Coisa de Antônia: Nem amigo, nem secreto

No Coisa de Antônia (de Maria, de Joana, de Carolina, …) de hoje no ATL Girls da Rede Atlântida, a gente bota a boca no trombone em clima de #meuamigosecreto.

Cola lá:

antônia no divã - nem amigo, nem secreto

Querido Papai Noel

Chegamos à marca dos 30 dias para o Natal, e peguei-me mais uma vez pensando se havia sido uma boa menina durante o ano. Avaliei as intenções do meu coração, revisei as minhas atitudes e por último comparei tudo isso com a lista de pedidos que fiz a você. Papai Noel, pode ser que você não se lembre da minha carta do ano passado, pois eu também demorei a recordar. No ano passado, foi a primeira vez em que não te escrevi. Não mesmo – pode conferir. Diferentemente de todos os outros anos, eu não te pedi nada. Ao invés disso cancelei qualquer presente que tivesse o meu nome, pois na ocasião me declarava afortunada o suficiente para receber mais graças. Não houve carta, Barbudo. Apenas uma foto, pode olhar no meu Facebook. Uma foto da minha família, entre muitos sorrisos, sentada na escada aguardando a ceia – na legenda dizia: “Papai Noel, cancele os meus presentes, eu já tenho tudo que preciso. Obrigada”. Lembrou agora? Eu era a garota feliz daquela foto.

Pois é Papai Noel, hoje, no entanto, eu já não contemplo tal plenitude, e você sabe por quê. A foto deste Natal, ou de qualquer outro natal, não terá nunca mais a minha família completa. Confesso, Bom Velhinho, que agora me sinto um pouco traída por não ter te pedido nada no ano passado. Talvez devesse ter pedido muitos outros anos de fotos de famílias completas esperando a ceia. Na ocasião me pareceu mais do que justo apenas te agradecer, e foi o que fiz. Eu só agradeci. Ora, pois neste ano eu vou precisar de uma ajudinha, você entende. Sei que tu não podes me conceder a graça de voltar no tempo e ter de novo aqueles sorrisos. No lugar deles, fiz uma listinha de pedidos para o Senhor avaliar. Juro que não pediria nada novamente, se não estivesse realmente precisando. Aí vai:

Papai Noel, conceda alivio para a minha mãe e para todas as mães do mundo que sofrem com a ausência de um filho. Por favor, Papai Noel, não poupe esforços para cuidar das mães. Entenda que para elas cada filho é único, e a falta de qualquer um deles é um desalento insuportável de se presenciar. Guarda com carinho todas as suas lembranças, cada colinho, cada beicinho. Cada sopro de joelho ralado. Não as deixe esquecer cada abraço apertado, e minimize a ausência de todo abraço que não mais houver. Cuida das mães – porque sem elas, o mundo que já tá difícil, perde toda a esperança. Cuida da minha mãe, eu lhe peço. Traz de volta o brilho do olho verde dela, pois sem ele a minha vida perde um pouco o sentido.

Papai Noel, proteja o meu pai e todos os pais do mundo e os absolva de suas culpas irracionais. Você como pai deve saber que os pais sempre acham que podiam ter amado mais, protegido mais, sido mais presentes. Explique a todos eles, Papai Noel, e em especial ao meu pai, que eles não erraram conosco. Porque se erraram foi sempre tentando acertar. Mostre a eles que nos amam como podem, e que seus filhos entendem – mesmo quando não entendem. Cuida do meu pai, para que ele possa me enxergar mesmo em tempos mais sombrios, e que ele nunca se esqueça de que eu sou a menininha dele, e que vou estar sempre ao seu lado.

Papai Noel cuida dos nossos amigos. Fortaleça as asas daqueles anjos altruístas que não pensam duas vezes em pular no penhasco da dor para nos buscar. Que nos sorriem mesmo com o coração despedaçado, e rezam por nós quando a nossa fé silencia. Não deixe que eles desistam de nós, Papai Noel, pois reconhecemos que seu fardo é pesado, e sua caminhada é longa.

Papai Noel proteja a inocência dos meus irmãos e de todas as crianças do mundo. Sabe, cara, os anjinhos lá de casa só têm cinco aninhos e adoram você. Dá uma forcinha pra gente, e protege a doçura deles. Eles sofrem vendo nossas lágrimas com pesar de gente grande. Aliás, eles e todas as crianças sofrem com intensidade, frente às dores do mundo, e como nós, padecem inconformados. Eles trocariam seus presentes de Natal por nossa alegria de volta, isso eu sei. São novos demais para a saudade ou adversidade. Ajuda a preservar a magia do Natal, data em que se diz que tudo é possível, já que pra maioria dos adultos, a tarefa parece cada dia mais impossível.

Papai Noel dá um pouco de compreensão para essa terra. Mande-nos kits de diálogos construtivos. Atitudes bondosas. Energia pros bons corações. Papai Noel, esse ano foi pesado. Faz-nos acreditar que as coisas vão melhorar, rios vão voltar a correr, fronteiras vão se abrir e a intolerância irá se calar, de vez e para sempre. Papai Noel, faz-nos acreditar que vale a pena escrever-te cartas com nossos melhores desejos, por favor. Não sei como é aí no Polo Norte, mas no resto do mundo sinto que nossa fé está abalada. Ajude-nos.

E Papai Noel, sei que meu pedido está em cima do laço, e que seus elfos devem estar ocupados com pedidos mais importantes. Mas se sobrar um tempinho, ainda que pequeno, lembra-te de mim. Ensina-me a sorrir de novo. Suaviza a minha saudade. Sei que nunca mais vou ser completa, como a garota da foto do Natal passado. Mas se puder, me faz continuar acreditando que o Natal pode ser mágico, e que o ano que começa pode, deve e precisa ser um Feliz Ano Novo.

Fim da sessão.

Coisa de Antônia: karma’s a bitch!

Sabe o que Ronda Rousey, Malala, você e eu temos em comum?           Um carma!  E no “Coisa de Antônia” de hoje no ATL Girls da Rede Atlântida, eu conto como ele funciona.

Pula pra lá:

Untitled design (7)

Tristeza, pode passar

É como se eu tivesse recebendo uma educação. É, um phD em tristeza. Acessando níveis de profunda introspecção na arte de arder o coração em pesar. Encontro-me num processo muito similar a aprender uma nova língua ou uma habilidade nunca antes desenvolvida. Eu estou virando uma perita na produção de lágrimas. Gordas, pesadas e inconvenientes. Lágrimas que jorram sem cerimônia ou hora marcada. Sinto os olhos como barragens arrebentadas, e o peito Minas Gerais (com todo o meu respeito). Sou uma terra arrasada pela água.

Na verdade uma mimada pela felicidade é o que sou, hoje sei. E minha ignorância na arte da tristeza ajudou a desenvolver uma fobia em relação à complexidade do sentimento de hoje. Por que ninguém nunca falou da tristeza? Como que não somos ensinados a sentir dor com antecedência? Sou conhecedora íntima da tal da alegria, euforia, felicidade, mas nunca me prestei a olhar 2 minutos pra tristeza? E agora cá estou, amadora da melancolia tentando apenas sobreviver. Uma principiante assustada é o que sou. Eu deito por horas na minha cama em meio a crises de choro implorando pro meu coração não explodir de padecimento. Na minha estranheza quanto à tristeza, eu temo que – de forma literal – meu coração se esvaia em lamentos – veja que tola essa novata dos dias tristonhos?

Esbravejo “Que injustiça da vida!”, logo eu que sempre tive pavor de sentir pena de mim mesma, me pego confortando a própria cabeça num ato desesperado de “ora, ora, vai passar…” (em voz alta). Quero sentir pena de Paris, Mariana, dos refugiados e abraçar todas as dores do mundo, numa tentativa de colocar minha dor – tão egoísta e egocêntrica – em perspectiva e tudo se esvai em prol da minha amargura, minha, e tão minha. Eu nunca fui amiga da tristeza, nós sequer tínhamos sido apresentadas, e agora ela se mudou pra dentro da minha casa? Usa minhas roupas e exige todo o meu tempo? Sua espaçosa!

Mas ela é educadora, isso é. Como poderia uma vida de sorrisos, sem a profunda experiência de velar a morte da minha inocência? Quer dizer, eu já tive momentos de tristeza – mas a condição atual exige um nível superior de entendimento. É como se eu tivesse passado 30 anos de cursos esporádicos de melancolia, e fosse lançada a Escola Superior do Abatimento para um MBA em Mágoa Avançada com Ênfase em Padecimento Crônico. E eu não estou sendo dramática. Foi tipo, “vai sua linda, vai aprender que a vida não é sempre doce chupando todo o limoeiro.” E aqui não me refiro à depressão – assim espero – é tristeza mesmo.

E quando você inicia essa educação, você está por conta. As pessoas felizes ou as que gozam da ausência da tristeza não entendem desta matéria, e por isso tem medo, repulsa ou desinteresse no assunto. Medo de que seja contagioso, e por isso se mantém bem longe da minha nova faculdade – “pra me dar espaço”. Repulsa porque não conhecendo o fundo da sala de aula, que neste caso é um poço escuro, não entendem como você ainda não achou seu caminho de volta para a luz. E desinteresse, porque convenhamos, gente infeliz é chata pracaralho. Eu me tornei o tipo de pessoa que evitei a minha vida toda: uma pessoa triste. E acredite, pouca e corajosa gente vai te amar e ficar por perto, mesmo nos dias tristes.

E como eu me esforço pra ser boa em tudo que faço, me vi doente na arte de ficar triste. O choro constante virou sinusite, que virou dor de garganta, que virou bronquite, que virou hospital. Na nebulização a jovem médica me pergunta “está doendo alguma coisa?” espantada com minhas lágrimas (gordas!) em meio ao vapor – “não, doutora, não tem remédio pro que eu tenho não. Estou recebendo uma educação.” “Quer um tranquilizante?” – ela pergunta preocupada – “Não obrigada, isso seria como colar na prova, doutora”.

E aqui está é outra coisa que já aprendi sobre a dor: poucos alunos estudam essa matéria “de carinha”. Uma infinidade opções tarjadas de preto ou vermelho oferecem um semestre mais tranquilo na faculdade do luto. E se você se distrair por um minuto de boca aberta, alguém vai te tascar um comprimido boca adentro “pra ajudar”. Acontece que toda vez que alguém me oferece essa opção, eu me pergunto: mas se não aprender essa matéria agora com meus próprios meios, não corro o risco de rodar? E rodando, não terei que repetir a matéria ali na frente? Não, muito obrigada. Se a dor ensina gemer, eu hei de decorar seu hino – se preciso for.

Eu nunca me imaginei dissertando sobre o pesar, assim, tão pesado, mas cá estou. Sabendo que talvez seja a única forma de ser aprovada nesta pós-graduação que é a vida. Torcendo para que cada prova me torne mais capaz de entender o mundo, que cada lágrima lave a ferida aberta e que este processo me ensine mais sobre eu mesma. “Mas você é forte, você é uma guerreira!” canta a torcida da faculdade da alegria, sem qualquer discernimento do que é ser dona desta minha matrícula. Eu não sou forte, tão pouco uma guerreira. Carne, osso e amor me constituem, e tudo isso é muito frágil. Então se eu perseverar (e eu vou perseverar), é simplesmente porque eu não tenho e não acredito em outra opção.

Hoje eu preciso da tristeza, e talvez só através dela, vou realmente entender aquilo que antes chamava de felicidade.  Então me dá licença, se você se acostumou com a minha alegria. Querendo ou não, minha tristeza exige passagem, e passando, vai passar.


Fim da sessão.

Coisa de Antônia: Adote um humano

Hoje o “Coisa de Antônia” do ATL Girls conta a história de um pequeno guerreiro que achou seu guardião para então virar o meu anjo da guarda.

Clique no focinho do Django e conheça a história deste amor:

antônia no divã - adote um humano

É preciso deixar ir embora

Eu começo esse texto pedindo desculpas. Não pelo silêncio dos últimos dias, esse tão necessário durante meu luto. Mas à todas as pessoas que de alguma forma eu ofendi ou fui insensível ao escrever o texto “É preciso ir embora“. Algo que se deve entender aqui, é que eu sempre estive na posição de quem partiu, tão cheia de expectativa rumo a novas aventuras, e por isso não entendia em profundidade a dor de quem fica no porto ou aeroporto abanando em saudade – todo tipo de saudade. Hoje, no entanto, eu passo a entender a dificuldade de não ter perto dos olhos, quem mora no coração. E eu tive que aprender a me despedir da forma mais dolorida e irreversível. Não suficiente, tal lição veio através da pessoa que eu mais amei e amo nesta vida.

Há um mês eu perdi meu irmão. Encontrei-o inconsciente após o que indicava um mal súbito/convulsão, e depois de tentativas de soprar toda a minha vida pra dentro dele, minha ilusão dissipou-se ao ouvir meu pai, anunciando com a voz desesperançosa, que ele havia partido. “Morreu”, disse em choque. E com apenas uma palavra, um verbo estranhamente conjugado no passado, uma parte de nós, do nosso presente – de tempo e de Deus – também se foi. Rasguei minha garganta em gritos de discórdia e desespero. Era como se naquele instante o tempo tivesse parado, ressaltando cada detalhe da falta de sorte que nos esmagava contra o chão. Abracei minha mãe enquanto ela implorava para eu dizer que aquilo era uma mentira. Nunca vou me esquecer dos olhos dela, antes tão cheios de amor, e ali naquele momento, vazios. Um gosto amargo tomou conta da minha boca, da minha vida. O Leonardo havia ido embora pra uma viagem sem volta, cujo destino eu não tinha visto de entrada. Com o meu coração sangrando nas mãos, chorei por não ter me despedido, e desde então não se acordou um único dia que não tenha sido regado a lágrimas de saudade.

Eu nunca falei do Leonardo aqui por dois motivos bem sinceros. Diferentemente de mim, o Léo sempre foi muito comedido – nada como a irmã que nunca teve papas na língua pra tornar o privado, público. E eu sempre respeitei isso. Além do respeito, a incapacidade de traduzir em palavras o que meu irmão significa pra mim. Já soltei o verbo sobre minha mãe, pai, sobre os irmãos gêmeos, minhas melhores amigas. Nunca sobre o Leonardo, e talvez apenas para o Leonardo. A dificuldade possivelmente está no fato de que ele personifica (ainda no presente) todos estes papéis. Meu irmão, meu melhor amigo, meu responsável, meu pupilo, meu protegido, meu confidente, meu filho, meu pai. Minha alma gêmea. Alguém cujo meu coração sempre bateu em sintonia, desde os primeiros anos da infância. Dono do meu amor maternal e fraternal coexistindo. Guardião da melhor parte de mim. Ser feliz ao lado do meu irmão sempre foi fácil. E se eu fui destemida a vida toda, era porque com ele ao meu lado, eu nunca tive nada a temer. E isso tudo mudou.

O luto da maior perda da minha vida trouxe a urgência de aceitar uma despedida sem qualquer preparo e em praça pública. Com sua partida tão antecipada e não anunciada e tendo ele passado mal dentro de casa – vieram as perguntas. “Como e por que ele foi embora?” e nós não sabíamos responder, ninguém sabia. Muito embora o Léo tivesse passado mal outras duas vezes neste ano, ambas resultando em convulsões, nenhum exame apontava qualquer alteração ou falência. A causa declarada no óbito como indeterminada, potencializou nossa dor, fez ecoar a nossa impotência frente à fragilidade da vida e alimentou uma culpa irracional constante – “o que aconteceu?”; “por que não deu tempo de fazermos mais exames?”; “como podíamos tê-lo salvo?” e lógico “queria ter ido no lugar dele”. Frente à falta de respostas, não demoraram muito para os abutres levantarem suas hipóteses infundadas, fomentadas pela curiosidade mórbida do ser humano e completo desconhecimento da pessoa que meu irmão era – uma pessoa alegre, bondosa e inteligente. Um futuro psiquiatra promissor, vivendo possivelmente a melhor fase da sua vida através da formatura de medicina no mês de dezembro, o início de uma bolsa de PhD, um visual novo lindo que finalmente combinava com sua personalidade e as novidades alegres trazidas pela maturidade. O meu irmão era a favor da vida, e fã nº1 da dele, e ouvir falácias supondo o contrário neste momento de despedida foi como perdê-lo duas vezes.

O aviso do ocorrido postado pela família no seu perfil do Facebook foi dito “mal escrito” e “inadequado” – agora me explica, existe jeito certo? Tem etiqueta ou tutorial para este tipo de despedida? Com que estrutura (de texto ou emocional) se notifica o fim da vida de um amor? Em meio ao nosso drama, ainda houve quem reivindicou viuvez de forma pública, sem nunca ter conhecido meu irmão, num ato desesperado de 15 minutos de fama em cima da dor alheia, para uma plateia de desinformados que bateu palmas para um amor que nunca existiu ou existiria – ao menos não aquele, eu é que sei. Era como se em meio à partida do meu irmão, tivéssemos ficado encarregados de toda a bagagem que ficou pra trás, não dele, mas impertinentemente a dos outros. Tudo tão público e incompatível com generosidade do meu irmão. Logo ele que preservava tanto sua privacidade e a dos outros. Eu me culpei por falhar com meu irmão no fim de tudo – eu fui calada pela dor da perda durante dias e não consegui protegê-lo de todo e qualquer mal, ainda que tratando-se de sua memória.

“Você sempre sabe como cuidar de mim”, o Léo me disse dias antes de partir. E talvez seja por isso que eu esteja tão perdida agora. Minha vida ganhou sentido no dia em que o Leonardo nasceu, e como irmã mais velha me pareceu linda a tarefa de sempre zelar por ele. E eu zelei. Quando puxava a cama dele pra perto da minha quando ele tinha medo de dormir sozinho. Quando saímos de casa juntos, para habitar um lugar neutro durante o divorcio dos nossos pais. Quando fiquei ao seu lado após uma cirurgia, para só sairmos do hospital se fosse juntos. Quando ele teve dúvida em relação a fazer e seguir com a medicina. Estive ao lado dele pra dar mijada e pra brigar quando ele não se cuidava – única razão pela qual a gente brigava. Para dar apoio em qualquer decisão. “Irmã” (como ele me chamava) sempre foi o meu título mais honroso e que definiu quase tudo do meu caráter até hoje. A minha existência sem a do Leonardo, me parece uma incoerência da vida, um engano do destino. É como se eu fosse um par de meias que perdeu o pé esquerdo – sem propósito, guardada numa gaveta escura. Uma porta trancada sem a chave.  “Avião sem asa, fogueira sem brasa”. Como ressignificar?

“É preciso deixar ir embora” – Frase proferida diversas vezes nos primeiros dias de luto, antes repetida como um conselho maldito, e hoje, ordem para o meu primeiro passo.

E é preciso deixar ir embora.

Hoje começo a entender que mais difícil e importante que aprender a ir embora, é aprender a deixar alguém partir. Seja essa partida temporária, com reencontros confortantes. Seja uma partida eterna, como a do meu irmão. E sei que só existe UM conforto para toda e qualquer separação – viver intensamente as pessoas que amamos durante o tempo que se tem. A ordem é nunca deixar nada pra trás. O Léo foi coautor de cada uma das minhas histórias. Eu vivi intensamente o meu irmão. Amei-o todos os dias da minha vida, disse e demonstrei esse amor, mesmo quando discordávamos. Eu celebrei o Leonardo a cada conquista, e ajudei-o em cada tombo. Então veja, eu não tenho nada pra me arrepender do nosso tempo juntos, porque ele foi aproveitado com cada batimento do meu coração.

Hoje também sei que o aprendizado de deixar ir embora é um período solitário, intransferível e demorado.  Haverá de deparar-se com a separação – temporária ou permanente – e obrigatoriamente fazer dela um período de ressignificação pessoal. Não importa a quantidade de pessoas que te rodeie, existirá por um bom tempo uma solidão latente, pois a ausência de qualquer pessoa – como a do meu irmão –  não pode e nem nunca será substituída. É intransferível porque por mais que meu pai, minha mãe, ou mesmo meus irmãos pequenos, estejam passando pela mesma perda, a nossa conexão com o Leonardo é única, e desta forma cada um de nós sente a dor e a saudade de uma forma também muito singular.  E não existe “tratamento” rápido. O processo anda a passos de formiga, todo dia é um desafio e o tratamento visa minimizar os sintomas da dor, mas nunca cura.

Ainda que solitário, intransferível e demorado, permitir que outras pessoas estejam por perto dando apoio, é talvez o único jeito de tolerar esse momento de adaptação e ressignificação. E aqui não haverá surpresas – eu vivi isso – você saberá sem nenhuma dúvida, quem vai te ajudar de verdade, seja com o ombro, com o colo ou simplesmente compartilhando do teu silêncio. E fomos sortudos em ter uma legião de anjos ao nosso lado durante o último mês, nos segurando sempre que a dor foi mais forte, e por eles temos uma gratidão que não pode ser traduzida em palavras.

Hoje sei que deixar ir embora é importante em respeito aos objetivos de quem está de partida ou quem já partiu. Se for por vontade, destino ou “porque Deus quis” (“aspas” aqui porque ainda estou de mal com Ele). Ir embora é etapa importante da vida de uma pessoa, e sei que não cabe a ninguém questionar as razões. Aprendi que não posso ser âncora na evolução pessoal ou espiritual de ninguém. E também sei que essa despedida não pode ser uma âncora na minha vida – não porque devo qualquer coisa ao meu irmão, mas porque a felicidade é um compromisso que eu assumi comigo mesma há muito tempo, o que sempre foi motivo de orgulho pra o Leonardo.

É preciso deixar ir embora porque tudo na vida é transitório, e eu confio no tempo – e somente nele – para me ajudar a conviver com a dor da saudade.  Entendo que não existe outro caminho que o caminho do meio – não tem como desviar ou contornar esta etapa de despedida/luto, é preciso encarar todas as suas fases. E para estes momentos não almejo ter força, mas coragem – porque viver além da despedida, exige coragem permanente. E aqui reforço o pedido de desculpas que fiz no início deste texto, se minimizei ainda que sem querer, a complexidade de uma despedida. Porque é preciso coragem para quem vai e também para quem fica. Então sempre que houver medo, dúvida ou tristeza – e vai acontecer muitas vezes – que minha família, eu e todas as pessoas que precisam, possamos ter coragem para perseverar.

É preciso deixar ir embora. Nas etapas da vida, e também na passagem para o outro lado – passagem essa, que talvez seja a única, que todos nós já temos reservada.

Fim da sessão.


Nota para o meu irmão:

Leuo, eu sei que tu não lias o meu blog (“eu não quero ler tuas sacanagens!”) e que tu deve ter coisas mais importantes pra fazer onde tu estiveres. Lamento “quebrar nosso sigilo”, mas falar em ti passou a ser a única forma de te sentir mais perto – então eu ainda vou falar muito em ti. Esse com certeza não é o texto que tu merece, e creio que eu jamais serei capaz de escrever algo a tua altura. Ainda assim que fique registrado aqui também, que foi o maior privilégio e honra estar ao teu lado neste plano e te agradeço por ter me escolhido para esta viagem – curta sim, mas cheia de amor e lindas memórias. Agradeço também porque sei que, assim como em outras viagens que fizemos, tu vais reservar os melhores lugares aí em cima, para o dia que estivermos lado a lado outra vez. Até lá, vou acumular milhas de felicidade e bondade por nós dois. Eu prometo.

Bombinhas (SC), 1990Léo descobrindo que adora o colo na irmã (1)