Coisa de Antônia: Querido P.A.!

Querido PA! P.A. “Pau amigo”. “Pronto atendimento”. “Piroca alerta”. “Pra agora!”. É assim que te chamam por aí. Pra mim, você é Pura Alegria. Aquela amizade com benefícios. A gente vai ter que rasgar o nosso contrato de caso casual. Tudo indica que ele não vai dar certo. E no ATL Girls eu te explico os meus grandes motivos.

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Ninguém é de ninguém

“Eu não tenho mais nenhum sonho em cima de você”

Essa frase foi proferida pelo meu pai, quando discordávamos de alguns planos de futuro. Eu, a pseudo-herdeira, sabia que ele só estava brabo comigo e tentando com aquilo nos manter juntos através da amarra da decepção dele. Óbvio que ouvir isso de alguém, alguém que você ama muito, é tão sutil quanto um tiro no peito. Ainda que sentisse a dor, eu só sobrevivi porque estava fardada de um colete a prova de balas chamado individualidade. E aqui não confunda individualidade com egoísmo, egocentrismo e outros “ismos” negativos. Mas puramente a capacidade de se enxergar como um indivíduo. De exercer sua autonomia. Afinal, ninguém pertence a ninguém. Ou não deveria.

Calma, eu não nasci de um ovo. Eu tenho família que me ama muito, que me apoiou e irá me apoiar em todas as fases da vida. Ainda que discordando muitas vezes, e sofrendo tantas outras – os melhores pais criam os filhos pro mundo. Não dá pra voar alto sem sair debaixo da asa deles. O que também não quer dizer que o processo é tarefa fácil. Família tem que lidar intensamente com a tal da projeção, seja nos sonhos de seus pais em você se tornar uma bailarina ou um astronauta. Seja porque você nunca vai querer decepcionar as pessoas que te botaram no mundo. O que acontece dentro de casa (e depois na vida), é que aprendemos a projetar grandes expectativas em cima pessoas, e quando frustrados apontamos que as pessoas é que eram pequenas. Não eram. Eram apenas pessoas. Com dramas e peculiaridades singulares e imprevisíveis. Então vem a maturidade, e temos que aprender aos trancos e barrancos a ter sonhos pessoais em cima de expectativas próprias. E agora como é que faz?

Eu tive que deitar muito tempo em um divã pra entender que o que é do outro, é do outro. E queria jogar minha terapeuta pela janela cada vez que ela me dizia isso. Com o tempo, consegui enxergar que minhas expectativas em cima de outras pessoas eram projeções únicas e exclusivamente minhas, e que ninguém era culpado em não atendê-las. Fato é que não sabemos nos bastar. Aliás, não queremos nos bastar. Entendemos que uma vez nos bastando, seremos reclusos em nossa individualidade, quando o que acontece é justamente o contrário.

Quando a gente se basta, a gente não PRECISA de mais ninguém, e passa a ESCOLHER estar com alguém. Seja família, amigos ou um amor. A companhia desta gente toda é muito mais gostosa quando eles não carregam a responsabilidade de ser um pedaço nosso, do qual a ausência não nos permite sermos inteiros, completos. Desta forma, faz muito mais sentido entender e trabalhar para que nossos entes queridos tornem-se uma extensão de nós, ou seja, uma parte extra que nos faz ainda melhores. É batata frita do nosso Mc, não o hambúrguer.

A verdade mais perturbadora que já escrevi em todo o conteúdo do blog foi dizer em voz alta que ninguém precisa de ninguém pra seguir vivendo, e que isso é chocante e libertador (evite aqui jogar suas pedras dizendo que estou alegando que uma pessoa largue os filhos pequenos para se mudar para Bora Bora, não é isso!).  Estou falando de pessoas adultas presas as correntes da expectativa alheia. E eu entendo que pra muita gente seguir as próprias vontades seja feio, dolorido ou até desonroso. A pergunta é: não segui-las, faz bem pra quem? Você casaria porque é o que esperam de você, “até que a morte os separe”? Assumiria um legado inteiro de alguém, porque lhe foi apontado? Conseguiria aproveitar o caminho, quando lhe foi imposto o destino?

Não nos permitimos ir embora das outras pessoas ou deixá-las ir embora porque aceitamos as amarras impostas, ou criamos as nossas próprias. Não arriscamos ousar sozinhos, porque se falharmos, falharemos sozinhos e não haverá ninguém em quem colocar a culpa. Lembrando sempre que “culpa” é mais da metade da “desCULPA“. Jogamos no outro a responsabilidade de nossas próprias decisões, apenas para cultivar o que? O ressentimento? Agora imagina ser para o resto de sua vida responsável pela alegria, tristeza, amor, compreensão, felicidade de outro alguém? Onde arrumaríamos tempo e energia para a nossa própria felicidade e aceitação? O que é do outro é do outro. Ninguém é de ninguém.  Nós podemos colaborar com a felicidade alheia, jamais ser os donos dela. Nós podemos compartilhar da nossa felicidade, jamais entregá-la nas mãos de outra pessoa.

O que precisamos entender é que somente através do conhecimento e amor próprio, que conseguiremos genuinamente entregar o melhor de nós ao outro, sem torná-lo prisioneiro. “Cultive o jardim”, lembre-se daquela velha frase. “As borboletas virão sozinhas”. Entendemos que não dá é pra ser uma junção de pedaços dos outros, ao invés de ser um inteiro de si próprio. Quando meu pai alegou que não tinha mais nenhum sonho em cima de mim, expliquei que ele nunca deveria ter tido. E que ele me amando muito – do jeito que sei que ele me ama – vai entender que não posso ser a menina dos sonhos dele, porque estou lutando bravamente pra ser a mulher dos meus.


Fim da sessão.

Coisa de Antônia: Toma que o filho é teu

Eu queria poder falar só de coisa boa. Mas às vezes é preciso também falar de coisa importante. No Coisa de Antônia de hoje no ATL Girls, um assunto polêmico para um problema bem real.

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toma que o filho é teu - antônia no divã (POST)

 

Você é meu Julian Wilson

Na semana que se celebra o dia do amigo, que cena fala mais sobre amizade do que o ataque de um tubarão ao Mick Fanning? Enquanto um acelerava as braçadas na direção de uma monstruosa barbatana e uma boca com incontáveis dentes, o outro mandava o amigo se afastar antes mesmo de estar salvo do perigo. Não é preciso ser surfista pra entender a atitude de Julian Wilson, basta ser amigo. E se há indícios de que o mundo ainda tem jeito, isso se dá por conta da amizade. Somos pessoas melhores por conta dos nossos amigos. E eu sou melhor por causa de você. Você é meu Julian Wilson.

Num tempo de relações tão voláteis, sentimentos tão vazios, onde telefones são mais conectados do que pessoas, dias são acelerados e cheios de “a gente se vê” ou “precisamos marcar algo”, que bom que ainda existe você e eu. Você, que entrou na minha história como tantas outras pessoas, por conveniência e um pouquinho de afinidade – é dependente de praia e água salgada como eu. Você que ficou pra valer na minha história apesar de ser completamente o meu oposto, provando que sintonia nasce do respeito pela diversidade. Você é meu Julian Wilson.

Você é meu Julian Wilson porque amizade de verdade não é forjada apenas de alegria e bons momentos. Do contrário, é validada embaixo de muita tempestade, ou até momentos de desespero. Amizade é ser bom senso no desequilíbrio do outro. Calmaria na angustia alheia. É colocar os próprios problemas no bolso em prol dos de alguém. É silencio tranquilo quando não se precisa dizer mais nada. É a mão que ajuda a nos levantarmos das quedas. O abraço apertado quando não há mais pra onde correr. Você é meu Julian Wilson.

Você é meu Julian Wilson porque sempre teve coragem quando me faltou. Porque me conhece melhor do que eu, e sabe o que estou pensando antes mesmo que eu diga. Porque acredita em todas as promessas idiotas que já me fiz. É a verdade que eu não quero ouvir. É quem me diz “não” quando eu preciso, e sempre entrega o “sim” quando eu nem peço. É atleta da vida como eu, que se importa em superar os próprios limites, e os de mais ninguém. É memória na minha história. Juízo quando me falta sorte. Você é meu Julian Wilson.

Você é meu Julian Wilson porque amigo não é aquela pessoa que tem que estar sempre com a gente, mas é quem leva a gente consigo sempre. Que não precisa concordar o tempo todo, do contrário, que vai discordar sem o menor constrangimento, porque você sabe que as intenções são as melhores. Que vai te aconselhar a não tomar certa atitude, e depois de você tomá-la mesmo assim, vai te consolar dizendo, “ok, acontece…” morrendo de vontade de dizer “eu tentei te avisar”. Você é quem sabe que não precisa me dar lição de moral, pois o julgamento de ninguém é pior do que o meu próprio. E se um dia decidir me julgar, o que é natural do ser humano, não vai ousar proferir tal julgamento, vai guardar dentro do peito, pois é isso que amigos de verdade fazem. Você é meu Julian Wilson.

É saudade a um áudio de distancia, é a musica brega no rádio e o grão de areia dentro de um livro. É reconhecer que nada muda com o passar do tempo a cada post bizarro na minha timeline, cada piada interna, a cada encontro na esquina de casa ou do outro lado do mundo. É a escolha diária de aceitar o melhor, e principalmente, o pior de outra pessoa. E de se comprometer através de laços tão fortes quanto os familiares, e tão duradouros quanto os da genética. Você é meu Julian Wilson pelo sentimento altruísta de ajudar sem pedir nada em troca, e nunca me negar socorro. Por encarar indiadas, aventuras e sonhos do meu lado, mesmo não tendo certeza dos caminhos escolhidos. E por jamais, jamais me deixar enfrentar qualquer desafio sem estar ao meu lado, presente ou em oração.

Eu sou Mick Fanning. Você é meu Julian Wilson. E a vida é um enorme tubarão, faminto por coragem e atitude. Essa vida é mesmo louca pra devorar quem não reage e fica paralisado pelo medo. E é aí que você faz toda a diferença. Verdade é que se você estiver no mar comigo, com tua amizade remando do meu lado, nada vai me impedir de lutar. Daí a vida que se prepare para uns bons sopapos, porque você e eu temos muitas baterias pela frente, e inúmeras vitórias para compartilhar. A gente pode até ter medo de cara feia e boca grande, mas vai sair no tapa se precisar. Então vai nadando tubarão.


Fim da sessão.

julian wilson

Coisa de Antônia: A maldita calcinha suja

Essa quinta-feira foi dia de lavar roupa suja no ATL Girls – ou deveria ser.  Deleite-se com o primeiro post público do blog, relembrando uma história com cheirinho de amaciante… ou não!

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antonia - calcinha

 

E pra embalar o clima…

 

Invisíveis

Eu estava ocupada demais com a minha vidinha, quando o Sami desperdiçou em mim um sorriso de reencontro.  Passei por ele de carro, e não o percebi. Um convite no Facebook foi a maneira que ele achou de retomar o contato. “Oi, lembra de mim? Trabalhei no Edifício “X”, eu era o porteiro”. E eu pensei comigo, “mas que diacho, tem que aceitar até o porteiro hoje em dia…”, aborrecida por não lembrar de onde ele criou certo vínculo. Foi quando ele lembrou “te levei para o hospital aquela vez que você passou mal no estacionamento, lembra? Como você está?”. A ficha caiu. O Sami foi a alma boa que me colocou no carro, de camisola, quando tentei ir sozinha ao hospital, no meio de um ataque de pânico, porque meu namorado da época achou que eu só estava tendo um “chilique”. O Sami viu além do chilique.

O contato do Sami me fez pensar em todas as pessoas que se tornam invisíveis com o tempo. Uma vez, no meio de uma briga com o mesmo namorado, fui novamente parar no hospital com o braço torcido – o dono da minha afeição puxou uma máquina fotográfica da minha mão, quando a alça engatou no meu pulso e meu cotovelo estralou ao contrário. Cheguei à emergência aos prantos, acredito hoje, que mais de assustada do que de dor. Como alguém que eu gostava tanto era capaz de me causar medo? O médico tentou me acalmar dizendo que meu braço estava bom, e que eu só estava nervosa. Ainda assim, engessou o braço por três dias. Talvez querendo assustar meu agressor, talvez porque não pudesse engessar meu coração – esse sim, quebrado aos pedaços. Aquele médico viu além do meu braço.

A Maria trabalhou anos na minha casa. Ela acordava 2h antes que eu, para garantir que eu ia acordar na hora pra escola, ter café da manhã pronto e caminhar comigo, a longínqua meia quadra até o ponto de ônibus, percurso que meu pai nunca me deixou fazer sozinha. A Maria sempre esteve em casa, enquanto minha mãe e pai trabalhavam. Ela me viu virar mocinha, quando aos 13 anos meu corpo decidiu que eu devia “virar mulher”, me deu uma bolsa de água quente para a minha primeira cólica e disse que eu ia ter que começar a me cuidar. Eu fui amada e criada pelos meus pais, e também pela Maria. Hoje, a Maria não trabalha mais conosco. Quando encontra comigo ou com o meu irmão na rua, nos abraça, aperta, elogia, apresenta aos amigos como “seus filhos”. Ela é convidada para todos os eventos importantes da família – formaturas, aniversários e possivelmente será uma das mais orgulhosas da igreja quando eu subir num altar. Mas a Maria nunca almoçou com a gente na mesma mesa. Na hora do almoço, a Maria era invisível.

Logo que comecei a trabalhar na empresa da família, me fizeram usar uniforme, como todas as mulheres da empresa. Os homens do administrativo e comercial não usavam uniforme, apenas as mulheres. “Para se darem o respeito, e não aparecerem de minissaia” escutei de alguém uma vez. Ora bolas, não acreditava que precisava de uniforme pra me dar respeito. Certa vez, visitando a empresa de meu tio, sócio do meu pai, ele entrou na sala, cumprimentou meu pai e me pediu um café. Achei graça e disse “oi tio!”, quando ele virou-se assustado, me olhou de novo e se deu conta que a garota de uniforme era a sobrinha dele – “desculpa minha querida, não te reconheci de uniforme”, alegou. Não é que ele não havia me reconhecido – ele não havia me enxergado. Para ele, de uniforme, eu era invisível. Não sosseguei até eliminar o uniforme feminino da empresa. Nunca vi um peito de fora ou uma minissaia. Eu entendi que o medo era o que poderia acontecer se os homens da empresa passassem a nos enxergar. Eles preferiam que fossemos invisíveis.

Quando fui morar em Londres, meu primeiro emprego não foi na grande corporação que coloquei no meu currículo – foi num café. Eu era barista, garçonete e faxineira de um pequeno café em Belsize Park, um bairro imponente em  Hampstead Town. Foi neste café que aprendi a diferença entre as pessoas que enxergam e as que não enxergam quem as serve. Algumas pessoas separavam alguns minutos do dia pra tomar café e perguntar como estava a minha família no Brasil, pediam licença, agradeciam, sorriam e me olhavam nos olhos. Sabiam meu nome. Outras me viam todos os dias, mas nunca me enxergavam. Lembro-me da ginástica que fazia para servir o chá com um teapot fervente nas mãos por cima de ombros e cabeças que nunca se esquivaram para me dar espaço. Na hora do chá, eu era invisível.

Em certa ocasião, servia uma moça e sua filha, quando a janela do estabelecimento ficou tomada de paparazzis. A moça que eu servia – com uma carinha de quem havia abusado de certa dose de drogas e rock n’ roll – era Kate Moss, depois de muito tempo percebi. Fechei a cortina do café tapando a visão dos paparazzis, depois servi um chá verde à modelo e um muffin de raspberry para a filha dela, que tinha as sardinhas mais bonitinhas que já vi. Ela sorriu agradecida, tudo que ela queria naquele momento era ser invisível. E eu a vi além da fama. Ali ela só queria ser a mãe daquelas sardinhas que devoravam o muffin de raspberry.

Não me lembro de jamais ter desrespeitado alguém baseado na condição de quem serve ou quem é servido. Sempre respeitei toda forma de atendimento. Sou daquelas pessoas que dá bombons a frentista de posto de gasolina e que dedica longos minutos conversando com porteiros. Mas nada me ensinou mais na vida do que servir aos outros. Reconheço hoje que muitas vezes me faltou humildade – não para reconhecer a importância destas pessoas na minha rotina – mas para enxergá-las além do seu trabalho. Hoje eu já não deixo ninguém tirar meu prato da mesa, sem eu mesma alcançá-lo e agradecer. Sempre penso na garota com o teapot fervendo nas mãos lá em Londres.

Quando penso na minha carreira, que hoje envolve atendimento a clientes, e no rumo que quero dar pra ela, me vem na cabeça o café em Belsize Park. “Você quer voltar pra Europa pra limpar privadas?”, meu pai pergunta sentado na sua cadeira de diretor. Sorrio pra ele sabendo que ele nunca vai entender que foi limpando a privada dos outros, que eu entendi quanta merda outras pessoas tiveram que limpar/arrumar/corrigir por mim. E que isso não faz de mim alguém mais importante, mas obrigatoriamente deveria fazer de mim mais humana. Pensei nas pessoas que são obrigadas a vestirem branco em clubes de elite. Na Maria, e em todas as pessoas que deixam os próprios filhos em casa para cuidar dos filhos dos outros. Gente que auxilia em nossas atividades. Pensei nos sorrisos que são ignorados na rua, vindos de pessoas que deveriam ser lembradas. Que não deveriam  ser invisíveis.

Adicionei o Sami no Facebook – ele que fez mais por mim do que muita gente que está lá na minha lista de “amigos”. Contei a ele que estava melhor de saúde, e que tinha me curado do câncer que era aquele tal namorado. Ele ficou feliz, e disse que continuava atenciosa e gentil. Ele não  tinha ideia da gentileza que fez por mim ao se fazer enxergar. Ele me lembrou de que ninguém deve ser invisível.


Fim da sessão.

Coisa de Antônia: A menina do lenço na cabeça

Existem pessoas no nosso caminho que aparecem para nos mostrar a beleza do trajeto. A menina do lenço na cabeça foi uma destas pessoas, daquelas que a gente não cansa de contar a história.

E o mundo está mesmo carente de histórias de pessoas que enxergam a vida como um milagre, indiferente da sua trajetória.

Clique no botão do ATL Girls para se encantar você também com a menina do lenço na cabeça.

coisa de antônia - menina lenço 2

Entressafra

Aí você optou pelo “antes só vinho, do que meio acompanhada”. Seja porque ele simplesmente não estava mesmo afim de você, seja porque você acreditou que merecia mais do que o que estava ganhando. Fato é que ninguém estava errado,  vocês só estavam com cronômetros desalinhados ou queriam coisas diferentes. Ok. Agora é cada um seguir o seu caminho, e chamar a próxima ficha, certo? Foi o que você pensou? Pois pense de novo.

Acredito fielmente na dura realidade de que, uma vez que você deixa alguém entrar na sua história, retirá-la não é tarefa tão simples. Isso porque sempre que alguém vai, leva consigo um pouquinho da gente, e acaba deixando um tanto de si. É muito escambo.

Claro que quando eu falo em “alguém”, não estou falando do carinha que você pegou na ultima balada, quando estava mucho loca. Estou falando da pessoa pra quem você se permitiu mostrar um pouquinho mais. O cara que você deixou te ver doente, com cólica ou sem rímel. Que presenciou uma crise de fúria sem sentido e sem entender com quem mesmo você estava brigando. Aquele alguém que você quis apresentar para as amigas, que planejou idas a praia. Alguém que você curtiu, que dividiu bons momentos, boas conversas e cosquinhas, além das boas transas. Não era o cara da sua vida, mas não foi qualquer cara. Ele.

O que acontece é que depois do fim, você irá apagar o telefone dele (e adicionar de novo, e apagar mais uma vez), mas ainda há de lembrar da voz do outro lado da linha. Vai agradecer porque a tampa do seu vaso finalmente vai ficar abaixada, e na contrapartida terá dificuldade entrar no banheiro sem lembrar de tudo que o chuveiro já testemunhou. Por algum tempo ainda irá escrever textos homéricos no whatsapp nas madrugadas de insônia, apenas para mastigá-los sem nunca apertar “enviar”. Talvez vá estranhar a própria cama, pois já não sabe de qual lado dela você deveria ficar. Ou ainda, irá fechar os olhos, e do nada – no meio de uma reunião qualquer – lembrar-se de como ele pegava na sua mão do meio do sexo, e do frisson que este movimento produzia. Acontece. Não é porque você fez uma escolha prática e racional de seguir adiante, que vai livrar-se da irracionalidade da saudade. Essa cretina.

Saudade, esta baita inconveniente, palavrinha que só existe na safada da língua portuguesa, pra te lembrar de que o fato de ter um fim, não quer dizer que irás aniquilar todas as sensações imediatamente. Onde fica o botão ‘’OFF’’ da saudade? Então veja, esse período subsequente a uma separação, por menor que ela seja, não chega a ser um luto, ou mesmo um coração partido. É uma melancolia suave “a la Adele” do tipo “We could’ve it all”, mas #sóquenão. É a contemplação do vazio deixado pelas borboletas, essas malditas, que foram voar em estômagos de outrem que não o meu. Às vezes fico me convencendo de maneira infantil que o que eu tenho é fome. Mas não, esse vazio, eu sei bem, é o que eu chamo de entressafra.

Entressafra, substantivo feminino (que ironia), que se refere ao período intermédio entre uma safra e outra, subsequente, de um fruto/colheita. As entressafras podem ser de três tipos:

consequência das condições climáticas – alguns frutos são frutos de estação, não amadurecem no verão, apenas no inverno – assim como algumas relações. Quão frutífero é o amor no carnaval, hã? Junho é outra história, não é? Pois veja, uma questão de natureza do ambiente e de condições, ora muito, ora pouco favoráveis pro amadurecimento.

uma estratégia de mercado – ou seja, recessos planejados para reduzir a oferta, e aumentar a procura por determinado período, valorizando, desta forma, algum produto, e alternativamente, o seu tempo/coração;

ou ainda;

uma necessidade natural – a mais orgânica das entressafras é aquela que se dá em respeito à natureza da plantação. Você plantou, regou, cuidou, colheu. Não importa o que fez com a colheita, mas enfim, usou o terreno. Tirou dele todos os nutrientes que precisou para apostar na boa agricultura. E agora, respeitosamente, precisa dar um tempo para a natureza se recompor. Não adianta sair distribuindo semente em cima de terreno cansado, com vestígios da plantação passada. Já tentou comer laranja de entressafra? Já tomou vinho de entressafra?

A entressafra, no seu equivalente masculino, também pode ser reconhecida como “entre séries”, ou seja, período flat entre uma sessão e outra de boas ondas. É como o terreno esperando. Você ainda está no mar, você ainda acredita do swell, mas não vai sair dropando qualquer marola. Vai ficar ali, curtindo o balanço do mar pra pegar fôlego para a entrada de uma próxima série.  E em tempos de crise, meus amigos, na economia ou no amor, não dá pra ficar desperdiçando semente ou braçada por causa da saudade. Se jogando em qualquer abraço pra ocupar as mãos. Não. Há de se respeitar a entressafra e a entre séries.

Então veja, mais uma vez estamos aqui discutindo o tempo e a naturalidade do amadurecimento, que na nossa afobação constante, são subjugados. Acredito que o que não dá é pra se nutrir de despeito, semear orgulho e regar com álcool o terreninho do coração, pois boa coisa não vai florescer. Eu aprendi, nesta longa estrada dos afetos e desafetos, que é necessário respeitar o período de entressafras. Ou então sua escolha de “antes só vinho, do que meio acompanhada”, que fora tão prática e racional, terá gosto de vinagre. Ou pior, você corre o risco de acabar com uma laranja podre nas mãos.

Entressafra, meus queridos. Plantem lá na frente que as borboletas voltam, elas sempre voltam. Essas malditas.


Fim da sessão.

Coisa de Antônia: As curvas do meu corpo

O Antônia no Divã  vira “Coisa de Antônia” toda quinta-feira, colocando o seu querido divã  dentro da casa da Rede Atlântida, no papo-calcinha do ATL Girls.

É coisa de mulherzinha só que com pimenta. Não tava sabendo? Corre lá bonita, é só clicar no botão ATL Girls!

antonia + atl 5

Fica a dica:  só consegue ler o post desta semana quem for linda, gostosa e poderosa. 😉