Retorno

Foi um daqueles encontros que acontecem quando menos se espera, mas na hora certa. Voltava de um almoço preguiçoso na minha praia preferida quando dei de cara com o Cássio. O Cássio foi colega do meu irmão, que na época de escola era dono de uma cachopinha loira e crespa que eu sabia que ia crescer majestosamente. E eu não havia me enganado. Ele parecia que tinha saído de um anúncio da Quicksilver.

Formalidades de reencontros superadas, pergunto sobre o trabalho dele, esperando que ele tivesse virando um daqueles mauricinhos que só se preocupa com surf e pegação. Foi ali que eu entendi que a embalagem era puro reflexo do seu conteúdo. O Cássio, juntamente com os sócios, havia criado o Return Project, uma empresa de soluções inteligentes de marketing 3.0, cujo objetivo principal era promover ações que tivessem RETORNO para a sociedade.  Fiquei inspirada com paixão dele. “Você se transformou no garoto que quer mudar o mundo!” – disse, enquanto ele sorria timidamente – “Só estou tentando fazer a minha parte”, respondeu enquanto me dava um abraço de despedida – “Quero ser como você quando crescer!” falei toda orgulhosa depois de bagunçar aquela cachopa loira, agora toda crescida e cheia de propósito.

Quando o Cássio me ligou dias depois, fiquei impressionada com a seriedade da missão dele. “E aí, não era você que queria ajudar a mudar o mundo? Chegou a hora!”. Marcamos um encontro e de lá parti para conhecer a AAAPIP (Associação dos Artesões Amigos e Pescadores da Ilha da Pintada), uma escola que sobrevive de poucas doações para atender suas 140 crianças em uma região de risco às margens do Rio Guaíba.

A parte que mais toca nestes lugares é a capacidade altruísta do ser humano, mesmo quando ele não tem nada a oferecer. Ali naquele lugar vi crianças dividindo as poucas canetinhas para finalizar um projeto escolar com material reciclado.  Na hora do lanche, uma menina entregava a outra, que tinha mais fome, metade da banana que recém tinha ganhado. Quando o Cássio perguntou as crianças o que eles gostariam de reformar na sua escola, outra grande surpresa: “Quem sabe não fazemos casas para os pobres!? Eu tenho uns tijolos lá em casa! – disse um pequeno humanitário de oito anos de idade. Ele não devia ter muito mais que uns tijolos em casa, presumo eu, mas estava disposto a doá-los à gente com menos condições que ele. Isso por si só, foi um soco na minha cara. Eu estava tendo lições de filantropia de alguém com menos de uma década de vida, enquanto eu com três, não estava fazendo nada.

No cantinho da sala, entre uma brincadeira e outra, me pego a conversar com o Luizinho – bem, na verdade me disseram que o nome dele era esse, já que o Luizinho não falava muito. Tento uma aproximação, intrigada com o único da sala que não estava disposto a conversar com os visitantes – eu que sou uma tagarela, não concebia o conceito de uma criança se abster. Fiquei sabendo que o Luizinho tinha sete anos, o que me impressionou dada sua baixa estatura e seu corpo magro, que parecia de uma criança de uns cinco anos. Peço ao Luizinho para me mostrar as placas de rua que os alunos estavam customizando como parte no projeto “Mãos a Obra”, e com essa conexão, o Luizinho pega na minha mão pela primeira vez.

No espaço onde estão as placas, crianças brincam e se alimentam com os poucos recursos disponíveis. Durante esse tempo todo, Luizinho embala uma boneca nos braços com zelo e carinho de quem entende que aquilo é assunto sério – nanar uma criança. Pergunto se a boneca é a irmãzinha dele, e ele diz que não. Pergunto se ele estava imitando o pai dele, e o Luizinho me conta que não tem pai, só mãe.  Ali na minha frente estava uma criança que não tinha pai, brincando de ser pai. Tento trocar de assunto, perguntando o que o Luizinho quer ser quando crescer: – “Professor”, diz ele sorrindo, um sorriso que esperei a tarde toda.

A história do Luizinho tocou-me porque ele é um menino que apesar da falta de referência paterna e de frequentar uma escolinha sucateada, ele entende a importância da educação – em casa e fora dela. Talvez ao embalar aquela boneca, ele só quisesse ser embalado pelo pai dele, e mesmo sem o pai, ali estava ele, disposto a dar esse carinho para alguém. Talvez quando ele diz que quer ser professor, o Luizinho quisesse que outras crianças tivessem mais recursos que ele. Então veja, mesmo com o pouco que ele tem, ele estava disposto a dar tudo que é dele em RETORNO. Depois da nossa conversa, engoli minhas lágrimas e segurei o estomago revirado dentro da barriga. O Luizinho queria me arrumar e eu não podia decepcioná-lo. Sentei na sua pequena cadeira, enquanto ele escovava meu cabelo e passava neles o pouquíssimo gel que tinha. Colocou-me os óculos de sol que encontrou entre os brinquedos, ajustou o meu lenço do pescoço e disse: “Pronto, tá linda!”. Não, Luizinho. Você é lindo. E eu quero ser igual a você quando crescer.

Na saída da escola, ganhei um abraço do Luizinho, abraço esse que dei toda engasgada. Agradeci a oportunidade ao Cássio e aceitei fazer parte do desafio Mãos à Obra, antes de rapidamente me esconder no meu carro para chorar o choro que segurei a tarde toda. Virei madrinha do Luizinho no projeto de reforma da escolinha. E vou recolher os reais necessários pra garantir que ele vai ter escola, vai ser professor e vai ser um pai muito melhor que o dele. Ele, em retorno vai fazer de mim uma pessoa que não apenas senta e assiste, mas que vai lá e faz. Alguém que não espera os governantes, ocupados demais com a corrupção, mas que arregaçou as mangas e se tornou parte da mudança. Até porque o Luizinho não vai esperar para crescer apenas quando o país decidir se vai ou não cuidar dele. O Luizinho me prometeu que em retorno vai continuar a ser um bom menino e que vai sorrir mais.

E quem de nós consegue ficar alheio à oportunidade de fazer uma criança sorrir? E sorrir em retorno?


Fim da sessão.

Quer ajudar o Luizinho e seus colegas? Mãos à Obra!

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Coisa de Antônia: Intolerante à borboletas

No Coisa de Antônia de hoje no ATL Girls da Rede Atlântida,  vamos revisitar o pior sintoma da primavera… as borboletas.

E aí, você tem estômago pra isso? Clique na borboleta e decida:

antônia no divã - intolerante à borboletas (insta)

 

 

Ah, eu sou gaúcho. 

Essa frase já foi o ecoar do orgulho dos pampas. Não importa onde você está ou em que tipo de congregação, haverá sempre um gaúcho a proclamar seu amor pela origem, pela tradição e orgulho de pertencer à terra de Getúlio Vargas, Bento Gonçalves e Anita Garibaldi. Ser gaúcho sempre pareceu a mais importante das causas. O Hino Rio-Grandense é ensinado até hoje nas escolas, decorado com amor e proclamado a cada clássico GreNal ou evento de mesma importância. Quem morou fora muitas vezes se pegou dizendo, “sou gaúcho, do Brasil” como sendo uma estirpe superior de brasileiro. Nosso chimarrão é dito como o melhor dos mates. Nosso povo dotado como o mais garrido. Nossas revoluções ditas as mais nobres, visto que o 20 de setembro ainda brilha orgulhoso acima de todos os porongos. Nossas façanhas se dizem valer de modelo a toda Terra.

Por que hoje em dia, no entanto, muitos de nós já não nos sentimos tão orgulhosos?

Ora, a minha querência já não é mais a mesma – por favor, tranquem as porteiras. Na semana passada abriram meu carro enquanto eu dava aula. Suspirei pelo prejuízo da porta estragada e segui minha vida como boa trabalhadora que paga seus impostos. Não me abati: “acontece!” – pensei comigo. Três dias depois do furto, entraram na casa da minha mãe, onde ela, os dois pequenos e o marido dormiam no andar de cima. No andar de baixo marginais fizeram a limpa, não deixaram pra trás nem a torta de bolacha das crianças, veja que audácia. Novamente não nos abatemos – estávamos todos bem, apesar das perdas materiais. Os vizinhos ouviram tudo durante a madrugada, ninguém chamou a polícia – talvez por não se importarem mais ou por terem a certeza de que ninguém viria ao nosso socorro. No terceiro episódio em uma semana, ontem abordaram meu pai, esposa, irmão e primo na saída do hospital. Não havia viaturas para enviar, não havia pra quem ligar. Ao arrancar os assaltantes rugiram ofensas como “Toma burguesia! Perdeu playboy!” acelerando o carro financiado rua afora. Meu irmão passa mal e convulsiona. A incerteza faz mal pra cabeça e parte o peito ao meio.

Dou-me conta que o lenço no pescoço já não identifica mais ninguém nas planícies ou serra deste estado – maragato; chimango; trabalhador; assaltante. Uma guerra sem rostos, sem propósito, sem autoridade. Nossa terra deixou de ser o berço de revolucionários, para tornar-se uma terra de ninguém.

Destranco o meu caminho com as sete chaves que uso entre a porta e o carro. Corro em direção a família assustada, como fiz na semana passada. No percurso choro não sei por que ou por quem. Se pela insegurança vivida nesta terra que já foi tão querida. Se pelos salários parcelados, ou pelas escolas fechadas, pelos trabalhadores que protestam em greve. Que liberdade é essa que comemoramos anualmente, em piquetes cada vez mais trancados com correntes e cadeados? Choro pelo sangue de farrapo espalhado pelas ruas. Penso em perguntar de forma bem sincera ao Senhor Governador, gringo da serra gaúcha como eu, o que é preciso fazer para que a segurança volte às ruas? Como reconstruir essa unidade federativa que já foi tão produtiva e agora é dada como quebrada? Flávio Dino disse no mesmo mês dos festejos de orgulho farroupilha, “Devo zelar para que o Maranhão não se transforme no RS”. Ora, será que já não somos mais “uma estrela brilhante na bandeira do Brasil”?

Fiquei pensando o que Nico Fagundes, poeta e tradicionalista, não está pensando lá de cima, sobre esta terra que ele amou desde guri. Talvez seja por isso que chove intensamente durante todo o mês no estado. Setembro foi inundado pelo choro do tio Nico e de tantos gaúchos aqui embaixo querendo poder gritar, de novo e mais uma vez com orgulho no lugar de lágrimas, “ah, eu sou gaúcho”. “Ah, eu sou gaúcho.”


Fim da sessão.

“Passam às mãos da minha geração.
Heranças feitas de fortunas rotas
Campos desertos que não geram pão
Onde a ganância anda de rédeas soltas

Se for preciso, eu volto a ser caudilho
Por essa pampa que ficou pra trás
Porque eu não quero deixar pro meu filho
A pampa pobre que herdei de meu pai

Herdei um campo onde o patrão é rei
Tendo poderes sobre o pão e as águas
Onde esquecido vive o peão sem leis
De pés descalços cabresteando mágoas

O que hoje herdo da minha grei chirua
É um desafio que a minha idade afronta
Pois me deixaram com a guaiaca nua
Pra pagar uma porção de contas

Se for preciso, eu volto a ser caudilho
Por essa pampa que ficou pra trás
Porque eu não quero deixar pro meu filho
A pampa pobre que herdei de meu pai”

Gaúcho Da Fronteira/ Vainê Darde

Coisa de Antônia: Broderagem! Contra o mimimi sobre amizade entre homens e mulheres.

No Coisa de Antônia no ATL Girls da Rede Atlântida de hoje, uma discussão antiga sobre a capacidade de manter uma amizade entre Luluzinhas e Bolinhas.

Vai lá e opina sobre broderagem!

antônia no divã - broderagem (site)

Felicidade silenciosa

“Felicidade é discreta, silenciosa e frágil, como a bolha de sabão.  Vai-se muito rápido, mas sempre se podem assoprar outras.”  Rubem Alves

 

Certa vez viajei para um paraíso na costa da Austrália, e após alguns dias sem dar notícias, uma amiga me escreveu preocupada: “E aí, Antônia, não está gostando da viagem?” – não entendendo a pergunta, respondi prontamente, “Poxa, é claro que estou. Da onde você tirou essa ideia?”. Ela então, concluiu sua lógica – “ah, é que você não postou nada a respeito, achei que não estivesse se divertindo”.  A lógica dela, que é a lógica da maioria (incluindo a minha), me fez pensar. Estaríamos tão acostumados a propagar nossa alegria, que desaprendemos a reconhecer a felicidade silenciosa?

Felicidade silenciosa. É assim que eu chamo aqueles momentos da vida em que não faz a menor diferença se o celular tem bateria ou não. Sabe? A turma certa, a beira de praia perfeita, o boteco no meio da semana, o sítio com os irmãos, os lençóis cheios de delícias, o livro novo, o dia de ser boa companhia pra si mesma(o). Momentos onde a beleza de ser e estar é tão sublime, que ninguém fora destes pequenos universos precisa ficar sabendo. Talvez ela aconteça por medo de que os holofotes ofusquem quem enxerga estas maravilhas. Ou ainda por conta de quem teme o olho gordo. A minha teoria reina na simplicidade da distração. Felicidade silenciosa ocorre por pura distração. Algo do tipo, “opa, esqueci de viver o online pros outros, enquanto vivia o off-line pra mim”.

“Ora, ora, não seja hipócrita, Antônia!”. Sim. É claro que as fotos da minha viagem estão no meu perfil, obvio que eu faço check-in em lugares bacanas e divido meus momentos de emoção com minha audiência preferida em inúmeras ocasiões. Sem dúvidas sou uma daquelas pessoas que gosta de compartilhar onde foi, o que viu, como viveu (afinal, eu tenho um blog!). Todo mundo é um pouco assim.  Entretanto, verdade também é que nada me distrai mais que a felicidade silenciosa. Eu adoro me perder em ruas que desconheço mundo afora e memorizar os cheiros e as sensações. Eu deixo o celular fora do quarto pra me perder nas curvas de alguém que me tira a atenção. Amo e prefiro contar minhas aventuras pessoalmente, pra aqueles que gostam de me ouvir vendo a emoção nos meus olhos e não no brilho de uma tela. Quando não me encontram no celular, quem me conhece já sabe e canta a pedra “está por aí aprontando alegria e sendo feliz!”. E estão certos.

Penso que a felicidade silenciosa é aquela mais egoísta, sabe? Alguns momentos de contemplação da vida que merecem ser divididos com poucos, ao invés de serem lançados no vento para muitos. A felicidade silenciosa é como um bem valioso – você não sai desfilando com ela pendurada no pescoço. Você guarda numa caixa de jóias dentro do coração. Cada risada de doer a barriga com sua melhor amiga. Cada suspiro arrancado por um amor. O colo da sua mãe (mesmo aos 30!). E todo sorriso que não pode ser reproduzido para a prosperidade. Para estes casos de felicidade silenciosa, não precisa de registro oficial. Porque quando eu ficar bem velhinha, quero lembrar-me de como eu me senti, e não de quantas fotos tirei. E para isso a minha atenção tem que ser dedicada.

Felicidade silenciosa para os outros, mas que clama dentro da alma. Eu sei que quando a gente está feliz, quer gritar essa condição aos quatro cantos do mundo e que nos dias de hoje a tarefa de fazê-lo realmente é possível. Preste atenção, entretanto, que a felicidade silenciosa se basta em existir. Sobrevive dos sussurros de amor e juras menos dramáticas. É propagado em grupos menores, entre abraços que falam mais que palavras. Não precisa de conexão wi-fi. Não é transmitida em um tweet e certamente não tem filtros. Ela é pura. Sincera e por vezes tão rara. Então não se deixe distrair pelos gritos de euforia no mainstream da felicidade pública. Preste atenção na felicidade silenciosa. O resto é só barulho.


Fim da sessão.

Coisa de Antônia: A Recaída 

Eu fiz de tudo pra evitar uma recaída. Mas evitar uma recaída é tão eficaz quando evitar um tropeção. Não tem como se prevenir de um tropeção, tem?
No ATL Girls de hoje na Rede Atlântida, as delícias e malícias de uma recaída. Tropeça pra pra lá!

Não me leve a mal, me leve a praia

Tem sempre um pedaço da estrada que ainda não tá bom, uma ponte que não está pronta, e o trânsito maluco para tolerar. As malas vão apertadas no porta-malas, dividindo espaço com a expectativa. Muita expectativa. Pranchas se engarrafam pela estrada antes mesmo de se engarrafarem no outside. A gasolina está um absurdo, a pousada está cara, e a crise um dia ainda vai comprometer o churrasquinho. Se você não é o sortudo dono de uma vida na praia, todo feriado é uma tortura até o paraíso. Afinal, praia tem que merecer.

Mas quem acredita sempre alcança. E depois de um feriado de quatro dias, é impossível não encher os pulmões e a mente de inspiração e oxigenar aquela vidinha intoxicada de monóxido de carbono e conta pra pagar. Não há tensão que a massagem da areia não desfaça. Não há coração que não se aqueça com os beijos do sol. Não há mente que não se acalme com água do mar. Lá o mundo funciona em outra vibração. Desacelerado. Desapegado. Exigir o que frente à imensidão do mar?

O caminho para a praia normalmente é a pé e a trilha tem perfume de maracujá/terra molhada/mata nativa – e quando foi a ultima vez que você parou para sentir o cheiro das coisas? Na praia você repara as borboletas do caminho. Divide o crepe com o cachorro de rua. Falando em comida, a gastronomia da praia tem um cronograma muito particular. Café da manhã vira almoço, almoço vira janta, janta vira lanche da madrugada e nem invente de querer alterar a ordem. Beliscadas, água gelada e chimarrão na beira da praia são obrigatoriamente coletivos. Juntar o lixo também é um processo coletivo. O seu lixo e do babaca que não o fez, afinal você faria o mesmo dentro da própria casa – e praia é ainda melhor que casa.

Na praia não precisa ter 3G, 4G, 5G. Claro que a gente se fala muito mais ao Vivo. Na versão em inglês a gente fica mais NextpraTell”. E quem precisa de Tim quando se temOi, muito prazer, tim-tim!”?  Bom mesmo é desconectar dos aparelhos e conectar-se com as pessoas. Seja com aquele surfista loiro que tem um projeto de mudar o mundo e causa suspiros em qualquer garota. Seja com aquele amigo que tem uma cantada ensaiada em parceria onde todo mundo se dá bem. A comunicação na praia é cheia de teorias infundadas e planos infalíveis de felicidade. Lá todo mundo tem um apelido – “Ursinho”, “Beethoven”, “Musa”, “Alemoa”, “Berfort”. É lugar de corpo-a-corpo e não de Whatsapp. De piscadas presenciais e não emojis. Risadas incontáveis, como as ondas do mar.

Corpos desnudos revelam que não tem nada mais sexy que marquinha de biquíni recém-feita ou nucas cheias de sal. Mas se for pra ficar vestido, na praia não existe “a minha mala” ou “as minhas roupas”, toda vestimenta é coletiva. Toda canga / toalha é dividida, e as cadeiras de praia circulam em revezamento. A programação noturna tem planejamento de corporativa multinacional, com avaliação de impacto sociológico (“pra onde vai a galera?”), financeiro (“tem cortesia, nome na lista, choro, combo – dá pra pagar no cartão?”) e logística (“como mesmo eu cheguei na minha cama/ sua cama / aqui no chão?”).

Joelhos são ralados, panturrilhas ficam doloridas, braços são esgotados, e roxos por todo o corpo fazem parte do pacote. “Onde foi que eu me bati?” – o mistério vem e vai embora junto com os hematomas, pois na praia se vive ativamente, envolventemente. Pode ter sido o escorregão numa pedra, a batida mal calculada numa onda, uma bolada de frescobol, o swing-samba-funk até o chão. De corpo e alma, o jeito é aceitar que pequenos acidentes são sempre previsíveis. Um pequeno preço que se paga por dias lindos de pés descalços e espírito livre. Na praia, meus amigos, a gente fica sensível à qualidade do tempo que nos damos pra ser feliz.

Praia, paraíso que decidi há muito tempo chamar de meu, sendo dona temporária apenas de um pedaço de areia onde couberem meus amigos e um guarda-sol. E é lá, sob os olhos vigilantes de Iemanjá, que consigo lembrar que a vida não é feita só de despedidas, mas também de reencontros. Não só de reunião, mas também de congregação. Lembro-me que ela não é feita só de escolhas difíceis, mas também das bem fáceis. De que nem tudo é incerteza, mas também momentos e prazeres em que você se joga de cabeça e de olhos fechados. É do meu castelo de areia que lembro que depois de cada tempestade ou chuva de verão (na praia ou na vida), haverá sempre um céu cor de rosa pronto pra me conquistar.

Não adianta procurar outra cura. Nas doçuras cantadas por Nando Reis, fica claro qual o remédio para os males da cabeça e do coração: “A gente só não inventa a dor, a gente que enfrenta o mal, quando a gente fica em frente ao mar, a gente se sente melhor”.

Então não me leve a mal, nesta terça-feira pós-feriado. Me leve de volta a praia, vai?


Fim da sessão.

Quem é aquele menino?

“Mana, quem é aquele menino deitado na praia?”

Mateus, 5 anos,  indaga sobre as imagens na televisão do menino sírio desfalecido na beira do mar. Meu coração congela instantaneamente. Me sinto afogada nas verdades do mundo.

Quando descobri que seria irmã mais velha de novo, sabia que seria um desafio encarar a curiosidade dupla lá de casa, nestes dias de hoje que eu mesma não entendo bem.  Aos trinta anos, eu tinha que explicar para a pouca experiência de vida do Mateus, e também do Murilo, que falhamos não apenas como humanidade, na tomada de decisões. Mas que falhamos em proteger a inocência de quem ainda não decide nada.

Quando eu tinha 5 anos, não entendia porque meninos de rua não tinham casa, e batiam na nossa porta pedindo comida. Meu pai então preparava sanduíches para eles, sem saber muito o que me explicar, e se resumia a me envolver na tarefa de encher os pães com presunto. Era o jeito dele de ajudar, como também de preservar minha inocência. Na minha cabeça, o pão com presunto resolvia. E eu era parte da solução.

Não seria o mesmo que acontece hoje? Não seria eu, parte na solução?

O corpo sem vida as margens de qualquer lugar, choca os olhinhos antes tão serenos dos meus irmãos. Penso em desligar a TV e levá-los a cozinha para fazermos pão com presunto. Penso em explicar que aquele menino encarou a imensidão do mar junto aos pais, na esperança de um lar sem furos de balas. Aliás, bala deveria oferecer unicamente doçura às crianças. Não medo.  Penso em dizer que o mundo se tornou um lugar complicado, em que estamos preocupados exclusivamente com nossos filhos, seus tablets e Nickelodeon, do que com os filhos dos outros, aqueles despatriados. Desprotegidos. Desamparados.  Quem sabe, se o Mateus e o Murilo entendessem desde cedo que o mundo é um lugar egoísta, medíocre e desalmado, eles sofram menos. Tenham menos vergonha em fazer parte desta humanidade desconstruída.

Mas não seria eu, parte na solução?

E sou. Ainda que como irmã, eu tenho o compromisso de proteger a inocência deles, sem deixar de ensiná-los de que mesmo falhando gravemente com o presente que nos foi dado, devemos ter coragem em fazer um futuro bem melhor. E assim educar melhor. Dividir melhor. Devemos ensinar aos Mateus e Murilos de nossas casas dando exemplos construtivos, envolvendo-os em causas importantes. Ensinando sustentabilidade, sendo sustentável. Ensinando a amar o próximo, com ações de compaixão, respeito e comprometimento. Criando filhos melhores, que vão fazer nos próximos anos, um trabalho muito melhor que o nosso. Se hoje não somos seres humanos mais admiráveis para nós mesmos, sejamos admiráveis para os olhinhos que tudo enxergam e aprendem. Assim quando for a vez deles de fazer as escolhas, que façam escolhas muito melhores do que as nossas.

“Quem é aquele menino, mana?” – O Murilo agora repete a pergunta do Mateus, pedindo atenção ao segurar as minhas bochechas. Beijo a testa dos dois, e aperto-os num forte abraço, abraço esse que todos queríamos ter dado no menino sírio em um sincero pedido de desculpas.

“Aquele menino, Mateus e Murilo, vai ser o menino que vai mudar o mundo.” Respondo com uma esperança quase infantil, enquanto eles sorriem.  “Aquele menino vai ensinar ao mundo como cuidar de todos os meninos fazem parte dele.”


Fim da sessão.

Coisa de Antônia: Eu não quero ser feminista

No “Coisa de Antônia” desta semana no ATL Girls da Rede Atlântida, um evento, um debate, uma ideia. Eu não quero ser feminista. E você? Corre lá e dá tua opinião.

antônia no divã - eu não quero ser feminista (insta)

 

 

I ♥ SP

São Paulo da falta de água. São Paulo do trânsito caótico. São Paulo cinza. São Paulo, terra da garoa. Convenhamos, é difícil ver alguém declarar seu amor irredutível por uma cidade superlotada, cara e poluída. O Tiete tá ali, onipresente e inoportuno, no solo, na cara e o pior, no nariz. O sol, que em qualquer lugar é sempre bem-vindo, vira um problema em São Paulo se brilhar por muitos dias seguidos, problema este que é medido em termômetros da qualidade do ar, normalmente em cores vermelhas.  São Paulo imensa. Rápida. Intensa. É um trem desgovernado, em que cabe muita gente, e todo mundo trabalha (ou tenta) o equilíbrio para manter-se em pé. Tem que ter coragem para gostar de São Paulo.

Coragem e comprometimento. É fácil gosta do Rio, cidade maravilhosa, banhada a praia e água de coco.  Tem poluição e trânsito caótico também? Tem sim, mas basta você pisar no calçadão ou assistir ao pôr do sol no Arpoador para esquecer-se de tudo isso. Fácil gostar de Florianópolis, Ilha da Magia. Fácil gostar de Porto Alegre, e de seu povo orgulhoso e educado. Se você for gaúcho então, bom, aí você foi programado geneticamente para achar Porto Alegre a melhor capital do mundo. São Paulo, não. São Paulo é um desafio diário, como um amor que dói, queima, arde, mas não deixa de seduzir, de encantar, de te fazer querer mais. Se fosse daqui dos pampas, São Paulo seria um cavalo crioulo arredio a ser domado. Andar de pônei qualquer um anda. São Paulo requer habilidade. Manha. Planejamento. Tolerância. Persistência.

O final de semana que passou não foi o primeiro contato com São Paulo. A capital já havia desafiado minha rotina em muitos momentos, todos relacionados a trabalho. Então veja, levou  30 anos para eu ver a cidade como destino de prazer.  Uma programação especial da minha revista preferida (I ♥TPM), levou-me voluntariamente a capital paulista com o objetivo único e exclusivo de gozar São Paulo. Esqueci-me dos taxis do mundo corporativo e me misturei ao povo, vivendo dias de turista, mas também de paulistana. São Paulo me tirou da bolha em que eu vivo, no conforto do meu carro. E ali, entre ônibus e trens lotados foi fácil perceber o outro. Um povo que para do lado certo da escada rolante como em Londres, dá assento aos prioritários como em Berlin, e se presta a dar informação, sem que você tenha pedido, como em Sydney.  A experiência foi surreal, para dizer o mínimo. Fiquei pensando se não estaríamos perdendo o colorido dos 20 milhões de corações pulsantes  em nossa limitada e estressada visão cinza? Preocupados com o PIB mais que o FIB – felicidade interna bruta. Olhando na televisão é fácil dizer “I ♥ Paraisópolis”, difícil é ver beleza além do engarrafamento.

Mas existe. Troco “São Paulo cinza”, por São Paulo da Avenida Paulista fechada para pedestres, em um de seus primeiros grandes passos na direção da sustentabilidade. São Paulo da explosão artística. Da cultura, que já faz ensaios de primeiro mundo. Das micro cidades em seus bairros fofinhos. Da mega metrópole que valoriza suas quitandas. Do metro que funciona. São Paulo do “é logo ali, vamos a pé”, referindo-se aos 3 km que as pessoas hoje preferem caminhar. São Paulo do Tinder/Happn cheio de iniciativa – (desculpe o meu desabafo, mas no sul os meus aplicativos não funcionam, indicando que talvez eu só ganhe “charmes” em território paulista ou que já tenha esgotado a minha cota no meu habitat natural  – OU que está faltando iniciativa mesmo por aqui! #prontofalei). São Paulo da China X inventividade brasileira na amada e odiada 25 de Março. São Paulo da moda de passarela nas ruas. São Paulo pró-amor em todas as suas cores. São Paulo do Uber e UberX. Do garçom gentil. Dos botecos. Da gastronomia de rua. São Paulo que acontece. São Paulo do “não sou conduzido, conduzo”. I SP.

Ok, talvez eu tenha cara de turista pateta ou simplesmente sorte (além da minha parcela de frias), mas o fato é que São Paulo me tratou tão bem quanto muitas capitais de primeiro mundo que tive prazer de visitar. Pode ser que meu coração de viajante seja mais tolerante até mesmo no Brasil, mas torço que não seja um frenesi temporário. Torço que esses pequenos indícios de gentileza e evolução em uma cidade voraz como São Paulo, sejam provas reais de que dá pra olhar pra esse país com um pouquinho mais de otimismo.  Nem tudo é garoa.


Fim da sessão.