Meu coração saiu do armário

Quando eu tinha 13 anos meu pai teve a crueldade de mudar de praia. Imagine a minha indignação pseudo- adolescente, mudar de praia! A praia com todos os meus amigos. Aquilo era o fim do meu verão.  Tudo por conta da invasão argentina, naquela época em 1990 e poucos, em que eles tinham todos os pesos do mundo pra invadir Santa Catarina. Meu pai não queria ter que acordar às 5h00 da manhã pra disputar um lugar para o guarda-sol. Ora, que egoísta!

E de lá partimos, para outro destino, de mala, cuia e trailer. A praia que meu pai escolheu era do outro lado da Ilha, e imensamente menos popular que a minha antiga praia. Ou seja, pouca ou nenhuma gente aparecia na minha nova praia, para o delírio do meu pai, e para o meu desespero. As poucas crianças e jovens que existiam, se divertiam jogando vôlei. E eu era péssima em vôlei. Em um final de tarde, a convite de um dos meninos que morava ali perto, ensaiei alguns saques e manchetes. Falhei majestosamente. Lembro-me de que em uma tentativa desastrosa de catar a ultima bola do jogo me lancei contra um arbusto, que obviamente não me segurou. Acabei o jogo soterrada pelas folhagens. Uma mão me puxou pra fora da cerca viva, tirou um galho da minha cabeça, e disse “Oi. Você tá bem?”. Balancei a cabeça envergonhada pensando que estragara a única chance de ter amigos naquele verão. “Vem. Vamos tomar um banho de mar, não tem nada que ele não cure. Ah, eu sou o Tadeu e você?”, “Antônia” – respondi com meu primeiro sorriso de janeiro.

Aquele verão passou rápido. O Tadeu tratou de me apresentar a todos os seus amigos e amigas, e eu finalmente tinha uma nova turma. A gente brincava de enterrar o meu irmão mais novo na areia. Mergulhava no trapiche. Comia picolé e pastel de camarão. A noite, arriscávamos “umas saídas” na praia vizinha que era mais animadinha. O Tadeu tinha que me entregar pro meu pai no meu trailer até às 23h. Mas em inúmeras vezes nos apresentávamos às 23h e ficávamos na beira da praia – sob os olhos vigilantes do meu pai de lá do trailer – conversando até a lua deitar no mar. O Tadeu era diferente. Os meninos de 13 anos não eram nada como o Tadeu. Eles oscilaram entre tentativas de me beijar ou de me acertar com alguma coisa. O Tadeu não. O Tadeu era genial. Ele era gentil. O Tadeu se tornou o meu primeiro e melhor amigo do sexo oposto. Foi para ele que eu contei detalhes sobre o meu primeiro beijo em um menino mais velho, de 16 anos!  Detalhes é um exagero, já que foi tão rápido que eu quase não vi acontecer. Sei que o menino enfiou a língua na minha boca e eu saí correndo. O Tadeu achou graça. Mas não riu de mim, como o resto da turma fez.

Quando chegou o final do verão, me despedi do Tadeu com lágrimas nos olhos. Prometemos escrever durante o ano. Cartas. Daquelas que você guarda até a idade adulta. Longas cartas sobre futilidades e saudades. Notícias da escola e desejos de verões eternos. Eu contava os dias para Janeiro. E felizmente ele sempre chegava, e com ele, o Tadeu. E assim nós dois fomos crescendo verão a verão juntos. As brincadeiras foram substituídas por festas. Os picolés pelas primeiras doses de álcool, Gudang Garam e lança perfume.  Trocamos alguns membros da turma por outros mais hard-core, como a Mariana. Tudo o que eu tinha de tímida a Mariana tinha de bem resolvida. Além disso, ela causava um temor constante em mim pela agressividade óbvia que tua pequena estatura transpirava. “Calma, Antônia. A Mariana não vai te machucar. E você vai querer ela do seu lado numa briga”, ele falou rindo.

Com a chegada da minha maioridade passei a dirigir com mais frequência com destino a Santa Catarina. Inventava toda e qualquer desculpa para encontrar o Tadeu, e agora também a Mariana. Eu estava especialmente animada com aquele final de semana de novembro, pois o Tadeu iria me apresentar à namorada dele – primeira menina que eu o veria beijar, nos nossos muitos anos de amizade. Entretanto e para a minha surpresa, antes que eu chegasse à ilha da Magia os dois já haviam terminado.

Fomos à festa que estava programada para aquele final de semana mesmo assim. Em um avançado momento alcoólico da festa, eis que surge da multidão uma loirinha ouriçada pra cima da Mariana e de mim. “Esse bosta que vocês chamam de amigo, esse merda, prefere ficar com as amiguinhas dele, a ficar comigo!” – entendi rapidamente que aquela era a ex do Tadeu. “Olha minha filha” – tentei manter a calma enquanto segurava na coleira da Mariana que já estava com os punhos fechados em direção à loirinha – “o que o Tadeu tem com a gente é completamente diferente do que vocês têm. Não tem nada de maldade. Fica tranquila que ele não come ninguém aqui”. “Aé”  – disse ela com ar de raiva – “eu posso dizer a mesma coisa deste UM ANO de namoro com ele!”. Larguei a Mariana. A loirinha merecia umas bofetadas ao menos pela indiscrição.

No banheiro discuti longamente com a Mariana, que insistia em perguntar pro Tadeu se ele era ou não era gay. Disse que ela não tinha direito de perguntar nada. E que na hora certa ele falaria com a gente. E o pacto se cumpriu, por todos os anos que seguiram depois daquela festa. Vi o Tadeu beijar várias meninas. Se justificar inúmeras vezes pros amigos “machos” porque não tinha comido a mina “A”, e que mina “B” não tava mesmo afim. Quando o assunto virava piada, eu virava um pitbull com raiva. E botava um a um dos machões em seus devidos lugares. Era inútil, entretanto, fazer o Tadeu se sentir melhor com aquilo. O Tadeu, aquele amigo que eu mais amava, seguia como as pérolas dentro das ostras que caçávamos em nossa juventude. Fechado, dentro de duas conchas.

Com o tempo, me afastei geograficamente do Tadeu. Fui pra Londres. Ele pra São Paulo. Quando voltei corremos ambos para Florianópolis, e nada havia mudado. Eu ainda era a menina que ele havia tirado de dentro do arbusto.  Ele, todavia, seguia dentro da concha. O Tadeu então me contou que estava indo morar na Cidade Maravilhosa e que eu devia visitá-lo. Combinamos que iria em alguns meses, depois que ele se ajeitasse.

O Rio veio e com ele uma surpresa. O Ricardo. Quando o Tadeu apareceu para buscar as minhas duas amigas e eu para um passeio, no banco da frente, ao lado do Tadeu, o meu Tadeu, havia um Ricardo. Minha primeira reação foi de choque, que eu disfarcei com alguma piada. Seguimos o dia com o Ricardo fazendo a maior parte das apresentações “Aqui neste lugar nós gostamos de jantar”; “aqui é onde eu trabalho, o Tadeu adora aquele sanduíche da esquina”; “Tadeu, a gente nunca levou nossas visitas naquele museu novo no Leblon né?”. “Nós, nossas”. Todos os pronomes possessivos no plural. “Qual a natureza da relação de vocês?” – vomitei do banco de trás. (PUTA QUE PARIU! EU DISSE ISSO EM VOZ ALTA??!! Merda! ). “Não, ahn… eu quis dizer, de onde vocês se conhecem?” – corei o rosto todo. “Sabe Ricardo, a Antônia é minha amiga mais discreta, como você pode ver” o Tadeu falou, rindo um riso folgado e sem preconceitos.

Nada mais se falou sobre aquilo. Nem sobre a minha pergunta, nunca respondida. Já de volta a minha casa, enviei uma mensagem inquieta ao Tadeu “O Ricardo é teu namorado? Sabe, não vai mudar nada entre a gente. Só quero te ver feliz.” Ele respondeu prontamente – “Pois fique feliz. Você ainda vai ser madrinha”.  Surtei. Meu coração bateu com todas as cores do arco íris. “Pois trate você de arrumar o sofá” disse a ele, “mês que vem estarei aí pra conhecer melhor o outro noivo”.

Passei quatro dias na companhia dos dois. O conforto não veio automático. Óbvio.  Nunca tive problemas com a homossexualidade. Sempre achei Soho – o bairro mais gay de Londres, o meu preferido e mais festivo. Mas aquilo era diferente. Aquilo era sério. E eu também entendi que precisava de tempo para me educar. Conversamos muito, e entendi melhor como tudo aconteceu. Perguntei coisas que não deveria, como a inadequada curiosa que sou. O Tadeu respondeu tudo com polidez. Conheci e passei a admirar o Ricardo. Mais do que isso, conheci o Tadeu fora da concha. Fora do armário. E ele não era mais gay. Ele era simplesmente mais feliz.

No auge da minha balzaca, nunca-nunca eu havia olhado para alguém do jeito que os dois se olhavam. E com a minha bagagem afetiva pagando extra no aeroporto do amor, eu sabia que aquilo era muito raro. A primeira pergunta que me veio na cabeça foi a mais óbvia. Se é tão difícil achar o amor, quem nesta vida tem direito de dizer que isto é certo ou errado? Enfureci-me com o mundo. Não podia conceber que alguém ia querer (ou ter coragem), por motivos religiosos, educacionais, sociais ou legislativos, de impedir o amor de acontecer.

E foi assim que o meu coração saiu do armário, junto com o Tadeu. Não porque sou gay, não. Eu gosto de piroca tanto quanto o Tadeu, hoje sei (desculpe o meu francês). Mas porque a causa dele passou a ser minha também. Porque se um dia eu encontrar um amor, lindo e verdadeiro, sendo ele uma Maria ou um João, ninguém no mundo vai me tirar o direito de ser feliz não. E isso é direito de todos (ou deveria ser!).

Então praqueles que estão aí, espalhando o ódio porque duas senhoras se beijaram na novela, acostumem-se e engulam o mimimi. Porque eles, elas e todos nós vamos encher esse mundo de amor. Gay, Hétero, Bi, Trans. Simplesmente porque é de amor que o mundo precisa. Não rótulos. Agora virem o disco.

Ta? Deu!


Fim da sessão.

Mais uma dose, é claro que eu tô afim

A noite nunca tem fim. – Por que a gente e assim?Cazuza / Roberto Frejat / Ezequiel Neves

Eu tinha 20 anos quando meus pais me fizeram participar de uma palestra em uma clínica de reabilitação. Eu estava sofrendo alterações constantes de humor, uma montanha russa, ora extremamente eufórica e agitada, ora deprimida e reclusa. Eles estavam convencidos de que eu sofria com algum tipo de dependência. E eles estavam certos… bem, quase certos.  Na palestra, ouvi da orientadora “a cocaína é uma das drogas mais viciantes já inventadas” – ela fez uma pausa dramática olhando nos olhos da plateia – “Apenas uma dose já faz da pessoa um viciado, e a reabilitação é uma das piores de se enfrentar”.

Eu sabia que aquilo não era verdade. Havia uma droga mais letal que a cocaína. Uma droga propagada a luz do dia. Exposta nas artes e na história. Difundida em todos os níveis, todos os graus de educação e em todas as idades. É… talvez eu fosse nova demais para me ver viciada. O nome da droga que me viciou era AMOR. “Ai que bonitinho”. Não, calma. Essa não é uma daquelas historias. O amor que me viciou era tóxico. Amor tipo cocaína.

O Caio foi o meu primeiro grande amor. E como com qualquer outra droga, as primeiras doses são sempre de pura euforia. Você acredita que encontrou tudo que faltava para encarar a vida. Pra mim, o Caio era mais lindo que o sol. Talvez até mais importante que o sol. Eu podia viver sem o sol. Nunca sem o Caio.  Acontece que o meu amor toxico não demorou muito para mostrar sinais de risco à saúde. A relação se tornou abusiva. Gritos, ofensas e ameaças viraram parte da nossa rotina. Eu entregava tudo que era meu ao Caio – tempo, dinheiro e atenção. Na troca eu ganhava doses homeopáticas de carinho, e doses cavalares de amor tipo cocaína.

Naquela época o Caio me convenceu que nunca ninguém me amaria como ele. Como uma viciada, eu acreditei. Eu tinha dores no corpo na abstinência dele, e implorava por mais doses. Ele me entregava, e depois assistia eu me deteriorando nos sintomas daquela dependência. Eu parei de sorrir. Assim como uma usuária de drogas, também passei a ter muita vergonha, me afastei dos meus amigos. Comecei a mentir pros meus pais. Eu queria sair daquele circulo vicioso, mas estava perdida. Não tinha reabilitação para o amor tóxico, amor tipo cocaína. Eu tentara inúmeras vezes. Mas eu sempre voltava. E a cada volta, uma queda maior naquela droga de vida. Eu perdia a fome e o sono constantemente. Eu estava sozinha, mesmo quando rodeada de gente. Eu estava sozinha mesmo que a dois.

Uma noite, depois de uma de nossas brigas cataclísmicas, me abriguei no chão do banheiro para chorar. Não perdoava o Caio como fruto do meu vicio, não perdoava a mim mesma por ser tão fraca. Como amar podia doer tanto, meu Deus? – eu perguntei desolada.  Silencio. Deus não disse nada. O Caio, entretanto, gritava lá de fora que eu podia morrer chorando, mas que eu ia voltar pra ele. Eu sempre voltava. E ele estava certo. Eu sempre voltava. E lá eu fiquei no azulejo frio do chão do banheiro, abraçada nos meus pensamentos mais obscuros. Eu queria poder sentir uma dor maior que aquela, apenas para amenizar a dor do amor tipo cocaína. Eu queria ver o Caio se preocupar comigo. E no estagio de retaliação que eu me encontrava, aquilo tinha tudo pra ser o fim da minha historia. O chão do banheiro era o fundo do meu poço. De olhos fechados pedi a Deus mais uma vez que me mandasse uma luz. Silencio. Apenas o som do meu choro descontrolado. Eu não queria mais aquilo. E eu só via uma saída.

Abri os olhos, decidida pela tragédia shakespeariana.  Algo extraordinário aconteceu.

Atrás do vaso do banheiro, percebi um objeto. Uma corrente antiga, enferrujada, possivelmente esquecida por um antigo inquilino daquele apartamento alugado. Puxei-a com cuidado, ao mesmo tempo em que tirei as lagrimas dos olhos para enxerga-la melhor. Quando meus dedos conseguiram finalmente desenroscar aquela corrente, percebi que não se tratava de uma corrente. Aquilo era um escapulário. Aquilo estava ali, durante anos, sem ser notado apenas para que eu o encontrasse quando mais precisava. Aquilo era um sinal. Aquilo era o inicio da minha reabilitação.

Por conta desta reabilitação, passei muito tempo analisando o amor tipo cocaína. Percebi que as pessoas não falam sobre esse tipo de amor por duas razões básicas: vergonha e desinformação. Naquilo que dizia respeito à vergonha, não é fácil ou bonito admitir pra quem se quer bem que é difícil livrar-se de um vício que te faz tão mal. Naquilo que se refere à desinformação, exatamente como com as drogas, em algum momento em nossa sublime ignorância nós glamuralizamos o sofrimento de amor. “Nossa, como é lindo sofrer de amor!” Veja Romeu & Julieta! Tome deste veneno!  Fato é que o mundo tá tão carente de amor, que muitas pessoas aceitam qualquer tipo de amor. Até o que faz mal.

“Você vai ficar sozinha ao invés ter um namorado?”; “Amor a gente não joga fora, a gente conserta”;  “Vai jogar um relacionamento de ‘X’ anos fora por isso, tá maluca?” Eu ouvi todo tipo de bobagem calada. Eu minguava a cada dia do lado do Caio, como uma flor sem água, secado sob a luz do sol que tanto admirava. Estaria mesmo maluca de abrir mão do sol? Bom, talvez eu estivesse. A minha reabilitação era puramente experimental, afinal eu – como a grande maioria de nós – sentia prazer em sofrer um pouquinho. Mais uma dosezinha, sabe? Mas eu decidi dar um pouco de sombra e água pro meu coração cansado. E com alguma dose de coragem eu disse não para o sol.

E assim segui a vida. Com amores e desamores, eu tentei desviar do amor tipo cocaína. Mas ele nunca esteve longe. Eu o vi acontecer, sorrateiro e avassalador, com algumas das pessoas que mais admiro. Amigas inteligentes e bem resolvidas, presas em seus próprios relacionamentos tóxicos. Os sintomas eu conhecia bem, sumiços, desculpas esfarrapadas, euforia seguida de depressão, vergonha, reclusão. Flores secas ao sol.  “Logo ela, tão inteligente e informada”, as pessoas criticavam . Fato é que esse vício não escolhia pelas virtudes, ou defeitos. Mas pelo desejo, como todas as outras drogas.

Depois de um tempo, já mais “madura”, aprendi também que essa história de amor tóxico não era só coisa de mulherzinha, aquele sexo frágil. O meu namoro com Marcos, anos depois do Caio, foi bem tranquilo. Com idas e vindas eternas, não por não nos darmos bem, mais porque queríamos coisas diferentes da vida. E mesmo sem namoramos, era sempre bom ficar com ele. Bom, assim eu achava. Depois de dois anos de ficadas casuais, o Marcos me implorou aos prantos pra sair da vida dele. E eu finalmente entendi. Eu era o amor tipo cocaína dele. Ou seja, o amor era um vício imparcial também quanto a gênero.

“Mas como assim, que coisa maluca comparar o amor, essa coisa tão linda, com uma droga tão letal?”

Pois preste atenção. Olhe para os lados. Você provavelmente conhece algum usuário do amor tipo cocaína. Ali, com o traficante do amor sempre em speed dial, a uma conversa furtiva de whatsapp de distância, sempre na vigília do Facebook, esperando um momento de fraqueza para só mais uma dose. “A última”, é claro que eu tô fim. Quando você se dá conta, a pessoa sumiu do seu convívio, tem vergonha de retratar suas recaídas, inventa desculpas para os sinais de dependência e cria um comportamento de risco eminente em torno de sua obsessão. Clinicamente já foi comprovado, o estímulo da cocaína e do amor em seu cérebro é o mesmo. O abuso dele, provavelmente também.

As minhas amigas se reabilitaram ou estão se reabilitando a duras perdas e mensuráveis ganhos. Eu, como a ex- viciada que eu me considero, também vi que tudo tem solução. Assim como na dependência química, foi necessário muita disciplina e força de vontade para sair do chão daquele banheiro e tomar as rédeas da minha vida. Não é impossível, apenas complicado. E o apoio de quem gosta de você é fundamental O antídoto para este veneno, entretanto, hoje sei que é um só: amor tipo cocaína, se cura com muitas doses de amor próprio. E esse você não acha em lugar nenhum e em mais ninguém, apenas dentro de você.

Hoje em dia, involuntariamente ainda encontro o Caio em uma esquina ou outra por aí. Toda vez me vem um calafrio da espinha, um suador no corpo. Toda vez me orgulho em dizer não. Um dia de cada vez, claro.

“Canibais de nós mesmos. Antes que a terra nos coma.  Cem gramas, sem dramas. Por que que a gente é assim?”

Cazuza / Roberto Frejat / Ezequiel Neves


Fim da sessão

 

Se essa rua, se essa rua fosse sua

Eu sou a menina estuprada na Redenção. Você também. Eu tenho medo ao sair de casa. Todo dia. “De ser assaltada?” Antes fosse. O iPhone posso deixar sobre a mesa da sala. Mas o que faço com minha integridade, quando o bem mais valioso não pode ficar em segurança? Dilacero, rompo em partes os peitos, barriga, boca, bunda? Deixo a minha vagina em casa? Quantas de nós serão invadidas na Redenção aos olhos alheios? E se a história fosse outra?

Eu também tenho uma história pra contar.

Uma vez vi um jovem descendo do ônibus. Desceu, largou o skate e tirou a camisa. Tinha o tórax suado, peito e barriga de quem malha bastante, assim, só pra se exibir sabe? Os mamilos durinhos olhando pra mim. Uma delícia. O volume da calça era vantajoso. Tinha certeza que ele estava excitado comigo olhando para ele, mesmo que não fizesse contato visual. Mas ele não disfarçou. Ficou ali, mexendo no celular na minha frente, esperando eu tomar uma atitude. E eu tomei.

Surpreendi-o por trás, puxei contra o meu corpo e fui logo colocando a mão no volume dele. Esfreguei bastante, apesar da resistência. Sabia que ele só tava se fazendo de difícil. Passei as mãos naquele tórax imenso, apesar das tentativas dele de me empurrar. Eu estava muito excitada com aquele faz-de-conta. Apertei a nuca dele, enfiei minha língua na orelha dele puxando-o pelos cabelos, enquanto com a outra mão, apertava sua bunda, bem no meinho. Isso tudo ali, pra quem quisesse ver. Obvio que ninguém interferiu. Estavam todos preocupados com horário do ônibus, o supermercado da semana, a corrida no parque. Virei ele de frente pra mim e o beijei gostoso várias vezes, enquanto ele virava-se de um lado para o outro fingindo que não queria a minha língua quente e invasiva.  Mordi o lábio dele bem forte para depois soltá-lo. Arranquei-lhe a mochila, peguei a carteira, e joguei o resto contra ele. Segui o meu caminho despreocupadamente. Eu sabia que no máximo ele ia virar estatística.

Se essa rua, se essa fosse deles?  Alguém teria ouvindo? Achado a situação adversa? Intervido?

Se essa rua fosse deles,  rua escura, com um inimigo eminente a cada esquina. Seria diferente? Teríamos policiais preocupados ao menos em nos consolar? Não tornar um ato de violência em um fato corriqueiro? Teríamos quem juntasse os pedaços que nos restaram na grama da Redenção? Se essa rua fosse deles, crimes como estes seriam vistos de forma leviana, quando “mas nem houve penetração…”? Precisa de penetração? Não basta a alma dilacerada? O trauma eterno? Precisa-se de penetração física e forçada para ser ouvida? Para virar estatística? “Isso é lenda urbana”, li por aí. Lendas ou histórias urbanas? Daquelas que nos acostumamos a conviver, mesmo que com nojo? “Campanha publicitária”, outros falam. Ah é? E quem está assinando? A marca de todas as mulheres do mundo?

Veja bem que nesta história, não se quer ser vitimizada porque somos o sexo frágil. Se quer ser vitimizada quando somos vítima, e quando estamos frágeis – nas ruas da insegurança e da impunidade. “Isso não vai dar em nada” dizem aqueles pagos para nos defender –  talvez não dê em nada mesmo, penso eu, mas custa não nos roubarem a esperança? Já nos roubam o corpo,  os pertences, a tranquilidade. Também a esperança? Esperança de que se fizermos a nossa parte, dermos queixa, alguém vai ligar pra nós, se preocupar com a nossa história, sofrer conosco? “Não me envolvi porque não era assunto meu”. E eu espero que nunca seja, pois poderia ser assunto seu quando sua mãe vai ao mercado, sua irmã ao barzinho, sua namorada no trabalho. Talvez se essa rua fosse deles, as coisas seriam diferentes.

“Então a culpa é do homem?” Não, não é. É toda nossa. Antônias e Antônios, que se omitem, que não registram, que não chamam atenção para a sua história, para esta história. Eu estuprei aquele jovem forte e gostoso naquela noite de março, você acredita?  Não né? Mas e se essa rua fosse deles, rua escura, com um inimigo a cada esquina, você acreditaria?

Não adianta queimarmos sutiãs, se nos tocam os peitos. Exigir mudanças salariais, se não houver mudança de atitude. Não adianta sair da cozinha, se não podemos sair de casa. Hoje somos todas oprimidas, simplesmente por andarmos por aí. Afinal ainda não descobrimos um jeito de deixar a vagina em casa. Quantas de nós serão invadidas na Redenção? E eu não canso de perguntar…                    E se essa rua fosse SUA?

 

Nessa rua, nessa rua tem um bosque. Que se chama, que se chama solidão.

Dentro dele, dentro dele mora um anjo? Que roubou, que roubou meu coração.


Fim da sessão

 

A menina do lenço na cabeça

Eu nunca vou me esquecer da primeira vez que a vi. Era aniversário do primeiro aninho do filho de uma amiga. A festa era em um sítio distante, naquelas casas feitas de madeira, que tem cheirinho de laranja. Eu conhecia pouca gente no evento, apenas a mãe da criança e a Marília – minha melhor amiga e fiel escudeira. “Não me deixa sozinha!”, eu implorava segurando-a pelo braço. “Relaxa, Antônia. Desde quando tu é tímida?” – a Marília ria. Ora, desde sempre, ela sabia. Eu sempre fora tímida, apenas disfarçava com piadas e histórias (eu sempre contava histórias).

Após alguns cumprimentos casuais, a Marília se perde por longos minutos no abraço da menina do lenço na cabeça. Eu nunca entendi as mulheres que tapam seus cabelos. Eu sempre tive um caso profundo de amor com minhas longas crinas, uma síndrome de Rapunzel – talvez porque até os 8,9 anos minha mãe os cortava extremamente curtos. Desde que pude escolher, sempre cultivava as madeixas longas e esvoaçantes. Nunca escondidas. Nunca gostei de boné, toca, chapéu, lenço ou burca. Quer dizer, o lenço dela era até bonito, de cetim, roxo com flores amarelas. Eu adorava aquela combinação. Mas jamais usaria aquele lenço pra esconder minha cabeleira. A Marília me apresenta rapidamente, e logo começa a perguntar como a menina do lenço estava, e como ia o tratamento. Soco na boca do estômago. A menina não tapava os cabelos. Ela não os tinha. Uma consequência óbvia – pra qualquer idiota que não esta que vos fala – do tratamento de quimioterapia. Fiquei com vergonha. Sorri amarelo e quis sentir pena. O desconforto durou apenas um segundo.

A menina do lenço na cabeça era tudo, menos digna de pena. De sorriso largo e olhos brilhantes ela contou tudo a Marília como quem tirava de letra até mesmo a assustadora letra “C”. Falou sobre as rotinas de hospitais, e das férias maravilhosas que ela tinha deles vez que outra. Contou de uma adorável viagem com o namorado, um garoto bonito que segurava suas mãos com carinho. Ela falou animadamente de seu blog, que escrevia pra ajudar outras pessoas. Da alegria dos grupos de apoio. Das novidades estéticas que descobrira, como esmaltes que não causavam enjoos e lenços personalizados. E eu preocupada com meus cabelos. Quis engoli-los. Mais que isso. Quis ser amiga da menina do lenço na cabeça.

Entendi que eu não podia em sã consciência não me envolver com aquela pessoa. Não. Eu precisava ser amiga dela! Aquela menina do lenço na cabeça era muita luz. Ela era muita vida. E eu a queria na minha. Comecei a acompanhar o blog e fazer parte da torcida. A cada etapa do tratamento vibrava junto com ela em seus posts animados. Nos menos animados – e estes ainda sim cheios de garra- mandava mensagens de carinho, e ela devolvia outras de gratidão. Sempre muita gratidão.

Um dia, em uma viagem ao Rio de Janeiro encontrei amigos que há muito tempo não via, e um deles comentou comigo como o meu cabelo estava exageradamente comprido “Você deveria considerar doá-los”, ele sugeriu. Não deu outra. Mandei imediatamente uma mensagem pra menina do lenço na cabeça: “Vamos cortar meu cabelo! A gente faz uma ação no teu blog convidando mais gente a doar. Podemos tirar umas fotos, você com a tesoura na mão e meu cabelo na outra, vai ser demais!” Ela riu largo, como entendi que fazia sempre, e disse que eu estava maluca. “Mas Antônia, vai cortar esse cabelão lindo?!”. E pela primeira vez eu não vi meu cabelo longo como minha marca registrada, meu frisson feminino. “Ah, mas é SÓ cabelo, não é?!” – “Hahahah. Ok, vamos fazer”, ela respondeu empolgada.

Nos meses que se passaram mantivemos contatos frequentes. Ela tinha uma rotina conturbada com o tratamento. Eu tinha meus compromissos, e a gente tentava fechar um encontro. Ela me mandava fotos dela com seus lenços – que eu passei a admirar. Eu mandava fotos de meus irmãozinhos pequenos escovando meu cabelão – “a Mana vai dar o cabelo dela pra titia porque a Mana tem um montão e a titia não tem nenhum ”, eles contavam aos amigos, entendendo que aquilo era importante. Às vezes a menina do lenço na cabeça ficava desanimada, ou até com vergonha de me fazer esperar tanto tempo pra cortar o cabelo. Eu a encorajava “fique tranquila, vou juntando e só vou cortar o cabelo depois que você sair do hospital”, ela agradecia. Ela sempre agradecia.

Então as nossas agendas se fecharam para a semana seguinte, e eu estava feliz em finalmente ver de novo a menina do lenço na cabeça. Ao vivo e a cores. Todas as cores do seu lenço. Tinha sido uma semana difícil aquela. Eu havia perdido alguém importante. E eu queria encontrá-la para tomar doses de sua alegria. Sua energia. Sua coragem. Além disso, eu estava empolgada em doar meu cabelo.

Era uma sexta-feira de novembro, semana que antecedia o nosso encontro. Lembro que tinha dormido pesado por conta do meu pesar. A Marília me acorda as 7:00 da manhã pelo telefone, entre soluços inconsoláveis, me informa que a menina do lenço na cabeça havia partido para colorir o céu. Não consegui confortar a Marília. Apenas pedi para que ela tivesse coragem, como a amiga querida que ela havia me apresentado, aquela que em tão pouco tempo de convívio, tamanha admiração havia conquistado.

Eu rezei muito antes de cumprir minha promessa. Segurei aos cabelos como quem segura a uma corda no penhasco da realidade. Quando os cortei, lágrimas rolaram. A menina do lenço na cabeça não estava segurando a tesoura (ou estava?). E mesmo depois de corta-los, mantive as mexas perto de mim, como um amuleto improvável. Um lembrete diário para me desapegar das coisas sem valor. Um lembrete diário para ter coragem, alegria e doçura frente à diversidade. Um lembrete diário daquele lenço.

Ontem uma amiga me mandou um whatsapp dizendo “conta uma história bonita essa semana”, escreveu desanimada “o mundo tá tão carente de histórias bonitas, pessoas especiais e momentos de contemplação. Não fala de política. Desse ódio todo espalhado aí. Conta uma história bonita, Antônia.” E ela estava certa e de novo me peguei pensando na menina do lenço na cabeça. O mundo está mesmo carente de histórias de pessoas que enxergam a vida como um milagre, indiferente da sua trajetória. Se curta ou extensa. Descomplicada ou desafiadora.

Depois de meses segurando aos cabelos já cortados, hoje resolvi enviá-los para doação. Também resolvi contar essa história não porque acho que estou fazendo algo admirável, mas porque a menina do lenço na cabeça fez algo admirável por mim. Ela me tocou com a história dela, para que eu pudesse tocar alguém com a minha.  E este ciclo pode ser infinito. Este ciclo pode ser forte e muito amplo.  Basta que cada um de nós se empenhe em compartilhar e celebrar histórias de heroínas como esta, de carne, osso e lenço na cabeça.

O mundo está precisando de gente assim.

Fim da sessão


Uma singela e respeitosa homenagem a Eduarda Maíra Rauber, inspiração através do blog Força na Peruca e autora de uma linda história de vida.

Click na foto para mais informações sobre a doação.
Meu cabelo e meu novo lenço de cabelo – CLIQUE NA FOTO e saiba como ajudar.

 


Aproveito este espaço para convidar a todos  a doarem um pedaço de seus cabelos. É rápido e fácil, e não precisa cortar curto para ajudar – 15cm de você já colaboram. As mechas são direcionadas para instituições que confeccionam perucas para meninas e mulheres que, como a Duda costumava dizer, estão mostrando para o câncer que vencê-lo não é fácil, mas também não é impossível.  Procure a instituição de coleta mais próxima de você.

 ♥ Você não precisa compartilhar este texto, mas pode compartilhar essa ideia. ♥


 

A maldita calcinha suja – episódio 2

Quem acompanha o blog desde o início, sabe que o primeiro post público pra inaugurar o divã não foi uma história nada bonita, muito menos limpa. A saga da “A maldita calcinha suja” terminou no mínimo com algumas reticências, e não foi à toa que muitos escreveram perguntando como diabos a história terminava. Gostaria de poder dizer que o final tinha cheirinho de amaciante, mas se tivesse não seria o divã da Antônia. Não. A Antônia aqui se supera mesmo quando o assunto é calcinha suja.

Obviamente que dada à fatalidade do meu último encontro com o churrasqueiro de olhos verdes, eu evitei todo e qualquer contato, e prometi carregar uma calcinha limpa na bolsa sempre que fosse encarar uma festividade… assim, só por precaução. Fato é que nos meses que decorreram daquele churrasco, mal tivera chance de comparecer a qualquer festividade. Estava encarando um curso extenso e importante que me preparava para a fusão da empresa em que eu trabalhava com uma grande corporação americana. Eu, a única brasileira daquele escritório inglês, com a oportunidade de participar de uma das maiores fusões da história da internet. Eu não podia vacilar.

Após três meses de treinamento e preparação para a futura joint venture, cada um de nós deveria  preparar uma apresentação aos nossos gerentes de área sobre nosso entendimento íntimo com os novos sistemas. O seminário chamava-se “Intimate Understanding of Fusion”, algo como “Entendimento Íntimo sobre a Fusão” – um tanto quanto intimidador, pra dizer o mínimo. Eu estava no limiar de um ataque de nervos.

Já era tarde da hora naquela quinta, e eu ainda estava no escritório, revisando as minhas anotações para a apresentação no dia seguinte. O telefone toca.

– “Oooooooiiiiiññññe” – muito embora seu nome estivesse na tela do celular, só a manhice do cumprimento já entregava que era a Patrícia.

– “Fala rápido, Patrícia, tô no meio de algo importante”, respondo seca.

– “Aiiiiieennn, eu sei! Grossa! Você só fala nesse merda desta apresentação, quando é?”

 – “Amanhã, e eu estou uma pilha de nervos.”

– “Então eu tenho a solução pros teus problemas. A gente está aqui na casa dos guris (aquela do churrasco cuja porta do banheiro nunca tranca – lembram?), e tá rolando umas pizzas e uns drinks pra ver o final do X-Factor”.

– “Ai Patrícia, não dá, eu nem fui pra casa ainda, eu tenho apresentação amanhã de manhã….” vou respondendo rápido sabendo que vou ter que convencer ela muito melhor que isso…

– “Ta, ta, ta… chega de desculpas. Vem direto do escritório pra cá, hoje é bem tranquilinho, é coisa rápida e depois a gente racha um taxi, eu e o Pablo te deixamos em casa nas badaladas da Cinderela. Palavra de escoteiro!”

– “Patrícia, não quero dar de cara com o guri que lavou as minhas calcinhas!!” – penso que assim ela iria entender meu drama e desistir.

– “Sem problemas, os guris estavam comentando que ele trabalha até tarde hoje, vais ainda poder entrar de mancinho do quarto dele e reaver a tua dignidade.”

– “Acho que essa não revejo nunca mais. Mas ok, ótimo, assim recupero as malditas calcinhas sem ter que dar de cara com ele. Chego aí em 20 minutos se a Central Line não tiver lotada.”

Recolhi minhas anotações, notebook e enfiei tudo dentro da bolsa, e parti em direção a Central Line. Na casa dos guris, a coisa era tudo menos “tranquilinha” – não sei como eu ainda caio na da Patrícia. Chego no início do segundo bloco do “X-Factor”, onde as apostas dividiam a plateia da sala se Simon Cowell gostava ou não do artista – quem errasse encarava um shot de tequila. “Vamos Antônia! Só uma aposta!” Pensei que uma tequila não ia me fazer mal algum, e ainda ia me ajudar a relaxar para amanhã.

No final do quinto bloco do X-Factor, eu já tinha errado tantas opiniões do Sr. Cowell, que já fazia minhas próprias versões das apresentações usando o controle remoto como microfone. Quando achei que já estava bêbada o suficiente, fiz um sinal pra Patrícia e saí de fininho da sala rumo ao quarto do churrasqueiro de olhos verdes naquilo que eu e a Patrícia intitulamos a “Expedição Calcinha”.

Entrei pé por pé no quarto do gato. Suspiros. Aquele lugar tinha boas lembranças, apenar do término vergonhoso. Examinei o armário, a escrivaninha, as gavetas do bidê, nada. Procurei em baixo da cama, nada. Na tulha de roupas sujas (ele disse que tinha lavado, mas vai saber), nada. Vasculhei o quarto todo e nada. Deitei na cama frustrada – onde diachos esse guri guardaria uma calcinha? – pensei afofando o travesseiro. Opa! Ali estava. Limpinha e rosinha como eu lembrava! A minha maldita calcinha limpa embaixo do travesseiro! Safado!

Foram apenas alguns segundos de comemoração. Em seguida pânico. Passos acelerados na escada, a porta abrindo subitamente.

– “Oi linda! Que surpresa boa! Que bom que você achou a calcinha e já está bem à vontade. Eu tava com saudades.

7h00. O meu despertador grita estressado. Saio da cama num pulo, tentando achar sentido naquele quarto não-mais -tão-estranho. Ai meu Deus, eu já vi essa história. Antônia, você não aprende. Merda! Maldita Patrícia! Maldito Simon Cowell! Maldita tequila! Malditos olhos verdes! Tudo outra vez: reviro os moveis recolhendo brincos, pulseiras, blusa, sutiã, calça… calcinha e calcinha. Ah sim, pelo menos desta vez eu havia achado as duas. Coloco a calcinha limpa, e visto as roupas voando. Tinha que estar em Soho em 20 minutos na apresentação para a qual me prepara durante tanto tempo.

“Já vai sair correndo de novo, linda?”

“Ahhh… sim, estou atrasada.” – tento sem sucesso arrumar os cabelos.

– “Pegou tudo desta vez?” – ele pergunta com um sorriso abusado – “deixa a outra calcinha aqui pra você buscar outro dia”, ele sussurra cheio de malícia agarrando minhas coxas.

– “Não, obrigada! Eu tenho máquina de lavar, malandrinho.” – enfio a calcinha suja na bolsa, dou-lhe um beijo estalado e saio correndo.

Soho. Estou 15 minutos atrasada. Todos já estão na sala de reuniões.

-“Bom dia, Antônia. Que bom que pôde se juntar a nós. Que tal ser a primeira, já que chegou atrasada. Vamos começar com sua apresentação sobre “Entendimento Íntimo sobre a Fusão?

“Claro, Andrew.” – Sorrio sem graça para os outros 14 colegas em volta da mesa de reuniões.

Desligo as luzes, puxo da bolsa o meu notebook e minhas anotações e apressada coloco tudo em cima da mesa. Ligo o projetor de power point que ilumina a mesa de reuniões. Em seu centro, nada mais, nada menos, que a minha maldita calcinha suja.

“Ãhhh… vamos iniciar a apresentação de hoje nos perguntando… o que realmente quer dizer ‘íntimo’, meus senhores?


 

Fim da sessão.

Eu queria ser só mulher

Eu queira ser só mulher. Sim, só mulher, assim como homens são só homens.

Ao defender direitos de gêneros, de igualdade no tratamento de homem e mulher, queria ser só mulher. Eu não queria ser feminista. Só mulher tava bom.

Quando tenho TPM, queria ser só mulher lidando com meus hormônios. Não queria ser temperamental, instável ou maluca. Só mulher.

Quando eu quero chegar em um carinha que eu quero conhecer, não queria ser fácil ou atirada. De novo, eu só queria mesmo era ser mulher.

Queria ser só mulher quando sou solteira. Nem encalhada, nem solteirona, nem titia. Mulher.

Na Índia queria ser só mulher, não dalit, nem intocável, nem estuprável, nem mártir. Só mulher.

Na África não queria ter lábios decepados pra manter minha pureza. Queria ser apenas mulher, com todos os lábios que Deus me deu.

Nas ruas de qualquer lugar também queria ser só mulher. Passando por construções, becos ou avenidas. Não queria ser “oh gostosa”, “senta aqui morena” ou “te chupava toda”. Só mulher tava de bom tamanho.

Quando eu declarar gostar de sexo, com palavras ou ações – e eu gosto mesmo – queria ser só mulher. Nem puta, nem safada, nem transarina, ou aquela que não é pra casar. Mulher.

Se não tiver as unhas ou depilação em dia, mulher.

Quando alcançar algum sucesso, nem “aquela que deu pro chefe”, ou “a filha do ‘homi’”. Só mulher tava bom.

Quando enfrentando o dilema de uma gravidez acidental, não queria ser assassina, criminosa, paciente ilegal. Mulher.

No volante, só mulher. E não “tinha que ser mulher”.

Se for curvilínea, nem gorda, nem relaxada: mulher.

Se for sarada, nem fútil, nem bombada: mulher.

Se for magra, nem anoréxica, nem fresca: mulher.

Se for feia, não quero ser puta-feia. Mulher.

Se for bela, não quero ser puta-gata. Mulher.

E se eu achar que está tudo errado, que meu lugar é onde eu bem entender, e se eu resolver não pedir permissão pra ninguém pra ser quem eu sou, ainda assim e independente do que pensem: mulher. Nem chata. Nem “moderninha”. Nem autossuficiente. Nem “mal comida”.

E isso vale pras Madalenas, Cassandras, Carens, Fridas, Joanas, Marias, Amélias, Malalas, Beyonces, Tinas, Anitas e Antônias. Todas elas e cada uma delas.

Porque ser tudo isso aí que as más-línguas dizem sobre nós é muito fácil.

Difícil…  difícil é ser só mulher.


Fim da sessão.

A viralização do byebye

Confesso que fui pega de surpresa pela repercussão do texto                 “É preciso ir embora” publicado na semana passada. Foram quase 450mil acessos e tamanha interação que até mesmo o site precisou ir embora e saiu do ar por algumas horas. Eu fiquei inquieta, para dizer o mínimo.

Como estou aqui mesmo para questionar, me peguei pensando em algumas teorias para o que chamei de viralização do “byebye”.  Alguns gatilhos e análises me ocorreram:

(1) A teoria do barco afundando:

“Isto aqui tá uma merda, vou-me embora!”

Não sejamos inocentes. Indiferentes da crença sociopolítica de cada um, seja você direita, esquerda, em cima, em baixo, puxa e vai – existe um descontentamento geral e um senso de vulnerabilidade nacional muito grande. Sim, somos um país em momento de maremoto, e há quem diga que nosso casco está quebrado. Ok, isto pode motivar uma debandada geral, mas atenção. Que isto não seja o seu principal motivo para pegar as trouxinhas e pular do barco. Lembre-se, a grama do vizinho é sempre mais verde – mas somente até você pisar nela.

Confesso e reconheço que aprendi a amar o Brasil ainda mais quando o enxerguei do lado de lá.  Somos um país grande, heterogêneo e cheio de defeitos.  Ao mesmo tempo cultivamos qualidades que ninguém mais tem. Ninguém! Uma brasilidade linda, inventiva, rica e colorida que só se acha na terra descoberta por Cabral. O abraço amigo e sorriso largo a cada esquina – (sofri muito com abstinência de abraços). Além disso, devemos lembrar que quem navega esse barco (furado ou não) somos nós. Se for mau marinheiro aqui, vai ser também acolá. Então não fique gritando aos sete ventos que você quer cair fora porque não aguenta mais e           “a culpa é dos brasileiros”.  Novidade: Você também é brasileiro.

(2) A ditadura do intercambio:

“Vou fazer intercambio porque todo mundo faz”.

Há quem ainda caia nesta roubada. Intercâmbio ainda é relacionado com status, garantia de hierarquia corporativa e até mesmo tema de sertanejo e funk ostentação. Pois aqui vai um conselho de minha sábia mãezinha, você não é todo mundo! Não bote o pé na porta a não ser que seja um desejo genuinamente seu. Não minimize a experiência sendo um maria/joão-vai-com-as-outras.

Seja autentico na escolha dos termos, do lugar, do tempo e dos objetivos. Evite mudar de país para poder botar no currículo. Mude pra poder botar a mão na consciência daquilo que quer ser do futuro.  Eu escolhi a Inglaterra para virar uma Spice Girl ou alternativamente me casar com o Príncipe Harry (+ um MBA de bônus na experiência). E aí, quem aqui vai ousar questionar os meus motivos? Não interessa se é pra aprender uma nova língua, criar cabras ou entrar para a realeza – os motivos devem ser só seus.

(3) A fuga das galinhas:

“Preciso ir pra longe do meu ex / dos meus pais /da final do campeonato brasileiro”.

A pior e mais amaldiçoada razão para ir embora – querer criar distância física de algo com o que você não sabe/quer lidar. Não fuja de nada e nem de ninguém. Simplesmente porque não há como se esconder da pessoa mais importante nesta decisão: você. Faça do ato de ir embora um novo fim e um novo início, mas não se esconda de outras histórias, suas histórias – são delas que vais tirar o aprendizado para fazer melhor em oportunidades futuras.

E não fuja de você. Você até pode se reinventar, mas a gente não se livra da nossa essência. Você vai tentar se livrar dos maus hábitos, jurar comer melhor, tomar apenas Bourbon & Coke, passar fio-dental todas as noites.  Relaxe na expectativa. Você vai melhorar, vai sim, mas também vai aprender que muito do que você achou que ia mudar lá fora, era mais forte do que você. E desta forma vai passar a se aceitar. Acredite: é somente quando você se aceita, que está finalmente pronto para conseguir mudar. Irônico, não?

(4) Adeus Zona de Conforto:

“Mundão, fui!”

A única teoria que tem a minha campanha, e graças à sanidade mental da grande maioria, aquela com maior incidência. Vá embora porque você ousou sair da sua zona de conforto. E aceite: vai ser desconfortável!

Você vai descobrir mais rápido do que pensa que os desafios são imensos – desde as oportunidades de trabalho oferecidas (que pode envolver até limpar banheiros alheios), ou mesmo dilemas pessoais que você nunca achou que teria que lidar (como uma infestação de ratos na própria casa ou ter que explicar para um farmacêutico – que desconhece inglês ou doenças tropicais – que você está com um bicho geográfico na bunda). As lições são das menos às mais profundas.

O que você leva da experiência é impagável e atemporal, eu prometo. Afinal você vai gozar das vantagens da tal PERSPECTIVA, aquele avião lá em cima. E com isso, involuntariamente vai ter mais coragem de abraçar o mundo e enfrentar seus dilemas. Vai aceitar que muita coisa é passageira. Vai procurar estrutura e equilíbrio dentro do próprio peito, e não nas pessoas ao teu redor. E vai ter – para o resto da vida – a maldição de ter o coração sempre dividido em dois (ou mil). Entre cá e lá. Entre ir embora e ficar. Entre permanecer ou mudar. Vai ser sempre amargo e doce. Chegadas e partidas. Reencontros e despedidas. Afinal, não dá pra ter tudo fora da zona de conforto.

Mas se está convicto que está indo pelos motivos certos, vá embora sem medo. Vai porque você acredita mais na estrada, do que no destino. E também porque deve aprender a ser ótima companhia pra si mesmo. E se isso vale pra uma viagem, não se esqueça de que a verdade é a mesma para a vida:

(1) Você é capitão do próprio barco, tape os furos do casco, pegue no leme. Se vai errar as rotas algumas vezes, tudo bem, só não fique a deriva.

(2) Quem manda na sua vida é você. Lembre-se do que minha mãe falou, você não é todo mundo. Esqueça as ditaduras, faça as próprias regras.

(3) Não fuja de nada, nem de ninguém e muito menos de você. Se aceite para então mudar!

(4) E por fim, dá um “beijo e me liga” pra zona de conforto. Prometo que você nunca mais vai querer voltar lá pra dentro.

Fim da sessão.


 

Nota sobre os comentários enviados no post “É preciso ir embora”: Vi meus olhos brilhando com as interações do texto. Não apenas comigo, mas entre os autores dos comentários. Trocando ideias muito mais do que farpas. Dividindo histórias mais do que lados. Distribuído apoio, coragem e doses de incentivo.

Vocês são mesmo muito lindos!