O muro e eu

Quando decidi fazer as malas e viver no velho mundo, o que sempre me atraiu foi a história. Eu queria andar nas ruas onde se passaram revoluções, respirar ares de onde fatos marcantes aconteceram. Eu sabia que para tal, não bastava apenas vagar por arruelas importantes, devia reconhecê-las. Entendê-las. Estudá-las. Assim, quando finalmente decidi retornar ao Brasil, não podia fazê-lo sem o tão sonhado mochilão pela Europa. Reservei 60 dias para a estrada, fiz meu roteiro e cai nos trilhos do trem acompanhada apenas de coragem e minha aguçada curiosidade. O plano era simples, conhecer lugares lindos, encontrar gente divertida e, de quebra, aprender um pouco sobre o caminho. Baixei todos os guias de áudio do Rick Steves no meu celular, comprei os guias mais recomendados, tracei alguns objetivos e achei que estava pronta para aprender. Amsterdã e Bélgica foram as primeiras cidades da Eurotrip, e rapidamente percebi que estava alimentando-me mais de spice cake e cerveja belga do que conhecimento. Achei que dali pra frente a viagem ia ser ladeira abaixo, exclusivamente na avenida da diversão. Mas então veio Berlin.

A Alemanha não estava nos meus planos inicialmente, dado alguns pré-conceitos bitolados que sempre tive com os alemães. Quando escolhi Berlin, queria apenas ver o muro. O famoso muro de Berlin. O muro que caiu dentro de mim, entretanto, foi imensamente maior a parede de tijolos que eu visitara. Eu perdi a minha inocência em Berlin. Na capital alemã eu entendi de fato o que era maldade – eu nunca estivera exposta a tanta maldade. Eu me aprofundei na história sentindo uma dor jamais sentida antes. Dor de perda. De injustiça. Eu senti raiva andando nas ruas, raiva da história, antes vista bem de longe nos livros da escola. Da minha sala de aula ou sala de casa, eu não sentia o vazio no peito enaltecido pelo monumento Neue Wache. Do conforto da minha casa não sentia o vácuo das prateleiras no subsolo da praça em frente a Humboldt University, onde “livros ofensivos” aos olhos do nazismo foram queimados. Eu nunca havia imaginado que a genialidade de Albert Einstein e a intolerância de Hitler haviam dividiriam o mesmo cenário. Ali – naquele momento, entretanto – eram apenas prateleiras vazias. Sentimento de vazio. No Jewish Museum relembro como se fosse hoje o mal estar de caminhar sobre rostos de metal no chão de uma das instalações do museu, sentindo a insegurança dos passos e a ignorância de quem pisa em alguém.

antônia no divã - jewish museum

No Checkpoint Charlie, aprendi sobre o poder da propaganda no que foi o maior genocídio da história da Europa. Nunca, em toda a minha faculdade de publicidade e propaganda eu havia mensurado o poder de uma campanha. Berlin jogou verdade na minha cara como um soco reto. De como o ser humano pode ser irracional, cruel e devastador. De como a história respira viva acima de tantas mortes.
Lembro-me de reparar em uma fachada de um prédio todinha furada de tiros, quando perguntei confusa para a alemã que me acompanhava “por que não arrumam a fachada?”. E com uma dureza melancólica no olhar ela disse: “Para nos lembrarmos do que aconteceu aqui. É do aprendizado fortalecido pelas memórias do passado que aprendemos a fazer um futuro melhor”. Berlin me ensinou a ter memória, e respeito pelos erros cometidos. Mostrou-me a não esconder as cicatrizes e aprender com elas.

A cidade obviamente tinha mudado muito desde a queda do muro, eu agora sabia. Se tornara receptiva, colorida, moderna, uma cidade vibrante. Mas Berlin era mais do que um destino turístico, com delícias como pretzels, bier e sausages. Era um marco dentro de mim. Um muro que caiu. Arrancou-me com as unhas o meu preconceito. Mostrou-se um lugar com respeito pela própria história, que não esconde ditadura nenhuma embaixo do tapete. E que seguiu em frente evoluindo dos destroços e dos horrores dia a após dia. Depois de Berlin, viajar se tornou um ato não apenas de autoconhecimento, mas de profundo conhecimento do mundo em si.

Depois de Berlin vieram muitas outras lições. Em Istambul me senti invadida por homens que nunca me olhavam nos olhos, mas encaravam meus peitos e pernas sem nenhum pudor. A burca em si me pareceu um paradigma tremendo entre a invasão e proteção. A mesma Istambul que me fez ter vontade de vestir a burca, me deixou nua em frente a uma mulher desconhecida (e também nua), que me deu o fomoso banho turco sem qualquer constrangimento. Eu, que não tinha sido banhada por outra mulher há mais de 25 anos, e muito menos por alguém que não fosse a minha mãe. E aquela turca o fez, com carinho de mãe, lavando meus cabelos, ombros, peitos e pernas, cantando uma canção tranquila que ecoava no teto em cúpula daquele lugar tão sagrado e feminino.

Na Croácia aprendi o valor de almoçar entre família embaixo de um parreiral de uvas, e de assisti uma missa inteira,  em croata – fazia anos que eu não almoçava em família, e muitos outros que não ia à missa. Nunca em croata, óbvio. Em Roma aprendi que não se pode tomar banho em fontes públicas e que devo manter meu pudor dentro do Vaticano. Em Munique conheci o prazer de ser recebida de portas abertas na casa de alguém que nunca vi antes, e que não me pediu nada em troca através do Couchsurfing – projeto lindo para quem quer receber visitantes no mundo inteiro em seu sofá.

Anos depois veio a Tailândia, onde entendi que não podia imitar poses de budas, pois me ofenderia se alguém entrasse na minha igreja e tirasse fotos fazendo a pose de Jesus Cristo crucificado. Aprendi a respeitar o silêncio dos templos. E que os tailandeses por vezes têm a sinceridade de uma criança, dizendo na porta de suas lojas, antes que você entrasse, que eles não tinham tamanho de roupa para você, e que você deveria parar de comer – assim, normalmente, como quem dá um conselho a uma amiga. Lá, eu também reforcei meu respeito pelas forças da natureza, em lugares destruídos e rotas de fugas para tsunamis. Reforcei meu respeito pela superação e sobrevivência em cada cidade reconstruída que visitei. E hoje torço que o mesmo aconteça com o Nepal.

Neste ano visitei a Austrália, e me comovi com a história dos povos indígenas/ aborígenes, enganados e comprados pelos povos europeus, e deslocados até hoje dentro de suas próprias terras. Da mesma forma como na história nada diferente dos Pataxós, Xavantes, Tupiniquins, e outros tantos no Brasilzão que eu, descendente de Italianos, chamo de lar. Na mesma Austrália aprendi que a submissão à Inglaterra é fortalecida pela insegurança de uma possível guerra. “Mas acho improvável uma nova guerra…” justifico meu desentendimento quanto a preocupação do australiano com quem conversava. “Talvez você devesse visitar o Oriente Médio então” ele respondeu com um olhar cético. Vejo hoje que foram tantas lições e lugares diferentes, que cada carimbo no meu passaporte, era outro mais profundo na minha alma.

Então perceba, não estou aqui mais uma vez pregando que é preciso ir embora (mas é!), para que você aprenda as lições da vida. E nem  dizendo que minhas andanças pelo mundo não foram banhadas a cerveja e noites mal dormidas dividindo beliches. Não é isso. O que analiso nesta sessão é a importância de não andar por aí despropositadamente. Ou como disse Dan Brown em O Simbolo Perdido, de que  “Viver no mundo sem tomar consciência do significado do mundo, é como vagar por uma imensa biblioteca sem tocar os livros”. O que reconheço aqui é o poder e o privilégio de realmente viver as ruas que recebem nossos passos, sejam eles aqui, Pindamonhangaba ou no Azerbaidjão. É preocupa-se em conhecer o mundo que foi ontem, que é hoje, para que os muros da incompreensão e intolerância não se levantem, e caso se levantem, que sejam derrubados. Aqueles muros que você mesmo construiu em volta de si, sabe?

“Berlin wird leben und die, mauer wird fallen”

 

“Berlim vai viver e o muro vai cair” – disse Willy Brandt, prefeito da cidade no ano em que o muro foi derrubado.

Então faça o mesmo. Derrube os muros.

antõnia no diva - muro de berlin


Fim da sessão.

 

Na sarjeta

Em novembro do ano passado houve o maior rebuliço porque a diva Letícia Sabatella, depois de uma noitada com os amigos, rolou no chão de tanto rir em alguma sarjeta de Brasília. A mídia massivamente criticou o comportamento “indigno” da atriz. Ela, por sua vez, tirou de letra o “mimimi” rebatendo categoricamente com a frase Que auê por causa de uma noitada de cantoria e pisco sauer com os amigos! Deitar no chão de tanto rir, beber do céu as estrelas. Me recuso a sentir vergonha”. A crítica, entretanto tinha um viés de preconceito quanto ao cenário do pileque. Talvez se o porre de Letícia tivesse sido em um requintado camarote de uma luxuosa casa noturna, o fato não teria chamado tanta atenção. O problema é que Letícia estava na sarjeta, e a sarjeta – injustamente – estava em baixa.

Por influencia do post musical pré-feriado ou por puro destino, eu também tive um momento “deitaço Sabatella” na sarjeta neste feriado. Assim como Letícia, me peguei chorando de rir com as amigas em um ambiente menos requintado, o que resultou em uma noite na tão democrática e recepctiva sarjeta. Óbvio que o plano não era este. Ninguém sai de casa dizendo “vamos passar rímel e ir curtir a noite bebendo com estranhos sentados na calçada”. Não. A ideia, como sempre, era sair no local mais pop do bairro mais badalado do destino mais cobiçado daquele feriado. A Larissa, nossa anfitriã, orientou “nós vamos num lugar mais top, mais arrumadinho, então invistam no look” – ela falou enquanto eu investia era num shortinhos e numa rasteirinha.

Depois de algumas horas na balada pica das galáxias com doses de vodka a R$ 17,00, recolhemos a nossa alegria da pista e nos encaminhamos pra saída sob a orientação de seguranças carrancudos.  Ao contrário de nossa energia, a festa tinha acabado. A Larissa então, por conta da nossa evidente frustração – sugere uma última cerveja no posto da esquina. No posto, pegamos nossas cervejas geladas de R$ 3,75, e sentamos na rua mesmo.

O que aconteceu em seguida é algo que só consigo descrever como mágico. Pouco a pouco, pessoas juntam-se a nós com o único objetivo de dividir aquele modus operandi – cerveja gelada + sarjeta. Minutos depois apareceu um violão, logo mais um pandeiro, daqui a pouco dois pandeiros, e muito em breve uma madrinha de bateria – a Luciana, e no caso a mais sofisticada das minhas amigas. Ali, com toda a sua loirice de duquesa sambando como quem segura um standart imaginário em meio a uma comunidade carnavalesca.

Peguei-me instintivamente analisando a cena. Sentados na mesma sarjeta estavam patricinhas gaúchas, playboys paulistas, garçons de folga, artistas de rua, músicos de ocasião. Éramos todos um grande e heterogêneo grupo, mas ali sem qualquer distinção de berço, sobrenome, cor, idade, educação ou status social. Na sarjeta, não tinha pulseirinha VIP. Ali na sarjeta, o banheiro era o bequinho com vista pra praia, vigiado por um amigo para alguma segurança e privacidade.

Ali na sarjeta, o malandro ensinava um novo cumprimento para o mauricinho, e contava o sonho de fazer engenharia. Ali na sarjeta, um viajante da Australia sentia saudade das sete crianças que adotou na terra dos cangurus. Na sarjeta, o sambista que me ensinava passos novos tinha diamantes maiores que os meus nas orelhas. Nas duas orelhas. Ali, minha amiga Caren tocava pandeiro, ela que teve aulas de violino quando pequena com um instrumento vindo da Rússia –  enquanto um moreno alto com a cara do Seu Jorge puxava mais uma no violão. Ali na sarjeta, como diria Martinho da Vila, se “tem alguém cantando todo mundo canta, todo mundo dança, todo mundo samba, e ninguém se cansa”. É democracia e sintonia na mais pura essência.

Não pude evitar em repassar na minha cabeça todas as listas que já havia pedido para incluir meu nome. Em quantos esquemas de camarote eu já havia entrado. Quantos backstage, onstage, frontstage, motherfucker stage, eu tivera que usar todo o meu latim pra provar ser digna. Festas de gente que não enxerga ninguém além do próprio reflexo na tela do celular. Eventos que ninguém conversa, mas todo mundo se “curte/like”. Ali na sarjeta eu não era filha de empresário. Eu era filha do samba. Ali na sarjeta eu não tinha MBA de “business in London”. Eu era ph.D em standup comedy e “blogueira” por paixão. Ali na sarjeta ninguém me olhava de cima ou se importava com meu sobrenome. Todo mundo me olhava no olho e sabia o meu nome.

Peguei o caminho de casa quando o sol raiou com o cotovelo esfolado da minha tentativa de andar de skate e uma tatuagem de canetinha feita por um artista de rua no meu braço. No bolso R$20,00 amassados, uma rosa feita de guardanapo e a indicação de um contador que vai fazer fazer meu imposto de renda “na faixa”. Eu tinha dado tanta risada que havia ficado afônica. Eu me sentia rica de alegria. Antes de dormir fiz uma prece sincera para nunca me esquecer da simplicidade daquela noite. Entendi que talvez fosse quando eu paro querer estar no topo do mundo com a cabeça nos ares, que eu encontre conforto com os pés bem no chão. Ali na sarjeta mesmo, onde Letícia Sabatella, eu, todo mundo é bamba. “Onde todo mundo bebe, todo mundo samba”.


Fim da sessão

Dar, ou não dar, eis a questão.

“Dá logo, Antônia!”, “Tá com vergonha do que?!”, “E só tirar se você não gostar.” “Vai deixar ele ali pedindo? Dá logo pra ele!”. 1993. 4ª série. Recreio da escola. Era a primeira vez que eu encarava a pergunta que ia me assombrar para o resto da vida “dar ou não dar pra ele”. Ele, no caso, era o Marquinhos da 5ª série. O objeto do seu desejo, e da minha animada torcida de amigas, era a minha mão. O Marquinhos queria que eu desse a minha mão pra ele segurar. Não dei. Fiquei com medo que ele me achasse muito acessível, ou que as outras garotas da série do Marquinhos rissem de mim. O Marquinhos não aceitou muito bem a negativa. Jogou minha mola-maluca no chão e disse que nem queria a minha mão mesmo. Chorei sozinha no banheiro. Eu tinha certeza que a culpa era minha.

Depois disso eu fui crescendo, e de fato levei muito mais tempo do que as outras garotas pra dar qualquer coisa para alguém do sexo oposto. Enrolei-me anos pra dar o meu primeiro beijo. Eu fui a última da minha turma a perder a virgindade. Óbvio que a ideia de algo rompendo dentro de mim não colaborava para o amadurecimento da minha sexualidade, ainda mais se tratando do tal do hímen, que ficava Deus lá sabe onde. Mas esse não era o meu maior temor. Eu como toda garota que veste o manto de virgem, me perguntava: “e depois que eu transar, o que os outros vão pensar?”. Verdade é que sendo Virgem Maria ou Maria Madalena, as pessoas iam falar de qualquer forma. Isso logo eu aprendi. Mas eu segui intrigada com esta decisão em cada etapa da vida. Dar ou não dar, eis a questão.

Por conta disso levei o tema sobre o real efeito do “dar ou não dar” a consideração de amigas e amigos. Para ser mais específica na discussão, e visto a velocidade dos relacionamentos de hoje, perguntei sobre o efeito da primeira transa (→ o Word insistiu na substituição do termo “transa” por “relação amorosa”, e eu não concedi), ou melhor, eu queria entender o efeito da percepção da mulher, caso o primeiro encontro terminasse em sexo. Veja, algumas pessoas diriam que o tema por si só já é machista. Eu entendo. Quanto abordei algumas amigas sobre o que elas achavam que os homens pensavam sobre mulheres que transavam no primeiro encontro, muitas delas responderam “eu não ligo para o que eles pensam”, e louváveis sejam elas, cheias de confiança. Eu, Antônia, não gozo de tanta. Desta forma, precisei mergulhar na pauta que me atormentava desde os tempos do Marquinhos.

Após entrevistar informalmente homens e mulheres sobre o assunto, sem qualquer responsabilidade por amostragem e estatística, concluí que hoje estamos no limiar de uma mudança. Quando eu tinha 20 e poucos, eu jamais transaria no primeiro encontro – “mas aí é porque você era mais nova, e mais insegura”. Também. Mas também porque os tempos eram menos gentis com quem decidia “soltar a piriquita”. Hoje os termos são um pouco mais democráticos. Ainda que com alguns pré-conceitos escondidos embaixo da nossa modernidade pró-feminismo – tem muita Maria Madalena sendo falada no Whatsapp, eu sei. Mas hoje ninguém mais sai apontando pras safadinhas a luz do dia, simplesmente com medo de soar pré-histórico. As mulheres mudaram. Os homens mudaram. Alguns conceitos já se foram e outros permanecem. Existe, no entanto dois pontos de convergência no assunto:

Conquista X Atitude

Eu posso soar vitoriana, mas segundo a minha averiguação o cortejo não saiu de moda. Eu juro. Eles acontecem hoje em dia em questão de 4 horas e sete coquetéis, e não mais em seis meses de conversas vigiadas e um pedido formal de namoro. O jogo da sedução, entretanto – e mesmo que com o velocímetro alterado – permanece em alta com eles, e com elas. Homens serão eternamente conquistadores por natureza, e tem a competição no sangue. Junte isso a um par de seios, e taa-rãm, você tem um verdadeiro cavaleiro em uma missão. Para alguns é um investimento de auto-provação, assim como um certificado de virilidade. Eles não batem mais em nossas cabeças com um tacape e nos arrastam para copular. Mas eles ainda querem nos convencer a entrar na caverna, ora bolas. Nós mulheres, da mesma forma, apreciamos o cortejo e não gostamos dos afobadinhos. Sentimos prazer em sermos conquistadas, do contrário o “não” está cada vez mais difundido e sem peso na consciência.

A atitude aqui é o divisor de águas. É como funciona a lei da demanda e da procura. Se for abundante (no sentido de fácil acesso), perde o valor. Se for raro, o mercado valoriza. E eu sei que eu estou falando de mulheres, e não de diamantes, mas lógica é similar. O que acontecia antes, é que quando uma mulher transava logo de cara, alguns mal orientados julgavam que esta não prestava. Uma vez que nos demos conta e passamos a não aceitar que este fundamento não se aplicava a eles, a coisa começou a mudar.  Então a lição de tirei nesta “pesquisa”, que tem margem de erro de três machistas para mais ou para menos, é que dar no primeiro encontro não desvaloriza a mulher, principalmente se o clima fluiu pros dois – a inteligência da ação e a atitude são ditadas por elas. Dar no segundo encontro é muito mais sedutor. E não dar, mesmo quando se está afim por conta do que os outros pensam, é coisa de tapada. Ponto final.

Atitude delas x Atitude deles

Então entramos na era da escolha feminina em que nós decidimos que caverna queremos adentrar. Bom, perceba que aí a confusão deles realmente começa. Um amigo confessou-me “Tenho um pouco de medo de vocês hoje em dia. Não sei muito que fazer, ou que esperam de mim.” Entendi ele muito bem. Afinal, como mulher eu convivera com esse drama a minha vida inteira. Não me admira que eles, como novatos na pauta da percepção alheia, se sentissem desconfortáveis. Outro amigo revelou um agravante ainda maior, “mulheres sexualmente ativas são mais desafiadoras, difíceis de satisfazer. Eu já deixei de sair com uma mulher por medo de não satisfazê-la.”“você jura?”, pergunto incrédula. “Juro,” – e ele explicou: “pior do que vocês transarem na primeira vez é nós transarmos mal nela” disse com ar de seriedade. Confesso que me solidarizei com a causa. É fácil fingir um orgasmo – tente fingir uma ereção!

Mas eu sei, nem todos têm as melhores intenções no coração, meninas. Nesta alteração de papéis há ainda aqueles que separem as “pra casar” das “não é pra casar” baseados em quem dá ou não dá de primeira. Buenas, sou grata a todos eles. Pois nos poupam do risco de casarmos com pessoas de percepções limitadas (se é que é casamento o que você busca do frigir dos ovos, claro). Deixe-os nos  julgarem pela capa. Garanto-lhes que muitos deles mal conseguiriam terminar um capítulo nosso, quanto menos entender nossa historia. Então, entenda que durante esta troca de lugares, existe uma grande parcela que não sabe muito bem como se comportar. Sejamos tolerantes.  Muito do sexo oposto já entendeu que as mulheres vão mesmo fazer o que querem, e nos respeitam e admiram por isso. Há também aqueles que vão postar fotinho com cartaz dizendo “eu não mereço mulher rodada”. Bom, mas aí a gente vai lá e roda a baiana na cara deles. Simples assim.

Mas a pergunta é dar ou não dar, eis a questão. Em uma era de relacionamentos tão voláteis, em tempos de Whatsapp, que ligação virou “eu te amo”, concluo que devermos ser sinceros com a parte mais importante do sexo. A nossa parte. Sem fazer juízo porque foi de primeira, de segunda, ou de terceira. Mas porque partiu de um desejo genuíno de se misturar um pouco mais com o outro. “Ah então lavou tá novo?”, não, calma! Cuide de seu corpinho, do que entra e do que sai dele, se proteja – seu corpo não precisa ser um templo, mas também não pode ser a casa da Mãe Joana. “Ah, então vou me guardar.” Não, também não! Vai guardar na gaveta? Junto com todos os orgasmos e momentos geniais que você perdeu porque ficou preocupada(o) com o que fulano (a) vai pensar? Pára! Se for pra dar, dê porque te deu na telha. Bem assim!

E pra concluir, divido uma pérola de conhecimento que recebi de um cara muito legal – com quem eu transei de primeira – que me explicou o seguinte: “vocês mulheres têm que crescer a despeito da vontade, o corpo de vocês é implacável. Uma menina vira mulher querendo ou não, e depois começa a contagem regressiva. O homem não. Vive e goza a passagem do tempo, e seu corpo começa a falhar bem mais tarde. Por isso as mulheres são mais sensatas, e muitos homens irão morrer adolescentes”.  O pensamento dele me deu duas orientações para a vida. A de que a sensatez das minhas escolhas terá de ser minha, e só minha. E também de que alguns homens vão morrer adolescentes, a despeito de a gente optar dar ou não dar de primeira. E se não conseguir diferencia-los logo de cara, se permita não errar duas vezes.

Ah, e só pra que fique bem claro o que hoje sei. Marquinhos, se você estiver lendo esse texto: A MÃO É MINHA E EU DOU ELA PRA QUEM EU QUISER.


 

Fim da sessão.

Gata borralheira

Sabe aqueles caras que quando olham pra você, você instintivamente olha pra trás pra ter certeza que não foi pra você? Confere que não é alguém de atras porque em realidade nenhuma ele, aquele ser de beleza suprema olharia para alguém tão comum quanto você? Pois foi exatamente assim que eu conheci o Henrique. Num momento meio Anastácia encontra com o Sr. Gray. Em livro nenhum alguém como o Henrique teria interesse em alguém como Antônia. Mas as vezes contos de fada de fato acontecem, e eu tinha certeza que ele podia ser meu príncipe encantado.

Estávamos em um daqueles eventos do mercado publicitário de Porto Alegre, em que todo mundo se conhece, mas ninguém se atura. Eu matava tempo entre uma champagne e outra, torcendo para que o meu chefe me perdesse de vista para que enfim eu pudesse fugir para o conforto da minha cama e do meu vibrador. Aiai… aquele aparelho pelo qual eu criei tanto afeto que o apelidei de Ricky Martin, já que era rosa, sexy e me fazia viver la vida loca . Perdida nas vibrações dos meus pensamentos, não reparo aquela espécime sublime caminhando na minha direção. “Posso te oferecer outra champagne?” – ele pergunta, me tirando dos meus devaneios em um susto tão grande que borrifo pela boca todo último gole que havia enfiado garganta adentro no rosto dele. “pfffffffffffffffffffffft… coof coof…”.

“Você está bem?” ele pergunta gentilmente enquanto tira um lenço do bolso do terno, e delicadamente seca as borbulhas do seu perfeito rosto. “ahhh, sim, desculpa, nossa… perdão, eu fiquei vibrada, não! Não! Assustada. É, é que você me assustou. Desculpa eu”. Ele sorri um sorrido de dezoito quilates, enquanto procuro minha compostura. “Dizem que as melhores histórias começam com situações inusitadas”, e completa o seu charme secando uma gotinha do meu queixo. “Meu nome é Henrique Albuquerque, posso saber seu nome?”. “Antônia… sou Antônia”. “É um prazer conhecê-la, bela Antônia”. Coro as bochechas. Aquilo não podia estar acontecendo comigo. Eu não tinha fada madrinha.

A noite rola comigo o tempo todo tentando entender o que o Henrique podia querer comigo. O salão do evento inteiro olhava para nós dois. Quer dizer, para ele. Pudera. O Henrique era digno de realeza. Tinha os olhos de turquesa, porte de jogador de rugby e elegância de um atleta de esgrima. O terno sem gravata dava-lhe um ar descolado, sem deixar de transmitir que ele sabia muito bem o que fazer na frente do seu armário. Era um pacote harmonioso para um conteúdo perfeito. Descobri que o Henrique era advogado que representava uma rede de bancos, morava no Rio e estava ali só durante aquela noite.  Era fluente em três línguas e já havia terminado duas vezes a prova IronMan no Hawaii. Eu seguia sendo só Antônia, que trabalhava numa agência de publicidade mediana, e comprava calcinhas na liquidação.

A noite vai chegando ao fim, e eu tento me despedir sem deixar avaliar a minha sorte. Por Deus, quero que ele vá pra minha casa! É só jogar toda roupa suja dentro da geladeira e tá tudo certo. Mas não. Ele me acompanha até meu taxi, entrega R$ 100,00 ao motorista e pede que ele espere a um metro de nós. Então ele olha pra mim com as bolitas de turquesa, tira o cabelo caído no meu rosto, e se aproxima devagarinho. Minha respiração começa a acelerar, ao passo que penso que se ele me beijar provavelmente vai sentir meu hálito de champagne + provolone do maldito coquetel servido na festa. Erro novamente. Ele não me beija a boca, como o cavalheiro que é. Beija-me a bochecha delicadamente, mas sem deixar de ser sexy. “Palavras não descrevem o prazer da noite de hoje, bela Antônia.” Coro as bochechas de novo. Ele toca meu braço de leve, faz sinal para o taxi que dá ré até onde estamos. Abre a porta e me dá mão para que eu entre. Fecha a porta. Eu abro o vidro, esperando que ele peça meu telefone – sim, nada destas variáveis vazias de Facebook, Whatsapp, Tinder, Snapchat. O Henrique, como o príncipe que parece, com certeza ia pedir meu telefone. Erro de novo. Ele toca de leve no meu queixo e dá uma piscadinha. O taxi arranca.

Piscadinha?! Que merda é essa?! Enfureço. Chego em casa e nem Ricky Martin me salva. Estou frustrada e desiludida. Nunca mais vou ver o Henrique. Queria descobrir se ele ronca, se tem chulé, ou um provável pinto pequeno. Eu quero muito que ele tenha defeitos. Ou pelo menos um. Mas agora eu nunca mais vou saber. Merda!

Acordo possuída de raiva (e de desejo contido), e vou trabalhar. Na recepção rosno algo que parece bom dia para a recepcionista. “Tôôôniaaa…” ela diz miando, “Luíza, já te falei que odeio este apelido, me chama pelo nome que a minha mãe me deu, por gentileza.”Uiaaa que mau humor. Espero que melhore com a encomenda que deixei na sua mesa”. “Encomenda? Que encomenda?” – já pensando comigo que finalmente tinha chegado da China o meu redutor de celulites. “Vá lá ver, Tô-tônia!”. Rosno enquanto ela ri.

Na minha mesa, um envelope largo e uma flor. Gérbera laranja, a minha preferida. No envelope um bilhete de texto curto escrito à mão “Gostaria de agradecer a noite de ontem. Já tem planos para o final de semana? Espero que aceite minha sugestão. Beijos, H.” + número do telefone – acho lindo quando a pessoa se auto-resume numa letra! Anexo ao bilhete, e-tickets de ida e volta ao Rio para aquele final de semana. Sentei na minha cadeira evitando um possível desmaio. Racionalizo por um segundo – eu nem conheço esse cara, e se ele for um psicopata? (Silencio) Vai ser o psicopata mais lindo que eu já beijei. Saio correndo e dou uma desculpa esfarrapada que tenho que sair para o meu diretor. Era sexta-feira e eu tinha menos de 8h pra arrancar todos os pelos do meu corpo, fazer todas as unhas dos meus dedos, deixar minhas sobrancelhas iguais, perder 9kg e gastar os olhos da minha cara nas lingeries que nunca tive.  Afinal ele era um príncipe, eu longe de ser princesa.

17h chego no aeroporto. O Henrique e seu sorriso de 18 quilates me recebem com um abraço e outro beijo na bochecha (será que falta muito pra ele me beijar na boca? – pensava em silencio). “Pronta para a Cidade Maravilhosa?”“Nasci pronta”, sorrio ignorando a coceira da minha virilha recém-depilada. Chegamos no Rio, e depois de um longo engarrafamento em seu carro de adulto – daqueles sedãs espaçosos e moderninhos que eu nunca sei identificar o modelo – chegamos em seu espaçoso flat no Leblon. O local cheirava a limpeza, e era impecavelmente decorado. “Parafernálias das viagens que faço” – ele diz enquanto analiso o buda de madrepérola na mesinha do hall de entrada. “Gosta de frutos do mar?” – balanço a cabeça positivamente – “Pedi para a empregada pegar algumas coisas frescas hoje a tarde. Você vai adorar a minha ostra gratinada”. Sério? Ostra! Não podia ser um macarrão à bolonhesa, tinha que ser algo altamente elaborado para me colocar no lugar de pessoa normal de novo.

A noite segue a La Henrique – perfeitamente perfeita. A ostra combinava com o camarão que combinava com o vinho branco que ele escolheu de sua própria adega climatizada. Na sacada, a luz da lua faz brilhar ainda mais seus olhos turquesa. Ele segue servindo a minha taça enquanto conta suas aventuras pelo mundo. O Henrique faz minhas experiências na estrada se tornarem viagens de uma amadora com seus safáris africanos e escaladas nos alpes baváricos. Como pode alguém ser tão perfeito? Duvido que ele faça cocô, penso comigo. Não, isso seria humano demais para alguém como o Henrique. Seus dejetos devem sair em cápsulas higienizadas, fico imaginando. O Sr. Perfeito então nota que estou mais uma vez perdida em meus pensamentos. Vai até o som e coloca John Legend, All of Me (que não podia ser mais adequada para a ocasião) e pede para que eu dance com ele.  Ele enrola-se na minha cintura, e começa a se embalar com a melodia. Deito no peito dele, desenhado por muito supino. Suspiro profundamente.

Ele então sobe as mãos até o meu rosto, sem desgrudar o corpo de mim. Passa os dedos pelos lóbulos da minha orelha, e olhando no meu olho, aproxima a boca da minha. Ouço a rouquidão da balada de Legend dizendo ao fundo “Give your all to me, I’ll give my all to you”, suspiro de novo, fecho os olhos e me entrego. O resto da noite terminou tão perfeito como começou. Descobri que o defeito que o Henrique poderia ter, não ficava dentro das cuecas Calvin Klein dele. E para terminar com qualquer dúvida que ainda tinha, ele me serviu dois orgasmos de sobremesa. Filho da puta!

O final de semana seguiu perfeito e delicioso. Nunca saíra da casa do Henrique. Se o Rio era maravilhoso, a cama do Henrique era nirvana. Na manhã de domingo acordei com barulhos vindos da cozinha. Ele entrou no quarto, como um sonho que acabei de ter. Bandeja na mão, com suco de laranja, morangos e uma torrada perfeitamente cortada em triângulos. “Dormiu bem, bela Antônia?”. Transbordo felicidade pelos olhos. “Espero que perdoe a minha indelicadeza, mas preciso revisar uns documentos no banco. Alguns acionistas não têm vida própria nem aos domingos.” Faço cara de manhosa.  “Mas por favor, fique aqui e, sinta-se em casa”. Agradeço com um sorriso. “Henrique, também vou arrumar as minhas coisas e vou indo pro aeroporto, não quero me atrasar por conta do trânsito”. Ele faz cara de contrariado mas concorda. “Vou chamar um taxi pra você em 1h. Quando sair, é só bater a porta que ela tranca. Eu volto a ver você de novo, certo?”, “Com certeza” – respondo –“No meu Rio ou no seu!” – ele então beija a minha boca, pega o casaco e sai.

Ouço a porta bater. Corro para o banheiro. Faziam dois dias que as ostras gratinadas imploravam para sair de mim. Mas como eu podia? Usar o banheiro no castelo de um príncipe que ejeta cápsulas higienizadas? Eu era somente humana, e precisava desesperadamente fazer minhas necessidades fisiológicas – sim homens, entendam: mulheres fazem cocô! 2kg mais leve puxo a descarga e entro no banho. Nada. Nem um som de água. Saio do chuveiro e tento de novo. Nada. Nenhuma movimentação. Entro em desespero. Corro para a lavanderia. Tento sem sucesso inúmeros baldes d’água. Nenhuma evolução. Começo a suar pensando no relógio passando. Me visto, arrumo as minhas coisas voando. Tento mais alguns baldes. Nada. Neste momento então, tomo a única decisão que ainda me cabia, como a pseudo-dama que sou. Com uma sacola-plástica na mão, coleto o meu depósito. Fecho bem a sacola, e decido levá-lo comigo e descartá-lo numa lixeira da rua. Não ia deixá-lo naquele castelo.

O interfone toca: “Srta Antônia, o taxi que o Sr. Henrique solicitou já está aqui…” – “tô descendo!”. Junto as minhas coisas, e me encaminho para a porta, mas não antes sem deixar um bilhete sob a mesinha de entrada, ao lado do Buda. Bato a porta atrás de mim. Apenas para um segundo depois dar-me conta de que não estava com a sacola plástica na mão. Eu a havia deixado, também na mesa de entrada. Ao lado do Buda de madrepérola. Ao lado do bilhete.

Lembro-me do texto do bilhete que deixei ao lado da sacola:

 “Henrique, palavras não descrevem este final de semana… A.”

Definitivamente eu era a gata borralheira. E o que eu deixara pra trás, era longe de ser cristal.


Fim da sessão