Respira, não pira.

No começo de tudo, eu não escolhi deitar num divã. Não mesmo. Eu me vi obrigada a deitar nele. Sim, obrigada. Até porque ninguém acorda no auge dos 20 anos e decide “quero me analisar”– sendo esta a idade em que acreditamos saber basicamente de tudo. Pois eu só virei Antônia no Divã porque precisei muito. E o motivo, não era feliz.

Era o primeiro divorcio que eu enfrentava, e rezo que também o último. Orquestrando a discórdia, meus pais – que antes do divórcio eram meus ídolos incontestáveis, e que durante o divórcio tornaram-se dois trens descarrilhados. Minha mãe estava fraca, chorando perdida no chão do nosso lar em ruptura. Meu pai estava descontrolado, mergulhando em seus excessos e proferindo ofensas das quais eu jamais antes havia tomado conhecimento. Na época o meu irmão não era o homem que é hoje. Era um adolescente assustado que não chorava, e também não reagia. Foram longínquos dois anos entre segurar a mão do meu irmão, dar apoio a minha mãe e enfiar lucidez goela abaixo no meu pai, até que tudo se resolvesse. Antes do fim, entretanto, algo em mim se quebrou. O controle. O meu controle.

Foram necessários três cardiologistas e dois neurologistas para diagnosticar a causa das minhas constantes taquicardias, faltas de ar e eventuais desmaios, que me faziam passar mais tempo no hospital do que em qualquer outro lugar.  O último dos especialistas com quem me consultei, analisou longamente meus exames, para então perguntar o que faltava no meu prontuário: “como estão as coisas em casa?”. Na hora, eu desandei a chorar de tal forma, que não foi preciso mais nada para concluir: eu me tornara mais uma vítima da síndrome do pânico.

O primeiro desafio foi administrar que eu tinha um problema. Que não era louca. Nem fresca. E aceitar que muitas pessoas não iriam entender e que elas não tinham nada a ver com isso. Mas principalmente, aprender que podia vencer aquela condição. Depois disso foi a hora de escolher o caminho a ser trilhado. Quando fui diagnosticada, fui medicada durante uma semana com pequenos comprimidos saídos de caixas tarjadas de preto. Neste período tive a sensação de estar presa dentro de mim mesma, de corpo presente e mente em um universo paralelo. Foi lá que eu escolhi o caminho mais longo, o do autoconhecimento. Decidi que ao invés de anular as sensações, tinha que entendê-las. Enfrentá-las, acalma-las. Logo, ‘estar em análise’ começou a fazer parte de mim. Deitar no divã tornou-se uma escolha, apesar de eu me sentir pelada cada vez que fazia. Tinha que me despir das culpas, medos e julgamentos, e aos poucos fui recuperando o meu controle.

Tempos depois de  ganhar alta da terapia, um amigo sugeriu que eu fizesse um curso de respiração/meditação. Na verdade o curso é bem mais amplo que isso –  Happiness Program –  eles chamaram, A Arte de Viver (e que aqui não terei a pretensão de explicá-lo, apenas de enormemente recomendá-lo). Na ocasião do curso, achei que poderia ser mais uma vertente para entender a encruzilhada que ainda é a minha cabecinha. A verdade é que o encontro foi mais profundo do que esperava. Dentre o vasto leque de ensinamentos passados, a programação incluía um treinamento intenso da arte de simplesmente respirar. Respirar, sabe, aquilo que a gente faz sem perceber? Confesso que fui extremamente cética no início, até me dar conta de quantas vezes e por quais motivos eu deixava de respirar.

Uma vez a minha atenção voltada para a respiração, percebi que prendia o ar sempre que estava escutando o meu chefe falar uma besteira, tentando controlar o ímpeto de jogar uma cadeira nele. Que trancava a respiração toda vez que abria a fatura do meu cartão de crédito. Que evitava respirar profundamente quando discutia com meu pai, porque o meu peito tendia a transbordar em lágrimas. Que o meu pulmão tencionava cada vez que eu pensava no futuro – inspirando mais preocupação do que oxigênio. Que quase ficava roxa esperando o “digitando…” do whatsapp quando em conversa com alguém importante. Que me esquecia de respirar toda vez que a minha mãe dizia que tinha um assunto sério pra falar comigo. Então perceba, não que eu seja uma pessoa com mais problemas do que as outras. Ainda assim eu precisava parar de abrir mão de algo fundamental: respirar! Precisava respirar pra não pirar.

Terminado o curso me dei conta que os exercícios me ajudariam a controlar a ansiedade em longo prazo, somente se eu me comprometesse com a disciplina de executá-los (algo extremamente difícil para uma aquariana, essa coisa da disciplina). Óbvio que eu tentei algumas vezes, e logo desisti, voltando a prender o ar a cada tropeço da vida ou TPM.  Aceitei que era mais fácil ficar estressada e ansiosa, do que me disciplinar a fazer o contrário. Até que no final de semana passado, após um longo período sem qualquer tipo de crise de pânico, me vi sem ar e com o coração pulsando dentro da garganta. Eu estava na praia, lugar que mais amo no mundo, sem qualquer motivo óbvio pra entrar em parafuso. Mas entrei. Naquele momento eu tinha a opção de enfrentar a ida ao hospital, como sempre fiz, ou enfrentar o desafio de me dar solução através da respiração.  Decidi encarar a obviedade e complexidade da cura interna.

Sentei na posição que me foi ensinada. Fiz os exercícios um a um, me concentrando apenas na contagem e no barulho do mar. Tudo muito mecânico e com a pouquíssima destreza que tinha na execução. Aos poucos o coração desceu da garganta. Aos poucos o ar voltou para os meus pulmões.  Aos poucos eu estava relaxada. Aos poucos eu voltara a ser dona de mim mesma. O choque foi de 220volts! Fiquei encantada com o poder que tinha nas mãos/pulmões/mente. Ok, “mas pra que este alvoroço por UMA vitória dentro de uma constate guerra?”. Bom, aquela fora a primeira que venci sozinha. E eu respeito muito o valor dos primeiros passos.

Naquele momento, entre o pânico e a cura, compreendi que somos os instantes que vivemos. De corpo e alma. E que por vezes é preciso fazer a escolha de deixar pra trás, tudo que não te leva pra frente, focando em algo muito mais simples, básico e fundamental. É parar por alguns minutos em silêncio e trocar o modus operandi (inspira e expira). Se obrigar, ainda que mecanicamente (num primeiro momento) a aquietar o que está inquieto (inspira e expira). Com o tempo… (inspira e expira) ahhh, com o tempo vai passar a ser como a água de um rio, vai indo, transformando, renovando, movimentando – pegando fluidez.

Hoje arrisco a dizer que seja somente através do processo de tranquilizar mente e o coração, que nos abriremos para as situações pelas quais realmente valem a pena perder o ar: momentos de contemplação da felicidade, surpresas bem-vindas, banhos de mar gelado e beijos de tirar o fôlego.

Para todo resto: inspira e expira. Respira, não pira.


Fim da sessão.

Vá tomar banho

Não sei o que acontece. Qual o poder mágico das gotículas de água nos seus ombros.  Sei que banho foi resignificado desde o dia que você entrou no meu box. Banho sabe? Aquela coisa cotidiana, básica e quase que automática que eu faço a minha vida inteira. A ideia era entrar e sair, com o único objetivo de tornar-se limpo. Higienizado. Até relaxante. Mas você e o chuveiro tem toda outra proposta.

Partimos do pressuposto que a luz do banheiro nunca é a mais enaltecedora. Logo, meu coração saltou pela boca quando você – porque qualquer motivo que foge a minha compreensão – decidiu entrar e me ver pelada sob a luz dura do banheiro. Tentei furtivamente me esconder atrás da toalha que trazia nas mãos, mas você e o vapor têm toda uma outra proposta. Tirou a toalha das minhas mãos e calou a minha boca com um beijo, sabendo da minha intenção em relutar. Mas sem as palavras (e sem a toalha) estava desarmada. E assim dispo-me da ideia de que você repararia nas curvas a mais que tenho no corpo, e visto o arrepio que você me causa.

Num piscar de olhos as suas roupas estão no chão, e você me encaminha para baixo d’água, segurando a minha cintura grudada na tua. Não sei o que acontece ali. Se é o vapor subindo (entre outras coisas), a água quente (entre outras coisas), as minhas bochechas (todas elas) vermelhas. A cena é digna de tirar o fôlego. Agradeço em silêncio por você não deixar toalha nenhuma no caminho daquele ritual.

O primeiro jato de água encontra o meu corpo colado no teu, sem fazer a menor diferença do que pertence a quem.  Juro que nesta hora eu também não entendo as fronteiras. Entrego-te tudo que é meu, e tomo pra mim tudo que é teu.  Eu viajo naquela poça d’água que forma na sua clavícula enquanto você me abraça. Ou mesmo aquela piscina entre meus seios quando você afasta um pouco o peito do meu para encarar meus olhos. É como se a água destacasse novas curvas que surgem perfeitas apenas da interação do meu corpo com o teu. Pequenos rios e cascatas de prazer criadas da sintonia das tuas linhas se enrolando com as minhas. Como resistir?

Aí você me vira de costas, coloca o shampoo no meu cabelo, e começa a massagea-los com determinação de intervenção militar, lembrando-me que além de sexy, aquele é também um instante de cuidado e carinho. Puxa-me delicadamente pra baixo da água, tirando a espuma enquanto protege meus olhos e beija as minhas sobrancelhas. Pega o sabonete e deixa as mãos deslizarem pelo meu corpo sem qualquer pressa. Gasta um longo tempo nas esquinas entre as minhas coxas e a bunda, esfrega as minhas costas enquanto morde meu pescoço e se perde na sinuosidade do meu peito. Pressiona-me contra a parede de azulejos gelada, com ar de garoto levado nos olhos, apenas para me ver dar um gritinho de frio e logo me aquecer com um abraço. Beija-me demoradamente deixando a água quente escorrer entre lábios, línguas, dentes e todo desejo criado ali.

A mesma água leva embora todo o resto que não cabe naquele box. Pelo ralo escorreram a vergonha, qualquer distância e aquela DR idiota que tivemos horas antes. Na água quente dissipou-se toda a dúvida, junto com o vapor. Naquele espaço confinado não cabem as incertezas sobre o futuro, apenas o momento presente. Um universo inteiro dentro de 1x1m. Sabe… talvez as pessoas devessem tomar mais banhos juntos como você e eu. A conta d´água seria maior, mas a conta das implicâncias seria reduzida. Talvez a chave da luz caísse mais vezes, mas o desejo, esse não cairia nunca. Não haveria mais cheiro de desconfiança, apenas de sabonete misturado com feromônio. Tudo por causa daquele banho.

Fato é que esse banho a dois é um processo de limpeza muito mais profundo. Pessoas que tomam banho juntas são mais felizes. Pessoas mais felizes não enchem o saco. Não brigam no trânsito. Não tem DR. Não fazem questão de ter razão. Não praticam a guerra. Talvez todas as pessoas devessem trocar seus divãs pelo chuveiro. Lá tem menos neurose, mais suspiros.

Então pra você que está aí lendo, aqui vai o meu conselho. Quando tudo tiver errado, ou mesmo, quando tudo tiver certo, faça um favor a si mesmo: pegue na mão daquele alguém, e vá tomar banho.

Isso mesmo. Vá tomar banho.


Fim da sessão.

Intolerante a borboletas

Sabe aquele momento que você se dá conta que começou a gostar de alguém novo e sua barriga se enche de borboletas? Aquela sensação de não pertencer completamente a você mesmo? De tremelicar quando o telefone toca? Ou ter uma mini-taquicardia com o interfone? Sabe aquela fase de se pegar constantemente relembrando momentos fofos? Pois então. Eu odeio essa fase.  Ok, talvez odiar seja um verbo um tanto forte. Digamos que eu até aguento essa sensação por 24h –  não mais que isso. A minha tolerância para borboletas é péssima. No fundo acho que o que devo ter alergia.  Sou intolerante a lactose, glúten e também a borboletas.

Não precisa nem ser amor. Basta ser interesse, carinho ou mesmo desejo. Se a pessoa me tem, nem que seja um pouquinho, eu sofro um ataque alérgico beirando o epilético. Talvez o motivo da intolerância a borboletas seja o mesmo da lactose e do glúten: excesso de consumo ao longo dos anos. Possivelmente eu já amei mais do que devia. Hipoteticamente pode ser que eu tenha medo de me entregar de novo. Fato é que na fase das borboletas eu desenvolvo uma condição de estresse e sabotagem tão grande, que o amor tem dificuldade de florescer. Meu coração vira ambiente inóspito.

É como se eu perdesse completamente o controle, a decência e a noção, os três juntos.  Eu quero dizer “fica mais um pouco”, mas as palavras tropeçam na minha língua presa e saem como “tu não está atrasado?”. Se o objeto do meu desejo está no mesmo ambiente que eu, desempenho uma coreografia que intitulo “agindo normalmente”, mas que parece uma garça constipada tentando fazer yoga. Eu fico oscilando entre o “obviamente estou na tua”, com desaparecimentos eventuais que podem durar 12h ou 3 dias. “Mas deste jeito como o cara vai te entender, Antônia?” – minha mãe pergunta, enquanto me encaminha um e-mail com um prospecto de curso chamado “COACHING NO AMOR”. (Não mãe, eu não vou fazer o curso). Mas ela tá certa, eu fico muito atrapalhada. Culpa das borboletas, essas malditas!

Quando ele está comigo e por algum motivo começa a mexer no celular, eu fico futricando no meu também só de raiva, mesmo sem ter UMA pessoa que quisesse falar naquele momento. Se o whatsapp dele está online, e ele não está falando comigo, tenho o instintivo desejo de aparecer na casa dele, arrancar-lhe o aparelho das mãos e estraçalha-lo no chão. Assim sabe, atitudes super plausíveis e justificáveis (revirando os olhos).

Se recebo retornos como “talvez” ou “a gente vai se falando…”, tenho vontade de ligar para aquele contato que não vale nada, mas que vai querer me ver/comer “com certeza” ou “pra ontem”  – só para preencher o despeito criado pela incerteza de quem eu queria com certeza. Tenho súbitos de luxúria que me inflamam o sangue, e entro em módulo “diabo no corpo”. Quero sentir o peso de alguém em mim, apenas para não admitir que sinto falta de um calor específico. Queria muito me jogar nos braços de um canalha nestas horas. Mas o fato é que perco tesão por todo mundo quando me interesso por alguém.

Aí eu embebedo as borboletas para ver se elas se afogam logo e me deixam em paz. Elas, que pelo tamanho do desconforto só podem ser pterossauros se debatendo nas paredes do meu estomago.  Nestas horas eu temo pela minha sanidade e paz de espírito. Crio teorias absurdas na minha cabeça. Psicopateio sozinha. Argumento DRs infinitas comigo mesma. Atormento as amigas.  Fico exausta. E mais uma vez concluo que a ideia de paixão, interesse, “estar afim”, é coisa pra maluco. Que o  seguro mesmo é manter os pés no chão e a mente focada em criar codornas, e não expectativas.

Mas aí ele liga e convida pra ver um filme. E eu respondo com meu “sim” mais polido e casual, para que ele não perceba a tempestade que este estágio me causa. Eu fecho os olhos para beijo-lo torcendo que assim ele não possa enxergar minha alma atormentada. Eu tranco o suspiro quando tenho um orgasmo com medo que eu exploda em declarações de bem querer. Eu disfarço o meu acanhamento, quando ele investe na mais sexy de todas as posições, quando pega na minha mão. Evito encarar os olhos dele quando conversamos – enquanto ele massageia minha panturrilha – por morrer de medo que meu coração descongele de vez.  Afinal, gelo com calor vira água, água faz florescer e o florescer traz mais borboletas. Essas malditas.

Talvez a minha grande confusão é que hoje eu até já aprendi que eu nunca vou morrer de amor. Mas de borboletas, ahhh… essas são perigosas.

Alguém tem um sal de frutas?


Fim da sessão.

 

Minha mãe para presidente

Dentre as pessoas que conheci no meu mochilão pela Europa, uma mexeu profundamente comigo. O nome dela era Alisson, e entre uma cerveja e outra em um hostel em Roma, ela me contou que estava de férias do trabalho voluntário. A causa do trabalho voluntário dela foi o que me surpreendeu. A Alisson era parte de um grupo cuja meta era fortalecer a autonomia de mães africanas. Em resumo a ideia do projeto era relativamente simples: mães que tinham emprego e se sustentavam, alimentavam melhor seus filhos, os colocavam na escola, cuidavam da saúde da prole, e toda a sociedade era fortalecida desta forma. As mães criavam cidadãos mais educados e saudáveis, e consequentemente a África tinha uma chance de erradicar a pobreza, desnutrição, a AIDS, dentre outras pragas que disseminam sua população. A solução estava nas mães.

Óbvio. Como ninguém havia pensando nisso antes?

Não é de hoje que eu sei que as mães são heroínas dos tempos modernos. Quando eu tinha uns cinco anos, meu irmão mais novo se engasgou com alguma coisa, e já estava ficando roxo com tentativas frustradas do meu pai em desafogá-lo. Minha mãe tirou aquele bebezinho do colo do meu pai, e sem pensar duas vezes, chupou o nariz dele fortemente com a boca, desobstruindo as narinas dele, e deixando novamente o ar passar. Lembro-me de ficar chocada com o desapego, coragem e assertividade da minha mãe. Ela não apenas dava a vida, mas também salvava. Eu fiquei inebriada com tamanho poder.

Certa vez, a peça do meu grupo de teatro foi cancelada no dia da apresentação, quando eu já estava toda pronta, com meus longos cabelos trançados com lã de tapeçaria para me tornar a boneca Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo. Corri pro meu quarto chorando em desconsolo. Meia hora depois minha mãe me chama da garagem, e lá estava toda a vizinhança em formato de plateia, pipoca para o bairro todo e um pequeno palco montado na calçada. Ela secou minhas lágrimas, beijou-me o rosto e disse “agora vai lá e arrasa”. Naquele dia eu decidi que ia ser quem eu quisesse, porque minha mãe acreditava na boneca Emília que havia em mim.

Eu sei, parece propaganda da Dove ou da Johnson & Johnson, mas não é. Eu tive um exemplo dentro de casa que me mostrou desde cedo que ia sempre me proteger (mesmo que isso envolvesse chupar o meu nariz) e que ia me dar apoio pra todo desafio que surgisse na minha vida. A minha mãe me fez uma cidadã consciente, nutrida e educada. Não que o meu pai não tivesse participado, longe disso. Mas na época, essa responsabilidade era da minha mãe.  E eu acredito que ela fez um ótimo trabalho, e que gostou, uma vez que encomendou mais dois rebentos quando já tinha dois criados.

Foi pensando no que a Alisson me disse sobre seu projeto na África, que pensei que talvez a minha mãe devesse tomar conta da presidência do país. Juro. Acho uma ótima ideia. Quem sabe assim os corruptos já estariam de castigo, implorando pinico, como eu fazia quando pequena. Uma vez roubei uma pedrinha quartzo de uma lojinha. A minha mãe não fingiu que não viu. Não disse que não sabia que aquilo estava acontecendo. Ela me arrastou de volta pra loja, e na frente de inúmeras pessoas tive que devolver o quartzo e pedir desculpas. Ela passou vergonha junto comigo, mas eu nunca mais peguei um apontador de um coleguinha sem pedir.  Foi horrível e eficaz. Como um remédio amargo.

Se a minha mãe fosse presidente, ela olharia pros malfeitores e diria “nós vamos conversar em casa”, aterrorizando a alma deles como fazia comigo quando eu aprontava em público. Eu gritava “não, vamos conversar AGORA, em casa não, por favor!!!”. O meu castigo, ela sabia, era a expectativa. Eu não podia lidar com não saber o que ela diria. Ela deliberadamente fazia de mim um peru de Natal – eu morria de angustia na véspera, e quando chegava em casa, o discurso não era tão duro quanto aquele que eu tinha imaginado.

Quando as obras públicas atrasassem, minha mãe ia pegar a pá e começar ela mesma, deixando com vergonha todo o resto que não o fez. A minha mãe odeia o “já vou”. Quantas louças eu deixei de lavar com o “já vou”, e depois fiquei me remoendo de culpa.

Com a minha mãe no planalto central, os hospitais iam estar sempre à disposição, pois mãe nenhuma deve sofrer a angustia da impotência de ter um filho doente nos braços. Ela ia ser justa com todos, porque afinal, coração e hospital de mãe, sempre cabem mais um.

A minha mãe, como professora idealista que é, ia tornar a educação acessível e divertida para todos, como fazia com os alunos dela. Ela ia cobrar da comunidade participação ativa na vida das escolas – ela me fez “Amiga da Escola” com 15 anos, quando dava aula de dança numa escola municipal. Fez-me responsável pela minha parte na educação dos outros, e agradecida por sempre ter tido acesso a minha.

Minha mãe ia escutar o povo porque entende que ela não sabe tudo, e que também está aprendendo. Ela não acha a administração dela é a prova de falhas, ela sabe que existe mães melhores e piores que ela, mas ela não deixa de tentar melhorar sempre porque “a gestão passada” ou “antepassada” era pior que a dela. A minha mãe também não ia deixar ninguém ficar falando mal do filho dela por aí. Nunca!

A chefa lá de casa, seria uma ótima chefa de estado porque entende que o tapa na bunda é tão importante quando o carinho na cabeça. Que tem hora para o tema de casa, e para a televisão. E que “a vida não é só carnaval, Antônia!”.

Talvez a solução do Brasil, seja a mesma proposta pela Alisson na África: mães no poder. Sim, a nação nas mãos de alguém pronta pra corrigir e educar, errar, assumir que errou, e depois acertar, doa o que doer. Afinal, mãe costuma saber de tudo, mesmo quando estão erradas. Quem sabe o que o país precise mesmo é de uma Mãe de Estado – nem presidente, nem presidenta, nem ditadura, nem democracia – mas uma mãecracia. Com castigo e carinho. Colo e incentivo, para que este país seja o filho que pode e merece ser, daqueles de deixar qualquer mãe orgulhosa.

Fim da sessão.


♥ Nota para a minha mãe: Neste domingo, como em muitos outros, quero de novo agradecer a presidente lá de casa, que já colocou ordem em muita crise, já segurou a economia na ponta do lápis, orquestrou revoluções adolescentes, e deu asas para ganhar o mundo. Você tem para o resto da minha vida, o meu voto irredutível. Saiba que o dia que eu me candidatar ao teu cargo, espero ter no mínimo coligação com teu partido – pois eu acredito incondicionalmente nele.

A ditadura da prole perfeita – uma ode às mães

Há mais ou menos quatro anos atrás, um dos grandes motivos que me fez retornar das longínquas terras da Rainha para o Brasil foi a notícia de que minha mãe ia virar mãe. De novo. E de dois. Eu, que não concebia a ideia de acompanhar a vida dos gêmeos pelo Skype, não pensei duas vezes em tomar o rumo de casa para ocupar meu lugar de irmã mais velha. De novo. De dois.

A diferença do meu primeiro irmão para estes dois, é que o par distanciava-se em ¼ de século de mim. Mais do que isso, a balzaquiana que sou, já tinha relógio biológico fazendo tic-tac, e as novas aquisições da família despertavam em mim não apenas o amor fraterno, mas também davam margem para o materno, este desconhecido até então. E foi mais ou menos assim  que lá em casa iniciei semestres intensos do meu novo MBA – Motherhood Business Administration.

Calma, mães de plantão. Eu sei, as minhas experiências como irmã não se comparam a tirar um filho de dentro do umbigo e acalentá-lo até a maturidade (ou depois dela, como é o caso da minha mãe). É lindo, é intenso, e é divino, ao que eu consigo entender. Entretanto o que ninguém conta é que a maternidade é também um antídoto pra qualquer nível de lucidez de uma pessoa. Talvez ninguém conte exatamente por isso, os úteros poderiam entrar em greve.

Antes de jogarem as pedras, eu explico. No final de semana passado fui convidada e incumbida de praticar a maternidade, intensa e sem breaks por 48h, cuidando dos irmãozinhos para que minha mãe pudesse atender a um compromisso. Planejei tudo na minha cabeça milhares de vezes, e uma ida ao camping que eles tanto amam era uma estratégia a prova de falhas. Ledo engano.

Aproveitei o sono deles da viagem de ida para descarregar rapidamente o carro, o que foi tempo suficiente para o Mateus ter o corpo inteiro picado por um enxame de mosquitos. Na chegada nenhum aparelho eletrônico ligava: TVs, tablets, iPhone, nada – nem um led de esperança. Nem Pepa pra ajudar. Só o barulho do vento, enfatizando a ausência da mãe (aquela de verdade). Dá-se então a primeira crise de choro – deles pela boca, minha por dentro. Mil artimanhas de distração, todos os argumentos do mundo, nada. Estava quase pegando o caminho de volta quando a TV ligou. Ufa! Pepa eu te amo. Agora é mamázinho e longas horas de sono. Foi o que eu pensei, mas o Murilo tinha planos de esticar até as 2h00, e assim o fizemos. Quem mesmo precisava dormir?

7h08, é um sábado chuvoso, e pelo que fui informada aos pulos, era hora de acordar. 1º desafio do dia: café da manhã. Banana com canela em forma de estrela: não! Sanduíche de pão de queijo: não! Mamázinho: não. “Por Deus, mas o que você quer?” “Eu quero a minha mãe!”  Claro – eu também, penso comigo. “OK, vamos poooor faaaavor comer um pouquinho e ir pra praia??”. 2º desafio do dia: evitar que eles se afoguem (mar ou esgoto). Na praia equipados com galochas e uma curiosidade monstra, pensei comigo, mínimo de duas horas sentada na cadeira vendo-os brincar. Ai como eu me engano. Murilo consegue enfiar o mar inteiro dentro das galochas, e o Mateus administra cair de cara na areia espumada, aquela entre as ondas e o esgoto. 23min. Os dois molhados. 16ºC. Recolho acampamento – todos os 42 brinquedos e as 3 cadeiras.

De volta ao camping, mais duas aquisições. Outros 2 amiguinhos também de quatro aninhos resolvem aparecer para brincar e duelar sob supervisão desta amadora. Quatro crianças. De quatro anos. Por quatro horas. E eu de quatro implorando por ajuda. Uma mãe aparece, e convida os gêmeos para passear – “SIM! CLARO! Leve-os. Não precisa devolver até o jantar!” Mas não. Não. O Mateus já tinha definido que a mana ia participar de tudo naquele final de semana, e eu não tinha como fugir. A brincadeira e os socos continuam. Quando era soco do amiguinho, queria cortar-lhe a cabeça. Quando era soco de um dos meus, queria enfiar a minha num buraco. Tudo isso entre um sorriso amarelo e outro, ora meu, ora da outra mãe.

Banho em dois. Seca um. O outro sai molhado do chuveiro. Corre e seca o outro. “Vamos fazer pizza pro jantar!” – sugiro. Mostro como espalhar o atum na massa. Viro as costas pra busca o queijo. Tiro as mangas dos dois de dentro do óleo do atum, dobro as mangas do pijama, ah azar! Não tem outro. Coloco e tiro a pizza do forno. “Mana, não quero pizza.” “O que você quer?” “Eu quero a minha mãe.” Ai, por que mesmo eu pergunto? Ok, cama! “E hoje não tem TV até as 2h00, Murilo!” Fecho um olho. Um só. O outro fica aberto.

O que tava fechado abre as 7h08 quando começa tudo de novo. Os amiguinhos vieram brincar, olha que legal. O Murilo está com tosse, “porque ficamos molhados da praia, mana”, o Mateus dá a minha sentença como se pudesse ler a minha mente. Banho de novo. 4 camadas de roupa em cada um. “Mateus, Murilo, parem de rolar na grama molhada! Se tiver que falar isso pela 13ª vez, a bunda de vocês vai esquentar!” – pro cacete a Xuxa e a lei da palmada, me enfureço. Hora do almoço. “Massinha verdinha?” –“Não!” “Carninha picadinha na boquinha?” “Não!” “Mas o que você qu…sim, a sua mãe, ok, toma essa Trakinas”. “Mana embala a gente no balanço da pracinha?” Claro que sim. “Mana, porque você ainda não tirou o pijama?” Ai, merda, esqueci de trocar de roupa.

Hora de embora. Tá quase. Eu vou conseguir entregar eles inteiros. Vou sim, torço por mim.  Na volta vou lembrando todas as coisas geniais que fizemos juntos. A praia, as brincadeiras, todas as bananas em formato de estrela que não foram comidas, a pizza, as risadas, enquanto a dupla concorda animada. “Vocês se divertiraaaaam?” – pergunto a eles. “Siiiim”, eles respondem em coro. “Querem fazer de novo?” – eu me empolgo. “Não. Eu prefiro a minha mãe”. Claro, de novo, por que mesmo eu pergunto?

E aí chega domingo e eu percebo que fiquei louca. Que gritei mais do que gostaria, que na hora não entendi que era só o sono, saudade, fome, e tudo que justifica aquela prole perfeita de atormentar. Reviso as conversas, acho que a banana devia ter sido em forma de lua e não estrela e penso como farei melhor no próximo final de semana que ficar com eles. Analiso que estou mesmo é contando os minutos pra virar mais uma louca destas desvairadas que se esquece de escovar os cabelos e que acha aquele ranhento a coisa mais linda deste mundo.

Aí deitada no divã ouço todas aquelas teorias do espertalhão do Freud que sempre dá um jeito de sugerir a você levar sua mãe para o tribunal. Muito provavelmente porque o melhor e também o pior de você é culpa da sua mãe. Sim, ou porque te amou demais, ou porque te amou de menos. Ora porque te deu muita atenção, ora porque algo passou despercebido por ela. Admita, por melhor que sua mãe seja ela tá sempre na berlinda. Por pior que você seja, você sempre será a prole perfeita dela. É ditadura das mais antigas. E também a mais sincera.

O que concluo por tudo que vivi e aprendi até agora, é que sempre que penso no céu, ou no paraíso, penso que o lugar é dividido em dois grupos de pessoas: as mães e o resto dos dignos. O que me pergunto hoje, entretanto, é qual o critério de avaliação do resto dos dignos, ora bolas!

Uma singela homenagem às mães-loucas espalhadas pelo mundo e em especial, é claro, a melhor delas: a minha!


Fim da sessão.