RE // SOLUÇÕES

Chegamos ao final de mais um ano, e como é de praxe, pegamos nossas calculadoras para fazer a famosa contabilidade existencial. Pensamos no que ganhamos, no que perdemos, quem ganhamos, e quem perdemos. E como não poderia ser diferente, todo ano começa com um senso de urgência de fazer mais e melhor a todo o custo, e a nossa famosa lista de resoluções tem mais cara de “DEVIA” do que “QUERIA”.  Entrar (pagar) uma academia, perder 2 toneladas, parar de fumar, trocar de emprego, comprar uma casa, um carro, um tigre de bengala, etc, etc. Caracoles! Quanta responsabilidade, 2015! Tudo muito bacana e prático no papel. No papel.

Ok, agora jogue o papel fora, e escreva na areia o que você realmente espera, deseja, aspira, sonha com o ano novinho que nasce nas badaladas do dia 31. Já pensou quem você quer por perto? Ou como vai visitar aquela amiga que mora longe? Já listou os assuntos que tem atrasado pra falar com sua mãe? Ou o que quer ensinar pros seus filhos, irmãos, afilhados? É fácil lembrar-se de pagar as contas, mas você já parou pra pensar também nas promessas que quer pagar? Pra você, ou pra um alguém tanto quanto especial?

2014 foi um ano difícil. Teve muito ódio no ar. Eleições, mensalões, alemães. Credo. Foi um ano de se despedir, de gente famosa, gente querida, gente insubstituível. Foi um ano de luta contra a inflação, luta contra os preconceitos, luta pela sobrevivência. Da vida e da fé. Quem não se pegou desacreditado com o amanhã em algum momento neste ano? Eu sei que sim. Mas como todo bom cristão, eu peguei meus pedaços do chão, e me reinventei pra seguir forte até dezembro. Ahhh dezembro! Esse mês mágico de renovações. E aí chegamos na reta final com aquela velha dúvida, mais um ano que termina, mais um ano suado e superado…  será mesmo que são os quilos na balança que pesam tanto? Ou são as outras metas mais importantes que esquecemos?

Depois de calcular e recalcular as metas e objetivos, deitar e me revirar no divã, selecionei algumas resoluções para 2015. Esqueça as resoluções. O que estou propondo aqui são soluções mesmo. Estas aspirações que espero poder dividir com vocês, e com certeza pôr em prática com todos aqueles que fazem os meus anos bem vividos, valerem sempre a pena.

RESOLUÇÕES:

  1. Que 2015 seja um ano com menos whatsapp, e mais “alo?”;
  2. Menos selfies, mais self-confidence.
  3. Menos “a gente se fala” e mais “tô passando aí”.
  4. Menos dietas, e mais equilíbrio.
  5. Menos risquinhos azuis, e mais “pode falar, tô te escutando”;
  6. Menos banhos de água fria, mais banhos de mar agarrados;
  7. Menos iPhones, mais eye-contact;
  8. Menos neura, mais “se joga”;
  9. Menos anos bissextos e mais anos sabáticos;
  10. Menos pista bloqueada, mais pista de dança;
  11. Menos ondas da moda, mais ondas dropadas, mergulhadas;
  12. Menos culpa, mais masturbação.
  13. Menos eletricidade entre aparelhos, e mais eletricidade entre as pessoas;
  14. Menos desculpas, mais desafios;
  15. Menos mimimi, mais beijo na boca;
  16. Menos “não vou, tô com medo”, mais “vou sim, vou com medo mesmo”;
  17. Menos “tô cansada da reunião”, mais “sim, tô louca por um happy hour”;
  18. Menos roupa suja pra lavar, ou menos roupa, ponto (ambiguidade).
  19. Menos fofocas alheias, e mais histórias de autoria própria;
  20. Menos reclamações, mais atitude.
  21. Menos agrotóxicos, mais hortas de janela.
  22. Menos consumo de água, mais banhos acompanhados;
  23. Menos resmungos, mais suspiros;
  24. Menos expressão blasé, mais sorrisos convidativos;
  25. Menos contatos “do Face”, mais contato com o mundo;
  26. Menos “vou deixar pro momento certo”, mais “o momento certo é agora”.
  27. Menos pedras no caminho, mais caminhos sobre as pedras;
  28. Menos distância, mais áudios de madrugada dizendo “mesmo daqui, to pensando em você”.
  29. Menos “ele não me ligou”, mais “então ligo eu!”;
  30. Menos obrigações, mais família.
  31. Menos preocupações, mais praia.
  32. Menos “o que os outros vão pensar”, mais “quem me define sou eu!”
  33. Menos felicidade enlatada, mais felicidade cozinhada, com carinho e ingredientes selecionados.
  34. Menos limites, mais fronteiras cruzadas;
  35. Menos passado e futuro, mais presente.
  36. Menos peso nas costas, muito menos na consciência.
  37. Menos pés no chão, e mais cabeça nas nuvens – sonhar não é feio!
  38. Que em 2015 a gente não pule etapas, mas pule 7 ondas, cheias de desejos genuínos.
  39. Que em 2015 a gente não se preocupe em viver grandes amores, mas em viver momentos que amamos;
  40. Que em 2015 a gente tenha coragem de ser feliz; como nunca foi nos anos anteriores; e ainda assim, menos do que seremos em 2016, 2017, 2018 …

E que assim seja!

Um feliz ano novo para todos!

Espero de todo o coração que vocês possam aproveitar as resoluções que reuni no auge da sabedoria de quem não sabe muito da vida, mas que já sabe que tem o suficiente pra ser cada dia mais feliz.

Fim de ano.


 

Fim da sessão.

Santa Claus. Santo Caos.

Natal sempre foi uma época tensa na minha juventude. Muito provavelmente ela fora cheia de magia na minha infância. Mas logo que comecei a cultivar o que acredito ser um pensamento crítico, eu não esperava mais por Santa Claus. Esperava por Santo Caos. Dentro do saco do Papai Noel, tinha expectativa, espera e deveres. Nada do que eu havia pedido pro Natal.

Lembro que nossa programação era toda dividida, e com certo teor de missão militar. Comprar presentes, vestir-se bem, “Antônia esse vestido tá curto, sua avó vai pirar!”, sair de casa no horário, “Antônia, nós estamos atrasados!”, passar na avó nº 1, sair da casa da avó nº 1 no horário para não chatear a avó nº 2, “Antônia, nós estamos atrasados!”, a avó nº 2 ficava chateada pois ganhou menos tempo da noite de Natal que avó nº 1. O meu avô, que durante muito tempo ficou entre esse plano e outro, era motivo de nos reunirmos, pois todo Natal tinha o peso mórbido da possibilidade de ser “o último Natal”. Recordo de meu avô passar as mãozinhas lisinhas nas minhas e dizer “o que vocês estão fazendo aqui? Vão pra praia! Eu iria se pudesse” – sempre com um sorriso de bom velhinho nos lábios.

Embora quisesse seguir os conselhos do meu avô, sabendo que seriam provavelmente os últimos, eu não tinha como escapar. Havia uma obrigação velada com aqueles encontros. As noites Natalinas eram o ápice da reunião familiar. Imagine uma família italiana com 9/10 tios para cada lado, com seus respectivos cônjuges, filhos, e agregados. Toda aquela energia familiar reunida em volta de uma única árvore de Natal num único encontro anual. Encontro este onde eram discutidas todas as pautas, rancores, frivolidades e lavação de roupa suja. A minha família não era melhor que as outras. Mas também não era a pior, eu sabia. Este caos provavelmente assombrava outros lares. E assombrava um tanto a minha cabeça.

Fato é que as energias desta época sempre foram concentradas, expectativas sempre tão grandes, as formalidades e as obrigações sempre tão complexas, que por um bom tempo, para esta que vos fala, a magia morria junto com o peru. Na véspera. Para mim, o Natal era um obstáculo que eu tinha que vencer para poder chegar à praia e fazer o que realmente gostava. Planejar um Ano Novinho com os pés na areia. Viver amores de verão. Curtir as pessoas com quem eu queria gastar meu tempo livre. Mas antes tinha o Natal. Ah o Natal… O Natal era o caos autorizado. Era “divino”. Mas eu odiava o Natal. E me perguntava se o aniversariante gostava da festa dele, festa que eu, declaradamente, era obrigada a participar.

O tempo passou e minha família também mudou. Certo Natal, a coisa dividiu e dissipou-se de tal maneira que em volta da mesa da ceia, estávamos apenas meu irmão, minha mãe e eu. Aquela cena Natalina também não foi das mais alegres. E eu me perguntava se a gente estava fazendo realmente aquilo que gostaria do Natal. Num súbito desespero de quem não queria colocar mais um Natal na lista dos que eu queria esquecer, convidei os dois para irmos à casa de uns amigos da família. Um grupo queridíssimo de pessoas que compartilhavam as nossas vidas desde muito cedo. “Mas Natal é para se passar em família”, disse minha mãe preocupada com nossa intervenção na ceia alheia. “Eles são uma família. Nós somos família. Nós só vamos juntar duas famílias!”.

 Pegamos nossos champanhes e nos movimentamos pra lá. Sem convite, sem aviso, sem formalidade. Vestidos de amor, carregando carinho, panetone e alegria. Na porta fomos recebidos com mais alegria embebida em uma feliz surpresa. Era um milagre de Natal. Passamos o resto da noite relembrando nossas histórias preferidas, a nossa vida compartilhada. Sem presentes. Apenas nós mesmos – presentes, naquele momento.

A partir daquele Natal, o encontro virou nossa tradição. Reuníamos as nossas famílias que não dividiam genéticas, mas dividiam histórias. Famílias de alma. Família por opção. O Natal neste formato não passou a ser mais organizado. Pelo contrário. As nossas famílias eram gritonas e atrapalhadas. Ocupávamos a cozinha juntos, todos os indivíduos falavam ao mesmo tempo, ninguém se escutava e todo mundo se entendia. Mãos trabalhavam nos quitutes e nos afagos. Nossas roupas vestiam nenhuma pompa, mas a tranquilidade de quem está em casa. Os cheiros preenchiam ambientes, as vozes ocupavam o lar. A comida era bem cuidada, cheia de atenção, cuidado e “sazon” – considerávamos todas as gulas, alergias e habilidades. “Tem que ter o salpicão!”;“E a bruschetta!”; “E aquele filé do ano passado ou o salmão do Natal reatrasado. Não! Vamos fazer os dois!”; “Não bota alho que eu tenho um encontro depois”; “Nem cebola, eu tenho alergia!”; “Traz mais uma mesa que não coube tudo.”; “Ih, quem esqueceu o porquinho no forninho!?”

O meu Natal tinha que ter barulho. Congestionamento de pessoas e de ideias. Tinha que acabar com degustação de todos os champanhes e as águas aromatizadas com laranja e alecrim. Tinha que ter cafezinho com chocolate. O Natal tinha que ter um vaso com as bico-de-papagaio da minha mãe. Não havia Natal sem as folhagens da minha mãe. Natal tinha que ter os enfeites de pinheirinho que passamos a colecionar juntos, embaixo de um mesmo teto durante os meses de dezembro. Eu passei a amar dezembro. Passei a plantar manjericão pra ter folhas frescas em dezembro. Passei a plantar expectativa, espera e deveres prazerosos. Tudo de volta no saco do Papai Noel, aquele que antes eu desprezava. E deste jeito, caótico e não planejado, eu fiz as pazes com o Natal.

Com o passar do tempo, essa família também mudou. Aumentou e multiplicou. O formato do Natal também se modificou. Ganhou mais crianças, e com elas, o fortalecimento da esperança. A saudade de um tempo mais lúdico. A renovação dos nossos votos de amor, e de compromisso com nossas novas gerações e novas tradições. Mas sempre cultivando a nossa história.

Penso hoje que Santa Claus nunca mais vai precisar me trazer coisa alguma, pois não desejo nenhum presente além do Santo Caos criado por quem eu amo. Penso hoje que quero pra sempre os meus Natais com as pessoas que eu escolhi, com os costumes que criamos, com as alianças que fortalecemos. Quero no Natal as luzes dos olhos das pessoas que me fazem bem, os abraços apertados e cheios de sentimento. Quero Natal com quem faz questão de lembrar das minhas histórias. E lembrar ano após ano de como foi bom passar o Natal comigo. Sei que desta forma a minha alma nunca vai envelhecer. E o Natal nunca mais será igual. E a cada ano, sempre- sempre melhor.

Feliz Santa Claus. Feliz Santo Caos a todos que como eu, são abençoados pela muvuca natalina.

“Traz o porquinho do forninho!”


Fim da sessão.

O pacto

 

Algumas histórias a gente não conta. Fica com medo de verbaliza-las porque uma vez materializadas, algo pode acontecer. A nossa história eu escondi debaixo de sete chaves. Tinha medo que se a soltasse ao vento ela iria embora pra nunca mais voltar.  Tinha medo que nos ouvidos dos outros ela se distorcesse. Tinha medo que se a contasse, ela seria apenas mais uma história. A nossa história eu queria que fosse só nossa, eu não queria dividir com mais ninguém. Até que um dia, tudo mudou.

Eu nem lembro direito como ela começou. Acho que foi quando chorava as pitangas de um desamor que havia despedaçado o meu coração, quando você, pela primeira vez fincou o pé de forma dura contra mim: “Pare de chorar por mané, Preta! Uma mina preza como tu choramingando por um cara que nunca te mereceu. Tu merece coisa melhor!”

Na época quis ficar com raiva de você pela verdade dura e crua. Mas como podia? Você era meu amigo há mais tempo do que eu lembrava, sempre por perto, sempre atencioso. E claro – confesso que me ganhava na discussão cada vez que me chamava de Preta, Pretinha, Morena, ou qualquer referencia a minha longa crina castanha. “Tu merece melhor!” – você repetia. Mas como você podia saber?

Pouco tempo depois, nos apertávamos no bar de sempre, tomando cerveja com outros amigos, ao som de um samba rock que você insistia não saber dançar. Logo você – cheio de malandragem e de uma malemolência ao andar que deixava qualquer amiga minha de perna bamba. Tá, eu também ficava um pouquinho de perna bamba, mas você era meu amigo, e eu não podia olhar você assim. Podia? Não, não podia. Então teimava em te apresentar para todas as garotas que eu conhecia, mesmo sabendo que nenhuma delas merecia mais do que um sorriso teu.

Nesta noite discutíamos tua lerdeza na paquera. Eu te acusava de tímido. Tu te proclamavas “seletivo”.  A discussão seguiu até o meu  desafio deveras infantil. Se a “seleção” era o empecilho, te desafiei a escolher e beijar a menina mais bonita do bar. Aquela que você desejasse mais. Qualquer menina que, na tua concepção, era digna da tua atenção.

Você passou os braços por debaixo dos meus bem devagar. Com um braço segurou a minha cintura, e com o outro orientou meu corpo pra perto do teu, segurando a minha nuca. Mirou profundamente meus olhos com tuas bolitas negras  (não como quem pede licença, mas como quem avisa “isso vai acontecer”), suspirou profundamente e me beijou a boca como eu nunca fui beijada. Eu perdi o fôlego. Perdi o chão embaixo dos meus pés. Perdi todos os sentidos na malícia da tua cor. Eu só queria que aquele momento durasse pra sempre.

Como que nesta vida, a palidez da minha existência tinha chamado a atenção da tua melanina?

Você então me contou que me mirou muito antes de eu perceber. “Desde o primeiro dia que te vi, naquele posto de gasolina do centro, de shortinhos e blusinha laranja, a caminho de Tramandaí” – isso tinha acontecido muitos anos antes da gente se conhecer, e virar amigos. “Você nunca notou porque estava ocupada namorando manés”. Ri sem graça tentando assimilar – “Então você não era só meu amigo? ” perguntei ainda tímida – “nunca quis só isso, Preta”, e entrelaçou os dedos nos meus cabelos, e com a boca calou todas as dúvidas dos meus lábios.

Não demorou muito pra eu perceber a diferença de gostar de você. A mudança do sentimento de amigo para um algo mais foi natural, gradual e deliciosa. Tu me deixavas livre e eu sempre voltava. Tu enrolavas os pés nos meus, e minha vida toda desenrolava em volta. Você trouxe a simplicidade para a minha complexidade. Reduziu minha ansiedade, calibrou minhas ambições. Do teu lado eu só queria sombra e água fresca, e qualquer outra necessidade parecia supérflua quando éramos nós dois. O teu “Calma, Morena” tinha o poder do mais forte ansiolítico e o frescor de um banho de água salgada.

E quando me acalmava, eu me perdia decorando as linhas das tuas tatuagens, como uma boa aluna estudando sua lição preferida. Aquele dragão. Ah, aquele dragão da tua cintura, que ficava com a metade escondida pra dentro da tua bermuda. Eu quis ser dragão desde pequenininha. Eu tinha pouquíssimo ou nenhum controle quando aquele dragão me encarava. Eu queria admitir que eu estava perdendo o controle de mim. Mas eu tinha medo de te dizer.

Com você não era diferente. Você dizia que eu te deixava nervoso, com uma queimação no estômago e com as mãos suando. Brincava que eu era algo como uma febre. Que a única solução era deixar queimar. Você que sempre foi bicho solto, surpreendentemente estava sempre por perto. Eu queria te dizer que eu sabia que te tirava do centro. Mas eu tinha medo de te dizer.

Quando a gente brigava, e por algum motivo eu tinha te magoado, amarrava flores no teu portão. Quando a gente brigava e por algum motivo você tinha me irritado, você se enfiava no meu pescoço, e beliscava meus braços dizendo “ai Pretinhaaaaa…” e eu logo caia na gargalhada. Não tinha como ficar braba com você. Eu quis muitas vezes. Principalmente quando te perguntava o que estava acontecendo entre a gente, procurando entender ou rotular aquilo que crescia dentro do meu peito. Você sorria um sorriso displicente e me dizia “sou teu pretinho e tu é minha preta”. Aquela indefinição me matava. Agora  quem queria mais era eu. Mas eu tinha medo de te dizer.

O problema é que, diferentemente de outros amores, você era bom demais para eu perder. E o medo que isso acontecesse me sufocava, me enlouquecia. Com raiva desta insegurança, eu te magoei. E lá, naquele momento, eu não sabia mais como voltar pro teu abraço. As flores no portão secaram. As minhas lágrimas não. Eu estava indo embora do país e não conseguia pedir desculpas e nem me despedir.

Você não discutia, não me xingava, apenas me oferecia o pior tratamento possível – o teu silencio. Dias antes de embarcar você me escreveu perguntando se eu já tinha ido embora. Respondi que ainda estava perto, mas de novo – morrendo de medo que você não quisesse me ver . Para a minha surpresa, você declarou em tom dolorido que precisava me ver. Quando voltei pro teu abraço, quis me explicar. Pedir desculpas. Você secou o meu rosto, me abraçou bem forte  e disse que nada daquilo importava.  Você só queria poder enrolar teus pés nos meus uma última vez antes de eu ir embora. Eu queria TANTO te dizer que eu te amava. Mas eu tinha medo de te dizer.

Quando voltei ao Brasil, anos depois, te encontrei no mesmo bar onde tudo começou. Eu quis resistir, com medo de cair de novo na tentação da tua malemolência. Eu não tive a chance! A tua cor era tudo que meus olhos cansados queriam enxergar. Teu cheiro tudo que eu queria sentir. E tua boca, tudo o que a minha queria de novo provar. Depois de tantos encontros, desencontros e reencontros eu já não tinha mais medo do que queria falar. Disse que era contigo que eu queria ficar. Sem pausas. Sem meias palavras e indefinições.

Você então me propôs um pacto.

Disse que no auge da minha sabedoria balzaquiana, eu sabia que a vida ainda ia jogar umas bolas curvas. E que se depois de toda a confusão passasse, se depois de tudo que eu vivesse e não encontrasse alguém melhor do que você, a gente se casaria. “Tu tá achando que eu vou casar com 40 anos??!” – vomitei raivosa. “Preta, se tu tiveres 40 anos, e ninguém for melhor que eu pra estar no teu lado, eu quero ficar velhinho contigo – numa casa na praia. Deixa toda essa pá de gente casar antes. Quando eles tiverem se separando, a gente vai estar na melhor fase”. Eu enfureci e te joguei tudo que alcancei no teu apartamento, e disse que não ia esperar PORRA nenhuma. Você segurou as minhas mãos, me olhou bem sério (como dificilmente fazia) com aquelas bolitas negras e disse “Eu prometo que nunca vou te enganar, Preta. Eu prometo que se até lá tu me escolher pra ser só teu, eu vou ser. Mas eu não quero ficar contigo agora, casar com 30, te magoar e me divorciar com 40. Eu quero ficar velhinho contigo. Te fazer sorrir.”

E na profundidade do teu olhar, eu entendi que o pacto era sincero.  Você tinha que voar solto. E eu sabia que toda a tua intensidade não podia ser contida. Não agora. Assim como eu sabia que você queria me poupar dos teus exageros, vícios, incertezas e confusões. Muito provavelmente você também soubesse que não conteria os meus. Mas eu queria me jogar no teu mar, mesmo de ressaca. Ainda que perigando me afogar ou ser derrubada por uma onda mais forte. Você me prometeu mares calmos e tranquilos, para refrescar minha pele, beijar meu corpo e aliviar minha cabeça. Numa fase de maré boa, daquelas abençoadas por Iemanjá, que rende frutos.

O pacto era justo, e eu não imaginava melhor plano do que passar os melhores anos da minha vida do lado do meu melhor amigo, do meu amor mais sincero que já tive – aquele que eu cuidava com mais zelo e precaução. Então eu apertei teu minguinho com o meu, e selei o pacto com um beijo misturado a um sorriso. Eu ia ficar velhinha contigo. E nada mais importava. Eu não tinha mais medo. Eu abri mão do medo pra pegar na tua.

Mas foi quando abri mão do medo de ter perder, que o medo me encontrou.

Era um domingo quente de verão. O telefone tocou com a terrível notícia de que você tinha partido. Acelerou rumo ao infinito, para um lugar onde eu não podia entrar. Eu perdi o fôlego. Perdi o chão embaixo dos meus pés. Perdi todos os sentidos na ausência da tua cor.

Minha cabeça rodopiou mil vezes pensando em todas as vezes que tive medo de te dizer algo, com medo de te perder. Eu gritei, eu espraguejei os céus. Eu tinha te perdido sem ter dito tanta coisa. E agora não havia mais tempo para nada. Chorava um pacto que nunca haveria de se cumprir.  Chorava pela falta da alegria que tu trazias a vida de quem tocavas. Chorava pela vida ceifada. Chorava – ainda que de forma egoísta – nunca mais poder deitar no teu peito, sentir o teu abraço e beijar teus lábios. Chorava porque você não iria nunca mais me fazer sorrir.

Jogada no chão do quarto, abraçando as antigas fotos, entendi por fim que tu foste do jeito como tu queria ser. Algo como um cometa na minha vida. Rápido, raro e tão cheio de luz. E foi embora me deixando pra sempre marcada com o teu senso de urgência, teu gosto pela vida, teu compromisso em ser sincero consigo e com os outros,  e de fazer o que se tem vontade. Eu prometi nunca mais ter medo de falar de amor.

Dias depois saí de casa pela primeira vez para encarar a vida lá fora, após ter vestido o que achei que era a melhor cara que encontrei. Parei para comprar uma água, no mesmo posto de gasolina que você me viu pela primeira vez. No meu primeiro contato visual com o mundo, um senhor de meia idade me pára, segurando-me pelos ombros:

 – “Por que tão triste, menina linda?”

Dei a versão resumida achando que ele ia desistir de me animar. Au contraire. Se parou na minha frente a falar como a vida era linda, de como eu era linda e de como tinha gente lá em cima querendo me ver sorrir.

E eu sorri. Pela 1ª vez em dias. Não de alegria, mas de gratidão, pois sei que Deus não desbanca anjos para a Terra à toa. E porque sei que tem gente lá em cima que sempre quis me ver sorrir. E essa parte do pacto eu sempre vou honrar.


Fim da sessão.


Nota sobre o disclamer: Termino essa sessão reforçando o que comecei dizendo lá no início, de que algumas histórias a gente não conta. Talvez porque são essas que a gente mais zela. Talvez porque são essas as histórias que a gente nunca gostaria de ver o fim.

Hoje precisei contar a nossa história, sendo ela a única deste divã que eu declaro como uma história verdadeira. Isso por sentir dentro do meu coração, que talvez tenha sido a única que realmente foi.


 

O tombo

Eu sempre tive e admirei gatos por sua capacidade inquestionável de dar conta do improvável. Como enfrentar uma queda não planejada e cair sob suas quatro patas. Lembro-me de ser pequena e desafiá-los a situações adversas só para vê-los superá-las. Caindo sempre sob quatro patas.

Na minha vida, por algum tempo, também fui assim. Me desafiava constantemente a superar situações adversas. Muitas vezes fiz como fazia com meus gatos, e coloquei-me em situações adversas de propósito, apenas para testar minha capacidade de resolução. Obvio que com o tempo isso se tornou arriscado e cansativo, e com a chegada a maturidade (isso aconteceu?!) parei de procurar conflitos, e me contentei em rebater os desafios da vida. Sempre buscando cair sob as minhas quatro patas.

Isso até aquele casamento. Aquele casamento me marcou.

Era uma celebração linda. Na beira de um rio ao pôr do sol, sob a proteção de um majestoso carvalho e doces palavras de uma juíza de paz. Celebrávamos o amor da Franchesca e do Julio, com lágrimas de alegria e também de despedida, pois os dois iriam morar em um paraíso distante de nós, dias depois do casamento. Abençoamos os noivos com areias coloridas e desejos de diversas vibrações positivas. Tudo estava naquele vaso multicor: cumplicidade, compaixão, saúde, alegria, paz e amor. Muito amor.

O casamento seguiu deslumbrante, e as borbulhas rolavam cedo em nossas taças. Na minha mesa, um buque com as minhas flores preferidas: Melina, Tamara, Taíssa, Uana e a Mana, a irmã mais nova da Uana. Entre canapés e quitutes, mais borbulhas. Confesso que logo cedo fiquei preocupada com a rapidez do álcool, e lentidão da comida. Pedi ao garçom que regasse minhas flores com água, assim todas curtiriam a festa até o final. Antes que ele terminasse de servir a água, Uana já se mostrava um pouco mais desinibida, e afoita com os bocejos da irmã e da Taíssa. Disse às duas que não seriam convidadas para o casamento dela, dado o cansaço evidente das duas em um dia tão importante. Não deu nem tempo de intervir. Irmã e Taíssa pegaram suas bolsas, e foram embora.

Chilique a parte a festa rola solta depois da janta. Os noivos dançam primorosamente sua primeira dança, abrindo a pista. A turma do cigarro decide tomar um ar lá fora. Junto com a Melina, Uana e eu, Fabiano, e Guilherme nos acompanham para uma fumacinha. Embaixo do carvalho. Num espaço mais recluso do pátio. Do lado da cama elástica. Cama elástica?!! Como, diabos, isso veio parar aqui? Fabiano e Uana que já enrolavam a língua do champanhe, comentam que a presença da cama elástica naquele casamento era no mínimo uma situação adversa. E era. E aí, reacendeu em mim, aquele espírito de gato, de desafio, de pular e cair sob as quatro patas.

Tirei os sapatos e com vestido de cetim e coque banana na cabeça, subi na cama elástica. Melina, Uana, Fabiano e Guilherme riam sem parar da minha habilidade em pular e ao mesmo tempo tapar as calcinhas embaixo do vestido. Uana decide juntar-se a brincadeira. As duas pulam em círculos, afastadas o suficiente para evitar o contrachoque da cama elástica. Num dado momento, Uana pula perigosamente perto de mim. A cama elástica me arremessa.

Cetim. Coque banana. Risadas. Tudo direto ao chão, sob a dureza de um paralelepípedo. Eu… não caí sob as quatro patas. Eu caí sob o coque banana. E desfaleci.

Minutos depois me lembro de ser levantada pelo Fabiano e pelo Guilherme. Tento sorrir e dizer que está tudo bem. Meu pescoço esquenta. Sinto algo escorrer. Toco a minha nuca de leve. Olho as mãos para vê-las vermelhas. Vermelho espesso. Pesado. Dolorido. Vermelho que contrastava com o véu da noiva. Vermelho medo. Vermelho incerteza.

Uana desce rapidamente da cama com mil desculpas. Só consigo dizer que não foi culpa dela, antes de perder a habilidade de dizer coisa alguma. Melina, como boa produtora que é (lembram da Melina?!), aciona discretamente a cerimonialista, que entra em pânico e por isso leva uma mijada da Melina . Ela então orienta a cerimonialista a não falar nada pra noiva, e providenciar um transporte para o hospital. “Rápido!” Na beira da cama elástica, e possivelmente de outro ataque de pânico, Fabiano e Guilherme seguravam a minha cabeça com guardanapos de linho que tinham as iniciais dos noivos. Linho branco, agora também vermelho. Vermelho medo. Vermelho incerteza.

Minutos depois o motorista acelera sentido hospital. No carro comigo, Uana e Melina tentam me acalmar, muito embora já nem estivesse mais ali. Eu já estava num outro plano, enquanto as duas beliscavam as minhas pernas para ver se eu ainda podia senti-las. Uana chorava. De culpa. De medo. De raiva, raiva pelo champanhe  impedi-la de poder ajudar mais. Não havia o que pudesse ser feito. Ela não podia me ajudar.

No hospital, um pandemônio. Escutei algo distante sobre meu plano de saúde, e a Melina argumentando verazmente. Uana gritava ao meu lado “eu vou juntoxx com aaa Antôniaaa, eu não vous sair dãquii”, com a voz meio embaralhada. Melina então pegou na minha mão e me olhou bem nos olhos: “Antônia, vai ficar tudo bem tá?” – “Liga pro meu pai”, peço convicta – “Liga agora”. Encho os olhos de lágrimas pela primeira vez desde o tombo para pedir pelo meu pai. Eu não queria incomodar minha mãe – mãe também de outros dois pequenos. Mas eu queria ter alguém da minha família, caso precisasse me despedir.

Depois de entrar na emergência, tudo foi um borrão. Lembro-me de nunca ter sentido tanto medo quando fui submetida a uma tomografia.  Dentro da máquina, recordo-me que pensava que não queria morrer. Não era a minha hora! Que queria ver meus irmãos de novo. Beijar minha mãe. Ver meu pai sorrir. Tomar banho de mar gelado. Queria chorar de rir com as minha amigas. Tomar chimarrão. Beijar na boca. Queria viajar. Ver as pirâmides.  Comer escargot. Queria dizer pra Uana não brigar mais com a irmã dela. Queria pedir desculpas. Queria agradecer. Mas não podia. Não podia fazer nada. Estava presa dentro de um túnel escuro, presa às possibilidades. Presa àquele computador grotescamente enorme, que ia dizer se havia algo errado com a minha cabeça – algo além do obvio, que me fez subir numa cama elástica em um casamento.

Lembro-me de enfermeiras me xingando, que estava bêbada, ocupando lugares de gente “de bem”. Eu era gente de bem. Eu não estava bêbada – bem, eu já estivera muito pior, isso é fato. Mas não era isso que tinha acontecido. Recordo da dor da sutura. Lembro-me de implorar que me limpassem. Tirassem aquele vermelho todo de mim. Explicava sem parar ao corpo médico que meu pai não podia me ver naquele estado. Não naquele vermelho medo. Vermelho incerteza. Lembro-me de apagar novamente, sem saber o que seria de mim.  Eu era um gato em plena queda.

gatos 1

Acordei na cadeira de rodas com meu pai segurando a minha mão. Face transtornada. Mistura de pânico e raiva profunda. Vermelho raiva, pensei.  Empurrou minha cadeira de rodas pela recepção. “Onde estão a Melina e a Uana?” – perguntei. “Foram embora quando cheguei. Pedi que fossem. Tua amiga Uana queria entrar a todo custo. A Melina levou-a antes que a colocasse a força na glicose. Você também merecia uma glicose. A enfermeira disse que vocês estavam bêbadas.” Não expliquei. Me resumi em ficar com vergonha. Vermelho vergonha. Levantei-me da cadeira de rodas, sob as minhas duas patas. Suspirei de alívio pela primeira vez, incrédula da minha sorte.

Em casa, dormi um sono profundo sob a vigilância do meu irmão. Quando acordei, meu pai não estava mais lá – acho que não queria me ver. Encontrei um bilhete seu, com recomendações de remédios para a dor do corte de cinco pontos, e juízo para o que restava dentro da cabeça. Chorei. Chorei de vergonha por não ter caído sob as quatro patas. Chorei por ter perdido a festa tão linda do casal. Chorei pela possibilidade de tê-la estragado.  Chorei de dor de cabeça.

No celular, mensagens de carinho e preocupação. Algumas orientações sobre voltar ao hospital e apresentar minha carteirinha do plano de saúde – a Melina havia engenhosamente convencido à equipe a não me cobrar o valor de atendimento particular, sob a promessa do meu retorno para acerto. Da Uana também tive notícias. Seguia preocupada. E de ressaca, claro.

Quando peguei minha liberação do hospital, uma informação chama a minha atenção. Dentre inúmeras informações pessoais, ao lado do meu nome, na lacuna que dizia “RESPONSÁVEL”, estava escrito “Melina Dorneles”.  Ri por uns segundos pensando que não esperava ver naquele prontuário o nome da Uana.

Guardei o prontuário comigo. Como passei a carregar os cinco pontos que caíram da minha cabeça, junto a carteirinha do meu plano de saúde, que passei a carregar comigo na carteira desde então. Não que eu pretenda pular de uma cama elástica de novo. Claro. Guardei também uma cicatriz. Uma na cabeça, e outra na alma.

Naquele domingo pensei muito em como a vida era frágil. Que em um minuto se está no ar, e logo no outro podemos estar no chão. Que em um minuto as areias de benção podem ser coloridas, e que um pulo em falso podia tornar tudo vermelho.  Acima de tudo, pensei na importância da palavra “RESPONSÁVEL”. Da sorte que tive em ter gente responsável por mim, quando eu não fui. Para segurar o que eu tinha dentro da cabeça, como o Fabiano e o Guilherme. Para garantir meu bem estar, como a Melina. Ou ainda garantir a companhia, mesmo que fosse dormindo na recepção, como a Uana. Pensei como eu era sortuda de ter por perto, gente que me ama – seja quando estivesse em cima, ou embaixo da cama elástica da vida.

O telefone então toca com o número da Franchesca no visor, atendo envergonhada, esperando um xingão da noiva:

– “Samba Lelê tá doente, Tá com a cabeça quebrada. Samba Lelê precisava, de umas dezoito palmadas!”

– Oi, Fran. Hmm… Desculpa.

– Que tombo hein?  Samba Lelê tá bem?

– Não. Mas com vocês por perto, a cabeça sempre há de curar.

– “Samba, samba, Samba ô Lelê. Pisa na barra da saia ô Lalá.”

– Teu casamento me marcou, Fran. 5 pontos, pra ser mais exata.

– HAHAHAHAHA.


Hoje em dia, por vezes a cicatriz ainda dói. Penso que serve como um eventual lembrete. Um capacete que carrego comigo. Serve para me lembrar que embora eu seja uma gata, nem sempre eu vou cair sob as quatro patas. Mas que eu preciso sempre me levantar.

Quando preocupo-me com algo besta ou trivial, a cicatriz coça. Lembrando-me de que eu estou viva. Com a cabeça no lugar, ainda que Samba Lelê.

 


Fim da sessão.