As curvas do meu corpo

Quanto eu tinha uns 5 anos, eu era uma doce bonequinha que chamava atenção. Lembro-me das pessoas dando parabéns para a minha mãe por ela ter feito uma menina linda . A minha mãe então sorria orgulhosa. Lembro também que com o passar do tempo, aquilo foi tomando conta de mim, então quando os adultos me perguntavam “você sabia que você é linda?!” eu respondia, “Sim! Todo mundo me diz isso.” Então o sorriso da minha mãe passava a ser amarelo, e não mais de orgulho. “Você não pode dizer pros outros que você sabe que é linda. É feio ser exibida.” ela me explicou. Recordo que na época eu fiquei muito confusa. Os outros podiam me achar bonita. Eu não. Estranho né?

Fato é que cresci aprendendo a me validar através dos outros. Aliás, a sociedade caminhou meio torta naquilo que diz respeito à autoafirmação. O mundo é dos bonitos. Mas não dos convencidos, viu?!  A parcela feminina desta sociedade então, carregou a cruz de ser bonita e modesta até os tempos atuais – presente esse nosso em que dizem que o padrão de beleza tornou-se mais democrático.

Será mesmo?

Tempo atrás a Massafera ganhou enorme atenção da mídia porque estava com a “depilação vencida” (sendo “vencida” apenas a discussão vazia sobre as axilas da moça). A Meghan Trainor ganhou paradas do mundo todo por liberar as “corpo de violão” de suas amarras – afinal is All about that bass, that bass – no treble.  O famoso calendário da Pirelli em 2015 virou polêmica porque colocou em seu cast uma “plus size”. No mesmo ano a Victoria Secrets lançou uma campanha intitulada “O Corpo Perfeito” estrelada por modelos que pesam menos de 45kg. Criaram a Barbie “normal”, com medidas normais – que eu achei horrível, possivelmente porque brinquei muito tempo com a Barbie magérrima durante a minha infância. Em resumo: um mundo de complexos padrões ora a serem atendidos, ora a serem questionados.

E você acha que isso não afeta você. Mas afeta. E muito.

Não faz muito tempo que tive uma pequena reviravolta dentro de mim. Era a primeira vez que recebia na minha casa um gatinho que já ficava fazia um tempinho, alguém que eu gostava muito e que tinha a habilidade de fazer minhas pernas tremerem. Preparei o filme, o jantar, as luzes, e deixei meu quarto impecável, torcendo que tudo terminasse lá, dada a evolução da nossa intimidade. Mas não. Nada aconteceu. Beijos quentes, mas sem evolução. Amassos gostosos, e só. Parava aí. Minhas roupas intactas, e nenhum movimento malicioso por parte dele de jogá-las ao chão. Eu quis morrer.

Tive certeza que o problema era comigo. Liguei “prazamigas”, e fiz como toda mulher insegura faz. Psicopatiei no assunto até me desgastar. Aquilo era muito cansativo. Fiquei dias imaginando o que em mim não tinha atraído ele.  O meu gatinho não podia simplesmente estar tomando o seu tempo, levando as coisas na elegância, entre outros inúmeros motivos que podiam ter a ver unicamente com ele. Não. Ele era homem, logo deveria querer transar comigo. Eu era mulher, logo, psicopatiava que a culpa era minha.

Evoluí na minha psicose. “Olá, meu nome é Antônia, e eu sofro de psicose!” – “Olá, Antônia”, outras mulheres inseguras respondem em uníssono. Investi num WHEY PROTEIN, troquei o treino da academia, li sobre colágeno, pesquisei sobre o remédio de veneno de cobra que vendem na Polishop, enfim – tudo que estava ao meu alcance para eliminar as minhas “falhas” (e fomentar minha psicose). Afe! Mais alguns encontros e nada. Meu sutiã sempre no mesmo lugar. Merda! Eu estava me sentindo péssima.

No próximo encontro estava disposta a largar de mão. Vesti meu shortinho branco surrado e minha blusinha preferida. Nada apertando as curvas do meu corpo pra dentro. Usei as argolas velhas que mais gosto, base, um pouquinho de rímel e protetor solar sem cor da boca. Bebi cerveja, e eu não me preocupei com a barriga estufada. Suei todo o meu cabelo – que obviamente encrespou – com ele me rodopiando pelo salão ao som de um samba-rock. Agora era um encontro comigo, versão eu mesma.

Horas mais tarde meu shortinho estava no chão. E eu suava por outro motivo. Luz apagada, é claro, também não vamos exagerar.

Manhã do dia seguinte. Sou acordada por inúmeros “bips” do meu whatsapp. Num grupo só de mulheres, cada qual derrama seu dramas em um muro das lamentações. Uma porque perdeu a aula de kangoo e ia ficar gorda. A outra estava na Encol fazendo funcional sob o sol de 40°C, e uma terceira perguntando quem já havia experimentando o tal remédio de veneno de cobra da Polishop. Me dou conta que tenho que ir pra academia. Olho para o lado, e lá estava ele. Curvas perfeitas. Todo despojado e a vontade, como se a cama fosse dele. Noto que também estou pelada.

Visto rapidamente meu hobby de cetim preto, que foi escolhido por emagrecer minha cintura, tapar tudo que eu não gosto, e estrategicamente mostrar as minhas coxas, que, em tese, são os  meus atributos mais fortes. Saio da cama de fininho planejando uma ida ao banheiro para arrumar a minha cara. Antes que pudesse fazer isso, o telefone toca. “Antônia, oi! É a Fernanda. Partiu academia?”. “Oi, Fê. Hoje não vai dar, tô com visita.”“olha, essa bunda não vai diminuir sozinha viu?” brinca maldosamente e desliga. Saco! Será que eu acordo ele?

– “Antônia, você não vai voltar pra cama?!” dizem sussurros vindos do meu quarto. Fui descoberta! “Sim, claro.”

Deito-me ao lado dele. De bruços, pra esconder minha barriga de cerveja da luz da manhã (por que diabos eu havia tomado cerveja!!?). Ele pula em cima de mim, puxa a fita de cetim que amarra o hobby e o retira, descobrindo o meu corpo. Tudo acontecendo na malquista claridade daquela manhã de sábado. Encolho-me toda. Ele então começa devagarinho uma sessão interminável de beijinhos no meu corpo.  Começa pela nuca, desliza pelas linhas dos meus ombros, lado a lado. Desce pelo meio das minhas costas. Mordisca a minha cintura. Vai descendo pelas minhas nádegas, dando uma atenção especial pra uma pequena cicatriz que tenho na bochecha esquerda.  Beija demoradamente as curvas entre a bunda e coxa. Não resisto. Arrepio-me e relaxo. E assim ele vai descendo, centímetro a centímetro…  panturrilhas, tornozelos, dedos dos pés.

Quando ele começa a fazer o caminho inverso, me pego pensando: por que mesmo eu deixo uma pessoa beijar, acariciar e cuidar tão bem das curvas do meu corpo, quando eu mesma não as valorizo? E pensar que eu ia dispensar aquele carinho todo por causa da “minha bunda que não vai diminuir sozinha”.   Enfureço comigo mesma.

A questão ali não era ser exibida ou não. Atender aos padrões ou não. A questão ali era me gostar, ora bolas! E tudo bem, que às vezes a gente precisa levar uma encarada pra ver que mandou bem no look. Tudo bem que vez que outra a gente vai pegar emprestada a admiração do outro. Talvez seja através dos lábios certos que a gente entenda que todas as curvas estão onde deveriam estar. Mas acima de tudo, era preciso convencer a mim mesma daquilo.

Decidi que aquele era o momento.  Sem hobby, sem coberta, sem desculpas. A luz do dia. Me dei conta que somente gostando de vestir a própria pele,  perderia a vergonha de parecer exibida, e me permitiria ser simplesmente feliz sentindo-me linda.

Neste momento sou retirada da minha autoanálise com arrepios produzidos por beijos no meu pescoço. “Sabia que você é linda?”, ele pergunta na minha orelha.

– “Sabia.”

Me viro e beijo a boca que beijava as curvas do meu corpo.


 

Fim da sessão.

Prezado amor platônico

Eu sempre me considerei uma pessoa sortuda no amor. O meu cupido sempre flechou de volta quem havia me flechado.  Por conta disso, eu nunca entendi o conceito de amor platônico. Nunca. Um amor, que segundo a concepção do filósofo Platão, é puro e desprovido de interesse. Focado na virtude do outro, alimentado de uma admiração, sem qualquer correspondência por parte do “objeto” admirado. Fala sério.

Imagine você, então, a minha surpresa, quando me deparei com o amor à primeira vista, combinado ao meu primeiro amor platônico. Eu queria me jogar no mar. No mar dos teus olhos.

Foi assim que tudo começou. Nos teus olhos. Redemoinhos azuis, emoldurados por tuas linhas de expressão. Cada sorriso fazia as cores dos teus redemoinhos me engolirem. Cada sorriso revelava linhas, linhas estas que me emaranhavam, como correntes de uma embarcação sendo tragada para o fundo do mar.

Eu me afoguei em ti no primeiro “Olá”.

Era o meu primeiro dia no emprego novo. Você me fora apontado como tutor. A sua matéria incluía atividades do mercado da pesquisa paga daquela grande corporação, e tudo que envolvesse um amor não correspondido.

Levei uma dúzia de horas pra entender suas explicações relativamente simples. Não tinha medo de parecer idiota quando as métricas que me mostravas. Tinha medo de parecer idiota contemplando os teus primeiros fios de cabelos brancos, logo acima da orelha e alguns que nasciam na nuca. Tinha medo que você pudesse ouvir meu coração bater acelerado, quando chegavas perto pra me passar alguma orientação. Sendo orientação a única coisa que me faltava naquelas horas.

Eu, como toda boba apaixonada que se preze, passei a testar teu sobrenome na minha assinatura. A fechar os olhos quando sentia teu perfume no elevador. Escolhi a “nossa música” em segredo, e a cantarolava baixinho sempre possível, pra ver se música te embalava na minha direção.

Por você, passei abrir mão do final de semana. Lamentava a sexta-feira, odiava o maldito sábado, e o domingo foi julgado muitas vezes demasiadamente preguiçoso.

Aprendi o galês, só para poder te receber toda segunda-feira – meu mais novo dia favorito – e desejar bom dia na sua língua materna. Dizia “Bore Da” (bom dia), “Prynhawn Da” (boa tarde) e “gweld chi yn nes ymlaen” (até logo), querendo mesmo era dizer “Rwyf wrth fy modd i chi”, ou melhor:  dizer “eu te amo” no meu mais belo e polido português. Sim, a tua língua era impronunciável, mas confesso que não era o excesso de consoantes que me impedia de falar. Como em um bom amor platônico, era o medo da tua resposta – na língua que fosse – que me fazia calar.

Pegava-me sonhando acordada, planejando jeitos de dizer que estava apaixonada, e possivelmente louca – quando você me interrompia sem querer, aparecendo de trás do seu monitor, com aquele sorriso, olhos de redemoinho e as linhas… ahhh…  Àquelas linhas de expressão eram o que faziam meu mundo girar. Pequenas correntezas na direção dos meus redemoinhos preferidos.

Eu tentei resistir. Eu juro. Todo dia eu acordava decidida a não te amar. Todo dia eu fracassava. Bastava tu brincar comigo. Oferecer-me um chá. Ou pedir emprestado o camelo de pelúcia que ficava sob a minha mesa… aquele que você apelidou de Bob, e que se referia como se fosse um filho cuja guarda dividíamos – “De segunda a quarta na sua mesa, de quinta a sexta na minha”, você brincava, sem saber que queria dividir contigo muito além do camelo Bob.

Lembro-me de um dia ligar para uma amiga em desespero pedindo ajuda. Ela então, me aconselhou a esperar, pois o tempo cuidaria de tudo. A amiga falhou no conselho, como o tempo falhou em me fazer te esquecer. E eu vivi dia após dia como Platão sugeriu, admirando tuas virtudes, e idealizando o amor que eu nunca tive. Me convenci de que a tua ordem não combinava com o meu caos. E em silencio, eu padeci.

Chegara então o dia da minha despedida, dia em que eu cruzaria um oceano de volta pra casa, e para longe dos redemoinhos dos teus olhos. Talvez fosse essa a única maneira de não morrer afogada neles. Pensei que possivelmente era a oportunidade de te dizer tudo que queria. Planejei durante horas a conversa na minha cabeça, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, foi você quem falou.

Na despedida do escritório, o discurso foi teu. Você então falou sobre minhas meias calças coloridas, donas de todas as cores do arco-íris. Das nossas brigas no trabalho, dos meus exageros, e como eu era “passionate” como toda latina com sangue italiano deve ser. Falou sobre minhas desventuras do final de semana (aqueles que eu tolerava longe de você), e como gostavas de escutar minhas histórias. Falou que eu era um caos bem vindo pra tua ordem. Relembrou das nossas conversas quando trabalhávamos até depois do horário, e dos conselhos que você me dava e que eu nunca seguia. De como a gente era diferente um do outro. E de como ia ser tudo diferente quando eu fosse embora.

Eu por minha vez, despejava mares de lágrimas ao te escutar sem conseguir dizer uma palavra– tão alheia ao desconforto de amar alguém, e não ser correspondida. Enquanto derramavas carinho nas tuas palavras, me convencia de vez de que aquilo realmente não era amor. Não do jeito que eu queria que você me amasse. Não do jeito que eu queria poder te amar.

Na continuação da despedida, em um pub sob as margens do Tamisa, foi longe dos olhos dos outros que encarei os teus pela última vez. Te abracei, e chorei forte novamente, meu peito soluçando doído contra o teu. Você passou a mão nos meus cabelos e disse “não faz assim comigo”, como eu queria ter dito tantas vezes desde a primeira vez que te vi. Não faz assim comigo, prezado amor platônico. Mas já era tarde pra dizer qualquer coisa.

E então, você foi embora. Levando junto os olhos que por meses me afogaram. E depois eu fui embora. Levando comigo tudo que queria te dizer. Levando na mala os beijos que guardei pra ti, os suspiros que nunca mais serão de ninguém, as histórias que sonhei ter vivido contigo.

Um ano  depois recebo notícias suas. Uma bela garota havia ganhado o teu coração, e você estava animado com o casamento marcado. Escrevi de volta dizendo a última coisa que me restava, que te desejava todo amor do mundo (mesmo o amor não sendo o meu).

– “Hapusrwydd!”

Te escrevi “felicidades”, sendo possivelmente a última vez que escrevi em galês.

No escuro do meu quarto abracei o Bob  – aquele camelo de pelúcia que você tanto gostava – e chorei pela última vez o amor que a gente nunca viveu.


Fim da sessão.

Inocente

Era uma pacífica sexta-feira, e por volta das 20h30 eu já gozava do conforto do meu pijama de inverno, me rendia a uma taça de vinho e a ideia de dormir cedo. Domingo era dia dos pais, e eu já tinha me convencido de que aquele deveria ser um final de semana tranquilo.

Inocente. Eu sou mesmo muito inocente.

O telefone toca. Do outro lado da linha a minha BFF Melina fala acelerada sobre uma viagem para o norte do país para acompanhar a gravação do DVD de um grupo de pagode. Queria que eu fosse junto para lhe fazer companhia. A Melina, que sempre foi ligada no 220v, vivia envolvida em eventos fodásticos como lançamento de bandas e shows pelo Brasil. Uma atividade que ela tirava de letra, mas que lhe tomava muito tempo, deixando pouco espaço para os amigos, ou até mesmo um relacionamento. Cedi à saudade que estava da amiga, e depois de alguma relutância, concordo em ir com ela. “OK, Melina, nós vamos!” “Ótimo!”. “Mas pra onde vamos?”  – alguns segundos de silêncio do outro lado… “Manaus, nós vamos pra Manaus.”

A Melina então explica que iria fazer algumas ligações para ajustar minhas passagens, e me orienta a fazer as malas imediatamente, pois antes de embarcarmos, deveríamos passar em outro evento de um artista que ela tinha interesse. Eu, muito obediente, começo a fazer as malas. Ligo pra minha mãe e informo-a de meus planos. “Manaus?! Mas domingo é dia dos pais, Antônia. O que eu digo pro teu pai?”. “Não precisa dizer nada, mãe. Domingo chegarei para o almoço, fique tranquila.”

Na van, a caminho do primeiro evento do final de semana, vou tentando obter mais informações sobre a viagem do dia seguinte. A Melina responde uma coisa ou outra sem muito interesse, evidentemente mais preocupada com o nosso destino. “Você está muito ansiosa por esse evento de hoje. Normalmente você faz isso com um pé nas costas”. Ela fica vermelha e eu fico confusa. “Melina, para onde estamos indo e quem vamos ver?”, ela sorri sem graça – “Taquara”. “Melina, isso fica a 80km do aeroporto! O nosso voo é às 6h00! Quem é esse cara que é digno de tanta comoção?”  “Possivelmente, o futuro pai dos meus filhos” –  desabafa. A Melina então me conta que dentro de sua rotina maluca, havia conhecido alguém especial, e que antes da nossa viagem, gostaria de ver o cara com quem ela estava iniciando o romance. Derreto-me toda com a história. “Motorista, toca pra Taquara que a gente tem pressa”, grito pro bigode no volante.

Por alguns instantes achei que nosso final de semana acabaria mesmo em Taquara. Mas não, às 5h35 o motorista da van freia bruscamente na frente do Aeroporto Salgado Filho e nos acorda com um grito: “Chegamos!! Corram gurias, acho que vai dar tempo!!” Sonolenta, remelenta, bêbada e toda encasacada, me encaminho com pressa para o guichê da companhia aérea e indago a atendente: “Moça, onde fica o check in para o voo das 6h para Manaus?”. Ela me olha com estranhamento e dispara: “Às 6h só tem voo para Belém do Pará!”

Oi?!?!!!

“Melinaaaaaaaaaaa!!!” Grito pra ela, interrompendo o beijo de despedida dos dois pombinhos na porta do saguão. “Pode vir até aqui, pois nós temos um probleminha…”

Passamos os nossos dados e lá estavam: duas passagens em nossos nomes para Belém do Pará. BELÉM DO PARÁ. Eu olho para a Melina, que no meio desta confusão, ainda assim não consegue esconder o sorriso bobo, embriagada de amores com os primeiros beijos do paquera. Eu, embriagada de vodka mesmo, olho novamente pra atendente e me contento: “Se é Belém do Pará que está aí, é pra Belém do Pará que a gente vai”.

Ligo pra minha mãe de novo, e deixo uma mensagem, avisando da mudança do trajeto, e explicando de antemão, que eu era inocente na história. Sempre inocente.

8h de voo depois, um rapaz com uma plaquinha com o nome da Melina nos aguardava. Ele, e claro, um calor de 50°C. Em Agosto. E nós com três camadas de roupas, direto do frio dos pampas. “Moço, nós vamos direto para o hotel?!”, pergunto. “Não! Vocês tem uma programação”. Claro que nós temos… como eu sou inocente.

Com duas blusas de gola, meia calça fio 40 e bota até o joelho, seguimos para encontrar o pessoal da banda e demais convidados em um restaurante da cidade. 3h depois, sem ar condicionado, segurando o sorriso e pesando 2kg a menos de tanto suar, o motorista nos informa: “o próximo destino fica no caminho do hotel, vamos passar lá”. Louvai-vos à Nossa Senhora do Ar Condicionado!

Chegando nas proximidades do hotel o motorista muda de ideia, “Vamos seguir! Vocês têm muito pra ver ainda e pouco tempo”. Es.pe.ta.cu.lar.

O tour incluía o porto da cidade e uma cervejaria fantástica digna de não perder mesmo. Terminado o tour, chegamos finalmente ao hotel. Já sonhava acordada com a minha cama, quando o motorista dá a nossa sentença: “Vocês tem 1h antes de irmos para a gravação do DVD. Vou aguardar na recepção.”

1h depois, fomos para a gravação do DVD. Um show com uma mega produção, dúzias de novos amigos,  vodka brotando do chão, horas e horas dançando muito e rindo litros. As 5h da manhã chegaram num piscar de olhos, e me encontraram dançando até o chão aquela música que conta que “o Pimpolho é um cara bem legal…”. Digníssima hora de ir embora.

 “Motorista, que horas é o nosso voo?” “6h30. Vai dar tempo de pegar as malas e sair correndo”. Claro. De novo. Recolhemos tudo no hotel, e saímos em maratona novamente para o guichê da companhia aérea, vestido curto, maquiagem borrada, embriagadas,  famintas e fechando 30h sem dormir.

 “Agora, já deu!” Penso comigo. “No avião é comer, dormir e chegar em casa.” Inocente. “Olá, meu nome é Antônia e eu sou mesmo muito-muito inocente”. “Olá, Antônia” respondem aeromoças em uníssono.

Minutos antes do serviço de bordo iniciar com o café da manhã, um senhor enfarta dentro do voo. Isso é hora de enfartar, oh desgraçado!! O serviço é suspenso, e fazemos todos um pouso de emergência em Brasília.

 “Moça, e o sanduíche?” pergunto nervosa, enquanto a Melina – que agora se alimentava só de amor – dormia. “Só quando voltarmos ao trajeto”.

Uma hora depois, voltamos aos céus e ao serviço de bordo. “Moça, tem como me deixar dois sanduíches? Eu não jantei.” – sorriso amarelo. Ela, com cara de desprezo, faz a caridade.

Nova parada: Rio de Janeiro. “Moça, por que paramos?”. “Precisamos abastecer devido ao pouso de emergência em Brasília”. Posamos. Decolamos e seguimos adiante. A fome voltou. “Moça, tem mais um daqueles sanduíches?” “Só depois que pararmos em Florianópolis” ela responde. “MAS POR QUE DIABOS VAMOS PARAR EM FLORIANÓPOLIS? – me altero. “Porque a escala deste voo é em Florianópolis”.

 Caceta!

18h da tarde. Olho para a Melina com uma cara de choro, e disparo “Se fizermos escala em Caxias do Sul antes de Porto Alegre, eu fico por lá mesmo”. Ela dá risada.

20h, chegamos ao nosso destino final. O paquera da Melina a esperava no portão para levá-la em casa. Depois desta viagem, ela contabilizou um amor de verdade, um casamento e um filho lindo.

Eu? Eu contabilizei 23h me deslocando, 8.000km percorridos de Norte a Sul do país, 15h em Belém do Pará, 3h de sono, 6 escalas, 3 sanduíches e um almoço de dia dos pais perdido.

Liguei pro meu pai, e contei minha improvável história. Ele riu da minha cara, e disse que eu era tudo,  menos inocente naquele episódio. Mas que me perdoava.

“Mas afinal, qual era o nome da banda?”

“Que banda, pai?”

“A banda, da tal gravação do DVD.”

“Tu não vai rir, né?”

“Eu prometo, Antônia.”

“Jeito Inocente”.

“HAHAHAHHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHHAHAHAH”.

 


 

 

Fim da sessão.

Todo mundo nu

Parem as máquinas! Tá todo mundo nu.

Quem tem acompanhado as notícias no sul do país, percebeu que na pequena província de Porto Alegre, um movimento está acontecendo. Representantes do naturalismo saíram às ruas com o modelito que a cegonha lhes deu.

O fato de alguns cidadãos de bem saírem pelados pelas ruas, gera obviamente, certo espanto. Até aí tudo bem. Acontece que o nu é tão atípico, que ninguém acredita que a vontade brote do puro desejo por liberdade/libertação. Tão logo enxergamos a pele desnuda, nos pegamos questionando a índole, a causa ou mesmo a sanidade mental de quem tira as roupas. Ora bolas, afinal, fomos treinados a nos tapar – mesmo no país do carnaval.

Isso não é de hoje. Com a chegada da cultura judaico-cristã a Roma e com a conversão do Império Romano ao cristianismo, o nu é abolido primeiramente da arte e o pudor se espalha pelo mundo. O negócio chegou a tal ponto que a igreja teve a coragem de mexer na obra prima de Michelangelo “Juízo Final”  da Capela Sistina. Quando Michelangelo entregou sua arte “ousada”, o Vaticano rapidinho chamou um estagiário que cobriu  a “dignidade” da obra com o intuito de não deixar ninguém constrangido (ou excitado). Na última restauração do afresco, restaurou-se também a beleza dos corpos nus, para sorte e deleite dos tempos modernos.

Falando-se de Antônia, a igreja que me desculpe (ou não) – o nu sempre me seduziu. Eu amo ficar pelada. “Oi meu nome é Antônia, e eu amo ficar pelada.” – “Oi, Antônia”, ouço um grupo de naturalistas me apoiarem em uníssono. Eu só comecei a usar sutiã porque me vi obrigada, e quando no meu quarto não durmo de roupa nem por decreto. A pauta ganhou ainda mais força para a dona deste divã, quando voei as tranças por terras mais “liberais” – liberais entre aspas porque estamos falando de lugares com monarquias, alemães ordeiros e as populações mais idosas da Europa.

O meu primeiro ensaio de nudismo foi em Majorca, na Espanha. Achei que ia desmaiar quando tirei tão somente a parte de cima do biquíni. “Joguem a boia! Seios descobertos ao mar!” Só tomei vergonha na cara da minha frescura quando vi, às margens daquelas mesmas águas que eu me banhava, uma senhora de uns 80 anos baixar completamente o maiô para lavar a areia do corpo. “É assim que se faz, gata!”, pensei comigo. Ninguém olhou. Ninguém apontou. Era tudo muito natural. Depois disso me atirei na água pelada sempre que pude: Ios na Grécia, La Pedrera no Uruguay, Jelsa na Croácia, e teve também um incidente numa fonte em Roma, mas esse foi sem querer e é assunto pra outra sessão.

Entretanto, de todas estas experiências,  nenhuma me marcou mais do que a minha primeira tentativa de um banho de sol, completamente pelada e em público.

Estava em Munique, e depois de algumas sugestões resolvi visitar o Englisher Garten que era um must-see da região da Bavária. Passei pelo enorme Residenz, pela Surfer’s Wave (uma onda eterna formada pela queda de um rio para a alegria de lindos surfistas alemães), para então entrar na Nude Beach – um jardim/parque enorme destinado ao nudismo.

Lá, pessoas totalmente nuas espreguiçavam-se ao sol. Eu, neste caso, era um misto de surpresa e vergonha, e ficava me perguntando como eles não queimavam as suas.. ãhn.. partes mais delicadas.

Decidi não ser crítica, e ser corajosa. Escolhi um lugar longe o suficiente das áreas de passeio (onde as pessoas vestidas passavam), e me despi completamente. Atirei a minha canga e num pulo me joguei de bruços. Optei deitar de bruços porque,  confesso, eu não estava pronta psicologicamente para um frontal completo (e também porque meses na estrada não me deram tempo para visitar uma depiladora). Mas estava lá. Firme (nem tanto) e forte!

O sentimento foi estranho, reconheço. Lembro que pensava na minha educação católica, e como esta talvez tivesse feito de mim mais puritana do que eu gostaria de admitir. Mas tudo bem. Fiquei lá tentando ficar confortável, até que algo chama a minha atenção.  Na área de nudismo havia um gordinho caminhando completamente vestido em torno das pessoas nuas. “Maluco”, pensei, já sentindo-me parte da comunidade naturalista. O cara fica a poucos metros de mim. Analiso a situação e vejo que havia inúmeras pessoas em minha volta, ou seja, não havia porque me sentir ameaçada. Continuei trabalhando no meu bronzeado. O cara então passa por mim de novo, e desta vez diz algo em alemão. Eu, por minha vez, agradeço não ser capaz de entender.

5min depois, quando eu estava realmente começando a desfrutar da arte de bronzear minha bunda incrivelmente branca, o companheiro alemão está de volta, e desta vez ele quer fazer contato.  Ele se abaixa e diz alguma coisa em alemão. Levanto a cabeça, tentando entender e ao mesmo tempo desviar do sol que batia nos meus olhos, cegando-me completamente. Quando finalmente venço minha cegueira momentânea, desejo ter os olhos engolidos pela terra. O cara, que antes estava vestido, estava sem calças. Não só isso, abaixo de sua grande barriga,  seu pênis está na altura dos meus olhos, perto o suficiente para ser tocado. Mas isso não era tudo: aquele era, sem sombra de dúvidas, o menor pênis que eu tinha visto na minha vida. Uma tímida-pequena-cabeça, não mais do que alguns cms, olhando para mim. Em seguida, começa o que eu vou lembrar para sempre ter sido a conversa mais estranha que eu já tive:

Pequeno Fritz: “Então, você é americana?” (Eu acho que ele não havia notado minha canga da bandeira do Brasil logo abaixo da minha bunda branca).

Antônia: “Não, brasileira.”

Pequeno Fritz: “Então o que você achou?”

Antônia: “Por favor, diga-me que você está falando sobre o tempo.”

Pequeno Fritz: “Haha. Sim. Você está gostando? “

Antônia: “Eu estava… até agora.”

Pequeno Fritz: “Ok, só parei para dizer ‘oi’. Aproveite Munique! “

Antônia: “Danke”.

Era isso. Fora menos de 1 minuto de bate-papo, mas eu decidi que era o suficiente para a minha primeira experiência de nudez – principalmente envolvendo certas… pequenezas da vida. Coloquei minhas roupas e voltei pra área das pessoas vestidas com algumas grandes lições. Respeitar a nudez alheia, do tamanho que ela for. E aprender vestir-se com a mesma rapidez e facilidade com a que você tira a roupa. Danke, Munchen.


Fim da sessão.

Fotos: Daniel Fama –  Mostra Fotográfica “[Nu] objeto”

A maldita calcinha suja

Era o final de semana que antecedia o início do verão. E se você já passou um inverno chuvoso em Londres, vai entender que a data era motivo para celebração. A noite incluía a pista animada do Mother Bar em Shoreditch, doses intermináveis de Jager Bomb e o meu casal de amigos preferido, o Pablo e a Patrícia. A noite acabou num piscar de olhos e duas músicas do The Killers. Pulamos os três num taxi a caminho da casa do casal, como costumávamos fazer sempre que investíamos em uma late-night-out. O sofá deles era praticamente minha cama nos finais de semana. A estratégia garantia mais gente pra rachar o taxi de sábado e sempre rendia um almoço preguiçoso no domingo.

Acordei com a cara grudada no sofá sentido a pele toda transpirando Jager Bombs. Patrícia falava irritada ao celular com o que imagino era o landlord dela, algo sobre estarem sem água. Pablo me alcança um café e as minhas calças que estavam no chão.

Ela desliga furiosa. “Não temos água! Tem banho pra ninguém!”. Sorrio, e relevo a situação por dois motivos: o primeiro e o mais egoísta deles era porque eu podia ir pra minha casa tomar banho, o segundo era por conhecer a capacidade da Patrícia de ser dramática. “Deixa de ser fresca! O que são umas horinhas sem banho?”, mexo com ela. O Pablo ri, e ela bufa.

Comecei a me organizar pra ir embora, quando o telefone toca novamente. Com sorte era o landlord acabando com o drama deles. Mas não. Patrícia fica muito animada pra ser o landlord ou mesmo a água. Ao desligar, ela informa que fomos todos convidados para um churrasco de alguns amigos que brindavam a chegada do verão. Ela se empolga e agita Pablo e eu para nos arrumarmos. “Mas vamos assim, sem banho?” – pergunto. “O que são umas horinhas sem banho, hein fresca?” ela retruca.

O churrasco era tudo que o verão pedia, e tudo que eu sentia falta do Brasil. Caipirinha em jarra, churrasco feito com espeto, e a churrasqueira adaptada de um carrinho de supermercado. Ahhh os brasileiros, tão inventivos. Horas de risadas, entre jarras e jarras de caipirinha, me peguei conversando longamente com o churrasqueiro, que tinha os braços do tamanho das minhas coxas. Ele, recém-chegado, admirava-se com minhas histórias e experiências de Londres. E eu sempre-chegada num gatinho, admirava-me com os olhos verdes dele.

Na minha vigésima ida ao banheiro, daqueles banheiros de casa compartilhada, cuja tranca está sempre quebrada, fui surpreendida. Enquanto lavava as mãos, sem bater na porta,  alguém entra no banheiro: – “Ei! Tem gent…” e me viro pra dar de cara com os olhos verdes do churrasqueiro. “Eu sei que tem gente”, disse ele. “Se importa se eu usar o banheiro com você aqui?”.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele liga o chuveiro (este COM água). Antes que pudesse sair correndo, ele tira a camisa. E as calças. E a cueca. Escondo-me como uma menina com a testa na porta e as mãos nos olhos. “Você pode olhar se quiser… eu não me importo”, disse ele com um sorriso assanhado debaixo d’água passando a esponja ensaboada pelo corpo…  Penso comigo “Seria essa a minha chance de um banho?”. Nesta hora Patrícia tenta entrar no banheiro, subitamente trocando meus pensamentos sensuais por um ataque de pânico “TEM GENTE PORRA!!!!”, grito histérica. “Antônia, a gente tá indo embora, vamos?”  – “Ela vai ficar!”, ele responde de dentro do banheiro antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. “Nã… péra, eu, na verdad…” tento balbuciar algo enquanto raciocino. Patrícia cai na gargalhada do outro lado da porta, “Ok, Antônia. Já entendi. Me liga amanhã. Pabloooooo, vambora!”.

Quando eu me viro furiosa pra perguntar quem aquele metido achava que era, lá estava ele parado atrás de mim, enrolando-se numa toalha. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, ele joga o seu peitoral pesado contra o meu, me empurra contra a porta e me beija a boca. Queria resistir e fazer um charminho. Mas o calor daquela pele e o cheiro de shampoo eram inebriantes. Eu estava entregue.

7h00. O meu despertador grita estressado. Saio da cama num pulo, tentando achar sentido naquele quarto estranho. Reviro os moveis recolhendo brincos, pulseiras, blusa, sutiã, calça… péra, cadê a minha calcinha? Levanto travesseiros, levanto as cobertas, embaixo delas somente aquele corpo pelado cheio de testosterona, cheio de delícias, e de músculos, e… Não, Antônia! Foco: cadê a minha maldita calcinha! O celular desperta de novo lembrando-me de que eu tinha que estar em Soho em 20 minutos. “Já vai embora, linda?”, sussurra ele se revirando todo sonolento na cama… “Sim, sim.. só estou tentando juntar minhas coisas”. “Conseguiu achar tudo?”  Hmmmm… Encarei os olhos verdes mais uma vez, e sorri sem graça. “Sim, tudo!”. Não consegui reunir forças pra dizer que não achava a calcinha que vergonhosamente usara dois dias seguidos.

No trem, mal me importei com outros passageiros admirados com o meu estado caótico de 2 dias sem banho, e o cheiro de Jager Bomb, caipira e sexo que exalava de mim. Estava escrito “walk of shame” na minha testa e eu nem me importava. Eu só conseguia pensar na maldita calcinha suja que deixara pra trás.

Foram necessários 7 dias inteiros e 8 banhos para que eu tomasse coragem de ligar pro churrasqueiro de olhos verdes e acessar o estrago…

– “Oi, tudo bem? Aqui é a Antônia…”

– “Oi linda! Saiu daqui apressada aquele dia. Nem me deu um beijo…”

– “Ah, pois é, estavas dormindo, e eu com pressa… por falar em pressa… naquele dia eu esqueci no teu quarto a minha… a minha… o meu ANEL. Eu esqueci o meu ANEL. Por acaso você não achou?”

– “Não, linda. Mas achei a sua calcinha. Pode vir buscar a qualquer hora…”

– … (Rio nervosamente do outro lado).

– “Ah, e fica tranquila. Eu lavei ela tá?”

Desligo o telefone imediatamente.


Fim da sessão.