Antes só vinho, do que meio acompanhada

Neste domingo, um grande número de amigas que há tempos não se via reuniu-se para uma celebração. O evento pra mim era duplamente proveitoso: eu ia matar a saudade das minhas amigas e de quebra voltar pra casa cheia de ideias para as minhas sessões. Atualizávamo-nos de nossas vidas (nada) amorosas, quando me dei conta de uma realidade alarmante. Estávamos todas ficando com o mesmo cara. Sim, todas. As mesmas desculpas, as mesmas saídas pela esquerda, os sumiços repentinos, reaparecimentos randômicos e as mesmas artimanhas de virada de jogo. Eu escutava uma a uma delas, pensando “meu Deus, mas essa história é minha!”. E não era. Era a nossa.

Algumas conferencias de nomes Vs fotos do Facebook verificamos que de fato, literalmente não estávamos envolvidas com a mesma pessoa – quem duvida que o mundo é minúsculo é louco – entretanto no lado figurado da questão, a história só mudava de CPF e tamanho do… do pé (vamos deixar o pé).  Negava-me a acreditar que mulheres tão diferentes, com desejos tão singulares, envolvidas com caras nada parecidos pudessem estar sofrendo da mesma angustia. Examinei com cuidado as histórias pensando que tamanha coincidência podia ser uma coisa regional, ou de uma determinada faixa etária, ou ainda talvez fosse um defeito de um grupo social específico. Não, não era possível tanta similaridade. Deixei a pauta de lado, visto que desconfiava de certo nepotismo da minha parte decorrente do encerramento do meu atual pseudo-romance. Tinha certeza que estava distorcendo as histórias para fortalecer o meu despeito.

Acontece que a pauta ganhou nova força na segunda-feira, quando me deparei com um texto do Daniel Bovolento. Conheci o trabalho do Daniel, autor do blog “Entre Todas as Coisas”, quando o mesmo gentilmente me escreveu elogiando um texto meu que havia viralizado. Desde então passei a acompanhar o trabalho do Daniel, que apresenta uma sensibilidade bem rara nos assuntos do coração – razão pela qual ele tem centenas de fãs e uma enxurrada de suspiros a cada post. Pois ele, um homem, estava deparando-se com a mesma sina em sua piscina de opiniões. O autor do blog pediu para que suas leitoras que indicassem motivos pelos quais elas estavam largando os caras de mão. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que a pesquisa dele, reproduzia exatamente o meu papo de domingo com as minhas amigas.

Foram elencadas 7 principais mancadas propagadas pelos cuecas: 1) “Vamos marcar/A gente se fala”. 2) “Você não deu a entender que tava afim”, ou como eu prefiro chamar a virada de jogo ou ainda o pulo do lambari. 3) “A gente ainda não tem nada”. 4) “Ta fazendo alguma coisa agora?”, ou como as minhas amigas e eu chamamos, o ressurgimento das cinzas. 5) “Tô querendo conhecer alguém legal e ver no que dá”, ou em outra interpretação, se eu disser que é só sexo vou parecer cachorro. 6) “Não tinha visto a sua mensagem”, o famoso vácuo. 7) “Tava ocupado esses dias”, ou em outra analise contornando a situação pra não perder a moita. Pelamordedeus. O texto (clique aqui) era praticamente um roteiro da minha ultima D(n)R – discutindo o não-relacionamento. Com interpretações e dicas bem pessoais do autor, mas ainda sim, tão minhas. Tão nossas.

Tentei por horas justificar o injustificável. Coloquei-me no lugar deles e tentei entender o que provoca essa ausência de clareza entre os wannabe-lovers. As meias verdades. Meias desculpas. Meias conversas. Meias presenças. Pensei que talvez eu pudesse não deixar claro que eu prefiro fazer sexo a fazer jogo – aliás que eu odeio fazer jogo. Mas eu sei que me entrego com todos os versos que encontro, mesmo que por vezes me vejo tola sobrevivendo da lembrança de contatos esporádicos no meio de angustiantes desaparecimentos. Me indaguei se de repente o que faltava entender este Clube do Bolinha , é que nós realmente preferimos as verdades inteiras e o papo reto sem firulas ou açúcar. Nós já não somos mais as mesmas desde a obra “Ele simplesmente não esta afim de você”. O que também não quer dizer que queremos arrastar alguém para o altar simplesmente por não tolerar nos colocarem na prateleira ao bel-prazer.

Talvez a culpa seja realmente minha. Ou nossa. Quando eu comecei a namorar lá na adolescência, minha mãe disse que eu devia começar mais tarde – óbvio que eu, teimosa como toda rebelde boba, contrariando a orientação dela, me entreguei bem cedo aos delírios e tragédias do amor. Anos se passaram e com eles um acúmulo de cicatrizes, e uma pá de mentiras e desculpas que não me pegam mais. Todo novo inicio prometo que vou começar leve, tentar deixar minha bagagem emocional bem longe da cama – e perto da geladeira onde ela pode esfriar. De fato o que a minha mãe anunciava há 15 anos é que a minha tolerância com meias entregas, meias verdades ia ficar comprometida. E ela estava certa. Ela irritantemente sempre está.

Eu tenho a paciência curta pra enrolação. Não me assusta a decepção de uma rejeição, ninguém é obrigado a gostar de mim. Eu respeito os pontos finais. São deles que surgirão novas linhas, novos personagens, novas historias. Por isso não me venha com reticências, ponto e vírgula, interrogações, frases incompletas, ausência de contexto. Faz história quem tá presente, do contrário é memória.

A esta altura na minha existência afetiva, concluí que se for pra estar por perto, eu não trabalho meia fase. Quero tesão, assistência, energia, retorno – não precisa ser namoro, casamento, relacionamento, eu escolho o discernimento. Basta ter coerência, consistência, coesão. Guarde suas 7 (e outras) desculpas, pois eu não vou esperar você decidir se vai me escolher para provar. Lembre-se que única coisa que fica boa com o tempo esperando ser escolhida da prateleira é vinho. E convenhamos, então antes só vinho, do que meio acompanhada.

Taça pra uma pessoa, por favor.


Fim da sessão.

Nota para as minhas amigas/leitoras: Vinho e fé♥, garotas. Meu sincero agradecimento pelas contribuições nesta sessão.

Dolce far niente

Estava bem relutante em postar essa semana. O motivo reinava sobre a minha decisão de não jogar na rede qualquer pensamento. Em tese, e mesmo que muita gente discorde, eu escolho os pensamentos que coloco aqui, no humilde desejo de que eles sirvam para tocar alguém de alguma forma positiva. Nunca negativa. Aprendi bem cedo que se aquilo que a gente tem a dizer não for verdade, útil ou gentil – pelo menos UM dos três – não é valido ser proferido. É melhor oferecer nada. Neste caso o silencio vale ouro.  E foi justamente no meio da minha brabeza, que sobre o nada eu decidi falar.

Ontem, em mais um episódio de “Eu odeio segunda-feira”, me vi com vontade de mandar o meu cliente a merda. Isso porque crise econômica nenhuma justifica a ausência de uma crise de consciência das pessoas. Dificuldade alguma justifica a má fé do ser humano. Quando tocaram as badaladas do ponto, peguei o rumo de casa chorando de raiva ao volante. No meio da minha fúria planejei ligar para o cliente com desaforos elaborados, avisar meu diretor/pai que estava indo embora, pegar meu passaporte e vazar daquela situação. Eu queria decidir tudo naquele agora. Todavia a decisão não resolveria qualquer problema. Além disso, aquela decisão não seria boa pra ninguém – nem pra mim. E na dúvida do que fazer com meu dilema, eu decidi não fazer nada. Sim. Nada.

Existe um conceito muito querido entre os italianos que é subjugado sob a forma de “preguiça”. O conceito “dolce far niente” traduz-se da melhor forma como ‘a doçura de não fazer nada’; ou ainda ‘a suave indolência ou relaxamento indulgente’. Em suma o prazer de estar ocioso.  Alguns dirão que é culpa da cultura italiana de bebericar vinho a qualquer hora do dia, outros de que esta seja uma consequência das longas refeições a base de carboidratos – mas fato é que os italianos não sentem culpa nenhuma em por vezes não fazer nada. E isso não deveria ser tão difícil. Mas é.

A evolução humana é fundamentada pelo ímpeto de resolver problemas. Isso desde a criação da roda. Somos movidos a desafios. Curiosos e inquietos, e ao mesmo tempo donos de um velocímetro que ficou louco. Não queremos apenas resolver. Queremos resolver rápido. Em tempo recorde. Queremos resolver os problemas do trabalho das 7h30 às 17h30, das 17h30 às 22h30 nos desenvolver pessoalmente buscando elevação espiritual, educacional e financeira, e das 22h30 em diante dar conta de algum romance, de alguma família, de algum prazer no nosso “tempo livre”, tudo isso antes de parar – apenas quando inconscientes – desfalecidos na cama. A gente desaprendeu a respirar, e começou a pirar um pouco – ou muito, no meu caso. Tudo em prol de resolver, resolver, resolver.

Por conta de toda essa nossa necessidade de resolver tudo, o tempo todo e muito rápido, a humanidade aprendeu a não tolerar mais a ociosidade. Ora que pena. Esqueceu-se que dela surge o processo criativo. As decisões mais ponderadas. Que do ócio brota o encontro com a intimidade. A tolerância com as nossas escolhas, e com as escolhas dos outros. Não acreditamos mais que este repouso possa ser em respeito ao timing das coisas, pois não conseguimos aguentar que nem sempre a gente vai saber tudo com hora marcada. Não aceitamos que uma solução possa não ter um deadline. Que nem toda crise obedece a nossa ansiedade por resolução. Tivemos que criar um “clube de nadismo” pra nos permitimos à prática. O que aconteceu com simplesmente “deixar estar”?

Eu sei, eu sou aquela que disse que é preciso ir embora, é preciso mudar, é necessário evoluir, trocar de perspectiva, se reinventar. E eu reforço tudo isso. Além de todas essas necessidades, eu acredito, apoio e defendo a necessidade de respeitar o tempo. Ter fé nele. Confiar nele. Que às vezes é melhor ficar parado a dar um passo na direção do retrocesso. Que por hora pode ser mais produtivo não fazer nada, a fazer algo pra se arrepender. Escolher a doçura do ócio, ao amargor de uma ação não-pensada. E acima de todas as coisas, deixar a ‘mente quieta, espinha ereta e coração tranquilo’ antes de sair por aí decidindo a vida. Entrando em pânico. Indo embora pelos motivos errados. Mandando cliente a merda. Mandando qualquer um a merda.

Na semana passada, levei meu amigo e produtor a uma palestra de uma escritora que escreveu seu livro inteiro no celular durante o caminho de Santiago de Compostela e sua experiência durante a jornada. Na volta do evento, o Christopher me repimpava de ideias promissoras, planos de ação e projetos para o meu livro, com inúmeras alternativas e decisões a serem tomadas quase que imediatamente. Olhei pra ele com olhos desfocados de pavor e dúvida por não saber o que fazer. Eu estava refazendo a peregrinação do Caminho de Santiago na minha cabeça (que fala justamente sobre o timing das coisas), enquanto ele já estava voltando com os suvenires.

Agradeci intimamente a pressa empolgada e coragem nas ações que ele inspirava. Ainda assim interrompi o empurrão com toda a doçura que me cabia – “Chris, enquanto não souber o que fazer, vou fazendo aquilo que sei. Ok?”. Ele deu um sorriso largo, concordou e mandou-me anotar a pérola. Ali ele entendeu que eu não estava sugerindo me jogar nas cordas, ou promovendo a procrastinação – muito embora ele vá continuar dizendo que é isso que eu estou fazendo só pra me provocar. Mas entendeu que fruta madura tem mesmo que cair sozinha do pé, e que são estas as mais doces do pomar. Tal como as boas decisões e as boas ideias. Que para todo amadurecimento, de ideia ou sentimento: o tempo.

E se até lá for preciso: Dolce far niente.

dolce


Fim da sessão.

Passagem de ida pra Terra do Nunca

Dou-me conta de que eu sou adulta, na mesma proporção do tempo que fico exposta a crianças. Algumas horas com meus irmãos mais novos são inofensivas. Brincamos juntos e tudo é muito natural. Basta um final de semana inteiro passar, que me pego freneticamente corrigindo os dois a cada 5 minutos. “Vamos juntar esses brinquedos”. “Larga a camiseta do teu irmão.” “Murilo, dá pra parar de assobiar por 1 minuto?”. “Vai comer sim, ou tua bunda vai esquentar.” “Não aperta o cachorro.” “Murilo, que mania e essa de rebolar agora?” “Mateus, solta as tintas e vem já lavar as mãos.” “Sim, menino também pode fazer ballet, mas o papai prefere que vocês façam futebol.” “Parem de se estapear.” “Não, você não sabe tudo coisa nenhuma.” Afe! Que canseira. Eu não via a hora de chegar a segunda-feira. Eu parecia uma megera.

Cheguei segunda-feira para trabalhar do mesmo jeito de sempre – não parecendo, mas sendo uma megera. Espalhando simpatia (ironia aqui) e uivando por café. Às vezes penso que deveria existir uma lei que lhe assegurasse o direito de não conversar com ninguém antes da primeira xícara de café no primeiro dia da semana. Estava terminando de me servir quando o Carlos entra na sala, cumprimenta todo mundo e começa a rodear a minha mesa, como faz sempre que quer chamar a minha atenção. Eu o ignoro de proposito, pois como adulto que ele é, poderia muito bem conversar comigo sem aquele ritual infantil. Ele pergunta se pode falar comigo, e eu respondo que sim com a cabeça, ainda encarando a tela do meu computador. Ele chega mais próximo e pergunta – “Pode ser na sala ao lado?” Eu me irrito com a formalidade e viro para fulminá-lo com os olhos, apenas para ver que os seus estão vermelhos. O Carlos havia chorado.

Na sala ao lado, mal fechei a porta para ele jogar-se nos meus braços. 1,80m de homem debulhado em lágrimas. Ele anuncia o motivo, havia sido demitido e queria se despedir. “Queria te dar tchau, pois sei que tu sempre te preocupaste comigo. Orientou-me, pediu pra eu não brigar e não me expor tanto, mesmo não sendo a minha gestora. Aprendi a te respeitar, então…” – ele funga profundamente – “Só queria mesmo é agradecer e ….” e não consegue terminar a frase. Coloca a cabeça nos meus joelhos, e chora, pelo que imagino terem sido horas. O Carlos era apenas um dos nove que viriam a ser demitidos naquela segunda-feira. A crise havia encontrado nosso CNPJ e mandando lembranças. Assim como todas as empresas em território nacional, a nossa precisava reduzir para sobreviver. A situação por si só é horrível, para quem vai, e para quem fica. E isso para qualquer funcionário. Acontece que eu não sou qualquer funcionária. A empresa que agora fazia o Carlos chorar e indagar-se sobre o futuro, era a empresa do meu pai. E eu, aquela que eles chamam de a “filha do homi”.

Ser herdeira em tempos de prosperidade é uma coisa. Ser herdeira em tempos da maior crise econômica da história da minha carreira, é outra. Não existe MBA que te prepare para não sentir o gosto amargo de uma recessão como esta. E quando você sabe que não pode fazer muito para ajudar, é pior ainda. O sentimento de impotência é tão sufocante, que é impossível não fazer o mesmo que o Carlos – transbordar. Aproveitei que era horário do almoço, me escondi num canto do pátio onde ninguém podia me ver, enfiei os fones de ouvido e coloquei a musica mais triste que achei na minha playlist para então deixar as lágrimas rolarem. “Espero que quem fique na empresa, honre o seu lugar aqui dentro” – disse o Carlos ao se despedir minutos antes. E eu não consegui encará-lo para dizer que eu não queria estar ali. Eu não honrava o meu lugar. Eu queria que tivesse sido eu no lugar do Carlos. Mas herdeiras não assinam suas rescisões e saem pela porta da frente numa boa – isso eu aprendera há um ano, quando tentei, sem sucesso, seguir outro rumo que não dentro do meu “império”. E agora eu estava lá, dentro de um castelo de cartas, vendo uma a uma cair.

Eu nunca quis tanto voltar a ser criança como nesta semana. Eu queria sentar no colo do meu pai e falar sobre os meus medos, tendo a certeza que ele ia ter resposta pra tudo. Mas ele não tem. Talvez nunca tenha tido, mas agora eu sei e isso muda tudo. Eu não queria um diretor. Eu queria só meu pai. De fato o que eu precisava no momento era uma passagem só de ida para a Terra do Nunca, cuja economia não tem crise, porque lá não tem economia mesmo. Onde não há desemprego, taxa de juros, IR, ISSQN, ICMS, ih meu Deus do céu. Queria estar lá desviando de piratas, e não dos boleiros do mercado. Queria me preocupar com sereias, e não com o sindicato. Queria pó de asas de fada, e não um faturamento reduzido a pó. Eu trocava qualquer tucano, lula, raposa e traíra por um crocodilo. Por que ninguém disse que crescer ia ser tão complicado?

Como seria bom ser a Wendy e oferecer meu dedal/beijo ao Peter Pan, sem os joguinhos de sedução dos adultos.  Queria que “Meninos Perdidos” fosse um grupo de crianças rebeldes que decidiu não crescer, ao invés de ler sobre meninos cuja infância foi perdida na página policial do jornal. Queria tocar flauta para as flores. Sentir a chuva, e não apenas ficar molhada. Ter pensamentos positivos que me fizessem voar por um mar de estrelas. Na verdade, nesta semana, somente os pensamentos positivos já estariam de bom tamanho. Será que a maturidade ficou tão cinza, que tiveram que inventar livro de colorir para adultos?

Eu sei que não querer crescer ou desejar voltar a infância pode ser considerado escapismo ou imoral. Mas essa semana eu queria voltar a minha infância. Eu queria mais tempo sem me preocupar com o tempo passar. Exatamente como as crianças fazem… exatamente como o Mateus e o Murilo fazem.

Então meninos, esqueçam tudo que a mana disse neste final de semana. Não guardem os brinquedos, brinquem! Não larga o teu irmão, nunca. Murilo assobia as canções que tu quiseres que a mana vai te escutar e cantar junto. Comam porque é bom. Apertem o cachorro porque no fundo é disso que ele gosta. Pode rebolar, a mana rebola com você. Mateus, não larga estas tintas, vamos colorir juntos. Sim, menino pode fazer ballet, piano, caratê, tricô, e o papai vai ter que entender. Parem de se estapear, se abracem. E claro, vocês sabem de tudo. Mais do que qualquer adulto que eu conheço, vocês sabem mais eu. Vocês sabem o segredo da felicidade plena, aquele que por vezes a gente esquece depois que cresce. E se vocês souberem o caminho da Terra do Nunca, não se esqueça de mim.

Eu vou junto num piscar de olhos e dois pensamentos positivos.

“A segunda estrela à direita e então direto, até amanhecer”.


Fim da sessão.

A faca do amor

Revisava a minha lista de pautas para a sessão de terça-feira, quando recebi um e-mail promocional um tanto inusitado. A chamada dizia “FACAS Fulano. Neste dia dos namorados não basta amar, tem que demonstrar (!?!). Facas Fulano”. Soltei uma risada instantânea pensando na ironia de vender o que pode ser considerada uma arma branca no dia mais romântico do ano, quando outro pensamento mais inquietante me ocorreu – eu havia me esquecido completamente que adentrávamos a semana do dia dos namorados. Nada na agenda. Nem um coraçãozinho no calendário, que fosse para lembrar-me de incluir a celebração nos assuntos das minhas sessões – não fosse o e-mail das Facas Fulano.

Logo me botei a pesquisar os assuntos mais diversos girando em torno da data, que incluíam, é claro, a campanha do O Boticário (que eu não vou comentar aqui, uma vez que meu coração já saiu do armário há muito tempo) e a eterna guerra entre solteiros Vs comprometidos. Sério, não sei bem quando essa polêmica começou, em que momento os grupos tornaram-se facções opostas disputando superioridade, mas a pauta é no mínimo intrigante. “20 razões para ser solteiro(a)”, “Ame uma pessoa assim”, “Case com alguém assado”, “Mulheres inteligentes se bastam” entre outras teorias de teor nada democrático. Quando mesmo que virou mandatório o mundo ser tão polarizado? Solteiros = despeitados ou descolados. Comprometidos = submissos ou respeitáveis. Será que ainda não entendemos que a faca do amor tem dois gumes pra todo mundo?

Eu já caí na besteira de namorar por convenção. O Marcos era um grande amigo, com quem eu acabei ficando.  Durante meses ele e eu nos divertimos pra caralho. O tempo passou, e por conta unicamente do relógio, o Marcos entendeu que o relacionamento TINHA que ir pra algum lugar. E foi. Foi para o brejo. Uma vez que viramos namorados, ele deixou de ser o Marcos, eu deixei de Antônia, e o relacionamento – antes sadio e positivo – virou um redemoinho expectativas e frustrações. Tínhamos mais obrigações que direitos, discutíamos mais do que transávamos. No dia dos namorados que passei namorando o Marcos, eu ganhei um quadro gigante com fotos de uma viagem que fizemos a Paraty. Eu dei a ele uma cafeteira Nespresso (bem melhor que uma faca, não?). Era óbvia a nossa falta de sintonia como casal. O Marcos queria um namoro para colocar na parede. Eu queria um que funcionasse. E de quebra, que colocasse cafeína na minha vida. O resultado desta equação foi um término amargo e o fim de uma amizade. Nós perdemos duas vezes.

De lá pra cá prometi que não cairia de cabeça em mais nenhuma relação por convenção. Não iria namorar porque minha mãe passou usar o termo “desencalhar”. Nem por conta dos fios de cabelos brancos que já começaram a aparecer. Ou por qualquer outra razão que comece com “a sociedade impõe que…”. A sociedade tem outros problemas maiores que meu status social, eu garanto.  Ao mesmo tempo, eu também não tenho pretensão nenhuma de ser uma solteira inveterada. Daquelas que bate no peito e grita aos sete ventos que se garante e se basta o tempo todo. Eu me basto na maioria das vezes, em algumas não. Outras eu não quero me bastar – às vezes eu quero mesmo é colo. E isso não faz de mim uma “mulherzinha” ou uma desesperada. Faz de mim alguém que gosta de carinho – pura e simplesmente.

Sabe o que eu quero? Mais apelidos carinhosos e menos rótulos. Relacionamentos mais preocupados com os momentos, do que com o futuro. Eu não quero ser a metade da laranja de ninguém – quero continuar sendo a fruta inteira que sou, e não ter a responsabilidade de preencher parte qualquer de outrem. Quero gozar da companhia de gente que me dá preferência por prazer, e não por obrigação – aqui incluem amigos e amores. Quero histórias mais despretensiosas, pois sei que o amor gosta mesmo é dos distraídos. E enquanto ele não me encontrar, quero aproveitar cada minuto da minha solteirice sem culpa nenhuma.

Talvez eu tenha esquecido o dia dos namorados porque eu tenha cansado das celebrações de hora marcada. Quero surpresas numa segunda-feira. Eu quero mesmo são as sutilezas. Beijos na testa depois do sexo. Conversas ensopadas de maresia num final de tarde na praia. Quero alguém que respeite a minha bagunça e também meu jeito atrapalhado de gostar. Essa venda de ideias como “ame assim”, “seja assado”, “transforme-se na pessoa que você quer conhecer”, “74 motivos pelos quais o amor acontece/não acontece”, “namore alguém que viaja/que não viaja” é muito chata e pouco efetiva/afetiva. Só serve mesmo para alimentar neuras e uma ansiedade desnecessária, você namorando ou não.

O que hoje eu concluo é que não dá pra traçar rotas para o amor ou tentar justificar falta dele. Rotular e julgar sentimentos, estágios ou status sociais. A vida é muito mais randômica e inesperada que isso. Então meus votos pra quem está oficialmente no barco do amor, é de aproveitar a viagem mais do que preocupar-se com o destino.  E para aqueles que ainda não encontraram o grande amor, é de aproveitar a faceirice de ter o coração desempregado, sabendo que todo dia pode ser o dia de conhecer alguém especial.  Acima de tudo, que o amor nasce de momentos, suspiros, propensão. Não é matemática e nem física. E que tentar criar padrões pra ele é tão eficaz quanto vender facas no dia dos namorados (viu, Facas Fulano?).


Fim da sessão.

Queria ser perfeita

Eu queria ser perfeita. De verdade. E eu nem sei como isso começou. Em casa não foi. Meus pais nunca me exigiram perfeição, eles sequer intervinham nos meus assuntos da escola. Talvez porque a cobrança que vinha de mim já garantia notas altas e um bom desempenho em tudo que eu me envolvia. Eu estava entre os melhores alunos da turma, era destaque no meu grupo de dança e comecei a falar uma segunda língua bem cedo. Mas eu queria mais. Queria ser perfeita. Talvez eu culpe a Disney por isso, com suas princesas de cabelos perfeitos e comportamento adequado. Eu nunca fui adequada. Mas eu sempre quis ser perfeita.

A situação realmente piorou quando me tornei adolescente. Eu fui estudar em uma escola técnica cujo corpo estudantil era formado em 70% por meninos. Não foi difícil ganhar atenção na escola, e eu tinha que ser forte num universo basicamente masculino. Logo os holofotes que antes me envaideciam, me tornaram tensa e paranoica. Eu cuidava todos os meus passos, ensaiava minhas falas na cabeça e evitava qualquer situação que pudesse demonstrar minhas falhas. Era exaustivo. Na fase adulta não foi muito diferente. Eu conquistei todo emprego que almejei, eu me formei com distinção em tudo que estudei. Namorei os caras mais populares e fiz um monte de escolhas ruins baseadas na minha vaidade.

Quando o divorcio dos meus pais finalmente teve um fim, decidi que era hora de pegar o rumo do mundo e gozar de um encontro comigo mesma. Talvez lá eu encontrasse a perfeição pessoal que eu tanto buscava. Ao invés disso, Londres trouxe algo que eu jamais experimentara antes: completo e absoluto anonimato. Lá eu aprendi que podia ter meus dias de cabelo ruim que ninguém ia notar (e sempre tinha alguém bem pior). Eu corria na beira do Tâmisa apenas de shorts e top, sem me preocupar em mostrar o corpo. Eu uma vez vomitei de bêbada em público, dentro da manga do meu casaco em um ônibus da madrugada, e me achei genialmente inteligente pela solução encontrada. Algumas pessoas podiam dizer que eu havia me tornado alguém pior. Verdade era que Londres tinha me dado à chance de ser livre pra me tornar quem eu bem entendesse.

Quando chegou a hora de conseguir um emprego, todos os meus colegas de MBA miraram em vagas de gerencia na capital inglesa, posições complexas e reconhecidas. Eu batalhei por um estágio na Yahoo!UK que me parecia instrutivo e divertido. Lembro que na minha entrevista me peguei nervosa falando sobre uma viagem a Tailândia e a diarreia de três dias que tive em Koh Phi Phi. Eu sabia que não ganharia o emprego – era possivelmente a única candidata que havia falado sobre desarranjo durante uma entrevista. Mas para a minha surpresa o emprego era meu – segundo o meu novo gerente, eu tinha algo que ele não vira em mais ninguém: brilho nos olhos, curiosidade  e uma língua solta. E aquilo era bem vindo à minha nova equipe. Eu não precisava ser perfeita. Bastava ser eu mesma. O emprego também não era perfeito. Mas lá eu aprendi muito, e de quebra apertei a mão do Will Smith – e quem dos meus colegas de MBA podia pôr isso no currículo, hm?

Foram os anos mais felizes da minha vida, aqueles em Londres. Talvez porque tivesse o compromisso único e exclusivo comigo mesma. Não tinha que ser filha – irmã – funcionaria – vizinha – aluna – pessoa modelo pra ninguém. Muito embora soubesse que os fantasmas da perfeição moravam apenas no meu sótão, e no de mais ninguém. Já no Brasil consegui manter alguma liberdade das amarras que conquistei em Londres. Outras não foram tão fáceis.

Lembro-me de falar para a minha psicóloga que só voltaria a me relacionar com alguém depois que eu perdesse uns 14 kg, colocasse a minha carreira em ordem, me mudasse para um apartamento novo e parasse de beber tanto. Eu até podia aceitar meus defeitos, mas não estava disposta a dividi-los com mais ninguém. A minha terapeuta na época me mostrou, sempre através de perguntas, e nunca de respostas – como a maioria das psicólogas irritantemente eficazes fazem – que os defeitos podiam ser o tempero de uma relação. O problema é que eu não sabia cozinhar.

Mas aceitei o desafio. De abrir as portas da minha casa (talvez as do coração), e até mesmo as da cozinha para alguém. Já era o segundo mês que eu ficava com um gatinho, quando decidi que aquela quarta-feira seria o dia perfeito para fajitas mexicanas (cujas receitas, estudei profundamente o dia todo). Controlei minha inabilidade e impaciência com as panelas. Tentei não passar acidentalmente guacamole nos cabelos. Tenho certeza de que ele, da tranquilidade do sofá e de sua cerveja com tequila, não fazia ideia do esforço que eu estava fazendo para me manter em controle. Mas eu consegui. E administrei – quase sem nenhum acidente – um festival mexicano todo meu.

Depois da janta, deitei no sofá agradecendo por ele sugerir um filme. Se fossemos pra cama eu teria que ser sexy. Para ser sexy eu ia precisar tomar banho, secar os cabelos, passar rímel e meu gloss preferido e alongar minha musculatura tensa. Confesso que depois de cozinhar, (in)habilidade que eu evito, estava exaurida. Joguei as pernas que deveria ter depilado em cima dele, para então adormecer profundamente.

No dia seguinte, recebo pelo whatsapp dele um videozinho, que ele intitulou de “ronc-ronc”. Já no inicio do vídeo reconheço meu sofá, minhas almofadas – juro que com a evolução da filmagem comecei a temer ter sido uma daquelas garotas que foi filmada furtivamente fazendo um boquete, mas Graças a Deus não era o caso – e de repente aparece eu. Cabelo brilhoso apesar de sujo, semblante tranquilo, em um sono profundo. Parecia com uma das princesas da Disney, a Bela Adormecida – Isso, é claro, não fosse o fato do microfone se aproximar e gravar meu ronco, rouquíssimo e alto, que mais parecia uma britadeira em plena operação. Espraguejei os céus. Antes fosse um boquete no vídeo, mas não eu roncando! Merda! Claro que aquilo era novidade pra ele! Na minha neurose eu sempre o deixava dormir primeiro com medo de o meu segredo ser revelado.

Morri de vergonha, enquanto ele do outro lado, ria achando tudo muito fofinho, explicando que tinha curtido que eu estava dormindo tão tranquila. Dei-me conta que aquela era uma cena nova pra mim. Eu finalmente havia me rendido a exaustão de ser perfeita, pra ser eu mesma. Naquele momento finalmente entendi que não valia perder horas daquele sono tão gostoso para atender ao meu idealismo. Nem por mim, e nem por ninguém.

Concluí por fim , com aquele pequeno vídeo, que não conseguiria aceitar qualquer pessoa na minha vida, sem passar obrigatoriedade pela aceitação própria. Então faria daquele ronco o ecoar da minha liberdade, oras!  Hoje eu não tenho duvidas que ser perfeita deve ser muito bom. Eu queria ser perfeita. Acontece que ser eu mesma é ainda melhor. Ronco, língua presa, teimosia e tudo mais.

Mas vou deixar protetores de ouvido do lado da minha cama. Just in case.


Fim da sessão

Em tempo: O áudio deste post é a deliciosa melodia do sono de uma princesa. Num conto de fadas moderno, é claro.