despreocupados – “COMO ASSIM DE BICICLETA? Tu não tem bicicleta.”“Não tenho, é que eu peguei carona com um garoto na praia, ele devia ter uns 15 anos”. “Carol, tu conseguiu achar alguém mais desgraçado que tu às 8h da manhã pra pedalar 7km carregando tua bunda até aqui?”“Sim, mas ele curtiu. Ainda zoava com os caras dirigindo suas caminhonetas importadas voltando sozinhos da balada.”“Isso é a tua cara, Carol, entrar 2016 na carona de uma bike, fazendo a alegria de um adolescente, emocionado só de te carregar. Preciso de uma Coca-Cola, vamos pra rua?” – ela concorda. “Por que estou com a música ‘Cara caramba caracaraô’ na cabeça?” questiono-a ao chegarmos no elevador, e Carol ri, “por que tu cantou ela do momento da virada até de manhã cedo”. 

Descemos e encontramos com a Alana em uma destas inúmeras ruas movimentadas de um litoral qualquer do Brasil – já que todos são iguais – em que todo mundo faz votos de ser melhor no ano que inicia, mas deixa o lixo do réveillon a beira mar. “Tudo bem com você?” – pergunto a Alana – “Tudo certo, e vocês?” – Carol concorda com a cabeça, enquanto eu faço cara de interrogação: “Mais ou menos, amiga, falta-me preencher umas da noite de ontem.”“Nada fora do normal, dançamos até o chão, você fez amizade com uma sobrevivente de um acidente de carro e um garoto gay lá na área de fumantes – trocaram telefones pra continuar um projeto, algo sobre mudarem o mundo. Bebeu o que pôde, e quando já não pôde, ficou com cara de guria cagada. Beijou um marrento com ares de “odeio estar aqui” (adoro), e depois de um tempo começou a se comunicar apenas por sinais. Nunca entendi porque você fica bêbada e começa a falar com gestos. Enfim, viu? Nada mudou.”“EXATO! Olha que puta oportunidade que perdi de fazer tudo diferente. 2016 podia ser o ano em que eu ia começar com o pé direito, e não cambalear a minha carcaça pela pista de dança. Me tornar alguém mais ajustada, polida e elegante! Eu já não tenho mais idade pra isso.”  – Alana e Carol me olham com estranheza, quase ofendidas com meu comentário sobre a idade, idade que elas e eu regulamos com diferença de poucos anos – “Ah, Antônia, bem menos” ,”Toma essa Coca-Cola”  – disparam as duas.

Reunimos-nos no apartamento do resto do grupo para nos atualizarmos do status quo da outra parte da equipe. Vanessa quase perdeu tudo que tinha na volta pra casa. Pulou pra dentro de um taxi com outros três estranhos, achou que perdeu a bolsa no caminho, apenas para dar-se conta de que ela é a bolsa ainda estavam no taxi. Pegou o telefone e ligou para Alana, para avisar que haviam lhe roubado o celular. “Amiga” – disse Alana para Vanessa com toda a paciência do mundo – “não roubaram teu celular, você está falando nele comigo” – “Aé, ufa!” – respondeu Vanessa aliviada. Manuela que foi pra casa de uns amigos que tiveram a casa arrombada, ligou para a Clarissa e pediu que Alana (santa Alana) fosse lá resolver o crime. Clarissa sugeriu chamarem a polícia, ao invés da Alana que naquele momento estava também ocupada tentando um taxi para que ela, Clarissa e eu voltássemos pra casa – quando finalmente entendi, como fui parar na minha cama. “Tá” – faço uma pausa inquieta – “Mas por que então a Carol voltou de bicicleta e não conosco ou com a Lara, que é irmã dela?” – “Porque as duas brigaram?” responde Clarissa dando risada. “Por que?” – indago tentando acompanhar a trama. “Essa é a parte engraçada, nenhuma delas lembra direito o que de fato aconteceu, hahaha”. Largo os ombros frustrada. “Mais um réveillon da pá virada nas costas. Ano que vem precisamos fazer melhor.” – concluo com convicção, enquanto ganho uma encarada do grupo. Todas caem na risada.

Na volta pra casa, vou fazendo uma retrospectiva da noite. Aquela que esperamos o ano inteiro como um marco de renovação. Alana percebe a preocupação no meu semblante, e investiga “vai me contar o que está te preocupando, ou vai ficar noiando aí sozinha?”. “Sabe amiga, fico aqui pensando nessa minha ambição de ser mais correta, como se a nossa arruaça fosse indigna. É como se meu cérebro fosse programado para sentir culpa dos momentos de diversão, ainda que por vezes de diversão exagerada, sendo que é deles que vamos lembrar quando ficarmos velhinhas – se tivermos sorte de ficarmos velhinhas, já que a vida pode ser tão curta. Fico pensando o que os outros vão dizer, ou como vão julgar meu comportamento que costuma sempre tombar para o lado do tendéu. Acho que a gente coloca ênfase demais nas resoluções de ano novo e no aperfeiçoamento dessas personas que criamos pra nós mesmos. É um conflito eterno. Sei que devo abrir mão de alguns velhos erros, mas alguns deles me fazem exatamente quem eu sou.” – Alana me olha instigada e dispara: “Ora, pois então assuma. Grite ao alto que você gosta mesmo da zoeira, e curta ela até o dia que mudar de ideia”. “Vou fazer” – concordo com ela – “Já está mais do que na hora de eu parar de me julgar por conta da minha idade, e aproveitar meu restinho de juventude como eu achar melhor. Com todos os meus velhos erros assumidos.”

– “Isso!” – conclui a Alana.

– “Isso!” – reforço com confiança.

“E o marrento que você beijou? Respondeu a sua mensagem?” – ela pergunta.

– “Não, e não vai responder. Lembrei-me de algo que disse a ele ontem a noite quando nos encontramos na festa” – digo envergonhada.

– “O que?” – Alana arregala seus olhos castanhos. 

– “Disse que ele velho demais pra estar na zoeira” – assumo, em meio a um sorriso amarelo.

– “É talvez você precise mesmo se livrar de alguns velhos erros”.

– “Mas ele não era velho, tinha apenas 39”.

– “Velho erro refiro-me a sua língua de trapo, Antônia. Talvez você devesse mesmo ficar com a linguagem dos sinais”.

– “É culpa do ano novo, amiga”.

– “E da velha zoeira!”.


Fim da sessão.

Aperta o play e cai pra dentro de 2016 comigo:

“alô galera eu parei de zoar
agora sou um rapaz sério, muito sério…
Por que ? Por que ?
thuthurudaum pretendendo me casar”